sábado, 30 de maio de 2015

No Nepal, a incerteza é um modo de vida


No Nepal, a incerteza é um modo de vida

DONATELLA LORCH


No Nepal, a incerteza é um modo de vida
Estou constantemente no limite.
Vivo em Katmandu, capital do Nepal. Minha vida não se alterou imediatamente, em 25 de abril, quando um terremoto de magnitude 7,8 rasgou o país, matando mais de 8.500 pessoas, ferindo milhares e deixando 2,5 milhões de desabrigados.
Sim, eu me lembro das minhas mãos trêmulas depois dos 40 segundos de terra rodando, de paredes desmoronando e de gritos. Depois vieram os mais de 240 tremores secundários, incluindo um de magnitude 7,3, que enfrentei no quarto andar de um prédio que balançava.
"Esta não é mais a minha Katmandu", disse-me recentemente o meu amigo Deepesh Das Shrestha, nascido e criado aqui. "Eu não a reconheço. As pessoas só falam de uma coisa: o terremoto."
Nas últimas semanas, em Katmandu, o pânico se espalhou quando astrólogos e religiosos fizeram declarações sobre a hora e a data iminentes do próximo grande terremoto.
A polícia prendeu vários ladrões que passavam pelos bairros prevendo um terremoto, com o objetivo de invadir as casas dos moradores que fugiam. O governo cancelou a palestra de um respeitado sismólogo especializado em Himalaia, para não estimular o pânico.
Eu não fecho mais a porta do banheiro, nem mesmo em banheiros públicos, para não ter o risco de a porta travar em caso de terremoto. Dormi ao ar livre por uma semana, depois por mais outra no chão, perto da porta que dá para o quintal.
Muitos dos meus vizinhos ainda dormem ao ar livre. Sempre uso sapatos fechados, pois sei que não teria como correr de sandália pelo entulho. Carrego sempre uma sacola com artigos essenciais, como água mineral.
Cada vez que ouço um rojão, um escapamento de carro ou uma porta batendo, corro para a porta. Meus hormônios do estresse bateram um novo recorde quando deixei meu filho na escola e vários pais estavam comentando a notícia de que um sismólogo britânico teria previsto um novo grande terremoto.
O que me salvou foi ter conhecido Roger Bilham, outro sismólogo britânico, professor da Universidade do Colorado e um dos maiores especialistas do mundo no sistema tectônico do Himalaia. Ele me explicou a beleza que existe na palavra "deslizamento".
Os terremotos não podem ser previstos. Isso é o que precisamos saber. O terremoto de 25 de abril não rompeu a superfície terrestre. O vale de Katmandu se deslocou apenas 1,5 metro. Poderia ter se deslocado por até 6 metros, mas ficou "enroscado", e nem toda a energia se dissipou.
Sim, pode haver outro terremoto, que pode acontecer amanhã, em um ano, em uma década ou mais. Em um cenário bem menos violento, a placa indiana poderia deslizar suavemente sob a placa da Eurásia, ou um terremoto poderia ocorrer nas profundezas da placa indiana. Ou a placa que ficou presa poderia empurrar e elevar os montes Mahabharat.
Com a minha introdução ao deslizamento, o meu grau de pavor caiu de nove para cinco, numa escala até dez. Eu estou onde estou. Vivo onde eu vivo. Só posso controlar certas partes da minha vida. Sim, vai levar algum tempo até eu voltar a usar sandálias. Moro num país que fica sobre uma placa tectônica enroscada. Isso eu não tenho como controlar.

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