segunda-feira, 23 de novembro de 2015

A Consciência Política: Benjamin, Lukács e Weber



A Consciência Política: Benjamin, Lukács e Weber

Rogel Samuel

Resta saber se existem outros meios, não violentos, para resolver os conflitos dos homens e das classes sociais.
O Direito dá a cada individuação, constituinte da sociedade, a capacidade de recorrer à violência judicial contra individuação, quando por exemplo esta não respeita um contrato.
O ideal de resolver os conflitos sem o uso da violência, seja educando o homem, seja humanizando o Estado (qualquer forma de), está colocado na medida em que a força possa ser substituída pela persuasão, como poderíamos imaginar o parlamentarismo democrático, submetido ao voto e à relatividade dos encarregados do poder.
Seria possível eliminar os conflitos sem recorrer à força? pergunta Benjamin. Ele mesmo responde que, incontestavelmente, as relações estão cheias de exemplo disto. “Chega-se a uma compreensão sem violência cada vez que a cultura do coração humano pode fornecer meios de puro acordo”. 
Os pressupostos da consciência comunicativa do ponto de vista social, e da consciência política do ponto de vista individuante são a cortesia, a simpatia, o amor à paz, à confiança e outras atitudes como tais (depois de resolvido o problema da dissolução dos focos da violência. “Trata-se de uma proposta cognitiva imune ou avessa à neutralidade”).
A consciência política se fundamenta nesta razão hermenêutica que “trabalha fundamentalmente sobre a linguagem, lugar das relações imediatamente interpessoais, ou dos múltiplos intercâmbios simbólicos”. Esta a razão de um “mensageiro incrédulo de um sujeito quebrado, cercado de violência por todos os lados”.
Outras as idéias de Weber (que parecem ter influenciado os textos de Habermas), consideradas por Lukács próprias do “revisionismo”, ou seja, próprias da liquidação da idéia de luta de classes, para excluir do movimento operário qualquer aspecto revolucionário, considerando-se que o capitalismo deveria “resolver-se” pacificamente em socialismo, o que significa organizações sindicais deviam colaborar com a burguesia liberal, defendendo-se uma coalização de ambas.
Weber afirma a superioridade do econômico sobre o histórico. Com isso não aceita o materialismo histórico. Lukács o acusa de idealista e espiritualista, ainda que Weber critique o irracionalismo. Mas Weber é, pois, o que se pode chamar um sociólogo burguês.
Assim, a tarefa da sociologia de Weber seria, segundo Lukács, a de mostrar a necessidade de que surja, dentro racionalismo capitalista, um irracionalismo, ou a de mostrar que esse irracionalismo se encontra na base mesma desse conjunto.
Weber parte da dependência recíproca entre o econômico e o religioso. Mesmo, diz Lukács, apregoa a necessidade de uma “espiritualização” do capitalismo.
A essência do capitalismo é a racionalização da vida econômico-social, a tendência à previsão e ao controle, conforme foi descrito por Habermas. Segundo Lukács, há aí uma identificação simplista entre economia e técnica, compreendendo o capitalismo “de cabeça para baixo”, na medida em que os fenômenos superficiais assumem o papel principal, em detrimento dos problemas das forças produtivas da sociedade.
Weber observa a semelhança entre a sociedade capitalista e uma grande empresa, colocando o modelo capitalista como inevitável.
Segundo Lukács, Weber não pode compreender o marxismo, por causa disto.
Lukács acusa as bases da sociologia de Weber de “formalista”, criadoras de uma casuística formal imanente, transferindo para outras ciências os problemas essenciais concernentes ao conteúdo e à gênese.
A sociologia deve, diz Lukács, explicar concretamente, os conteúdos e os processos genéticos da sociedade. 
O formalismo de Weber faz com que ele, por exemplo, compare de maneira simplista a burocracia do antigo Egito com o socialismo. Assim sua sociologia só consegue construir tipologias, o que é o problema central de sua sociologia. 
Weber considera como tarefa fundamental da sociologia o estabelecimento de “tipos ideais”, a partir dos quais se pode fazer a analise sociológica. E o devir da historia, dentro do quadro weberiano, adquire assim um caráter irracionalista.
Também Weber é acusado por Lukács de subjetividade, pois designa como “probabilidades” as mais diversas objetivações sociais, como o Poder, o Direito e o Estado. 
Lukács vê as influências românticas e místicas que Weber sofreu (expressas às vezes diretamente, como em Rathenau, que fala da revolta irracionalista da “alma” centra o aparelho racionalista e mecânico do capitalismo).

Entretanto, diz Lukács, a luta de Weber contra o racionalismo procura pôr em evidência a posição particular de um estágio superior do próprio racionalismo. E é certo que Weber se defendeu da acusação de relativismo: excluiu da sociologia os juízos de valor. Mas defende uma crítica técnica sem ver que assim conduz o devir histórico a uma irracionalidade, do ponto de vista do materialismo histórico.
Weber se choca com o Manifesto comunista, segundo o qual a história é a história da luta de classes. E ele não pode, diz Lukács, reconhecer essa “realidade efetiva”, porque não está disposto ou em condições de extrair dessa estrutura dialética social as conseqüências lógicas dialéticas, e assim acaba chegando ao irracionalismo.
O irracionalismo, diz Lukács, é o caminho de Weber para escapar à solução dialética de uma questão dialética. 
Apesar disto, Weber aparece como enérgico adversário do racionalismo capitalista. 
Reconhece Weber que uma coisa só pode ser irracional em relação à outra, e desdenha o irracionalismo da experiência vivida, defendido por seus contemporâneos.
Assim Weber exclui o irracionalismo da sua metodologia e da análise dos fatos singulares, mas termina por assumi-lo como base de sua visão de mundo. Como Spengler, Weber constrói, diz Lukács, de maneira diletante e mística, a passagem de extremo relativismo à mística irracionalista.
As modernas sociedades deixaram para o âmbito do consentido e da ação retardada do domínio do sonho o campo onírico da literatura e outras artes, assim como as esperanças de libertação e glorificação pessoal de que participavam as preocupações religiosas. A literatura não mais atua como orientação da sociedade e parece impotente como orientação da sociedade. Seria esta uma tese da irracionalidade?
Os problemas da violência aqui foram postos através das categorias de crise, racionalização, controle e repressão, interação comunicativa, vontade de segurança, ação volitiva, condicionamento.
São temas sobre os conceitos de indivíduo e Estado, ou totalidade (i. é., sociedade).
São temas da consciência política.
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BENJAMIN, Walter. A modernidade e os modernos. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975. 108p.
------. Oeuvres. 1. Mythe et violence. Trad. Maurice de Gandillac. Paris, Les Lettres Nouvelles, 1971. 331p.
------. et alii. Textos escolhidos. São Paulo, Abril Cultural, 1980. 345p. (Os Pensadores).

LUKÁCS, Georg. Georg Lukács. Sociologia. São Paulo, Ática, 1981. 2O8p. (Grandes Cientistas Sociais, 20).
------. História e consciência de classe. Porto, Publicações Escorpião, 1974. 379p.
------. Teoria do romance. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa, Presença, s/d., 205p.
WEBER, M. Ensaios de sociologia. Rio de Janeiro, Zahar, 1979. 530p.
------. Weber. São Paulo, Ática, 1979. 168p. (Grandes Cientistas Sociais, 13).

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