quinta-feira, 10 de junho de 2010

Marina é problema para o PT e o PSDB



Marina é problema para o PT e o PSDB


Por Tales Faria

O entusiasmo exagerado de alguns setores da oposição com a provável candidatura da senadora acriana Marina Silva a presidente da República pelo PV está levando a alguns equívocos de avaliação. O maior deles é o de se pensar que a entrada de Marina na disputa prejudica apenas a candidatura da ministra Dilma Rousseff (PT).

Na minha singela opinião, o perfil pessoal e a história de vida da ex-seringueira Marina Silva são próximos aos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – convívio com a pobreza na infância, luta sindical, capacidade de superação de suas deficiências e uma enorme inteligência – mas o seu eleitorado espalhado pelo país não é o mesmo de Lula. Está muito mais próximo do PSDB dos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG). Então, creio que Marina tirará mais votos do candidato do PSDB do que do nome do PT.

Fui procurar quem entende do assunto e encontrei o sociólogo Marcos Coimbra, presidente do instituto Vox Populi de pesquisas de opinião. Ele não pensa exatamente como eu, mas também não acha que a entrada de Marina na disputa prejudique mais Dilma do que os pré-candidatos tucanos. Disse Marcos Coimbra:

– Creio que Marina Silva, a princípio, tira votos igualmente de Dilma e de quem vier a ser candidato pelo PSDB, independentemente do fato de ela ter saído do PT. Os dois lados têm uma parcela de seus eleitores sensíveis aos temas levantados pela senadora, especialmente na questão ecológica. Se ela for vista como uma candidata mais à esquerda do que Lula, basta olharmos para o desempenho da Heloísa Helena em 2006: com toda a crise do PT e do mensalão, Heloísa só conquistou 6% dos votos. Se olharmos de maneira mais ampla, vamos ver que Marina tem uma presença maior no eleitorado urbano, universitário, de classe média e de profissionais liberais. Por aí, não creio que ela consiga produzir qualquer movimentação no núcleo do eleitorado de Lula, nos 30% que declararam às pesquisas sua intenção de votar em qualquer candidato indicado pelo atual presidente da República. Temos que acreditar no que declarou o eleitor às pesquisas. Concluiremos que a ministra Dilma parte para as eleições com um patamar inicial de 30% dos votos. E que a senadora Marina não é uma candidata de massas. No entanto, não dá para apostar que ela ficará só com o eleitorado urbano e de classe média. Não dá para dizer que se trata de uma candidata de elite. Marina Silva tem uma presença no movimento evangélico ainda não mensurada.

Depois de ouvir Marcos Coimbra, fui procurar um pouco do perfil evangélico da ex-ministra do Meio Ambiente. Encontrei na internet uma reportagem da revista Época, edição número 506, de 13 de maio de 2008, intitulada A ministra criacionista. Diz o texto assinado por Thomas Traumann:

“A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tem um dos cargos mais espinhosos do país. O avanço assustador do desmatamento na Amazônia, a dificuldade em acabar com a corrupção no Ibama e o trabalho de liberação de obras com impacto ambiental são desafios desgastantes. Nos últimos dias, porém, Marina se meteu numa outra polêmica. Ao participar do 3º Simpósio sobre Criacionismo e Mídia, em São Paulo, ela equiparou o evolucionismo, a teoria mais aceita entre os cientistas para explicar a evolução da vida na Terra, ao criacionismo, a crença religiosa em que a vida foi criada por Deus exatamente como descreve a Bíblia. Depois, em entrevista a um blog de jovens adventistas, Marina – uma ex-candidata a freira que se tornou evangélica e é missionária da igreja Assembléia de Deus desde 2004 – defendeu o ensino nas escolas do criacionismo ao lado do evolucionismo”.

É, vai ser complicado o eleitorado urbano e liberal de Marina entender-se com sua porção evangélica, favorável ao ensino baseado em Adão e Eva nas escolas.

Então, onde Marina mexe na disputa eleitoral? Marcos Coimbra responde:

– Seu impacto é mais político do que eleitoral. Talvez mexa mais na questão do voto plebiscitário, da eleição polarizada entre PT e PSDB apenas, que era o cenário preferido do presidente Lula. Politicamente, a entrada de Marina na disputa já fez Ciro Gomes voltar a se colocar, e isso diminuiu as chances de polarização.

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