segunda-feira, 7 de julho de 2014

A NOVA ESQUERDA RADICAL

A NOVA ESQUERDA RADICAL



ROGEL SAMUEL EM 2003      



 Li com interesse e curiosidade a longa entrevista que a senadora H. H. prestou ao Pasquim. Digo prestou, porque este jornal nos fez um grande serviço, oferecendo-nos a oportunidade de conhecer o “pensamento político” da grande líder da oposição ao governo Lula.
     Saí da leitura satisfeito, ou melhor, sossegado. Por quê? Porque ali se percebe a inocuidade da senhora radical, ali se lê o que ela pensa e sente. Lembra o Mágico de Oz: por trás do monstro havia só um aparelho de corda.
     Eu não acredito que haja má-fé ou ingenuidade na entrevistada. Mas percebo que ela e outros são muito bem aproveitados pela direita sagaz.
     Na realidade, políticos assim não oferecem perigo para a verdadeira esquerda radical (que não é ela, mas o próprio Lula, o símbolo da nova esquerda radical).
     Ser radical, já se sabe, desde Marx, é “tomar as coisas pela raiz”. Ser radical é pensar a sociedade a partir dos que têm fome. A nova radicalidade é ultrapassar a direita, utilizando seus instrumentos macro-econômicos em favor, por exemplo, dos que nada têm.
     Na minha época chamava-se de “inocente útil” a certos personagens utilizados. Já se falava, no tempo de Lênin, da “doença infantil do esquerdismo”.
     Em breve vai-se perceber quem são os seus verdadeiros adversários. Quando chegarem as eleições, quando o prestígio do Presidente desabar, haverá uma coligação contra Lula, e o PT radical vai saber contra quem lutar e como seus verdadeiros adversários são fortes.
     Nem é o caso de pensar que a reforma da previdência vai ser o grande problema. Sou um dos servidores públicos inativos que será taxado e não estou virando de lado. Meu interesse pessoal não é maior do que o interesse social. Lula está do lado dos 40% da população abaixo da linha de pobreza. Estamos com ele. O problema não é “meu” magro contra-cheque, mas a miséria do País. O socialismo é o contrário do individualismo.
     Lembro-me de deputado que disse de seu próprio partido que é “fascista”. Diante de fatos como este compreendemos por que foi tão difícil trazer a esquerda ao poder. E também o que disse o Presidente Lula: “Se não der certo, só daqui a 50 anos”.
     Para onde vai a nova esquerda radical?
     Nós temos de pensar a nova esquerda enquanto versão da nossa nova época. Necessitamos oferecer uma interpretação econômica coerente do desenvolvimento capitalista desde o fim da União Soviética; precisamos compreender a projeção de uma evolução da estrutura histórica de nossos tempos e ver as ambigüidades políticas do nacionalismo pós-moderno e da mídia contemporânea.  Enfim, a vitória de Lula é a história completa de uma vitória do ponto de vista do derrotado. Temos de juntar as peças da fragmentação do pensamento de esquerda. São mudanças de posição, quando originalmente moderados tornam-se radicais à medida que a hegemonia neo-liberal foi-se tornando mais absoluta; enquanto outros, outrora mais radicais, mudam para a combinação corajosa e ampla da síntese política e disciplinar, como eco do novo mundo e dos novos problemas a serem resolvidos e superados. A nova esquerda tem de aprender com tal conjunto de preocupações, que é como andar o tempo todo na corda bamba, e encontrar um equilíbrio além e entre campos tão díspares. Antes de mais nada significa uma ampliação dos limites de sua própria visão.       Mas Lula lembra que o Brasil é possível. No momento, isto parece estar a nosso alcance. Mas é um horizonte cujos problemas maiores temos de manter em vista.  


2 comentários:

Gustavo disse...

Gostei do uso que fez da etimologia da palavra radical, buscando nela o mote para o desenvolvimento do texto, embora não concorde com ele.
Simplesmente porque, a meu ver, atribui à eliminação do sintoma (a pobreza) a cura da doença (o capitalismo e a sua inerente exploração de mais-valia): não é a remoção do tumor que cura o câncer, mas a eliminação das condições que levam à mutação que detona a multiplicação celular desenfreada e disfuncional.
A social-democracia do PT tem o mérito de ter focado e atacado o sintoma como certamente nunca antes fora feito neste país, que ainda carrega o caráter colonial da sua origem, mas, não questionando a causa da doença (o capitalismo produtor de exploração de mais-valia), pelo contrário, estimulando-o (ainda que de forma controlada, como é característica da social-democracia), estará perpetuando o mecanismo produtor da doença.

ROGEL SAMUEL disse...

AGRADEÇO O COMENTÁRIO
MAS O BRASIL É UM PAÍS CAPITALISTA...