domingo, 14 de novembro de 2010

MARIA TERESA FONTELA GOULART, entrevista da primeira dama





Entrevista com Maria Teresa, viúva de João Goulart
(02.03.05) Maria Teresa Fontela Goulart, viúva do Presidente João Goulart, concedeu essa entrevista por insistência da amiga Ana Maria Rebes Guimarães, Aninha, e da filha, Denize Goulart - interessadas que estão em lançar luz sobre os dias que antecederam o golpe de 1964. Avessa a entrevistas porque já sofreu muito com os atropelos da mídia, Maria Teresa concordou em falar ao PDT por conta da Semana João Goulart, que o partido está celebrando durante todo este mês de março. Simpática, bem humorada, ela recebeu os entrevistadores Oswaldo Maneschy, Antônio Oséas, Aninha, Paulo Cruz e Tânia Fayal, com a colaboração de Ápio Gomes, na casa da filha Denize, na Lagoa, no Rio de Janeiro. E não deixou pergunta sem resposta. Para quem não sabe, Maria Teresa, foi Primeira Dama do Brasil aos 25 anos e sua beleza encantava o Brasil e o mundo (a revista People a classificou com uma das dez mulheres mais belas mundo) naquela época de esperança e glamour. Na Casa Branca, Jacqueline e John Kennedy, também jovens e açodados, abalavam as estruturas do conservadorismo com sua nova visão de mundo. Hoje sua grande preocupação é preservar para as futuras gerações a verdade dos fatos e a memória de Jango, contando tudo o que sabe daquela fase conflagrada de n ossa história. Maria Teresa também acaba de tornar-se, juntamente com Denize Goulart, membro do diretório nacional do PDT, na convenção do último dia 21.

"Uma das maiores alegrias de João Goulart foi o comício de 13 de março. Sabe por quê? Porque ele tinha ao lado Maria Teresa, e estava se vendo ali como Perón ao lado da Eva Perón. Maria Teresa estava ali com ele, linda de morrer, com aquela beleza e juventude. E ele estava se sentindo ali um chefe que tinha uma mulher ao lado". Abelardo Jurema, ex-ministro da Justiça de Jango

Conhecendo o Ministro do Trabalho
Antonio Oséas - Gostaria que falasse de sua vida até conhecer João Goulart.
Maria Teresa - Quanto conheci Jango, tinha 14 anos. Estudava no Colégio Americano de Porto Alegre - no internato - era vizinha da casa dele. Fui criada por uma tia que morava quase em frente a casa dele. Por isso conhecia, mais ou menos, a família dele. Família de nome, uma das mais importantes de São Borja. Bem, estudava no Colégio Americano e um dia fui levar uma correspondência para ele, porque, nos finais de semana, eu ia para casa do doutor Dinarte Dornelles, casado com dona Nancy Vargas, que me mandou entregar uma correspondência para o Jango. Não conhecia o Jango pessoalmente até então. Ao entregar a carta é que o conheci. Na minha festa de 15 anos - no Rio de Janeiro, na casa de Espartacus Vargas, casado com minha tia, irmã do meu pai - ele veio. Com 15 anos mais ou menos, comecei a sair, aqui no Rio. Mas nunca foi um namoro assim... Eu estava no internato … Foi uma coisa meio que...
Amor à primeira vista?
- Da minha parte, não. Não passava pela minha cabeça que pudesse namorar uma pessoa da projeção dele. Ele começou a me visitar no colégio, começou a rolar um clima de namorinho... Mas, realmente, só depois que saí do colégio, com 17 anos, é que começou mesmo o namoro.
Ele já tinha ligações políticas?
- Já. Quando conheci Jango ele já era Ministro do Trabalho, estava saindo do Ministério.
Por causa do aumento do salário mínimo?
- É. E, depois, foi ele quem me apresentou ao doutor Getúlio. Ele me levou a Itu para conhecer o doutor Getúlio. Fomos eu e uma turminha de amigas. Não foi um namoro, assim, namoro... Foi uma coisa que, de repente, aconteceu.
Como a senhora, ainda adolescente, começou a namorar um Ministro de Estado?
- Foi uma coisa meio que… Inclusive, quando casei com ele, eu estava com 17 anos e ele já era candidato a Vice-Presidente. Mas, na minha cabeça assim… Não sei... Era muito inexperiente, muito criança, não tinha muita noção. Acho que só consegui ter noção, mesmo, da minha responsabilidade, quando cheguei no Rio. Porque antes ele estava em campanha e fiquei em São Borja. Fiquei uma temporada lá, com minha tia, numa fazenda dele. Mas eu não me entrosava muito com as pessoas da fazenda. Tive alguns problemas, revolvi vir para o Rio. Ele me trouxe para o Rio, continuou a campanha política, foi eleito Vice-Presidente…
… campanha com Juscelino…
-… Sim, junto com Juscelino. Aí, em seguida, fiquei grávida do João Vicente. Mas eu não acompanhava muito, nesta época, sabe, porque mulher de Vice-Presidente não tinha muito essas coisas; acho que até hoje não tem muito…
Vocês já moravam no Edifício Chopin?
- Não. Nós morávamos na rua Rainha Elizabeth (meus dois filhos nasceram ali). Quando a Denise completou um ano, mudamos para a Avenida Atlântica. Aí, então, comecei a me entrosar, mais ou menos, com esta vida de… Mas Jango era uma pessoa muito estranha, porque ele não gostava muito que eu participasse. Ele queria mais aquela coisa de filhos, de mulher; daquelas viagens, de vez em quando… Acho que ele demorou um pouquinho para conseguir que eu entrasse na história da política, na vida política dele, porque ele achava que eu deveria ficar cuidando dos meninos. Coisa de gaúcho, porque gaúcho é assim…

Comício da Central, o primeiro na sua vida
… gaúcho machista…
- É, completamente. Aliás, eles sempre foram muito machistas.
Mas existe uma foto da senhora com Jango no comício da Central…
- É, mas foi meu primeiro comício. Eu sempre tive muito pavor de multidão.
Por que foi seu primeiro comício?
- Participei de vários eventos da Legião Brasileira de Assistência, que presidia. Era convidada para reuniões com as presidentes da LBA dos Estados, mas comícios… Eu nunca fui muito adepta de multidões; tenho horror a aglomeração de gente. Sempre tive esse problema. Por isso não participava. Mas daquela vez, na Central, fui porque eles começaram a falar que teria um atentado contra o Jango, que iam explodir o palanque, coisas assim. Aí decidi: então eu vou. E fui. Lembro-me que Darcy Ribeiro estava junto comigo, e falou brincando: "Se explodirem este palanque, nós dois que somos os menores, os mais magrinhos, vamos sair voando". Respondi: não, doutor Darcy, pelo amor de Deus, não fale uma coisa dessas. Ele brincou de novo: "Vamos sair voando, seremos os dois primeiros, porque todo mundo aqui é gordinho". O comício foi muito marcante na minha vida, foi um evento realmente forte. Acompanhei Jango ali, o tempo todo. Depois, fiquei preocupada com os acontecimentos em função do comício.
A senhora tinha noção da importância política, das conseqüências que poderiam vir? Aquele ato foi um marco.
- Ali Jango mais ou menos sabia o que iria acontecer. Ele tinha noção, porque inclusive disse ao seu médico "eu vou", quando ele desaconselhou. O médico falou: "Olha, doutor, o senhor não está com coração bom, está com a pressão alta, não pode passar por muita emoção". Jango respondeu: "Quero fazer esse comício, vou fazer. Não me interessam as conseqüências".
Antes de 64 ele já tinha histórico cardíaco?
- Já. Ele como Vice já tinha. Quando fomos convidados por Nixon, um convite oficial para ele, como Vice-Presidente ir ao Texas, ele passou mal, com problema de pressão baixa. Então fui nesse comício porque estava com vontade de ver o que era, embora tudo para mim fosse tão fantástico… Aquilo tudo que estava vendo me deixou meio assustada também, um pouco. Fiquei preocupada, era muita coisa acontecendo. A gente brincou e tudo, mas havia ali um lado muito forte do evento.
Com a renúncia de Jânio em agosto de 61, como encarou a responsabilidade?
- Foi muito engraçado porque estava na Espanha, em um hotel, com os meninos. O Jango tinha viajado para a China, e eu não tinha a mínima idéia que poderia acontecer aquilo, naquela época, naquele dia, naquele momento. Como nós estávamos no hotel havia muito tempo, já tínhamos muita amizade com o dono do hotel, que era muito amigo do Jango. A gente já era meio que dono do hotel; fazíamos tudo que queríamos: os meninos brincavam na piscina, ficavam de noite, de tarde, de manhã; a qualquer hora. Foi muito engraçado, porque, quando chegamos para o café da manhã, neste dia, não tinha lido os jornais (estava na Espanha, ler jornal todo dia, para quê… ), não sabia de nada que estava acontecendo. Nós descemos para o salão do café e o dono do hotel veio nos receber na escada, assim… uma coisa… ; e todo mundo que estava ali no salão se levantou, aplaudindo. E eu fiquei pensando: o que é isso? Que coisa estranha. E fiquei rindo, sem saber o que fazer… parada, com os dois meninos. Aí o dono do hotel veio com os jornais na mão e disse: "ah, dona Maria Teresa, nós queríamos felicitá-la, porque a senhora é agora a Primeira-Dama". Eu, a primeira-dama, por quê? Quando abri o jornal: Jânio renuncia! Eu disse: ai, que responsabilidade. Não me diga uma coisa dessa… E aí, já começou aquela coisa de jornalistas, de repórteres, e a privacidade terminou completamente.
O Itamarati procurou a senhora?- Em seguida, em seguida, no mesmo dia. Aí, começaram telefonemas de jornalistas, de jornais de lá mesmo da Espanha, de tudo que é lugar; fui capa, lá, de uma revista também.
E já tinha caído ficha da senhora?
- Não… não…
E ele… fez contato?
- Ele telefonou três dias depois, quando já estava no Uruguai, acho. A gente estava muito preocupada - estava com meu irmão, o João José, que estava me acompanhando. E eu mandava ele falar com as pessoas…
… Ele foi diretor da Riotur…
… e ele dizia: não agüento mais falar com essa gente; a gente não pode ir à piscina, não pode ir a lugar nenhum. Eu insistia: vai falar, vai falar (Ele era o meu porta-voz… ). A coisa ficou meio complicada: a gente não pegava o carro, não saía para passear, não saía à noite. Acabou a privacidade.
E quanto à pressão interna no Brasil, os ministros militares negando a posse, como isso chegava para a senhora e para as crianças lá?
- Bem, isso foi nos primeiros dias, não é? Foi quando começaram os comentários que ele estava voltando, que não tomaria posse. Foi aí que Jango se comunicou comigo e disse: "olha, vocês me aguardem, fique aí com as crianças, porque a situação está meio delicada e eu preciso resolver uma série de coisas antes que vocês venham para cá". Nós fomos ficando, ficando, ficando… Eu só voltei, realmente, para o Brasil, depois que Jango tomou posse.
"Eu me dei conta que era a Primeira-Dama quando o avião da Varig pousou em Brasília. Fiquei apavorada". (Maria Teresa)

Ele chegou a comentar com a senhora sobre a perda de poderes que foi imposta a ele com a adoção do parlamentarismo?
- Ali ele sentiu que a coisa não ia funcionar. Ele falou várias vezes que aquilo ali não era uma coisa como ele gostaria que fosse. Todo mundo sabia que aquilo ali era… que criaram aquilo como desculpa para ele não tomar posse legalmente. Então, mesmo nesta época, ele já tinha muita preocupação com isso. Aí nós voltamos para o Brasil, o avião da Varig fez um pouso em Brasília. E acho que foi neste momento que eu me dei conta de que eu era a Primeira-Dama. Foi assim: o avião desceu e o Comandante veio e me disse que as pessoas queriam que eu descesse primeiro. Todo mundo no avião começou a me aplaudir e eu não queria descer. Eu falava para meu irmão: ah, que vergonha, não vou descer deste avião. Aí, peguei os meninos e desci. Quando desci, cheguei na escada e olhei aquele monte de gente lá embaixo, eu disse: gente, estou chegando em Brasília como Primeira-Dama… que é isso… Aí eu fiquei apavorada. Mas foi neste momento que me conscientizei que, dali para frente, tinha de encarar mesmo. Porque, até ali, você está em uma praia, está em um hotel; os acontecimentos você sabendo através de jornais, na Espanha; o presidente assume, não assume… E aí, quando cheguei ali, desceu aquele avião, eu disse: agora é que vou ter de assumir mesmo.
A primeira noite foi no Palácio Alvorada?
- Nós fomos direto para o Alvorada, mas uma coisa meio que… Muita gente, muitas entrevistas: muita coisa, e a gente fica meio tensa. Fiquei morando no Alvorada um tempo que não sei precisar; uns seis meses, talvez. Não gostei de morar lá; os meninos também estranharam muito, e, aí fomos para a Granja do Torto, que, na época, era uma fazenda. Não era o que é hoje: era cheia de mato, em volta. Eu andava a cavalo; saía do Torto e andava uma hora, uma hora e meia, no mato ainda, porque não tinha nada. Era uma fazenda. Cheia de bichos: tinha cobra, tinha rato, tinha um monte de coisa. Era uma fazenda, um sítio. Nós fomos os primeiros moradores, porque o Juscelino nunca morou lá. E era uma casa muito simples. Depois começaram a melhorar: fizeram uma quadra de tênis - piscina já tinha. Era uma casa super simples. Já o Alvorada, era uma coisa muito fria. Lá é um horror; nunca vi uma coisa tão horrível como aquilo. Durante o dia é sol por todos os lados, então, aquela madeira toda que tem dentro, com o calor, aquilo fica de noite assim (rah, rah, rah… ), fazendo um barulho horrível. Então, as crianças não dormiam de noite: "mãe, o que é isso, que é isso? Todo mundo gritando". Pior do que a janela lá do Rancho (fazenda de Jango, em São Borja), quando batia na madrugada. Parecia que tinha gente entrando, arrombando a porta. Aí eu falei para o Jango: não quero ficar aqui mais, não. Aluga um apartamento, qualquer coisa. Ah, tinha uma piscina. Eu, para variar, botei um biquíni e fui para a piscina com os meninos. Levei a babá e, todo mundo tomando banho e piscina… Dois dias depois, veio um negócio lá do Protocolo: que eu não podia tomar banho de piscina, não sei o que; blá-blá-blá; de biquíni; não sei o quê.
O poder não pode tudo…
- Não, não pode tudo, mas…
… A senhora foi fotografada…
- É, começaram a fotografar tudo lá…

A solidão de Brasília
Atrapalhou muito a sua vida pessoal, não é?
- Muito, muito, muito. Então o Protocolo disse que eu não podia tomar banho de piscina; quer dizer, eles podiam tomar banho de piscina. Eu falei: se não posso tomar banho de piscina aqui, então vamos para o Torto. Aí, nós fomos para o Torto. Eu não gostava do Alvorada: era uma coisa muito triste, muito solitária.
E de Brasília a senhora gostava?
- Gostava. Gostava. Se bem que eu tinha uma vida muito… Eu saía de manhã e ia para a LBA, porque eu fundei aquela sede da LBA de lá (estava abandonada, mandei arrumar e montei uma equipe para trabalhar lá comigo). Eu saía de manhã, voltava para almoçar. Os meninos iam para o colégio (o primeiro colégio deles foi o Dom Bosco), que ficava ali perto. Mas os meninos não gostavam, porque todo mundo falava: ah, os filhos do Presidente… A filhinha do Presidente (rindo, referindo-se à filha Denise, presente); ela não gostava muito daquilo, mas tinha de ir. A gente fazia muitas reuniões lá no Torto, com coleguinhas deles, festa e tudo, para formar um clima, assim, mais ameno… Mas não deixava de ser uma coisa assim… Sabe que, na época, acho que não era tanto assim. A gente tinha mais liberdade para tudo. Eu, por exemplo, saía a cavalo sozinha.
Dirigia seu carro, sozinha?
- Dirigia. Tinha um carro que eu dirigia. Meu passeio era o seguinte: ia comprar revista no aeroporto.
… E a segurança ia atrás…
- Ia atrás. É, mas ele nem tomava conhecimento da minha vida: ele ia atrás, sempre seguindo. Eu chegava no aeroporto, descia com uma amiga, ou com meu secretário, comprava revista, dava uma volta no aeroporto para ver o movimento, pegava um monte de revistas e voltava para o Torto. Esse era o meu passeio. Mas era uma vida muito mais tranqüila do que agora, porque agora é uma coisa cheia de segurança, para cima e para baixo. Eu não andava com segurança e Jango tinha dois que andavam com ele: o motorista dele (foi, por muitos anos, motorista dele)… Ele não gostava de segurança. Aqui no Rio, quando eu chegava, adorava ligar aquela sirene (piiiiiiiiiiii). O Jango ficava uma arara comigo: "quem manda ligar esse negócio?". Eu dizia: ah, meu amor, eu adoro, vamos ligar isso. Eu adorava porque a gente chegava no trânsito e as pessoas todas me abanavam, saltavam do carro e me pediam autógrafo. Eu me sentia, assim, o máximo; uma estrela. Quando ele estava aí, já falava: "lá vem Maria Teresa… ". Quando ele estava na Avenida Atlântica, eu só chegava com aquele (piiiiiiiiiiii), aquele barulho… Eu adorava isso. A única coisa que eu gostava mesmo do poder era esse negócio… Os batedores…
Mas o Jango era uma pessoa amada pelo povo. Foi diferente dos que vieram depois…
- É. Muito… Ih, o Jango, em qualquer lugar que chegava: ele já se sentava, já conversava com todo mundo. Era uma pessoa muito carismática. Tinha um carisma que era uma coisa muito natural dele. Não era nada forçado. Era tudo natural dele.
Era uma pessoa muito simples...
- Muito, muito simples.
João Vicente é parecido com ele, assim no gênio?
- É.
Por que? O João Vicente também é assim carismático?…
- É… João Vicente tem muita coisa do Jango.
Esse período da Granja do Torto foi um período de muita efervescência política. A senhora chegou a acompanhar isso?
- É, acompanhava muito porque todos os políticos iam lá… Inclusive eles me tratavam como se eu fosse… Por exemplo, San Tiago Dantas. Eu adorava conversar com ele, porque era uma luz aquele homem, uma coisa brilhante. Darcy era superquerido, superamigo da gente; muito engraçado. Ele chegava lá no Torto. Sempre almoçava lá com Jango; e contava umas histórias muito engraçadas. Eu tinha assim uma amizade muito grande com eles. Eles me tratavam com muito carinho, não sei se porque eu era muito nova, muito inexperiente. Então eu precisava conversar com eles para saber das coisas. Eu perguntava muita coisa para o Darcy, para o Waldir Pires também. Mas com quem eu mais conversava de todos eles era com San Tiago Dantas. Eu acho que ele me achava, tipo assim, como uma filha para ele. Eu perguntava: ah, doutor San Tiago, é isso, é aquilo… Eu me orientava muito com ele sobre LBA, sobre um monte de coisas. Sobre os pedidos que faziam também (porque a gente recebia muitas cartas, muitos pedidos, muita coisa… ). Então, eu sempre estava me orientando com eles, porque sabia pouco: o que tinha que fazer com isso, com aquilo. E, às vezes, recebia muitos donativos para a LBA - coisa, assim, impressionante: houve uma época que a gente recebia quatro caminhões, de presente; uns três carros, não sei quantos jipes. Tudo para a LBA. Então, a gente fazia aqueles leilões, aquelas festas (inclusive o Denner me ajudava muito nisso), e a renda toda era em benefício da LBA. Eu me orientava muito com eles. Então, esta convivência, para mim, com esses políticos que trabalhavam com o Jango, foi de muita importância, porque adquiri a maturidade que não tinha, porque eu quase não falava com ninguém (meu negócio fora de casa era somente social: sociedade, festas, coquetéis). Com eles, não. Com eles, eu tratava de aprender bastante, de saber das coisas. Então, os assuntos com eles eram os mais importantes para mim. Esta convivência para mim foi muito importante.
Quando a senhora conheceu Jango, estava naquele período que culminou com a morte de Getúlio, como foi isso?
- Eu, ali, não tinha muito conhecimento político. Doutor Getúlio faleceu em 24 de agosto, e Jango estava na festa de meu aniversário, que é 23, na casa da Yara Vargas. Aí, o chamaram urgente no Palácio (do Catete), a Yara também foi (foi todo mundo da família Vargas). Então chamaram o Jango ali na festa do meu aniversário. Ele saiu ali da festa da (não é Rodolfo Dantas, era outra ali, onde a Yara tinha feito uma festa para mim e o Jango foi). Ele falou para a Yara: "estão me chamando do Catete, está acontecendo isto, isto… ". Mas eu não participei muito daquilo. Eu só me lembro que foi uma das coisas mais incríveis que eu vi, porque, quando terminou a festa do meu aniversário (a Yara pediu: "olha, vocês arrumem tudo aí"). E eu e minha prima saímos até a esquina, lá pelas sete ou oito horas, para comprar não sei o que era, e começaram a ler a carta do doutor Getúlio. E o povo chorava na rua. Era uma coisa tão impressionante que eu pensei: nunca mais vou esquecer isso na minha vida. As pessoas paradas, assim, nas esquinas, todo mundo assim com o ar de que tinha acontecido uma coisa horrível. Então, as pessoas choravam, nas esquinas. Eu falei até para minha prima: que coisa impressionante, isto que está acontecendo. Aí já estavam lendo a carta do doutor Getúlio e aí já foi aquela confusão toda. Mas eu não participei muito, porque fiquei em casa e o pessoal todo foi pra São Borja com doutor Getúlio. Isto foi em 54. Em 55, foi o ano em que casei. Eu não participei muito, mas, como era uma pessoa que sempre gostei muito dele (até hoje, meu líder político é Getúlio), fiquei chocada com que eu via na rua. Aquela madrugada… Foi uma coisa que nunca mais esqueci. Foi muito marcante aquele momento.
A senhora teve muita convivência com a família Vargas?
- Não. Pouquíssima. Por exemplo, o Jango me levou para conhecer doutor Getúlio, num almoço no Palácio do Catete. Estavam Alzira, Amaral Peixoto, Lutero, essa turma toda. O que mais conheci foi Lutero, que vivia na casa da minha tia, América Vargas e Beijo Vargas, mas muito superficialmente.
Getúlio Vargas foi seu padrinho de casamento?
- Não. Foi Maneco Leans. Ele era íntimo amigo de Jango; amigo de festas, de tudo. Inclusive, foi até namorado de uma prima que tenho, a Terezinha.
Diversos historiadores falam muito sobre esta relação franca que João Goulart tinha com a população. Como era isto, efetivamente?
- Com as pessoas, com os populares? Era um dom ótimo que ele tinha, porque ele tinha este carisma, esta maneira de conversar, de tratar as pessoas. Era uma coisa diferente, que eu nunca via. Que até o Brizola também tinha, mas não era tão direto assim: Brizola tinha carisma, mas era diferente. Jango tinha esta coisa afável, doce de falar com as pessoas.
Jango era um homem do poder, mas verdadeiramente um estadista...
- É isto mesmo. Como o Brasil nunca teve! Eu me lembro que, na campanha dele, ele me levou a Recife. Eu nunca tinha visto: ele chegou no aeroporto, ele falava com todo mundo, assim na maior (era o povo que estava esperando por ele no aeroporto). Mas ele chegou em Recife (eu nunca tinha visto uma coisa igual) e me perdi de todo mundo. Me deixaram para trás. Depois, um senhor me pegou (eu sou assim: chego num lugar e vejo muita gente, começo a entrar em pânico e vou me escondendo num canto). Aí o homem foi me encontrar lá no canto: "ah, doutor Jango está procurando a senhora". Eu falei: me leva para qualquer lugar, mas me tire daqui, pelo amor de Deus. Porque era assim: gente, gente, gente e ele abraçando todo mundo e ele sorrindo, e todo mundo conversando com ele. E eu ficava assim… Impressionante.
Ana Maria Rebes Guimarães: lembrando esta história de Recife, há alguns anos, depois que Maria Teresa votou do exílio, nós fomos passar umas férias em Recife. Denise estava chegando de Cuba e fomos daqui passar o réveillon. Na noite do réveillon, a gente estava em um hotel, em Boa Viagem, e aconteceu o seguinte: a gente pegou uma garrafa de champanhe, levamos uns cálices para a gente passar a meia-noite na praia. Quando a gente chegou na portaria do hotel, tinha uma multidão na rua dançando. Quando o pessoal reconheceu Maria Teresa… Nós perdemos a Maria Teresa, na noite de 31, porque o povo a levou lá para o meio de uma praça, aonde ela dançou frevo. As pessoas ficaram enlouquecidas, porque a Maria Teresa Goulart estava em Recife. Foi uma coisa louca. Só se via as perninhas dela. Juntou o povo em volta dela. Foi em 83 ou 84. Foi em 84. Saímos, só nós, para tomar um champanhe, não conhecíamos ninguém lá, e foi, assim, maravilhoso.
Maria Teresa - Eu já fui lá para o meio do pessoal, porque eu adoro frevo; tenho paixão por frevo. E dançava bem para caramba. E disse: ah, eu já vou para lá, então… no meio do povo.

O Golpe de 64
No período que se aproximou do golpe de estado, a tensão crescente refletiu no dia a dia de João Goulart. Como foi isso?
- É… Já previa algum desdobramento. A partir do comício a pressão foi muito grande, porque todos nós estávamos esperando que acontecesse realmente o golpe. Porque isso aí era uma coisa clara - mais clara que água - porque, havia muito, eles já estavam com esse desejo. Acho que, desde que Jango entrou no Brasil para assumir, eles já começaram a conspirar. Isso aí, todo mundo se dá conta de que é uma realidade. Não adianta a gente querer dizer que não, que tinha isso, que tinha aquilo. Não tinha nada. Eu acho que as pessoas já estavam tramando tudo e estavam naquela agonia de derrubar o Jango.
Ele tinha consciência de que foram anos de conspiração contra o governo dele?
- Ah, tinha. Absoluta.
E que, a cada dia, ele acirrava mais as contradições, sabendo do golpe?
- Absoluta. Tinha. Tinha. Desde que ele assumiu, essa preocupação sempre foi presente. Ele, inclusive, cansou de me falar: "quando eu entrei aqui, isto é uma coisa que já está sendo estudada, conspirada".
E, logicamente, que ele tinha noção sobre tudo da área militar, e quem conspirava contra.
- Claro. Lógico que sim.
E a relação dele, neste período, com Brizola? Porque dizem que eles tinham umas diferenças lá, nesta época.
- Eu acho que não tinha assim uma relação de desafeto. O problema é que Brizola tinha uma personalidade muito forte e o Jango também. Então as pessoas criaram um pouco essa coisa de que o Brizola estava fazendo isso, que o Brizola estava fazendo aquilo para prejudicar o Jango. Nada disso. Eu acho, na minha opinião, que o Brizola tinha realmente uma personalidade dele. Ele não se deixava dominar por ninguém. Eles podiam pensar diferentes. Mas não que ele conspirasse, que quisesse derrubar o Jango, essa coisa toda. Isso não. Agora, eu acho que o Brizola sempre foi aquela pessoa que o Jango batia o telefone e "ó, Brizola… ". E trocava idéias com Brizola. Isto aí, todo mundo sabe. Eu sei, cansei de ouvir ele falar, essa coisa toda. Só que as pessoas começaram a criar.
Brizola tinha atitude muito mais radical.
- Mas não que ele fosse contra qualquer coisa do Jango, que ele fosse fazer qualquer coisa para prejudicar o Jango. Isso criaram na cabeça das pessoas.
… Que Brizola foi culpado pela queda de Jango…
- Mas eram pessoas que, no momento da coisa, trocavam idéias, se telefonavam. E, "olha, Brizola, está acontecendo isso, bá-bá-bá". Só que as pessoas, por fora, achavam que não. Que Brizola tinha uma personalidade muito forte, que tava… Mas isso aí não existia não. Eles eram, realmente, pessoas que se entendiam e que se respeitavam. Jango respeitava Brizola e Brizola também respeitava Jango. Eram opiniões que as pessoas formavam sobre isso. Isso aí, criaram. As pessoas gostam muito de criar esses negócios.
Um dos principais artífices do golpe foi o embaixador Lincoln Gordon, o Presidente Jango falou alguma vez sobre ele?
- Comigo não, mas cansei de ouvir ele falar com Darcy e o pessoal todo comentando sobre esta pessoa. Ouvi vários comentários sobre o que poderia representar esta pessoa na política do Brasil. Ouvi muito ele trocando idéia, falando sobre isso. Comigo não (ele não falava muito de política comigo).
Teve algum fato, naqueles dias que antecederam o golpe, que o Presidente Jango tenha comentado, que a senhora percebeu que "agora vai acontecer"?
- Eu acho que o que aconteceu mesmo, realmente, foi depois do comício, que ele chegou para mim e falou: "olha, agora vamos esperar o pior".
"Olha, Teca, depois deste comício (da Central)
não sei o que pode acontecer". (Jango)

Os embates do comício foram muito definitivos, não?
- É. É isso mesmo. Para mim ele disse: "Olha, Teca (ele me chamava de Teca), agora vamos esperar o pior, porque, depois deste comício, não sei o que pode acontecer". Ele tinha preocupação eterna com esse negócio da… Depois do comício, foi um negócio assim como se tivesse, realmente, dado… Quem era o grande adversário dele: o Lacerda; Ademar, em São Paulo…

encontro com Lacerda, no Uruguai

-… Eu acho que o grande adversário dele era o Lacerda…

… depois eles vieram a se entender na Frente Ampla…
-… foi um encontro meio que… Foi muito engraçado o encontro deles: o Lacerda nem me reconheceu quando ele chegou na porta da minha casa… Acho, mesmo, que o grande adversário de Jango foi Lacerda. Lacerda começou a derrubar o Jango assim ó (pá), empurrando assim de cima… Muito tempo antes ele já tinha começado a destruir tudo. O Lacerda era uma inteligência destrutiva; ele destruía qualquer um. Eu não esqueço de uma manchete que saiu no jornal sobre o Jango: era uma coisa cruel.
A mídia toda contra, o Raul Ryff sempre falava isso. Ele falava muito: "quando junta essa galera toda é uma coisa horrorosa"…


-… aquela época do Lacerda foi uma coisa… Não sei se vocês se lembram… Eu me lembro de uma frase que saiu, que Jango era dono de casa de prostitutas. Era uma coisa cruel, cruel.
Isso abalava o Presidente Jango pessoalmente? Ele chegava a comentar com a senhora? Não o Presidente da República, mas o homem João Goulart?


- Bem, nessa época, quando o Lacerda começou o Jango era Vice (me lembro, porque foi logo que casei… ). Então, o Jango era Vice, quanto ele (Lacerda) começou a falar sobre ele. O engraçado é que nunca esperei, na minha vida, que o Lacerda um dia fosse procurar o Jango, na minha casa, dentro da minha casa. Estava chegando do colégio - tinha levado os meninos - e ele estava procurando o endereço do Jango. Nesta época era meio frio em Montevidéu e eu estava com uma minissaia de couro e umas botas. Ele estava procurando o endereço e eu estacionei meu carro, vi aquele carro passando e vi que era a cara dele. Pensei: meu Deus, o que é isso que estou vendo aqui na minha frente… Aí entrei. Quando entrei, um senhor que estava dirigindo o carro tocou a buzina e perguntou: é aqui o endereço do doutor João Goulart? É, é aqui mesmo, respondi. Fiquei esperando ele estacionar o carro. Aí o Lacerda perguntou: "ah, é brasileira?". Disse: sou, sou brasileira. Aí, ele entrou comigo no elevador. Quando eu ia chegando na porta é que ele se deu conta de que era eu. Aí o Jango abriu a porta: estava esperando ele. "Desculpe, dona Maria Teresa… ". Não tem problema nenhum, respondi, o senhor não é obrigado a me reconhecer. Porque o senhor iria me reconhecer? O senhor nunca tinha me visto.

Alguém acredita que ele não reconhecera a senhora?

- É… É… Eu acho que ele fez um pouco de…

Claro, era parte daquela personalidade dele…

É… Mas, aí, ele entrou, cumprimentou o Jango, ficaram conversando e eu saí. Depois, ele votou lá em casa e eles saíram para jantar. Eu me lembro até que o João Vicente, depois quando ele chegou, pediu para ele uma revistinha (como é o nome daquela revistinha que o João Vicente gostava do Brasil?). Ele perguntou: "o que você quer do Brasil, João Vicente, que eu vou mandar para você". Ele mandou, realmente uma coleção de revistas em quadrinhos, com aqueles bonecos que não sei o que era (Super-homem, Super marvel, sei lá… ).
O presidente Jango tinha noção de que Lacerda fez parte de toda a conspiração contra o Governo dele?

- Claro que sim…

Ele era completamente envolvido com o golpe…

- Completamente. Ele era uma pessoa que era do mal. Totalmente do mal.

O golpe foi uma articulação internacional: articulação americana, junto com os militares e com os governadores que ajudavam (Magalhães Pinto, em Minas; Ademar de Barros, em São Paulo; e Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro…

-… E eles já serviam antes do golpe. Eu tenho uma fotografia muito engraçada (João Vicente dizia assim: fotografia assassina), acho que em uma solenidade, um desfile; não sei o que é: o João Vicente, deste tamanhinho, de mãos dadas com Magalhães Pinto. Muito engraçada: os três assim parados…

E a relação de Jango com os movimentos sociais. Fala-se muito sobre aquela insurgência nas Forças Armadas. A senhora chegou a acompanhar?

- Não. Aquele movimento dos sargentos. Eu acho que aquilo ali foi um tremendo de um mal-caratismo de todo mundo. Primeiro, eles procuraram o Jango. Depois, eles fizeram aquilo tudo. Eu não entendi nunca aquilo. Para o Jango, foi uma coisa que marcou muito, marcou aquilo de maneira muito…

Produziu uma quebra da hierarquia militar.

- Claro, porque ele foi uma pessoa que deu o maior apoio para aquela gente toda e, depois… não entendi aquele movimento todo.

Por falar em hierarquia militar, os militares de alto-escalão, Casa Militar, por exemplo, respeitavam a senhora? Como era o tratamento deles?

- Olha, eu vou dizer uma coisa, sinceramente: Amauri Kruel era o assessor que eu gostava muito; eu me dava muito também com a esposa dele, que era uma pessoa que sempre me acompanhava em todos lugares. Eu acho que ele tinha uma postura assim muito… como é que vou dizer… No final, não sei o que aconteceu com ele, mas, no Governo, era uma pessoa muito forte lá do Jango, uma pessoa de muito apoio para o Jango.

Dizem, os historiadores, que o presidente João Goulart contava que ele resistisse ao lado dele…
- Exatamente. E depois, quando tiraram o Kruel e botaram o (como é o nome dele? Aquele homem que era um horror… Acho que ele já morreu… O que foi Ministro da Guerra, no lugar dele… Ah, um que bebia para caramba… Ele vivia… Ah, como era o nome dele… Era o azeite e o vinagre, porque era uma coisa que não tinha… Kruel sai e, aí, perdeu a personalidade… O homem não tinha personalidade nenhuma: era uma pessoa que não assumia nada… Ah, como era o nome dele… Era uma coisa Silva…

Seguem-se várias tentativas, entre os entrevistadores, de se lembrar o nome do General, em vão. Na degravação da fita, chega-se ao nome: Jair Dantas Ribeiro.

- … Era uma coisa tão insignificante, que nem me lembro o nome. Ali, foi uma coisa… Perdeu a força de tudo…

Já fazia parte da conspiração?

- Já… Lógico… Claro… E acho que o Kruel, de qualquer maneira, tentou várias vezes dar uma segurada, mas não conseguiu (claro, ele estava já comprometido com tudo… ).



O presidente Jango tinha consciência, também, da importância que teve Brizola na luta para ele assumir a Presidência?

- Claro que sim. Lógico. Isto aí foi uma coisa que não tem…

A Campanha da Legalidade… foi a grande…

- … Brizola foi o braço-forte de tudo aquilo. Foi a única pessoa que levantou…

… Braço-forte e armado…

-… Exatamente.

Tânia Fayal: Brizola falou muito bem do Jango no Encontro de Lisboa. Depois de terminado o Encontro, tinha curiosidade de saber do Brizola sua opinião sobre Jango. Estávamos em um hotel em Cascais, fomos levar ele e a Neusa para ficarem lá uma semana e acabaram ficando dois dias. Nós chegamos de noite, já para levá-los para o hotel, ficamos para jantar, e, depois, sentamos para bater um papo, conversar informalmente (ele adorava conversar, contar histórias, não é?). Perguntei a ele: Brizola, como é essa história de "cunhado não é parente, Brizola para Presidente"? Ele começou a dissertar. Nós saímos de madrugada e ele falando maravilhas do Jango. Eu tive uma aula de educação do que foi o período do Governo Jango, do que foi a influência, a importância dele como Presidente da República, do estadista que ele era. E, por outro lado, a Neusa, que, com sua fala, me intimou, mais ainda, a te admirar como Primeira-Dama. Porque a Neusa falava maravilhas de você.

Maria Teresa - Ah, é? Mas você sabe que ela renunciou quando assumi a LBA? Ela não aceitou. Ela mandou o Brizola… Brizola é que foi lá no Torto. Ela botou alguém lá no Rio Grande do Sul para cuidar da LBA…

Naquela época ela tinha alguma relação com a LBA?

- Sim, porque ela era presidente da LBA (todos os Estados tinham LBA) no Rio Grande do Sul. Ela me mandou uma carta, renunciou e botou uma pessoa lá. Eu não fui a Porto Alegre. Fui a todos os Estados para reuniões com os presidentes locais. Eu disse: olha, eu não posso fazer nada; não vou ao Rio Grande do Sul. Eu conheço essa pessoa que está lá. Não tinha porque ir lá. Fui a todos os Estados. Aliás, era um órgão que funcionava maravilhosamente bem; era uma coisa espetacular. Não sei como é que acabaram com aquilo.
Foi a Primeira-Dama do Collor…

-… É. Que coisa impressionante… Tinha uma assistência social maravilhosa, em todos os Estados. Era uma coisa que funcionava. Recebia muitas doações. Todo mundo se interessava. Eu, de São Paulo, recebia quantidades imensas. Era uma coisa bem organizada, bem estruturada. Não sei como é que aquilo foi pro beleléu. Como é que conseguiram terminar com aquilo?! Não entendo.

Foi o próprio golpe. Acabaram com a assistência social.

- Exatamente: assistência social.

"No dia do golpe, Jango estava no Rio, no Laranjeiras, e nós no Torto, em Brasília.
Soube que Jango não era mais o Presidente pelo rádio".

Maneschy - Gostaria, Dona Maria Teresa, que falasse sobre o dia do golpe.

- Jango estava aqui no Rio, no Palácio Laranjeiras. Nós estávamos esperando que qualquer coisa fosse acontecer, realmente. Quarenta e oito horas antes,já se previa que o golpe aconteceria. Eu estava lá no Torto, em Brasília, com os empregados, com minha secretária. Jango me telefonou e disse: você fica aí aguardando notícias, que não sei o que vai acontecer nestas 24 horas. Respondi: sim, vou ficar aqui, mas quero receber notícias, também. Mas as rádios a toda hora estavam dando as notícias. A verdade - vou dizer a verdade - é que fiquei sabendo pelo rádio. Ouvimos a notícia de que o Jango já estava saindo do Palácio Laranjeiras e que já tinha abandonado o cargo. Mas eu ainda fiquei aguardando, no Torto, porque não sabia o que iria acontecer. Era uma coisa tão incrível, porque as pessoas todas sumiram, desapareceram.
Os empregados do Torto? A equipe? Os assessores?

- Os empregados até que não. A guarda militar dava segurança ao pessoal da gente. O capitão, que comandava a guarda, veio para falar comigo e disse: "olha, dona Maria Teresa, a senhora não se preocupe, que aqui não vai entrar ninguém. Eu tenho ordem de que ninguém vai entrar aqui para incomodá-la. E tem uma coisa: a senhora não pode sair daqui, por motivo de segurança". Aí eu fiquei mais tranqüila, mas fiquei absolutamente sem me comunicar com ninguém. O Jango já tinha saído (tinha ido não sei para aonde) aqui do Rio e passou por Brasília, só que ele não foi ao Torto. Dizem que foi ao Torto: ele não foi ao Torto. O avião pousou em Brasília, ele conversou não sei com quem e foi para Porto Alegre. Então, eu não tive mais contato com ele. Só tive contato com ele, quando ele me telefonou, de Porto Alegre, e disse que alguém iria me dar notícias de qual seria meu rumo, do que eu tinha que fazer. Só que não me deram notícia nenhuma: encostou um avião, uma hora ou duas da manhã, no Torto.
O Darcy Ribeiro não chegou a falar com a senhora?

- Não. Darcy chegou a falar comigo, mas nesta noite que o Jango tinha ido para lá: "olha, Maria Teresa, fique tranqüila porque não vai acontecer nada. Fique tranqüila, com as crianças, no Torto, porque já tem ordem de que ninguém vai incomodar". Só que não foi assim. Encostou um avião, com uma ordem militar que eu tinha de embarcar, que eu não sabia nem para aonde eu ia. Peguei as crianças, botei no avião e deixei a casa toda como estava. Não saí com absolutamente nada, porque não sabia para aonde eu ia. Pensei: ah, eu vou para Porto Alegre, que Jango está lá. Então vamos para Porto Alegre. Mas eu pensei que iria e voltaria ao Torto.
E a senhora estava sem contato com Jango…

- Não. Não. Quando eu cheguei em Porto Alegre, Brizola mandou um assessor dele. Desci do avião, não vi Jango, e o Brizola mandou me dizer que eu seguisse para São Borja, com os meninos, que o Jango iria me dar notícias lá. Eu não estava entendendo nada, porque, nesta altura, eu saio do Torto, vou para Porto Alegre, chego em Porto Alegre e não falo com ninguém, vou para São Borja…

O início do desterro

… Com a roupa do corpo…

-… É. Roupa do corpo e uma malinha para os meninos, porque eu pensei: bem, não sei para onde vou, mas vou voltar, porque minhas coisas estão todas aqui… Mas uma coisa interessante foi o seguinte: como as pessoas mudam! (Ainda bem que nunca mudei, com poder, nem nada… ). Até a maneira com que os empregados me tratavam, quando eu morava no Torto, e a maneira que me trataram quando eu saí de lá. Foi uma coisa incrível a diferença, porque parece que ninguém queria chegar perto de mim. E eu tinha motorista; tinha a minha governanta, que viajou comigo, que foi um anjo comigo; meu cabeleireiro, que estava lá no Torto comigo, que viajou comigo, que foi até São Borja comigo - o Virgílio; e a Etelvina, que cuidava dos meninos, que era uma espécie de governanta, que foi para o Uruguai comigo e só voltou cinco anos depois, porque ela queria casar. Mas uma coisa me parecia que tinha fechado uma cortina na minha vida, dentro da minha casa: a casa era minha, as coisas eram minhas. As pessoas não chegavam perto de mim. Eu embarquei no avião, entrei com meu pessoal todo, com o ajudante-de-ordens junto; passei por Porto Alegre, falei com esse assessor do Brizola; cheguei de madrugada em São Borja.

Lá no Rancho?

- Sim… Gente, este foi o momento mais… aí eu chorei, me debulhei em lágrimas. Porque a gente chegando naquela fazenda, com aqueles bichos, tudo lá em baixo, aquela madrugada, aquele dia clareando, aquela solidão, aquele avião, aquelas pessoas dentro do avião… eu não sabia o que iria me acontecer em São Borja, naquela fazenda de que eu já não gostava.
A senhora já tinha idéia que aquilo já era, absolutamente, o início do desterro?
- Claro que sim… Claro que sim… Quando eu cheguei me deu uma solidão, me deu um desespero, as crianças dormindo. Olhei aquela paisagem, aquele campo, a madrugada…

Aninha - … Pampa gaúcho, que lindo… e a fazenda dela era linda…

Maria Teresa -… É… Mas eu nunca mais vou esquecer este momento. O momento pior da minha vida foi este, porque me senti perdida naquilo ali. Aliás, eu nunca gostei daquela fazenda: era a única fazenda de que eu não gostava.

Aninha - E essa fazenda de que ela fala era assim: triste…

Maria Teresa - … Continua até hoje assim…

Aninha - …Era uma fazenda bonita, o campo… Acho que é um dos melhores campos da América Latina, do Rio Grande do Sul… Sei lá… Agora, a fazenda era triste. Na época que eu era criança, eu ia lá, quando Jango vinha a São Borja, eu ia com meu pai lá, já era triste. É uma fazenda escura: a casa é escura. A Tetê sempre fala de uma janela que batia e depois, lá em Mercedes, na Argentina, na fazenda em que Jango morreu - também existia uma janela que batia na noite da morte do Jango…

Maria Teresa - … Era uma coisa triste, sabe, aquela coisa melancólica, tétrica, tétrica…

Fantasmagórica…
Aninha - Até a fazenda da Denise, que é do lado, era muito mais bonita.

Maria Teresa - A da Denise é lindíssima…

Aninha - Denise, era uma fazenda que Jango tinha ao lado do Rancho. Como é o nome dessa fazenda?
Maria Teresa - Rancho Grande.

Aninha - A triste era a Rancho Grande?

Maria Teresa - Era.

Antônio Oséas - A senhora chorou devido a tensão acumulada…

Maria Teresa - …Claro, aí eu digo: o que estou fazendo aqui? Aonde vou? Onde vou parar com meus filhos. E sozinha, não sabia de Jango, não sabia de nada, ninguém para me orientar... Caí lá em São Borja. Porque, se eu caísse lá em Porto Alegre, estava o Brizola, estava todo mundo… Jango… Mas, me levarem para aquele lugar, que eu detestava… E eu caí naquele buraco, ainda… Não deu outra, né?! Aí cheguei, arrumei as crianças, botei as crianças para dormir, fiquei com a governanta conversando, os meninos se despediram de mim. Aí eu falei com o Virgílio, o cabeleireiro: você vai ter de voltar; você não pode ficar aqui comigo… vão te prender, Virgílio. ("Ah, não, mas eu quero ficar com a senhora"). Não senhor, o você não pode ficar aqui comigo, Virgílio, você tem de ir embora. Aí o ajudante-de-ordens do Jango convenceu o Virgílio a voltar. Aí, ficamos eu, a governanta e os meninos. E, aí, aquela despedida chorosa… os meninos, os ajudantes-de-ordens do Jango, que era o Azambuja (não me lembro qual era o outro); o comandante do avião. E aí nós ficamos naquela casa… Ah, eu dizia: meu Deus do céu, o que estou fazendo aqui nessa fazenda… Aí eu botei os meninos para dormir e fiquei na porta da fazenda, olhando tudo aquilo e dizendo: meu Deus do céu, o que estou fazendo aqui nessa fazenda… Sozinha… Será que vai aparecer alguém aqui… Uma alma que venha aqui… Aí, passou. Quando foi, mais ou menos, meio-dia, uma hora da tarde, eu já tinha descansado um pouco, vi que chegou um jipe cheio de militares. Pensei: nossa, vão me levar presa… Só pode acontecer isso, o que esses homens estão fazendo aqui em casa? Aí, eu vejo que eles entraram para o outro lado da fazenda, onde mora o capataz. Os quatro desceram, falaram com capataz e vieram em direção à minha casa. Fiquei meio que escondida atrás de uma porta, olhando, e eles bateram na porta (o capataz bateu na porta e eles ficaram parados… ). Eles trouxeram uma mensagem do Comandante de São Borja, dizendo que eu não poderia permanecer ali em São Borja, porque estava correndo risco de ser presa e que eu tinha de me retirar. Mas eu iria para aonde?! Não tinha para aonde ir.
Aninha - Nesse dia, em São Borja, a notícia era de que o Jango viria para a fazenda. A Maria Teresa tinha chegado na madrugada, mas a cidade não sabia. Sabiam que tinha chegado um avião na cidade, mas não sabiam quem era. E a fofoca, na cidade, era que o Jango iria passar na fazenda, pegar a Maria Teresa. E aí, algumas pessoas da cidade foram para a estrada para bloquear a estrada, para dar tempo do Jango aterrissar, pegar a Maria Teresa e sair. Eu lembro desta história, porque meu pai estava envolvido…

Maria Teresa - Aí, eu disse para ele, o milico que estava falando comigo, me dando ordens para sair: não tenho para aonde ir. Você quer que eu vá para aonde? Então vou para o centro da cidade e vou ficar sentada na praça. Falei bem assim para ele… "Não, mas a senhora não pode falar assim comigo, porque são ordens do Comandante"… Eu disse: olha, não tenho pra aonde ir. Eu não vou sair daqui, enquanto não souber notícias de alguém, do Brizola ou do Jango ou de alguém que me dê uma orientação do que eu tenho de fazer. Mas senhor não vai me levar daqui, não! Com o senhor, eu não saio daqui, não! Ele disse: "tudo bem, então tá". E foi embora. Eu dizia: meu Deus do céu, que apareça alguém, uma alma, um avião, uma coisa, uma condução… Para me tirar e meus filhos daqui… Não deu outra: (vooooonnnnn)… O aviãozinho do Jango com Maneco Leanes. O Jango tinha mandado o avião. Mas foi uma correria tão grande, porque, como disse a Aninha, eles estavam esperando que Jango viesse. Pedi ao Maneco que esperasse um pouco, mas ele disse assim: "Não, Maria Teresa, é agora, vamos já, vamos, agora, para o Uruguai. Já está tudo preparado para vocês irem para o Uruguai". Eu peguei os meninos, botei dentro do avião e saímos a toda… Aí, o Maneco me disse: "eu pedi licença ao aeroporto daqui". Porque eles queriam que o Maneco descesse no aeroporto, viesse com os milicos me pegar, para saberem quem iria. Então, o Maneco não fez nada disso. Ele veio direto para a fazenda, me pegou e saiu voando para o Uruguai.
Pousou na fazenda?
- Pousou na fazenda. Eu disse: os meninos têm de tomar café, têm de tomar mamadeira, e ele "não, não, não, não… Não dá tempo de nada… Nada, nada, nada… "

Foram com a roupa do corpo, novamente…



Era uma prisão: não podia sair da cidade…

- É, era uma prisão.

Aninha - A Tetê, em uma das vindas dela do Uruguai para o Brasil, para fazer um visita, em Porto Alegre a uns familiares; foi presa na volta...
Maria Teresa - É, na volta.

Foi única vez que a senhora resolveu vir ao Brasil?

- Eu já tinha sido presa também lá no Uruguai. Mas aqui foi uma coisa muito ruim. Na fronteira do Rio Grande tinha um destacamento militar e eu vinha com meus dois irmãos, num carro; minha prima e o marido da minha prima, que é advogado, em outro carro, um Fusca. Nós tínhamos vindo do Uruguai porque meu pai ia fazer uma cirurgia e o Jango mandou que eu viesse a Porto Alegre esperar meu pai, que vinha de São Borja, para a cirurgia. Então, viemos todos juntos. Quando nós chegamos na fronteira, passando Rio Grande, tinha um quartel. Quando paramos o carro, mostrei meus documentos (todo mundo mostrou documento). O cara pegou meu passaporte e foi lá para dentro. Quando ele voltou, mandou eu descer do carro (eu, minha prima e meu primo). Meus irmãos passaram, não teve problema algum. Mandou: entra. Nós entramos. E ele disse: "a senhora está detida". Por quê? "É ordem do Coronel (ou General, sei lá quem) e vocês vão ficar aqui, até segunda ordem". Aí, ficamos eu, minha prima e meu primo presos naquele quartel.

Que ano foi isso?

- Foi mais ou menos em 1970.

Foi a primeira vez que a senhora voltou ao Brasil?

- Não, já tinha voltado. A senhora tinha passaporte brasileiro?

- Tinha. Mas quando eles viram que era meu passaporte, eles mandaram descer todo mundo. Eles arrebentaram o carro do meu primo inteiro, vasculharam tudo; e a minha prima tinha mania de comprar remédio (ela comprava tranqüilizante, porque o filho dela fazia um tratamento e ela comprava remédio no Uruguai para trazer para o filho… ). Pegaram os remédios todos (eles achavam que era eu que tomava tranqüilizante, mas nunca tomei tranqüilizantes na minha vida. E durante três dias nós ficamos presos...

Setenta era o auge da repressão...

Maria Teresa - Nos mantiveram presos. Todo mundo dormindo naquelas caminhas. Até pra ir ao banheiro tinha um milico atrás da gente. E, aí, eles fizeram uma reunião com a gente… Com perguntas (ah, pegaram a minha agenda). "Quem é Matilde, quem é fulana de tal?". Matilde era uma amiga que vendia roupas, uma muambeira de primeira… E quem é fulano de tal?

Que época do ano era?

Maria Teresa - Era verão… Foi em outubro, de 1970. Mas era assim: um monte de militares sentados em uma mesa e a gente. "A senhora quer fazer o favor de sentar aí". Aí, eu me sentei (eu sozinha e a mesa lá em cima, eles sentados, pareciam uns frescos lá sentados). "Minha querida, a senhora toma algum remédio?". Eu disse: eu não, não tomo remédio nenhum. "Como é que nós encontramos dentro do carro da senhora… ". Um momentinho: o carro não é meu; o carro é do meu primo, casado com minha prima. "Sim, mas encontramos uma quantidade de remédio, tranqüilizante". Não sei não senhor, porque não tomo isso. (era a Teresinha quem comprava os benditos remédios). Eu nem sabia que eles tinham encontrado remédios, porque ela nem tinha me dito que tinha remédio ali (até os pneus do carro tiraram para examinar… acho que era droga, não sei o que era). Aí, eu tinha uma amiga que tinha paixão por... Não sei se vocês conhecem um negócio que vem num tubinho assim, que parece uma ervinha, que dá cor no arroz, como é o nome?...

Açafrão?
- É, açafrão. Na época, vendia-se, no Uruguai, em uns tubinhos de vidro. Eu trouxe uns três ou quatro vidros para uma amiga, que não me lembro quem era, que me pedira. Eles pegavam os tubinhos e perguntavam: "Dona Teresa, o que é isso?". Aí, eu olhei (me deu vontade de rir, até). "Isto aqui, o que é?". Eu disse: é açafrão, o senhor não conhece? "Não, eu não conheço". Então vou explicar o que é: isto aqui é que se bota no arroz para ficar colorido. "Nós vamos mandar para exame de laboratório". (Eles estavam achando que era maconha, ou não sei o que...). Depois veio minha prima (ela chorava desesperadamente. Eu não chorei). E outra coisa: eles nos botaram em um quarto e chamaram duas mulheres (deste tamanho assim… ) e mandaram eu tirar a roupa, na frente das mulheres. Toda a roupa. Eu e minha prima. Eu fui tirando, tirando, e aí perguntei: a senhora quer que eu tire tudo? "Sim, tem de tirar tudo". Aí, eu tirei a roupa toda e a mulher ficou me olhando… Eu disse: o que a senhora quer? Porque não estou entendendo, disse para a mulher. "A senhora pode vestir a roupa". Eu me vesti de novo e fui lá para a sala dos milicos. Mas eu não estava entendendo mesmo: aquela mulher e eu peladona lá dentro… E eu parada: o que a senhora quer?
Aninha - Mais um desrespeito deles com a Tetê e com a família dela foi quando a mãe dela faleceu, não me lembro o ano. O Exército não permitiu a descida de Maria Teresa em São Borja. Ela acompanhou o enterro da mãe, de avião. O enterro caminhando pelas ruas e o avião voando por cima...

Maria Teresa - Não me deixaram descer, porque se descesse, seria presa...
Que ano foi isso?

- Foi em sessenta e nove.

Aninha - Ela acompanhou o enterro da mãe até ao cemitério de avião. Dali mesmo ela voltou, porque disseram que se aterrissasse ia presa. Então ela acompanhou, com Maneco pilotando. Na morte do pai dela, eu estava no hospital e é uma imagem que jamais vou esquecer. A Tetê foi autorizada a descer, porque o pai estava muito mal e todo mundo dizia que ela tinha de vir para poder conversar com ele. Ela foi autorizada a descer, mas foi escoltada até o corredor. Ela só teve 15 minutos para estar com o pai. Eu lembro bem dela: saia escocesa xadrez, malha uruguaia preta, cercada de milicos de metralhadora em punho... Lembro até do barulho das botas dos soldados caminhando até a porta do quarto dele... Ela entrou no quarto. Não lembro se entrou algum milico…

Maria Teresa - Não, eles ficaram na porta.

Aninha - Pois ela entrou, assim tipo - entrar, dar um beijo e sair. Quando ela virou as costas, ele faleceu. E a Tetê teve que ir embora. … Ela ainda estava dentro do hospital, mas teve que ir para o aeroporto, pegar o avião e voltar para Montevidéu...

Maria Teresa - Eles me levaram em um jipe do Exército...

Aninha - Tenho bem clara na na minha cabeça essa cena... Um desrespeito total.

Quando a senhora veio pela primeira vez ao Brasil, depois do golpe de 64?

- A primeira vez que eu vim foi no casamento do meu irmão, João José Fontela.

A senhora podia vir livremente ao Brasil?

Maria Teresa - Podia. Mas só que tinha um detalhe: chegava aqui… Por exemplo, no casamento do meu irmão, fiquei três dias. Era uma coisa assim, tipo tudo controlado. Que horas vai, que horas vai voltar, qual o avião que vai, qual é o vôo… tudo isso.
Denise Goulart - Dependia muito da situação no Brasil. Você podia ter um pouco mais ou um pouco menos de liberdade, não é?

Maria Teresa - É. Foi bem como disse a Aninha. Na morte de papai, o jipe do Exército já estava esperando na pista do aeroporto. O Maneco pediu licença para aterissar o avião, deu os motivos, disse que vinha me trazendo porque meu pai estava mal. Eles chegaram, me botaram dentro do jipe (Maneco nem foi, ficou dentro do avião) - e me levaram. Cheguei no hospital, logo depois meu pai faleceu. Foi o tempo de ver meu pai. Tive que voltar em seguida imediatamente. Eles só diziam, não… não… Embarca! Vamos embora! Não tive opção.

Como Jango viajava? Ele tinha passaporte?

Maria Teresa - Não. Ele não tinha passaporte. Aí nós fomos ao Paraguai e ele conseguiu um passaporte paraguaio. Acho até que a Denise tem esse passaporte com ela. O Stroessner convidou o Jango para ir ao Paraguai, dissemos a ele ele que Jango não podia viajar para lugar nenhum porque eles tinham tirado o passaporte dele no Uruguai. Então ele disse: "Vou te dar um passaporte". E deu.

Denise Goulart - Ele usava passaporte diplomático do Paraguai e também uma identidade paraguaia.
Aninha - Um dia ele me mostrou a carteira de motorista dele, uruguaia, porque a documentação brasileira dele acabou.

Maria Teresa - Ele não era mais cidadão brasileiro, não tinha mais a cidadania.
Incrível, naquela época não tinha ainda o ato de banimento, instituído em 70. Falam que Jango vinha a Pasos de los Libres e que ele ficava ali na fronteira olhando a ponte para matar as saudades. Isso é verdade?

Maria Teresa - Não. Que eu saiba não. Ele foi duas vezes só. Pelo menos, comigo ele foi duas vezes. Lógico que aquele lugar marcava um pouco para ele, porque era o lugar mais próximo do Brasil que ele tinha. Mas não era essa coisa de ele ficar olhando…

Ele tinha muita saudade do Brasil?

Maria Teresa - Sentir, ele sentia, mas não falava. Esse negócio da ponte não existia…
Passa-se uma imagem de que, no final da vida, ele estaria nostálgico…
Maria Teresa - Não. Ele tinha muita vontade de sair dali. Tinha vontade de ir para a Europa. Estava organizando toda a vida para comprar um apartamento para os meninos em Londres, porque ele queria que os meninos continuassem em Londres. Esta é a realidade, porque ele conversou comigo isso, muitas vezes. E Paris. Ele brincava muito comigo. Mandou eu escolher um lugar para comprar um apartamento e eu disse: quero Paris. "Ah, não, você é muito chique", brincou. Ele dizia que tinha horror de Londres, que só ia lá por causa dos meninos. Por isso eu insistia: já que você não gosta de Londres, compra o apartamento em Paris. Ele estava organizando os negócios dele morar em Paris, quando morreu.

Denise Goulart - Essa imagem de nostalgia, cultuada no Brasil, tem a ver um pouco com o fato de que, como ele estava no exílio, no desterro, não podia voltar. Para justificar um pouco a morte dele como conseqüência da ditadura. Ele era um homem que tinha problemas cardíacos...

Maria Teresa - Acho que a doença do Jango apressou um pouco porque ele fez um regime para emagrecer. Ele comprou um livro, quando estava em Londres, do doutor Atkinson, ou coisa assim, que dizia que a gordura não engorda. Ele pegou aquele livro e começou a fazer aquela dieta. Teve um dia que falei: Jango, desculpe que eu diga uma coisa, mas como é que você vai fazer um regime sem orientação médica? Realmente, ele, em um mês, emagreceu sete quilos. Ele comia assim: um pedaço de carne, um ovo e não sei mais o quê. Ele só comia melão, suco de melão. Ele, realmente, emagreceu. Agora, ele entupiu as coronárias (aquilo era gordura pura… ). Depois que ele morreu, um dia eu estava lendo o tal regime do doutor Atkinson e pensei assim: meu Deus do céu… Mostrei até para a Denise e falei: Denise, acho que isso aqui apressou a morte do Jango. Ele não fazia exame, não fez exame de colesterol, nem coisa nenhuma e fez esse regime. Isso é um negócio que ninguém agüenta...
Ele morreu fazendo regime?

- Já tinha feito, mas continuava magro e continuava sem comer as coisas que estava acostumado. Só comia as coisas da dieta.

Hoje, Brizola se foi, o PDT está aí com desafios. Sua mensagem para os pedetistas?
- Ah, eu gostaria, até que gravassem mesmo. O PDT perdeu um grande líder, Brizola. E acho que o Brasil perdeu um grande Presidente, Jango. E outra perda foi o Getúlio. Acho que as idéias para o Brasil - a espinha-dorsal de tudo - precisam levar em conta os legados de Vargas, Brizola e Jango. Porque eles realizaram muita coisa. Porque, os políticos que estão aí, hoje em dia, não têm… Acho que o Brizola foi a grande força política depois do Jango, indiscutivelmente. Eles foram pessoas que marcaram muito. Acho que o Brizola foi um grande líder, Jango também… E Vargas...

Foram três personalidades...

- É. Foram.

Tânia Fayal - Quer dizer que, politicamente, a senhora vê o PDT como um partido vivo, atuante, que tem lideranças que, de certa forma, continuarão o trabalho iniciado por Getúlio, que passou por Jango e Brizola. Pessoas que já fazem parte da História apesar de tão esquecidos e massacrados...

"O povo esquece. Agora no Carnaval, por exemplo,
ninguém levantou a voz no sambódromo para homenagear Brizola"

Maria Teresa - É... Mas o povo esquece das coisas também, porque… Sabe que eu fico danada da vida. Eu estava falando com um amigo meu, outro dia, dizendo: como é que fazem… Olha, teve essa coisa, agora no carnaval, ninguém levantou a voz para fazer uma homenagem ao Brizola. Foi o Brizola que criou tudo aquilo, foi Brizola que fez o sambódromo. Eu estava lá no Sambódromo e disse para a Aninha: isto aqui é uma obra que não tem igual. O povo recebeu isto assim. de presente. Pois ninguém pegou uma bandeira com a foto do Brizola para prestar uma homenagem. As pessoas esquecem das coisas…

Tânia Fayal - Em 2004 já deveria ter sido feito isso. Mas nós não temos nenhum governo preocupado com isto. Tanto o governo do Estado, quanto o governo do Município não tem interesse nisso...

Maria Teresa - Seria um gesto fantástico, um reconhecimento...

Teve até cartaz de bicheiro: foi o Salgueiro que fez…

- Eu fiquei possessa. Falei até para o Boechat. Disse: Boechat, você me desculpa o que te digo, mas vou te falar uma coisa: bota uma nota no jornal, porque estou injuriada, porque não teve ninguém capaz de pegar uma bandeira, ninguém deu uma nota sobre Brizola, em homenagem ao Brizola no Sambódromo. Gente, aquilo é um monumento! Até eu ficava, assim, olhando e dizendo: meu Deus… Aquilo ali que marcou época para o povo. Para o povo! Essas coisas que me irritam. Sou uma pessoa muito desiludida, politicamente. Eu acho que a política de antigamente… Hoje não temos mais homens, assim, de caráter, gente do bem, com tinha antigamente. Não sei, as pessoas estão tão estranhas... São pessoas que só visam seus interesses. Só pensam neles, nas pessoas deles. Acho que hoje não têm mais líderes, como tínhamos antigamente.

A história do País se interrompeu…

- … Interrompeu. É uma história interrompida…

E o governo Lula?

- Que cara-de-pau, hein, sem palavras...

A morte de Jango

Osvaldo Maneschy - Convivi com o Raul Ryff, que ia muito no Uruguai, estava sempre com Jango. Lembro da dificuldade que foi seu sepultamento aqui no Brasil. Queria que a senhora tocasse neste assunto… Jango morreu no exílio. Acho que foi o único Presidente brasileiro que morreu no exílio.

Maria Teresa - Eu sempre falo que o Jango teve uma morte melancólica, como os últimos dias que ele viveu, porque foi uma coisa de repente, nós estávamos praticamente num buraco, porque aquela cidadezinha - Mercedes, em Corrientes - era um buraco. A fazenda era muito bonita, mas era um buraco. Não tinha ninguém por perto para dar um SOS… Eu acho que o Jango teve uma morte… Se bem que ele teve… Graças a Deus… Ele dizia que o dia em que ele morresse, ele não queria sofrer, que ele queria morrer dormindo, se possível. E foi como aconteceu. Ele estava dormindo quando morreu. Eu acho que ele teve a morte que ele queria. Agora, as pessoas ficam cobrando certas coisas que não entendo, porque já houve uma polêmica em torno da morte do Jango: que não fizeram autópsia, que eu teria dito "ah, para que fazer autópsia, se ele já morreu?". Nada disso é verdade! Eu estava sozinha…
Aninha - Tetê, conta que vocês estavam em Libres, almoçando em um restaurante, indo para a fazenda…

Maria Teresa - É, indo para a fazenda, porque ele estava fechando um negócio de um gado que ele tinha vendido. Então ele me disse: "Maria Teresa, vamos descer na saída de Taquarembó". Pegamos um barco, chegamos lá em Libres (pegamos um aviãozinho e chegamos em Libres), de Libres pegamos um carro e fomos para a fazenda, que ficava perto.

Só a senhora e ele?

Só eu e ele. E ele estava um pouco cansado, neste dia. Ele me disse: "estou um pouco cansado, mas vou dirigindo, porque eu quero chegar cedo, porque eu tenho de falar com uma pessoa, tenho de fechar um negócio de gado". E, nós chegamos em Libres, almoçamos, e fomos embora para a fazenda. No caminho, olhei para ele e vi que ele estava meio cansado mesmo (sabe, quando você olha para a pessoa está com olheiras, cansado…). Eu falei: Jango, você não quer que eu dirija um pouco? Porque você está com um ar tão cansado. Ele disse: "Não. Estou bem, ainda; pode deixar que, se eu precisar, te digo". Chegamos na fazenda, ele tomou um banho, fiz um jantarzinho, uma comida qualquer para ele. Ele disse: "ah, vou dormir cedo, porque estou cansado e amanhã tenho de encontrar com essa pessoa que vem aqui para fazer o negócio". De noite, ele faleceu. Aí, criaram a polêmica de que ele teria tomado não sei o que neste restaurante… Que alguém teria botado não sei o quê… (Até eu botei remédio… Sei lá, que estava matando… ). Fui considerada uma das participantes do assassinato. Saí até nas revistas como assassina.

Aninha - Angela cortou uma nota em um jornal, que dizia que você era a responsável pelo envenenamento...
Maria Teresa - É… Exatamente. E lá em Brasília. Saiu em uma revista de Brasília, da Igreja Universal, uma fotografia minha e do Jango, deste tamanho, que está com o advogado até, dizendo: "principal suspeita do assassinato, a ex-Primeira-Dama Maria Teresa Goulart." Acho que uma coisa dessa não tem explicação… Também falaram muito porque Jango teria sido enterrado de pijama... Não foi nada disso. Gente, quem que vai para uma fazenda e levar um terno para ser enterrado? Ninguém. Então, foi de quê?! A calça jeans, camisa, camiseta… Essas coisas que a gente usa: botas, não sei o que, para ir para a fazenda. Foi o que aconteceu. Queriam que o Jango fosse enterrado como o Kennedy foi, mas Kennedy teve uma morte cinematográfica. A gente estava em um buraco, lá. O médico que chamaram (eu, desesperada, que não sabia nem quem chamar, chamaram um médico), deu o atestado de morte (morte, não sei o que lá… ). Botaram que eu é quem tinha feito, eu é quem tinha dito para não fazer… Eu nem sabia que se fazia autópsia, nunca tinha visto ninguém morrer na minha vida...

Aninha - Tetê, vocês chegaram na fazenda, daí o Jango foi deitar e você ficou lendo, tinha uma janela que batia… Como foi?

Maria Teresa - A casa, era um casarão enorme, que horror… Só nós dois, tinha uma casa de caseiro lá do lado… Aí, começou a bater uma janela, bater uma janela, aí o Jango disse: "ah, eu vou dormir, porque estou cansado". Eu disse: vou apagar a luz, então… Ele falou: "Não, pode ficar lendo". Fiquei lendo uma revista, e a janela batendo, batendo… E eu louca de medo de ir fechar esta janela, porque a casa era assim um negócio que ia daqui até aquela outra esquina, de tão grande. Pensei: ah não vou me levantar, não; sair por essa casa, com essa janela batendo… A essa hora da noite… Aí, eu apaguei a luz e fiquei algum tempo acordada. De repente, vi que o Jango estava respirando diferente. Acendi a luz de novo e comecei a chamar: Jango, Jango. Mas quando chamei, eu que tinha virado o corpo assim (sabe, quando segura com uma força incrível o travesseiro… ). E ele nunca dormia assim de lado: ele sempre dormia assim… Aí, fui para o outro lado da cama dele e comecei a chamar, chamar. Aí, ele soltou o corpo, assim… Eu vi quando ele faleceu. Aí abri a porta e sai correndo pelo campo, naquele jardim e comecei a gritar pelo caseiro: Júlio, Júlio. E o cara veio armado, ainda, com aquela arma, porque ele pensou que alguém tinha invadido a casa. Foi uma cena horrível. Vocês já imaginaram, perder uma pessoa, dentro de uma casa que não tem a ver contigo, sem ninguém por perto, e o caseiro... Que nem sabia falar direito... Não ter ninguém para recorrer... A primeira coisa que pensei foi no Brizola para ele me dizer qual atitude que devia tomar...
Vocês tinham telefone?

Maria Teresa - Nada, nada, nada. Aí o que aconteceu: eu peguei o caseiro, e disse: vai correndo chamar um médico no primeiro lugar que tiver. O médico veio, um médico de algum lugar dali, que não sei bem. Nem vi a cara dele direito. Ele me falou: "Dona Maria Teresa, ele teve um enfarte total: aquele que parte o coração". Em seguida, ficou uma mancha assim… Aí, começaram as pessoas: porque o Jango morreu assim, porque Jango morreu assado. Porque foi enterrado assim; porque estava de pijama... Quem disse que Jango estava de pijama? Ele estava vestido com uma camisa branca, uma calça jeans, que era o que tinha ali, na hora. Arrumamos ele, fizemos o velório ali na casa. Não, mas as pessoas ficam inventando umas coisas que não têm explicação. Aí veio o tal do envenenamento...

Aninha - Quando houve a comunicação ao Brasil da morte do Presidente João Goulart, houve alguma manifestação do governo brasileiro, de não sair da Argentina?

Maria Teresa - Ele disseram que o Jango não podia sair… Se quisesse trazer o Jango para São Borja, tinha de sair de barco pelo Rio Uruguai, mas era um calor de não sei quantos graus. O corpo teria que ser embalsamado. Mas em um buraco daqueles quem é que saberia fazer isto? Então, fomos de carro para São Borja, passando por Libres.

Aninha - Houve tensão na fronteira…

Maria Teresa - Eles mandaram descer o corpo; depois disseram que não podia descer; que não podia isso, que não podia aquilo… Mas o Almino Afonso já estava lá e ligou para o Presidente, ou para sei lá quem, e disse: "Não podemos fazer uma coisa dessas. Estou aqui com a família, Dona Maria Teresa está sozinha, os filhos estão na Inglaterra, o corpo está mal-embalsamado e tem de seguir para São Borja para ser enterrado". Então, eles liberaram. Mas, até liberar, foi uma cena, porque eles queriam que eu voltasse com o corpo, entrasse de barco não sei por aonde… Pelo rio Uruguai, sei lá. Aí, chegamos em São Borja onde foi a missa e o enterro. Cheio de militares por todos os lados...

Aninha - A cidade toda se mobilizou, desde a madrugada, antes da chegada do corpo. Houve uma determinação do governo brasileiro de que quem estava dentro da igreja ficava e quem estava fora, não entrava. Foram fechadas as portas da igreja para o público. Daí, quando chegou o corpo, a igreja estava lotada, mas a população mesmo não pôde entrar. Na saída da igreja o povo tomou o caixão - o que a gente deveria ter feito com o Brizola e não fez - da guarda que o carregava. E o caixão do Jango começou a sumir nos braços do povaréu. Eles diziam que não podia ir a pé, que não podia ter cortejo, mas havia uma multidão no enterro do Jango. Foi o povo que carregou, o caixão sumiu no meio do povaréu e as pessoas começaram a andar, andar. No cemitério eles devolveram o caixão para fazer o sepultamento...
Os filhos estavam em Londres?

Maria Teresa - Estavam. Mas pegaram um vôo da Varig e, no Rio, pegaram um jatinho. Só que quando chegaram não puderam ver o Jango porque o caixão já estava fechado por causa do calor. Eles não chegaram a ver o Jango.

Qual a maior lembrança que o homem João Goulart deixou na senhora?
Maria Teresa - Acho que ele foi assim… Uma pessoa assim… Muito, mas muito, muito carismático. Muito bom, muito de bom de coração.

Jango foi o amor de sua vida?

- Foi, claro que foi, foi, foi.

Apesar de todas as fofocas, que diziam que o Jango tinha isso, tinha aquilo; inventavam muito, falavam mal da senhora…

- De mim, então…


Acho que foi a única Primeira-Dama que foi tema de música. Do Juca Chaves.

- É… Ele falava muito de traições. Do Jango, então… Eu virei até garota-propaganda…

Aninha - Eu via uma coisa de amizade, de carinho, amorosa, legal.

Maria Teresa - O Jango era uma espécie de… Eu fui criada muito sozinha, muito separada da minha família, dentro de um colégio: fui com sete anos para um internato. Fui uma criança que não teve adolescência, nem infância, porque fiquei sempre dentro de um internato. Então, o Jango passou a ser para mim uma espécie de conselheiro, de pai, de irmão - tudo que não tive na minha família. Jango foi a pessoa que mais me orientou na vida. Tanto que as pessoas achavam que não. Mas ele era uma pessoa que me orientava em tudo, que me ensinava tudo. Então não tem essa coisa de dizer que… Realmente, ele era assediado pelas mulheres. Era um homem charmoso. Quando eu conheci o Jango ele tinha umas mil e quinhentas mulheres, essas coisas todas… Mas eu fui a escolhida. Então, tinha alguma coisa a ver, é muito forte, não é?! Porque, ele, um homem poderoso; e eu de uma família humilde de São Borja, família de imigrantes italianos. Vivia em uma fazenda, não tinha nenhuma coisa de sociedade, porque eu não freqüentava nada disso. Se ele me escolheu é porque sentia alguma coisa por mim. Ele tinha uma afinidade muito grande com os filhos também, ele tinha paixão pelos filhos.
E as fotos dele com os filhos…

- São lindas as fotos. Pode ver que ele estava sempre sorrindo; está sempre…

Com a morte dele, a senhora voltou a morar logo no Brasil…

Maria Teresa - Não, fiquei morando muito tempo ainda no Uruguai. Eu não conseguia me adaptar ao Brasil. Engraçado, isso que aconteceu comigo: sou brasileira e quando voltei para o Brasil me senti uma estranha no ninho…

Quando a senhora voltou de vez para o Brasil?

- Voltei mesmo no ano em que a Denise casou. Em que ano você casou?

Denise Goulart – 1979.

Aninha - Foi no hotel Glória. Estavam lá a Ivete, o Brizola, o Arraes; os amigos da Denise. Do Uruguai, vieram…

Maria Teresa - … Os amigos do Jango, o Tancredo Neves, o Waldir Pires…

Aninha - … Darcy, Julião…

Maria Teresa - Foi muito linda a festa dela.

A senhora voltou mesmo foi com a anistia...

- É, mas voltei para o Uruguai, não fiquei morando aqui não. Eu ia e voltava. Ia e voltava, não conseguia me adaptar. Comecei a me adaptar, mesmo, há pouco tempo…

A senhora ainda vai muito ao Uruguai?

Maria Teresa - Não. Vou muito a Porto Alegre. Não vou muito, agora, ao Uruguai. Mas teve um tempo que queria morar no Uruguai, queria ficar no Uruguai, estava querendo a cidadania uruguaia… Já estava muito enraizada... Não queria mais sair do Uruguai. Mas depois vim para cá. A Denise casou. Depois ela separou, fui ficando… Mas gosto muito do Rio Grande do Sul.
Antonio Oséas - Presidente João Goulart, lembro bem. Era estudante de ginásio e tínhamos muito orgulho do Presidente. Tínhamos orgulho também da Primeira-Dama, que disputava em beleza com Jacqueline Kennedy e Fara Diba. Era uma época em que guris de colégio público tinham orgulho dos líderes. O País mudou muito, mudou para pior…

Maria Teresa - Pior é que é mesmo… Os valores foram totalmente dissipados. Basta dizer, que temos um presidente que é um terror…

Oséas - Temos uma Primeira-Dama que tem sala de despacho no Planalto...

Maria Teresa - Para fazer o quê?

A senhora mostrou ser uma lutadora, cuidando dos filhos, mantendo a postura. O que diria pelo Dia Internacional da Mulher?

Maria Teresa - Acho que o papel da mulher precisa ser forte. A mulher tem um papel importante na vida do homem. Isto é fundamental. A gente sempre tem de estar presente em todos os momentos. Até me arrependo, às vezes. Fico pensando na minha vida, que poderia ter sido muito mais companheira do Jango, ter acompanhado muito mais. Mas tem também aquela coisa do gaúcho, que falei, meio machista… Mas, ainda hoje me cobro: por que não estava lá com ele naquele tal momento? Porque não participei mais?

Ele não dava espaço?

Maria Teresa - Não, não dava não. Ele preferia que eu ficasse meio de lado. Talvez ele pensasse em competência, que eu fizesse mais certo do que ele…

Ele competia?

- Claro que competia. O Denner dizia assim: "Presidente, o senhor não pode fazer isso com ela. Ela tem de ir, Presidente". Ele falava: "Não. Deixe isso comigo, Denner". O Denner discutia com ele.

Aninha - Você não falou nada do Denner, ele foi muito importante na sua vida. O Denner teve importância muito grande na sua transformação, de menina simples do interior do Rio Grande do Sul em Primeira-Dama linda. Eu gosto de uma historinha que tu sempre nos conta, de como ele te ensinou a se vestir, a se portar. Fechava uma porta, tinha uma escada, botava algumas pessoas lá em baixo e dizia: "Agora, de vestido de gala; desça a escada". No início, era difícil, até tu aprenderes a descer uma escada como deve ser feito. Como uma Primeira-Dama. Sentar. Porque, tem coisas tuas - da delicadeza, da postura, do cruzar as pernas, que, acho, vieram dos ensinamentos do Denner. E que tu conservas. Como do vestir, do jantar, da mesa, do dia a dia...

"A sua postura como mulher, ao lado de um presidente
ou de um homem público, é fundamental. Denner me ajudou muito"

Maria Teresa - Denner foi muito importante nesta minha vida, a pública, porque a gente pode pensar que não é, mas postura é uma coisa importante. A tua postura, como mulher, ao lado de um Presidente, é fundamental. Acho importantíssimo o papel da mulher - não só ao lado de um Presidente, mas do homem público em geral. Eu era muito tímida quando cheguei. Conheci Denner quando fiquei grávida do João Vicente, ele trabalhava na Casa Canadá, fazia desenhos para a Mena Fiara. A Mena fez duas ou três roupas minhas, de gravidez. Conheci o Denner ali, ele tinha a minha idade, era garoto ainda. Tive muita afinidade com ele. Ele foi depois para São Paulo e começou a fazer sucesso. Quando o Jango tornou-se Presidente, o procurei. Disse: olha, Denner, tenho esse grande problema na minha vida. Agora tenho de aparecer ao lado de um homem importante e sou muito tímida. Lembro muito bem do que ele me disse: "Olha, Maria Teresa, tem uma coisa que vou te ensinar. Quando você for nessas festas muito importantes, não fale muito. Apenas sorria. Quando falarem, sorria. Não fica debatendo problemas com a mulherada porque não tem nada a ver. Sorria sempre, mantenha a postura de Primeira-Dama". Então, ele me ensinava a descer escada e tudo o mais… Ele ia lá no Torto e me mostrava roupas, aquelas coisas todas. E me dizia sempre: "Você tem de sentar assim; tem de ficar assim; a mão tem de ser desse jeito, etc". Lembro que teve um jantar que ele fez uma roupa belíssima para mim. Foi o jantar com o Presidente Tito. Nem precisava contar esse detalhe, mas é muito engraçado. Aí, estava com uma roupa linda, linda … Toda bordada, um vestido meio salmão, todo bordado. No jantar, me lembro, foi a primeira vez na minha vida que vi um faisão. Nunca tinha visto um faisão na vida. Veio o garçom assim, com aquela bandeja assim, na minha frente, para eu me servir. Olhei, vi umas peninhas, não sabia como fazer. Sorri para o garçom e pedi que ele me servisse… Porque, claro, como ia me servir com aquelas penas todas ali? Parecia uma galinha pintada! Tinha de levantar aquilo tudo, tirar a carne lá de dentro, Ah, não! Depois de me servir, ele ofereceu ao senhor que estava ao lado, que era o Presidente Tito. Mandei que ele servisse ao Tito também, através do meu secretário, o José Carlos de Carvalho, que traduzia as coisas para mim. Eu pedi para servir o Presidente Tito porque achei que ele também não ia entender direito aquilo... O garçom foi lá e também serviu ao Presidente Tito. Pois são umas coisas muito engraçadas que acontecem… Outra vez estava sentada e tinha um pé de sapato que me apertava. Então tirei um pouco o sapato… Aí tive que levantar para um brinde. Levantei e quando procurei, cadê o sapato? Não achei. Não achava o sapato de jeito nenhum. Disfarcei, chamei José Carlos e disse baixinho: perdi o sapato… E ele, prontamente: "Deixa comigo, vou encontrar". E, é claro, encontrou o sapato e ninguém se deu conta de nada...

Tânia Fayal - Hoje em dia parece que é tudo mais complicado, mais artificial. Antigamente as pessoas tinham menos dificuldade em ser natural...

Maria Teresa - Quando o Jango era Vice, fizemos uma viagem aos Estados Unidos. Na delegação foi o Roberto Silveira e mais uma porção de gente. Yara Vargas, também foi, era uma turma superlegal. Chegamos a um lugar, Trujilos, acho, onde vi uma lagosta pela primeira vez na vida. Era um banquete maravilhoso, pratarias e tudo mais, chiquérrimo. Aí, veio a lagosta, com a casca e tudo. E purê de uma coisa. Aí, olhei para a Yara, que estava bem na minha frente e fiz sinal. Ela entendeu que eu não sabia como tirar aquele negócio ali de dentro. A Yara começou a comer e eu, de longe, prestando atenção, fazia o que ela fazia. Achei um horrorl. Depois ela morreu de rir e comentou: "Menina, pela tua cara vi que você não sabia o que fazer".

Aninha - E naquele episódio em que vocês estavam na residência oficial e foram a uma boate …
Maria Teresa - É, estávamos na residência oficial e fomos a uma boate. Em Washington tem a Casa Branca e tem a outra casa, a dos hóspedes oficiais. Estávamos lá e saímos a noite. Quando voltamos, explicamos ao guarda que queríamos entrar. O homem começou a rir na nossa cara. "Vocês estão loucos, isto aqui é a casa do Presidente". Yara explicou que não queríamos ir para a casa do Presidente, queríamos ir para a casa de hóspedes do presidente pois estávamos lá. Ele riu de novo. Lembro que disse a Yara: o homem não está acreditando, e agora? O vamos fazer?. Yara, em inglês, falou duro e exigiu que ele nos deixasse entrar porque éramos hóspedes da Casa Branca. Aí ele viu que estávamos falando realmente a verdade. De Washington fomos para o Texas. Na delegação tinha um senador muito engraçado, o Senador Lino Teixeira, e a dona Cléa. Ele gostava de comprar tudo que encontrava: chapéu, chaveirinho, não sei mais o quê… Comprou um relógio e Jango até brincou com ele: "Senador, não vai perder esse relógio na recepção". Seguimos viagem. No Canadá, em um brinde a rainha, não deu outra. Quando nós todos levantamos a taça para brindar, o relógio do senador disparou o despertador: hãhãhãhãhãhãhã… Olha, foi o maior mico que já vi na minha vida. O pior é que ele não sabia fazer o tal despertador parar... Lembro que o Roberto Silveira fez uns versinhos, na volta, contando tudo o que aconteceu nessa viagem. O Roberto brincava muito com o senador porque ele não falava uma palavra de inglês. Pois não é que um dia o Senador perguntou ao Roberto Silveira: "Roberto, como é que se pede café da manhã em inglês?". Brincalhão, ele disse: "Diga quero a frutinha vermelha que dá no Brasil". Pois não é que o senador pediu ao garçom: "Quero café, frutinha vermelha que dá no Brasil". Roberto quis saber depois se ele tinha conseguido tomar café. O senador disse: "Tomei, mas o garçom não entendeu nada...

Com Che Guevara

Que personalidades conheceu? Esteve com o Papa?

Maria Teresa - Estive. Com João XXIII e com o outro, também. João XXIII foi o que mais me marcou, pela sua simplicidade, pela sua simpatia. Também conheci o Che Guevara em Brasília...
Aninha - Conta a história do Che, conta a história do pôster... O Jango tinha ciúmes do Guevara...
Maria Teresa - Tinha, porque eu pedi para tirar uma fotografia com ele...
Jango era muito ciumento?

Aninha - Ouça isto!

Maria Teresa - O Che Guevara foi lá no Palácio. Eu soube que ele ia, pedi a Yara que me levasse. Mas ela já sabia o que eu queria e disse: "Não, Maria Teresa, o Jango disse para não tirar fotografia com Che Guevara, não adianta". Eu insisti: quero ir, quero ir. Consegui. Pegamos um carro e fomos para o Palácio. Quando chegamos, ele já estava lá, numa ante-sala, aguardando porque Jango estava dando uma outra audiência. Nós entramos porque Yara chegou e foi entrando. Eu chamei o fotógrafo. Aí pedi para ele, para o Che, que queria tirar uma fotografia. E ele ficou ali conversando, era um doce de pessoa. Aí tirei uma foto assim (faz o gesto) - ele sentado, eu atrás dele assim, com as mãos sobre os ombros dele. Depois fiz um pôster e o Jango quase teve um ataque porque botei o pôster na entrada do meu quarto. Era lindo, desse tamanho… Jango dizia assim: "Mas, para quê isso? Toda vez que entro nesse quarto tem essa fotografia, tem esse homem aqui… Você não tem juízo?" Pois meu pôster foi uma das coisas que ficou lá no Torto, para trás, só restou a lembrança...
O pôster não foi devolvido…

- Não. Não. Não…

Devem ter tocado fogo…

- Ficou lindo o pôster, que fotografia. Ele está lindíssimo nela...

Tânia Fayal - Porque ele era um homem muito lindo...

Maria Teresa - Muito bonito, suave para falar, uma coisa meiga, doce. Falava calmo, todo transparente...
Tânia - Que dá vontade de levar para casa…

- É…

A senhora levou…

- Eu levei… Levei no pôster…

Aninha - Para terminar, gostaria que falasse sobre sua pensão como viúva do Presidente João Goulart. Você ficou muitos anos no exílio e nunca te respeitaram como Primeira-Dama, mulher do Presidente João Goulart. Tanto que nem te pagavam pensão, você teve de entrar na Justiça. Conta esta história.

Maria Teresa - Quando o Jango faleceu, Waldir Pires, me chamou e disse: "Olha, Maria Teresa, você tem direito a uma pensão". Eu disse: Ah, é? Não sabia. E ele: "É, tem direito. Procura no Banco do Brasil porque deve ter alguma coisa lá para você. Vai lá no Banco e fala". Eu cheguei no Banco do Brasil logo depois de ficar viúva e o gerente me disse: "Olha, Dona Maria Teresa, vou dizer sinceramente: aqui tem um dinheiro, mas é uma coisa tão mínima, tão irrisória, que acho ridículo até dizer a importância". Era algo como trezentos reais, hoje. Achei um horror, deixei acumular.

Em que ano foi isso?

Maria Teresa - Assim que fiquei viúva, 1977. Aí, toda vez que ia lá no banco tinha lá um dinheiro guardado. Um dia, o gerente do Banco me chamou e disse: "Dona Maria Teresa, desculpe me meter na sua vida, mas porque a senhora não entra na Justiça? Isto é uma coisa absurda! É um absurdo o que estão fazendo! A senhora tem direito a uma pensão como esposa de Presidente". Aí eu procurei um advogado e entrei na Justiça. Levei 15 anos para ganhar, lutei muito pela pensão. Dona Sara me telefonou, dona Yolanda Costa e Silva me telefonou, elas também tiveram problemas. Consegui receber pensão no governo Collor, que fez uma lei nesse sentido. Depois, levaram mais dois anos para me pagar e pagam mal. Não recebo o equivalente ao salário de um Ministro agora porque eles já tiveram vários aumentos. Recebo o que os ministros ganhavam tempos atrás. Agora, entrei, de novo na Justiça para tentar equiparar minha pensão ao que ganha um Ministro do Supremo, que seria o valor certo. A pensão é equivalente ao que ganha um Ministro comum, mas com defasagem de seis ou dez anos...
E seus bens pessoais que ficaram no Torto. A senhora pediu indenização?

- Não, porque não quero nem falar com essa gente…

Mas são coisas da senhora…

- E… Eu entrei, há pouco tempo, para pedir a anistia para o Jango.

Aninha - Jango morreu antes de ser anistiado...

Os documentos pessoais de Jango também ficaram no Torto?

Denise Goulart - Ficaram todos em Brasília e nunca ninguém mandou entregar...
Maria Teresa - Documentos pessoais, tudo! Só fiquei com as coisas que meu irmão, João José, pegou no Palácio. Levei um mês para selecionar cartas pessoais, pedidos de emprego, cartões. Está tudo arrumadinho em casa. Botei dentro de umas pastas, tudo separado. Esta documentação tenho por acaso: meu irmão guardou muitos anos e me devolveu há dois anos. Quando ele me devolveu, estava tudo mofado. Tive de tirar, passar tudo direitinho, há um monte de cartas… Só.

Por que Fontela teve oportunidade de retirar algumas coisas, não é?
Maria Teresa - Ele teve e escondeu tudo na casa da sogra dele. A sogra dele também era golpista, na época. Ela era casada com…

… Flores da Cunha…

Qual a lição dessa época?

- Acho que a gente tem de ter os pés sempre no chão. O poder é uma coisa muito relativa, que um dia acaba. É algo meio efêmero. Nunca me envolvi muito com o poder, minha parte era, digamos, social. Tanto que minhas amigas de hoje são as mesmas, que também são amigas da Denise. Nunca me envolvi muito, nunca disse - ah! Estou no poder! Tenho amigos. Na época, Denner e meu secretário, Barros de Carvalho, que hoje mora em Recife, eram os meus amigos. Ainda me correspondo com ele. E tinha poucas amigas. Era mais o social. Dona Yolanda, mulher do Waldir (Pires) era uma delas, gosto muito dela. Esse negócio das pessoas acharem que, por estarem no poder, tem o direito de fazer tudo - não existe. O poder passa, temos que ter sempre um pezinho no chão.

No Palácio a senhora não podia nem usar a piscina…

- É… Me cortaram tudo desde a época…

Tânia Fayal - Você sempre foi uma pessoa belíssima, até hoje é, com muitos admiradores. Isto não suscitava sempre muitos comentários? Talvez por isso tenha havido a proibição usar a piscina. Você talvez tenha sido a verdadeira Primeira-Dama, as demais, tribufus…

Maria Teresa - A Marisa tem uma cara ajeitadinha...

Tânia Fayal - É, mais ajeitou agora. Ela entra muda e sai calada. Depois, ela não tem presença. Você, apesar de tímida, era reservada e mantinha certo mistério em torno de você. Jango também era um homem belíssimo.

Maria Teresa - Era belíssimo, belíssimo. E outra coisa: Jango tinha uma equipe de gente que trabalhava com ele, que também, dá licença, Doutel foi lindo.

… E o Darcy…

Maria Teresa - O Darcy era uma gracinha. O Waldir Pires era muito alinhado… O Brizola… Só tinha gente bonita.

Era uma época que rolava muita fofoca, não é?

- É…

E você, uma Primeira-Dama belíssima… E irreverente, você não combinava com esse poder…

Maria Teresa - Ah, isso aí.. Não vai publicar o que vou falar...

Maneschy - Quer que desligue?

Maria Teresa – Quero.

(O gravador foi desligado e ligado depois)

Já pensou em escrever um livro?

Maria Teresa - Só que às vezes fico pensando, tantas pessoas escrevem livros... Tenho tenho medo que …

… Mas é a sua história…

Maria Teresa - Tenho até a capa do livro… Vou ver...

Aninha - Ela não mostra tudo. Tem dia que ela está de bom humor e diz: "Lê isso aqui que escrevi". E ela tem uns caderninhos, que tinha desde a época do exílio, meio que um diário, onde anota tudo. Pouquíssimas pessoas conhecem. Acho que nem a Denise conhece. Ela escreve muito bem, têm poesias belíssimas que ela fez no Uruguai.

Maria Teresa - Noutro dia, mostrei uma poesia… João Vicente e Denise não ligam muito para essas coisas… Mostrei a poesia para um amigo e ele disse…

Tânia - Se tiver de publicar, publica logo. As pessoas têm muita curiosidade.
Maria Teresa - Estou esperando sair um dinheiro porque quero fazer algo meio que independente. Não quero entregar muito. Como tenho fotografias muito lindas, quero fazer a parte fotográfica muito boa. Quero fazer uma coisa colorida, bonita.

Aninha - Se conseguíssemos dinheiro para fazer um álbum, um livro, com a história do Jango... Do Jango e sua, ficaria melhor. A gente precisa pensar em um livro desses...

Maneschy - Bom, acho que encerramos aqui...

(*)Esta entrevista foi feita dia 2 de março de 2005, sendo os entrevistadores Ana Maria Rebes Guimarães, Tânia Fayal, Paulo Alberto Cruz, Antonio Oséas e Osvaldo Maneschy. A colaboração de Ápio Gomes foi fundamental.






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