domingo, 18 de agosto de 2013

A GENTE DO BRASIL


HISTÓRIA DO BRASIL DE AFRANIO PEIXOTO


A GENTE
No dia 23 avistaram os navegantes sete ou oito homens, depois mais dezoito ou vinte. Nos dias seguintes muitos, que vieram às naus.

“A feiçam deles he seerem pardos, maneira d avermelhados, de boos rostros e boos narizes bem feitos; amdam nuus, sem nenhuua cobertura; nem estimam nenhuma coussa cobrir, nem mostrar suas vergonhas, e estam açerqua d isso com tanta inocência como teem em mostrar o rostro; traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos d oso bramcos de compridam de huua maão travessa e de grossura de huum fuso d algodam, e agudo na ponta coma furador”. “Amdavam hy outrros quartejados de cores, saber, d eles ameetade da sua própria cor, e ameetade de timtura negra maneira de zulada, e outros quartejados d escaques. Aly amdavam antr’eles tres ou quatro moças bem moças e bem jentis, com cabelos muito pretos compridos pelas espadoas, e suas vergonhas tam altas e tam çaradinhas, e tam limpas das cabeleiras, que de as nos muito bem olharmos nom tinhamos nenhuua vergonha...” “Amdava (um) todo per louçaynha, cheo de penas pegadas pelo corpo, que parecia aseetadado coma Sam Sebastiam; outros traziam carapuças de penas amarelas, e outros de vermelhas, e outros de verdes; e huua daquellas moças era toda timta de fundo a cima daquela tintura, a qual certo era também feita e tam arredomda, e sua vergonha que ela nom tinha, tam graciosa, que a muitas molheres de nossa terra veendo lhe taaes feições fezera vergonha, por nom terem a sua com eela. Nenhuu d eles nom era fanado, mas todos asy coma nos”...
A impressão era, ou foi, simpática: inocência, curiosidade, boa índole. As mulheres, pela privação deles, e pela nudez delas, “bem moças e bem gentis”, diz Pero Vaz, “mui fermosas, que nam ham nenhuua inveja às da rua Nova de Lixbôa” virá a dizer Pero Lopes, alguns anos mais tarde. (Diário da Navegação, ed. de Eugênio de Castro, Rio, 1927, p. 154). Também elas se agradaram dos Europeus: o romance exótico da colonização vai começar. “Iracema”(18) será um símbolo. Vão nascer os mamalucos, os maiores inimigos da raça primitiva...
Os descobridores não podiam saber mais. Porém, os que vieram depois, sobretudo os Jesuítas, grandes amigos deles, que conviveram com eles, para os educarem, e aproveitarem, na civilização, têm depoimentos cruéis. Diz Nóbrega (Cartas do Brasil, p. 73, 90, 91): “É gente que nenhum conhecimento tem de Deus”. “Gente tão inculta... regendo-se todos por inclinações e apetites sensuais, que está sempre inclinada ao mal, sem conselho, nem prudência. Têm muitas mulheres e isto pelo tempo em que se contentam com elas e com as dos seus, o que não é condenado entre eles. Fazem guerra, uma tribo a outra, a 10, 15 e 20 léguas, de modo que estão todos entre si divididos. Se acontece aprisionarem um contrário na guerra, conservam-no por algum tempo, dão-lhe por mulheres suas filhas, para que o sirvam e guardem, depois do que o matam, com grande festa e ajuntamento dos amigos e dos que moram por ali perto e se deles ficam filhos, os comem, ainda que sejam seus sobrinhos e irmãos, declarando às vezes as próprias mães que só os pais e não a mãe, têm parte neles.” (As mães não são mais do que uns sacos, em respeito aos pais, em que se criam as crianças... virá a testificar Anchieta — “Informações” p. 452, — nas Cartas, etc). “É esta a cousa mais abominável que existe entre eles. Se matam a um na guerra o fazem em pedaços e depois de moqueados os comem com a mesma solenidade; e tudo isto fazem com um ódio cordial que têm um ao outro e nestas duas coisas, isto é, terem muitas mulheres e matarem os inimigos consiste toda sua honra.” “Não se guerreiam por avareza porque não possuem mais de seu do que lhes dão a pesca, a caça e o fruto que a terra dá a todos, mas somente por ódio e vingança sendo tão sujeitos a ira que se acaso se encontram em caminho logo vão ao pau, a pedra ou à dentada e assim comem diversos animais, como pulgas e outros como este, tudo para se vingarem do mal que lhes causam”...
E por aí além. Outros depoimentos não faltam e não apenas de Jesuítas. Gabriel Soares fala dos Aimorés: “Não vivem estes bárbaros em aldeias, nem casas como o outro gentio, nem há quem lh’as visse nem saiba nem desse com elas pelos matos, até hoje; andam sempre de uma para outra pelos campos e matos, dormem no chão sobre folhas; e se lhes chove arrumam-se ao pé de uma árvore, onde engenham as folhas por cima, quanto os cobre, assentando-se de cócoras; e não se lhes achou outro rastro de gazalhada. Não costumam estes alarves fazer roças nem plantar mantimentos... Vivem de frutos silvestres e caça, de saltear toda a sorte de gentio... comem carne humana por mantimento não por vingança como os outros... (Tratado, 47-8).
Outro Jesuíta, António Blásquez, depõe de suas casas, dos que as têm: “São suas casas escuras, fedorentas e afumadas, em meio das quais estão uns cântaros como meias tinas, que figuram as caldeiras do inferno. Em um mesmo tempo estão rindo uns e outros chorando, tão de vagar que se lhes passa uma noite em isto sem lhe ir ninguém à mão. Suas camas são umas redes podres com a ourina, porque são tão preguiçosos que, ao que demanda a natureza, se não querem levantar. E dado caso que isto bastara para imaginar em o inferno”... (Cartas Avulsas, 173). Outro padre, ainda, visita aldeia já meio civilizada, cujos moradores tinham tornado da guerra, trazendo despojos dos vencidos: “vi que daquela carne (humana) cozinhavam em um grande caldeirão e ao tempo que cheguei atiravam fora uma porção de braços, pés e cabeças de gente, que era cousa medonha de ver-se e seis ou sete mulheres, que com trabalho se teriam em pé, dançavam ao redor, espevitando o fogo, que pareciam demônios no Inferno”. (Azpilcueta Navarro, in Cartas Avulsas, p. 52).
E não só Jesuítas, de moral estrita, repito: todos os contemporâneos: “Sam muy deshonestos e dados a sensualidade e assim se entregam aos vícios como se nelles não houvera razão de homens” (Gandavo, História da província Santa Cruz, ed. do Anuário do Brasil, 1924, p. 124). Gabriel Soares depõe: “São muito afeiçoados ao pecado nefando, entre os quais se não tem por afronta e o que serve de macho se tem por valente e conta esta bestialidade por proeza e nas suas aldeias pelo sertão há alguns que têm tenda pública a quantos os querem, como mulheres públicas” (Op. cit., p. 289).
Todos, todos os depoimentos: para finalizar a do boníssimo Anchieta: “todos eles se alimentam de carne humana e andam nus”, (Cartas, p. 45); “copiosíssima libação de vinhos, que fabricam de raízes” (id.); “as mulheres andam nuas e não sabem se negar a ninguém mas até elas mesmas cometem e importunam os homens, jogando-se com eles nas redes porque têm por honra dormir com os Cristãos” (p. 68); “não se pode nem se deve prometer deles cousa que haja de durar (p. 150); ”os ensinados... tornam-se aos costumes de seus pais“ (p. 179). Rui Pereira conta nas Cartas Avulsas, p. 265, o retorno à barbárie de toda uma aldeia ”se foram fugindo todos pelo sartão...
Portanto, sem dúvida, dos últimos povos da terra, na escala sociológica. Nômades quase, sem agricultura, nem criação, sem propriedade, nem governo, nem religião, pequena mentalidade sem progresso. La Condamine iria a dizer deles que envelhecem sem deixar de ser crianças — antropófagos, sensuais, intemperantes, perdidos pelas florestas... tais foram os selvagens do Brasil.
Entretanto, por uma contradição bem humana, a imaginação dos viajantes e a das viagens, por antítese à Europa, arranjou — e com selvagens do Brasil — a lenda do “bom selvagem” e a da “idade de ouro”... Montaigne conta que viu Tabajaras, levados a Ruão e até entrevistou um, que lhe fez a crítica da monarquia dinástica e da sociedade capitalista... Ronsard, informado pelo “douto Villegaignon”, a quem se refere, diz deles, os índios do Brasil: “Ils vivent maintenant en leur âge doré... Vivez joyeusement je voudrais vivre ainsi”.
Este “bom selvagem” falsificado no século XVI (1560) dará com o romantismo nascente no fim do século XVIII e começo do XIX, a volta à natureza, à primitividade, portanto, desfazendo o “Contrato Social”, para obter a “igualdade” de Rousseau, a Revolução Francesa e o romantismo literário de Chateaubriand, — exótico com Atala e os Natchez, — “revolução literária das letras”.(19)


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