segunda-feira, 23 de junho de 2014

A COPA, A BOLA E O VOTO

A COPA, A BOLA E O VOTO
 
ROGEL SAMUEL
 
Sim, a Copa.
Contra toda a mídia, contra tudo e contra todos, o Brasil a hospeda.
Sim, nunca se viu esse carnaval às avessas do que se pode esperar “fora do campo”.
O Brasil amadureceu, enriqueceu.
O brilho do evento se confunde com a apoteose governamental.
Um mundial, uma olimpíada, o melhor e mais barato meio de promover um país.
Os Jogos Olímpicos do verão de 1936, na Alemanha, de 1 e 16 de agosto, a participação de 3963 atletas, 328 mulheres,  49 países, 22 modalidades esportivas, foi um dos mais grandiosos e bem realizados, ricos e politicamente bem explorados meios de propaganda alemã até então.
Apoteose nazista, grande pompa, espetacular Estádio Olímpico de Berlim, com a presença de Adolf Hitler.
Infelizmente para o Führer, um grupo de atletas negros norte-americanos conquistou a maioria das medalhas do atletismo, a modalidade mais importante dos Jogos, liderados por Jesse Owens, que ganhou quatro medalhas de ouro nos 100m, 200m, revezamento 4x100 (estafetas) e salto em distância (comprimento), no mais emblemático episódio da história dos Jogos Olímpicos.
Mas a Alemanha liderou o quadro, com 33 medalhas de ouro.
Os Jogos forneceram palco para a estética nazista utilizado como veículo de sua expansão.
Os alemães não economizaram.
O orçamento dos jogos foi ampliado 20 vezes, com a construção do mais moderno complexo esportivo até então: o Reichssportfeld (hoje conhecido como Olympiapark Berlin).
Ponto central o Estádio Olímpico, com capacidade para abrigar 100 mil pessoas.
Os organizadores criaram o cortejo da tocha olímpica, existente até hoje. E um sino gigante com a inscrição "Ich rufe die Jugend der Welt" (eu chamo os jovens do mundo) – badalou na chegada da tocha na cidade.
Dessa forma, o regime tentava apresentar-se como pacífico, universal, aberto para o mundo.
Julius Lippert disse em discurso três dias antes da abertura dos jogos para os representantes do Comitê Olímpico: "Berlim saúda os guerreiros olímpicos do todo o mundo. Saúda ainda, nos senhores e com os senhores, os representantes de mais de 50 nações, com as quais toda a Alemanha deseja conviver como num reduto de paz no espírito da compreensão mútua."
Hitler retirou dos arredores da cidade olímpica as referências antissemitas ou que pudessem manchar a imagem da Alemanha pacífica que ele pretendia apresentar.
O documentário “Olympia”, de Leni Riefenstahl, mostra tudo. Encontra-se no Youtube.
Uma Olimpíada, uma Copa, é o melhor meio de fazer a propaganda de um país. Principalmente hoje, era digital.
 
Mudando de assunto: morreu Marinho, um dos ídolos da minha juventude.
Hoje ele estaria milionário, garoto-propaganda, brinco na orelha, como Cristiano Ronaldo.
Sua figura era impressionante e diferente de todos os jogadores de sua época: Marinho era louro e belo, como um astro de Hollywood, tinha os cabelos compridos até os ombros, que  ondulavam enquanto ele corria em grande velocidade.
Na seleção brasileira, foi o craque da Copa de 1974.
O playboy Marinho usava uma pulseirinha preta no pulso e tinha um tremendo chute de direita.
Um grande atacante, um dos que melhor souberam avançar da defesa.
Na Copa figurou na seleção dos melhores. O Brasil foi eliminado, mas ele partiu em direção ao gol até o fim do jogo, e bancou uma briga com o goleiro Emerson Leão por conta disso.
Marinho jogou no Cosmos dos Estados Unidos, ao lado de Pelé.
Sim, Marinho teve problemas sérios com o álcool depois que parou de jogar.
Está morto, aos 62 anos.
Por isso diz João Cabral:
 
“A bola não é a inimiga
 como o touro, numa corrida;
 e embora seja um utensílio
 caseiro e que se usa sem risco,
 não é o utensílio impessoal,
 sempre manso, de gesto usual:
 é um utensílio semivivo,
 de reações próprias como bicho,
 e que, como bicho, é mister
 (mais que bicho, como mulher)
 usar com malícia e atenção
 dando aos pés astúcias de mão”.
 
A bola, a vida, a alma, as eleições. Não inimiga, mas amante. A bola de futebol, malícia, manha, reações perigosas, não se usa sem risco. Como a nudez da mulher, ou do touro.
Cabral, nordestino, machista. Jogador toureiro,  amansa a bola. Futebol machista. O time perdedor não corta o afiado. Não o jogador, o clube, o time, mas a bola. O orbe. O mundo. O calo da vitória. O calo do verbo calar. A bola algo que rola e rebola,  imprevista,  perigosa, nervosa, telegrama, aerograma, míssil, ogiva nuclear, torpedo:
 
“ Não é a bola alguma carta
 que se levar de casa em casa:
 
 é antes telegrama que vai
 de onde o atiram ao onde cai.
 
 Parado, o brasileiro a faz
 ir onde há-de, sem leva e traz;
 
 com aritméticas de circo
 ele a faz ir onde é preciso;
 
 em telegrama, que é sem tempo
 ele a faz ir ao mais extremo.
 
 Não corre: ele sabe que a bola,
 telegrama, mais que corre voa”.
 
Eis o que diz o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto: a bola não é carta, mas telegrama; tem aritmética de circo, que o estádio é redondo; a bola não corre, voa, como uma bala, como uma faca só lâmina; vai ao extremo de nós mesmos, no mundo adverso dos nossos pés.
 
Mas neste ano, o bola é o voto.
“Triste sina, estranha condição”, escreveu Camões.

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