
Ambientalistas, o padrão neolítico e a paz de cemitério
por Emir Sader
Em seu artigo “Belo Monte e o diabo” (publicado no Valor de 31/5/2010), Carlos Lessa compra uma briga indispensável: a favor dessa usina, pelo que significa de energia limpa, contra preconceitos transformados em dogmas.
Lessa inicia sua argumentação dizendo: “O Brasil dispõe de três grandes bacias hidrográficas, cada uma regida por um calendário pluviométrico e regime climático próprio e diferenciado.” Isto permitiu ao Brasil instalar a geração hidráulica como fonte prioritária de eletricidade e desenvolver um sistema integrado de usinas de geração e linhas de transmissão que possibilitou ao Brasil uma energia limpa, renovável e barata.
A privatização durante o governo FHC esquartejou o país, levando a um sistema que combina energia elétrica barata para as atividades eletrointensivas (como a produção de alumínio, cimento, papel e celulose) com energia extremamente cara para uso residencial, iluminação e empresas não eletrointensivas. O reino do mercado promovido na década de 90 sangra o consumidor brasileiro pelo custo de energia elétrica e “subsidia” as exportações de alumínio, aço, celulose de fibra curta, ferro silício, ferro manganês, entre outros. Com isso, nossas cidades ficam subabastecidas na iluminação pública, com graves conseqüências sobre a qualidade da vida urbana.
“A termeletricidade tem custos muito elevados, é altamente poluidora, mas é implantada com relativa rapidez”, afirma Lessa. Essa alternativa foi levada adiante devido à atrofia do investimento público em hidreletricidade e a falta de investimentos privados. Se as emergência devem contar com termelétricas, “é uma estupidez que um país com amplo potencial hidrelétrico não lhe confira prioridade a partir de um planejamento eficiente para instalar novas usinas hidrelétricas”.
A pressa de FHC para em privatizar desmantelou o setor elétrico estatal e implodiu o sistema de planejamento e financiamento do setor energético. O governo FHC contratou consultoria britânica, de um país que não dispõe de significativa hidreletricidade. “O governo Lula herdou uma situação caótica, cujo marco foi o grande apagão do final de FHC”, parte da herança maldita.
Belo Monte faz parte de um projeto de aproveitamento da sub-bacia da Região Amazônica, é a maior de um conjunto de 5 usinas, devendo ser a terceira maior hidrelétrica do planeta. Para isso é necessária “a remoção de cerca de 400 habitantes de uma ilha fluvial e a inundação de toda a área abrangida pela ferradura” (“Entre o escudo cristalino do Planalto Central e a Planície Amazônicas, está o Cânion de Volta Grande, que faz uma curva, quase uma ferradura, com um desnível de 90 metros entre seu início e seu final”.)
Os ambientalistas que se opõem à construção de novas grandes hidrelétricas na Região Amazônica, apontam perdas na atividade pesqueira, (E Lessa pergunta: “na represa não haveria peixe?”), perda na qualidade da água; inundação de floresta remanescente e de propriedades rurais e emissão de C02 e metano. “Cabe perguntar aos ambientalistas por que não avaliam a emissão alternativa de dióxido de carbono a partir de termeletricidade a ser alternativamente implantada. Os ambientalistas deploram os custos por evaporação da lâmina de água da represa (ao que eu saiba, toda água que evapora retorna sob a forma de chuva). Perdas por atividade turística (não há turismo para um grande reservatório?)” Acrescenta-se a isso o argumento da perda de biodiversidade, que até agora não foi avaliada.
Lessa argumenta que é inquestionável que Belo Monte vai gerar progresso para a sub bacia do Xingu e criará empregos durante e após a construção. “Porém o ambientalismo considera que o aumento populacional ocasionado pela presença da força operária e da mão de obra especializada durante a construção `provocará variações nos estilo de vida, hábitos e culturas´. É óbvia a preferência da população local pelos estilos de vida, hábitos e culturas de operários e profissionais com salários dignos, carteira assinada e consumidores de bens e serviços civilizados.”
“Para o ambientalista radical, a intervenção antrópica é sempre condenável; é contrário ao desenvolvimento social. Gosta do padrão neolítico e admira a 'paz de cemitério'”.
Lessa chama a atenção sobre a incongruência do ambientalismo brasileiro ao ser contra a hidrelétrica na Bacia Amazônica e, ao mesmo tempo, silenciar sobre as exportações crescentes de carne vermelha e soja, que impelem o capim e a lavoura de grãos destruindo as florestas e sua biodiversidade. Silenciam também sobre a expansão da termeletricidade, enquanto não se mobilizam contra a opção do Brasil exportar eletricidade.
Com essa oposição, conseguiram “mutilar o projeto de Belo Monte”, que será uma usina a fio d´água, que operará de forma reduzida durante os meses sem chuva no Brasil central. Foi reduzida em 26 metros a barragem, que terá um reservatório 70% inferior ao possível. O Brasil abriu mão de 4 mil quilômetros de hidrovias navegáveis, quando o transporte aquaviário é o de mais baixo custo logístico para o Brasil, mas o ambientalismo defende hidrovias reguladas por grandes aproveitamentos hidreléticos e navegáveis a partir de esclusas.
Conclui Lessa sobre “o silêncio da versão domesticada do ambientalismo que se diz favorável ao desenvolvimento renovável “. Não há nada mais renovável do que a hidreletricidade. ”O governo Lula merece parabéns por, finalmente, tocar Belo Monte.” Mas recorda que “o diabo mora nos detalhes” e a timidez do governo é que dever ser criticada e não a construção de Belo Monte, que é saudada por Carlos Lessa.
por Emir Sader

1 comentários:
Ótimo artigo.
Além dos motivos citados por Sader e Lessa, há um outro argumento corrente dos que se opõem à construção de Belo Monte: a energia elétrica iria atender, fundamentalmente às grandes corporações da mineração(implícito fica, as que operam nas redondezas, como Vale). Entretanto, esquecem-se de um pequeno detalhe: Belo Monte será integrada ao Sistema Interligado Nacional, a grande rede elétrica que une diversas fontes de geração de enrgia espalhadas pelas mais diversas regiões do Brasil. Isto significa, em outras palavras, que a energia de BM não será distribuída somente naquela região, mas por todo o território nacional. Com isto, cai por terra a argumentação dos que invocam o problema ético do conflito de interesses privado X público.
Por isto, e pelos estudos (ver Plano Decenal de Expansão de Energia 2010-2019, do Ministério das Minas e Energia) que apontam para um aumento na demanda energética de 5% ao ano, e para a necessidade de substituir as atuais fontes termoelétricas mais poluidoras, sou favorável à construção de Belo Monte.
E que a fiscalização severa dos ambientalistas e dos mecanismos previstos pela legislação ambiental mantenha a seriedade, e mostre resultados como esse, de ter conseguido alter o projeto inicial, de forma que BM se transformasse em usina a fio d'água. Não deixa de ser um bom exemplo de prática democrática, em que os dois lados ganham, me parece.
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