
Escrito por Andrea Trindade
DOUTORAMENTO HONORIS CAUSA NA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
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“Doutor” Lula da Silva agradeceu
“homenagem ao povo brasileiro”
Distinguido com o título de doutor “honoris causa” pela UC, ex-presidente atribuiu o enorme salto qualitativo do país ao esforço de todo o povo brasileiro
De metalúrgico sindicalista, Lula da Silva ascendeu ao mais alto cargo do seu país. Em oito anos colocou o Brasil na senda do crescimento, a dar cartas nos mercados mundiais, retirou milhões de pessoas da pobreza e colocou milhares de crianças e jovens no sistema de ensino. A frase que proferiu ao tomar posse como Presidente da República foi ontem recordada por Gomes Canotilho, catedrático da Faculdade de Direito de Coimbra: «E eu, que durante tantas vezes, fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o de Presidente da República do meu país».
O ex-líder brasileiro - que somou, entretanto, homenagens e distinções em todo o mundo - recebeu ontem as insígnias de doutor “honoris causa” da Universidade de Coimbra, tendo como padrinho o antigo reitor Seabra Santos. A Sala Grande dos Actos foi pequena para acolher todos os convidados, onde se contaram governantes, políticos e empresários portugueses e brasileiros. Cá fora esperaram centenas de pessoas, muitos brasileiros, que também quiseram prestar homenagem a Lula da Silva.
«Os valores cimeiros da nossa cultura – a dignidade da pessoa e dos povos, a liberdade, a solidariedade, a igualdade e a justiça – marcaram os seus actos enquanto primeiro magistrado da Pátria irmã», sublinhou Gomes Canotilho, no discurso de elogio ao doutorando. O grau de doutor “honoris causa”, sob proposta da Faculdade de Direito, «é expressão simbólica da sua sabedoria, sabedoria regada com azeite da alma e da luta», acrescentou.
O quarto presidente brasileiro a receber a mais alta distinção da UC – depois de Tancredo Neves, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso – agradeceu o título, considerando-o «mais do que um reconhecimento pessoal», «uma homenagem ao povo brasileiro, que nos últimos oito anos realizou, de modo pacífico e democrático, uma verdadeira revolução económica e social, dando enorme salto qualitativo no rumo da prosperidade e justiça».
Lula da Silva congratulou-se por o Brasil ter conseguido, com o envolvimento de todos os sectores da sociedade, «tirar 28 milhões de pessoas da linha da pobreza e fazer com que outros 36 milhões ascendessem à classe média, no maior processo de mobilidade social da nossa história».
Parcerias produtivas
No seu discurso, o antigo presidente elogiou a sua sucessora, Dilma Rousseff, pelo trabalho que fez na coordenação do Programa de Aceleração do Crescimento, e o seu vice-presidente José Alencar, falecido terça-feira - «um dos homens mais íntegros que conheci, inesquecível estadista».
A educação - «carro-chefe deste projecto nacional de desenvolvimento» -, a política externa «activa e altiva», que incrementa relações com a América Latina, África, Ásia e Médio Oriente, sem prejuízo dos tradicionais vínculos com a Europa e Estados Unidos, foram também sublinhados por Lula da Silva, considerado “Homem do Ano” em 2009, pelos jornais Le Monde e El Pais.
«Consideramos indispensável uma nova governança global, com a reforma das Nações Unidas e particularmente do seu Conselho de Segurança, que não corresponde mais à verdade geopolítica do século XXI», declarou antigo líder brasileiro.
Lula da Silva sublinhou a importância estratégica da relação com Portugal e com os países africanos de língua portuguesa: «O que nos une é infinitamente mais importante do que o que nos separa. Somos uma comunidade de destino a ser potencializada com entusiasmo, tanto na esfera linguística e cultural quanto no terreno económico e comercial».
Fãs de verde e amarelo
Dezenas de jovens brasileiros marcaram ontem presença no Pátio das Escolas. Com camisolas e bandeiras do Brasil, entoando vivas a Lula da Silva, os jovens – sobretudo estudantes em intercâmbio na Universidade de Coimbra – ficaram eufóricos com a chegada do antigo presidente. Depois de atravessar a Porta Férrea, passando por cima das capas dos estudantes que o aguardavam, Lula foi quase “engolido” pela multidão de “fãs” que o acompanhou no curto percurso até à porta da Reitoria.
«Lula merece, tem feito muito pela projecção do país e da língua portuguesa», disse Andrea, uma estudante da pós-
-graduação de Direitos Humanos. «Estamos aqui graças ao investimento que ele fez no ensino superior, foram oito anos inexplicáveis para o Brasil. Nunca tirou um curso universitário e é uma referência em todo o mundo», acrescentou Mauro Goldschmidt, de 23 anos, aluno de Desporto.
A aposta no desporto brasileiro foi destacada por Luis Romariz, chefe da delegação brasileira de Judo que está em Coimbra para participar na Taça Europeia de Judo Juniores, com um total de 44 atletas. Ontem, na Via Latina, devidamente equipados, alguns jovens esperavam entregar uma camisola a Lula e aplaudiam as suas políticas de incentivo a este e a outros desportos de competição.
O cenário de alegria brasileira repetir-se-ia na chegada da actual chefe de Estado Dilma Rousseff, mas esta tinha à sua espera um grupo de manifestantes contra a construção de uma barragem na Amazónia. Alexandra Silva, uma das jovens, disse aos jornalistas que a polémica sobre esta obra se arrasta há três anos e que não tem sido ouvida a opinião de dirigentes indígenas nem de ambientalistas.
Luto antecipou
regresso ao Brasil
Lula da Silva e a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, regressaram ao Brasil logo após a cerimónia de doutoramento “honoris causa” na Universidade de Coimbra. O luto nacional decretado depois da morte de José Alencar, o antigo vice-presidente, obrigou a cancelar parte da visita oficial ao nosso país, ficando por realizar os encontros em Belém e S. Bento, bem como o almoço em honra de Lula da Silva, que estava previsto para ontem no Palácio de São Marcos em Coimbra.
Do que estava previsto na agenda da primeira visita oficial de Dilma Rousseff a um país europeu, ficou por realizar a visita e o jantar no Palácio de Belém com o Presidente da República, Cavaco Silva, e a visita a S. Bento, onde estava previsto um encontro com o primeiro-ministro José Sócrates. Na sua curta visita, a presidente deixou, no entanto, em aberto a possibilidade de comprar dívida portuguesa, adiantando que «poderá ajudar Portugal como Portugal ajudou o Brasil economicamente».
José Alencar foi vice-presidente nos dois mandatos de Lula da Silva, lutava contra o cancro há 15 anos e faleceu na terça-feira no Hospital Sírio-libanês de São Paulo.
Cavaco Silva lamentou este «acontecimento triste», que obrigou ao regresso antecipado da actual presidente e do ex-presidente brasileiros. O Presidente da República considerou, ainda assim, «inesquecíveis» o momento em que Lula da Silva recebeu o Prémio Norte-Sul e o momento da distinção como membro da academia de Coimbra. «Tenho uma satisfação enorme, uma honra, por estar associado a esta cerimónia», disse aos jornalistas.

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