O Haiti que Dilma visita (contado por Eduardo Galeano)
Mas o Haiti foi, desde ali, um país arrasado. Nos altares das plantações francesas de açúcar se tinham imolado terras e braços, e as calamidades da guerra tinham exterminado um terço da população.
O nascimento da independência e a morte da escravidão, façanhas negras, foram humilhações imperdoáveis para os brancos donos do mundo.
Dezoito generais de Napoleão tinham sido enterrados na ilha rebelde. A nova nação, parida em sangue, nasceu condenada ao bloqueio e à solidão: ninguém comprava dela, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia. Por ter sido infiel ao amo colonial, o Haiti foi obrigado a pagar à França uma gigantesca indenização. Essa expiação do pecado da dignidade, que esteve pagando durante um século e meio, foi o preço que a França lhe impôs para seu reconhecimento diplomático.
Ninguém mais o reconheceu. Nem a Grande Colombia de Simon Bolívar, mesmo se ele lhe deveu tudo. Navios, armas e soldados o Haiti tinha lhe dado, com a única condição que libertasse aos escravos, uma ideia que não tinha ocorrido ao Libertador. Depois, quando Bolívar triunfou na sua guerra de independência, negou-se a convidar o Haiti ao congresso das novas nações americanas.
O Haiti continuou sendo o leproso das Américas.
Thomas Jefferson tinha advertido, desde o começo, que tinha que confinar a peste nessa ilha, porque dali provinha o mal exemplo.
A peste, o mau exemplo: desobediência, caos, violência. Na Carolina do Sul, a lei permitia prender qualquer marinheiro negro, enquanto o seu navio estivesse no porto, pelo risco de que pudesse contagiar a febre antiescravista que ameaçava a todas as Américas. No Brasil essa febre se chamava haitianismo.


2 comentários:
O europeu sempre se sentiu dono das minorias raciais e agora está pagando caro pela sua petulãncia e maldade extrema co que tratou "os outros", todos aquele que não pertencia ao hemisfério dos brancos superiores.Agora a Europa está passando sufoco e estão sentindo na pele alva, o que é bom prá tosse.Isto se chama karma acumulado de muitas geraçõea exploradora e xenófoba.
Já se sabia que Simon Bolivar era um
tremendo aventureiro e que libertador
das américas é conto da carochina.A
história oficial cria mitos de pé de barro que com passar do tempo vira "verdades", onde essas balelas são parte de currículo escolar,iludindo jovens ignorantes das mentiras que lhe são impingidas.Não existe herói
absoluto, tem sempre um rabo preso.
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