domingo, 22 de janeiro de 2017

NA CASA DE GERARDO MELO MOURÃO - ROGEL SAMUEL



NA CASA DE GERARDO MELO MOURÃO - ROGEL SAMUEL
Um dia, estava no apartamento de Gerardo, famoso escritor, jornalista e político. Via-se que era homem rico, de tradicional família de políticos. Estávamos numa daquelas intermináveis reuniões de esquerda. Presentes ali lideranças políticas, representantes da "sociedade civil" (como se dizia na época), músicos, artistas plásticos, escritores. O apartamento amplo, ricamente decorado, frente para o mar, ocupava vastamente o andar inteiro da Av. Atlântica. Grande salão, onde estávamos, ao fundo majestosa, imensa biblioteca. As discussões entraram pela madrugada. Eu me enfadei, bocejava, palavras, palavras: estávamos ainda no regime militar. Sempre me canso em situações daquelas. As lideranças se entrechocavam. Orgulhosas e brilhantes.
Onde há muitos líderes, o embate é certo. Na época ainda acreditava que somente a "revolução" podia mudar alguma coisa. Era algo mítico, heróico: eu, que não matava um inseto, sonhava com revolução branca, pacífica, democrática. Pelo voto! Então, uma coisa me intrigou: como aquele homem, que era sólido intelectual respeitável, podia ostentar, em suas paredes, somente reproduções em papel de famosos quadros da pintura nacional, como Volpi, Djanira e Di Cavalcanti? Intrigado, levantei-me e fui por o nariz nos quadros e vi, terrificado, que as telas eram mesmo verdadeiras. Aquelas paredes valiam um museu! Fui examinando um a um os quadros, espantado de emoção. Pinturas famosas, que todo mundo conhece, pois estão nos livros de arte conhecidos. De repente, pressinto que havia alguém atrás de mim. Era ele.
- Mas o que tenho de mais valioso, disse-me ele, não está aqui. "Venha ver".
E pegando-me pelo braço me conduziu por uma série de salas e corredores do apartamento até um gabinete de trabalho, relativamente pequeno. Na parede havia uma peça de madeira trabalhada em altos-relevos, com motivos religiosos, galhos, folhas e frutos.
- Sabe o que é isto? perguntou ele.
- Não sei, respondi eu.
- Isto é o que sobrou da porta da Igreja da Companhia de Jesus, no Maranhão, onde o Padre Vieira pregou durante vários anos. A Igreja foi demolida!

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