quinta-feira, 12 de maio de 2016

64 outra vez

Rogel Samuel - Os cantos (1964)






Canto primeiro



Decorrido o tempo a imagem dela 

entre as pessoas da rua começa a linear-se 
ou desaparecia ou próxima e inteira 
como um coice se via a variada 
aspergida dispersa. Sua figura 
de tordo e metal desconhecido 
enfurecia o comando deste povo 
que habita diretamente todos nós 
acelerava a parte e sobre a sarça obscura 
certo da sua atitude disciplicar 
amanhecia ainda um mapa de cores 
à disposição. Oh sinto-me levado 
pela demonstração a coisa o folhear 
porque mostrar é o meu único refúgio 
e o meu desenlace transacto imposto tenso 
nunca passava de róseo amarelo azul 
nenhuma cor. As pernas estendidas sobre o 
fundo, espero e fico como que mais surdo 
às expectáveis palavras dos velozes 
quem podia me reanimar: era sozinho 
e ela faiscações rebrilhos Potestade 
conseguia tocar os dedos transferidos 
para outros compromissos plataforma 
mais alta mais velada alada e aérea 
fala fatalidade irmã da morte 
quem se aformoseie e se transfere em quê 
argila topográfica caminhada 
caminhemos convictos, caminhemos 
e sedimentares que ali não eram certos 
de pálida derrota senão estava 
dizer de cláusulas alfandegárias trapaceadas 
oh irmãos da morte vigiai 
as inúteis bandeiras abas leques 
queimam gasolina controlada 
computada pelos contornos senhoriais 
arrendai-me oh grande queima verde 
recém saída de altos fornos cerimoniosos 
que pegando o tecido e examinando a cor 
discutem entre si sacudindo os olhos 
penduricalhos pinjentes quedados 
superiorizados pagos trepados: à tintura 
o consolida moço de consciência 
proletário pulsar dos pulsos que seguravam 
nos sustentando famintos e opressores mitos 
umas leves camadas de barro que se espoliavam 
aos duros golpes do inimigo devotos 
gaivotas gotas de Infinito acaso a morte 
parda e morna e paliçada ardia 
mas estando refrigeradas e atadas 
eram pingentes constelações turbinas tubulares 
que se aprofundavam em congelamentos e orgias 
Era a guerra. Endereçadas populações marginais 
nutris de servidiços trabalhos 
a imitação - que é minha - sempre aberta 
olhos elétricos candelabros enodoados 
se apagavam em cores para a visão final 
cadeirinhas carreiras tremulina dons 
a placa de metal sobre o alto assoalho 
sobretudo os altíssimos raios sacramentais 
e contínuas marés de compridas nuvens 
alvuras para que passemos sobre as suas 
cabeças sensuais querem meu afago 
mais que a trama o permitir e então 
no frígido planeta estereotipado 
sentido pintado o fim do mais querido 
sonho, adeus, foi só um momento aquele 
o tapume os jogadores o pólo verde 
ainda entrevejo, débil coração 
conexa a minha memória esgarçada 
já vigiava o céu, velho e severo 
céu que era pleno de estrelas assassinas 
em baixo da minha pouca paliçada 
o rol de meus amigos mortos aprisionados 
camuflados traidores feitores dores 
fugiam todos por um curso usual 
1963, lembro-me que era de tarde 
- traspassada dividida, lentamente 
andávamos através daquela rua 
o lugar grave passos tardos convulsão 
resumida o contato nossas mãos 
- toque de dedos, rápido e desperto 
eu não conseguia narrar, ó musa descoberta 
evanescente irrecuperável ocorrendo 
por onde passava inteiramente aberta 
a presença frente a tela de cinema 
e implantado aquilo que me era triste 
pois tudo começou no dia que lembro 
quando acordei o teto do meu quarto 
desmaiado vinha de amanhecer um outro 
sol do outro lado do mundo, aberta a janela 
labirinto abastardado claro suavíssimo 
marítimo emanava aquele ponto horrível 
horizonte que entrando um azulado 
vento do mar oleava. Lembro-me das linhas 
retas cruzes ruas úmida cidade indiferente 
da quase madrugada que chegava a forte 
perfeita aterradora ambígua assassina 
as persianas que batendo vivas 
e que desesperavam para a morte 
a minha confiança e a minha lembrança 
o aroma de café entrante o espaço lerdo 
subia até ali. o esquecido, eu pensei: 
devo amá-la. e olhei pela janela 
na espera de encontrá-la: mas um grupo 
policiais à paisana e eu... súbita felicidade 
vinha da calma da praça em que estávamos 
na borda daquela raça ela subiu pedestal 
vazio frio cabeceira tanque retangular para o ar 
sumiam seus braços seus brados espalmados 
para o céu como voasse ameaçava 
dizia que o vento intenso era sensual 
recolhia para si própria aquele medo 
e levava ao majestoso ao largo olhar 
mar que soando forte aos nossos gritos 
órgão a sua voz de meus cristais 
a salsugem penetrava e da camisa 
nua sobre seus cabelos ressoava 
e entrando como por um túnel me atava 
nadava me entristecia ainda mais 
da sua essa passageira aparição demora 
o momento montante o interior imensurável 
os rápidos retardos que é para sempre 
adormeciam e sinto espécie nova 
um som um estilhaço longo momentos 
de certeza inteiramente perdição 
depois na praia ela se deitava 
e se largava na areia matutina 
e era suave aquela branca nua 
visto de longe no mar era certeza 
espécie de vedação alta azul e informe 
as coisas se dissolviam em explosões 
cristas e covas cintilações sonoras 
luminosidades que a ela me contavam 
naquele dia no convés de quase tudo nascia 
a ondulação dobras das velas 
esbeltas circulares e misteriosas 
Nós dois. Nós dois ríamos muito 
de face recebendo gélida chuva 
gotas algumas da tarde e haviam dito 
- ouvíamos som de gaivotas e de mares 
que ela andava como adorno multicor 
ela se precipitava entre coisas vivas 
que depois os soldados invadiram 
bombas rebentavam no meio da sala 
não havia rádio nenhuma comunicação 
eu ainda não passava de matar a esperança 
amada e ela morta certamente 
a porta da frente onde estávamos 
talvez aberta talvez fechada rebentou 
eu passava a mão sobre sua cintura 
e mordia-a na nuca ternamente 
a porta começava a chave introduzida 
na fechadura como ainda me lembro a outra porta 
bem defronte os azulejos brancos a pia branca 
a geladeira branca e lá fora chovia e a clara voz 
nos dizia que era o fim de tudo 
e que ouviríamos certamente o nosso algoz 
como para poder fugir para o fundo de nós mesmos 
tomamos de súbito os sinais 
e entravam e se apoderavam os policiais 
de toda a casa que um dia tinha sido minha 
jogamos o nosso conteúdo fora 
e fomos engolidos pelo meu silêncio 
fugimos dali. Aquele golpe vitorioso 
nos deslocava para a clandestinidade 
fomos nos ver numa estação suburbana 
olhávamos a planície e estávamos sós 
quase uma centena de esperados iam 
no bojo do mesmo trem. Mesmo ali naquele isolamento 
desmilitarizados passavam policiais e viaturas 
e nós éramos presumidos e perdidos 
Val era linda. Palavras cheias de angústia 
fome medo perdição: Que fazemos aqui? Para onde ir? 
Novo grupo de policiais chegava 
nas imediações campos de guerra 
e a porta cedia a pancadas a invasão 
começou. O garoto olhava espantado. E começava 
a lavrar um incêndio. 






Canto segundo





Sucede que assentou num banco de pedra 

com todo pedantismo que de sempre 
lhe era familiar. Naquela praça distante 
ficava a esperar e a pensar 
- mas o que estava esperando senão morte 
neste ponto nem via que por ali 
poderiam encontrá-lo. As lanternas 
que partiam iluminavam-no violentamente 
de vermelho. E ele espera calado 
com suaves sentimentos depressivos 
havia andado tanto depois de ter fugido 
que atrás dele no largo da praça estariam 
mas ele nada mais queria fazer. As crianças 
corriam gritos pela noite. Morna e plácida 
provinciana geografia, geometria mortal 
irmã do sonho. Dois velhos caminhavam pelas 
sombras da noite, cada um com seu embrulho. 
Ele estava bem, ali. E até poderia 
dormir sob os faróis dos carros que cruzavam 
o que sentia. Em breve, porém, ficou sentindo 
um gosto mole de aço e de azedume 
como se o vento que vinha sobre ele reto 
pudesse lhe cavar um fosso dentro 
Às vezes algumas lembranças familiares 
o levavam num passeio da imaginação 
e era como se sua mãe, tia e sobrinha 
dissessem ser agradável viver ali 
e de pensar naquelas pessoas ternas 
não havia os tais carros e seus sistemas. 
O pregador e seu dilema. Um viver que o sustenta, 
circunda, pega, o põe indiferente. 
Ele nada mais via naquele fundo 
tudo que estava, tudo que faltava estava ali. 
A noite que o circunda nas vidraças 
altas prolongava aquela letargia e acomodação. 
Era tempo. Pois no dia em que almoçaram juntos 
havia muito sol. Depois do almoço 
andaram até a margem, a praia onde estavam 
sempre. Havia um vento, uma frescura quase fria, 
e o gosto na boca era de pomar 
Todas as reverberações no tanque 
além do gradil de ferro ofuscava por momentos 
O mundo enquadrado estava claramente 
limpo, sadio, em sossego. Ele tomava 
de algo no bolso e começava por alguns instantes 
a brincar. E o metálico do papel 
que o envolvia riscava o céu de diamantes 
Mas o sabor era excelente, a dissolução 
lenta, excitante. Salivava. Estava alegre 
de estar sentindo. Havia pássaros descendo. 
Os edifícios agora na manhã 
espelhos de fantásticas vitrines. A camisa 
aberta com suas asas desarticuladas 
exibindo o ventre arqueado. Ele tinha naquele 
instante a silhueta mais de pássaro do que 
do pobre rato e, descendo a vista poder- 
se-ia ver a sua forte carnação. E desde o pescoço 
sólido até as pernas, tesas, tensas, quase tortas 
o seu corpo se contorcia e se deslocava 
numa dança que andava. Tudo viu. Andou 
sem jeito até bem perto do vidro. E um grupo 
de turistas passava. Alegres e por detrás 
no fundo da imagem. Alegres, falavam, não 
o viam, nenhum deles. Sua presença era dureza 
e aridez. E tendo visto saiu assombrado 
da marquise, da rua com seus gritos com 
seus giros e para lá se dirigiu, seus passos 
sobre a calçava levavam, vagava 
Um bar fechava as portas. A noite 
era dos afastados lampiões que se apagavam 
e uma leitosa névoa cinza anunciava 
a madrugada. Seus sapatos molhados 
seus olhos molhados. Na mecânica 
da tristeza de andar, sem atinar, sem saber para quê. 
Procurava e ter para onde vir não, não mais 
chorava estava diante da nobre descoberta 
passara sombra futuro deixava 
inquietar pelo menos durante aquele 
tempo mas como se mudava alternava era 
possível que em breve nova orda deprimente 
o tomaria como uma agitação nervosa 
angustiante ele fugia e na realidade 
procurava andava atrás da fuga era 
possível que soubesse e dele era o que 
não tinha bem certeza o perseguiam 
hoje mesmo o pensava a fuga era uma 
engrenagem necessária e exercera 
como o que tentava alcançar e não sabia 
e o alcançava rodeando aquela parte daquela 
cidade perigosa das pessoas cujas portas 
franqueavam sem que pudesse regressar 
sensação de que tudo estava excluído para 
quando entrou experimentou logo 
a solidão daquele espaço vazio 
atravessando a área descobriu no outro 
o lado o disfarce a saída que apontava 
e uma estrada que partia sempre 
e ninguém passava por aquela estrada só 
os inúteis os demônios inúteis o fundo descortinava 
o vale as grandes montanhas além 
morcegos de vento passavam por ali idos 
musguentos com estrídulos chiados estilhaços 
quebravam o ar com seus gritos suas 
negrinhas asas cobrindo o sol a lua estrelas. 
e ouvir o trinar grave e reto 
de certas aves ocultas travo rouco baixo e grave 
monstro e seu arquejar forte seu resfolegar 
abrindo um túnel de torpor e medo as abas da morte 
se abrindo par em par e rolando aquela parte 
se postou para frente oh estrada! quando vinha 
soturno a triste impressão que navegava 
a luz da morte seus faróis aquela parte 
obscura e perdida onde ocorria tudo 
chamado vento sangue não sei o quê 



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