segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A luz das coisas ocultas




A luz das coisas ocultas

Rogel Samuel


"Não existe a oposição noite e dia, passado e futuro. O sol e a lua brilham ao mesmo tempo. As coisas que não se vêem têm também a sua luz", escreveu Dugpa Rinpochê.

Estamos no mesmo tempo presente, onde passado e futuro se encontram e se manifestam. Os três tempos são um só, a vida só tem uma face: a presença, o instante presente. Não existe a oposição entre noite e dia, passado e futuro, sol e lua. Tudo está aí, ao mesmo tempo está aí, estamos ao mesmo tempo em vários lugares do mundo. Não há divisão entre eu e você, entre sujeito e objeto, entre isso e aquilo. Tudo é um só elemento, brilha na mesma luz, soa na mesma música, canta a mesma canção. O modo do mundo é sua unidade.

domingo, 6 de setembro de 2009

Khrisnamurti



Diz de Khrisnamurti, o filósofo indiano: "Ninguém pode aprisionar um homem livre. Podem arrancar-lhe os olhos, pô-lo no fundo da masmorra, mas interiormente ele é livre".

Como é isso? Que é a liberdade? Como medir o espaço da liberdade? É possível, a liberdade? Quem é livre não pode voltar à prisão nunca. Lá ele continua livre. O grande medo dos governos e das ditaduras é o homem livre. Ele está livre de crenças, de parâmetros, de conceitos, do seu próprio saber, da verdade, da religião, da moral, das marcas do passado.

Livre do passado, ele é livre de tudo, até livre de si mesmo, de seu conceito de "eu".

Livre do certo e do errado, da tradição e do erro, ele deve feito de luz, da luz da vacuidade, da luminosidade absoluta dos mil sóis.

Quem sabe como ele é?

A liberdade é invisível.

sábado, 5 de setembro de 2009

O sol do meio-dia


"O sol do meio-dia, na sua alegria, a sua apoteose, brilha para toda a gente. Distribui prodigamente as suas riquezas. Mantém-te no zénite da tua vida, e serás inesgotável, para ti e para os outros.

Não é necessário ter um domínio total de si, um conhecimento profundo do coração, para dar aos outros. O dom mantém-se na superfície dos lábios, ao virar de um gesto. É fácil de levar. Cresce na inocência e na luz. Partilhar, é multiplicar as ocasiões de felicidade.

A alegria não é uma paixão humana, violenta, que se instala por um breve instante e desaparece imediatamente. Ela é a sabedoria inerente ao ser humano, a luz do coração, o seu cintilar na vida de todos os dias" diz Dugpa Rinpochê.

Quem bem vive rindo brilha para toda a gente, distribui sua melhor riqueza, sua luz, sua felicidade, espalha e deixa um rastro perfumado de felicidade, de brilho.

Ele recomenda mantermo-nos no zênite de nossas vidas, ou seja, sempre no nosso clímax, para dar aos outros o nosso brilho e a nossa luz.

Essa luz se mantém no que os lábios dizem, na gestualidade.

A alegria não deve ser passageira, mas devemos aprender a mantê-la, é uma espécie de sabedoria humana.

Gosto desses textos.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Hollywood



Hollywood

Rogel Samuel

Certamente aqueles dias em que estive na bela casa de minha amiga Maíra foram dias felizes. Principalmente as praias, Malibu, e as outras. Foram 15 dias de farra. E Hollywood, que era bem perto, com suas belas calçadas com e sem fama, cheias de gente bonita e feliz. Jovens com carros esportes conversíveis, caríssimos, nos bares. Todo mundo parece muito rico, ali. Ou parecia. A vida luminosa, transparente. Subimos com Maíra até aquele letreiro "Hollywood", que fotografei. Éramos bons turistas, fazíamos tudo com alegria.

Até um templo budista visitamos, uma gompa gelugpa. Estava fechada, mas o encarregado abriu para que visitássemos.

Vida estranha, imagens vivas. Não, não se repetem.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Hollywood and Highland Center




H&H

Rogel Samuel


Hoje falo de um lugar, de um Shopping: o Hollywood and Highland Center, em Hollywood, onde fui várias vezes com minha amiga Maíra, que lá estava morando, e agora voltou para o Brasil.

Ele tem um enorme e horroroso Elefante. Uma estátua gigantesca, perto do Kodak Theatre.

O Elefante é o seu signo, e dispõe de um Cartão Elefante.

E tem um site, o
http://www.hollywoodandhighland.com/

Típico americano. Um hotel, o Renaissance Hollywood Hotel & Spa, com 640 apartamentos.

Por que lembrar daquele lugar? Por causa de um café, que lá não mais existe: o Café Mozart.

Certamente um café para ser lembrado, dentre o rol de cafés famosos: o Hard Rock Cafe, O Café de Flore, o Café de la Musique, O Café de la Paix...

Pequeno, aconchegante, íntimo, Maíra e eu conversamos naquele café nossas saudades do Brasil, e eu nunca me esqueci.

Assim também com Neuza Machado, no Café de Flore, numa noite de estrelas, em Paris.


Mente em paz


Mente em paz

Quando a mente está em paz
o mundo também está.
Nada é real, nada ausente,
nada se apega à realidade
nada se apega à vacuidade,
você não é santo ou sábio, apenas
alguém que completou o seu trabalho.


P'ang Yün (龐蘊 Hõ Un) (The Enlightened Heart 34)

É possível? O mundo é o reflexo do que eu penso. A paz é algo interno, e vacuidade, diz o poema. Nada se apega a realidade, nem a santidade nem a sabedoria, só a naturalidade. Quem é o iluminado? Apenas alguém "que completou o seu trabalho".

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O amor não tira nada


"O amor não tira nada. Dá." Dugpa Rimpochê resume o enorme Everest que é o amor a 6 palavras, sucinto, hermético, enigmático, mas tão claro, tão forte, tão elementar, que dá para escrever na sua superfície de translúcido cristal - o amor nada tira, nada subtrai, nada diminui, nada recusa, nada nega ou omite ou esconde ou trai - o amor nunca trai, que ama nunca trai o amante, nunca o nega, prefere morrer a negá-lo, como disse o Jesus: "Minha vida ninguém a pode tirar, eu espontaneamente a dou" -e isso é o amor em seu esplendor solar, movendo o sol e as outras estrelas.

sábado, 29 de agosto de 2009

Vontade de cantar


"Aprenda a olhar. A chave da felicidade está no olhar e no ouvir. Ouça o silêncio da paisagem do vale e das montanhas sem o pensamento, sem a rede do pensar. Quando não há “eu” nasce a felicidade, a luminosidade"(Lundrup Tashi).

Que é olhar? Como é olhar? Olhar é sair de si no objeto olhado. Ver a beleza o objeto, da luz, da cor, da montanha, do sol, da noite.

É difícil saber olhar, olhar sem pensamento, só olhar, sem julgar analisar pensar verbalizar.

Se vejo um ser belo e penso: "Que bela mulher!" já estou pensando, já não estou vendo.

A arte nos ensina a olhar. A pintura, a fotografia, a poesia.

Drummond escreveu:

“Bela
esta manhã sem carência de mito
e mel sorvido sem blasfêmia.
Bela
esta manhã ou outra possível
esta vida ou outra invenção
sem, na sombra, fantasmas.
Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.” —

Carlos Drummond de Andrade, “Novos poemas”, 1948.

A beleza não precisa de mito, invenção, fantasmas. A beleza não é “vista”, mas engolida. “Valvas, curvos pensamentos”, são as mulheres da praia, da praia de luz azul, completa. Ver é vontade de cantar, mas absoluta, “que me calo, repleto”.

“Ouça o silêncio da paisagem do vale e das montanhas sem o pensamento, sem a rede do pensar. Quando não há “eu” nasce a felicidade, a luminosidade".

(Imagem, "retrado do filho", Picasso, encontrado no Fingidor de Zemaria Pinto)

A velha casa e seus poemas

A meu poema "casa abandonada", o poeta Jefferson Bessa escreveu uma resposta:

casa abandonada (Rogel Samuel)


as janelas estavam assassinadas
assistiam a tudo
ao mar, às aves, à montanha
nunca mais fechadas
fecundas de vento
arrebatadas de sol
batidas pelo firmamento
e as janelas nunca mais se fecharam
porque não havia ninguém mais lá dentro
porque os poros da casa se abriram
às verdejantes trepadeiras
que cobriam todo passado


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Esta casa (Jefferson Bessa)

Esta casa é
O abrigo do poema.

E respiram estas paredes
A verde-planta do tempo.
Crescem por sobre a casa
O olhar presente do passado
De entre-ver nossas janelas
Que não se trancam mais.
Por lá não ter ninguém
É que elas me olham.
Por nenhuma noite mais
Fecharei minhas cortinas.

Este poema é
O abrigo desta casa.

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Minha resposta (Rogel Samuel)

Por lá não há mais ninguém
nesta casa abandonada
nem os fantasmas esguios
nem as fadas enamoradas
nem mendigos nem ninguém
mesmo o tempo por lá não encosta
mesmo as recordações se desfazem
as memórias as cansadas
naves da madrugada
cinzas do que passou
solidão das marés
esquecimento e silêncio



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Abandonar-se ao amor?

"Abandona-te ao amor, mesmo se não lhe conheceres a finalidade misteriosa. Libertar-te-á do teu medo e cobrirá de sol todos os teus actos" (Dugpa Rinpochê).

Abandonar-se ao amor? Que é o amor? Que coisa é o amor? De que está falando Dugpa Rinpochê? Do amor ou da aceitação do amor? Do amor? Da aceitação em si? O que é aceitar aquilo que é senão abandonar-se? Vejo uma flor e a aceito bela, isto é amor? O amor nos liberta do medo? Medo de quê? Por quê? O que é o medo?

Parece que nada disso tem palavra, tem resposta. Eu pelo menos não o sei. Quem sou eu para saber o que é o amor, o medo?

Lembro-me de "Amor e medo", de Casimiro de Abreu, poeta de minha predileção.

Amor e Medo

Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"

Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas! ...

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rir da desgraça?

"É bom manter o otimismo, aprendendo a rir até da própria desgraça. Não há desgraça que sobreviva a uma boa gargalhada. "Sempre poderia ser pior"(Lundrup Tashi).

Rir da desgraça? Rir, ironizar a dor, mantendo o otimismo?

Diz um provérbio tibetano: "Se o problema tem solução, para que se preocupar? Se o problema não tem solução, para que se preocupar?

O tibetanos aprenderam a sorrir. Em Katmandhu, você vai andando por uma rua de Bhoudanath, reduto tibetano, e as pessoas abrem um largo sorriso ao encontrar você, como se você fosse um velho conhecido. Mas eles são todos pobres exilados, às vezes miseráveis.

Essa história de que "rico ri a toa" não é lá muito verdadeira.

Enfim, olhar a própria pena: "Sempre poderia ser pior".

(risos)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Anibal Beça





Anibal Beça

Rogel Samuel


Anibal era um daqueles amigos que eu via raramente. Mas quando nos encontrávamos era como se sempre estivessem juntos.

A última vez que o vi foi no Armando, quando fui até a sua mesa elogiá-lo por sua participação no CD de Luiz Baccelar.

Faz anos, muitos anos.

Recentemente ele me mandou um email com poemas e inscreveu-se na minha lista de "seguidores do blog", onde ele está agora.

Anos antes, ele estava no nosso antigo "Site do escritor".

Por duas vezes estive em sua casa. Na primeira vez, há décadas, fui almoçar (eram famosos seus almoços, suas peixadas...).

A segunda vez foi num grupo de escritores para o encontro político com Thiago de Mello. Estavam todos lá, os escritores todos, os amazonenses, em torno do Thiago.

Anibal eram um grande poeta, premiado poeta.

Recebo de minha Amiga Amelia Pais o seguinte soneto:

"A manhã


A manhã nasce entre as muitas janelas
invadindo meu corpo fatigado,
sede dos meus caminhos sem cancelas,
na luz de muitos astros albergados.

Casa onde me recolho das mazelas,
dos louros, derroteiros, lado a lado,
para ouvir de mim, franco, das seqüelas:
Ecce Homo! Eis o triste camuflado.

Essa tristeza de há muito em residência
às vezes se constrói em face alegre
máscara sem eu mesmo em aparência

num carnaval escuro no seu frege.
O que me salva, cor nessa vivência,
é saber que a poesia é quem me rege.



outubro 3 de uma manhã chuvosa
na primavera amazônica.


Aníbal Beça -N.13 Set 1946/F. 25 de Agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pela vida dos outros

"O importante é não ficar pensando muito em nós mesmos, nos nossos problemas, na nossa vida. A chave da felicidade é não pensar em si mesmo o tempo todo, mas voltarmos para o exterior, para os outros, para a vida dos outros", diz Lundrup Tashi.

Que significa isso?

Nós aumentamos nossos problemas, pensando-os?

Nesse sentido, o homem mais feliz é o político, o que pensa na comunidade, na sociedade.

Político para nós é corrupto... Que engano!

O verdadeiro político luta pelos outros, pela sociedade.

Pela vida dos outros.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Da felicidade sem medo

"A felicidade entrega-se àquele que venceu o seu medo de viver, e que considera a sua vida como uma chama sagrada, na longa continuidade das eras" (Dugpa Rinpochê).

A vida é sagrada? Para ele, sim. Um luz sagrada, na longa continuidade das eras.

Difícil de acreditar.

Porém, quando ele diz que a felicidade se entrega àquele que não tem medo de viver, nós reconhecemos o fato.

Lembro-me de um amigo, cujo nome não posso ou não devo confessar, que, depois de se saber com uma doença gravíssima, em vez de se deixar mergulhar no desespero, deu uma virada existencial e se tornou vitorioso, e até quase rico.

Anthony Burgess escreveu "Laranja mecânica" depois de se saber com um câncer.

domingo, 23 de agosto de 2009

Somente o instante é eterno

"Somente o instante é eterno. Nunca apreciamos plenamente o instante", diz Dugpa Rinpochê.

Qual o apelo do instante?

Por que o instante é o eterno?

O passado é passado, nada vale. Já passou. É lembrança.

O futuro não existe, é invenção do pensamento, é fantasia, nunca será como nós o pensamos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Do amor


Diz Dugpa Rinpochê: "Quando se ama com verdadeiro amor, a presença do ser amado é ressentida ao mesmo tempo como um sofrimento e como um prazer. É o duplo combate da sombra e da luz. Uma ameaça acrescenta-se à tua alegria, um sombrio pressentimento de fracasso que te torna infeliz. Considera a alegria e a tristeza como as duas cores de um mesmo ramo. Que uma não se erga contra a outra, e o teu amor será salvo".

Que entenderá do amor um monge budista? Ama um monge budista? Sofre as emoções do amor e da paixão, como todos nós?

Parece que sim. Sim.

Para ele, a presença do amado levanta um sentimento duplo, contraditório, dois sentimentos contraditórios, sofrimento e prazer. Sombra e luz. Uma ameaça e uma alegria, um sombrio pressentimento de fracasso e uma leva de luzes de alegria.

Considerando os dois lados como dois lados da mesma natureza, o amor é salvo, intacto. Abandonando os dois sentimentos ao seu verdadeiro estado, vivemos o amor.

E o amor "recomeça o mundo, em cada instante" diz ele.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Tufic: Pacote poético








Tufic: Pacote poético

Rogel Samuel


(Foto do blog http://palavradofingidor.blogspot.com/)

(Rio, 30 de setembro de 1999)Recebo um pacote pelo correio, um pacote amarelo que apalpo e que sinto, há objetos dentro, possivelmente livros: sim, são cinco novos livros de Jorge Tufic que eu lhe pedi pelo telefone e eu fico me lembrando que, há quarenta e três anos atrás, ele publicava o seu já clássico Varanda de pássaros.

Como pode Jorge Tufic manter 43 anos ininterruptos de poesia apesar da crise por que passa a produção cultural brasileira e a amazonense em particular? Porque depois daquele grupo do Clube da madrugada muito pouco produziu a poesia de Manaus.

Eu adolescente e Tufic já era dono de uma poderosa poesia que se afirmava principalmente nos seus sonetos extraordinariamente inovadores. Na década de 80 nós nos correspondíamos, depois ele se foi para Fortaleza e o perdi de vista. Soube que foi homenageado no Rio de Janeiro, onde moro, mas não o vi porque estava viajando.

A última vez que o encontrei foi no ano passado, em Manaus, no Galo carijó, onde gosto de almoçar sempre que estou em Manaus (também deparei ali com o Thiago de Melo, donde se conclui ser aquele bar um ponto da poesia presente).

Agora, além de seus cinco livros, vieram várias pequenas publicações, entre as quais o belíssimo Agendário de sombras, uma coleção de sonetos dos quais cito, ao acaco:

Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço,
rubros sóis de verão, coleita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.

Ao poetas menores como eu, Tufic humilha, com a força da sua Linguagem: mas como pessoa ele tem a gentileza dos mais nobres corações e nos brindou com imerecidas dedicatórias. Dentre sua produção recente, no ano passado ele publicou Sinos de papel, um delicioso livro de haikais que bastaria para o consagrar:

Paineira caiada
Por uma lua de espuma
Tão cheia de nada.

Jorge Alaúzo Tufic nasceu no dia 13 de agosto de 1930 e publicou seu primeiro livro aos 25 anos. A Amazônia dele se orgulha.



(Rio, 30 de setembro de 1999)



Famoso livro é o seu "Retrato de Mãe", de onde tirei alguns poemas que se tornaram famosos
na web depois de publicados no meu antigo "Site do escritor", o primeiro a por na Internet
os escritores amazonenses. Todos os anos, no dia das mães, alguns sites como o BLOCOS ONLINE
publicavam esses poemas de homenagem às mães:




1

Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho
que se depura e sofre com tua ausência.
Venha o trigo do Líbano, a maçã
de que tanto falavas; venha a brisa
tecer, mediterrânea, esta saudade
que vem de ti quando por ti me alegro.
Que venha a primavera, saturando
vales, planícies, colorindo os montes,
noites de luar caiando os muros altos.
Venha a pedra da igreja onde ficaste
quando em febre te ardias. Venham lírios
rebrotados de ti, dos teus martírios.

2

Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão, o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em forças transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério

se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.

3

Lentilha, azeite doce, o acebolado
chia na frigideira de alumínio;
a casa está repLeta de convites
a janta frugal e acolhedora.
Nos arredores brinca o vento; a cerca
divisória, talvez, nada separa.
Vizinhando quintais vozes fraternas
cantam, mandam recados de ternura.
Assim te vejo, mãe, rosto suado
na lida da cozinha ou pondo a mesa.
Terrinas de coalhada, o pão redondo
a recender de ti, mais que do trigo.
Calendário sem datas, chão de outrora
como tudo passou se tudo é agora?

4



Em tudo, minha mãe, te vejo e sinto.
Neste verniz antigo, neste cheiro
Suavíssimo que vinha do teu corpo
do pólen de tuas mãos, do ortelãzinho.
Em tudo, minha mãe, teu vulto amado
se desenha mais firme, e, lentamente,
vem dizer-me aos ouvidos qualquer coisa
destes anos que pesam sobre mim.
Em tudo, minha mãe, vejo este lenço
que à passagem da dor recolhe o traço
do sorriso que foste a vida inteira.
E, mesmo quando morta, entre açucenas,
ainda ressai de ti, poder divino,
a canção que adormece o teu menino.

7

Estavas, posta no esquife, igual a todas
as defuntas convulsas, lapidadas.
Tão branca e tão distante companheira
destes ventos na pausa da agonia.
Quisera ter morrido quando foste,
nave de ti somente, abrindo rotas
na invisória partida, nesse coro
latente em nossas almas. Parecias
dormir, então, liberta como um trono.
Ó lágrimas de Orfeu, tempo escoado,
corpo de insones ânforas, mãezinha,
que sei de ti nos guantes da saudade?
Que sabemos de ti, quando te vais,
se o teu vazio é feito de punhais?


Leia alguns dos "sinos de papel" de Jorge Tufic:





oculto no dom
de não ser ninguém
o grilo é som...



pétalas de mim
cultivo num jarro velho
que já foi jardim



em tantra medito
o saber é uma pedra
a mulher, o seu grito



ah, delicadeza
a mosca, senhora tosca
baila sobre a mesa







A felicidade


"Não desesperes da felicidade. Ela não te espera no extremo oposto da terra ou numa vida futura. Ela está aí onde te encontras. Espreita o momento em que estarás enfim disposto a convidá-la, a recebê-la. Vira os teus pensamentos para ela. Basta-te simplesmente ultrapassar o teu medo", disse Dugpa Rinpochê.

Sem medo de ser feliz? Ou colocamos a felicidade sempre onde onde não estamos?

Parece que ele quis dizer que a felicidade é uma "disposição para ser feliz", uma abertura para ser feliz, um voltar-se para ela, sem medo, sem hesitação, indecisão, perplexidade, dúvida...

É isso que eu quero?

Ser feliz não é a vocação de todos? Não é de todos o destino e o objeto?

Por que é tão difícil?

Qua a cara da felicidade?


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A felicidade


Frase estranha essa, de Dugpa Rinpochê: "A felicidade não é um paraíso fechado, separado do mundo. É, ao mesmo tempo, a nascente e o oceano".

Frase estranha, difícil, enigmática.

A felicidade. Que é a felicidade? Como pode ser definida como a nascente e o oceano?

Eu não sei. Eu nada sei. A nascente do rio é o princípio de tudo, o olho d'água na montanha. Depois a água escorre, desce um pouco, e com mais engrossa fica um fio d'água e um córrego e um riacho e um rio até o grande oceano. O grande oceano pode simbolizar a grande Realização final. Ele é a felicidade. A nascente também.

A felicidade é a fonte de tudo. Tudo nasce da felicidade e para ela se dirige.

Estranha. Muita estranha frase enigmática.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Concentração


"Concentra o teu espírito numa única coisa de cada vez, evita a dispersão. Concentra a tua vontade numa cabeça de alfinete, e conseguirás atravessar o obstáculo", escreveu Dugpa Rinpochê. Como uma lente pode aumentar a luz do sol, a ponto de fazer surgir o fogo do sol na terra, assim, talvez, é o que faz a concentração com nossa mente, "nosso espírito". A dispersão a dissolve.

Lembro-me da existência do sábio francês Gaston Paris (1839-1906). Ele deve ter sido o maior filólogo de sua época, e dominava as línguas e literaturas do mundo inteiro, inclusive do oriente. Escreveu "Les contes orientaux dans la littérature du moyen âge" (Paris, 1875).

Um dia perguntaram a ele qual o segredo da sua imensa cultura.

- Eu leio uma hora por dia, respondeu ele.

Deve ter sido sua capacidade de concentração.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Renascer


"É preciso viver como se mantém uma fogueira. Procura experimentar uma paixão, uma grande idéia, cada dia, divertindo-te com a tua audácia, sem orgulho, permanecendo humilde perante as belezas da Criação", disse o mesmo Dugpa Rimpochê.

O fogo do interesse da vida deve ser realimentado todos os dias? O fogo do interesse de uma paixão tem de ser reanimado todos os dias? O fogo do interesse de uma grande idéia tem de ser reinventado todos os dias? A vida é dia a dia construída, criada, recriada, prazer perante a vida?

"Aprende a renascer a cada instante. Para onde quer que olhes, é aí que o universo começa, e a alegria está no seu início", diz mais, o velho monge.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O entusiasmo


"Desenvolve em ti o entusiasmo, a certeza, como o marinheiro mantém o rumo sobre um mar revolto, sem perder a esperança da meta, e o destino"(Dugpa Rinpochê).

Cresce em entusiasmo pela vida aquele que sabe despertar em si mesmo a certeza, o calor, o rumo, a meta, o destino.

Quem sabe o que quer sempre o alcança, por isso.

Saber alimentar esta chama é saber viver, desde o acordar, acordar para a beleza do ser.

"Ser é fazer", dizia Marx, e é nessa prática que no nosso dia somos. Diariamente somos. Pois "o eterno despertar de ti próprio destrói a lassidão, a tristeza, o sentimento de fracasso. É uma nascente de alegria permanente", escreveu o mesmo Dugpa Rinpochê.

Para ser, para viver, precisamos de entusiasmo.

domingo, 16 de agosto de 2009

O visível




"Deve tornar visível o objetivo que pretende alcançar, como a mandala numa meditação. Aprenda a gostar do sucesso. Fá-lo brilhar acima dos teus atos, como um sol, uma bela luz. Só então ele se entregará a ti", escreveu Dugpa Rinpoche.

Meditar no sucesso? Vê-lo, como numa fotografia. Pintura da terra pura aonde chegar. Não buscar uma abstração, num nevoeiro. Quem sabe o que quer tem a imagem delineada do lugar onde quer chegar, já o antecipa. Quem sabe o que quer já está lá, já o tem dentro de si. Platão dizia que o amador se transforma na coisa amada, por força de tanto imaginar, de tanto o ver, como no soneto de Camões. Não tenho logo o que buscar, diz Camões, por influência platônica, pois em mim já tenho a coisa amada. Eu sou o que amo quando amo. Meditar no sucesso? no amor? Não: sê-lo, por antecipação.

sábado, 15 de agosto de 2009

A sorte


"A sorte dorme desde sempre dentro de ti próprio, como um tesouro puro. Precisas simplesmente de acordá-la. A sorte procura-te, desde toda a eternidade. Na verdade, a sorte está enamorada de ti. Não vergues. Não desesperes. Deves fazer-te belo para o encontro, mostrar as tuas mais belas cores, as tuas mais belas paixões. Elas são as chaves mágicas que abrem todas as portas e tornam leves o que é pesado", escreveu Dugpa Rinpoche.

Para acordar a sorte devo tornar-me belo, cobrir-me de cores, paixões. Que será isso? Se eu me abater, a sorte vai abandonar-me. Se me desesperar. Devo manter-me formoso e alegre, otimista e ótimo. Não deixemos a sorte dormir para sempre, a vida é curta.

Será que é isso que Dugpa Rinpochê quis dizer?

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O obstáculo



Dugpa Rinpochê escreveu: "O obstáculo é o espelho das tuas próprias hesitações, das tuas confusões. Utiliza o obstáculo para te esclarecer a ti próprio. A provocação do dia a dia é sempre uma lâmpada para a alma".

Que é o obstáculo? Eu me atrabalho: isso é o meu obstáculo. Eu sou o criador da minha
lucidez e confusão.

O obstáculo me esclarece.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Nossos sonhos




Escreveu Dugpa Rinpochê: "Quem deseja a sorte sempre a alcança. Não deprecie nunca os nossos sonhos. Devemos fazer um pacto com eles. Eles são a nascente e a força inesgotável que nos levarão à vitória. Atrás do obstáculo, encontra-se uma liberdade virgem, um horizonte mais vasto".

Dugpa Rinpochê era um monge tibetano velho, que fugiu do Tibet junto com o Dalai Lama. Ele escrevia seus textos numas folhinhas de papel que enrolava como um canudo, como os textos antigos.

Faleceu em 1989. Morava em "Nagarkot, Nepal, a três mil metros de altitude, à vista dos seus três cumes lendários: o Annapurna, o Melung Tse e a cordilheira do Everest, coroados de neve".

Era ali que ele meditava nos seus pequenos textos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Nome e forma


Nome e forma

Rogel Samuel


Que significa sem nome e forma? No caminho do Buda não tem nome, não tem forma, é um não-caminho... sem ir, sem abandonar o trabalho normal de caminhar. P'ang Yün trata do Satori, da iluminação, do não-condicionado, onde as flores do céu não têm nome nem forma, não criações do pensamento, não estão no círculo do pensar, estão livres do atribuir, do mental, do nascimento e morte.


Without Name and Form
SEM NOME E FORMA
Well versed in the Buddha way,
BEM VERSADO NO CAMINHO DO BUDA
I go the non-Way
EU VOU PARA O NÃO-IDO
Without abandoning my
SEM ABANDONAR
Ordinary person's affairs.
MEUS CUIDADOS PESSOAIS
The conditioned and
O CONDICIONADO
Name-and-form,
NOME E FORMA
All are flowers in the sky.
TODAS AS FLORES NO CÉU
Nameless and formless,
SEM NOME E FORMA
I leave birth-and-death.
DEIXO NASCIMENTO E MORTE.
P'ang Yün (龐蘊 Hõ Un)

domingo, 9 de agosto de 2009

A mulher que passa








A mulher que passa


Rogel Samuel



Passa. Ela passa, a viúva, elegante, balanço, o festão, o debrum, nobre, exata, ágil, belas
pernas de estatuária, passa, e ele a vê, do café onde bebe ele a vê, perdido, crispado,
ele a vê, a sente, a sabe, no seu olhar há o germe de um furacão, no seu olhar há a
doçura que se embala, há o frenesi que mata, o relâmpago... ou é o tempo, a noite? Ele,
a aérea beldade, e de seu olhar vem um relâmpago de renascimento... ela a verá outra vez?
ou só a verá por um instante na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais.



A uma Passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;
Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.
Um relâmpago, e após a noite! - Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995.
Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CHAMP DE MARS


CHAMP DE MARS

E somente porque fazia sol naquela tarde
eu não queria mais voltar pro meu país,
e somente porque fazia sol naquele canto
oh, naquela mesma imensa canção
com que, há vários anos, venho para o mesmo Campo
de Marte, em frente à Torre de Vidro
que à noite brilha como se feita
de estrelas faiscantes,
e estava, nas minhas costas
a Escola Militar onde Napoleão estudou
e na minha frente o “mur de la paix”,
inspirado no muro das lamentações,
soprando naquele panteon de assinaturas
em várias línguas dizendo a paz.

Longe a imensa Torre.

Meu pai a viu,
meu avô a viu.
A imensa Torre
aponta o céu.
(À noite brilha como se feita
de estrelas faiscantes).

Há um júbilo de estar
de ainda estar ali
depois de tantos anos
depois de tantos dias escuros e frios.
Num dia de sol.

O frio se recolheu dentro de mim.

Sofro por estar em comunhão
e porque gostaria de ficar
(não só)
porque gostaria de que Paris fosse
o subúrbio de Manaus,
que já foi no tempo do meu avô Maurice,
(no teto do Teatro Amazonas
se vê a Torre Eiffel, vista de baixo).

Sofro porque gostaria de ficar,
entre amigos
com o Cláudio Rosa, a Leila Míccolis, a Neuza Machado.

Mas em seis dias me vou,
ficará o mesmo jeito de ser
daquela ponta de praça
a mesma imensa área,
com aquele intuito amplo de conter o mundo
de a tudo reunir.
Na minha contemplação
a vida estranha
(À noite a Torre brilha como se feita
de estrelas faiscantes).

Vida estranha.
Mundo estranho.

Faz sol.

(Paris, 9 de novembro de 2006).

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Agripa Vasconcelos


Agripa Vasconcelos


Rogel Samuel

Foi um escritor de sucesso. Seus livros venderam milhares e ainda vendem. Agripa Vasconcelos escreveu "Silêncio", poemas, que o levou à Academia Mineira de Letras, aos 22 anos de idade, sucedendo a Alphonsus de Guimaraens: O livro se vendeu no Rio em 30 dias e está esgotado até hoje. "Nós e os Caminhos do Destino", foi outro êxito. O romance "Fome em Canaã" concorreu ao Concurso da Revista "O Cruzeiro", e foi premiado. "Suor de Sangue" ganhou o prêmio "Olavo Bilac", da Academia Brasileira de Letras, primeiro prêmio dos livros brasileiros de poesia, em 1949. Depois veio "A Morte do Escoteiro Caio".

Escreveu livros científicos - "De que morreu o Aleijadinho", em que diagnosticou a morte de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho: especialistas, em livros posteriores confirmam seu parecer, como o mestre Miguel Couto, que escreveu ao aluno que entregava a mão à palmatória, convencido que ficara de seu antigo erro.

* * *

Agripa escritor mineiro de corpo e alma, um verdadeiro fanatismo.
"Para ele, os poetas, os ensaístas, os romancistas mais notáveis da América são os de Minas Gerais", disse um crítico.
A Editora Itatiaia publicou ''São Chico", uma saga sobre o Rio São Francisco e "Gado Preto em ouro verde", o ciclo da cultura do café e da escravidão.

* * *

Era médico, foi para o Nordeste como cirurgião-chefe da Companhia Hidro Elétrica de Paulo Afonso, Bahia, onde construiu o "Hospital Nau Souza".
Aposentado do Banco do Brasil, do Instituto Federal e de companhias particulares no Recife, onde clinicou. Faleceu em Belo Horizonte, no dia 21 de janeiro de 1969.

* * *

Escreveu romances de sucesso: "Sinhá braba, "A vida em flor de dona Beja" (que inspirou a famosa novela), "Gongo-sogo", "Chica que manda", um excelente romance sobre Chica da Silva.

Em carta de Recife ao seu Editor, Pedro Paulo Moreira, disse:

"Minha vida nada tem de importante para seu estudo. A profissão de médico rural que fui no começo me aproximou do povo, da ralé desclassificada. E dos humildes sem justiça. Quando examino algum deles procuro conhecer vida e hábitos, o linguajar, as lendas, o folclore de sua região. Poucos conhecem o interior com mais profundidade. Homem de nenhuma vaidade, nenhum orgulho, sou um trabalhador por prazer e meus trabalhos refletem meus conhecimentos do nosso povo, daí e daqui. Uma opinião que me agradou foi a do querido Ascenso Ferreira: Seu livro sobre Beja foi o melhor romance que li". (Agripa)

Como poeta está quase desconhecido.

Era um poeta parnasiano tardio, como tantos outros.

Seu belo poema "Chuva do mar", para mim, é um clássico do gênero:

Quando Raquel casou, naquela tarde mansa
Vi desfeito de vez meu sonho de criança. . .
Um desespero atroz meu ser avassalou!
Mas alguém que conhece os mistérios do mundo
Num sussurro me disse um conselho profundo:
- Isso é chuva do mar. Vai passar.
E passou.

Quando, ainda mocinho, eu senti, doido de ira,
Que, parecendo certo, era tudo mentira
O amor que me jurara a pérfida Margot,
Quis Morrer - mas alguém que conhece essa vida
Me falou, sem calor, mas em frase sentida:
- Isso é chuva do mar: Vai passar.
E passou.

Quando Ofélia seguiu seu destino sombrio,
Senti, como ainda sinto, o coração vazio!...
Faz tanto tempo já que nem sei mais quem sou!
Mas quem viu, em meu pranto uma simples garoa
Quis em vão me dizer uma palavra boa:
- Isso é chuva de mar. Vai passar.
Não passou.

Nasceu a 12 de abril de 1900, em Matosinhos, município de Santa Luzia. Aluno de Carlos Góis e Aurélio Pires, que o consideraram o melhor aluno que tiveram.
Afrânio Peixoto, que era catedrático, quis conhecê-lo e essa amizade se prolongou até a morte do grande mestre nacional.

Na epidemia da gripe de 1918, no Rio de Janeiro, levado por Leal de Souza, prestou serviços a Coelho Neto, que o considerou sempre "amigo dos que mais viveu em meu coração".

Foi interno do mestre Miguel Couto, que escreveu, ao celebrar seu 25º aniversário como professor, no Hotel Glória, do Rio, que seus melhores internos tinham sido até então Leitão da Cunha, Otávio Aires, Gastão Crulz e Agripa Vasconcelos. A lágrima nos olhos de Miguel Couto revela que sempre o considerou como filho.

No fim do curso médico foi orador de sua turma; e Miguel Couto, paraninfo. Este começou sua oração com o elogio de seu aluno, fato até hoje inédito na oração dos paraninfos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PAULO JACOB


PAULO JACOB

Rogel Samuel

Sob vários aspectos, ele é o maior romancista da Amazônia.
Não é muito lido, conhecido, porque autor difícil, sofisticado.
Sua morte, no dia 7 de abril de 2004, abre questão grave quanto à divulgação da cultura nacional brasileira.
Sua morte não chamou atenção.
Não se soube.
Eu mesmo, amazonense de Manaus, onde morava o escritor, não tive conhecimento.

* * *
Vim a ouvir da boca de um chofer de táxi, em Manaus, no dia 18 de junho.
Dizia-me ele:
— ...Por ali, na rua onde morava aquele desembargador, que morreu no ano passado...
A rua, cujo nome não me ocorre, fica ao lado do Igarapé.
A casa, em frente ao igarapé, exibe a vocação de Paulo Jacob. Em Manaus, mas sempre voltado para a Floresta. Que ele conheceu bem, pois foi juiz em Canutama, no rio Purus, em 1952, e durante 10 anos viajou pelo Amazonas.
Até que, nos anos 60, foi promovido a desembargador do Tribunal de Justiça.

* * *
Paulo Jacob escreveu muito. Muito. Cerca de 10 romances bem trabalhados.
Quase ganhou o maior prêmio nacional de literatura da sua época, o Walmap, em 1969, com "Dos ditos passados nos acercador do Cassianã", 2º lugar. Excelente livro, imenso, denso, 359 páginas de um tipo pequeno, corpo 10 (Rio de Janeiro, Bloch, 1969).
O Walmap tinha juízes como Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antônio Olinto.
Os três deram o 4º lugar para "Chuva branca", em 1967, um dos seus mais belos livros. Outro livro, "Vila rica das queimadas", título bem atual, ecológico, também ficou entre os finalistas do Walmap. O título denuncia, como o livro: "O coração da mata, dos rios, dos igarapés e dos igapós morrendo", sobre o desmatamento. "Chãos de Maíconã" também "menção honrosa" do Concurso Walmap.

* * *

Festejado foi pela crítica, Paulo Jacob.
Leila Miccolis o considera "o Guimarães Rosa da Amazônia".
Guimarães Rosa ficou entusiasmado com "Chuva branca".
Aguinaldo Silva diz que ele fez "o primeiro grande romance da Amazônia".
Assis Brasil compara "Chuva branca" a "Sagarana" de Rosa e a "The wild palms" de Willian Faulkner.

* * *

Ler Paulo Jacob é dificuldade. Chega que ele, em "Chãos de Maíconã", anexou um vocabulário da língua ianoname, no fim do livro.
De um "Dicionário da língua popular da Amazônia" também ele é autor

* * *

Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e faleceu no dia 7 de abril de 2004. Escreveu ainda: Muralha verde (1964), Andirá (1965), Estirão de mundo (1979), A noite cobria o rio caminhando (1983), O gaiola tirante rumo do rio da borracha (1987), além dos citados acima.

* * *

Em "Chuva branca", o personagem vai-se adentrando, vai-se assimilando na floresta, vai-se afastando da civilização, até que no fim parece que nem existiu - vira mito. No fim, na morte, ele tira a roupa, fica nu, perdido na mata, integrado nela, sabendo que vai morrer, perdido e integrado, no mitificado.

* * *
"O gaiola tirante rumo do rio da borracha" narra a viagem de um navio, um gaiola, um barco a vapor, saindo de Belém até o outro lado da Amazônia, no rio Purus até subir o rio Iaco, onde o navio naufragou e ali se soube que o preço da borracha despencara, de quinze mil réis caiu para oito, pondo na falência todos os coronéis. O personagem é o Comandante Antonio Damasceno.

* * *
Paulo Jacob foi professor universitário e Presidente do Tribunal de Justiça. Como Presidente de tribunal chegou a assumir o Governo do estado, em 1982. Sua morte deixa aberta a vaga de melhor romancista da região Norte.

sábado, 1 de agosto de 2009

É possível que os mastros se rompam...













É possível que os mastros se rompam...

Rogel Samuel

Brisa marinha

Enviado por Amelia Pais (Quadro de Manet)

Tradução: Augusto de Campos

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!
Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre ondas más,
Se rompam ao vento sobre os náufragos, sem mastros, sem mastros,

[ nem ilhas férteis a vogar...
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!


Mallarmé ecoa a brisa, a brisa marinha. A tradução de Augusto de Campos é uma obra-prima. Podemos sentir a brisa entre os versos, e sua evocação, e sua evocação de fuga, sim, porque não adianta fugir através dos livros que já os tenho lidos, fugir, mas fugir mesmo, oh, só os pássaros são livres para fugir, fugir com minhas asas da imaginação para as maravilhosas ilhas da imensidão do mar, como nas aves, como nos pássaros ébrios de azul e de imensidão, os pássaros e naves que se entregam às espumas e/ou aos céus imensos, suspensos, amplos, livres, etc.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quietude





Quietude

Rogel Samuel

Nada fazer, faz tudo. Das dez direções se aprende isso: não fazer nada. O mais difícil é isto: sentar-se na pose de Buda para não fazer nada. Sentar para nada fazer é tão difícil quanto entender o pensamento. Como estamos sempre pensando, estamos fazendo algo, nos distraimos. Nada fazer é a quietude do silêncio mais profundo. Se eu me sento "para meditar" já estou perdido. No meio do sansara. No meio de New York. A quietude é mente vazia, não mente morta. Mente lúcida, cheia de sua luz. Luz e silêncio. Eu nunca a vi, mas muito tenho lido a respeito.


As dez direções convergem
Cada aprendizagem para não fazer nada,
Isto a sala do treinamento de Buda;
Mente vazia, tudo acabado.

P'ang Yün (Hõ Un) (Dois Zen Classics 263)

"Quando ele veio a Baso e disse novamente, 'Quem é aquilo independente de todas as coisas? Baso lhe disse: 'Quando você beber toda a água no rio de Yang-tze, eu lhe direi.' Com isto, Koji sofreu a grande experiência e compos outro verso: " (Dois Zen Classics 263)


quinta-feira, 30 de julho de 2009

Quem é independente de todas as coisas?





Quem é independente de todas as coisas?

Rogel Samuel

Essa a pergunta sem resposta de "Hõ Koji”. Ali as coisas são a montanha, água, lenha. O grande segredo é esse: carregar lenha e água. Ninguém em púrpura, ninguém importante? Nada a escolher ou descartar, nada. Diariamente nada a acrescentar ou escolher. Puro viver.



"Hõ Koji (Hõ era sua família, Koji um título de respeito para um estudante secular de Zen) estudou primeiro com Sekitõ e depois com Baso, a quem sucedeu. Quando ele conheceu Sekitõ, ele perguntou: “Quem é independente de todas as coisas?” Antes que ele tivesse terminado de perguntar isto, Sekitõ cobriu a boca de Koji com sua mão dele. Assim Koji sofreu uma experiência e se expressou no verso seguinte:" (Dois Zen Classics 262-3)


Diariamente, nada em particular,
Só acenar com a cabeça para mim,
Nada a escolher, nada a descartar.
Nenhum próximo, nenhum andamento,
Nenhuma pessoa em púrpura,
Montanhas azuis sem nenhum pó.
Eu exercito poder oculto e sutil,
Levando água, carregando lenha.

(Dois Zen Classics 262-3)

Hõ Koji

terça-feira, 28 de julho de 2009

Vida e glória



Vida e glória


Rogel Samuel


Vida de monge? Vida gloriosa. A grande tarefa da vida: fazer o que aparece para ser feito.
Nada buscar tudo ter. O acontecimento glorioso da vida, tudo aquilo que é para ser vivido. O experimento da paz, a paz na ação, a paz ativa. Sem julgar que é bom ou mal, nada escolhe nem rejeita. Oh vida gloriosa sem outra dificuldade além do acontecimento diário de que cada coisa e cada fato é o que é, sem deslize. A maior glória do poder mágico é que as montanhas azuis, as colinas verdejantes. A luz da prática espiritual consiste nisso: levar água, juntar lenha. Quem consegue fazer sem pensar, avaliar, delirar já está na mais alta realização.

“Na minha vida diária não há nenhuma outra tarefa
Além do que acontece cair em minhas mãos.
Não escolho nada, não rejeito nada.
Em nenhuma parte há dificuldade, em nenhuma parte um deslize.
Eu não tenho nenhum outro emblema de minha glória
Além das montanhas e colinas sem uma mancha de pó.
Meu mágico poder e exercício espiritual consiste nisso:
Levar água e juntar lenha.”
(P'ang Chü-shih, A Idade Dourada do Zen 94, 304 n.5)

Mindfulness

Mindfulness

春有百花秋有月 Spring comes with its flowers, autumn with the moon,

夏有涼風冬有雪 summer with breezes, winter with snow;

若無閑事挂心頭 when useless things don't stick in the mind,

更是人間好時節 that is your best season.

Wu-men Huai-kai (無門慧開 Mumon Ekai), from Wu-men kuan (Mumonkan) case 19

(The Light Inside the Dark 97)

Concentração

A primavera vem com suas flores
o outono com a lua
o verão com a brisa, o inverno com a neve
quando coisas inúteis não aderem à mente
está na sua melhor estação.


Porque a mente livre, ampla e vazia? Espaço mental, silêncio atento, lucidez. Quem a tem? Talvez a mente de flores, a mente-lua, a mente que é como a brisa, a mente branca que cai como a neve, a mente sem aderências, sopro infinito sobre o universo das coisas, iluminada.

O mundo se abre sobre essa mente transparente. Eu não a conheço, mas há quem a tenha.

A chuva fina
cai sobre o Rio de Janeiro.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Os pássaros livres


Os pássaros livres


Rogel Samuel


Por quê? Por que pergunta Dogen pelo destino dos pássaros do céu? Eles voam para seu destino, conhecem o rumo, não deixam rastro no ar, nem precisam de um guia que os leve para lá, e lá, além, muito além daquele horizonte, sabem que está a salvação do inverno. Oh, como nós nos perdemos de nosso rastro, como esquecemos o destino, como precisamos que nos guiem. O mundo perdido, a terra prometida jogo esquecido. Nossas mentes andam cheias de palavras, cheias de esquecimento.


Os pássaros migratórios
não deixam rastro
não buscam um guia


Dogen (1200 - 1253) trad. inglesa de Robert Bly. Original em japonês.

terça-feira, 21 de julho de 2009

As gotas no telhado


As gotas no telhado


Rogel Samuel


A chuva no telhado encontra a mente aberta, a mente livre de Dogen. A mente sem limites, sem pensamentos, sem ilusões. A mente livre não se encontra senão no seu objeto: no som da chuva. Dogen é onde sua mente está. Agora ele é o som da chuva, gotejando no telhado. A mente iluminada de Dogen é livre, não se limite em si, não se apega a nada. Não se apega, apenas toca. No que toca, ali é.


Porque a mente é livre--
Escutando a chuva
Gotejando no telhado,
As gotas se tornam
Um comigo.

Dogen (1200 - 1253)

Versão inglesa de Steven Heine

Língua original japonês

domingo, 19 de julho de 2009

O pássaro voa para a serpente

O pássaro voa para a serpente


Rogel Samuel



Depois de beber o fogo do vinho da taça, por que continuar vestido com a vestimenta de inverno? O tempo voa, a vida passa, o pássaro do tempo só tem um modo de voar, e ele está voando agora, aproveitemos o pouco tempo que temos, venha, encha a taça com o fogo da vida pois o pássaro do tempo voa para a serpente, e a morte é certa, e já está próxima sempre. Eis, venha, encha a taça que a vida dura somente o tempo de bebe-la, e há pouco vinho ali e pouca chance de permanecer com ela.

Diz o poema da Khayyam:



Venha, encha a taça, e no fogo da torrente
A vestimenta de Inverno de Arrependimento voa:
O Pássaro de Tempo tem apenas um leve modo
De voar--e eis! o Pássaro está na sua Asa.


Omar Khayyam (Século 11) versão inglesa de Edward FitzGerald

Língua Original Persa/Farsi

Compartilhando a Cabana da Montanha com uma Nuvem







Compartilhando a Cabana da Montanha com uma Nuvem


Rogel Samuel


"Uma cabana solitária no cume da montanha se sobressai sobre mil outras;

Sua metade ocupada por um monge velho e a outra metade por uma nuvem:

Ontem à noite houve uma tempestade e a nuvem foi soprada para longe;

Sobretudo porque uma nuvem não é igual igual ao modo quieto do homem velho".


Poema de Kuei-tsung Chih-chih (um monge que morou numa cabana humilde em Lu-shan)

(H.C. Warren. Essays in Zen Buddhism – Second Series 352-2).



O comentarista e tradutor Warren diz que "ele esclarece habilmente a sua avaliação da Vacuidade; o verso não será entendido somente como descrevendo a sua cabana solitária onde ele morou em companhia com as nuvens".

O monge a cabana a montanha e a nuvem foram varridas pelo sopro da tempestade. Só a nuvem desapareceu, mas a montanha ficou. As ilusões são como nuvens. A meditação quieta do velho monge é sólida como a montanha. Sua cabana é seu mosteiro. Por que a iluminação do velho monge é uma tempestade? Diziam os mestres Zen que há dois meios de atingir a iluminação: tirar algodão do manto e quebrar uma pedra. O velho quebrou a pedra.

sábado, 18 de julho de 2009

O fluir do rio dos pensamentos


O fluir do rio dos pensamentos

Rogel Samuel

O mestre Dogen (1200-1253) escreveu um misterioso poema:



"Acima de tudo, não deseje tornar-se um Buda futuro;
Sua única preocupação deveria ser,
Como um pensamento segue a um pensamento,
Evitar agarrar qualquer um deles".


Porque pensar em tornar-se um futuro Buda é um pensamento. Também é um pensamento. E os pensamentos são sombras, são fantasmas, são alucinações. Não podemos ser ou fazer nada com um pensamento senão pensá-lo. Como num sonho. E assim estamos dormindo. Nossos sonhos são os pensamentos. Fantasias. Loucuras. E nossa maior loucura é agarrar um pensamento após o outro, tentar pegá-los, seguir o seu curso, acreditar neles, pensar que são verdade, que são a consciência do eu. Tornar-se um Buda futuro é um desejo, um pensamento. Mas o Buda não é pensamento. Assim, deixemos que se vão os pensamentos no seu curso. Na confusão de suas interligações. Até que, se houve um espaço de silêncio entre dois pensamentos, nesse silêncio estaremos em paz. Quando o pensamento cessa.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O grande tesouro












O grande tesouro

Rogel Samuel


"Conheço agora
este tesouro da verdadeira liberdade,
inesgotável não só para mim
mas também para todos outros:
a lua brilha sobre a água do rio
o vento sopra nos pinheiros
fresca e pura sombra de uma larga noite.
Qual é a causa?"

Yoka Daishi. "O canto do satori imediato"



Yoka anuncia a decoberta de um tesouro, de um tesouro da liberdade, libertaçao verdadeira, inesgotável tesouro, para ele, para todos, e qual é esse tesouro? onde reside este tesouro? lá, na lua que brilha sobre o rio sem causa, no vento que sopra nos pinheiros sem causa, na fresca e pura sombra sem causa, de uma noite sem causa, de uma larga noite sem causa. A descoberta de que nada tem uma causa, de que tudo é gratuito no Universo, é a libertação absoluta, é o tesouro máximo da liberdade absuluta.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O que diz Daishi



O que diz Daishi


Rogel Samuel


Yoka Daishi nasceu em 665 em Yoka, de onde vem seu nome. Escreveu um dos livros mais importantes do Zen, "O canto do satori imediato". Um dos seus poemas desse livro tem 4 versos. Os 2 primeiros dizem:

Devemos viver muitas vezes
e muitas vezes morrer.

A maioria dos hermeneutas interpreta esses versos como dizendo da reencarnação. Mas (quem sou eu para isso) eu penso que se pode ler diferentemente.

Nesta vida mesma morremos e vivemos várias vezes. Cada vez que morremos para um fato, renascemos das nossas próprias cinzas. Se não morrermos para cada fato não poderemos renascer. E aí morreremos de fato. A morte é nescessária para que possamos viver, continuar vivos.

Vida e morte se sucedem
sem interrupção na eternidade.

"Zazen é a experiência da morte. Aqui e agora, no Zazen, está a morte", escreveu o comentarista, mestre Deshimaru. O Zazen é a meditação silenciosa.

Deshimaru não interpreta, porém, como reencarnação.

Temos medo da vida, diz, por isso tememos a morte. Inventamos a reencarnação porque tememos a morte. "A morte é vida, a felicidade é desgraça. Sempre queremos categorias, porém elas não existem", diz Deshimaru.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A completa realização de P'ang Yün


A completa realização de P'ang Yün

Rogel Samuel


Primeiramente o texto tece o tempo. Não existe. O passado não existe, é passado. Não tente lembrar o passado. Deixo-o onde está. Onde (não) está.
O presente não é tangível. Passa rápido. Ao tocá-lo já é outro, já não é.
Quanto ao futuro... que futuro? Qual futuro? Ainda nada sabemos dele. Não é pensável, antes.
Não tente julgar, não avalie as coisas que vierem aos olhos: não existe ordem a ser mantida nem sujeira a ser limpa.
O dharma não tem vida (nem não vida).
A realização está completa.
Assim é o poema:

“A realização última

P'ang Yün


O passado já é passado
Não tente recuperar.

O presente não fica
Não tente tocá-lo.

Momento a momento
O futuro não veio
Não pense nisto
Antes.

Tudo que vem ao olho,
Deixe que seja
Não há nenhuma ordem
A ser mantida,
Não há nenhuma sujeira
A ser limpa.

Com a mente realmente vazia
Penetrado, o dharma
Não tem nenhuma vida.

Quando puder estar assim,
Você completou
A realização última.

P'ang Yün”.

domingo, 12 de julho de 2009

A interrogação em Mar de Rogel Samuel










A interrogação em Mar de Rogel Samuel

Jefferson Beça

Mar





onde está, onde
onde está no horizonte
onde está o destino
por onde se vai nesta barca
por onde navegar assim
neste mar de incertezas
neste caminho sem pista
se por que vagueamos em claros
na grande muralha de atalhos
perdidos labirintos
pássaros de bicos frios
flores de asas mortas
e em embrulhadas falas
mulheres e homens nas tramas
de suas rotas?



LEITURA DE JEFFERSON BEÇA


O texto por inteiro é uma interrogação. Esta, então, por si só já traz a aventura do poema de Rogel Samuel. Mas qual será a resposta? Para o poema não há resposta, já que a pergunta tem a força de ser ela mesma. O mar traz - mais do que a incerteza – o movimento dos difíceis atalhos nos quais vamos embrulhando nossa falas, nossos versos. Vamos tramando alguns passos que encontram pelo meio do caminho objetos aparentemente mortos. Mas poderíamos insistir na interrogação do poema que é a sua vida seguindo a busca sem encontrar a resposta. Por meio disso não se define nada, pois o que há de mais forte é saber que o poema impele a vida tateando, navegando por rotas que sempre terão em si a interrogação. (Jefferson Bessa)

sábado, 11 de julho de 2009

mar



mar


rogel samuel

onde está, onde
onde está no horizonte
onde está o destino
por onde se vai nesta barca
por onde navegar assim
neste mar de incertezas
neste caminho sem pistas
e por que vagueamos em claros
na grande muralha de atalhos
perdidos labirintos
pássaros de bicos frios
flores de asas mortas
e em embrulhadas falas
mulheres e homens nas tramas
de suas rotas?

- LEIA O COMENTÁRIO DE JEFFERSON BEÇA AQUI

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Hoje, em BLOCOS ON LINE



Coluna quinzenal de Rogel Samuel, com o 15º capítulo de O Igarapé do Inferno, romance
que se passa na Amazônia, agora na época da borracha, em sua segunda parte, em:



http://www.blocosonline.com.br/home/index.php

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A escondida



A escondida

Rogel Samuel



Ela tem 103 anos. É isso que me diz o barbeiro que há 50 anos mora por aqui e conhece a todos. "Dizem", acrescenta. Todos os dias ela caminha um pouco, pela manhã, sempre só, toda agasalhada, mesmo no verão. Vai até a esquina, olha o Cristo do Corcovado. Vai até os fundos da igreja, reza para a imagem de uma santa. Outro dia a vi atravessando a rua, coisa rara. Para mim ela é a pessoa mais importante do bairro. Não o Roberto Carlos. Parece que mora só, nunca a vi acompanhada. 103 anos dá para escrever a história de um povo, a história de um Século. Meus Deus, que recordações terá? Eu gostaria de entrevistá-la. 103 anos me diz que ela pode ter conhecido muita coisa, muita gente. Me parece solteira, não tem cara de mãe. Mãe tem cara de mãe, ela não. Tem rosto de moça, de menina, posso imaginá-la menina. Pois anda até rapidamente, e tem uma certa graça, para sua idade. Não usa begala. Só uma capa, com capuz e cachecol. Como se quisesse esconder-se da morte.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A imprensa vive de escândalos?


A imprensa vive de escândalos?

Rogel Samuel

(Na foto, a certidão de óbito de MJ: negro, divorciado, músico).

Assisti ontem a um curioso espetáculo na TV. Num dos mais conceituados canais de TV a cabo, à noite, o âncora perguntou ao entrevistado:
- Você acha que santificaram Michael Jackson depois de morto? Esqueceram tudo que ele fez de errado?
- Sim, respondeu o outro. Agora só vêem o músico, não o homem... e por aí foi o ataque.
Acontece que:
1. Jackson foi absolvido por falta de provas das acusações de pedofilia etc. (não para a media, que nunca o perdoou).
2. Jackson não traiu o movimento negro ao se tornar branco: um dos primeiros direitos individuais que existe é o “direito de si”. Ou seja: você tem o direito de mudar a cor do cabelo, colocar ou não um brinco na orelha, fazer uma plástica, uma dieta, etc. Todos nós temos o sagrado direito de fazer o que quisermos com nosso corpo, ate nos matar.
3. Quem deve ser acusada é a sociedade racista americana da época de Jackson, pois se ele se “embranqueceu” é porque queria ser aceito como grande astro por todas as pessoas.
Por que continuam acusando MJ?

É sintomático que a polícia de Los Angeles tenha tantas vezes perseguido o astro. Seu rancho foi destruído por ela: até o carpete foi arrancado para se “descobrir” algo suspeito, como um subterrâneo. Nada se descobriu.
Depois de morto, a polícia invadiu a casa de MJ em busca de algo “suspeito”. Descobriu remédios. Que Jackson tomava. Seus remédios pessoais.



terça-feira, 7 de julho de 2009

O Rio de Janeiro no inverno



O Rio de Janeiro no inverno

Rogel Samuel


O frio. É muito estranho esse clima. As pessoas ficam tristes. Ar claro. Luz maravilhosa. No budismo do Tibet há um Buda que se chama Buda da Luz Infinita. A idéia de cegueira é aterrorizante. Ainda que a luz seja sempre algo interno. A vida deve ser luz. Luz e som. Cores. Sonoridades luminosas. Bilac escreveu um soneto terrível. Beethoven Surdo.

Surdo, na universal indiferença, um dia,
Beethoven, levantando um desvairado apelo,
Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo.
E o seu mundo interior cantava e ressurgia.

Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo,
Viu, sobre a orquestração que no seu crânio havia,
Os astros em torpor na imensidade fria,
O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.

Era o nada, a eversão do caos no cataclismo,
A síncope do som no páramo profundo,
O silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo.

E Beethoven, no seu supremo desconforto,
Velho e pobre, caiu, como um deus moribundo,
Lançando a maldição sobre o universo morto!

Mas Bilac não o viu surdo, pois o interior de seu crânio "cantava e ressurgia". Havia uma orquestração interna. O que morria no vácuo era o mundo exterior, amaldiçoado. O Universo morto.

Já se disse de Beethoven que ele compôs a música das esferas. Foi no concerto 4 ou 5 para piano e orquestra, creio. A música das esferas luminosas do céu. Dante. Dante viu nas esferas o amor. O amor que move as estrelas.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

São Francisco, hoje


São Francisco, hoje

Ulysses Bittencourt e os poetas amazonenses



Ulysses Bittencourt e os poetas amazonenses


Rogel Samuel


Ulysses Bittencourt é um intelectual muito importante, membro da Academia Amazonense de Letras e do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas. Ele é autor de muitos trabalhos sobre o Amazonas, citados por Samuel Benchimol e Mário Ypiranga.

Publicou "Raiz" (Rio de Janeiro: Copy e Arte, 1985), "Povoamento da Bacia Amazônica"
(Porto Alegre, PUC, 1988 - conferência proferida na PUC-RS) e "Patiguá" (Rio de Janeiro: Copy e Arte, 1993).

Escreveu nos anos 1980 no jornal “A Crítica”, de Manaus.

Mário Ypiranga Monteiro disse na apresentação de "Patiguá" que "por muitos anos constituirá o testemunho valioso dos quadros históricos amazonenses não tratados anteriormente (...)" (p. 19).

"Raiz" e "Patiguá" são citados por Samuel Benchimol em "Manáos do Amazonas - Memória
empresarial, vol. 1 (Manaus: ACA (Associação Comercial do Amazonas) - Fundo Editorial / Governo do Estado do Amazonas, 1994).

Há uma rua em Manaus com seu nome. São informações colhidas na Internet.

O verbete na WIKIPEDIA afirma que Ulysses Bittencourt "foi um dos autores que logrou delinear alguns dos tipos humanos da região, especialmente o do coronel de barranco".

O coronel de Barranco era “o assim chamado "barão da borracha", da época do boom amazônico da hévea - que não pertencia ao Exército Brasileiro -, geralmente adquiria uma patente da extinta Guarda Nacional".

Outras figuras regionais estudadas por Ulysses foram o trabalhador ribeirinho; o ex-escravo afrodescendente; e o poeta amazonense - que, muitas vezes, vivia em dificuldades financeiras - da Manaus da primeira metade do século XX.

O poeta era um tipo social.

domingo, 5 de julho de 2009

venham poemas



rogel samuel

venham, poemas, líricos, idos, tidos
desusados
venham das gavetas das estantes do passado
venham a mim
todos
esquecidos não lidos poemas das bibliotecas
em milhares em milhões de seus versos
suas muitas vozes muitas rimas e
imagens
eu os amo, poemas perdidos
eu os amo
e poderia lê-los todos
se me dessem tempo de vida
todos
me esperam em fila nas bibliotecas velhas
nos seus esquifes-livros
finalmente fechados
quem os lerá?
quem saberá?
venham a mim, venham
de todas as partes
em todas as línguas
com todas as suas finas rimas

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Comentando um comentário



Comentando um comentário

Rogel Samuel


Leila Miccolis comentou um poeminha nosso.

Comentar um poema é tão gostoso quanto escrevê-lo. Comentar um bom poema, não um meu. Tenho consciência de minhas limitações.

Eu escrevo comentários desde que era menino. Mas Leila foi generosa, minha amiga, com meu poema.

É claro que muitas vezes o comentarista é melhor do que o texto comentado. Como é o caso. Este caso.

Quando comento, mergulho no imaginário do poema, geralmente grandes poemas, fecundos poemas de grandes poetas, como a própria Leila.

Fiz isso durante mais de 30 anos em sala de aula, transformando a minha profissão numa coisa prazerosa.

Tem muita gente que acha que esses comentários não são exercícios de crítica de literária. Pensa que são crônicas.

Para eles, crítica tem de ser cerebral, seca, árida, coisa de professor de literatura (mau professor, diga-se). Não conhecem a crítica criativa, a hermenêutica por exemplo, quando o texto crítico concorre com o texto objeto. Quando o crítico se reconhece no texto.

É uma volta ao impressionismo crítico do Século 19? Talvez, talvez. Com cautela. Mas já T. S. Eliot dizia, creio, que o melhor crítico tinha de ser um poeta. É avançar no texto, apropriar-se dele, como fazia Barthes, fazê-lo seu, fazê-lo falar.

Até na filosofia isso se dá. Habermas que o diga.

Mas é claro que o comentarista crítico fica no fio da navalha, não pode ultrapassar e enlouquecer, dizendo coisas que não estão no universo semântico do texto comentado. Nem se trata de procurar o autor no que o texto diz. Já se declarou a morte do autor, a morte do sujeito.

Eu não mereço o ato crítico de Leila. Mas gostei demais. Fiquei orgulhoso, feliz. Ela valorizou o texto, mostrou valores escondidos, sentidos potenciais ocultos.

Para ela poesia é contramão. No sentido de acesso paralelo. Como dizia Drummond, amar depois de perder. Falar de amor na completa solidão.

Por isso o poema ganhou uma dimensão inesperada. Leia aqui.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Meu cavalo chegou


Meu cavalo chegou

Rogel Samuel



Leio o belo soneto de Farias de Carvalho (1930-1997), o poeta amazonense, o poeta maior, tão bom quanto os maiores. Leio no "Fingidor" o soneto. Farias meu professor de literatura no colégio. Farias genial poeta:




Meu cavalo chegou


Farias de Carvalho (1930-1997)


Meu cavalo chegou (memória e nuvem),
a aurora derramada sobre a crina.
Meu cavalo chegou. Fome de tudo
estou também: engoliremos mundos.

Meu cavalo chegou. E, pressentidos,
os caminhos me espiam de suas rédeas.
Meu cavalo chegou. Há quanto tempo
gasto-me em pés e olhos nesta espera...

Meu cavalo chegou. Eu despertava
quando o vento falou-me de seus cascos
e a poeira garantiu-me sua presença.

Meu cavalo chegou. Cumprir-me-ei.
Tanta gente cansada nessas cruzes...
Meu cavalo chegou. Mortos, montai!...


Leio o belo soneto e mergulho na sua simbologia, na sua mitologia. Cavalo, signo quente, masculino, sexual. Memória e nuvem, desejos na aurora, sobre a crina. Desejo, fome de tudo, engoliremos mundos. Pressentimentos dos caminhos, de suas rédeas de virtude e de vício, de seus cascos, da poeira, da presença. Meu cavalo chegou para acordar os mortos, tema sempre constante em Farias d'Ouro de Carvalho, tanta gente morta, tanta gente cansada nessas cruzes. O ponto é aqui. A vida contra a morte. O cavalo contra a poeira esquecida do caminho...

Pina Bausch

Capa e contracapa





Lucilene Gomes Lima. Ficções do ciclo da borracha no Amazonas: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL). Manaus, Editora da Universidade do Amazonas, 2009. 240p. ISBN 978-85-7401-458-6.


Lucilene Gomes Lima acabou de lançar o livro Ficções do Ciclo da Borracha no Amazonas, um estudo comparativo entre os romances A Selva, de Ferreira de Castro, Beiradão, de Álvaro Maia e O Amante das Amazonas, de Rogel Samuel. É sobre esse seu trabalho que ela nos fala agora.

Revista Literária – O que levou você a fazer esse estudo entre os romances A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas?
Lucilene Gomes Lima: Esses livros representam três momentos ou fases de uma produção quantitativamente expressiva sobre o ciclo. A Selva foi publicada em 1930 pelo autor, português, Ferreira de Castro. Elaborando ficcionalmente a experiência vivida num seringal amazônico, não se pode dizer que o autor dialogou com a produção anterior, de autores como Euclides da Cunha, Alberto Rangel, especialmente porque o contexto de produção em que estava inserido era o neo-realismo português. A Selva é a percepção de um autor europeu sobre a Amazônia, filtrada a partir de uma experiência de vida. O romance Beiradão, por sua vez, foi publicado em 1958, quando já estava publicada uma dezena de obras sobre o tema. A possibilidade de que Álvaro Maia tenha dialogado com essas obras não deve ser descartada, mas a mudança de enfoque na abordagem do papel do seringalista, quebrando o anátema da figura vilanesca tão ao gosto de autores que o precederam (Ramayana de Chevalier, Francisco Galvão) ocorreu mais seguramente pela percepção política e biográfica (o autor era filho de seringalista), o que o pôs no papel de redentor deste agente social, enquanto ser inescrupuloso, rude e sem visão. Portanto, a renovação empreendida por Álvaro Maia tem caráter político-ideológico superior ao caráter de diálogo e remodelação da estrutura narrativa e temática sobre o ciclo. O Amante das Amazonas, terceiro romance selecionado, publicado em 1992, é uma narrativa ficcional que acumula um diálogo com as obras posteriores. A própria mudança de direção quanto aos clichês e ao esquematismo dos aspectos em torno do ciclo já evidencia isso. Mas ainda que essa obra apresente uma mudança de ângulo na abordagem e na estrutura, guarda um ponto em comum com as outras duas – o papel da memória como propulsora da narrativa. O autor de O Amante das Amazonas, Rogel Samuel, é neto de Maurice Samuel, rico comerciante da borracha no século XIX. As memórias dessa era são, portanto, um legado familiar. O dado da experiência vivida ou revivida pela memória, direta ou indiretamente, comum aos três autores, e as abordagens que propiciaram mudanças no filão ficcional sobre o ciclo instigaram e promoveram a realização do estudo.

RL – Existem vários outros livros sobre o ciclo da borracha no Amazonas. Por que escolheu exatamente esses três?
LGL: O estudo que eu realizei abrange a produção ficcional sobre o ciclo da borracha, por isso, outras obras também são estudadas além das três mencionadas. A seleção dos três romances deu-se após a leitura extensiva das obras ficcionais sobre o tema. Após essa leitura é que surgiu a hipótese de que a produção ficcional sobre o ciclo não apresenta reformulação em seu enfoque. No entanto, nos romances A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas, o tema do ciclo recebeu um tratamento diversificado das demais obras, seja pelo aprofundamento e abrangência da abordagem, seja pelo rompimento de certos lugares comuns que criaram um filão em torno da repetição dos mesmos aspectos, seja ainda pela elaboração criativa, reformulando as estruturas ficcionais já desgastadas.

RL – A que conclusões chegou após fazer o estudo?
LGL: A principal conclusão é que o processo de aprofundamento do tema e diversificação das abordagens ficcionais não está condicionado necessariamente ao tempo em que as obras foram publicadas. A pesar de eu ter feito um recorte temporal de estudo, ao selecionar A Selva, Beiradão e O Amante das Amazonas, já que as data de publicação situam-se precisamente em décadas representativas do início, meados e final do século XX, penso que isso não ocorreu como forma de comprovar que as obras evoluíram no decorrer do tempo. Apenas coincidentemente as obras em que verifiquei e apontei um trabalho mais aprofundado e criativo em relação ao tema encontram-se situadas numa cronologia ascendente. A produção ficcional sobre o ciclo poderá ter muitas abordagens futuras, rompendo ou não com os clichês em torno do tema. O verdadeiro fator que contribui para a diversificação é a percepção aguda e criativa do autor.

RL – Como definiria a visão de cada autor sobre o ciclo da borracha?
LGL: A seleção das três obras pelo critério da diversificação ficcional sobre o tema também contemplou três visões distintas dos autores. As visões de Ferreira de Castro e de Álvaro Maia nos revelam não apenas a forma como trataram o tema do “ciclo da borracha”, mas também suas percepções sobre o lugar Amazônia. Ferreira de Castro logrou ser o autor que melhor soube elaborar, organizar e apresentar, didaticamente, o tema. Talvez porque seu conhecimento sobre a exploração foi resultante de sua própria experiência num seringal, a qual sua sensibilidade soube captar e encadear criticamente em forma de narrativa literária. Por outro lado, a percepção desse autor sobre a Amazônia ainda se manifesta dentro de uma concepção etnocêntrica, com todas as antigas dicotomias paraíso/inferno; civilização/selvageria que eram a tônica nos discursos de cronistas, cientistas e ficcionistas europeus. Álvaro Maia, autor nativo, não apresenta em sua obra os sobressaltos espantos que caracterizam a percepção do autor português. Sua naturalidade nesse meio está bem exposta na clássica foto em que aparece em uma canoa, remando, integrado a natureza e aos costumes de seu lugar. No entanto, como a evidenciar que o discurso etnocêntrico deixou profundas marcas no ser nativo, em Beiradão o autor, por intermédio de seu representante ficcional, o narrador, atribui as vicissitudes e as perversões no processo de desbravamento e exploração do meio amazônico às características de sua natureza selvagem e não aos agentes sociais que empreenderam esse processo. Ademais, é o engajamento político de Álvaro Maia com o Estado Novo que norteia a mudança de percepção sobre o papel do seringalista como um agente negativo no processo econômico de exploração da borracha. Sua visão redentorista desse agente revela uma política conciliatória entre patrão e empregado, omitindo os conflitos. Rogel Samuel, professor, analista literário promove uma diversificação no tratamento do tema a partir de suas concepções teórico-literárias, que podem ser percebidas em seu livro Crítica da Escrita. Daí o aspecto não linear da narrativa de O Amante das Amazonas, consoante a ficção moderna, o destaque dado não ao enredo, mas às personagens, a intertextualidade e o caráter metalingüístico do texto. O texto, ainda, não negligencia a abordagem de aspectos da colonização, tão bem representados em personagens como Maria Caxinauá, nas oposições entre as tribos dos numa e dos caxinauá, na própria dimensão mais ampliada das razões econômicas do ciclo, parte do contexto desta colonização.