17/10/2007 - 10h27
Castelo do Drácula é o segundo imóvel mais caro do mundo à venda
Bucareste, 17 out (EFE).- O Castelo de Bran, no centro da Romênia
e ligado à lenda do príncipe Vlad Tepes, que inspirou o vampiro
Drácula, é o segundo imóvel mais caro do mundo posto à venda,
conforme classificação da revista americana "Forbes".
O castelo foi avaliado pela revista em US$ 140 milhões. A quantia
é justificada pelos analistas pelo retorno que o local pode gerar a
um potencial proprietário.
No topo da lista da Forbes está uma propriedade em Beverly Hills
(Califórnia, EUA), avaliada em US$ 165 milhões, que pertenceu ao
empresário da imprensa William Randolph Hearst.
O castelo romeno foi posto à venda pela Baytree Capital, em nome
de Dominic de Habsburgo, filho da princesa Ileana da Romênia, depois
que a propriedade foi devolvida à família pelas autoridades romenas,
no ano passado.
Conforme um acordo com o Ministério da Cultura romeno, o Castelo
de Bran, o segundo edifício mais visitado da Romênia após o Castelo
de Peles em Sinaia, deverá conservar a função de museu até 2009.
Situado perto de Brasov, no centro da Romênia, foi construído
pelos cavaleiros da Ordem Teutônica no princípio do século XIII e
durante a Idade Média serviu para defender a rota comercial entre a
Transilvânia e a Valáquia.
O príncipe Vlad, o Empalador, inspiração histórica do personagem
fictício Drácula, utilizou o castelo com fins militares várias vezes
durante seu reinado, no século XV.
Os colonos alemães de Brasov, que compraram o castelo no final do
século 15, presentearam o prédio à rainha Maria da Romênia em 1918.
Ela o transformou em residência e o deixou de herança para a filha
Ileana.
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
terça-feira, 16 de outubro de 2007
A espada das mãos vazias
A espada das mãos vazias
Rogel Samuel
Fernando Pessoa é perfeito. Em tudo o que fez. Leio «O guardador de rebanhos», a sua técnica de meditação. Na melhor tradição dos mestres Zen, ele diz: sou um pastor de pensamentos.
«Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
«Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.»
Reúne ele os pensamentos como um pastor suas ovelhas. Para que não se percam. Não se extraviem. Não divaguem. Não delirem. Reúne suas ovelhas dentro de si. É o que o Zen diz: «Viver dentro da casa». Dentro da casa é dentro de si. « Permanecer como se é, estar completo em si mesmo ... cada manhã é uma boa manhã, cada dia um lindo dia, não importa a tormenta que esteja desabando... » (Suzuki, «Viver através do Zen»).
Diz Suzuki que o poeta Hakuin (1685-1768) explica aquilo assim:
«As formigas vagarosas lutam para carregar as asas de uma libélula morta;
As andorinhas da primavera pousam lado a lado num ramo de salgueiro;
As fêmeas dos bichos-da-seda, pálidas e cansadas, ficam imóveis segurando as cestas repletas de folhas de amora;
Os garotos da vila são vistos com rebentos de bambu roubados arrastando-se através das cercas quebradas.»
Mas não é para ser compreendido! Se for compreendido, terá outro sentido. Nossas experiências diárias «são de fato experiências do Zen, mas não conseguimos reconhecer isso porque nós, como seres intelectuais, perdemos algo que nos permitia entender o significado».
Que perdemos? Perdemos a beleza. A claridade. Não vemos a beleza dos pássaros no céu, as flores na terra. A luz sobre a montanha, as sombras estreladas da noite.
A vida em si é beleza, algo misterioso. Escapa à compreensão intelectual.
Sotoba, um dos poetas da dinastia Sung, escreveu:
«A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang;
Quando ainda não se esteve lá
Muita mágoa se possui;
Mas uma vez lá e para casa se encaminhando,
Quantas coisas prosaicas se observa!
A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang.»
[Suzuki, «Essays in Zen Buddhism», I, p. 22.]
«Não há nada especial»: O mesmo velho mundo... e não obstante deve haver algo novo e belo na nossa consciência, pois de outra forma não se poderia dizer: "Está tudo o mesmo".
Uma grande mudança, uma grande iluminação teve lugar. Mas tudo está o mesmo.
Por isso um monge jardineiro aproximou-se certa vez do mestre e manifestou-lhe o desejo de ser iluminado no Zen. O mestre disse: «Venha novamente quando não houver ninguém por perto». No dia seguinte, o monge observou que não havia ninguém perto e implorou-lhe para revelar o segredo. Disse o mestre: "Aproxime-se mais de mim". O monge chegou mais perto dele. Disse então o mestre: "O Zen é algo que não pode ser transmitido por palavras".
Algum segredo foi revelado? Sim, o sol brilha no luminoso dia. E ele está alegre e feliz.
Pessoa reúne seus pensamentos como um jogador reúne suas cartas de baralho. São os pensamentos-realidade, pensamentos-pedras.
Desconfia das aparências, das ilações. O Ser só existe quando se torna consciente de si mesmo, diz Suzuki. Mantêm-se na arte da atenção, da presença. Quando ver, ver. Quando ouvir, somente ouvir. Não sair. A distração, para o mestre Zen, é a morte. Como para o lutador de espadas. A alegria, a felicidade está no momento presente, no fragmento presente.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
O passado é um cadáver morto e podre, o futuro é ilusão e desconhecido. Passado e futuro trazem confusão mental, sofrimento. Se me deixo na confusão de minhas ilusões fico perdido e em perigo, como quem escala a montanha. Ver é ver, pensar é pensar. Cada um de cada vez. Ver e pensar ao mesmo tempo é a loucura burra das fantasias irreais. Uma realidade só se dá única. Ver e estar consciente de que estou vendo, pensar e estar consciente de que estou pensando. Um guardador de rebanhos.
É por isso que digo que Pessoa era perfeito, em tudo o que fazia, que fechava os olhos e deitava na relva. Pleno. Na rainha das meditações, a realidade plena. Plenamente alcançada. Desperto. Livre.
Como diz o Zen: «Seguro uma espada em minhas mãos e fico com as mãos vazias».
Rogel Samuel
Fernando Pessoa é perfeito. Em tudo o que fez. Leio «O guardador de rebanhos», a sua técnica de meditação. Na melhor tradição dos mestres Zen, ele diz: sou um pastor de pensamentos.
«Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
«Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.»
Reúne ele os pensamentos como um pastor suas ovelhas. Para que não se percam. Não se extraviem. Não divaguem. Não delirem. Reúne suas ovelhas dentro de si. É o que o Zen diz: «Viver dentro da casa». Dentro da casa é dentro de si. « Permanecer como se é, estar completo em si mesmo ... cada manhã é uma boa manhã, cada dia um lindo dia, não importa a tormenta que esteja desabando... » (Suzuki, «Viver através do Zen»).
Diz Suzuki que o poeta Hakuin (1685-1768) explica aquilo assim:
«As formigas vagarosas lutam para carregar as asas de uma libélula morta;
As andorinhas da primavera pousam lado a lado num ramo de salgueiro;
As fêmeas dos bichos-da-seda, pálidas e cansadas, ficam imóveis segurando as cestas repletas de folhas de amora;
Os garotos da vila são vistos com rebentos de bambu roubados arrastando-se através das cercas quebradas.»
Mas não é para ser compreendido! Se for compreendido, terá outro sentido. Nossas experiências diárias «são de fato experiências do Zen, mas não conseguimos reconhecer isso porque nós, como seres intelectuais, perdemos algo que nos permitia entender o significado».
Que perdemos? Perdemos a beleza. A claridade. Não vemos a beleza dos pássaros no céu, as flores na terra. A luz sobre a montanha, as sombras estreladas da noite.
A vida em si é beleza, algo misterioso. Escapa à compreensão intelectual.
Sotoba, um dos poetas da dinastia Sung, escreveu:
«A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang;
Quando ainda não se esteve lá
Muita mágoa se possui;
Mas uma vez lá e para casa se encaminhando,
Quantas coisas prosaicas se observa!
A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang.»
[Suzuki, «Essays in Zen Buddhism», I, p. 22.]
«Não há nada especial»: O mesmo velho mundo... e não obstante deve haver algo novo e belo na nossa consciência, pois de outra forma não se poderia dizer: "Está tudo o mesmo".
Uma grande mudança, uma grande iluminação teve lugar. Mas tudo está o mesmo.
Por isso um monge jardineiro aproximou-se certa vez do mestre e manifestou-lhe o desejo de ser iluminado no Zen. O mestre disse: «Venha novamente quando não houver ninguém por perto». No dia seguinte, o monge observou que não havia ninguém perto e implorou-lhe para revelar o segredo. Disse o mestre: "Aproxime-se mais de mim". O monge chegou mais perto dele. Disse então o mestre: "O Zen é algo que não pode ser transmitido por palavras".
Algum segredo foi revelado? Sim, o sol brilha no luminoso dia. E ele está alegre e feliz.
Pessoa reúne seus pensamentos como um jogador reúne suas cartas de baralho. São os pensamentos-realidade, pensamentos-pedras.
Desconfia das aparências, das ilações. O Ser só existe quando se torna consciente de si mesmo, diz Suzuki. Mantêm-se na arte da atenção, da presença. Quando ver, ver. Quando ouvir, somente ouvir. Não sair. A distração, para o mestre Zen, é a morte. Como para o lutador de espadas. A alegria, a felicidade está no momento presente, no fragmento presente.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
O passado é um cadáver morto e podre, o futuro é ilusão e desconhecido. Passado e futuro trazem confusão mental, sofrimento. Se me deixo na confusão de minhas ilusões fico perdido e em perigo, como quem escala a montanha. Ver é ver, pensar é pensar. Cada um de cada vez. Ver e pensar ao mesmo tempo é a loucura burra das fantasias irreais. Uma realidade só se dá única. Ver e estar consciente de que estou vendo, pensar e estar consciente de que estou pensando. Um guardador de rebanhos.
É por isso que digo que Pessoa era perfeito, em tudo o que fazia, que fechava os olhos e deitava na relva. Pleno. Na rainha das meditações, a realidade plena. Plenamente alcançada. Desperto. Livre.
Como diz o Zen: «Seguro uma espada em minhas mãos e fico com as mãos vazias».
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
VEJA AS NOSSAS FOTOS DOS AVIÕES NO RIO DE JANEIRO EM:
http://www.flickr.com/photos/12439475@N05/sets/72157602435526800/
http://www.flickr.com/photos/12439475@N05/sets/72157602435526800/
Florbela Espanca
Rogel Samuel
Para Florbela Espanca a dor é, e estranhamente, um convento. No seu famoso soneto «A minha dor», escreveu ela: « A minha Dor é um convento»:
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...
Florbela era mulher bonita e uma extraordinária poetisa. A maior de seu tempo. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Mas seu sucesso é posterior e recente. Otto Maria Carpeaux não a conhece, na sua gigantesca História da Literatura Ocidental. A arte de Florbela é antiquada, seu «Livro das Mágoas», publicado em 1919, livro não modernista numa época em que apareceu a Bauhaus, em Weimar, fundada por W. Gropius, em que aparece Miró, com seu «Nu com espelho». Ela continua cultuando o velho soneto à moda parnasiana. Hernâni Cidade referirá "a violenta contradição entre o conceito de poesia de duas épocas distantes ou próximas". Mas é, possivelmente, António Ferro que, em artigo do Diário de Noticias, logo em Janeiro de 1931, chama a atenção para a poesia de Florbela.
O primeiro verso canta:« A minha Dor é um convento ideal». Como interpretar esse verso, esse convento? Talvez pela solidão, abandono... mas isso é uma deformação do sentido ideal de convento. As freiras lá não estão senão porque comungam e comungam com Deus, com Cristo. Um convento doloroso é uma contradição de termos, idéia de que alguém lá tivesse sido colocado à força, algo como uma prisão solitária, vazia e sinistra. De forma que esse verso, «A minha Dor é um convento ideal» determina as significações do inteiro soneto. E mais:
«Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.»
- mantém um segredo, ou melhor, uma «bela» contradição, pois que, se ali há claustros, sombras, a pedra em convulsões sombrias, há também «requinte», ou seja, apuro, refinamento, elegância, esmero, elevação, perfeição, volutas simétricas, arcos belos de pedras convulsionadas, Florbela transpôs, contagiou o seu secreto claustro com toda a sua sensualidade feminina, com o seu erotismo amante, esses arcos nada místicos ou de um misticismo tântrico, amoroso, sexualizado, corporal, poderosamente inscrito nas paredes, reescrito nas curvas, nas ancas, nas pernas daquela construção ideal e reservada à sua agonia amorosa, onde «os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal...», o seu pecado, o seu som de funeral. Há lírios, mas belos, há:
«Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!»
Florbela contradiz o seu misticismo feminino, a beleza mística, na solidão final de seus versos:
«Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...»
- onde se ouvem os sinos tocarem, nesses «em» que três vezes se repetem, em ninguém.
Filha ilegítima, nascida em 8 de dezembro de 1894, Florbela se mata em 1930. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Não foi pobre, teve 3 maridos e 2 divórcios, algo incomum, na época. Estudou Direito, em Lisboa. Culta. Editou seus próprios livros: «Livro de mágoas» em 1919, e «Livro de Soror Saudade», em 23. Não era conservadora, como disse. Mas avançada para seu tempo. E feminista. Era. Matou-se. Sua morte ela o anunciou em carta. Não conheceu o seu grande sucesso posterior.
Rogel Samuel
Para Florbela Espanca a dor é, e estranhamente, um convento. No seu famoso soneto «A minha dor», escreveu ela: « A minha Dor é um convento»:
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...
Florbela era mulher bonita e uma extraordinária poetisa. A maior de seu tempo. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Mas seu sucesso é posterior e recente. Otto Maria Carpeaux não a conhece, na sua gigantesca História da Literatura Ocidental. A arte de Florbela é antiquada, seu «Livro das Mágoas», publicado em 1919, livro não modernista numa época em que apareceu a Bauhaus, em Weimar, fundada por W. Gropius, em que aparece Miró, com seu «Nu com espelho». Ela continua cultuando o velho soneto à moda parnasiana. Hernâni Cidade referirá "a violenta contradição entre o conceito de poesia de duas épocas distantes ou próximas". Mas é, possivelmente, António Ferro que, em artigo do Diário de Noticias, logo em Janeiro de 1931, chama a atenção para a poesia de Florbela.
O primeiro verso canta:« A minha Dor é um convento ideal». Como interpretar esse verso, esse convento? Talvez pela solidão, abandono... mas isso é uma deformação do sentido ideal de convento. As freiras lá não estão senão porque comungam e comungam com Deus, com Cristo. Um convento doloroso é uma contradição de termos, idéia de que alguém lá tivesse sido colocado à força, algo como uma prisão solitária, vazia e sinistra. De forma que esse verso, «A minha Dor é um convento ideal» determina as significações do inteiro soneto. E mais:
«Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.»
- mantém um segredo, ou melhor, uma «bela» contradição, pois que, se ali há claustros, sombras, a pedra em convulsões sombrias, há também «requinte», ou seja, apuro, refinamento, elegância, esmero, elevação, perfeição, volutas simétricas, arcos belos de pedras convulsionadas, Florbela transpôs, contagiou o seu secreto claustro com toda a sua sensualidade feminina, com o seu erotismo amante, esses arcos nada místicos ou de um misticismo tântrico, amoroso, sexualizado, corporal, poderosamente inscrito nas paredes, reescrito nas curvas, nas ancas, nas pernas daquela construção ideal e reservada à sua agonia amorosa, onde «os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal...», o seu pecado, o seu som de funeral. Há lírios, mas belos, há:
«Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!»
Florbela contradiz o seu misticismo feminino, a beleza mística, na solidão final de seus versos:
«Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...»
- onde se ouvem os sinos tocarem, nesses «em» que três vezes se repetem, em ninguém.
Filha ilegítima, nascida em 8 de dezembro de 1894, Florbela se mata em 1930. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Não foi pobre, teve 3 maridos e 2 divórcios, algo incomum, na época. Estudou Direito, em Lisboa. Culta. Editou seus próprios livros: «Livro de mágoas» em 1919, e «Livro de Soror Saudade», em 23. Não era conservadora, como disse. Mas avançada para seu tempo. E feminista. Era. Matou-se. Sua morte ela o anunciou em carta. Não conheceu o seu grande sucesso posterior.
A Lembrança de Valquíria
Rogel Samuel
(Fragmento do caderno de memória)
Uma tarde, nela atravessávamos a luz, andávamos pela rua daquele subúrbio, o bairro, silenciosos, graves, gravemente subimos o aclive, os passos, resumimos nossas conversas a um leve contato, leve toque dos dedos, ocasionais, toque rápido, cheio de emoção e felicidade. Mas a vida não, mas a vida não é um brinquedo. Não consigo saber o que se passou, as recordações recortam imagens irrecuperáveis. Tento compreender. O que acontecia naquele momento, naquele passar de sua presença inteira, fixa, na minha frente - de uma existência - o passado como tela de cinema implantado no olho da memória. A vida não pára, não parou. Não chego ao desespero, ao estranho relacionamento que tenho, hoje, com o que hoje sou. O presente aqui não é nem alegre, nem triste. Tenho de começar devagar.
Certo dia, quando aciono, quando acordo, o teto do quarto com uma coloração rósea, a janela aberta dá para um labirinto em que o olhar ostenta mover-se, e que se vai desdobrando em abstrata claridade, a fragrância marinha emanando suave, fria, perfumada, vinda do horizonte, a janela respirava... Entrava, quase imperceptível, um som, aquele som, um murmúrio, doce, azulado, como o mar. As pessoas amigas me tinham recomendado calma. Mas eu não consigo. Lembro-me ainda das retas cruzes das ruas da cidade indiferente. Vista do alto prédio, a cidade. Foi naquela madrugada que a sentença me chegou, forte, perfeita, correta, aterradora como a de um assassino: Val. Era ela. Val me abandonava. As persianas batem, fortes, nervosas. As roupas por cima da cama, acordava do sonho do meu amor desfeito. O amor, como uma bala, passava de boca em boca. Se espalhava. Eu sofria a angústia, a queda. O amor é um mar. Cheiro familiar de café. Um pente um espelho. Eu penso. Matar o meu sonho. Não, VaI. Eu tinha soluções. Alguns homens formavam grupo no ângulo da esquina, e ela... ah, súbita felicidade da totalidade!... agora nós estávamos na praça. Na orla da praia eu subia até um pedestal vazio, que chegava à cabeceira do tanque retangular, e no ar abria os braços, espalmava as mãos, feliz, e ainda me consigo ver. De lá dizia, de lá me recordava de mim mesmo, eu para mim agora, a um majestoso e largo mar que soava no ar com a clara voz de Val, com todas as claras vozes daquele tempo, a aragem crescendo no meio de tudo, infiltrando-se na camisa aberta, os seios nus.
Nada me prende mais, hoje, do que a demora do passado no momento presente, esse momento interior imensurável, onde às vezes a força dos instantes retardam os passos do passado para sempre. Às vezes, como num sonho, largo pesado sonho estirado, os momentos são assim inteiramente vivos, inesperados. Neles me movo, me reconstruo, me recomeço. Em frente. Naquela praia nós nos largávamos, era como se durante a vida toda estivéssemos ali. Na areia suave, como se as lembranças estivessem inteiramente nuas, vistas de hoje o mar, vedação alta e azul, as coisas vastas, as coisas em bloco, as coisas se dissolviam em explosões de brancas espumas, cristas, covas, límpidas cintilações coriscantes.
Ainda estou perdido, perplexo. Ainda me movo mal nesse espaço. Ela. Ela penteia os cabelos, diante do espelho, os ombros largos. Muitos anos se passaram diante da imagem de Val, naquele espelho. Era ali, a sua viagem, uma viagem de barco, ela, os cabelos muito soltos no convés, chovia quase todo tempo, interminável ruído da chuva, a chuva nascia da ondulação das dobras do lençol de chuva azul, verde, nós riamos, recebíamos de face as espetadelas gélidas das gotas do ar. Isso é tudo? Durante todo o tempo em que vivemos juntos, parece hoje, por uma misteriosa deformação mágica, que todas as tardes são de sua presença, de seu mar, onde sempre se ouvem ondas, onde as luzes, os sóis se impunham, juvenis, um elemento, alto, magro, qual garça branca, andando atrás da pedra, do deserto, entre o carro e um adorno, uma corrente, ele se precipitava entre as coisas da memória, se encostava ao cimento do muro. Aqui, Val aqui, atrás o seu ciúme, conectando com o que se refere, com tudo o que... bombas (anos depois os soldados invadem o prédio, rebentam no meio da sala cruelmente as bombas, eu procurava Valquíria entre os acontecimentos tumultuosos, estávamos encurralados ali, não conseguimos sair daquilo, não há nenhum telefone funcionando). Esse amor. Tenho de deixar sossegado? Posso iludi-lo com amenidades? Eu sempre penso em matar minha lembrança, meu passado. Ele estaria morto finalmente se eu não o estivesse revirando agora.
Depois que eu me separei de Val penso que a vida está acabada. Não podia amar o amor, aquela doença, o relacionamento com Val, o fantasma. Tinha ido lá, ver o fantasma. Tinha ido até lá, a porta da cozinha estava em frente de onde eles se encontravam, passava a mão sobre sua cintura, mordendo-a suavemente no ventre, mas a porta ameaçou abrir, estava sendo arrombada, uma prosaica chave começou a ser introduzida na fresta, seria surpreendido ali, ele, um nome, uma legenda, ele, como ainda me lembro de tudo isso? estarei vitima de uma VaI que estava em minha vida como uma alucinação, um convite ao prazer, ao mais louco prazer, em sua vida, fonte máxima, única, ela era um vivo convite à vida, a porta, os azulejos brancos, duas pias do lado da geladeira. A beleza, a beleza acompanha o tempo.
No barco, na lua de mel, ainda chove persistente, a voz era como sempre clara e dizia que ouviriam uma certa música, sim, para não nos afogarmos naqueles golfões de sentimento maciço, mole, gosmento. Não, não nos afogaremos nesse mar, não nos afogaremos dentro do fundo de nós mesmos.
Não no barco, esmagada, não, mas na cozinha, com Val, a eterna, a porta se abre, a policia se apodera do que tinha sido aquela casa, eles estão fora, jogam o conteúdo fora, foram engolidos pelo silêncio? fugiram dali! Val, a política, a nova liberdade de viver é assim? Todo o meu empenho é vão, todo o meu empenho para que nada aconteça a ela, desde minha juventude eu assim jogo, tudo, joguei tudo na mesa verde da via do destino, a vida, a família, e era ela, fugimos dali, que valia tudo diante dela? De que valia tudo isso?
A revolução, a ditadura militar, estava vitoriosa, nos colocava na clandestinidade. Fomos parar numa estação de trem do subúrbio, distante, onde ela morava, olhando a planície com desânimo, quase uma centena de pessoas esperava a vinda do trem. Ali mesmo, naquela zona, passavam soldados sem destino, rapazes distraídos entre gritos de vendedores de balas.
sábado, 13 de outubro de 2007
Onde Estás, Poesia?
Rogel Samuel
Todos conhecemos «A canção de amor de J. Alfred Prufrock» de T. S. Eliot. E todos conhecemos seus labirintos, desvios, suas alusões. A dificuldade de leitura, a começar pelos primeiros versos:
Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão.
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.
Os poetas difíceis impressionam. A poesia, neles, se insinua e se mostra no dito por meio de metáforas, alegorias, analogias, símbolos, índices, metonímias que provoca o impacto estético que é chamado beleza. Impressionam os poetas a poesia. Não a dificuldade aleatória, gratuita. Mas a profundidade dos alucinantes temas, como no «Por de sol» de Holderlin, na tradução de Manuel Bandeira (A arte do poeta diz a arte do sonho. A beleza do mundo dos sonhos, para nós, dá a condição prévia de todas as artes plásticas e também uma parte essencial da poesia):
Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De tôdas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.
Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Êle no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas.
Que o honram ainda.
O que o discurso afigura, na poesia, não é o mundo, mas sua essência. Por isso escapa das medidas do lógico, essencializa a própria linguagem. Na poesia, a linguagem procura, tenta falar de si mesma. Com as determinações das manifestações do real (o pensável, não o percebível). Nos versos de Elliot, o anoitecer é um «um paciente anestesiado sobre a mesa». Esta metáfora hospitalar retorna no que pergunta:
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? —
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos...
O que impede a poesia de ser totalmente ilegível chama-se «ideologia», que é a visão do mundo que há em tudo que falamos. O mundo "aparece", mesmo quando não falamos exatamente dele, já que só temos, para falar, o seu discurso (dele). Sim, «impossível exprimir exatamente o que penso! », diz, ele, Eliot, como se «uma lanterna mágica projetasse / Na tela os nervos em retalhos... »
A beleza está no que não diz, mas retém. Silencia. E nos versos de Holderlin a alma anoitece, bêbada de prazeres, dos prazeres da poesia. O sol joga malha de ouro sobre tudo e começa a cantar. O som do seu canto ecoa nas colinas. Nos bosques. Há uma pátina de sexualidade nesse cantar, bêbado de prazeres. O adolescente-poeta escuta o ouro do cantar do sol, que leva às luzes. A noite caminha próxima, há delícias no ar desse poetar. Nesse pomar, como a «Quietude», de Ungaretti, que diz, na tradução de Menotti del Picchia:
A uva está madura e campo arado,
o monte se destaca das nuvens.
Nos poentos espelhos do verão
caiu a sombra
Entre os dedos incertos
sua luz é clara
e longínqua
Foge com as andorinhas
o último desespero
A hermenêutica vê os textos como expressões da vida social fixada na escrita, através de fatos psíquicos, de encadeamentos históricos. Sua interpretação consiste, então, em decifrar o sentido oculto no aparente, em desdobrar os diversos graus de interpretação ali implicados. Só há interpretação quando houver ambigüidade, e é na interpretação que a pluralidade dos sentidos se torna manifesta. Por isso, é necessário interpretar o que diz Hans Sachs, nos «Mestres cantores»: A arte da escrita e da poesia diz a verdade do sonho. «Nos poentos espelhos do verão / caiu a sombra ». Ou «Já se desprende a magra flor», de Salvatore Quasimodo, na tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti:
Nada saberei de minha vida
escuro monótono sangue.
Não saberei quem amei, quem amo
agora que aqui contido, reduzido a meus membros,
no gasto vento de março
enumero os males dos dias desvendados.
Já se desprende a magra flor
dos galhos. E eu contemplo
a paciência de seu vôo irrevogável.
Se só podemos interpretar um mundo já previamente compreendido, esta limitação pode ser transposta pela fusão de novos horizontes. A compreensão depende de certa maneira de olhar, em que não há separação, divisão, julgamento. De um ouvir de outra qualidade a investigação depende. Temos primeiramente de investigar aquilo que nos impede de investigar corretamente. Dali aparece a investigação que pode começar a processar-se. E novos horizontes poderão, então, ser percebidos. Na «Imitação da alegria», diz Quasimodo:
Ali onde as árvores fazem
a tarde ainda mais abandonada
indolente
sumiu teu último passo,
como a flor que mal se mostra
sobre a tília e insiste em viver.
Buscas sentido para teus afetos,
encontras o silêncio em tua vida.
Outro destino me revela
o tempo refletido. Pesa-me
como a morte, a beleza que agora
noutras faces brilha.
Perdida está toda coisa inocente
mesma nesta voz, sobrevivente
a imitar a alegria.
O que o poeta diz é «vamos, tu e eu», «sigamos por certas ruas quase ermas,através dos sussurrantes refúgios», « ali onde as árvores fazem / a tarde ainda mais abandonada», «nos poentos espelhos do verão / entre os dedos incertos», vamos « tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite». Enfim, vamos buscar da poesia o poema, e mergulhar no « sentido para teus afetos», pois a beleza pesa como a morte.
Rogel Samuel
Todos conhecemos «A canção de amor de J. Alfred Prufrock» de T. S. Eliot. E todos conhecemos seus labirintos, desvios, suas alusões. A dificuldade de leitura, a começar pelos primeiros versos:
Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão.
Oh, não perguntes: "Qual?"
Sigamos a cumprir nossa visita.
Os poetas difíceis impressionam. A poesia, neles, se insinua e se mostra no dito por meio de metáforas, alegorias, analogias, símbolos, índices, metonímias que provoca o impacto estético que é chamado beleza. Impressionam os poetas a poesia. Não a dificuldade aleatória, gratuita. Mas a profundidade dos alucinantes temas, como no «Por de sol» de Holderlin, na tradução de Manuel Bandeira (A arte do poeta diz a arte do sonho. A beleza do mundo dos sonhos, para nós, dá a condição prévia de todas as artes plásticas e também uma parte essencial da poesia):
Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De tôdas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.
Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Êle no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas.
Que o honram ainda.
O que o discurso afigura, na poesia, não é o mundo, mas sua essência. Por isso escapa das medidas do lógico, essencializa a própria linguagem. Na poesia, a linguagem procura, tenta falar de si mesma. Com as determinações das manifestações do real (o pensável, não o percebível). Nos versos de Elliot, o anoitecer é um «um paciente anestesiado sobre a mesa». Esta metáfora hospitalar retorna no que pergunta:
E valeria a pena, afinal,
Teria valido a pena,
Após os poentes, as ruas e os quintais polvilhados de rocio,
Após as novelas, as chávenas de chá, após
O arrastar das saias no assoalho
- Tudo isso, e tanto mais ainda? —
Impossível exprimir exatamente o que penso!
Mas se uma lanterna mágica projetasse
Na tela os nervos em retalhos...
O que impede a poesia de ser totalmente ilegível chama-se «ideologia», que é a visão do mundo que há em tudo que falamos. O mundo "aparece", mesmo quando não falamos exatamente dele, já que só temos, para falar, o seu discurso (dele). Sim, «impossível exprimir exatamente o que penso! », diz, ele, Eliot, como se «uma lanterna mágica projetasse / Na tela os nervos em retalhos... »
A beleza está no que não diz, mas retém. Silencia. E nos versos de Holderlin a alma anoitece, bêbada de prazeres, dos prazeres da poesia. O sol joga malha de ouro sobre tudo e começa a cantar. O som do seu canto ecoa nas colinas. Nos bosques. Há uma pátina de sexualidade nesse cantar, bêbado de prazeres. O adolescente-poeta escuta o ouro do cantar do sol, que leva às luzes. A noite caminha próxima, há delícias no ar desse poetar. Nesse pomar, como a «Quietude», de Ungaretti, que diz, na tradução de Menotti del Picchia:
A uva está madura e campo arado,
o monte se destaca das nuvens.
Nos poentos espelhos do verão
caiu a sombra
Entre os dedos incertos
sua luz é clara
e longínqua
Foge com as andorinhas
o último desespero
A hermenêutica vê os textos como expressões da vida social fixada na escrita, através de fatos psíquicos, de encadeamentos históricos. Sua interpretação consiste, então, em decifrar o sentido oculto no aparente, em desdobrar os diversos graus de interpretação ali implicados. Só há interpretação quando houver ambigüidade, e é na interpretação que a pluralidade dos sentidos se torna manifesta. Por isso, é necessário interpretar o que diz Hans Sachs, nos «Mestres cantores»: A arte da escrita e da poesia diz a verdade do sonho. «Nos poentos espelhos do verão / caiu a sombra ». Ou «Já se desprende a magra flor», de Salvatore Quasimodo, na tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti:
Nada saberei de minha vida
escuro monótono sangue.
Não saberei quem amei, quem amo
agora que aqui contido, reduzido a meus membros,
no gasto vento de março
enumero os males dos dias desvendados.
Já se desprende a magra flor
dos galhos. E eu contemplo
a paciência de seu vôo irrevogável.
Se só podemos interpretar um mundo já previamente compreendido, esta limitação pode ser transposta pela fusão de novos horizontes. A compreensão depende de certa maneira de olhar, em que não há separação, divisão, julgamento. De um ouvir de outra qualidade a investigação depende. Temos primeiramente de investigar aquilo que nos impede de investigar corretamente. Dali aparece a investigação que pode começar a processar-se. E novos horizontes poderão, então, ser percebidos. Na «Imitação da alegria», diz Quasimodo:
Ali onde as árvores fazem
a tarde ainda mais abandonada
indolente
sumiu teu último passo,
como a flor que mal se mostra
sobre a tília e insiste em viver.
Buscas sentido para teus afetos,
encontras o silêncio em tua vida.
Outro destino me revela
o tempo refletido. Pesa-me
como a morte, a beleza que agora
noutras faces brilha.
Perdida está toda coisa inocente
mesma nesta voz, sobrevivente
a imitar a alegria.
O que o poeta diz é «vamos, tu e eu», «sigamos por certas ruas quase ermas,através dos sussurrantes refúgios», « ali onde as árvores fazem / a tarde ainda mais abandonada», «nos poentos espelhos do verão / entre os dedos incertos», vamos « tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite». Enfim, vamos buscar da poesia o poema, e mergulhar no « sentido para teus afetos», pois a beleza pesa como a morte.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
receitas de azul
O famoso verso: 'Tome um pouco de azul, se a tarde é clara', de Carlos Pena Filho, lembra que foi Rimbaud quem inventou a cor das sonoridades vogais. A cor azul fala do som 'O'. Veja a tradução de Onestaldo de Pennafort:
O, fanfarras, clarins, trons de vitória, brados,
O, silêncios azuis de anjos e sóis povoados,
O, clarão vesperal, violáceo, dos seus olhos!
São esses silêncios azuis que só os anjos sabem, os sóis povoados de luz dos seus olhos, clarão vesperal, brados.
Para ele, e não pergunte por quê, o 'O' é azul. Leia a tradução de Augusto de Campos:
O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncios assombrados de anjos e universos:
— Ó ! Ômega, o sol violeta dos Seus Olhos!
Com a tradução muda o poema todo.
Para fazer-se um soneto azul, se deve, pois, proceder da seguinte forma, diz o poeta Pena Filho:
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.
Esse deus — esta musa, a inspiração, desce da 'súbita mão', de que fala Pessoa. Em 1917:
Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.
No 'Soneto do Desmantelo Azul', diz Carlos Pena Filho: 'Então, pintei de azul os meus sapatos '. Por onde ele andou?
Brinca de azul Carlos Pena Filho, no 'Soneto do Desmantelo Azul':
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori, as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.
Enfim, Carlos Pena Filho dá a receita: ' Para fazer um soneto':
Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.
Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.
Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.
Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.
O poeta amazonense Sebastião Norões é autor de um famoso soneto — 'Mar da memória' — Lá o azul vem do mar:
Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.
O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,
delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.
Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.
Lá o azul do mar está pintado de 'ânsias de infinito', de vôo, de pensamento cujas distâncias fomentavam longes sonhos, o meu mar, o meu mar interior, o tamanho mar de quando ele era meu mar.
Para fazer-se um soneto azul deve-se esperar, fiando-se no azul do ar, da palavra inicial: 'que moldará nas nuvens no momento / de apascentá-las pela tarde pura' (Bacellar), e começar por lembrar 'que o mar era meu, o mar azul' (Norões).
A cor local deve ser a do 'sol de sua cara / e um pedaço de fundo de quintal ' (Bacellar).
Mas nunca o mar foi tão vasto quanto nesses versos azuis de le bateau ivre (Trad. Augusto de Campos):
E das manchas azulejantes dos venenos / ...... / Onde, tingindo azulidades com quebrantos / ......./ E o acordar louro e azul dos fósforos canoros! /.........../ Áureos peixes do mar azul, peixes cantantes... / .................../ Líquens de sol e vômitos de azul escuro.
É de Bacellar o soneto do verão:
No livre azul o sossegado vento
lívido sonha linhas de escultura
que moldará nas nuvens no momento
de apascentá-las pela tarde pura.
Num arrepio de pressentimento
o rufo de asa risca na brancura,
o sol arranca brilhos do cimento
do muro novo, a folha cai. Madura.
Tudo o verão proclama: a tarde limpa,
esmaltada de claro; pela grimpa
do morro verde a cabra lenta vai...
A luz resvala na amplidão sonora.
Por que senti roçar-me a face agora
um beijo, um frêmito, um suspiro, um ai?
Azul é o céu, é o espaço. Azul é profundidade, a transparência, o vazio, a liberdade. No livre azul, no mar azul, um pouco de azul da tarde, perdidos de azul, vertiginosamente azul. O azul onde passa o vento.
Termino com Rimbaud:
No meu torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar das naves cheias de algodões,
Nem vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem navegar sob o olho torvo dos pontões.
quarta-feira, 10 de outubro de 2007
olê olá
Grupo sério, interessante de ver, sindicalistas protestam na porta do Palácio, Lula sai, convidado a sair, sai, protestos aumentam, mas logo começam a gritar, em uníssono: "olê, olê, olá, Lula, Lulá", meu Deus, que gente é esta?, que felicidade é esta?, que grande novidade republicana?, a que talvez nunca mais poderemos assistir, outra vez, um certo Operário, que nunca a História se repete, um amado Presidente, amado pelo seu povo. Por enquanto? Sim, claro. Talvez, talvez, nada é eterno, a Reforma da Previdência aí vem, ou já veio, e já se foi, dependendo de quando será publicada está croniquinha. Sim, exulto, eis aí, inacreditável, passados tantos meses, tantos anos, Lula Presidente: mas súbito meu microcomputador pára, congela, ameaça e morre. Um dia de enlouquecer, aquele. Sem computador me suicido?! Telefono urgente, aflito, para Nappy, socorro meu!, minha boa amiga, que sempre me salva, horas aflitivas, e ela, que de fato aparece, me diz coisas complicadas, não compreendo, estressado, tonto, em pânico, meu computador, velhíssimo, seis longos anos de idade, pré-histórico, agora, como todo velho, sem memória, esclerosado, em crise de incompatibilidade consigo mesmo, com sua (placa)mãe, contraíra ou não um vírus, seja asiático, seja africano (porque, para nós, todos vêem daquelas regiões dos países eternamente distantes, perigosamente cheios de ozamas e saddans), ela — a Suprema Nappy — me disse, e o que diz ela — a Poderosa Nappy — eu rezo, ela é a Nossa Senhora Desatadora dos Lógicos Nós, e mui compungido, eu crente, ela minha mestra em computação, por ela que hoje sei fazer a webpage, e agora distinguir um gif animado de um arquivo html (sabe o que é "html"? — nem eu), excelsa linguagem, Indecifrável Poesia Internet, extra Internet non est sallus, Maria Poema, Poema Visual-virtual, extra Internet nemo salvatur, e fico mudo, cego e surdo, sem micro, nem Macro, fora da Comunidade Internet, como minha amiga Leila esteve pelas longas horas de uns dias, eu sem nada, ou melhor, reduzido ao Absoluto Nada do sem Senha, eu, o Deletado, na caixa de lixo do spam, sim, ponho-me a tocar um concerto histérico de Pehr Henrik Nordgren, um compositor finlandês, sim, Nordgren, como Erik Bergman, expressa violenta, claramente o que sinto, cortado, expulso, exilado, no campo nu do sem horizonte, sem conexão o que restou do que sou? — mas Nappy vai salvar-me, do suicídio talvez, retorna à casa, de onde me traz, embrulhada, emprestada, aquela sua extraordinariamente rápida máquina, oh, o que sou, quem sou eu sem o word?, o nestscape? que até mesmo o amor só hoje se tem de fazer sob a proteção antivirótica dos nortons, nos chats blogs combs, sim, preservado pelos preservativos de cafeína você acredita que exista vida fora da sala de vídeo, "dia virá / em que os amantes serão caçados a bala", escrevi, e em linux e windows só ela, a Nappy mágica, capaz de me fazer algo assim, olê, olê olá, vivá, vivá, o telefone toca, a Chris, que me diz, de São Paulo, isto e aquilo, e lhe conto a odisséia não-Maria, ó Neuza Machado, e recomendado por Chris que não compre novo micro agora, o que é Real é Virtual, que deixe para terça-feira próxima, que vem nova fase, tal astro em conjunção com qual casa, na superação de si e reconstrução da subjetividade perdida — e tudo bem ensaladado, na semana que vem estarei lá, olê olá, vamos vadiar, no Rio, no mar, vamos sambar.
terça-feira, 9 de outubro de 2007
nossa senhora de burka
Ela escreveu NOSSA SENHORA DE BURKA (Coimbra: Alma Azul, 2002). Ela é Maria Azenha. Escreveu um livro de elegias que enquadram, que descrevem nosso mundo, a realidade pós-11-de-setembro. Uma edição primorosa, papel especial, pesado. Livro bonito. É um dos mais impressionantes textos sobre esta história recente, presente. Azenha mostra o rosto "coberto de sangue e de feridas". Sua primeira parte se chama "Da guerra" e trata do horror das novas guerras de nosso tempo ("este é um tempo de terror"), da nossa hipocrisia ("um tempo de máscaras"), época de partida, tema português ("os navios partiram / nunca mais regressaram"), ou seja: "hoje / ao som de guerras / os homens / esfomeados". Porque, diz Azenha: "eis como tudo entra de súbito no mundo / e um certo país é de repente um sino / tudo começou subitamente naquele segundo / igual e tão terrível à morte de tanta gente / ainda com a luz e os escombros de raiz / naquele dia terrível como a espada do vento".
Raras vezes se encontra poeta tão radicalmente engajado na Terra, para desenterrar esta palavra gasta, como noticiário do Terror, isto é, do horror da nova política de guerra que grandes e poderosas nações "desenvolvidas" da "civilização" movem agora contra povos miseráveis, mulheres veladas, religiões negadas, crenças consideradas exóticas. Perpassa ali o vento quente do deserto, naquelas 57 páginas ("pássaros mortos / um dia apodrecem").
Ela nasceu em Coimbra, licenciou-se em Coimbra, na Universidade de Coimbra, em Ciências Matemáticas. Publicou cerca de 10 livros. Foi professora nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Mas logo optou pela Arte. Hoje é professora de numa escola de ensino artístico de Lisboa. É Doutora. É Pintora.
Azenha se mostra um poeta que questiona o pensamento do mundo. Pensar o mundo, em poesia,deve ter-se porte grandioso que ela realmente tem. Dá conta, ela, transforma a tragédia histórica contemporânea em pura poesia ("américa nas tuas mãos ficou o sinal da cruz / o terrorismo entrou / e em alguns livros também").
Leia Azenha em:
http://www.geocities.com/rogelsamuel/azenha.html
Tecer melhor quem poderia aquele cenário da brutalidade mundial, da barbárie atual? "agora o pequeno barulho da guerra / é tão natural / como este poema que fiz".
eis como tudo chegou
eis o que não chega ao fim
No seu livro ouvimos o grito surdo, o agudo grito das mulheres do Afeganistão, mulheres de burca. O grito entre bombas. Nos seus versos a doutrina nova das armas, Azenha tripula, expõe a nudez da guerra contemporânea, com maestria e simplicidade, como contasse de um tempo remoto, o tempo nosso.
Em livro anterior, escreveu: AS VEIAS DO ESPAÇO
digo o voo das aves
essas veias levíssimas do espaço
as suas sílabas subitamente sentadas
em cadeiras voláteis
digo essas delicadas naves
que navegam por metáforas matemáticas
as suas figuras de números tranquilos
os seus modos de penetrar o espaço
as suas danças de átomos
os seus múltiplos resíduos
em silenciosos halos de naufrágios
digo as suas galáxias de luz e números
***
A segunda parte de NOSSA SENHORA DE BURKA se intitula: "Da morte": "guardo a minha vida em livros de poemas / poemas que vou soletrando devagar / escritos em toalhas de sangue / indefesos às chuvas matinais, / é nos livros que vou negando / o vazio das grandes ausências, / sobre a morte nada direi. / é inverno frio. estou à porta".
Dia virá em que Maria Azenha será lembrada como a grande autora da poética da alma de nossa época, porque "o meu destino é este o preço / é escrever. porque eu meço / os mistérios da morte e do mundo. / guardo a minha parca bagagem / sem poderes a minha caligrafia / de medos e de campas dentro / do sangue dos pomares / e o teu nome que escrevo / contra o tédio dos livros, mãe".
Abrindo o pórtico do corpo, do seio, ela diz: "sobre o meu corpo cresce uma rosa", que é a cicatriz no corpo da geografia do mundo em chamas e em dores.
Ou, como diz Azenha: "a europa é a minha casa / por isso posso chorar muito / estou triste muito triste / não estou triste estou triste / sinceramente não estava à espera disto / quem tem a culpa toda sou eu / fui eu quem fez esta embrulhada / em vez de ouvir a empregada dizer / temos que ser uns para os outros / devia era ter continuado a escrever / poemas de amor / poemas de amor"
poemas
poemas
só
poemas
que foi sempre o que escrevi
agora percebo o que é o terrorismo
agora percebo
estou triste estou muito triste
tenho o corpo podre de pax
Eis um livro raro, bom como poucos. Nos dois lados, como num disco, ou moeda: o lado A é da guerra, o lado B é da morte. Livro já consagrado. Já clássico.
Ela escreveu NOSSA SENHORA DE BURKA (Coimbra: Alma Azul, 2002). Ela é Maria Azenha. Escreveu um livro de elegias que enquadram, que descrevem nosso mundo, a realidade pós-11-de-setembro. Uma edição primorosa, papel especial, pesado. Livro bonito. É um dos mais impressionantes textos sobre esta história recente, presente. Azenha mostra o rosto "coberto de sangue e de feridas". Sua primeira parte se chama "Da guerra" e trata do horror das novas guerras de nosso tempo ("este é um tempo de terror"), da nossa hipocrisia ("um tempo de máscaras"), época de partida, tema português ("os navios partiram / nunca mais regressaram"), ou seja: "hoje / ao som de guerras / os homens / esfomeados". Porque, diz Azenha: "eis como tudo entra de súbito no mundo / e um certo país é de repente um sino / tudo começou subitamente naquele segundo / igual e tão terrível à morte de tanta gente / ainda com a luz e os escombros de raiz / naquele dia terrível como a espada do vento".
Raras vezes se encontra poeta tão radicalmente engajado na Terra, para desenterrar esta palavra gasta, como noticiário do Terror, isto é, do horror da nova política de guerra que grandes e poderosas nações "desenvolvidas" da "civilização" movem agora contra povos miseráveis, mulheres veladas, religiões negadas, crenças consideradas exóticas. Perpassa ali o vento quente do deserto, naquelas 57 páginas ("pássaros mortos / um dia apodrecem").
Ela nasceu em Coimbra, licenciou-se em Coimbra, na Universidade de Coimbra, em Ciências Matemáticas. Publicou cerca de 10 livros. Foi professora nas Universidades de Coimbra, Évora e Lisboa. Mas logo optou pela Arte. Hoje é professora de numa escola de ensino artístico de Lisboa. É Doutora. É Pintora.
Azenha se mostra um poeta que questiona o pensamento do mundo. Pensar o mundo, em poesia,deve ter-se porte grandioso que ela realmente tem. Dá conta, ela, transforma a tragédia histórica contemporânea em pura poesia ("américa nas tuas mãos ficou o sinal da cruz / o terrorismo entrou / e em alguns livros também").
Leia Azenha em:
http://www.geocities.com/rogelsamuel/azenha.html
Tecer melhor quem poderia aquele cenário da brutalidade mundial, da barbárie atual? "agora o pequeno barulho da guerra / é tão natural / como este poema que fiz".
eis como tudo chegou
eis o que não chega ao fim
No seu livro ouvimos o grito surdo, o agudo grito das mulheres do Afeganistão, mulheres de burca. O grito entre bombas. Nos seus versos a doutrina nova das armas, Azenha tripula, expõe a nudez da guerra contemporânea, com maestria e simplicidade, como contasse de um tempo remoto, o tempo nosso.
Em livro anterior, escreveu: AS VEIAS DO ESPAÇO
digo o voo das aves
essas veias levíssimas do espaço
as suas sílabas subitamente sentadas
em cadeiras voláteis
digo essas delicadas naves
que navegam por metáforas matemáticas
as suas figuras de números tranquilos
os seus modos de penetrar o espaço
as suas danças de átomos
os seus múltiplos resíduos
em silenciosos halos de naufrágios
digo as suas galáxias de luz e números
***
A segunda parte de NOSSA SENHORA DE BURKA se intitula: "Da morte": "guardo a minha vida em livros de poemas / poemas que vou soletrando devagar / escritos em toalhas de sangue / indefesos às chuvas matinais, / é nos livros que vou negando / o vazio das grandes ausências, / sobre a morte nada direi. / é inverno frio. estou à porta".
Dia virá em que Maria Azenha será lembrada como a grande autora da poética da alma de nossa época, porque "o meu destino é este o preço / é escrever. porque eu meço / os mistérios da morte e do mundo. / guardo a minha parca bagagem / sem poderes a minha caligrafia / de medos e de campas dentro / do sangue dos pomares / e o teu nome que escrevo / contra o tédio dos livros, mãe".
Abrindo o pórtico do corpo, do seio, ela diz: "sobre o meu corpo cresce uma rosa", que é a cicatriz no corpo da geografia do mundo em chamas e em dores.
Ou, como diz Azenha: "a europa é a minha casa / por isso posso chorar muito / estou triste muito triste / não estou triste estou triste / sinceramente não estava à espera disto / quem tem a culpa toda sou eu / fui eu quem fez esta embrulhada / em vez de ouvir a empregada dizer / temos que ser uns para os outros / devia era ter continuado a escrever / poemas de amor / poemas de amor"
poemas
poemas
só
poemas
que foi sempre o que escrevi
agora percebo o que é o terrorismo
agora percebo
estou triste estou muito triste
tenho o corpo podre de pax
Eis um livro raro, bom como poucos. Nos dois lados, como num disco, ou moeda: o lado A é da guerra, o lado B é da morte. Livro já consagrado. Já clássico.
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
filosofar em ipanema
filosofar em ipanema
Ipanema deslumbrante nesta manhã. Início de Primavera. Vou direto, dentro de um táxi, para a livraria, onde me espera a antologia "Rios", ali lançada. Há tempos não venho a Ipanema. Nada há para fazer aqui. Nisso reside o ponto: a gratuidade. Andar, sem objetivo. Muito raro. Sempre vamos a um lugar para fazer algo, comprar um livro, almoçar, ou mesmo passear (o que também percorre o núcleo das ações visando a um fim). Encontramo-nos num limite. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma. Nosso mundo é o mundo eletrônico dos microcomputadores, porta-vozes de uma felicidade sem alma, anestésica, onde tudo funciona sem nervo. Fomos transformados em objetos da ciência da comunicação, imanente ao todo. Nosso mundo é o da imanência, do imediatismo. A realidade não estaria na medida em que se pode transcendê-la. A transcendência pertence à categoria humana antiga, arcaica, da consciência em relação às coisas. A vacuidade do olhar que vê o vídeo revela a imanência existencial do homem não mais exercendo o seu poder de transcendência.
Ora, o objeto se define como o emprego que a tecnologia moderna faz das coisas, tornadas úteis, práticas, aperfeiçoadas, interrompendo-se a continuidade harmoniosa e natural em que se encontravam. O olhar que vê o objeto não é o mesmo olhar que vê a coisa dada na natureza, assim como o olhar que vê o vídeo não é igual ao olhar que vê a flor. Olhar a flor mostra a redenção do olhar capaz de transcendência. O vídeo fez o olhar desaprender, não mais saber decodificar a flor como apenas flor, flor sem conceito, flor de flor, dado único, irrepetível, espantoso no universo. O que caracterizava o filósofo antigo era o seu espanto, o pathos, a surpresa do fato. Olhava o mundo com surpresa. Nós olhamos um mundo velho, com olhos gastos. Não nos surpreende o olhar. A flor que é flor, agora, só a que vem pronta, cheia de semiologia, não a flor nascida na margem da estrada, única, linda, e espantosa. Espantar-se com o haver a flor é ter aptidão filosófica. O olhar já não pára na margem da estrada, para a contemplação silenciosa da flor. Pois a contemplação pertence a um passado historio, arcaico, desusado, heróico, remoto, quase pré-histórico. A contemplação não é possível, mas a tecnologia, que traduz tudo, fato matematizado. A técnica, o esquecimento do olhar. Por isso os aposentados, os "inativos", nada mais tendo a fazer, se deixam cair em depressão, adoecem e morrem, para alegria dos sistemas previdenciários.
A técnica prepara o homem para aceitar a imanência, que submete o sujeito ao jugo do objeto. Envolve-o num sistema de significados. Ensina-o a (não)-ser "feliz", ou seja, ativo. Em tempo de crise, o homem do Estado pós-científico, pós-moderno, pós-11-de-setembro, se submete sem protesto ao mundo dos objetos sem experimentar um horror a reificação. A tecnologia, como instrumentalização das coisas, se converte em instrumentalização dos homens — condição primordial do viver moderno, dizia o velho Marcuse. O homem instrumentalizado, instrumento da técnica. Sua cultura é a de massa, da TV. A sociedade fica assim desprovida de si, do seu caráter societário, assiste-se a uma anestesia da sociedade, provocada pela "racionalização", palavra que Max Weber utiliza para caracterizar a forma capitalista de atividade econômica, a forma de troca própria do sistema de comércio burguês, que aparece a partir do século XII e que se desenvolve no Renascimento ao nível do Direito Romano, imagem da organização imperialista da sociedade romana, estabelecida no Direito Privado que nasce em substituição à idéia da vida pública grega.
Na medida em que nós possamos ver o homem também como uma coisa, seu absurdo não é menor do que o das pedras, mas ele não é sempre redutível à realidade inferior que nós atribuímos as coisas. Pois o problema que se avista na reificação é o da incomunicabilidade, o absurdo de viver no mundo despovoado de sentido social, de não participar da história, de não compreender o todo, de ignorar as causas das decisões dos acontecimentos. O homem pós-pós-moderno se encontra num limite. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma.
Hoje a dominação se acha legitimada como poder científico-militar. Há desarmonia? — Então isso é o Terrorismo. Filosoficamente falando, estamos numa fase de barbárie. Os poetas estão desaparecendo do cenário central das decisões. O fato da invasão militar aparece não só como irracionalidade do comportamento político, mas como loucura mesmo. Loucura é a incapacidade de se comunicar eficazmente com o outro. Cortando a comunicação, a loucura corta a ligação com o continente racional.
Os motivos sociais do nosso tempo estão mascarados por imperativos militares, onde se identificam técnica, dominação, racionalidade, produtividade, guerra, grupos de extermínio, narcotráfico, destruição do meio ambiente e sendo mais uma possibilidade, como disse Ernest Bloch, do que uma atualidade. "O olho, que tudo vê, não se vê" diz o aforismo de Wittgenstein. Em breve vamos ver que estamos na encruzilhada. A filosofia grega era objetiva. Descartes, no classicismo, pensou uma filosofia do sujeito: Seu Discurso sobre o método, que é um texto dedicado a orientar a razão para dentro do sujeito, o demonstra classicamente. Esse caminho chega ao idealismo alemão, pois Kant, com sua crítica da razão, e Hegel, com o desenvolvimento do pensamento negativo (o objeto é o que o sujeito não é) chegaram ao conceito de subjetividade-objetiva, fundindo dialeticamente sujeito e objeto. A história da filosofia poderia ter parado aí. Não parou. Nietzsche quebra a estabilidade. O problema do sujeito atinge, então, um nível nunca visto, pois o problema não está além, mas aquém. "O que quer aquele que diz que nada quer?". Entretanto, para as sociedades pós-modernas, o homem mesmo ainda é desconhecido. Mas será possível ainda falar de pós-modernidade depois de 11 de setembro?
E eu continuo a filosofar, andando sem destino, pelas ruas de Ipanema.
Ipanema deslumbrante nesta manhã. Início de Primavera. Vou direto, dentro de um táxi, para a livraria, onde me espera a antologia "Rios", ali lançada. Há tempos não venho a Ipanema. Nada há para fazer aqui. Nisso reside o ponto: a gratuidade. Andar, sem objetivo. Muito raro. Sempre vamos a um lugar para fazer algo, comprar um livro, almoçar, ou mesmo passear (o que também percorre o núcleo das ações visando a um fim). Encontramo-nos num limite. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma. Nosso mundo é o mundo eletrônico dos microcomputadores, porta-vozes de uma felicidade sem alma, anestésica, onde tudo funciona sem nervo. Fomos transformados em objetos da ciência da comunicação, imanente ao todo. Nosso mundo é o da imanência, do imediatismo. A realidade não estaria na medida em que se pode transcendê-la. A transcendência pertence à categoria humana antiga, arcaica, da consciência em relação às coisas. A vacuidade do olhar que vê o vídeo revela a imanência existencial do homem não mais exercendo o seu poder de transcendência.
Ora, o objeto se define como o emprego que a tecnologia moderna faz das coisas, tornadas úteis, práticas, aperfeiçoadas, interrompendo-se a continuidade harmoniosa e natural em que se encontravam. O olhar que vê o objeto não é o mesmo olhar que vê a coisa dada na natureza, assim como o olhar que vê o vídeo não é igual ao olhar que vê a flor. Olhar a flor mostra a redenção do olhar capaz de transcendência. O vídeo fez o olhar desaprender, não mais saber decodificar a flor como apenas flor, flor sem conceito, flor de flor, dado único, irrepetível, espantoso no universo. O que caracterizava o filósofo antigo era o seu espanto, o pathos, a surpresa do fato. Olhava o mundo com surpresa. Nós olhamos um mundo velho, com olhos gastos. Não nos surpreende o olhar. A flor que é flor, agora, só a que vem pronta, cheia de semiologia, não a flor nascida na margem da estrada, única, linda, e espantosa. Espantar-se com o haver a flor é ter aptidão filosófica. O olhar já não pára na margem da estrada, para a contemplação silenciosa da flor. Pois a contemplação pertence a um passado historio, arcaico, desusado, heróico, remoto, quase pré-histórico. A contemplação não é possível, mas a tecnologia, que traduz tudo, fato matematizado. A técnica, o esquecimento do olhar. Por isso os aposentados, os "inativos", nada mais tendo a fazer, se deixam cair em depressão, adoecem e morrem, para alegria dos sistemas previdenciários.
A técnica prepara o homem para aceitar a imanência, que submete o sujeito ao jugo do objeto. Envolve-o num sistema de significados. Ensina-o a (não)-ser "feliz", ou seja, ativo. Em tempo de crise, o homem do Estado pós-científico, pós-moderno, pós-11-de-setembro, se submete sem protesto ao mundo dos objetos sem experimentar um horror a reificação. A tecnologia, como instrumentalização das coisas, se converte em instrumentalização dos homens — condição primordial do viver moderno, dizia o velho Marcuse. O homem instrumentalizado, instrumento da técnica. Sua cultura é a de massa, da TV. A sociedade fica assim desprovida de si, do seu caráter societário, assiste-se a uma anestesia da sociedade, provocada pela "racionalização", palavra que Max Weber utiliza para caracterizar a forma capitalista de atividade econômica, a forma de troca própria do sistema de comércio burguês, que aparece a partir do século XII e que se desenvolve no Renascimento ao nível do Direito Romano, imagem da organização imperialista da sociedade romana, estabelecida no Direito Privado que nasce em substituição à idéia da vida pública grega.
Na medida em que nós possamos ver o homem também como uma coisa, seu absurdo não é menor do que o das pedras, mas ele não é sempre redutível à realidade inferior que nós atribuímos as coisas. Pois o problema que se avista na reificação é o da incomunicabilidade, o absurdo de viver no mundo despovoado de sentido social, de não participar da história, de não compreender o todo, de ignorar as causas das decisões dos acontecimentos. O homem pós-pós-moderno se encontra num limite. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma.
Hoje a dominação se acha legitimada como poder científico-militar. Há desarmonia? — Então isso é o Terrorismo. Filosoficamente falando, estamos numa fase de barbárie. Os poetas estão desaparecendo do cenário central das decisões. O fato da invasão militar aparece não só como irracionalidade do comportamento político, mas como loucura mesmo. Loucura é a incapacidade de se comunicar eficazmente com o outro. Cortando a comunicação, a loucura corta a ligação com o continente racional.
Os motivos sociais do nosso tempo estão mascarados por imperativos militares, onde se identificam técnica, dominação, racionalidade, produtividade, guerra, grupos de extermínio, narcotráfico, destruição do meio ambiente e sendo mais uma possibilidade, como disse Ernest Bloch, do que uma atualidade. "O olho, que tudo vê, não se vê" diz o aforismo de Wittgenstein. Em breve vamos ver que estamos na encruzilhada. A filosofia grega era objetiva. Descartes, no classicismo, pensou uma filosofia do sujeito: Seu Discurso sobre o método, que é um texto dedicado a orientar a razão para dentro do sujeito, o demonstra classicamente. Esse caminho chega ao idealismo alemão, pois Kant, com sua crítica da razão, e Hegel, com o desenvolvimento do pensamento negativo (o objeto é o que o sujeito não é) chegaram ao conceito de subjetividade-objetiva, fundindo dialeticamente sujeito e objeto. A história da filosofia poderia ter parado aí. Não parou. Nietzsche quebra a estabilidade. O problema do sujeito atinge, então, um nível nunca visto, pois o problema não está além, mas aquém. "O que quer aquele que diz que nada quer?". Entretanto, para as sociedades pós-modernas, o homem mesmo ainda é desconhecido. Mas será possível ainda falar de pós-modernidade depois de 11 de setembro?
E eu continuo a filosofar, andando sem destino, pelas ruas de Ipanema.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007

CONCEIÇÃO
Chamava-se Conceição.
Talvez fosse 'nome de guerra' da bela jovem, profissional do amor, no cabaré Xangri-lá. Manaus.
Ele se apaixonou.
Ao Cabaré chegava de carro. Trazia presentes caros, jóias.
O Xangri-lá era fora da rota da estrada.
Sítio deserto, secreto, no baixio da selva, longe dos olhos das famílias, mas conhecidíssimo dos jovens da época.
Ali os boleros se arrastavam, decadentes. Dalva de Oliveira, Ângela Maria, amores contrariados, tristeza, dor. Um dizia: 'Assim... se passaram dez anos...'
Dançava-se.
Mas o ambiente tinha certa classe.
Limpo, as moças quietas nos cantos, os fregueses sentados às mesas, sós ou em grupos, calmos, pediam uma XPTO, sorriam para as mulheres, todas jovens, que correspondiam, discretas.
Um ou outro se levantava, tirava dama para dançar, depois a conduzia para mesa.
Encontros íntimos, se houvesse, aconteciam fora da vista, nos fundos do prédio, para onde se ia através de cortinados sucessivos de renda, atravessando-se por um corredor misterioso, iluminado de mortiça luz vermelha.
Galeria de portas.
Tudo perfumado de cumaru, flores de papel crepom.
Para quem chegava, lugar de dança. Havia aqueles que só iam para dançar, prosear com amigos, beber uma cerveja à noite.
As moças, assim chamadas, vinham do interior.
Jovens, havia com menos de dezoito anos, na época comum e muito apreciado.
Elas pareciam felizes.
Algumas faziam as unhas, outras se distraíam com velhas revistas de moda, qualquer coisa.
Mas caladas.
Um ritual, o ambiente. Lá estavam algumas das mais respeitáveis famílias da terra, a maioria homens casados, e em Manaus a primeira pergunta era: 'De que família você é?'
Ele era jovem e solteiro.
Pois conheceu Conceição, e por ela se apaixonou, de verdade.
Paixão de jovem sempre séria, quis casar-se, ninguém deixou, ela mesma não quis, que continuassem amigos, assim.
E ela naquele bordel, mas exclusiva dele.
Todo o dinheiro que lhe dava era enviado para a família. No fim de um ano o recurso dava comprar uma casa.
Às vezes ela viajava...
Dizia que visitava a mãe velha. Dizia. Ausentava-se por uns dias.
Mas voltava sempre bela, fresca, feliz.
...........................
Um dia se foi de vez.
Desapareceu no Interior, ninguém mais a viu.
Deixou um bilhete, escrito por outrem, pois era analfabeta.
Que tinha um noivo, há muito tempo comprometida, viera para trabalhar, ganhar dinheiro antes de se casar. Agradecia por tudo, deixava um 'Deus te recompense'.
Ele enlouqueceu.
Gritou. Chorou. Adoeceu. Foi procurá-la. Mas o Amazonas é enorme.
Tempos depois, no cabaré, soube que ela estava casada e grávida.
Passaram-se cinqüenta anos.
Semana passada, vinha ele frajola e sacudido pelas lojas Amazonas Shopping quando abordado por senhora de idade.
— Lembra-se de mim?
— Não, disse ele. Não se lembrava.
Ela tirou um cartão da bolsa e deu para ele:
— Eu sou a Conceição... — e desapareceu na massa.
No dia seguinte, viu que tinha perdido o número.
Outra vez.
quarta-feira, 3 de outubro de 2007
fala inicial
No primeiro verso: "Não posso / mover / meus passos", há sete sílabas, com três tônicas: PO / VER / PAS — e marcam a sucessão de tônicas e átonas, compassada sucessão dos iniciais passos do "Romanceiro da Inconfidência", de Cecília Meireles.
Mas já que o Romanceiro começa por um "não" — "não" de "não posso", ou seja, "não" de interdição, do Interdito, do Proibido, do Negado, "não" da "morte e destruição", daquela revolução que se perdeu, trágica, "que transita sobre angústias".
Quem diz, no início: "não posso", numa introdução negativa, negada, invertida, inversa — diz também "não entrarás, ó leitor", e/ou "não vou ser capaz de fazer", ó poeta. É a anti-proposição, do Romanceiro.
Não, não posso entender o que aconteceu, naquele labirinto da História, onde o Brasil é esquecido, nó cego, morto, apagado, não da memória daquela estória de amores e de ódios. Não, não compreendo eu, o que estava acontecendo, naquele vinte e um de abril, no instante de lá, a terra está confusa, no ar sinto sinos, na boca ouço "o roçar das rezas", na pele me arrepia a morte, ao ouvir a condenação, a culpa, o degredo, o Não.
Não posso mover meus passos
por êsse atroz labirinto
de esquecimento e cegueira
em que amôres e ódios vão:
— pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;
Mas vejo, e já pressinto, a masmorra, a sombra, o carcereiro que transita pisando angústias com o coração fechado, as altas madeiras do cadafalso, a morte pública, o pasmo da multidão.
O poema todo é acompanhado pela batida sincopada de um "ÃO", - ão! – ão! – ão! — que se repete, com a regularidade da marcha fúnebre, cadavérica, do bater de pesados, soturnos sinos, funerários: vão, condenação, coração, multidão, oração, proclamação etc. até o fim, com o fim mortal "eterna escuridão".
— avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
— descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.
O próximo verso é magistral: "batem patas de cavalos". Por quê digo magistral? Primeiro, pelas consoantes que batem: o "b", o "p", o "t", o "k" (de cavalos) — todas batem naqueles cinco "aa" – ba – pa – ca – va ---- de tal modo que quase é possível, com certa imaginação sonora, ouvir as patas dos cavalos batendo nas calçadas, nas pedras daquelas ruas de Vila Rica, no dia vinte e um de abril de 1789, cavalos dos soldados da morte, cavalos signos masculinos do poder de vida e morte.
Ah, aliás todo o poema é sonoro: dá para "ouvir" o bater dos sinos, o sussurrar das rezas, o tilintar das chaves, as patas dos cavalos, a voz do Brigadeiro... — aquilo fala da desgraça, das vozes daquele fatídico dia.
Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
— já louca e fora do trono
na sua proclamação.
Ali, o poema cai na "cova do tempo". Lá, as "intrigas de ouro e de sonho" se confundiram sinistramente com a condenação e a morte. Ali, se misturam "quem ordena, julga e pune" com "quem é culpado e inocente". Lá, a "tinta das sentenças" e "o sangue dos enforcados" morrem no mesmo pântano lúgubre e terrível. Ali, "o castigo e o perdão" caem na mesma cova. Lá, confundem-se "liras, espadas e cruzes". E ali no mesmo vão obscuro, "as palavras, o secreto pensamento, as coroas e os machados, mentira e verdade estão". Lá os "ossos, nomes, letras, poeira...". Sim, rostos, almas, herdeiros, rastros — o mundo está no mesmo chão do esquecimento.
Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão...
Você sabe o que é "muros sem eco"? Muros sem fala, nem eco? Muros dos presídios amargos e escuros? Presídios de solidão vasta e padecer?
Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta a nossa aflição.
Choramos êsse mistério,
êsse esquema sôbre-humano,
a força, o jôgo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.
Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!
No alto da praça principal de Ouro Preto há estátua de mulher que sorri, no cimo do prédio onde é hoje o Museu da Inconfidência, mas que era Cadeia: um museu da tortura (tão próprio nesse país), a Casa do Poder Repressivo, na época da Inconfidência, sim, há uma estátua, e ela representa a justiça, ela é mulher com afiada e pontiaguda faca, espada na mão, espada que aponta o espaço, lá onde se pode imaginar o vão do ventre de um ser humano, espada fina, na ameaçadora mão, da Justiça, que ri, que sorri, que perigosamente sorri, de prazer, de gozo, sorriso do mistério, nunca desvendado, sorriso das lendas mortas, das silenciosas vertentes, das falas, dos mitos, da substância inexplicável das correntes escuras da escravidão, sorriso da morte, do escuro destino, da sombra da Noite, da destruição das vidas e dos amores, de amadas, de poetas, de ouro, de diamantes, daquele esquema ultramarítimo da espoliação capitalista, da força da devassa, do santo inquérito, do cadafalso, da tortura, das masmorras de pedra, do esquartejamento, do ouro!
terça-feira, 2 de outubro de 2007

FOTOGRAFIA
Rogel Samuel
Foi num sebo novo, aonde nunca tinha ido. No Catete. Em frente aqueles
prédios da Primeira República. Em frente ao Palácio. Aquele palácio
tinha sido a casa do Barão de Nova Friburgo, que tinha fazendas de café.
Em Nova Friburgo visitei, também, sua casa. Num parque belíssimo. No
sebo encontrei uma pilha de revistas "Fotoarte". Era uma revista
dirigida por Francisco Aszmann, um dos maiores fotógrafos do mundo de
sua época. Um dos mais premiados no mundo inteiro. Ele foi meu professor
de fotografia, e muito do que eu (pouco) sei de como ver um quadro se
deve a ele. Eu comecei a buscar o que procurava: a fotografia "Bois",
que eu já conhecia, e que sabia que estava num daqueles números. Eu
conhecia detalhes da foto, e de como Aszmann a tirara. Ele contara numa
das aulas que tinha ficado horas à espera da manada que entrava numa
estreita ponte. Tirou a foto e pulou da ponte pela ribanceira de dez
metros, na Hungria. A foto ficou anos esquecida, porque o boi da direita
estava ligeiramente desfocado: um crime para os padrões estéticos
daquela época. Mas em 194....., o conceito mudou e Aszmann pode ganhar
todos o títulos com uma única foto. Um dia eu ganhei um prêmio de
fotografia. Era uma competição coletiva, na ABAF, no Rio. Eu lecionava
no subúrbio carioca e tomava o trem, pela manhã. Ia com a câmera. Eu só
andava com ela. A tiracolo. Em plena Central do Brasil comecei a
fotografar uns garotos de rua, com tele-objetiva. Um deles tinha um
tampão branco, no olho, de esparadrapo. Quando revelei a foto, a criança
aparecia angustiada, atrás de uma monstruosa coluna (que na realidade
era um vão do prédio da Central), e por trás estava, desfocado, o grande
edifício do Quartel Geral das Forças Armadas. Ameaçador. Não deu outra:
tirei o primeiro prêmio - estávamos em plena ditadura militar, e aquele
menino sujo esmagado num canto virou o maior símbolo. Minha foto fez
sucesso. Mas eu a perdi, pois era um diapositivo colorido. Aprendi com
Aszmann, o menino estava no "ponto ouro" do quadro
(o canto inferior esquerdo). O Brasil, que hoje tem Sebastião Salgado,
já teve Francisco Aszmann, o professor. Abandonei quase completamente a
fotografia, hoje. Talvez porque se tornou uma arte cara. Mas
principalmente porque já não tenho tempo nem laboratório em casa.
Fazíamos em casa as fotos em preto-e-branco. Um dia, talvez, vou partir
para a foto digital.
domingo, 16 de setembro de 2007
sábado, 15 de setembro de 2007
OVIDIO: METAMORFOSES
OVIDIO: METAMORFOSES
Trad. livre R. Samuel
A MINHA ALMA CANTA
AS FORMAS TRANSFORMADAS EM OUTRAS FORMAS.
Ó DEUSES, INSPIRAI-ME!
POIS NÃO FOSTES VÓS, POR CERTO,
QUEM AS TRANSFORMOU?
MINHA OBRA E MEU CANTO
CONDUZI, ININTERRUPTO,
DESDE AS PRIMEIRAS ORIGENS
DESTE MUNDO
ATÉ A NOSSA ÉPOCA ATUAL.
Antes do mar, antes da terra e do céu
que tudo cobre
um só era o todo desta natureza
a que chamamos Caos,
massa rudimentar massa informe.
Nada senão seu próprio peso
sim, as coisas semeadas em discordes
montes, amontoadas sem nenhum ajuntamento.
Pois nenhum filho do Céu e da Terra
dava luz ao mundo. Nem Febo no horizonte
no nascente
reconstruía seus chifres,
nem a terra pendia do ar
que a envolvia em sustentáculo
vazio, em seu próprio peso,
nem mesmo a querida Anfitrite
(a virgem) estendia
seus braços pelos limites
daquelas terras.
Onde quer que houvesse o piso da terra
ali também havia o mar, havia o ar.
A terra instável, a onda inábil, o ar
privado daquela luminosidade.
Nada ali permanecia como era,
em sua forma própria, e uma coisa
se chocava às outras porque
num só corpo o frio lutava contra
o quente, o úmido com o seco,
o mole com o duro, o pesado
contra o sem peso algum.
Trad. livre R. Samuel
A MINHA ALMA CANTA
AS FORMAS TRANSFORMADAS EM OUTRAS FORMAS.
Ó DEUSES, INSPIRAI-ME!
POIS NÃO FOSTES VÓS, POR CERTO,
QUEM AS TRANSFORMOU?
MINHA OBRA E MEU CANTO
CONDUZI, ININTERRUPTO,
DESDE AS PRIMEIRAS ORIGENS
DESTE MUNDO
ATÉ A NOSSA ÉPOCA ATUAL.
Antes do mar, antes da terra e do céu
que tudo cobre
um só era o todo desta natureza
a que chamamos Caos,
massa rudimentar massa informe.
Nada senão seu próprio peso
sim, as coisas semeadas em discordes
montes, amontoadas sem nenhum ajuntamento.
Pois nenhum filho do Céu e da Terra
dava luz ao mundo. Nem Febo no horizonte
no nascente
reconstruía seus chifres,
nem a terra pendia do ar
que a envolvia em sustentáculo
vazio, em seu próprio peso,
nem mesmo a querida Anfitrite
(a virgem) estendia
seus braços pelos limites
daquelas terras.
Onde quer que houvesse o piso da terra
ali também havia o mar, havia o ar.
A terra instável, a onda inábil, o ar
privado daquela luminosidade.
Nada ali permanecia como era,
em sua forma própria, e uma coisa
se chocava às outras porque
num só corpo o frio lutava contra
o quente, o úmido com o seco,
o mole com o duro, o pesado
contra o sem peso algum.
terça-feira, 11 de setembro de 2007
POEMAS DE BOURNEMOUTH
e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.
(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)
os dias se arrastam, lentos
as noite se sucedem, escuras
e frias
neste quarto de hotel.
muitas vezes pensei em sair
em ver o mar na noite fria,
mas me recolho cedo
encapsulado
em recordações
o mundo não está
nem lá fora
nem aqui dentro
o mundo não está
(Bournemouth, UK, 15 de agosto de 2007)
à medida que envelheço
vou ficando
como minha avó
à medida que envelheço
mais vou tendo
minha avó no espelho
(Bournemouth, UK, 14 de agosto de 2007)
todas as coisas se parecem contigo
[passo a ver-te em cada dobrada lua]
nada me afastará de ti, pois estás em todas as coisas
onde o olhar
onde há olhar
onde olhar
ver quero ver-te
mas só consigo ouvir-te
há uma canção que me embala
e me adormece
não te tenho perto
tão perto
nem durmo contigo
mas não faz falta
o amor se espraia para sempre
no ar
(Bournemouth, UK, 13 de agosto de 2007,
às 21:20).
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.
(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)
os dias se arrastam, lentos
as noite se sucedem, escuras
e frias
neste quarto de hotel.
muitas vezes pensei em sair
em ver o mar na noite fria,
mas me recolho cedo
encapsulado
em recordações
o mundo não está
nem lá fora
nem aqui dentro
o mundo não está
(Bournemouth, UK, 15 de agosto de 2007)
à medida que envelheço
vou ficando
como minha avó
à medida que envelheço
mais vou tendo
minha avó no espelho
(Bournemouth, UK, 14 de agosto de 2007)
todas as coisas se parecem contigo
[passo a ver-te em cada dobrada lua]
nada me afastará de ti, pois estás em todas as coisas
onde o olhar
onde há olhar
onde olhar
ver quero ver-te
mas só consigo ouvir-te
há uma canção que me embala
e me adormece
não te tenho perto
tão perto
nem durmo contigo
mas não faz falta
o amor se espraia para sempre
no ar
(Bournemouth, UK, 13 de agosto de 2007,
às 21:20).
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
segunda-feira, 3 de setembro de 2007
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
segunda-feira, 20 de agosto de 2007
domingo, 19 de agosto de 2007
e eu bebo veneno pelos olhos
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.
(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)
quando vejo a tua forma de partir
que ela se torna numa larva preta
a espuma do mar fervente em cada mão
o desiderato rumo dessa casa feita
a linha errada em cada palma, o não
estarmos à roda desfibrada estreita
limita o mar que nos fareja o cão.
distúrbio funcional, minha malignidade
espectro desse quarto quando um morto
vagueava entre vivos a nos aterrorizar
humores, forma aquosa, vítrea,
e cristalina capa de estampadas letras.
eras superfície, punção, a gata morta
no leva e traz das ondas da maré
marco divisório de teus passos.
(Bournemouth, UK, 19 de agosto de 2007)
sábado, 18 de agosto de 2007
A ARTE
Théophile Gautier
(1811-72)
(Trad. Mário Faustino)
Sim, a obra sai mais bela de uma forma rebelde ao lavor: verso,
mármore, ônix, esmalte.
Nada de apertos forçados! Mas se queres marchar ereta, calça,
Musa, um coturno estreito.
Abaixo o ritmo cômodo, calçado frouxo onde qualquer pé entra e sai!
Repele, escultor, a argila que o polegar amassa - enquanto o
espírito paira ao longe;
Luta com o carrara, com o paros duro e raro, guardiães do puro
contorno;
Usa de Siracusa o bronze onde se mostra firme o traço altivo, o
traço encantador;
Com mão delicada pesquisa o perfil de Apolo num filão de ágata.
Pintor, evita a aquarela, fixa a cor demasiado frágil no forno do
esmaltador.
Pinta de azul as sereias, retorce de mil maneiras as caudas desses monstros de brasão;
Com sua auréola trilobada pinta a Virgem e seu Jesus, a cruz
encimando o globo.
Tudo passa. - Só a arte vigorosa é eterna. O busto sobrevive à
cidade.
E a medalha austera, que o lavrador encontra sob a terra, revela um imperador.
Os próprios deuses morrem. Mas os versos soberanos
permanecem, mais poderosos que os bronzes.
Esculpe, alisa, cinzela; fixa no bloco resistente teu sonho
fugitivo!
Théophile Gautier (1811-72)
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
quarta-feira, 15 de agosto de 2007
terça-feira, 14 de agosto de 2007
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
todas as coisas se parecem contigo
[passo a ver-te em cada dobrada lua]
nada me afastará de ti, pois estás em todas as coisas
onde o olhar
onde há olhar
onde olhar
ver quero ver-te
mas só consigo ouvir-te
há uma canção que me embala
e me adormece
não te tenho perto
tão perto
nem durmo contigo
mas não faz falta
o amor se espraia para sempre
no ar
(Bournemouth, UK, 13 de agosto de 2007,
às 21:20).
[passo a ver-te em cada dobrada lua]
nada me afastará de ti, pois estás em todas as coisas
onde o olhar
onde há olhar
onde olhar
ver quero ver-te
mas só consigo ouvir-te
há uma canção que me embala
e me adormece
não te tenho perto
tão perto
nem durmo contigo
mas não faz falta
o amor se espraia para sempre
no ar
(Bournemouth, UK, 13 de agosto de 2007,
às 21:20).
sábado, 11 de agosto de 2007
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
sábado, 4 de agosto de 2007
sexta-feira, 3 de agosto de 2007
domingo, 29 de julho de 2007
sábado, 28 de julho de 2007
sexta-feira, 27 de julho de 2007
quinta-feira, 26 de julho de 2007
quarta-feira, 25 de julho de 2007

que me aparto de vós, oh óleos
do Rio Negro. Das axilas
de coca-cola, de mel. Produto impuro
banho de esperma que ferve
pelas paquidérmicas chatas
vos deixo, oh mãe de orquídeas terra
régia fera guerra estéril e amorosa
e no longo corredor me enrosco
meu aeroplano tece
sobre vossas plastificadas canoas de ferro
goma arábica ungüento espesso
caboclo jovem mãe planície
negra magra seda
de vós finalmente me aparto
oh águas lixiviadas e menstruais
lembranças de ventres de tarântulas
de cristais
de vós me aparto para sempre!
esmorecido de vós, sucumbido
por vossa fênix, por vosso lenho
vos esqueço, oh pélvica morada
de mortos deuses, de profundos silos
e neste ar meu aeroplano tece
e é expelido pelas tuas pernas.
terça-feira, 24 de julho de 2007
A ESTRADA

A ESTRADA
Rogel Samuel
Da sinuosa estrada entre as montanhas verdes vem uma barreira horizontal. No alto, um céu brilha como um cristal fosco e imóvel. Estamos na Mantiqueira. E passamos a divisa dos Municípios de Delfim Moreira e Venceslau Brás. Os rios do Brasil estarão todos poluídos? Dia virá em que vamos ter falta de água potável. O Rio Sapucaí está ameaçado pelo lixo. Mas os bois, no grande pasto, parecem em paz. À margem, um caminhão tombado. É um gigante morto. Leio um poema de Guillén, traduzido por Thiago de Mello. As estrofes, os versos se embaralham na minha mente. Guillén, um dos poetas preferidos de certo aluno de literatura no Colégio Estadual. Eu já vinha lendo poesia desde que encontrei Camões num livro de primeiro grau:
Oh! lavradores bem-aventurados,
se conhecessem seu contentamento.
Aqueles versos cantam agora, vendo os bois no pasto. Até hoje ouço o compasso daqueles versos. A estrada sinuosa e verde continua. Um dia chegarei ao fim.
Mas o deserto está crescendo. Na serra da Mantiqueira, região de Piquete, desapareceram as florestas. As montanhas despontam, secas, nuas. Isso até parecia natural na Via Dutra, mas ali é novidade. Dali até o vale de Itajubá a devastação avançou em poucos meses. À direita da estrada pode-se ver um lixão às
margens do rio que vai cortar a cidade de Itajubá e onde poucos quilômetros abaixo crianças tomam banho e adolescentes nadam. De Itajubá até Poços de Caldas as antigas vilas se transformaram em cidades que, sem planejamento, estão plantadas no meio da planície deserta de avermelhado de barro. Na próxima grande chuva o rio que corta a cidade de Itajubá pode transbordar, entulhado. O nosso país caminha para um
desastre ecológico: o rios se transformaram em esgotos escuros, e os riachos se transformaram em valas negras. “O deserto está crescendo. Desventurado quem abriga desertos”.
Mas eu festejo solitariamente os 44 anos de minha poesia. O primeiro poema que publiquei na vida foi no dia 8 de fevereiro de l959 em O jornal de Manaus.
Não um poema de que me envergonhe de todo, afinal eu tinha 16 anos e aparecem versos até razoáveis como:
o vento
o córrego entre as
montanhas
a lua líquida
sobre a superfície
Havia todos os lugares-comuns da tradição poética, ou seja, poetizando a "poesia" com todos os chavões conhecidos de que não me libertei até hoje.
Sim, festejo silenciosamente os 40 anos de minha poesia. Não escrevo isto com tristeza, mas até com certa vitória. Afinal, bem ou mal foram 40 anos de produção literária. Há quem não tenha tido nem isso de vida.
sábado, 21 de julho de 2007
WOODSTOK
Rogel Samuel
À noite, no meu quarto, leio poema de James Hopkins. Ele é poeta premiado americano, autor do livro “ eight pale women”, ganhou o prêmio “ Word works”, da cidade de Washington, conferido por este organização literária. Hopkins é um rapaz jovem, bonito, com longos cabelos. Conheci-o em Walden, New York. Ele me pede que escreva sobre seu livro, que é muito bom.
Naquele dia fui a Woodstook.
Estive lá recentemente duas vezes.
Na primeira vez chegamos ao anoitecer. Fomos diretos para o alto da montanha, onde nos esperava uma reunião. Quase não sentimos o lugar. Só sua atmosfera. Não da nostalgia, ou da memória do festival de música de 1969 – que não foi mesmo realizado lá – mas no ar havia algo daquele bom tempo dos hippies que fomos, dos cabelos compridos, das nossas sandálias, das nossas artes, das nossas almas puras.
Sim, porque éramos uma geração de jovens de almas puras, amávamos a música, as fotos, as histórias, a natureza. Não vivíamos, acampávamos neste mundo. Fomos ali, em Woodstock, para reencontrar-nos. Woodstock não era uma cidadezinha nas montanhas, mas um lugar no nosso coração. Vi, logo que cheguei, que não tínhamos ficado velhos, que ainda estávamos no jogo da vida, que ainda amávamos nossa jornada.
Na segunda vez fui mais cedo, na hora do almoço, a Woodstook.
Almoçamos em pequeno restaurante onde, à noite, havia música. Os dois garçons, jovens e andróginos, já eram de outra era. A cozinha excelente. Depois, com minhas duas amigas americanas, “fomos às compras”. Woodstok agora é um grande shopping. Particularmente, nada vi interessante. Mas gosto de shopping. O melhor foram as lojas de artigos orientais. Principalmente uma, chamada “Dharmaware”. Mas tudo muito caro, para nós, brasileiros. Entro num sebo. Nada vi, que me entusiasmasse. Um rapaz, na rua, tenta-me desesperadamente vender duas fitas cassetes usadas por dois dólares. Ele tem ansiedade nos olhos, tem pressa. Arrependo-me de não ter comprado, ainda que desconfie por que ou de que ele precisa, ou por isso mesmo.
Num supermercado comprei uma caneta, que tenho usado até hoje. É um modelo antigo, de aço inoxidável. Gosto de canetas, já tive uma boa coleção. A maioria de pena. Mas hoje só consigo escrever no computador.
Faz calor, em Woodstock. Sinto-me cansado, desanimado. Estou perdendo o interesse, o gosto pelas coisas. Woodstock sem o clima místico de paz, de amor dos anos sessenta. Estamos na era Bush. “Os nossos ídolos morreram de overdose”. Já não somos os mesmos.
À noite, no meu quarto, leio um poema de James Hopkins. O poema diz, mais ou menos assim, que traduzo: “ trate \ os fantasmas \ do quase-passado \ com um pouco mais de respeito -- \ aquelas vaporosas pistas que derivam dos parques \ aproveitam as ruas \ em segredo. \ o tremor \ apenas \ no vértice \ da escuridão \ quando o vermelho \ escorreu do céu. \ a sombra que pisca \ no canto de seu olho \ antes da noite \ engolir \ a lua”.
Fecho o livro, a luz da cabeceira. Fecho os olhos. Adormeço. Rondam os fantasmas da noite.
Rogel Samuel
À noite, no meu quarto, leio poema de James Hopkins. Ele é poeta premiado americano, autor do livro “ eight pale women”, ganhou o prêmio “ Word works”, da cidade de Washington, conferido por este organização literária. Hopkins é um rapaz jovem, bonito, com longos cabelos. Conheci-o em Walden, New York. Ele me pede que escreva sobre seu livro, que é muito bom.
Naquele dia fui a Woodstook.
Estive lá recentemente duas vezes.
Na primeira vez chegamos ao anoitecer. Fomos diretos para o alto da montanha, onde nos esperava uma reunião. Quase não sentimos o lugar. Só sua atmosfera. Não da nostalgia, ou da memória do festival de música de 1969 – que não foi mesmo realizado lá – mas no ar havia algo daquele bom tempo dos hippies que fomos, dos cabelos compridos, das nossas sandálias, das nossas artes, das nossas almas puras.
Sim, porque éramos uma geração de jovens de almas puras, amávamos a música, as fotos, as histórias, a natureza. Não vivíamos, acampávamos neste mundo. Fomos ali, em Woodstock, para reencontrar-nos. Woodstock não era uma cidadezinha nas montanhas, mas um lugar no nosso coração. Vi, logo que cheguei, que não tínhamos ficado velhos, que ainda estávamos no jogo da vida, que ainda amávamos nossa jornada.
Na segunda vez fui mais cedo, na hora do almoço, a Woodstook.
Almoçamos em pequeno restaurante onde, à noite, havia música. Os dois garçons, jovens e andróginos, já eram de outra era. A cozinha excelente. Depois, com minhas duas amigas americanas, “fomos às compras”. Woodstok agora é um grande shopping. Particularmente, nada vi interessante. Mas gosto de shopping. O melhor foram as lojas de artigos orientais. Principalmente uma, chamada “Dharmaware”. Mas tudo muito caro, para nós, brasileiros. Entro num sebo. Nada vi, que me entusiasmasse. Um rapaz, na rua, tenta-me desesperadamente vender duas fitas cassetes usadas por dois dólares. Ele tem ansiedade nos olhos, tem pressa. Arrependo-me de não ter comprado, ainda que desconfie por que ou de que ele precisa, ou por isso mesmo.
Num supermercado comprei uma caneta, que tenho usado até hoje. É um modelo antigo, de aço inoxidável. Gosto de canetas, já tive uma boa coleção. A maioria de pena. Mas hoje só consigo escrever no computador.
Faz calor, em Woodstock. Sinto-me cansado, desanimado. Estou perdendo o interesse, o gosto pelas coisas. Woodstock sem o clima místico de paz, de amor dos anos sessenta. Estamos na era Bush. “Os nossos ídolos morreram de overdose”. Já não somos os mesmos.
À noite, no meu quarto, leio um poema de James Hopkins. O poema diz, mais ou menos assim, que traduzo: “ trate \ os fantasmas \ do quase-passado \ com um pouco mais de respeito -- \ aquelas vaporosas pistas que derivam dos parques \ aproveitam as ruas \ em segredo. \ o tremor \ apenas \ no vértice \ da escuridão \ quando o vermelho \ escorreu do céu. \ a sombra que pisca \ no canto de seu olho \ antes da noite \ engolir \ a lua”.
Fecho o livro, a luz da cabeceira. Fecho os olhos. Adormeço. Rondam os fantasmas da noite.
quarta-feira, 18 de julho de 2007

Canto dois
Rogel Samuel
Sucede que assentou num banco de pedra
com todo pedantismo que de sempre
lhe era familiar. Naquela praça distante
ficava a esperar e a pensar
- mas o que estava esperando senão morte
neste ponto nem via que por ali
poderiam encontrá-lo. As lanternas
que partiam iluminavam-no violentamente
de vermelho. E ele espera calado
com suaves sentimentos depressivos
havia andado tanto depois de ter fugido
que atrás dele no largo da praça estariam
mas ele nada mais queria fazer. As crianças
corriam gritos pela noite. Morna e plácida
provinciana geografia, geometria mortal
irmã do sonho. Dois velhos caminhavam pelas
sombras da noite, cada um com seu embrulho.
Ele estava bem, ali. E até poderia
dormir sob os faróis dos carros que cruzavam
o que sentia. Em breve, porém, ficou sentindo
um gosto mole de aço e de azedume
como se o vento que vinha sobre ele reto
pudesse lhe cavar um fosso dentro
Às vezes algumas lembranças familiares
o levavam num passeio da imaginação
e era como se sua mãe, tia e sobrinha
dissessem ser agradável viver ali
e de pensar naquelas pessoas ternas
não havia os tais carros e seus sistemas.
O pregador e seu dilema. Um viver que o sustenta,
circunda, pega, o põe indiferente.
Ele nada mais via naquele fundo
tudo que estava, tudo que faltava estava ali.
A noite que o circunda nas vidraças
altas prolongava aquela letargia e acomodação.
Era tempo. Pois no dia em que almoçaram juntos
havia muito sol. Depois do almoço
andaram até a margem, a praia onde estavam
sempre. Havia um vento, uma frescura quase fria,
e o gosto na boca era de pomar
Todas as reverberações no tanque
além do gradil de ferro ofuscava por momentos
O mundo enquadrado estava claramente
limpo, sadio, em sossego. Ele tomava
de algo no bolso e começava por alguns instantes
a brincar. E o metálico do papel
que o envolvia riscava o céu de diamantes
Mas o sabor era excelente, a dissolução
lenta, excitante. Salivava. Estava alegre
de estar sentindo. Havia pássaros descendo.
Os edifícios agora na manhã
espelhos de fantásticas vitrines. A camisa
aberta com suas asas desarticuladas
exibindo o ventre arqueado. Ele tinha naquele
instante a silhueta mais de pássaro do que
do pobre rato e, descendo a vista poder-
se-ia ver a sua forte carnação. E desde o pescoço
sólido até as pernas, tesas, tensas, quase tortas
o seu corpo se contorcia e se deslocava
numa dança que andava. Tudo viu. Andou
sem jeito até bem perto do vidro. E um grupo
de turistas passava. Alegres e por detrás
no fundo da imagem. Alegres, falavam, não
o viam, nenhum deles. Sua presença era dureza
e aridez. E tendo visto saiu assombrado
da marquise, da rua com seus gritos com
seus giros e para lá se dirigiu, seus passos
sobre a calçava levavam, vagava
Um bar fechava as portas. A noite
era dos afastados lampiões que se apagavam
e uma leitosa névoa cinza anunciava
a madrugada. Seus sapatos molhados
seus olhos molhados. Na mecânica
da tristeza de andar, sem atinar, sem saber para quê.
Procurava e ter para onde vir não, não mais
chorava estava diante da nobre descoberta
passara sombra futuro deixava
inquietar pelo menos durante aquele
tempo mas como se mudava alternava era
possível que em breve nova orda deprimente
o tomaria como uma agitação nervosa
angustiante ele fugia e na realidade
procurava andava atrás da fuga era
possível que soubesse e dele era o que
não tinha bem certeza o perseguiam
hoje mesmo o pensava a fuga era uma
engrenagem necessária e exercera
como o que tentava alcançar e não sabia
e o alcançava rodeando aquela parte daquela
cidade perigosa das pessoas cujas portas
franqueavam sem que pudesse regressar
sensação de que tudo estava excluído para
quando entrou experimentou logo
a solidão daquele espaço vazio
atravessando a área descobriu no outro
o lado o disfarce a saída que apontava
e uma estrada que partia sempre
e ninguém passava por aquela estrada só
os inúteis os demônios inúteis o fundo descortinava
o vale as grandes montanhas além
morcegos de vento passavam por ali idos
musguentos com estrídulos chiados estilhaços
quebravam o ar com seus gritos suas
negrinhas asas cobrindo o sol a lua estrelas.
e ouvir o trinar grave e reto
de certas aves ocultas travo rouco baixo e grave
monstro e seu arquejar forte seu resfolegar
abrindo um túnel de torpor e medo as abas da morte
se abrindo par em par e rolando aquela parte
se postou para frente oh estrada! quando vinha
soturno a triste impressão que navegava
a luz da morte seus faróis aquela parte
obscura e perdida onde ocorria tudo
chamado vento sangue não
terça-feira, 17 de julho de 2007
A espada das mão vazias
Rogel Samuel
Fernando Pessoa é perfeito. Em tudo o que fez. Leio «O guardador de rebanhos», a sua técnica de meditação. Na melhor tradição dos mestres Zen, ele diz: sou um pastor de pensamentos.
«Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
«Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.»
Reúne ele os pensamentos como um pastor suas ovelhas. Para que não se percam. Não se extraviem. Não divaguem. Não delirem. Reúne suas ovelhas dentro de si. É o que o Zen diz: «Viver dentro da casa». Dentro da casa é dentro de si. « Permanecer como se é, estar completo em si mesmo ... cada manhã é uma boa manhã, cada dia um lindo dia, não importa a tormenta que esteja desabando... » (Suzuki, «Viver através do Zen»).
Diz Suzuki que o poeta Hakuin (1685-1768) explica aquilo assim:
«As formigas vagarosas lutam para carregar as asas de uma libélula morta;
As andorinhas da primavera pousam lado a lado num ramo de salgueiro;
As fêmeas dos bichos-da-seda, pálidas e cansadas, ficam imóveis segurando as cestas repletas de folhas de amora;
Os garotos da vila são vistos com rebentos de bambu roubados arrastando-se através das cercas quebradas.»
Mas não é para ser compreendido! Se for compreendido, terá outro sentido. Nossas experiências diárias «são de fato experiências do Zen, mas não conseguimos reconhecer isso porque nós, como seres intelectuais, perdemos algo que nos permitia entender o significado».
Que perdemos? Perdemos a beleza. A claridade. Não vemos a beleza dos pássaros no céu, as flores na terra. A luz sobre a montanha, as sombras estreladas da noite.
A vida em si é beleza, algo misterioso. Escapa à compreensão intelectual.
Sotoba, um dos poetas da dinastia Sung, escreveu:
«A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang;
Quando ainda não se esteve lá
Muita mágoa se possui;
Mas uma vez lá e para casa se encaminhando,
Quantas coisas prosaicas se observa!
A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang.»
[Suzuki, «Essays in Zen Buddhism», I, p. 22.]
«Não há nada especial»: O mesmo velho mundo... e não obstante deve haver algo novo e belo na nossa consciência, pois de outra forma não se poderia dizer: "Está tudo o mesmo".
Uma grande mudança, uma grande iluminação teve lugar. Mas tudo está o mesmo.
Por isso um monge jardineiro aproximou-se certa vez do mestre e manifestou-lhe o desejo de ser iluminado no Zen. O mestre disse: «Venha novamente quando não houver ninguém por perto». No dia seguinte, o monge observou que não havia ninguém perto e implorou-lhe para revelar o segredo. Disse o mestre: "Aproxime-se mais de mim". O monge chegou mais perto dele. Disse então o mestre: "O Zen é algo que não pode ser transmitido por palavras".
Algum segredo foi revelado? Sim, o sol brilha no luminoso dia. E ele está alegre e feliz.
Pessoa reúne seus pensamentos como um jogador reúne suas cartas de baralho. São os pensamentos-realidade, pensamentos-pedras.
Desconfia das aparências, das ilações. O Ser só existe quando se torna consciente de si mesmo, diz Suzuki. Mantêm-se na arte da atenção, da presença. Quando ver, ver. Quando ouvir, somente ouvir. Não sair. A distração, para o mestre Zen, é a morte. Como para o lutador de espadas. A alegria, a felicidade está no momento presente, no fragmento presente.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
O passado é um cadáver morto e podre, o futuro é ilusão e desconhecido. Passado e futuro trazem confusão mental, sofrimento. Se me deixo na confusão de minhas ilusões fico perdido e em perigo, como quem escala a montanha. Ver é ver, pensar é pensar. Cada um de cada vez. Ver e pensar ao mesmo tempo é a loucura burra das fantasias irreais. Uma realidade só se dá única. Ver e estar consciente de que estou vendo, pensar e estar consciente de que estou pensando. Um guardador de rebanhos.
É por isso que digo que Pessoa era perfeito, em tudo o que fazia, que fechava os olhos e deitava na relva. Pleno. Na rainha das meditações, a realidade plena. Plenamente alcançada. Desperto. Livre.
Como diz o Zen: «Seguro uma espada em minhas mãos e fico com as mãos vazias».
Rogel Samuel
Fernando Pessoa é perfeito. Em tudo o que fez. Leio «O guardador de rebanhos», a sua técnica de meditação. Na melhor tradição dos mestres Zen, ele diz: sou um pastor de pensamentos.
«Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
«Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.»
Reúne ele os pensamentos como um pastor suas ovelhas. Para que não se percam. Não se extraviem. Não divaguem. Não delirem. Reúne suas ovelhas dentro de si. É o que o Zen diz: «Viver dentro da casa». Dentro da casa é dentro de si. « Permanecer como se é, estar completo em si mesmo ... cada manhã é uma boa manhã, cada dia um lindo dia, não importa a tormenta que esteja desabando... » (Suzuki, «Viver através do Zen»).
Diz Suzuki que o poeta Hakuin (1685-1768) explica aquilo assim:
«As formigas vagarosas lutam para carregar as asas de uma libélula morta;
As andorinhas da primavera pousam lado a lado num ramo de salgueiro;
As fêmeas dos bichos-da-seda, pálidas e cansadas, ficam imóveis segurando as cestas repletas de folhas de amora;
Os garotos da vila são vistos com rebentos de bambu roubados arrastando-se através das cercas quebradas.»
Mas não é para ser compreendido! Se for compreendido, terá outro sentido. Nossas experiências diárias «são de fato experiências do Zen, mas não conseguimos reconhecer isso porque nós, como seres intelectuais, perdemos algo que nos permitia entender o significado».
Que perdemos? Perdemos a beleza. A claridade. Não vemos a beleza dos pássaros no céu, as flores na terra. A luz sobre a montanha, as sombras estreladas da noite.
A vida em si é beleza, algo misterioso. Escapa à compreensão intelectual.
Sotoba, um dos poetas da dinastia Sung, escreveu:
«A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang;
Quando ainda não se esteve lá
Muita mágoa se possui;
Mas uma vez lá e para casa se encaminhando,
Quantas coisas prosaicas se observa!
A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang.»
[Suzuki, «Essays in Zen Buddhism», I, p. 22.]
«Não há nada especial»: O mesmo velho mundo... e não obstante deve haver algo novo e belo na nossa consciência, pois de outra forma não se poderia dizer: "Está tudo o mesmo".
Uma grande mudança, uma grande iluminação teve lugar. Mas tudo está o mesmo.
Por isso um monge jardineiro aproximou-se certa vez do mestre e manifestou-lhe o desejo de ser iluminado no Zen. O mestre disse: «Venha novamente quando não houver ninguém por perto». No dia seguinte, o monge observou que não havia ninguém perto e implorou-lhe para revelar o segredo. Disse o mestre: "Aproxime-se mais de mim". O monge chegou mais perto dele. Disse então o mestre: "O Zen é algo que não pode ser transmitido por palavras".
Algum segredo foi revelado? Sim, o sol brilha no luminoso dia. E ele está alegre e feliz.
Pessoa reúne seus pensamentos como um jogador reúne suas cartas de baralho. São os pensamentos-realidade, pensamentos-pedras.
Desconfia das aparências, das ilações. O Ser só existe quando se torna consciente de si mesmo, diz Suzuki. Mantêm-se na arte da atenção, da presença. Quando ver, ver. Quando ouvir, somente ouvir. Não sair. A distração, para o mestre Zen, é a morte. Como para o lutador de espadas. A alegria, a felicidade está no momento presente, no fragmento presente.
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
O passado é um cadáver morto e podre, o futuro é ilusão e desconhecido. Passado e futuro trazem confusão mental, sofrimento. Se me deixo na confusão de minhas ilusões fico perdido e em perigo, como quem escala a montanha. Ver é ver, pensar é pensar. Cada um de cada vez. Ver e pensar ao mesmo tempo é a loucura burra das fantasias irreais. Uma realidade só se dá única. Ver e estar consciente de que estou vendo, pensar e estar consciente de que estou pensando. Um guardador de rebanhos.
É por isso que digo que Pessoa era perfeito, em tudo o que fazia, que fechava os olhos e deitava na relva. Pleno. Na rainha das meditações, a realidade plena. Plenamente alcançada. Desperto. Livre.
Como diz o Zen: «Seguro uma espada em minhas mãos e fico com as mãos vazias».
segunda-feira, 16 de julho de 2007
LUZ DE MAIO
Rogel Samuel
Você conhece a luz dos dias de maio? Já viu o céu e aquela luz filtrada em transparência luminosa, aquela luz azul, radiantemente azul, de um azul tão alto, tão nobre, tão vasto? Sabe de que é feito aquela imensa luz do universo em festa? Sabe de como tudo se transmuda em cristais de límpido brilho dos pequenos córregos que caem das altas montanhas como crianças bailarinas e jóias lantejoulas? E sobre as cidades como sobre os campos a luz de maio deita seu limo de íris e de poesia irisada. Já ouviu a música da luz de maio? A "rosa de maio", os lúcidos arpejos dessa temporada em que amamos e em que nosso espírito dança? Pois merecemos viver o mês de maio e suas fragrâncias, nos sagrados bosques de nossas florestas interiores e nos recolhimentos de nossos sonhos renovados...
A visão do mar me lembra uns versos de Valery:
"Que lavor puro de brilhos consome
"Tanto diamante de indistinta espuma
"E quanta paz parece conceber-se!
"Quando repousa sobre o abismo um sol,
"Límpidas obras de uma eterna causa
"Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria.
Valery escreveu esses versos no longo poema "Cemitério marinho", tão difícil de compreender, mas tão fácil de amar, de sentir. Mas creio que a "função" do poema é esta: a de ser sentido.
Terá a poesia alguma "função"? Precisa o poema ter certa compreensão intelectual?
"Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
"Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
"O meio-dia justo nele incende
"O mar, o mar recomeçando sempre.
"Oh, recompensa, após um pensamento,
"um longo olhar sobre a calma dos deuses!"
A tradução é de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia, que conheci na FNFi nos dias de estudante.
Olhar o mar é isso: ver a calma dos deuses, nas faiscações de pasta de prata. O mar acende seus pandeiros de prata, sua luz miraculosa azul.
"Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
"O sopro imenso abre e fecha meu livro,
"A vaga em pó saltar ousa das rochas!
"Voai páginas claras, deslumbradas!
"Rompei vagas, rompei contentes o
"Teto tranqüilo, onde bicavam velas!"
E eu fico pensando como é belo este Rio de Janeiro e como me sinto feliz em nele viver. Perigoso? Mas "viver é muito perigoso" já dizia, se não me engano, o jagunço Riobaldo Tatarana. Nós encontramos segurança onde? No céu, na terra, no fundo do oceano, no alto das montanhas, a morte é certa e a vida incerta.
Apesar de ser uma cidade muito grande, o ar tem estado limpo e as luzes do céu sem nuvens são azuis e profundas. O calor sumiu e uma temperatura agradável atravessa as ruas. Para ter paz no Rio de Janeiro basta não ler o noticiário, dar as costas à realidade das coisas, ouvir a música dos verdadeiros cariocas notáveis, como esta Clementina que ouço agora em surdina.
Conheci Clementina de Jesus no Teatro Casa Grande.
No meio do recital a eletricidade faltou mas ela não interrompeu o que cantava e acenderam umas velas no palco e tudo ficou muito mais bonito do que antes. Eu gosto de música "ao vivo", e para mim "música ao vivo" significa sem microfone. A microfonia altera a voz, prejudica. Gilberto Freyre só gostava de falar sem microfone em suas conferências.
Depois do show, encontrei Clementina sozinha na porta do teatro.
- Quer companhia? perguntei.
- Estou esperando quem vai me levar, me disse ela, com a sua voz de "mãe de santo", grave.
Estava linda, vestida de branco. Clementina era uma mulher belíssima. Não se encontra nas lojas de hoje um único disco de Clementina de Jesus, a grande dama, a diva do samba carioca.
'Tesouro estável, templo de Minerva,
"Massa de calma e nítida reserva,
"Água franzida, Olho que em ti escondes
"Tanto de sono sob um véu de chama,
"- Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
"Cume dourado de mil, telhas, Teto!"
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