quinta-feira, 2 de abril de 2015

ALÉM DO AFEGANISTÃO

ALÉM DO AFEGANISTÃO

(Publicado em 11.10.2001)

ROGEL SAMUEL

A ameaça que nos ronda é falta de poesia. Eu vinha pela Tiradentes, passo pela Rua Luiz de Camões, esquecida. Depois, a Travessa das Belas Artes. Lá, só poucas mulheres, decadentes, esperam fregueses. A seguir, o Beco do Tesouro. Nada mais pobre. "Proibidos beijos ousados", está escrito no cardápio da Adega Flor de Coimbra. Em sonhos, no meio do conflito. Estresse das notícias. Estamos assistindo ao fim da Internet, como espaço livre de opinião, sem censura e sem limites. Primeiro, veio surto de acusações contra a pornografia infantil, que ninguém vê. Não deu certo. Essa guerra marca o fim da vida privada. Nasce a desconfiança e a incerteza. Nós todos vamos de nos entocar nos nossos redutos, voltar à civilização num estágio anterior, à civilização do papel. Fim do homem público, do homem digital. Restritos são "os beijos ardentes". Lembro-me de um soneto de Olegário Mariano, que não está nas suas "Obras Completas" e que começa: "As coisas boas da vida, tu podes ter sem comprar". Há os versos do poeta indiano antigo Shantideva, que dizem:


Quaisquer flores e frutos que haja,
Quaisquer tipos de medicamento,
Tudo o que é precioso neste mundo,
E todas suas puras águas refrescantes.

Montanhas de pedras preciosas, e assim,
As solitárias florestas, a alegria calma,
Árvores brilhantemente adornadas com flores,
Os ramos pesados de excelentes frutos.

Lagos e lagoas adornadas de lótus,
Gansos selvagens que enchem o céu
Com gritos tão bonitos—
Tudo o que não tem posse neste vasto universo.

Tendo tudo isso em mente, eu ofereço
Para você e seus descendentes;
Por pura e grande compaixão
Amavelmente aceite este presente.

Eu sou pobre e não tenho nenhuma riqueza,
Eu nada tenho mais para oferecer,
Assim por esta intenção amável pelos outros,
Aceite também isto por mim.



Depois de velho, recolho-me ao sofá, acompanhado da novela da Globo "O Clone". A paisagem árabe me pergunta: a emissora previu o 11 de setembro? A qualquer momento, no vídeo, espero aparecer Osama ao lado de Stenio Garcia. "Allá al-wa ka-bá" e Deus Salve a América. O meu amigo Kaled, hoje morando em Belo Horizonte, iniciou-me no Islã. Começou pela coalhada, com sal e azeite. A cordialidade árabe me lembra o banquete que, em 1952, o filho do rei da Arábia Saudita Ibn Sa'ud ofereceu a Onassis: No Palácio de Riad havia dançarinos comedores de fogo, cantoras e músicos. E foi servido um "camelo recheado" com um cervo, que é recheado com um carneiro etc que é recheado com uma pomba. Assado por 15 horas, regado por óleo perfumado com ervas finas. Exige dezenas de robustos cozinheiros para poder virar o espeto, sempre no mesmo ritmo. Depois do repasto, Onassis deixou o palácio levando bons contratos comerciais assinados e duas maravilhosas espadas de ouro maciço, presente do rei [Cafarakis, "O fabuloso Onassis", p. 93]. É certo que, para agradar ao rei, Onassis desembarcou com uma bagagem de presentes "capaz de encher dois andares das Galerias Lafayette", que distribuiu para o povo. Para o rei, só jóias, ouro e pedras preciosas. Do rei também ganhou um casal de canários, que Onassis chamava de Caruso, e que viajava com ele pelo mundo, presente do Rei Ibn Saud. Onassis transportaria o petróleo da Arábia através do mundo devido unicamente à elegância de seu trato social. Os dirigentes do mundo moderno deviam aprender a ler biografia, antes de tratados de guerra. São mais eficazes. "Deus criou apenas a água. O homem fez o vinho" diz Victor Hugo numa tabuleta da Adega Flor de Coimbra. O vinho faz esquecer, desarma os espíritos e as guerras. Diz o filósofo indiano moderno Krishnamurti: "A crise que atualmente assola o mundo inteiro é excepcional e sem precedentes. Crises tem havido, de toda a ordem, em diferentes períodos, crises sociais, nacionais, políticas... Sem dúvida a crise atual é diferente. E diferente porque não se trata de coisas tangíveis, mas de idéias. Estamos disputando armados de idéias, justificando-se o assassínio, em todas as partes do mundo justifica-se o assassínio como um meio de alcançar um fim justo, o que por si só é coisa inédita, o homem perdeu toda a importância: os sistemas, as idéias tornaram-se importantes. O homem já não tem nenhuma significação. Pode-se destruir milhões de homens, desde que se produza certo resultado, e esse resultado se justifica por meio de idéias.”["A primeira e última liberdade"].

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