sábado, 8 de novembro de 2014

Como se fabrica a opinião pública (*)



Como se fabrica a opinião pública (*)
 
Pierre Bourdieu 


 De origem campesina, filósofo de formação, foi docente na École de Sociologie du Collège de France. Desenvolveu, ao longo de sua vida, diversos trabalhos abordando a questão da violência simbólica, da dominação e é um dos autores mais lidos, em todo o mundo, nos campos da antropologia e sociologia, cuja contribuição alcança as mais variadas áreas do conhecimento humano,discutindo em sua obra temas como educação, cultura, literatura, arte, mídia, linguística e política.


Como se define o espaço dos discursos oficiais, por meio de que prodígio a opinião de uma minoria se transforma em “opinião pública”? É isso que o sociólogo Pierre Bourdieu explica neste texto extraído de “Sur l'Etat. Cours au Collège de France 1989-1992? (Raisons d'Agir-Seuil, Paris, 2012).

Oficialidade, a má-fé coletiva
Uma das dimensões muito importantes da teatralização é a teatralização do interesse pelo interesse geral; é a teatralização da convicção do interesse pelo universal, do desinteresse do homem político – teatralização da fé no padre, da convição do homem político, de sua confiança naquilo que faz. Se a teatralização da convicção faz parte das condições tácitas do exercício da profissão de clérigo – se um professor de filosofia deve parecer acreditar na filosofia -, é porque é a homenagem fundamental do personagem oficial para com a autoridade; é aquilo que precisa conceder à autoridade para ser uma autoridade, para ser um verdadeiro personagem oficial. O desinteresse não é uma virtude secundária: é a virtude política de todos os mandatários. As escapadelas dos padres, os escândalos políticos são o colapso dessa espécie de fé política na qual todos estão de má-fé, a fé sendo uma espécie de má-fé coletiva, no sentido sartriano: um jogo no qual todos mentem a si mesmos e aos outros, sabendo que os outros também mentem a si mesmos. É essa a autoridade…

Pierre Bourdieu
Tradução: Mario S. Mieli

____________(*) Publicado no Le Monde Diplomatique – Il manifesto, via micromega Janeiro de 2012
Fonte:
http://imediata.org/?p=1189
Página atualizada em 5 de maio de 2014

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