sábado, 8 de novembro de 2014

A LUTA FEMINISTA NO CENTRO DOS COMBATES POLÍTICOS (*)



A LUTA FEMINISTA NO CENTRO DOS COMBATES POLÍTICOS (*)
Da dominação masculina
A dominação masculina está tão arraigada em nosso inconsciente que não a percebemos mais, tão de acordo com nossas expectativas que até nos sentimos mal em questioná-la. Mais do que nunca, é indispensável destruir as evidências e explorar as estruturas simbólicas do inconsciente androcêntrico que sobrevive nos homens e nas mulheres. Quais são os mecanismos e as instituições que realizam o trabalho de reprodução do “eterno masculino”? É possível neutralizá-los para liberar as forças de transformação que eles conseguem obstruir?
POR PIERRE BOURDIEU
Tradução: Márcia Sanchez Luz
Sem dúvida, eu não estaria me defrontando com um tema tão difícil se eu não estivesse amparado por toda a lógica de minha pesquisa. Nunca deixei de me espantar diante do que poderíamos chamar “o paradoxo da doxa” (1): o fato de que a ordem do mundo, tal como é, com seus sentidos únicos e seus sentidos proibidos, no sentido exato ou no sentido figurado, suas obrigações e suas sanções, seja a grosso modo respeitada, onde não teriam vantagem alguma as transgressões ou as subversões, os delitos e as “loucuras” (basta pensar no extraordinário acordo de milhares de disposições – ou de vontades – que admitem cinco minutos de circulação de automóveis na Praça da Bastilha ou na Praça da Concórdia, em Paris). Ou, ainda mais surpreendente, que a ordem estabelecida, com suas relações de dominação, seus direitos, seus privilégios e suas injustiças, se perpetue em definitivo tão facilmente, deixando de lado alguns acidentes históricos, e que as condições mais intoleráveis de existência possam parecer freqüentemente aceitáveis e até mesmo naturais.
Sempre vi na dominação masculina, e na maneira pela qual ela é imposta e suportada, o exemplo por excelência desta submissão paradoxal, efeito do que chamo de violência simbólica, violência doce, insensível, invisível para suas vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias simbólicas da comunicação e do conhecimento – ou, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento.
Esta relação social tão medíocre oferece assim uma ocasião privilegiada de perceber a lógica da dominação exercida em nome de um princípio simbólico conhecido e reconhecido pelo dominante e pelo dominado, uma língua (ou uma pronúncia), um estilo de vida (ou um modo de pensar, de falar ou de agir) e, geralmente, uma propriedade “distintiva”, emblemática ou “estigmatizada”, na qual a mais eficiente, simbolicamente, é esta propriedade corporal completamente arbitrária e não previsível que é a cor da pele.
Vê-se bem que nesses casos trata-se antes de tudo de restituir à doxa seu caráter paradoxal, e ao mesmo tempo desarmar os mecanismos responsáveis pela transformação da história in natura, do arbitrário cultural em natural. Para conseguirmos nos apropriar de nosso próprio universo e de nossa própria visão de mundo, é fundamental o ponto de vista do antropólogo, capaz de devolver ao mesmo tempo o princípio de visão e de divisão (nomos) que fundamenta a diferença entre o masculino e o feminino como nós a (des) conhecemos, seu caráter arbitrário, contingente e, também, simultaneamente, sua necessidade sociológica.
Não é por acaso que, já que ela quer deixar em suspenso o que chama magnificamente de "o poder hipnótico da dominação ”, Virginia Woolf (2) se arma de uma analogia etnográfica, unindo geneticamente a segregação das mulheres aos rituais de uma sociedade arcaica: “Inevitavelmente, consideramos a sociedade um lugar de conspiração que devora o irmão que muitos de nós temos razões para respeitar na vida privada, e que impõe, em seu lugar, um macho monstruoso, com voz tonitruante, punho cerrado, que, de uma maneira pueril, sinaliza no chão, com giz, estas linhas místicas de demarcação, entre as quais são fixados, rígidos, separados, artificiais, os seres humanos. Como um selvagem, adorna estes lugares de ouro e púrpura e os decora com plumas, perseguindo seus ritos místicos e desfruta dos prazeres suspeitos do poder e da dominação, enquanto nós, “suas” mulheres, ficamos fechadas em casa sem que nos seja permitido participar de nenhuma das numerosas sociedades onde sua sociedade (3) é composta".
“Linhas místicas de demarcação”, “ritos místicos”, esta linguagem da transfiguração mágica e da conversão simbólica que produz a consagração ritual, princípio de um novo nascimento, encoraja a dirigir a pesquisa a uma abordagem capaz de apreender a dimensão propriamente simbólica da dominação masculina.

Uma estratégia de transformação
Será necessário recorrer a uma análise materialista da economia dos bens simbólicos a fim de alcançar os meios para fugir à alternativa destrutiva entre o “material” e o “espiritual” ou o “ideal” (perpetuado hoje através da oposição entre os estudos ditos “materialistas”, que explicam a assimetria entre os sexos pelas condições de produção, e os estudos ditos “simbólicos”, freqüentemente notáveis, mas parciais). Inicialmente, entretanto, só um uso muito particular da etnologia pode permitir a realização do projeto, sugerido por Virgina Woolf, de objetivar cientificamente a operação propriamente mística, na qual a divisão entre os sexos, como a conhecemos, é o produto, ou de tratar a análise objetiva de uma sociedade organizada segundo o princípio androcêntrico (4) – a tradição Kabyle – como uma arqueologia objetiva de nosso inconsciente, isto é, como instrumento de uma autêntica sócio-análise.
Este atalho por uma tradição exótica é indispensável para romper a relação de familiaridade enganadora que nos une à nossa própria tradição. As aparências biológicas e os efeitos bem reais que as produzem, nos corpos e nas mentes, um longo trabalho coletivo de socialização do biológico e da biologização do social se conjugam para inverter a relação entre as causas e os efeitos, fazendo surgir uma construção social naturalizada (os “gêneros” enquanto hábitos sexuados) como o fundamento in natura da divisão arbitrária que se encontra no início e da realidade e da representação da realidade, que por vezes se impõe à própria procura.
Assim, não é raro que os psicólogos retomem a visão comum dos sexos como conjuntos radicalmente separados, sem interseções, e ignorem o grau de revestimento entre as distribuições das performances masculinas e femininas, e as diferenças (de grandeza) entre as diferenças constatadas nos diversos domínios (desde a anatomia até a inteligência). Ou, mais grave, eles se deixem guiar repetidamente, na construção e na descrição de seu objeto, pelos princípios de visão e de divisão inscritos na linguagem ordinária, através do esforço em medir as diferenças evocadas na linguagem – como o fato de que os homens seriam mais “agressivos” e as mulheres mais “medrosas” –, ou através do uso de termos medíocres e, portanto, de julgamentos de valores grosseiros, para descrever estas diferenças.
Mas será que esta função quase analítica da etnografia que desnaturaliza ao situar historicamente o que surge como o mais natural na ordem social – a divisão entre os sexos – não corre o risco de colocar em evidência circunstâncias e invariantes que estão baseadas no princípio de sua eficácia sócio-analítica e, assim, eternizar uma representação conservadora da relação entre os sexos, a mesma que resume o mito do “eterno feminino”?
É aqui que se faz necessário enfrentar um novo paradoxo para criar uma revolução completa na maneira de abordar o que se queria estudar sobre as espécies da “história das mulheres”: as invariantes que, além de todas as mudanças visíveis da condição feminina, se observam nos relatórios de dominação entre os sexos, não as obrigam a privilegiar os mecanismos e as instituições históricas que, no decorrer da história, não pararam de retirar essas invariantes da história?
Esta revolução no conhecimento provocaria uma revolução sem conseqüências na prática, e em particular na concepção das estratégias destinadas a transformar o estado atual do relacionamento de força material e simbólica entre os sexos.
Se for verdade que o princípio da perpetuação deste relacionamento de dominação não reside verdadeira e principalmente em um dos lugares mais visíveis de seu exercício, isto é, no seio da unidade doméstica, sobre a qual um certo discurso feminista concentra todos os seus olhares, e sim na Escola ou no Estado – lugares de elaboração e de imposição de princípios de dominação que são exercidos no seio do universo mais privado – abre-se um campo de ação imenso para as lutas feministas, convocadas a assumirem um lugar original e bem garantido no seio das lutas políticas contra todas as formas de dominação.
(***) Este texto é o preâmbulo do livro A Dominação Masculina, lançado em outubro de 1998, em Paris, pela Ed. Seuil.
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Notas:
(1) A doxa é o conjunto de crenças ou de práticas sociais que são consideradas normais.
(2) Virginia Woolf (1882-1941), romancista e teórica inglesa, autora, em particular, de Mrs Dalloway (1925), La Promenade au Phare (1927) e Orlando (1928).
(3) Virginia Woolf, Trois Guinées, traduzido por Viviane Forrester, edições Des Femmes, Paris, 1977, p.200.
(4) Que se coloca no centro do homem, e não da mulher.

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