sábado, 2 de fevereiro de 2013

LUZ


LUZ

 

Rogel Samuel

 

       Vamos ficar sem luz, sem água, sem pão? Sem amor, sem ar, sem praia, sem rua? Sem tudo o que vem da terra, transformada no campo de lixo de Eliot? Sem nada? O governo disse que não foi surpreendido com o problema energético. Difícil acreditar. Anunciaram um apagão que não veio. Vieram as chuvas. Até eu ouço falar há anos que estamos trabalhando no vermelho. Outras fontes de energia - e energia é vida - também se estão esgotando. As reservas de água, por exemplo. Água potável, água cristalina. Não vejo um rio de águas claras há muito tempo. Bachelard escreveu um belo livro, "A água e os sonhos". Sou de uma civilização das águas,  um caboclo do Amazonas. No meu imaginário há córregos e largos igarapés. Frescas fontes, e claras, entre as árvores. Correm no silêncio da floresta, lá onde moram os espíritos, os deuses florestais. A desertificação me assusta. O caos urbano. São Paulo é uma cidade que deve estar no vermelho. O Rio, visto de cima,  uma grande favela. As cidades brasileiras não podem crescer mais. Lembro-me de uma editora alemã que comprou nova impressora. Quando a máquina chegou, não cabia na sala. Pediu-se autorização da prefeitura para aumentar a casa e meter a máquina dentro. A prefeitura disse não. Depois de muitos recursos, a editora conseguiu escavar um subterrâneo para colocar a impressora nova. Quando jovem, eu conheci um órgão público chamado Secretaria de Planejamento Urbano. Lá havia as diretrizes da cidade do Rio de Janeiro. Que fim levou? Em 25.9.2000 nós escrevíamos: “O deserto está crescendo. Na serra da Mantiqueira, região de Piquete, desapareceram as florestas. As montanhas despontam, secas, nuas. Isso até parecia natural na Via Dutra, mas ali é novidade. Dali até o vale de Itajubá a devastação avançou em poucos meses. O Rio Sapucaí é uma lixeira. À direita da estrada pode-se ver um lixão às margens do rio São João Grande que vai cortar a cidade de Itajubá e onde poucos quilômetros abaixo crianças tomam banho e adolescentes nadam. De Itajubá até Poços de Caldas as antigas vilas se transformaram em cidades que, sem planejamento, estão plantadas no meio da planície deserta de avermelhado de barro. Na próxima grande chuva o rio que corta a cidade de Itajubá pode transbordar, entulhado. O nosso país caminha para um desastre ecológico: o rios estão secando ou se transformando em valas negras”. “O deserto está crescendo. Desventurado quem abriga desertos”, escreveu Nietzsche. Nós vamos perder os nossos rios, que serão privatizados. Não é em vão que se criou o órgão federal de "defesa" dos rios. Um dia, uma multinacional vai comprar o direito de "defender" o Rio Amazonas. E a Amazônia inteira lhe pertencerá.  Vamos ficar sem luz, sem água, sem pão? Sem amor, sem ar, sem praia, sem rua? Sem tudo o que vem da terra, transformada no campo de lixo? O governo disse que o culpado da crise energética foram as instituições de defesa do meio ambiente e o Ministério Público. Também disse que foi surpreendido com o problema energético. Difícil de acreditar. Ainda bem que existe a Dilma.

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