quarta-feira, 8 de março de 2017

AS MULHERES

AS MULHERES

Rogel Samuel


            Para Rose Marie Muraro a criação é "sempre mais satisfatória que qualquer felicidade pessoal. O orgasmo da criação é mais intenso que o orgasmo sexual, mas só entende isso quem cria.  “Por isso, a vida inteira fui atraída pelo impossível. Só o impossível abre o novo. Só o impossível cria". E afirma que, quando o macho descobrir essa sexualidade, não venderá mais a alma ao sistema, porque será plenamente resolvido.
A crítica literária feminista anglo-americana compartilha do mesmo propósito de toda a investigação feminista: o de expor os mecanismos sobre os quais a sociedade patriarcal domina e pelos qual é mantido, com o objetivo de transformar as relações sociais. O objeto da crítica feminista é fundamentalmente político.
As feministas defendem a atividade de transformar a sociedade, porque acreditam que a sociedade patriarcal está a serviço dos interesses dos homens sobre os da mulher. Seu tema é o modo de como a sociedade patriarcal as oprime.
Não há uma única definição do que seja o feminismo. Nem o feminismo conhece uma única metodologia distintiva. A melhor maneira de abordar o feminismo é indicar todos os pontos contra os quais ele luta na suas práticas transformacionais, críticas e política. As teorias do feminismo contêm muitas disciplinas na sua crítica da realidade. As feministas tendem a tomar emprestado de outros campos do saber as ferramentas metodológicas e conceituais que satisfazem às necessidades dos seus trabalhos.
Estudos literários feministas abordam uma vasta ordem de problemas críticos, dentre os qual podemos citar a reconstrução da história das mulheres e de uma tradição literária feminina; a historiografia feminista; a formação do cânon; a crítica feminista das mulheres negras; a crítica das representações da mulher nas artes visuais e na literatura; as mulheres e a cultura popular; o debate sobre o determinismo biológico contra a construção social do gênero; a androginia; a cultura lésbica e a tradição; a natureza das mulheres escritoras e as condições sob as quais elas produziram seus textos; a autobiografia; as mulheres e a diferença; a questão sobre uma especificidade de uma linguagem feminina, e se existe ou não; a subversão da linguagem patriarcal; o problema da subjetividade e da constituição de identidade de gênero; o pós-colonialismo e o imperialismo cultural; a procura de uma lógica alternativa; a possibilidade de uma epistemologia feminina.
As feministas puderam juntar uma extensa gama de problemas precisamente porque o feminismo não está fundado em uma teoria integrada: a diversidade é a marca de seus estudos.  
O mundo anglo-americano testemunhou duas épocas principais do feminismo no século 20. A primeira nasceu com relação à luta das mulheres para votar. A segunda época surge dos movimentos políticos dos anos 60, quando as mulheres perceberam que as metas da nova esquerda não levaram suas aspirações em consideração.
Embora interfiram intelectualmente na formação das teorias feministas, os intelectuais masculinos, com exceção de Derrida, sempre usaram "o feminino" metaforicamente. Alguns se referiram àquilo que a cultura Ocidental sempre tem negado às mulheres. Mas os críticos nunca estiveram interessados no avanço político e social das mulheres.
Estudos literários feministas anglo-americanos foram marcados por várias fases: 1, focalizou a ausência de mulheres no cânon literário e se esforçou para recuperar e promover uma tradição literária feminina; 2, desenvolveu a  crítica de desconstruir as representações das mulheres nos  textos machistas; 3,  pesquisou representações precisas de mulheres na reconstrução de subjetividades.  Estes estudos estendem as preocupações feministas a questões de classe, raça e orientação sexual.
Finalmente, as feministas começaram a se ocupar da crítica das suas próprias práticas, um fato que indica o desenvolvimento positivo de autoconsciência crítica. 
            Virginia Woolf é reconhecida como importante precursora do pensamento feminista anglo-americano contemporâneo por seu papel no modernismo.
Outras escritoras continuaram as suas tentativas de traçar uma tradição de mulheres escritoras, baseadas na idéia de que a diferença de serem mulheres se inscreve no texto.
Recentes estudos relacionaram o sexo do escritor como tema principal da crítica: pergunta-se se a escrita da mulher é inerentemente diferente da dos homens, e, nesse caso, como poderia ser definido o que estão escrevendo as mulheres. Desde os anos 70 e 80, este pensamento une teorias de feministas francesas,  como Hélène Cixous, Luce Irigaray e Julia Kristeva. Importante para a literatura brasileira é o trabalho de Hélène Cixous sobre Clarice Lispector: L'heure de Clarice Lispector. Paris, Des femmes, 1989.



AS MULHERES



Verifica-se o poder dos homens sobre as mulheres como uma forma de sexualidade coercitiva. O controle dos homens é mantido pelo medo das mulheres de estupro e pela perpetuação de estereótipos do papel sexual que os homens ditam, e assim restringem a atividade feminina.
Os papéis sexuais são definidos como valores culturais que são reproduzidos socialmente; conseqüentemente, as feministas falam da "construção social do gênero", que significa o gênero que não é mais determinado biologicamente, mas é um produto do condicionamento social. 
A crítica do gênero como construção cultural provou ser um ponto de partida frutífero para os estudos feministas subseqüentes. Algumas promoveram o conceito de androginia num esforço para quebrar a dicotomia masculino/feminino baseada em concepções essencialistas de gênero. A teoria de Nancy Chodorow do desenvolvimento psicossexual (1978) estudou o papel da maternidade reproduzindo psicológica e genérica diferença que perpetuou a divisão sexual do trabalho e a posição inferior das mulheres frente aos homens.
O interesse em papéis sexuais e sua representação em trabalhos literários conduziram a vários estudos que tentaram a desconstrução da imagem da mulher na literatura. Viu-se que a criatividade das mulheres foi impedida duplamente pelos mitos que reservaram a criatividade artística para a esfera masculina.
Gilbert e Gubar concluem que mesmo as mulheres que ousaram escrever têm de segurar a caneta, ou "pênis metafórico", e se constituíram num desafio aos papéis patriarcais.
            Julia Kristeva, lingüista e psicanalista, orientou seus trabalhos para as políticas do discurso e escreveu sobre o assunto feminino. Para ela, o produtor de significado está constantemente em processo. Ela rejeitou as ficções humanistas de um ego fixo e de um sistema de linguagem imutável. Kristeva examina as possibilidades radicais pela significação do sujeito de romper a ordem simbólica ou paterna com o que ela chama "linguagem poética". Em La Révolution du langage poétique, de 1974 e em outros trabalhos, ela desenvolveu a idéia central do "sujeito dividido", ou a sua visão da diferença sexual como mentirosa dentro da psique de bissexual individual.
Para Kristeva, o significado é gerado pelo "transversalizamento" constante do sujeito por e entre o domínio sematológico (a fase pré-edipal, onde nenhuma diferença sexual existe e onde as pulsões pré-verbais produzem um número infinito de significados) e o domínio do simbólico (a fase socializada, onde a Lei do Pai ou do "nome" [non=não] do pai estabelece a diferença sexual, e onde o significado está limitado como discurso cultural).
Mais recentemente, Kristeva focalizou na fase pré-edipal a mãe bissexual em lugar da mulher, sinalizando o desejo de erradicar as categorias sexuais destrutivas decretadas pela Lei do Pai.
A psicanalista Luce Irigaray contribuiu com a crítica feminista sob a influência de Freud e de Lacan, situando o discurso psicanalítico em geral dentro do contexto maior do pensamento Ocidental.
Como Kristeva, ela vê o mito humanista do ego unificado como fundamentado na ideologia do falocentrismo de um criador masculino potente e sem igual.
Mas a preocupação central de Irigaray é a construção e imagem da mulher feita pela imaginação masculina que informa a tradição filosófica inteira.
Ela se refere ao texto de Derrida de que as metafísicas ocidentais excluíram mulher-como-conceito; e se apropria da formulação de Lacan sobre a dinâmica de ausência: A mulher "não existe". Em Speculum, de 1974, Irigaray vê como os pensadores masculinos desde Platão fizeram a mulher como um ser passivo pelas suas elaborações da "lógica do mesmo": nas suas especulações filosóficas, o sujeito reflete somente a si próprio, e tudo aquilo que é diferente dele é o "negativo", ou "inconcebível".
A metáfora do espelho sugere o problema da invisibilidade da imediatez da sexualidade feminina no pensamento ocidental. O pensamento "masculino" contempla o que objetivou da mulher, e a questão da representação do discurso e da escrita como pura reflexão do lugar ou imitação do discurso de si mesmo.
No Brasil, Rose Marie Muraro defende que a sexualidade não é só genital, mas de corpo inteiro. Em Memórias de uma mulher impossível, ela lembra que "a sexualidade de corpo inteiro é maldita e reprimida pelo sistema. Assim acabaria a obsessão do trabalho, da sexualidade genital, do consumo da riqueza, da briga por ela, da competição, da violência, da dominação. Enquanto o corpo reprimido conhece o prazer da sexualidade localizada, o corpo liberto conhece o êxtase do Eros, que ilumina tudo, até o trabalho, que passa a ser então ação transformadora". 
Recentemente, Rose escreveu que:  "Freud afirma que a natureza foi madrasta com a mulher porque ela não tem capacidade de simbolizar como o homem. Lacan afirma que o simbólico é masculino e que “a mulher não existe” porque não tem acesso à ordem simbólica. A palavra pertence ao homem e o silêncio à mulher. Segundo ele o simbólico é estruturado pela cadeia de significantes cujo grande organizador é o Falo. Este ao mesmo tempo é metáfora do órgão sexual masculino e do  poder. Assim o Poder (que é essencialmente masculino) é o Grande Outro ao qual implícita ou explicitamente todos os atos simbólicos humanos se referem, incluindo pensamentos, gestos, leis até os sistemas macro-políticos e econômicos. E de fato ele tem razão. A realidade humana é gendrada (gendered), como gendrados somos todos nós. Todos os sistemas simbólicos atuais foram sendo fabricados por e para os homens. Leis, gramática, crenças, filosofia, dinheiro, poder político e econômico, tudo.
"No entanto, na última metade do século XX algo novo acontece. Os dois grandes resultados da sociedade de consumo são a entrada da mulher no mercado mundial de trabalho (uma vez que o sistema fez mais máquinas do que machos) e a destruição dos recursos naturais (porque os retirou da natureza num ritmo mais acelerado do que esta poderia repor). As mulheres entram nos sistemas simbólicos masculinos no momento em que estes estão se mostrando implacavelmente destrutivos da vida.
"A tarefa monumental que os movimentos de mulheres e as mulheres como um todo têm hoje é de construir uma nova ordem simbólica não mais centrada sobre o Falo (o poder, o matar ou morrer que é a sua lei) mas uma nova ordem que possa permear desde o inconsciente individual até os sistemas macroeconômicos, agora estruturada sobre a Vida. Estas reflexões não poderiam estar sendo feitas se este trabalho já não estivesse em curso. Já está sendo construído um consenso entre os povos contra uma dominação global que exclui o grosso da humanidade, e sobre uma nova ordem que inclua uma relação complementar entre os gêneros, uma família democrática, um tipo de relação econômica que não transfira a  riqueza de todos para os poucos que dominam, que inclua relações comerciais econômicas menos desumanas e destrutivas.
"As mulheres já estão entrando nos sistemas simbólicos masculinos não só nas instituições convencionais (empresas, partidos, etc.) mas através de outras, muitas vezes na contramão da história (lutas populares,  ecológicas, pela paz, etc., onde são a grande maioria). Elas estão construindo uma nova ordem simbólica cujo Grande Outro é a Vida (viver e deixar viver) e ajudando a desconstruir esta ordem universal de poder. E se não trabalharmos nesta profundidade por mais que se transformem as estruturas econômicas antigas elas tenderão a voltar.
"Ou substituímos a função estruturante do Falo pela função estruturante da Vida, ou não teremos mais nem Falo nem Vida."   
 Recentes estudos investigam e exploram as relações complexas entre sexualidade transgressiva, desejo, violência e modos da arte da representação, verificando os conflitantes limites entre realidade e ficção.
Tanya Horeck e Patricia MacCormack, de Cambridge, pesquisam essas questões. Trata-se da representação da sexualidade, não da crítica da sexualidade. Ou seja, não se trata de questionar a sexualidade, mas de sua representação. Por isso, tais pesquisadoras analisam a representação de sexo, violência e identidade transgressora em Boys Don’t Cry (Kimberley Peirce, 1999) - «Meninos não Choram»; e na ficção popular do filme sobre a sexualidade feminina em The Weight of Water - « O Peso de Água» (Kathryn Bigelow, 2000).

Serviria a representação do sexo e da violência na TV a alguma função social, ou é mera exploração? Qual a relação entre a nossa era de espetáculo e a representação da violência? Entre o crime e o trauma sexual? Através de análise de filmes, media ou textos escritos, este tema focaliza a noção de aproximação da «vida real» com a ficção. Exploram os novos estudos a tendência crescente do documentário e do «drama», apontando relações entre sexualidade e representação e violência, como o estupro durante as guerras e a cultura popular. Entre corpo e texto.
                            
A leitura da media, da ficção popular e de filmes é fundamental para essa discussão teórica relativa às ligações entre realidade e representação, entre fantasia e realidade (seja o que for que isso signifique). É básica mesmo para a compreensão do comportamento atual. Trata do estudo do corpo «pós-humano» na cultura contemporânea, e da divisão convencional entre a realidade dos corpos e o discurso da ficção, crescentemente conflitantes em muitas áreas.

O desempenho tecnológico e experimental dos chamados filmes de tese, ou teóricos, efetivam a cultura visual nas relações sociais. A sexualidade se torna assim um termo que se pode inscrever num estado a priori existente e numa forma de auto-expressão da media. Os estudos investigam as influências do filme, da teoria e da tecnologia na vida cotidiana e as dificuldades quanto ao gênero, à raça e à história, colocando a ambigüidade atual do gênero (suas indefinições, misturas, transgressões), a materialidade corpórea, a sexualidade e a política como termos voláteis, usados para definir e quebrar as noções tradicionais de agir, de volição e de auto-representação. Em que sentido esses termos ainda são importantes quando se pensa o futuro do corpo, do gênero misto e da sexualidade?

A tensão entre a memória ética da repressão sexual passada e o modo de pensar futuro e criativo é responsável por um novo corpo, em que várias estéticas de representações epistemológicas se informam em nossas novas possibilidades de compreensão de si, da media e do mundo que estarão no centro dos debates relativos à violência da representação e da questão do Outro (que ameaça ou integra) na cultura pós-moderna, e assim sobre o corpo perverso, sobre o corpo livre e sobre o poder da diferença, da  compreensão crítica da sexualidade, da violência, da representação na cultura em geral, pop ou não, nas implicações políticas e éticas do futuro pós-humano para a história do desenvolvimento da felicidade do corpo e da sua opressão. 

Esses novos estudos críticos juntam o estético, o social e o político, contextos de representações visuais e textuais que pertencem à sexualidade na cultura contemporânea. Trata-se do contexto de debates das relações entre subjetividade e desejo, corpo e texto, e trata do obscurecimento dos limites entre o fato e a ficção.  Entre os fatos de nossas vidas particulares, e as nossas ficções e desejos pessoais.



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