O SILÊNCIO ANTES DA CATÁSTROFE
Rogel Samuel
Li na internet que, de acordo com um relatório da OMS (a organização mundial de saúde) e do UNICEF, mais de 2,6 bilhões de seres humanos – ou seja, mais de 40 por cento da população mundial - não tem água de boa qualidade, e para mais de um bilhão de pessoas a água é completamente não-potável, anti-higiênica.
O relatório - "A realização de objetivos de desenvolvimento do milênio para potável e sua purificação" – avalia os anos de 1990 a 2002, e chega a dados catastróficos.
A purificação da água, em escala mundial, não será alcançada para o extraordinário e desnorteante número de um e meio bilhão de indivíduos - a maioria deles vivendo da agricultura na África e Ásia.
Os esgotos não tratados ou abertos contaminam de várias doenças e matam milhões de crianças, e deixam milhões de pessoas no limite da sobrevivência.
O mundo está para alcançar um nível crítico de consumo de água em relação ao crescimento da população, de forma que 800 milhões de pessoas beberão água contaminada até 2015.
Os efeitos catastróficos poderiam ser evitados, segundo a UNICEF e o OMS, se se tomassem as providências cabíveis e se se ensinasse uma higiene elementar para as populações.
O relatório aponta para uma crescente tendência mundial de favelização e marginalidade urbana das grandes cidades.
Por conseqüência, as famílias que moram em aldeias e em distritos deserdados pelas cidades ricas serão dominadas por um ciclo de doenças e pobreza maior.
Crianças são as primeiras vítimas, mas a falta de higiene também terá um efeito negativo no crescimento econômico mundial.
«Num mundo em que milhões de crianças nascem sem as necessidades elementares», declarou a Sra. Carol Bellamy, diretora geral do UNICEF, «a desigualdade crescente entre os que têm e os que não têm acesso a serviços de base está matando por dia aproximadamente 4.000 crianças, e são a causa de morte de 10 milhões de crianças todos os anos. Nós precisamos agir agora, caso contrário este número de vítimas vai certamente aumentar».
Nas regiões mundiais em desenvolvimento, como a África saariana, reside o maior perigo.
Na ex-União Soviética só 83 por cento da população têm acesso a instalações de purificação de água suficiente. Com o crescimento das pressões econômicas e da população essas porcentagens podem diminuir.
De acordo com o OMS e o UNICEF a inatividade de hoje terá conseqüências sérias. A diarréia será responsável pela morte de 1,8 milhões de pessoas todos os anos. Na maioria dos casos crianças de menos de cinco anos.
Na África as pessoas perdem mais de 40 bilhões de horas de trabalho para ir buscar a água que bebem. E muitas crianças, em particular as meninas, não vão para a escola por falta de latrinas, o que é um desperdício para suas possibilidades intelectuais e econômicas.
Não basta dinheiro, diz a Sra. Bellamy e o Dr Lee, para inverter essa tendência e se ir aproximando de uma cobertura mundial de água, mas de políticas nacionais de reorientar recursos para benefício das comunidades mais pobres, com a cooperação da administração local e o setor privado para a contribuição de uma solução possível.
«Para alcançar os objetivos de 2015, os países têm que criar uma determinação política e têm que constituir recursos que permitam socorrer um bilhão de habitantes de cidade novas, e diminuir em cerca de um bilhão o número de habitantes que não tem acesso a instalações de purificação de água suficiente - caso contrário nós arriscamos a deixar à margem caminho do desenvolvimento milhões ou até mesmo um bilhão de seres humanos», diz o Dr Lee.
«Temos de garantir os elementos básicos à vida até 2015».
domingo, 15 de julho de 2007
quinta-feira, 12 de julho de 2007

ESTRASBURGO, PARIS, MANAUS
Rogel Samuel
A caminho do Aeroporto. De volta ao Brasil. Passando pelo Metrô, ali passamos sempre. A feira, estação Duplex. Paris cinzenta, fria, elegante. Minha estada em Estrasburgo decepciona. Cidade cheia de mendigos. Na Praça Kleber, um MacDonald e outras novidades escandalosas. Placas de anúncios coloridos. Um prédio moderno agride a arquitetura. É a FNAC. Decadência. Desemprego. Prostituição. Dificuldade. A cidade anoitece deserta. Sem alma, sem vida. À noite as cidades exibem suas entranhas.
A catedral continua um esplendor...
Em Paris, uma chuva fina molha o chão das ruas, põe as folhas das árvores pensativas.
Como amazonense, adoro Paris. Manaus, que era miniatura parisiense. Na minha infância, a Casa Louvre, A la ville de Paris, Café da paz, Au bon marché, Livraria Palais Royal, Casa Sorbonne, Bijou . "Manaus, pequena Paris". No 'Café da paz', no 'Siroco', sorvetes de creme, em bolas. Taças finas. Em frente, o Teatro Amazonas, um monumento ao esplendor, à glória, ao grandioso e adágio do passado, com seus mortos, suas sobrecasacas, seus vestidos de seda rósea, as luvas, deslumbramento dos múltiplos reflexos das quinquilharias de cristal, janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de reluzente e vívido ouro muito louco, Manaus rica, copia Paris. Comerciantes riquíssimos. Ostenta o Teatro Amazonas os seus reflexos de cristal. Milionários dedos jogam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Casa Louvre, Livraria Palais Royal na rua Municipal, n0 85, Livraria Universal, Agência Freitas, Casa Sorbonne dentro do Grande Hotel, a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. Villa Fany. Cais dos Barés, Biblioteca Provincial. Um Serviço Telefônico serve a cidade. Manaus, a primeira cidade brasileira a ter eletricidade. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas, alegorizavam o 'encontro das águas' Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas, castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia. A Praça da Saudade. O Roadway, o Trapiche. Sífilis. Malária. Vidros de Quinino Labarraque. Óleo de Fígado de Bacalhau. Vinho Silva Araújo. Regulador da Madre. Pílulas Rosadas. Café Beirão. Winchesters, cabo encerado de mogno. Asilo de Mendicidade (construído pelo Comendador). Ponte da Imperatriz, Igarapé da Cachoeira Grande. A Serraria, no Igarapé do Espírito Santo. Banhos de no Igarapé das Sete Cacimbas. Buritizal. Jogos, no Parque Amazonense. Ida a Barcelos. Noite no Jirau. Muro do Leprosário do Aleixo. Vista da Bomba d’Água. Manaus-Belém, Manaus-Santa Isabel, Manaus-Iquitos, Manaus-Marari, Manaus-Santo Antônio do Madeira, Manaus-Belém-Baião. Gonçalves Dias no Hotel Cassina. Coelho Neto no palacete da rua Epaminondas. Euclides da Cunha no chalé da Villa Municipal. Vaticanos, gaiolas e chatas. Inaugura-se o Teatro Amazonas, em 1896 - a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária, importada, com painéis, centenas de lustres de cristal venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal visotados, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas - tudo o que, aliás, em 1912 desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo num depósito de borracha de firma americana. Ali o erário público foi enterrado em 10 mil contos de réis: o Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil mansões luxuosas. Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo; nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Em 1919 no Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil, com cursos de Direito, Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia, Agronomia, Ciências e Letras...
Annie quis passear no Jardin du Luxembourg, no dia de minha partida. No caminho, passando pela feira livre, debaixo da estação Duplex do Metrô, encontro um CD desconhecido de Nelson Freire. Andamos pelo bosque. A música dos tempos me hipnotizam, me transfiruram, me atordoa. Em pleno delírio, vôo. O Brasil logo ali, ao alcance da mão.
domingo, 8 de julho de 2007

NATUREZA MORTA
Rogel Samuel
De Walmir Ayala um poema, intitulado «Estação», que sempre relembro, quando vou à cozinha.
Ayala, poeta excelente, não sei por que esquecido.
Na geladeira as frutas
escurecem de mortas
O quadro ele começa. A geladeira das frutas. Mortas. Geladas. Frutas. Personalizadas. Com o matiz erótico que caracteriza a poesia dele. Frutas mortas, natureza morta, alma morta, amor morto. Na mesa da geleira, deste Himalaya morto, neste Instituto Médico Legal da autópsia do pomar.
as peras são secretas
usinas de água doce,
- dentro das peras o que está senão sua secreção, a suculenta feminidade, sua pose de ovário e úvula, a complexidade singela, aquela sua capacidade de oferta, de entrega, de lamúria, as águas mortas, internas, os entraves pântanos doces das almas das mais líquidas partes da natureza do amor, das estivais qualidades da natureza das carícias do corpo úmido, dos corpos entregues a si mesmos, que é quando são partes do mais tátil amor que se dá às mãos que deles fazem seus prazeres e mergulhos, nos gozos internos e usos, no segredo do maior e cavernoso introduzir hipodérmico da sua capacidade de sentir e de pulsar. Que é? A água doce do amor, a usina do impulso amoroso. São os líquidos doces, langorosos, das umidades humanas.
um mamão decepado
mostra a íntima carne
O mamão, macho, o masculino mamão, castrado porém, digo, amputado, calado, prostrado, exibindo entranhas estranhas, carne devastada, intimidade devassada.
O mamão, porte de guilhotinado em bastilhas vasilhas das sobremesas - mamão revolução do estraçalhado. Mamão carne vegetal gengiva mole e aberta.
e as goiabas oloram
seu verão serenado.
O cheiro das goiabas, o perfume do verão no inverno do refrigerador, em antífrase feliz as perfumadas açucaradas e brandas goiabas. O verão olorizado de sereníssimo repouso. Oferecidas ao seu saboroso cheiro do pomar tropical.
Mas são mortas e lentas
neste ofertório as frutas.
Oh, está morto, tudo está congeladamente morto, com frieza mortal da morte lenta, da morte eterna, mumificada, gelada, branca, da porta aberta esta geleira tumular, este himalaia ofertório poético.
Um vapor congelado
contorna seu mistério.
Envoltas no nevoeiro, envoltas no seu mistério frio, branco, hospitalizado, as obscurecidas frutas medicalizadas, no branco arrepio da poesia misteriosa, do mistério da poesia...
E elas posam no ardor
do branco cemitério
de seu grave pomar.
Fotógrafo, o poeta Ayala abre, no seu cemitério doméstico e culinário, a escrita de seu receituário de forno e fogão, na gravitação polar de sua tematização estival (e não outonal). No seu bosque enclausurado.
E a geladeira inventa
surdo primaverar.
Em outro poema, no AQUÁRIO ACESO, os peixes dormem, no suspensório de seus sonhos:
Os peixes submersos dormem
Nadando um sonho enorme
- o aquário é breve e claro,
com selvas silenciosas
que o todo-poderoso
nutre de grão e larva.
A poesia-aquário tem seu conteúdo em peixes que nadam sem acordar, sem perturbar, entre árvores silenciosas e águas selvagens, eternizados pela luminosidade da escrita do todo-poderoso deus que o escreve e nutre de grão e larva, Ayala pesca na profundidade de si mesmo um labirinto de significação e submersão de tentáculos poéticos onde se move como um polvo.
No entanto os peixes dormem.
Qualquer tremor das águas
e nadam aclarados
sonhando-se acordados
sonhando-se acordados.
E o leitor se enreda, se embriaga, sonha. Sonha dentro deste aquário verbal. Treme nessas águas de cristal líquido, o leitor sonha que lê, o poeta sonha-se lido, aclarado, viagem e volta ao íntimo gozo de seu interminável passeio.
No seu POMAR ABERTO, erótico, encontra entre as árvores do bosque o objeto de seu amor, o impossível de sua gestualidade desejante, o desconhecido toque de musa, o paraíso pomar de pomos de ouro e luar e perfume do ar, as suculentas frutas, a poesia de Ayala reflete sempre o domínio do delírio paradisíaco perdido, o coro de laranjais em adágio.
Teu doloroso cheiro de laranjas
inventa este pomar que me embriaga
No prazer doloroso pomar em que se perde ele cria um labirinto embriagante cheio de sucos de invenção poética. As vespas de fogo rasgam a luz da venenosa atmosfera de seu ferrão, o luar do amor abre no peito a rosa amarga do gemido gozo e o desenho do rosto grego, da estátua em pedra que não está mais para estátua eterna e solitária, mas para frutas do verão da geladeira, mortas. Um paraíso tropical em pomos de ouro a transportar, a ler.
há vespas inflamadas e um luar
enclausura em teu peito a rosa amarga
deste gemido em que és como o desenho
de um rosto antigo, de um sorriso em pedra
(eterno e solitário).
Estranho gemido do amoroso langor do gozo que enfim o sorriso corta como a lâmina de faca, como os fios da noite.
Este sorriso que de repente no silêncio medra
e corta os fios da noite em que viajo
para os sempres de mim, tão decididos:
então nos laranjais escuto o adágio,
e o coração que ocultas é sonoro
como a ilha do amor em que me perco
e onde me salvo, e para sempre choro.
Sim, o amor na sua poesia é Ilha, lá onde se salva o que se perde, e onde se perde o que se salva, e onde pela contínua solidão como sempre chora.
Porque o amor é natureza morta.
quarta-feira, 4 de julho de 2007

BILAC
ROGEL SAMUEL
No primeiro verso do soneto "Aos sinos" diz Bilac: "Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta..." Lembro-me de ter lido em Hannah Arendt que, em 1957, foi lançado o primeiro satélite, foi saudado com alegria, diz ela, como"o primeiro passo para libertar o homem de sua prisão na terra". Por que não gostamos da Terra? Por que a destruímos? "A Terra, diz, é a própria quintessência da condição humana" [A condição humana].
Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes,
Ardemos numa louca aspiração mais vasta,
Para trasmigrações, para metempsicoses!
Entro em casa. Ouço a fita de Christopher Schindler. É a gravação do concerto de 15 de junho de 2000, Portland, a que assisti. Bilac atual, poderoso.
Cantai, sinos! Daqui, por onde o horror se arrasta,
Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses,
Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta!
Levai os nossos ais rolando em vossas vozes!
Releio sempre Bilac. Os modernistas o odiavam. Tem momentos supremos. "Politicamente, diz Arendt, o mundo moderno em que vivemos surgiu com as primeiras explosões atômicas". Chris toca o "Tango", de Castro, um argentino. Depois arremete a "Sonata Dante", de Liszt, que busco no soneto "Dante no Paraíso":
Enfim, transpondo o Inferno e o Purgatório, Dante
Chegara à extrema luz, pela mão de Beatriz:
Triste no sumo bem, triste no excelso instante,
O poeta compreendera o mal de ser feliz.
As notícias do mundo vêm devagar, entram pela TV, de muito longe, como se de outro universo, lugar muito distante, cheio de guerras, miséria. Qual o "mal de ser feliz"? Elas penetram a sala de trabalho como penetra o fio de fumaça de um incenso. A terra ao nosso amor não basta... Fio de fumo da "fragilidade dos negócios humanos". A Sonata de Liszt conta, como Carpeaux: "Meu Dante" - "Dante pode ter sido, diz ele, em vida, um homem intratável, irrascível e orgulhoso, convencido do seu direito de ser lembrado e venerado por todos os séculos. Mas essa pretensão enorme se reduz, afinal, à exigência de ser lido." Otto Maria Carpeaux foi nosso paraninfo, na Faculdade (a FNFi). Como era gago, seu discurso foi lido por um colega nosso. Atravessei a vida daquele tempo lendo seus artigos diários, no "Correio da Manhã". De tanto lê-lo, apreendi a técnica: Geralmente com quatro parágrafos. O primeiro era uma espécie de introdução. O segundo, uma tese, uma proposta, uma opinião. O Terceiro o inverso, o contrário. O quarto e último parágrafo, que era a conclusão, significava a superação da contradição. Assim, o ensaio, geralmente pequeno, era a dialética de um tema. “Todos os anos costumo reler a Divina Comédia inteira”, diz ele. Lembro-me bem, dele. Como me recordo da Universidade do Brasil. E do Reitor Pedro Calmon.
Um dia, estudando na Biblioteca, senti que alguém estava atrás de mim. Era Pedro Calmon. Interessado no que eu estava lendo. Conversamos, ou melhor, ele falou. Calmon era homem extraordinário. Como eu tinha uns 19 anos e cara de menino, perguntou de onde eu era, como morava e vivia. Indagou se a comida do bandejão era boa (dizem que às vezes comia lá, nunca vi). Disse-me que se eu precisasse de qualquer coisa teria nele um pai. Deu-me seu cartão. Era homem imprevisível. (A terra ao nosso amor não basta...) Certa vez, vindo pela Cinelândia de carro, viu um policial espancando um "pivete". "Pare o carro!" e partiu contra o guarda, aos gritos: "Pare com isso! Pare com isso! Ele é apenas uma criança!"
Vi-o numa das primeiras passeatas de estudantes. Ele apareceu sob estrondosa vaia. Queria fazer parar a massa, que rumava pela Rio Branco. Chorava. Tentava falar. "Não façam isso!" vociferava. "Não provoquem a reação! Vocês vão radicalizar!" Tinha razão, se viu depois. ("Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses"). Anos depois fui seu vizinho, na Rua Santa Clara, Copacabana. Ele morava numa grande casa estilo (creio) normando. A esquerda sempre o desprezou, porque os presidentes da ditadura freqüentavam aquela casa. Quando ele morreu, os jornais não deram uma linha, exceto o que saiu no obituário. Mas ele vinha de longe, como se diz. Foi Ministro da Educação (1950-51). Sua "História do Brasil" em 7 volumes era citada por gente como Roberto Simonsen, que diz na "História Econômica do Brasil" se baseou em Euclides, Afrânio Peixoto, Gilberto Freire e Pedro Calmon para "fixar o valor do nosso homem, como fator de produção". Força de trabalho morena. Calmon foi um dos poucos convidados à cerimônia da coroação, na Inglaterra.
Quando a rainha esteve aqui, meu amigo Don Kulatunga Jayanetti, monge budista do Sri Lanka, foi convidado por um embaixador asiático. Havia uma fila, para cumprimentá-la. Don parou a fila, Sua Majestade conversou com ele, revelou conhecimento e interesse budista. O Príncipe, seu esposo, continuou o diálogo, lhe disse ter feito um retiro de meditação Vipássana, no Ceylão. Mas...
Ma la notte risurge e oramai
é da partir, ché tutto avem veduto.
segunda-feira, 2 de julho de 2007
SUZUKI

A ILUMINAÇÃO DE BUDA
S. Suzuki
“Se você se orgulha de seus êxitos, ou se seus esforços idealistas lhe desencorajam, sua prática lhe deixará em um impasse.”
Estou muito feliz de estar aqui no dia da iluminação de Budha sob a árvore Bô. Quando ele realizou a iluminação , disse: “Que maravilha ver a natureza - Budha em todas as coisas e em todos os indivíduos!” Ele queria dizer que, quando praticamos zazen, temos a natureza-Budha, e cada um de nós é Budha mesmo. Pela prática, ele não entendia simplesmente estar sentado sob a árvore Bô, ou estar em zazen. É verdade que esta posição é para nós fundamental, ou a via original, mas o que Budha queria verdadeiramente dizer, era que as montanhas, as árvores, a água que corre, as folhas e as plantas - Todas as coisas em sí-mesmo são como Budha. Isso significa que tudo exprime a atividade de Budha, cada coisa a sua maneira. Mas a maneira pela qual existe cada coisa não deve ser compreendida como independente, em seu próprio domínio de consciência. O que nós vemos, o que nós entendemos não é mais que uma parte, ou uma idéia limitada, do que somos na realidade. Mas quando simplesmente somos - cada coisa existindo simplesmente à sua própria maneira - nós somos a expressão de Budha mesmo. Em outros termos, quando temos uma prática como zazen, então se torna presente a maneira de ser de Budha, ou natureza-Budha. Se perguntarmos o que é a natureza-Budha, ela se evapora; mas quando simplesmente praticamos zazen, atingimos a plena compreensão. A única maneira de compreender a natureza-Budha é precisamente praticar zazen, justamente ser aqui tal como somos. O que Budha entendia por natureza-Budha, era pois ser tal qual se é alem do domínio da consciência comum.
A natureza-Budha é nossa natureza original; nós a temos antes de praticar zazen e antes de a reconhecer em toda consciência.
Nesse sentido, tudo o que fazemos com esta supra-consciência é atividade-Budha. Se queremos compreende-lo, não o poderemos compreender. Quando renunciamos as tentativas de o compreender, a verdadeira compreensão estará sempre presente. Habitualmente, após zazen eu lhes falo, mas não é unicamente para me ouvir que as pessoas vem, é para praticar zazen. Não esqueçamos jamais. Se falo, é para lhes encorajar a praticar zazen como Budha. Nós dizemos que, se bem que tenhamos a natureza-Budha, se nossa idéia de fazer ou de não fazer zazen, ou se não podemos admitir que somos Budha, não compreenderemos então nem a natureza-Budha nem zazen. Mas quando praticamos zazen como o fazia Budha, compreenderemos o que é a nossa via. Não falamos de tal modo, mas através de nossa atividade, intencionalmente ou não, nos comunicamos uns com os outros. Deveríamos sempre ter o espírito bastante vivo para nos comunicar com ou sem palavras. Se isso nos escapa, a essência do budismo nos escapa. Não importa onde, não deveríamos perder essa maneira de viver. É isso que chamamos “ser Budha”, ou ser o “mestre”. Não importa onde, deveríamos ser o “mestre” disso que nos cerca: não deveríamos perder essa maneira de viver. É isso portanto que chamamos Budha, porque se existimos, sempre desta maneira, nós somos o próprio Budha, Sem tentar ser Budha nós somos Budha. É assim que realizamos a iluminação. Realizar a iluminação, é ser/estar sempre com Budha. A força de repetir continuamente a mesma coisa, adquirimos esta compreensão. Mas se isso nos escapa e sentimos orgulho de nossos êxitos, ou se nosso esforço idealista nos conduz ao desencorajamento, nossa prática nos conduzirá a um impasse. Não deveríamos nos colocar em um impasse levantado por nós mesmos. Também, à hora do zazen, simplesmente devemos nos levantar, e ir fazer zazen com nosso mestre, lhe falar e escuta-lo, depois entrar em nós-mesmos - todos esses atos formam nossa prática. Desta maneira, sem nenhuma idéia de aquisição [ganho], nós somos sempre Budha. Esta é a verdadeira prática de zazen. Talvez então compreendamos o verdadeiro sentido das primeiras palavras de Budha: “Vejam a natureza de Budha nos diversos seres, e em cada um de nós”.
sábado, 30 de junho de 2007

PÓS-HUMANISMO: SEXUALIDADE, REPRESENTAÇÃO E TRANSGRESSÃO
Estudos recentes exploram as complexas relações entre sexualidade, desejo, violência e modos de representação popular e transgressiva na arte da representação, e os limites conflitantes entre a realidade dos fatos e a ficção.
Através dos filmes, das media ou dos textos escritos o tema focaliza a noção de ficção como drama que tem escalas explícitas de aproximação da «vida real» em particular. Explora a tendência crescente de obscurecer o documentário e o «drama» para apontar as questões repensadas sobre as ligações entre sexualidade e representação, violência e cultura popular, entre corpo e texto. A representação do sexo e da violência serve a uma função social ou é mera exploração? O que é a relação entre o espetáculo e a representação de violência, o crime e o trauma sexual? Leitura de eventos de mídia, ficção popular e filmes é fundamentada então em discussão teórica relativo às ligações entre realidade e representação, fantasia e reais eventos. O módulo também trata de assuntos como o corpo «pós-humano» em cultura contemporânea. Divisões convencionais entre a realidade dos corpos e o discurso da ficção são crescentemente conflitantes em muitas áreas de do desempenho tecnológico e experimental, filmes-debates de teoria nos efeitos de cultura visual em relações sociais. Sexualidade se torna um termo que podem descrever como um estado de a priori existente e uma forma de auto-expressão da media com influências como do filme, da teoria e da tecnologia, mais de contudo inextricável de gênero, raça e história. O módulo coloca o gênero, a materialidade corpórea, a sexualidade e a política como termos voláteia usados para definir e quebrar as noções tradicionais de agir, volição e auto-representação. Em que sentido esses termos são importantes quando se pensa o futuro do corpo, do gênero e da sexualidade?
A tensão entre uma memória ética de opressão passada e um modo de pensar futuros criativos e responsáveis para o corpo em vários estéticas e representações epistemológicas informam nossa compreensão de si, da media e do mundo.
- Os temas fundamentais incluem, por exemplo, debates relativos à violência da representação e da representação como violência.
- São explorados os assuntos da violência e de gênero «a sangue frio» pelos produtos culturais e práticas como o «verdadeiro crime história de...»
- A representação de sexo, violência e identidade de transgridir é explorada, por exemplo, em os Meninos não Choram (Kimberley Peirce, 1999).
- De ficção popular filmar–sexualidade feminina em O Peso de Água (Kathryn Bigelow, 2000)
- A elevação de teoria esquisita.
- O monstruoso outro na cultura post-moderno cultive.
- Subversão ou retenção? O corpo perverso e o poder de diferença.
1. demonstra uma compreensão crítica de debates complexos por uma gama de disciplinas em sexualidade, violência e representação em cultura popular;
2. independentemente avalia aproximações alternativas a sexualidade e gênero na forma de argumento contínuo;
3. negocie as implicações políticas e éticas de posar futuro post-humano para histórias de corpos de opressão;
4. criticamente junta o estético, o social e o político, contextos de representações visuais e textuais de assuntos que pertencem a sexualidade na cultura contemporânea;
5. posição dentro do contexto de debates nas relações entre subjetividade e desejo, corpo e texto, e o obscurecer de limites entre fato e ficção.
quinta-feira, 28 de junho de 2007
Theorizing Memory
by Johanna Drucker
Columbia University Press
Due/Published January 1996, 224 pages, paper
ISBN 0231080832
Theorizing Modernism is a rereading of the modernist tradition in the visual arts that provides a unique view of the history of modern art and art criticism through a psychoanalytic and poststructuralist stance. Concentrating on canonical critical texts and images, the book examines modern art through a rhetoric of representation rather than through formalist criticism or the history of the avant-garde. Three themes organize the work: attitudes toward the space - social, literal, and metaphorical - of modernism as representation; assumptions about the ontology of the object (from aesthetic formalism to deconstructionist interpretation); and theories of the production of subjectivity (from artist and viewer to subject position). The first section reviews the spatial metaphors used to describe modern life, from Baudelaire on the work of Constantin Guys, through Jean Baudrillard on the paintings of Peter Halley. The second section examines the writings of such modernist critics as Clive Bell, Roger Fry, and Clement Greenberg on the object as a formalist construction. The final section explores concepts of the artist as a producing subject and of the viewer as a produced subject with respect to such artists as Pablo Picasso, Marcel Duchamp, Andy Warhol, and Sherrie Levine. This book is a major contribution to the study of modern art history. Theorizing Modernism, in Professor Drucker's words, "is not an analysis of modern visual culture, nor of modernity through the visual arts. It is a study of the changing strategies of visual arts and critical writing according to a rhetoric of representation through three themes that examine concerns central to the cultural production known as modern art."
by Johanna Drucker
Columbia University Press
Due/Published January 1996, 224 pages, paper
ISBN 0231080832
Theorizing Modernism is a rereading of the modernist tradition in the visual arts that provides a unique view of the history of modern art and art criticism through a psychoanalytic and poststructuralist stance. Concentrating on canonical critical texts and images, the book examines modern art through a rhetoric of representation rather than through formalist criticism or the history of the avant-garde. Three themes organize the work: attitudes toward the space - social, literal, and metaphorical - of modernism as representation; assumptions about the ontology of the object (from aesthetic formalism to deconstructionist interpretation); and theories of the production of subjectivity (from artist and viewer to subject position). The first section reviews the spatial metaphors used to describe modern life, from Baudelaire on the work of Constantin Guys, through Jean Baudrillard on the paintings of Peter Halley. The second section examines the writings of such modernist critics as Clive Bell, Roger Fry, and Clement Greenberg on the object as a formalist construction. The final section explores concepts of the artist as a producing subject and of the viewer as a produced subject with respect to such artists as Pablo Picasso, Marcel Duchamp, Andy Warhol, and Sherrie Levine. This book is a major contribution to the study of modern art history. Theorizing Modernism, in Professor Drucker's words, "is not an analysis of modern visual culture, nor of modernity through the visual arts. It is a study of the changing strategies of visual arts and critical writing according to a rhetoric of representation through three themes that examine concerns central to the cultural production known as modern art."
domingo, 24 de junho de 2007

A GARÇA
Rogel Samuel
O sol na linha do horizonte é uma bola de fogo.Do outro
lado está a Ilha do Fundão. E a lua. Estou indo para o
aeroporto. O mar estende seu manto por toda parte. Uma
leve aragem vem vindo devagar. Mas o calor se anuncia.
Pássaros pelo ar sujo. Quando jovens, nadávamos naquela
praia, hoje vala negra. No caminho do Galeão havia uma
praia que desapareceu. Diziam que ali estavam as
perigosas aranhas viúvas negras. Mortais. Meu amigo pescava ali.
Fomos, pelo meio do capim, até uma outra ilha, hoje
desaparecida. Na Freguesia havia um cinema de espelhos.
Era o mais belo cinema do Rio. Havia espelhos de cristal
até no teto. Os astros. À noite:
A gentileza da lua
no espelho das águas
brilha, nua.
Quando eu cheguei ao Rio, vindo do Norte, passei por ali.
Trazia esperanças e a juventude dos dezoito anos.
Tinha uma carta para o Diretor Comercial da TV Rio,
escrita por sua irmã e minha amiga Alice Senna. Logo
ganhei um emprego na Redação da TV, onde trabalhavam
vários rapazes desconhecidos, hoje famosos. Mas não
fiquei muito tempo no emprego, porque o trabalho era de
noite e eu tinha aula na Faculdade pela manhã. A TV ficava
no Posto Seis, defronte do mais belo mar. Foi lá que vi
Juscelino pela primeira vez. Alguns anos depois ele falou
na nossa FNFi. Entrou sob vaia. Demorou para conseguir
iniciar. Sua fala durou uma hora. Depois respondeu às
perguntas, todas contra. Não perdia o sorriso, a gentileza.
Foi o homem mais educado que conheci. Saiu dando
autógrafo.
Naquele mesmo salão devia falar Lacerda, como paraninfo
da ala da Direita que se formava. Nós o impedimos de
entrar. Fechamos as portas. Lá de cima, gritávamos:
"assassino!" Lacerda, impaciente, do outro lado da rua,
mandou que a PM arrombasse a porta. Nós chamamos o
Exército... de Jango. Foi terrível: de um lado o Exército,
armado. Do outro a PM, com o Governador Lacerda.
Penso que o Golpe de 64 nasceu ali, no meio da rua, em
frente ao prédio da Faculdade Nacional de Filosofia, hoje
Casa de Itália. Depois, os dois comandantes se
encontraram e evitaram o pior. O Exército se retirava, e a
PM também se retirava, mas sob grande vaia. Lacerda,
inconformado, queria briga. Pouco tempo depois a tropa invadiu o prédio, quebrou tudo, bateu e prendeu. Ainda bem que, naquele dia, eu não estava ali.
Mas perdemos a máquina datilográfica do centro de
estudos, e os discos clássicos da discoteca. Até mulher
grávida apanhou.
A política daquele tempo era assim. Assisti a Jânio
Quadros em Manaus, na sua campanha à Presidência.
Havia um palanque montado em frente à nossa casa, na
Getúlio. Primeiro falou Plínio Coelho, hoje ainda vivo. Tinha
a voz nasal e era um famoso orador. Depois Jânio. Os
grande olhos abertos, a voz rouca. Alucinado, abria os
braços com que dominava tudo. Como Hitler, batia
frenético na plataforma: "O Brasil... já tem idade... de
deixar de viver... da caridade internacional!" Era um
delírio.
Impressionante foi ouvir o velhíssimo Sobral Pinto na
abertura das "Diretas-Já!" Já estava curvado, já era muito
frágil. "Silêncio!", ele disse. "Peço silêncio! Quero falar em
nome do povo do Brasil!"
A branca e bela garça sobrevoa e baila, alcançando o
escuro campo onde reina. Será mesmo uma garça? Ou
será uma deusa tecida de estrelas? A massa de sua luz no
céu subitamente se abre e desce, sobre a penumbra do
Universo. E eu me esqueço. Me esqueço.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
quinta-feira, 21 de junho de 2007

O MORRO DO AMOR
Rogel Samuel
Coro dos Policiais: No dia 23 de outubro, a PM ocupa o Morro do Amor, no Lins.
Dois traficantes morrem.
Coro dos Justiceiros: 'Se eu falar as línguas de homens e anjos, mas não tiver amor, sou como bronze que soa, ou o tímpano que retine'. [Coríntios, I, 13,18].
Corifeu: No morro D. Cláudia entregou o filho de 16 anos à polícia.
Hierofante: 'E se eu possuir o dom da profecia, e conhecer todos os mistérios e toda a ciência e tiver tanta fé que chegue a transportar montanhas, mas não tiver o amor, nada sou'...
Coro das faveladas: - Diz, ó desvairada Cláudia, para onde estás indo, com teu filho pelo braço?
- Estou indo a levar o meu filho para os policiais...
Na delegacia, o menor confessa que matou o empresário X, de 65 anos, na madrugada de quinta-feira, em Copacabana.
Coro dos Justiceiros: 'E se eu repartir todos os meus bens entre os pobres e entregar meu corpo ao fogo, mas não tiver amor, nada disso me aproveita' (ibidem).
Grita o Coro das Faveladas:
- Ó Claudia, mulher enlouquecida de dor, aonde estás indo? A quem estás levando?
- Levo, ó Amigas, o meu único filho para a condenação...
[O garoto confessou o crime à mãe, após ler notícia na imprensa do dia seguinte.]
Coro dos Justiceiros: 'O amor não é descortês, não é interesseiro, não se irrita, não guarda rancor; não se alegra com a injustiça mas regozija-se com a verdade' (idem).
D. Cláudia, pobre, cansada, entregou o filho à polícia. Disse que tinha princípios. Disse que tinha, por princípio, a Justiça, - reza, em surdina, o Coro dos Policiais.
Coro dos Justiceiros: 'O amor é paciente, o amor é benigno, não é invejoso; o amor não é orgulhoso, não se envaidece' (idem).
Hierofante: D. Cláudia entregou o filho aos policiais. Disse que era assim que devia de ser.
Faveladas: 'O amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta' (idem).
Corifeu: Mas os amantes já não sobem o Morro do Amor...
Parcas: O empresário parou seu Mercedes na esquina de Bulhões de Carvalho com Rainha Elisabeth, em Copacabana, e foi abordado por dois rapazes armados...
Vocifera o Coro das Faveladas:
- Isso não poder ser, ó desgraçada mulher! Isso não poder ser! A quem levais desta sorte?
- Sim, desgraçada sou, diz a Mãe, a quem a Justiça a tudo obriga.
- Porque 'o amor não se alegra com a injustiça mas regozija-se com a verdade', responde, em surdina, o Coro dos Policiais.
Parcas: O Empresário fugiu da morte escura com seu carro, e por isso foi baleado na cabeça.
- Mas ninguém foge dos Senhores da Morte... - reza em surdina o Coro dos Policiais.
Grita o Coro das Faveladas:
- Acorrei, Irmãs, acorrei, que D. Cláudia leva seu filho para a desgraça...
Hierofonte: Ao combate que a PM fazia ao tráfico de drogas, os marginais do Morro do Amor contra-atacaram com o fogo...
Coro dos Justiceiros: Mas sem dinheiro, sem advogado, sozinha no mundo armado, D. Cláudia levava o filho pelo braço...
Corifeu: Já a Unidos do Cabuçu no Morro do Amor cala seus tambores...
O Vingador: Pois no dia 23 de outubro a PM ocupou Morro do Amor.
Parcas: Traficantes morreram e era 23 de outubro; 'as línguas emudecerão; a ciência terminará; mas o amor jamais acabará'.
Hierofante: Porque D. Cláudia entregou o filho de 16 anos à polícia.
Faveladas: Oh, era um garoto...
(Cai o pano).
sábado, 16 de junho de 2007
CANTARES

CANTARES
Rogel Samuel
Canto primeiro
Decorrido o tempo a imagem dela
entre as pessoas da rua começa a linear-se
ou desaparecia ou próxima e inteira
como um coice se via a variada
aspergida dispersa sua figura
de tordo e metal desconhecido
enfurecia o comando deste povo
que habita diretamente todos nós
acelerava a parte e sobre a sarça obscura
certo da sua atitude disciplinar
amanhecia ainda e um mapa de cores
à disposição. Oh sinto-me levado
pela demonstração a coisa o folhear
porque mostrar é o meu único refúgio
e o meu desenlace transacto imposto tenso
nunca passava de róseo amarelo azul
nenhuma cor. As pernas estendidas sobre o
fundo, espero e fico como que mais surdo
às expectáveis palavras dos velozes
quem podia me reanimar: era sozinho
e ela faiscações rebrilhos Potestade
conseguia tocar os dedos transferidos
para outros compromissos plataforma
mais alta mais velada alada e aérea
fala fatalidade irmã da morte
quem se aformoseie e se transfere em quê
argila topográfica caminhada
caminhemos convictos, caminhemos
e sedimentares que ali não eram certos
de pálida derrota senão estava
dizer de cláusulas alfandegárias trapaceadas
oh irmãos da morte vigiai
as inúteis bandeiras abas leques
queimam gasolina controlada
computada pelos contornos senhoriais
arrendai-me oh grande queima verde
recém saída de altos fornos cerimoniosos
que pegando o tecido e examinando a cor
discutem entre si sacudindo os olhos
penduricalhos pingentes quedados
superiorizados pagos trepados: à tintura
o consolida moço de consciência
proletário pulsar dos pulsos que seguravam
nos sustentando famintos e opressores mitos
umas leves camadas de barro que se espoliavam
aos duros golpes do inimigo devotos
gaivotas gotas de Infinito acaso a morte
parda e morna e paliçada ardia
mas estando refrigeradas e atadas
eram pingentes constelações turbinas tubulares
que se aprofundavam em congelamentos e orgias
Era a guerra. Endereçadas populações marginais
nutrizes de servidiços trabalhos
a imitação - que é minha - sempre aberta
olhos elétricos candelabros enodoados
se apagavam em cores para a visão final
cadeirinhas carreiras tremulina dons
a placa de metal sobre o alto assoalho
sobretudo os altíssimos raios sacramentais
e contínuas marés de compridas nuvens
alvuras para que passemos sobre as suas
cabeças sensuais de não afago
mais que a trama o permitir e então
no frígido planeta estereotipado
sentido pintado o fim do mais querido
sonho, adeus, foi só um momento aquele
o tapume os jogadores o pólo verde
ainda entrevejo, débil coração
conexa a minha memória esgarçada
já vigiava o céu, velho e severo
céu que era pleno de estrelas assassinas
em baixo da minha pouca paliçada
o rol de meus amigos mortos aprisionados
camuflados traidores feitores dores
fugiam todos por um curso usual
1963, lembro era de tarde
- traspassada dividida, lentamente
andávamos através daquela rua
o lugar grave passos tardos convulsão
resumida o contato nossas mãos
- toque de dedos, rápido e desperto
eu não conseguia narrar, ó musa descoberta
evanescente irrecuperável ocorrendo
por onde passava inteiramente aberta
a presença frente a tela de cinema
e implantado aquilo não me era triste
pois tudo começou no dia lembro bem
quando acordei o teto do meu quarto
desmaiado vinha de amanhecer um outro
sol do outro lado do mundo, aberta a janela
labirinto abastardado claro suavíssimo
marítimo emanava aquele ponto horrível
horizonte que entrando um azulado
vento do mar oleava lembro-me das linhas
retas cruzes ruas úmida cidade indiferente
da quase madrugada que chegava a forte
perfeita aterradora ambígua assassina
as persianas que batendo viam
que desesperavam para a morte
a minha confiança e a minha lembrança
o aroma de café entrante o espaço lerdo
subia até ali. o esquecido, eu pensei:
devo amá-la. e olhei pela janela
na espera de encontrá-la: mas um grupo
policiais à paisana e eu... súbita felicidade
vinha da calma da praça em que estávamos
na borda daquela raça ela subiu pedestal
vazio frio cabeceira tanque retangular para o ar
sumiam seus braços seus brados espalmados
para o céu como voasse ameaçava
dizia que o vento intenso era sensual
recolhia para si própria aquele medo
e levava ao majestoso ao largo olhar
mar que soando forte aos nossos gritos
órgão a sua voz de meus cristais
a salsugem penetrava e da camisa
nua sobre seus cabelos ressoava
e entrando como por um túnel me atava
nadava me entristecia ainda mais
da sua essa passageira aparição demora
o momento montante o interior imensurável
os rápidos retardos que é para sempre
adormeciam e sinto espécie nova
um som um estilhaço longo momentos
de certeza inteiramente perdição
depois na praia ela se deitava
e se largava na areia matutina
e era suave aquela branca nua
visto de longe no mar era certeza
espécie de vedação alta azul e informe
as coisas se dissolviam em explosões
cristas e covas cintilações sonoras
luminosidades que a ela me contavam
naquele dia ela no convés da chuva
quase todo o tempo o ruído nascia
da ondulação das dobras das estrelas
esbeltas circulares e misteriosas
Nós dois. Nós dois ríamos muito
de face recebendo gélida chuva
gotas algumas da tarde e haviam dito
- ouvíamos som de gaivotas mares
que ela andava como um adorno multicor
ela se precipitava entre as coisas vivas
que depois os soldados invadiram
bombas rebentavam no meio da sala
não havia rádio nenhuma comunicação
eu ainda não passava de matar a esperança
amada e ela morta certamente
a porta da frente onde estávamos
talvez aberta talvez fechada rebentou
eu passava a mão sobre sua cintura
e mordia-a na nuca ternamente
a porta começava a chave introduzida
na fechadura como ainda me lembro a outra porta
bem defronte os azulejos brancos a pia branca
a geladeira branca e lá fora chovia e a clara voz
nos dizia que era o fim de tudo
e que ouviríamos certamente o nosso algoz
como para poder fugir para o fundo de nós mesmos
tomamos de súbito os sinais
e entravam e se apoderavam os policiais
de toda a casa que um dia tinha sido minha
jogamos o nosso conteúdo fora
e fomos engolidos pelo meu silêncio
fugimos dali. Aquele golpe vitorioso
nos deslocava para a clandestinidade
fomos nos ver numa estação suburbana
olhávamos a planície e estávamos sós
quase uma centena de esperados iam
no bojo do mesmo trem. Mesmo ali naquele isolamento
desmilitarizados passavam policiais e viaturas
e nós éramos distraídos vendedores
Val era linda. Palavras cheias de angústia
fome medo perdição: Que fazemos aqui? Para onde ir?
Novo grupo de policiais chegava
nas imediações campos de guerra
e a porta cedia a pancadas a invasão
começou. O garoto olhava espantado. E começava
a lavrar um incêndio.
sexta-feira, 15 de junho de 2007

O MAR AZUL
Rogel Samuel
Volto de Copacabana, onde o vi. O mar, aquele mar azul.
"Vontade de cantar, mas tão absoluta, que me calo, repleto", escreveu Drummond ao vê-lo. Ao vê-lo belo. E azul. Tão azul.
O problema do mar, de sua beleza, é que sua beleza é infinita, é azul, azul profundo.
Oh, sim, estamos, entramos no Verão. Voltemos ao Verão. Que venha o verão. Como no início dos Cantos, Ezra Pound diz:
E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.
Que mar é esse? Este é o mesmo mar de Ulisses, o mesmo mar de Pessoa, de Camões, que canta:
Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteo são cortadas
Desconhecido embora, um poeta amazonense, Sebastião Norões, escreveu, há décadas, em 1956, um soneto perfeito, exemplar, único, sobre o mar. Seu título, "Mar da memória":
Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.
O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,
delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.
Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.
No verão, o brilho intenso, os ares claros, as nuvens brancas. O calor é pegajoso, pecaminoso.
Quando jovem, morava perto do Arpoador. Domingos de sol, festivos, de verão extremo.
O sol ficando forte, vem a vida, as canções. O metalizado brilho do passado estandartiza, nos ares, as claras visões dos cânticos do sol. É o verão do mar, que para o amor se vai abrir. Quando amar se espera. E o mar, o mar azul, "essa incógnita de anil que se destrança / em ânsias de infinito e me circunda / em grave tom de inquietude langue".
É langue todo verão, e assim esqueço, me esqueço, penso que ainda jovem. Me lembro dos dias de verão do Pier. Quem tem sonhos não morre. "O mar de quando eu era, não agora. / Quando as retinas fixavam tredas / a incompreensível mole líquida e convulsa. / E o pensamento convidava longes."
O mar convida longes. Atravessa o longe, a linha, o afastado horizonte. Delimitando 'imprevisíveis rumos / viagens de herói e de mancebo guapo."
Naquele tempo, acampávamos nas praias desertas, e em desertas praias amávamos.
Um dia, em Búzios, um grande e luxuoso barco ancorou na praia onde acampávamos, na noite de Reveillon. De longe podíamos ver mulheres elegantes, os garçons, as champanhas. Fogos de artifícios. Ao nascer do sol, alguns vieram, num bote menor, até a praia. Algumas mulheres, de vestidos longos e brancos, ainda com as jóias, jogaram-se no mar. Outras, completamente nuas. Era a Era de 60, onde tudo se permitia, mesmo o ser feliz, nas « marítimas águas consagradas, / que do gado de Próteo são cortadas." E «nossos corpos também no pranto aflito, / E ventos vindos pela popa nos / Impeliam adiante, velas cheias». Sim, sim. « Por artifício de Circe, / A deusa benecomata."
Norões nasceu no dia 7 de março de 1915, em Humaitá, Rio Madeira, Amazonas. Mas estudou em Fortaleza, daí sua fixação no Mar. Aos 18 anos voltou para Manaus, fez Faculdade de Direito. Foi meu professor no Colégio Estadual. Chefe de Polícia do Estado, onde protegeu o comunista Jorge Amado. Era professor de Geografia.
A geografia do Mar.
Quando éramos jovens, Norões foi nosso professor e Mestre. Posso vê-lo, atrás das baforadas de cigarro. As lentes grossas. Norões impressionava, carismático, culto. Nunca pensei que faria sua "apresentação", anos mais tarde, quando escrevi um prefácio para a segunda edição de seu livro "Poesia Freqüentemente", de 1956. E é uma surpresa sempre que releio seu livro, sua poesia está mais viva ali, sua poesia é azul, lá onde o horizonte mergulha. E desponta.
O mar azul.
terça-feira, 12 de junho de 2007
A ESTRADA

A ESTRADA
Rogel Samuel
Na sinuosa estrada das montanhas verdes vem uma barreira horizontal. No alto, o céu brilha como um cristal fosco e imóvel. Estamos na Mantiqueira. E passamos a divisa dos Municípios de Delfim Moreira e Venceslau Brás. Os rios do Brasil estarão todos poluídos? Dia virá em que vamos ter falta de água potável. O Rio Sapucaí está ameaçado pelo lixo. Mas os bois, no grande pasto, parecem em paz. À margem, um caminhão tombado. É um gigante morto. Leio na Folha um poema de Guillén, traduzido por Thiago de Mello. As estrofes, os versos se embaralham na minha mente. Guillén, um dos poetas preferidos de Farias de Carvalho, nosso professor de literatura no Colégio Estadual. Farias aparentemente não dava aula formal. Ou fazia um ditado teórico. Mas não conheci melhor professor do que ele. Mais tarde fui aluno de Mestre Alceu etc. Mas foi Farias que me fez amar a literatura, não poder passar sem ela. A aula era uma conversa interminável. Um descompromisso. Farias deixou escola. Eu já vinha querendo ler poesia, depois que encontrei Camões num livro de primeiro grau:
Oh! lavradores bem-aventurados,
se conhecessem seu contentamento.
Aqueles versos cantam agora, vendo os bois no pasto. Até hoje ouço a gargalhada de Farias, a voz empostada, os grandes olhos graúdos, as mãos teatrais. A estrada sinuosa e verde continua. Um dia chegarei ao fim.
Mas o deserto está crescendo. Na serra da Mantiqueira, região de Piquete, desapareceram as florestas. As montanhas despontam, secas, nuas. Isso até parecia natural na Via Dutra, mas ali é novidade. Dali até o vale de Itajubá a devastação avançou em poucos meses. À direita da estrada pode-se ver um lixão às
margens do rio que vai cortar a cidade de Itajubá e onde poucos quilômetros abaixo crianças tomam banho e adolescentes nadam. De Itajubá até Poços de Caldas as antigas vilas se transformaram em cidades que,
sem planejamento, estão plantadas no meio da planície deserta de avermelhado de barro. Na próxima grande chuva o rio que corta a cidade de Itajubá pode transbordar, entulhado. O nosso país caminha para um
desastre ecológico: o rios se transformaram em esgotos escuros, e os riachos se transformaram em valas negras. “O deserto está crescendo. Desventurado quem abriga desertos”.
domingo, 10 de junho de 2007
TAO THE CHING
sábado, 9 de junho de 2007
sexta-feira, 8 de junho de 2007
quinta-feira, 7 de junho de 2007
segunda-feira, 4 de junho de 2007
domingo, 3 de junho de 2007

Poluição ameaça o futuro da China
Maior fábrica do mundo, o país contamina demais o ar, a água e o solo e compromete o mar e os lençóis freáticos
Ricardo Gandour, Enviado especial
Pequim - Em dias de mái, o sol brilha fraco em Tang Paradise, e o céu não é azul, mesmo num domingo ao meio-dia e sem nuvens. Construído em homenagem à Dinastia Tang (618-907), símbolo de prosperidade e excelência, o belíssimo complexo de lazer fica na cidade de Xian, centro-norte da China. Ali, como em diversas partes do país, volta e meia tem mái: uma névoa espessa que torna os dias mal iluminados e cinzentos.
O fenômeno ocorre da futurista Xangai à tradicional capital, Pequim. E tem se tornado tão freqüente que nos últimos anos surgiu no cotidiano a palavra mái, ideograma que combina os símbolos de 'nuvem' e 'animal' e na boca do povo quer dizer 'poeira ruim'. Mais do que apropriado para designar a mistura de fumaça, poeira, gases e elementos químicos em suspensão que varre boa parte dos 9,5 milhões de quilômetros quadrados do país e cujos efeitos, registrados em fotos no site da Nasa, já chegaram a atravessar o Oceano Pacífico e foram sentidos na costa da Califórnia.
A China, a maior fábrica e o maior canteiro de obras do mundo, enfrenta, na corrida pelo crescimento econômico, um gigantesco desafio: o impacto ambiental. A China está poluindo demais o ar, a água e o solo.
A questão ambiental chinesa ganhou na semana passada um dado alarmante. Estudo divulgado pela Academia Chinesa de Ciências Médicas revelou que o câncer, turbinado pela poluição, acaba de assumir a liderança no ranking de motivos de morte no país. 'A principal razão é a poluição da água e do ar, pior dia após dia', disse o médico e cientista Chen Zhizhou.
O governo tem lidado abertamente com a questão. O ministro da Informação, Cai Wu, vai direto ao ponto: 'Temos severos problemas com poluição do ar, água e solo. Nossas empresas poluem demais', disse Cai em entrevista na semana passada (leia na página seguinte).
No ar, pairam gases, poeira, fumaça e principalmente a substância formaldeído e seus derivados, usados na construção civil. As partículas sólidas penetram irreversivelmente nos pulmões, conforme o estudo divulgado por Chen e publicado no jornal estatal China Daily. 'Muitas indústrias lançam resíduos nos rios. E o uso excessivo de fertilizantes e pesticidas contamina os lençóis freáticos', acrescentou. Passar longe da água da torneira, mesmo tratada, é uma recomendação feita pelos guias turísticos. Até gelo eles recomendam evitar.
A situação piora bastante quando ocorrem as já familiares tempestades de areia, parte integrante do cotidiano e das previsões meteorológicas. Não é difícil encontrar um cidadão de Pequim que explique que as sandstorms vêm com os fortes ventos que sopram da Mongólia, ao norte do país, arrastando a poeira gerada pelos crescentes desmatamentos. É o caso da guia e intérprete Olívia Duan, 22 anos, que mora com os pais em Pequim. Olivia não menciona onde obteve essa informação, mas o fenômeno é citado no livro China S.A, de Ted Fishman, publicado em 2005.
Outro estudo divulgado na semana passada em Pequim mostrou o comprometimento da água do mar. A análise realizada em 75 estações de medição em 13 cidades litorâneas acusou a presença de arsênico, mercúrio, cádmio e cobre, entre outros metais e poluentes.
A pesquisa do dr. Chen foi feita em 30 cidades e 78 condados. Mas, além das estatísticas, basta andar e observar o batalhão de guindastes e gruas trabalhando 24 horas por dia e 7 dias por semana, demolindo prédios velhos e sujos e abrindo terrenos para megaconjuntos residenciais e empresariais.
Num movimento gigantesco de urbanização, cuja magnitude e velocidade não têm precedentes na história, a China busca incessantemente construir infra-estrutura e fazer a economia girar para acomodar os mais de 100 milhões de trabalhadores rurais em processo de migração interna, nas estatísticas oficiais - analistas ocidentais falam em números maiores. Para isso, precisa construir todos os meses infra-estrutura equivalente a Houston, cidade americana com 2 milhões de habitantes, segundo estudo de Fishman.
Além da pressão do movimento migratório e de urbanização, que aumenta a demanda por quase tudo, Pequim se prepara para sediar, em 2008, a 29ª Olimpíada - o que quer dizer mais obras.
Em Xangai, dezenas de construções velhas à margem do Rio Huangpu estão vindo abaixo para abrir um terreno de 6 quilômetros quadrados, onde já se batem as estacas do megacomplexo que vai sediar a Feira Mundial em 2010 (leia na pág. 27). Segundo o governo, as atuais 5 linhas de metrô de Xangai vão virar 11 até 2010, o que equivale a construir 200 novas estações.
O debate sobre o meio ambiente é aberto e cada vez mais freqüente na China - ótimo sinal num país ainda com muito a avançar em termos de liberdade de expressão. Mas há uma descoordenação entre os níveis de governo. Fortalecidos após as reformas de Deng Xiaoping (1904-1997) - que a partir de 1978 tirou a China dos anos traumáticos da Revolução Cultural (1966-1976) de Mao Tsé-tung (1893-1976) e iniciou a abertura da economia -, os comandos locais nem sempre obedecem ao governo central.
Numa economia planejada, com planos e metas definidos anualmente pelo Partido Comunista Chinês e ratificados pela Assembléia do Povo, há um alinhamento geral de objetivos, mas o governo aponta falhas na execução. 'Alguns distritos e condados, para cumprir suas metas de desenvolvimento, não cumprem diretrizes centrais ligadas à qualidade e eficiência de projetos', disse ao Estado um graduado funcionário do governo central. 'Pelo interior, tem muita usina a carvão que precisa ser urgentemente modernizada ou fechar, tamanha a poluição.' E completa: 'A questão ambiental está parando no discurso do governo central.'
No dia 15 de maio, um grupo de moradores se mobilizou para interromper a demolição de uma vila hutong (pequenas residências formando corredores) da Dinastia Ming (1271-1368), obra autorizada pelo distrito local para dar lugar a um conjunto comercial. A área, em Pequim, é declarada de preservação pelo governo da província. O caso foi motivo de irados editoriais nos jornais.
Mesmo o governo querendo - e discursando -, a China não tem conseguido mostrar que é capaz de desacelerar seu crescimento, alavanca do risco ambiental que hoje assola o país asiático. Em 2006, não cumpriu as metas de redução de consumo de energia, baseadas num índice, associado ao PIB, de 4% - ficou em apenas 1,2%. E na redução da emissão de gases nocivos, ficou longe da meta estabelecida, 2%. Em março deste ano, quando esses números vieram a público, o primeiro-ministro Wen Jiabao apontou o 'descaso das autoridades locais' como a principal causa.
No consumo de carvão, outra frustração. Divulgadas pela primeira vez também em março, as estatísticas do setor mostram que a China consumiu 2,5 bilhões de toneladas de carvão em 2006, 9,3% acima do consumo de 2005. A meta de redução, de 4%, ficou longe.
Na Província de Shaanxi, demolições de dezenas de casas e fábricas antigas estão abrindo espaço a um campus de 60 quilômetros quadrados para abrigar a Cidade da Aviação, um cluster para atrair empresas e joint ventures do setor de engenharia de aeronaves e que tem como meta suprir até 30% da crescente demanda por aviões para uso doméstico nos próximos dez anos. Seria uma excelente oportunidade para tocar no assunto sustentabilidade - mas a apresentação do projeto não aborda o tema.
Um dos principais motores desse 'mau' desempenho - no aspecto ambiental - , a construção civil segue crescendo a dois dígitos. Na semana passada o governo divulgou que, de janeiro a abril, o investimento no setor cresceu 27,4% em relação ao mesmo período do ano passado. As vendas de imóveis ao comprador final subiram 15,5%. Os números saíram na semana em que o esqueleto do Xangai World Financial Center atingiu 400 metros e o 91º andar. Quando pronto, em setembro, o prédio terá 101 andares e será o mais alto da China.
Há iniciativas que saem do discurso e viram realidade. O Estado visitou uma bem-sucedida vila rural que produz alimentos orgânicos, livres de agrotóxicos. Localizada no condado de Xyaniang, Província de Shaanxi, antes uma área militar e considerada o berço da agricultura chinesa moderna, a vila de 2.063 habitantes produz milho, tomate e outras hortaliças irrigadas. O setor de alimentos orgânicos chinês planeja crescer 30% este ano, segundo dados do governo.
Na semana passada, a empresa China Power International anunciou um investimento de US$ 4 bilhões, até 2010, em projetos de energia renovável, o que inclui usinas eólicas e solares. A China é o segundo consumidor mundial de energia, atrás apenas dos Estados Unidos. A prefeitura de Pequim anunciou planos de incentivo fiscal para estimular empresas a instalar-se em distritos satélites, como forma de conter a deterioração do trânsito na capital. E acordos de cooperação nas áreas de energia limpa e de redução de emissão de gases estiveram na pauta da visita da vice-premiê Wu Yi aos EUA, dia 23 de maio.
O ministro Cai bate na tecla de que o problema da poluição não é de hoje, nem é só da China: 'O impacto ambiental vem de dois séculos de industrialização. Os países desenvolvidos têm de assumir sua responsabilidade, usar sua tecnologia para ajudar os países em desenvolvimento.' Cai ecoa a discussão que ocorreu em abril no Conselho de Segurança da ONU - uma espécie de batata-quente acerca da responsabilidade pelo aquecimento global - e na semana passada foi tema de contundente editorial no mais importante jornal chinês, o Diário do Povo, reproduzido em inglês no site do periódico.
O que impressiona o mundo é o impacto gerado pelo movimento de uma sociedade daquele tamanho - 1,4 bilhão de habitantes, ou cerca de 20% da população mundial - em sua busca por infra-estrutura para poder crescer e sustentar-se. Mas como compatibilizar o processo de crescimento com seus efeitos colaterais num país em que, numa vila a 30 minutos da futurista Xangai, ainda se lava louça e roupa na água dos rios?
O professor Jiang Lin, atualmente trabalhando na Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA), comenta, em artigo recente, que em estágios primários de desenvolvimento o aumento do uso de energia tende a ser mais rápido do que o crescimento econômico. Isso colocaria em xeque as metas públicas do 11º Plano Qüinqüenal chinês: reduzir em 20% o consumo de energia, em proporção ao crescimento do PIB, até 2010.
'A prioridade sem dúvida é o desenvolvimento', afirmou Cai ao Estado. 'Não há como combater a pobreza sem crescimento. A meta é dobrar o PIB per capita até 2020', disse, referindo-se ao plano revisto anualmente pela Assembléia do Povo, à luz das diretrizes do Partido Comunista. Para tanto, nas estimativas do ministro, o PIB teria de ir dos atuais US$ 2,6 trilhões para US$ 6 trilhões em 2020.
No ano passado, a China reconheceu não ter conseguido conter o ímpeto do crescimento. Ela fechou o ano com crescimento de 10,7%, um ponto porcentual acima da média de 9,7% que o governo chinês vem divulgando como meta oficial. Segundo o ministro Cai, não há como o país alcançar suas metas de infra-estrutura sem crescer, no mínimo 7%, todo ano, até 2020.
Uma questão para o mundo acompanhar, e um nó para a China desatar com paciência e dedicação confucianas. Enquanto isso, o sol segue peneirado pela mái em Tang Paradise.
TRAGÉDIA AMBIENTAL
>20 das 30 cidades mais poluídas do mundo estão na China
>70% dos lagos chineses e 5 dos 7 maiores sistemas fluviais do país são poluídos
>US$ 300 bilhões, equivalente a 12% do PIB, é o prejuízo anual causado pela poluição
>30% do território da China sofre com chuvas ácidas causadas pelo rápido crescimento econômico
>700 milhões de chineses, metade da população, consomem água que não corresponde aos padrões mínimos da Organização Mundial da Saúde
FONTES: GOVERNO CHINÊS, BANCO MUNDIAL e
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE

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segunda-feira, 28 de maio de 2007

balada para todo amor
rogel samuel
todo amor é assim, plágio
cópia de cópia de si, no mesmo
sim na sua visibilidade
no seu sexo. Porque todo amor
é aquela alegre repetição
doença de sonho e de tensão
acontecimento que tanto faz
se desfaz. De que não posso
dizer o que quero, ou o que vale
nem mesmo vale a pena
[O amor, seu troco.]
O caro, o espaço, o caroço
o que sobra o que falta e o falho.
Todo amor falece. Não cresce.
Não é o que se espera.
Dele nada sobra. Além do gozo.
Da calma, da cama, do colo
da palavra: só as notas altas
o cantam. As baladas mais.
A exultação mais plena.
Pois todo amor é outra vez
o mesmo amor. É sempre. É pouco.
E só se estabelece quando
impossivelmente fala a falta
do tolo amor, que já é lembrança
excessiva. Que todo amor costura
um tédio. E tem a surpresa da morte.
Somos suas presas em suas levezas.
Corre o fundo tempo por seus lodos
mostra a sua sede à noite morta.
Quem me crê sabe o que digo:
o amor já vem perdido, pois perder-se
é o destino amante. Dele vem logo
o mote o trote o corte a espada
que o amor tem em seus dentes
pois sua loucura é o nada.
[Em 14 de maio de 2.000]
quinta-feira, 17 de maio de 2007
terça-feira, 15 de maio de 2007

um poema azul
sai da parte nova
da velha cidade
que escreve a cena
do azul poema
sob sol tão belo
por que neste zelo
esta cor tão velha
renova revela
risco no vermelho
sua prova senha
o azul aceita
por que neste traço
não se lança, pássaro
sobrevoa aquela
longínqua montanha?
esta cor tamanha
faz-me prisioneiro
e do ar cordeiro
que do texto inteiro
sou escrito nela?
leva me revela
sobrevejo aquela
forte aquarela
e naquela tela
me lanço no ar.
meu amor primeiro
vejo-te inteiro
neste meu ofício
de fantasiar.
mas triste é a noite
e esta senhora
que me trouxe a hora
para vida a fora
eu me lastimar.
cada vez mais perto
estende o seu mundo
seu ponto segundo
seu sagrado ato:
que não creio revele
seu pior segredo:
nem por mais sentir
o menor dos medos.
pois neste ofício
pois neste tinteiro
o azul faz o poema
e a tua pena
vai-te envenenar.
(maio de 2.000)
rogel samuel
segunda-feira, 14 de maio de 2007
MARIA COSTA
estremeço como que um estranho frio
vindo de dentro habitasse meu corpo frágil.
já não reconheço outras casas
tua ausência me transforma
em alguém sem lugar neste mundo
só encontro rios, inumeráveis rios
noites por detrás de noites
e apesar de cansado, meu olhar
que vê mais do que minha vista alcança
sobe sete degraus
enquanto meu corpo apenas respira
e tu me dizes
o amor é um lugar.
(in: A LUZ DO VÔO)
vindo de dentro habitasse meu corpo frágil.
já não reconheço outras casas
tua ausência me transforma
em alguém sem lugar neste mundo
só encontro rios, inumeráveis rios
noites por detrás de noites
e apesar de cansado, meu olhar
que vê mais do que minha vista alcança
sobe sete degraus
enquanto meu corpo apenas respira
e tu me dizes
o amor é um lugar.
(in: A LUZ DO VÔO)
quinta-feira, 10 de maio de 2007
BERNARDINA DE OLIVEIRA

JOGO
Querer o quê?
Olhar entre séculos?
Caminhadas serviram aos reis,
catedrais serviram aos reis,
mausoléus serviram aos reis
e o metrô nem chega ao meu reino!
Ainda me guio pelas estrelas.
Passos não se perdem.
Em verdade há ausência de flores
na praça onde o saxofonista toca a vida,
equilibrado momento de notas e arranjos.
Querer o quê?
Mulher faz o jogo,
homem faz o jogo.
Jaz um hiato
no gramado simétrico
do amor.
terça-feira, 8 de maio de 2007
CONHEÇA LEILA MÍCCOLIS

LEILA MÍCCOLIS - Carioca, advogada, abandonou a profissão para dedicar-se à literatura. Mestra em Teoria Literária/UFRJ. 30 livros editados (poesia e prosa), poemas publicados na França, México, Colômbia, África, Estados Unidos e Portugal; teatróloga, roteirista de cinema e escritora de novelas de televisão, entre elas: “Kananga do Japão”, “Barriga de Aluguel” e “Mandacaru”. Elaborou o "Catálogo da Imprensa Alternativa”, pela RioArte/Prefeiura RJ, e verbetes para a “Enciclopédia de Literatura Brasileira” (MEC/OLAC). Publicada na Revista Poesia Sempre (Biblioteca Nacional/MEC), consta do Banco de Dados Informatizados do Banco Itaú - Módulo Literatura Brasileira, Setor Poesia (categoria: “Tendências Contemporâneas”) e dos “Cadernos Poesia Brasileira” - vol. 4, “Poesia Contemporânea” (idem, 1997). Sua obra é analisada por Affonso Romano de Sant'Anna, Aguinaldo Silva, Armando Freitas Filho, Assis Brasil, Carlos Alberto Messeder, Gilberto Mendonça Teles, Glauco Mattoso, Heloísa Buarque de Hollanda, Ignácio Loyola Brandão, Jair Ferreira dos Santos, Nélida Piñon, Paulo Leminski, Pedro Lyra, Rogel Samuel, Wilberth Clayton Salgueiro, entre outros. Edita o portal Blocos Online, com Urhacy Faustino.
segunda-feira, 7 de maio de 2007

o samba de Genesino Braga
Amigo, adorei. Você retratou fielmente GENESINO BRAGA. Quando comecei a crônica, pensei: puxa isto é poesia, foi quando cheguei à parte que você deu forma de poesia à prosa, ficou lindo. Quanto à casa, que você fala,ficava na Praça da Saudade - Ferreira Pena esquina com a Ramos Ferreira. Da casa e da praça só restam a saudade. Realmente o jardim era lindo e cuidado pessoalmente por papai e a praça com seus carramachões floridos era abrigo das emoções dos enamorados. Há promessa de reconstitui-la nos padrões originais, espero que assim o façam. Muito me emocionou, também, lembrar o carinho entre nossas famílias, e muito me alegro que papai tenha tido um afilhado maravilhoso que tanto ama a sua memória. Neste centenário de papai muitos escreveram sua biografia mas a sua pequena crônica, com tanto afeto, me tocou profundamente pois você que o conheceu de perto disse em poucas linhas o que os outros desconhecem porque não o vêem com o coração. Um grande e fraternal abraço da amiga Ursulita (FILHA DE GENESINO BRAGA).
domingo, 6 de maio de 2007

Ursulita Alfaia
BREVIDADE
No horizonte, com a lua ainda espiando,
celebra-se a madrugada.
É mais dia do que noite
no esplendor que acorda a passarada.
Tudo vive, tudo explode
na mais imitativa harmonia,
do fugidio bater de asas
às algazarras das cantorias.
No poente a lua
No nascente o sol
eternos namorados de um só momento,
a hora fugaz do amanhecer.
Como é breve o tempo!
Tão belo...
Tão breve...
Do nascer ao morrer é apenas um pulo.
sábado, 5 de maio de 2007
terça-feira, 1 de maio de 2007
ESTRANGEIRO
Em Manaus, agora, me sinto estrangeiro. Só estou em casa no Rio. Por quê? A leitora "Aya" me fez um tão belo comentário, o sentido do silêncio. Estou num café amazônico, dentro de uma livraria. Os livros me contemplam das estantes sem serem lidos. Me esperam. Me exigem. Perto de mim há livros de software, de javascript. Atmosferas explosivas das instalações elétricas, laboratório de uma nova poesia eletrônica. Penso num vazio coreldraw, num autocad. Preparo-me para a coldfusion da consulta rápida de mim mesmno.
ROGEL SAMUEL
ROGEL SAMUEL
DO AMOR
Rogel Samuel
O amor depende de condições. Exige duas pessoas. Nem uma, nem três, quatro, cinco. Seu número fixo é dois. Exige coincidência de duas vontades. Mútuas. Não uma que dá, outra que recebe. Ou o contrário. Tem de haver recíproca vontade. Mão dupla. Nem atração. Mas vontade mútua. Se há possuidor e possuído, não há amor. Mas sado-masoquismo. O amor não é infeliz, quando ativo. Amor existente, e infeliz, é contradição de termos. Como um quadrado redondo. Se há amor, há felicidade, instantânea, imediata, mesmo passageira (e qual felicidade não é passageira?). Energia, liberdade. No amor não pode haver prisão. Há controle? Não há amor. Há fraqueza? Amor não há. O Padre Vieira define, sabe bem o amor. Ainda que Padre não ame, como nós, leigos, ele conta do amor místico. Mas é amor, e, em certo sentido, êxtase. O amor é êxtase. Na época de Vieira, o Brasil era "paraíso" do amor. Não havia pecado debaixo da linha do Equador (pecado mata o amor, ao nascer). Todo amor é puro. Principalmente o sexual. Nosso clima brasileiro, praias, frutas, a cândida nudez indígena, o exotismo, o afastado das gentes... O Brasil nasceu sob o signo do erótico. Basta ler "Casa grande & senzala", de Gilberto Freire. Vieira, grande padre, grande pregador moralista, deve ter mantido a castidade. Mas a castidade do amor também é amor. O amor não se corrompe, não se compra. Não tem idade, sexo, limites. Nem é cabível em definição. Não é conceitual, teorético. O poetas são os que dele dão conta. Definem os amantes, que "se amam cruelmente, e com se amarem tanto não se vêem", diz Drummond. Em "Amor e medo", o poeta Casimiro diz do amor:
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amôres:
- Meu Deus! que gêlo, que frieza aquela!”
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segrêdo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela - eu moço; tens amor - eu mêdo!
Tenho mêdo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas sêcas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.
Eis Amor. Tememos amor. É a dissolução do "eu". Quando amamos, mergulhamos em abismo. Nos perdemos. A felicidade apavorante do amor. Que quer tanto, é tanto, que eu, um reles cronistazinho de fim de semana, e pretensioso, meti-me a falar do que não sei, do amor, caindo no ridículo de todo amante. Certo é, e também, que há amores trágicos. Ou tragédias amorosas. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. Certa vez tentei assistir a uma impressionante adaptação de Romeu e Julieta. Ele era um jovem palestino muçulmano; ela era uma menina judia israelense. Em plena guerra! Atravessando barreiras e fantasmas! Num dos mais belos poemas de amor, Tristão e Isolda, Wagner diz mais ou menos assim: "Para matar-me basta que ele me olhe! Se eu vir a tristeza de seus olhos, seu olhar penetrará meu coração como um punhal!" Eis o grande Amor, acima da vida e da morte, sobre as limitações humanas! O amor, nobre, importante sentimento, que, como toda Arte, só aprendemos na Obra de Arte. A arte nos ensina a amar. Ou então, como disse certa vez Drummond: "Amar depois de perder". Aprendemos depois da perda. "Triste sina, estranha condição". (Diz Camões).
O amor depende de condições. Exige duas pessoas. Nem uma, nem três, quatro, cinco. Seu número fixo é dois. Exige coincidência de duas vontades. Mútuas. Não uma que dá, outra que recebe. Ou o contrário. Tem de haver recíproca vontade. Mão dupla. Nem atração. Mas vontade mútua. Se há possuidor e possuído, não há amor. Mas sado-masoquismo. O amor não é infeliz, quando ativo. Amor existente, e infeliz, é contradição de termos. Como um quadrado redondo. Se há amor, há felicidade, instantânea, imediata, mesmo passageira (e qual felicidade não é passageira?). Energia, liberdade. No amor não pode haver prisão. Há controle? Não há amor. Há fraqueza? Amor não há. O Padre Vieira define, sabe bem o amor. Ainda que Padre não ame, como nós, leigos, ele conta do amor místico. Mas é amor, e, em certo sentido, êxtase. O amor é êxtase. Na época de Vieira, o Brasil era "paraíso" do amor. Não havia pecado debaixo da linha do Equador (pecado mata o amor, ao nascer). Todo amor é puro. Principalmente o sexual. Nosso clima brasileiro, praias, frutas, a cândida nudez indígena, o exotismo, o afastado das gentes... O Brasil nasceu sob o signo do erótico. Basta ler "Casa grande & senzala", de Gilberto Freire. Vieira, grande padre, grande pregador moralista, deve ter mantido a castidade. Mas a castidade do amor também é amor. O amor não se corrompe, não se compra. Não tem idade, sexo, limites. Nem é cabível em definição. Não é conceitual, teorético. O poetas são os que dele dão conta. Definem os amantes, que "se amam cruelmente, e com se amarem tanto não se vêem", diz Drummond. Em "Amor e medo", o poeta Casimiro diz do amor:
Quando eu te fujo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, oh! bela,
Contigo dizes, suspirando amôres:
- Meu Deus! que gêlo, que frieza aquela!”
Como te enganas! meu amor é chama
Que se alimenta no voraz segrêdo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela - eu moço; tens amor - eu mêdo!
Tenho mêdo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes,
Das folhas sêcas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.
O véu da noite me atormenta em dores,
A luz da aurora me entumece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes
Eu me estremeço de cruéis receios.
Eis Amor. Tememos amor. É a dissolução do "eu". Quando amamos, mergulhamos em abismo. Nos perdemos. A felicidade apavorante do amor. Que quer tanto, é tanto, que eu, um reles cronistazinho de fim de semana, e pretensioso, meti-me a falar do que não sei, do amor, caindo no ridículo de todo amante. Certo é, e também, que há amores trágicos. Ou tragédias amorosas. Romeu e Julieta, Tristão e Isolda. Certa vez tentei assistir a uma impressionante adaptação de Romeu e Julieta. Ele era um jovem palestino muçulmano; ela era uma menina judia israelense. Em plena guerra! Atravessando barreiras e fantasmas! Num dos mais belos poemas de amor, Tristão e Isolda, Wagner diz mais ou menos assim: "Para matar-me basta que ele me olhe! Se eu vir a tristeza de seus olhos, seu olhar penetrará meu coração como um punhal!" Eis o grande Amor, acima da vida e da morte, sobre as limitações humanas! O amor, nobre, importante sentimento, que, como toda Arte, só aprendemos na Obra de Arte. A arte nos ensina a amar. Ou então, como disse certa vez Drummond: "Amar depois de perder". Aprendemos depois da perda. "Triste sina, estranha condição". (Diz Camões).
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