segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A Argentina prende a respiração


A Argentina prende a respiração



A desvalorização do peso ameaça fazer os preços dispararem e coloca em xeque a economia das famílias


As políticas contraditórias do Governo debilitam a estabilidade









O ministro da Economia da Argentina, Axel Kicillof. / Natacha Pisarenko (AP)



O que acontece nos últimos dias na Argentina poderia suscitar uma obra humorística, não fosse pelo fato de estarem em jogo as condições de vida de milhões de pessoas. Na quarta-feira passada, o peso sofreu a maior desvalorização frente ao dólar oficial em 12 anos. A presidenta Cristina Fernández de Kirchner, depois de 34 dias de ausência em atos públicos, pronunciou naquela noite na Casa Rosada três discursos com um total de 5.000 palavras. E nenhuma delas foi “desvalorização”. Meses atrás, em outra intervenção, ela advertia: “Quem pretender ganhar dinheiro à custa de uma desvalorização que o povo precisar pagar terá de esperar outro Governo”.
Na quinta e sexta-feira, a depreciação da moeda continuou batendo recordes. O Banco Central teve de lançar mão das suas fatigadas reservas – que minguaram dos 47,8 bilhões de dois anos atrás para os 29 bilhões de agora – a fim de frear a depreciação e deixar o câmbio oficial em oito pesos por dólar. Tratava-se de uma desvalorização sem tirar nem pôr, embora o Governo prefira chamá-la de “política cambiária de flutuação administrada da taxa de câmbio”.


O Executivo adverte que atuará com dureza se detectar “abusos" por parte do comércio
Na sexta-feira pela manhã, o chefe de Gabinete, Jorge Capitanich, anunciou de forma surpreendente que a partir da segunda-feira ficará autorizada “a compra de dólares para posse por pessoas físicas” em função da sua renda declarada. Ou seja, exatamente o contrário das medidas que o Governo vinha implantando desde outubro de 2011, quando restringiu o acesso à divisa. Apenas dois dias antes, com o objetivo de conter a fuga de dólares, o Governo havia limitado as compras no exterior via internet a duas por ano, e com um limite anual de 25 dólares. Quem quiser comprar mais teria de se cadastrar como importador nos escritórios da entidade arrecadadora. Mas na sexta-feira pela manhã Capitanich anunciava inclusive uma redução de 35% para 20% nos encargos financeiros sobre compras com cartão no exterior. É claro que o ministro da Economia, Axel Kicillof, assegurava em uma entrevista publicada pelo Página 12 neste domingo que esse passo não seria “implementado nesta segunda-feira”. Novo recuo. Kicillof explicou por que a medida não entraria em vigor na segunda-feira: “O turismo interno este ano melhorou muito, e quem quis viajar para o exterior viajou. É gente de alto poder aquisitivo, que pôde gastar dólares sem limites no exterior através de seu cartão de crédito”. Mas em nenhum momento explicou por que haviam anunciado a decisão na sexta-feira.

As contradições não afetavam apenas o Governo. Boa parte dos economistas opositores que vinham defendendo há meses uma desvalorização do peso e a abertura do chamado “cepo [restrição] cambial” agora dizem que nem a desvalorização nem a flexibilização da restrição – cujas letra miúdas precisarão ser estudadas a partir da segunda-feira – serão suficientes se não forem abordadas como parte de outras medidas “integrais” contra a inflação. O ex-ministro da Economia Roberto Lavagna (2002-05), hoje na oposição, utilizou a metáfora do motorista indeciso para se referir ao problema do Governo: “Quando a gente dirige atrás de alguém que faz um ziguezague, sabe que o que é preciso fazer é se afastar, tomar distância. Porque, se não, vai acabar batendo”.
E, com efeito, nos últimos meses houve várias medidas contraditórias dentro do Governo. A face mais visível desses ziguezagues e marchas a ré foi a do chefe de Gabinete, Jorge Capitanich, que chegou há dois meses ao cargo como uma figura sólida. Parecia a grande aposta do kirchnerismo como herdeiro de Cristina Kirchner para as eleições de 2015. Mas nestes dois meses ele foi desautorizado publicamente em várias ocasiões por outros ministros do Gabinete, entre eles o próprio Axel Kicillof.
O ministro da Economia tem acumulado poder dentro do Governo, distribuindo gente de sua confiança em grandes cargos de responsabilidade. Mas Kicillof põe sua credibilidade em jogo a cada vaivém da economia. Até o momento, o panorama macroeconômico que Kicillof desenha é bem otimista. Segundo ele, não há razões reais para se preocupar, já que a Argentina desfruta de um “comércio exterior superavitário, vencimentos de dívida razoáveis, um orçamento que em janeiro chegará a um equilíbrio, uma política monetária previsível e um contexto internacional que melhora”. A culpa das últimas convulsões cambiais ele atribui a operações especulativas que buscam desestabilizar o Governo.


Os vaivéns são constantes nas normas sobre a compra de dólares
Mas algumas perguntas suscitadas neste fim de semana continuam pairando no ar. Será que o dólar blue (câmbio paralelo) seguirá batendo recordes, depois de ultrapassar na quinta-feira a barreira dos 13 pesos? Kicillof admite que “culturalmente, na mentalidade argentina, está inserido o desejo da posse de dólares”. Mas acredita que não há uma necessidade real de adquirir dólares, e considera que, com a nova medida a ser implementada na segunda-feira, as pessoas irão tomar “a melhor decisão”.
As inquietações não terminam aí. A partir de agora, como a desvalorização afetará os preços, e qual será seu impacto na inflação? O Governo tinha alcançado em dezembro um acordo com os principais atacadistas para que não encarecessem os preços de cem tipos de produtos. Mas Alfredo Coto, dono de uma das principais redes de supermercados, advertiu no sábado que a alta do dólar faria o acordo “oscilar”. Capitanich saiu em resposta a ele nesse mesmo dia com sete tuítes em que advertia que o Governo atuará “com todo o rigor da lei” contra os “abusos dos formadores de preços”.
Enquanto as perguntas fervilhavam entre os cidadãos, a presidenta Cristina Kirchner almoçava em Cuba com Fidel Castro, durante sua viagem à cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).

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