quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MARILENA CHAUÍ: Serra é versão empobrecida de FHC"

Terra Magazine: Ao discursar no ato de artistas e intelectuais que apoiam Dilma, a senhora mostrou e criticou um santinho de Serra, com a frase "Jesus é a verdade e a justiça". Como a senhora avalia a entrada de temas religiosos na campanha?

Marilena Chauí: Olha, esse discurso religioso foi uma maneira de desconversar. Ele não tem um projeto para o Brasil. Ele é a versão empobrecida do horror que foi Fernando Henrique Cardoso e, por falta de um projeto real para o Brasil, eles encontraram uma maneira de desconversar.

Primeiro, foi "Dilma é guerrilheira". Não deu certo. Depois foi "Dilma e Erenice". Não deu certo. Agora é Dilma e o aborto. E ele, protetor da sociedade brasileira. É um escândalo, um escândalo. Sobretudo, o que eu acho mais grave, ele está fazendo essa operação através da TFP (Tradição, Família e Propriedade) e da Opus Dei.

Terra Magazine: O que esse ato de intelectuais e artistas representou para a campanha de Dilma?
Marilena Chauí: Ele é a retomada do vigor da esquerda, do vigor de uma trajetória histórica de lutas pela democracia, de lutas pela vida republicana, de lutas pelos direitos, de lutas pelas igualdades, pela justiça. É o coroamento de um processo de dignidade dos brasileiros.

Terra Magazine: A senhora sempre faz críticas às posições da imprensa. Como ela se comporta no processo eleitoral?
Marilena Chauí: Eu sou crítica da mídia como um todo. Em primeiro lugar, o fato de ela ser um monopólio de quatro famílias e que identifique a liberdade de pensamento e de expressão com os lucros dessas famílias no mercado. É uma destruição da noção de liberdade de pensamento e de expressão.

Eu tenho dito que aqueles que defendem, verdadeiramente, a liberdade de pensamento e de expressão têm como obrigação fazer a crítica da mídia e recusar a imposição que a mídia nos faz. E eu acho a coisa mais maravilhosa, mais perfeita, o que aconteceu com a (psicanalista) Maria Rita Kehl. Quer dizer, foi esse jornal, o Estado de S. Paulo, que iniciou a cruzada contra o "partido autoritário, totalitário, que impedia a liberdade de expressão". Ele encabeçou essa campanha. E na hora que Maria Rita Kehl escreve uma opinião que discorda da linha editorial do jornal, eles demitem a Maria Rita! Em nome do quê? Então, é preciso fazer a crítica.

Fonte: Terra magazine

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