terça-feira, 13 de novembro de 2012

Por que a crise financeira atual é maior que a Grande Depressão


J. Carlos de Assis

Por que a crise financeira atual é maior que a Grande Depressão

A crise financeira atual, embora por enquanto limitada aos países ricos, tem os elementos essenciais de mudança histórica nos rumos da própria civilização, numa dimensão mais profunda do que a da Grande Depressão dos anos 30.

A crise financeira atual, embora por enquanto limitada aos países ricos, tem os elementos essenciais de mudança histórica nos rumos da própria civilização, numa dimensão mais profunda do que a da Grande Depressão dos anos 30. Na Grande Depressão, os Estados centrais se consideravam autônomos para fazer a guerra; o sistema produtivo tinha as mãos livres para destruir o meio ambiente; a Genética não existia como a conhecemos hoje, capaz tanto de promover o bem quanto de deteriorar o futuro da espécie.

O capitalismo, embora abalado pela crise, não tinha dúvidas de que sobreviveria a ela como ordenador da economia mundial. Os trabalhadores, por sua vez, estavam convencidos de que eram os portadores do futuro socialista no planeta. Em suma, nenhum dos grandes paradigmas de ordenamento da civilização herdados dos primórdios da Idade Moderna – a liberdade individual, de um lado, e a democracia social (igualdde), por outro – estava em xeque. O mundo se via em crise mas não iria mudar no essencial, como de fato não mudou.

Atualmente, ainda em plena crise, sabemos que ela determinará mudanças fundamentais na história. Os processos dialéticos que recuperam as características mais antissociais do velho liberalismo de forma a consagrá-lo como neoliberalismo radical levaram uma grande parte da humanidade a limites insuportáveis do ponto de vista social. Este é, sim, o colapso do neoliberalismo na economia. Porém, não é só na economia. É também na organização produtiva da sociedade, na ciência genética, na geopolítica, entre outras áreas.

Como nenhuma mudança histórica se dá de forma brusca, exceto nas revoluções, e como guerras e revoluções sociais em grandes países seria hoje impensável (há um segundo nível de dissuasão de guerras internas em face da presença dos mortíferos arsenais considerados convencionais, comparando-se com o primeiro nível de dissuasão que é o impasse nuclear entre potências militares), sinais claros de mudanças de paradigma da ordem social e econômica se revelam nos setores acima mencionados.

Por exemplo, o conceito e as práticas de sustentabilidade já se integram profundamente nos sistemas produtivos, não obstante o muito ainda a ser feito; na Genética, países liberais como os próprios Estado Unidos admitiram a limitação de registro de patentes de seres vivos ou de suas partes (código genético) antecipando o que deve vir a ser um Código de Ética na investigação genética; a contragosto, Israel retém o dedo no gatilho que deflagraria uma nova guerra no Oriente Médio com risco de envolvimento de outras potências nucleares, por falta de suporte norte-americano.

Essas são indicações de que os paradigmas se movem numa direção por enquanto não bem conhecida. Se tomamos como o paradigma-síntese da Idade Moderna a busca e a afirmação das liberdades – liberdade religiosa, liberdade de pensamento, liberdade política, liberdade de investigação científica -, e se considerarmos que o pêndulo da história, com o neoliberalismo, empurrou dialeticamente a busca da liberdade para o terreno da liberdade individual ilimitada, podemos, sim, reconhecer nesse ponto um paradigma em colapso. O que surge, em seu lugar, é o paradigma da cooperação, não no sentido idealista, mas prático.

Com Bobbio, analisando Kant e as duas liberdades, apreendemos os dois sentidos de liberdade fincados na origem da Idade Moderna: a liberdade como não limites à ação, e a liberdade enquanto autonomia de criar limites através de leis. A primeira é a matriz do liberalismo e seu epígono, o neoliberalismo. A segunda é a matriz do socialismo, da democracia social e da busca da justiça social. Na Grande Depressão dos 30 o conflito entre essas duas liberdades favoreceu a emersão da social-democracia, sem eliminar, contudo, o conflito entre liberalismo e socialismo, elevado ao nível da Guerra Fria.

Agora é o momento da síntese, isto é, do reconhecimento nas relações materiais da emergência de uma nova ordem civilizatória num nível superior. Na ausência de guerras e de um hegemon, essa nova ordem, como dito acima, surgirá necessariamente da cooperação. Contudo, cooperação é um conceito sobre um modo de operar sem conteúdo próprio. É preciso que a cooperação leve a algum objetivo concreto, e isso necessariamente, numa ordem dialética pacífica, requer uma composição de interesses entre os segmentos e classes sociais, não a destruição de uma delas.

Por isso estou longe de acreditar que esta crise leve ao fim do capitalismo. Levará, sim, ao fim do neoliberalismo, substituído por alguma forma de capitalismo regulado que esteja na base de uma democracia social de sentido universal. Sustento essa tese no meu último livro, “A Razão de Deus” (Civilização Brasileira), e, antes dele, em “Universo Neoliberal em Desencanto” (Civilização Brasileira), escrito com o matemático Francisco Antônio Doria. Alguns leitores, sem dar muita atenção a meus argumentos, me consideraram idealista. É um equívoco. Meu método é rigorosamente materialista.

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