quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O ADEUS DE NORMA BENGELL

Norma Bengell, a 'inspiradora de praias, sertões e amazônias', morre aos 78.

    Escrito por Luiz Octavio de Lima
Na peça 'Vestido de Noiva'./Valéria Gonzalez-Estadão Conteúdo

"Vai ficar saudade. Era insubstituível. Ela que abria todas as passeatas contra a ditadura. Foi revolucionaria", disse Ney Latorraca, citado por Luciane Marques, amiga, cuidadora e procuradora da atriz Norma Bengell, no velório da atriz, ontem à tarde, no Cemitério São João Batista, em Botafogo. A cremação está marcada para hoje, às 14h, no Cemitério do Caju. As cinzas devem ser jogadas na Pedra do Arpoador, em Ipanema, conforme desejo de Norma revelado por seu primo Egberto Guimarães Costa.
 
Norma, "inspiradora de praias, sertões e amazônias", segundo Glauber Rocha, morreu por volta das 3h de ontem, vítima de câncer no pulmão. Ela estava internada no Hospital Rio-Laranjeiras, em Botafogo. Segundo amigos e familiares, Norma, que tinha 78 anos, estava lúcida, embora tivesse dificuldades para reconhecer algumas pessoas. Ela sofria com problemas de saúde desde 2010, quando uma série de quedas em sua casa provocou um problema na coluna que dificultava sua locomoção.
 
A atriz não quis tratar o câncer, descoberto seis meses atrás, segundo contou seu primo. Ele disse que ela teve qualidade de vida em casa nesses últimos meses e só foi internada no último sábado, quando o quadro se agravou. "Eu não sei dizer o porquê da decisão. Ela estava triste. Não quis se submeter a qualquer tratamento e foi respeitada. Foi muito digna. Quis ficar em seu apartamento, em Copacabana, entre suas fotos. Nunca quis morar no Retiro dos Artistas, por exemplo. Para sair era uma dificuldade, por conta da cadeira de rodas, mas costumava comer o seu sushi aos domingos." 
Filha única de um imigrante alemão que trabalhava como afinador de pianos e de uma moça de família rica que foi deserdada após o casamento, Norma nasceu no Rio e passou a infância em Copacabana. Aos 10 anos, seus pais separaram-se e ela foi viver com os avós paternos. Adolescente rebelde, foi expulsa de um internato de freiras alemãs e abandonou os estudos. Começou a trabalhar no início dos anos 1950, primeiro como modelo e, depois, como vedete do teatro de revista – trabalhou por muitos anos com o empresário Carlos Machado (1908-1992), nas boates Casablanca e Night and Day, como cantora e "showgirl". 
 
O convite para fazer cinema veio aos 23 anos, quando contracenou com Oscarito na chanchada O Homem do Sputnik (1959), de Carlos Manga, fazendo uma paródia de Brigitte Bardot. No mesmo ano, lançaria seu primeiro LP, OOOOOOh! Norma, com canções como Fever (sucesso na voz de Peggy Lee) e Eu Sei que Vou te Amar (Tom Jobim). O álbum chamou a atenção por sua capa, na qual Norma parecia estar nua. 
 
Reprodução

Dois anos depois, sua nudez no longa Os Cafajestes (1961, sequência ao lado), de Ruy Guerra, seria o primeiro nu frontal do cinema nacional e causaria escândalo, tornando-a alvo de críticas violentas dos setores mais conservadores da sociedade brasileira. Sua atuação no premiado O Pagador de Promessas (62) a levou a ser contratada pelo produtor italiano Dino de Laurentis, que a levou para atuar em produções italianas e francesas, como Mafioso (1962), de Alberto Lattuada, e La Constanza della Ragione (1964), de Pasquale Festa Campanile. 
 
De volta ao Brasil, atuou em Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khoury, e, durante as filmagens, se casou no estúdio da Vera Cruz com o ator Gabriele Tinti, em altar improvisado pelo diretor. 
 
Banida de Belo Horizonte, em 1966, pela Associação de Donas-de-Casa de Minas Gerais, por conta do nu de Os Cafajestes, a "mulher mais desejada do Brasil" nos anos 60 – nas palavras de Jece Valadão – também foi sequestrada, parceira sexual de Mick Jagger em videoclipe She's the Boss
 
Em 68, ano em que encenou a peça Cordélia Brasil, de Antônio Bivar, em São Paulo, foi levada ao Rio por três homens do 1º Batalhão Policial do Exército, onde foi interrogada por cinco horas sobre "a subversão na classe teatral". Atriz de filmes que costumavam cair no radar da censura, Norma se exilou na França em 1971.Em 84 a atriz afirmou ter feito 16 abortos por ser "um saltimbanco por escolha".
 
Seu retrato com outras atrizes na Passeata dos Cem Mil, no centro do Rio, em 26 de junho de 1968, foi usado pela campanha da então candidata Dilma Rousseff.  A atriz se envolveu num imbróglio jurídico relacionado a prestação de contas de O Guarani, que produziu e dirigiu. Fracasso de público e crítica, o filme teve autorização do Ministério da Cultura para captar, via leis de renúncia fiscal, R$ 3,9 milhões. Levantou R$ 2,9 milhões. O MinC achou notas frias na prestação de contas e passou o caso ao Tribunal de Contas da União, que também acusou retirada de "pró-labore"  em valor superior ao permitido. 
Ela foi indiciada pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e apropriação indébita. "Tenho a consciência limpa. Sei onde ponho meu nariz, de onde pego minhas coisas. Seria incapaz de mexer no que não é meu", disse em 2007. 
 
Segundo advogados da atriz, foram abertos três processos criminais contra ela. Dois foram arquivados e o terceiro não tinha tido decisão. Seus últimos trabalhos foram no seriado de TV da Globo Toma Lá, Dá Cá, em 2008 e 2009, onde interpretava a homossexual Deyse Coturno. Norma também preparava uma autobiografia, Coisas que Vivi. O lançamento estava previsto para o ano que vem.

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