segunda-feira, 22 de junho de 2015

Rogel Samuel: CRÔNICA DE 2002 SOBRE A POSSE DE LULA



Rogel Samuel: CRÔNICA DE 2002 SOBRE A POSSE DE LULA

MEU PRESIDENTE

Rogel Samuel


- Vou à posse, diz ela, voltando-se subitamente para o lado e me encarando, séria. Não, essa não perderei...
Os carros desfilavam em suas pistas em direção à Zona Sul. E eram rápidos, nervosos.
- Há muita diferença entre o 'Presidente do Brasil' e o 'Meu Presidente' - conclui ela.
Continuamos a andar, na direção do mar. 
Um grupo de meninos de rua passa por nós, perigosos. Mas nos ignoram. Estamos razoavelmente bem vestidos para aquela hora de domingo, de verão de domingo. Lembro-me de Luiz Bacellar, o poeta, com seu relógio de ouro maciço.
- Vou à posse, fico da Esplanada, vejo o parlatório. Só não encaro a idéia de ver FH passando faixa...
Dou gargalhada no ar. 
- Como você queria a posse? pergunto. Sem a faixa? Além disso, não foi a 'tomada do poder pelas massas'...
- Foi! - grita ela, que tinha bebido muito mais do que devia. Foi a tomada do poder! Pelo voto, mas foi. Há quarenta anos eu queria a luta armada, esmagar a classe dominante, lutar por uma sociedade sem classes. Agora chegamos ao mesmo, mas pelo poder do voto.
Estávamos vindo do almoço no Lamas. 
O calor carioca estampava sua face de metal depois do almoço. Domingo. A juventude passava nua e morena, perto daquele casal que discutia política como se bem jovem fosse. Dissemos frases de estilo, frases feitas, palavras de ordem: 'Não passará!' 
- Mas o regime continua 'capitalista', digo eu.
- Infelizmente, ela me corta. Infelizmente. Mas houve uma revolução democrática. 
- Quando você era comunista...
- Ainda sou! Ainda sou. 
- Você quer saber o que penso? Acho que...
- Você não acha nada! - ela me cala - Você é um reacionário velho. Reacionário heideggeriano!, diz ela, referindo-se à algo que escrevi na década de 70.
Eu me divirto, a sorrir. 
Chegamos à praia. 
Perto dali havia o prédio da UNE. 
A tarde vinha completa. Nas tardes de domingo em Manaus se ouviam os sinos. 


Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta... 
Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes, 
Ardemos numa louca aspiração mais casta, 
Para transmigrações, para metempsicoses! 

Cantai, sinos! Daqui por onde o horror se arrasta, 
Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses, 
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta! 
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes! 

Em repiques de febre, em dobres a finados, 
Em rebates de angústia, ó carrilhões, dos cimos 
Tangei! Torres da fé, vibrai os nossos brados! 

Dizei, sinos da terra, em clamores supremos, 
Toda a nossa tortura aos astros de onde vimos, 
Toda a nossa esperança aos astros aonde iremos! 

(Escreveu Bilac, em 1919.) 


Já estávamos em frente ao Aterro. 
O calor pesado. 
Na década de sessenta foi ali que a conheci. Naquela praia, na UNE, onde ela lecionava. Há quarenta anos ela era ativa. 
Eu vi a UNE arder, como um símbolo vivo da destruição completa dos sonhos de nossa geração. Eu vi a UNE em chamas. 

Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses, 
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta! 
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes!

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