sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O mar não tem tamanho, tem dimensão.







O mar não tem tamanho, tem dimensão.


Rogel Samuel


Quem consegue entender? Pois disse Dugpa Rinpochê: "Constrói uma ilha para ti e para
aqueles a quem amas, um templo, uma fortaleza inexpugnável... mas deixa a tua porta aberta dia e noite".

Que a porta está aberta, da fortaleza inexpugnável, do castelo, do templo, da ilha.

A porta da ilha é o amplo mar, com suas algas e ilhas e vôo de gaivota.

Toda a vez que penso, que vejo o mar me lembro do poema de Sebastião Norões, que foi meu professor de geografia.

“Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.
O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,
delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.
Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.”

O mar é isso, é a glória do espaço da liberdade, das ânsias de liberdade de voar, o mar antigo. O mar de Austrálias e de luzes. Viagens de Ulisses e de mancebos guapos, de heróis e de barcos bêbados de ondas. O mar dos azulejos de amestistas, o mar que era meu, o meu mar, o mar azul.

Nada mais belo do que isso: ser dono do mar, imaginar-se dono do mar. De quando o mar era meu, essa aspersão ampla e tamanha de tudo, essa viagem de longes, de langues, de anil e de esmeraldas balançantes.

O mar não tem tamanho, tem dimensão.

O mar é o amar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A mais alta realização



A mais alta realização

Rogel Samuel


O que seria a mais alta realização? P'ang Yün fixa uma imagem do que seria a mais alta realização. O passado, o presente, o futuro... o tempo é a realização suprema.

A realização é "mente vazia". Sem "saudade" do passado, sem apego ao presente, sem ansiedade pelo futuro. Deixar o presente se apresentar como é. A realidade (os dharmas aqui significam o real da realidade) não tem vida auto-consciente, inerente. A maior penetração é ver que nada "tem vida", nem mesmo o presente (que está passando). O passado não mais existe, o futuro nem ainda é.

E mais: tudo é como é. Não existe nada errado (a ser purificado), nem existe nenhuma ordem a ser mantida. Tudo é, ou está sendo. Tudo está passando (portanto não existe nada, algo que passa não pode ser considerado).



A mais alta realização (P'ang Yün)

O passado já é passado.
Não tente recuperá-lo.

O presente não permanece.
Não tente tocá-lo.

De momento a momento.
O futuro não vem;
Não pense nisto
Antes.

Tudo que vem ao olho,
Deixe que seja.

Não há nenhuma ordem
A ser mantida;
nenhuma sujeira a ser limpa.

Com a mente realmente vazia
Penetrante, os dharmas
Não têm nenhuma vida.

Quando você puder ficar assim,
Você completou
A mais alta realização.

(Trad. Rogel Samuel)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Por que viajar por essa porta?





Por que viajar por essa porta?

Rogel Samuel



Escreveu Dugpa Rinpochê: "Podes utilizar o instante como uma porta, e deslocar-te no tempo. Tudo é possível. Reencontrar-se com a idade de cinco anos, num quarto de criança, ou no pátio de uma escola, não é uma divagação pouco consistente, nostálgica. Estás realmente nesse quarto de criança, nessa escola, isto é, no Presente dessa época. É o segredo do Instante, a chave de ouro que abre todas as portas: tudo se passa no mesmo lugar, no mesmo tempo, no mesmo momento. Estamos realmente lá, e lá é aqui".



Por que viajar por essa porta? Ver a escadaria da minha escola "Princesa Isabel", em 1948, subindo para aquele espaço, onde D. Ivete Ibiapina nos esperava com seu cantar, e de lá avistar a praça, o espaço, o Ideal Clube, o palacete dos dois pianos, o monumento ao Congresso Eucarístico, e ao longe o rio, o Rio Negro, o Rio Sempre Negro, o Rio para sempre Negro, ameaçador como a morte, no centro do qual tudo gira, num rodopio de vida e de morte, onde tudo desaparece e reaparece, ou melhor, onde nada desaparece sem deixar o seu rastro: "o instante como um vazio rodopiante, no centro da roda da vida e da morte. Esse estado de ser nunca desaparece. Ele é a permanência, o fundamento, e, no entanto, move-se constantemente, sem nunca alterar a sua imobilidade irradiante", diz
o mesmo Dugpa Rimpochê.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Nenhuma noite é tão longa





Nenhuma noite é tão longa

Rogel Samuel



Escreveu Dugpa Rimpochê: "Mantém o teu espírito permanentemente na alegria do instante e o medo será destruído. Nenhuma noite é tão longa e escura que impeça a alvorada".

Nenhuma noite é tão longa que impeça a alvorada de surgir. Nenhuma noite é tão escura que não deixe de nascer o sol. A obscuridade da noite, por mais sinistra que seja, também passa.

Por que manter-se o espírito no instante?

- Porque o instante passa.

Nenhuma noite é tão longa: o dia nascerá. As épocas mais obscuras da História foram longas noites tenebrosas, obscuras, mas passaram.

O mundo do espírito, o mundo da mente, é o momento presente, onde tudo o ocorre.

Só o presente é eterno.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meditar na estrada


"Quando tu andas, abandona-te à estrada, com o espírito calmo, sem tensão nem agitação. A marcha é regeneradora. Utiliza-a como uma meditação", escreveu Dugpa Riompochê.

Caminhar, abandonar-se ao andar, ouvir o caminho, o silêncio do caminho.

A meditação andando é excelente.

No "Manual para a prática da meditação", escreveu BIKKU MANGALO:


"Entre as sessões da prática sentada,o meditador deve procurar um local tranqüilo, onde possa caminhar de lá para cá sem ser perturbado. Não precisa ser muito longo. Mesmo o nosso quarto, se não for pequeno demais, pode servir. Ou um corredor, jardim, salão, etc. O melhor neste exercício é que caminhamos mais lentamente do que o fazemos normalmente. A marcha deve ser, entretanto, tão simples e natural quanto permita sua velocidade. Durante o período de andar, de lá para cá, a atenção deve estar fixa no movimento das pernas e pés".
http://caminhodeshantideva.blogspot.com/2009/07/manual-para-pratica-da-meditacao.html

domingo, 13 de setembro de 2009

Wittgenstein

Escreveu Dugpa Rinpochê: "Não oponhas o visível e o invisível, o mundo material e o mundo do espírito. Seria como afirmar que o gelo não é água". Que dizem nossos olhos sobre o visível e o invisível? Onde está o limite que separa, a que podemos chegar, entre o pensável e o além? Eu me lembro de um belo texto de Heidegger sobre a questão desse limite. Heidegger e Wittgeinstein pensaram o limite. "O pensamento contém a possibilidade do estado de coisas que ele pensa. O que é pensável é igualmente possível", escreveu Wittgeinstein. Transcrevo aqui a súmula que fiz para meus alunos da tradução de Authur Gianotti do:



TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS DE WITTGENSTEIN (1918/1921)

Trad. José Arthur Gianotti


Sinopse feita por Rogel Samuel



O mundo

1 - O mundo é tudo o que ocorre.
1.1 - O mundo é o conjunto dos fatos, não das coisas.
1.11 - O mundo é determinado pelos fatos, estes fatos sendo a totalidade dos fatos.
1. 12 - Porque a totalidade dos fatos determina aquilo que ocorre e também aquilo que não corre.
1. 13 - Os fatos, no espaço lógico, constituem o mundo.
1. 2 - O mundo se decide em fatos.
1. 21 - Algo pode ocorrer,ou não ocorrer e todo o resto permanecer igual.
2 - O que ocorre, o fato, é a existência de estados de coisas.
2.01 - O estado de coisas é uma ligação de objetos (entidades, coisas).
2.011 - É essencial para a coisa poder ser parte integrante de um estado de coisas.
2.012 - Em lógica nada é acidental: se a coisa pode aparecer dentro de um estado de coisas é necessário que a possibilidade do estado de coisas esteja previamente inscrito na coisa.


Os objetos

2.02 - O objeto é simples.
2.0201 - Cada enunciado sobre complexos se sobre complexos pode decompor em um enunciado proposições que descrevem integralmente os complexos.
suas partes constitutivas e naquelas
2.021 - Os objetos formam a substância do mundo. Eis porque não podem ser compostos.
2.0211 - Se o mundo não tivesse ponto de substância, o fato de saber se uma proposição tem sentido dependeria de saber se outra proposição é verdadeira.
2.0212 - Seria impossível de projetar uma imagem do mundo, verdadeira ou falsa.
2.022 - É evidente que tão diferente que pudesse ser do mundo real um mundo imaginário ele deve ainda assim ter alguma coisa de comum -- uma forma -- com o mundo real.
2.023 - Esta forma estável consiste em objetos.
2. 0231 - A substância do mundo só pode determinar uma forma, e não propriedades materiais já que estas propriedades materiais são representadas pelas proposições, formadas pela configuração dos objetos.
2.0232 - Seja dito de passagem: os objetos são incolores.


Os estados de coisas

2.03 - No estado de coisas os objetos se ligam uns aos outros como elos
de uma cadeia.
2.031 - No estado de coisas os objetos se comportam uns em relação aos outros de uma maneira determinada.
2.032 - A maneira pela qual os objetos se ligam no estado de coisas constitui a estrutura do estado de coisas.
2.033 - A forma é a possibilidade da estrutura.
2.034 - A estrutura do fato consiste nas estruturas dos estados de coisas.
2.04 - A totalidade dos estados de coisas existentes é o mundo.
2.05 - A totalidade dos estados de coisas existentes determina igualmente que tipos de estados de coisas não existem.
2.06 - A existência e a inexistência de estados de coisas constituem a realidade.
(A existência de estados de coisas nós a chamamos também de fato positivo, sua inexistência de fato negativo.)
2.061 - Os estados de coisas são independentes uns dos outros.
2.062 - Da existência ou não-existência de um estado de coisas não
é possível concluir a existência ou não-existência de outro.
2.063 - A realidade total é o mundo.


A imagem

2.1 - Nós nos fazemos imagens dos fatos.
2.11 - A imagem representa o fato no espaço lógico, a existência e a não-existência dos estados de coisas.
2.12 - A imagem é uma transposição da realidade.
2.13 - Na imagem os elementos da imagem correspondem aos objetos.
2.14 - A imagem reside no fato de que seus elementos têm ligações determinadas uns com os outros.
2.141 - A imagem é um fato.
2.15 - O fato de que os elementos da imagem têm ligações determinadas uns com os outros se relaciona ao fato de que as coisas se comportam da mesma maneira umas com as outras.
Esta conexão dos elementos da imagem nós a chamamos sua estrutura, e a possibilidade dela sua forma de representação.
2.151 - A forma da representação é a possibilidade de que as coisas se comportem umas com as outras como os elementos da imagem.
2.1511 - A imagem se enlaça com a realidade; ela a atinge.
2.1512 - É como um padrão de medida que se aplica à realidade.
2.15121 - Somente os pontos extremos dos traços que dividem a superfície estão em contato com o objeto a medir.
2.1513 - Segundo esta concepção, pertence igualmente à imagem a relação de representação que a torna uma imagem.
2.1514 - A relação de representação é constituída pelo modo por que os elementos da imagem se coordenam com as coisas.
2.1515 - Estas coordenações são espécies de antenas dos elementos da imagem, pelas quais as imagens entram em contato com a realidade.
2.16 - O fato de ser imagem implica que haja alguma coisa comum entre a imagem e aquilo que ela representa.
2.161 - É necessário que na imagem e naquilo que ela representa haja qualquer coisa de idêntico, para que uma possa:ser uma imagem do outro no sentido preciso do termo.
2.17 - Aquilo que a imagem deve ter de comum a fim de que a possa representar à sua maneira com é a forma da representação.
2.171 - A imagem pode representar cada realidade da qual ela tem a forma A imagem entendida no espaço pode representar tudo o que é espacial, a imagem colorida tudo o que é colorido etc.
2.172 - Entretanto a imagem não pode representar sua própria forma de representação: ela apenas a mostra.
2.173 - A imagem representa seu objeto de fora (seu ponto de vista constitui sua forma de representação); eis por que a imagem representa o objeto de modo justo ou falso.
2.174 - A imagem, porém, não poderia representar-se fora de sua forma de representação.
2.18 - Aquilo que cada imagem, de qualquer maneira que seja, deve ter em comum com a realidade, para absolutamente podê-la representar -justamente ou falsamente -- é a forma lógica, isto é, a forma da realidade.
2.181 - Se a forma da representação é a forma lógica, a imagem se chama imagem lógica.
2.182 - Toda imagem é também uma imagem lógica (entretanto, nem toda imagem
é espacial).
2.19 - A imagem lógica pode representar o mundo.
2.2 - A imagem tem em comum com o objeto representado a forma lógica da representação.
2.201 - A imagem representa a realidade porque ela representa uma possibilidade de existência e de não-existência de estados de coisas.
2.202 - A imagem representa uma possibilidade de estado de coisas no espaço lógico.
2.203 - A imagem contém a possibilidade do estado de coisas que ela representa.
2.21 - A imagem concorda ou não com a realidade: ela é fiel ou infiel, verdadeira ou falsa.
2.22 - A imagem representa aquilo que ela representa independentemente de sua verdade ou de sua falsidade; por meio de sua forma de representação.
2.221 - Aquilo que a imagem representa constitui seu sentido.
2.222 - No acordo ou no desacordo do sentido da imagem consiste sua verdade ou sua falsidade.

O signo proposicional

3. A imagem lógica dos fatos constitui o pensamento.
3.001 - "Um estado de coisas é pensável" significa: nos podemos fazer-nos dele uma imagem.
3.01 - A totalidade dos pensamentos verdadeiros constitui uma imagem do mundo.
pensamento.
3.02 - O pensamento contém a possibilidade do estado de coisas que ele pensa. O que é pensável é igualmente possível.
3.03 - Nos não poder1amos pensar nada ilógico porque dessa forma teriamos de pensar ilogicamente.
3.031 - Alguém disse que Deus poderia tudo criar menos aquilo que contrariasse as leis lógicas. Com efeito, nós não poderíamos dizer como seria um mundo "ilógico".
3.12 - Chamo signo proposicional ao signo pelo qual exprimimos o pensamento.
3.144 - É possível descrever situações, impossível entretanto nomeá-las. (Os nomes são como pontos; as proposições são como flechas, elas têm um sentido).
3.202 - Os signos simples empregados nas preposições são chamados nomes.
3.221 - Eu não posso nomear os objetos. Os signos os representam. Eu só posso falar dos objetos. Eu não saberia pronunciá-los. Uma proposição só pode dizer de uma coisa como ela é, não o que ela é.
4.001 - A totalidade das proposições é a linguagem.
4.023 - Por meio da proposição a realidade é fixada enquanto sim ou enquanto não. A realidade é completamente descrita por ela. Assim como a descrição de um objeto se dá segundo as suas propriedade externas, a proposição descreve a realidade segundo suas propriedades internas. A proposição constrói o mundo com a ajuda de andaimes lógicos.
4.116 - Em geral tudo o que pode ser pensado o pode ser claramente. Tudo o que se deixa exprimir, deixa-se claramente.
4.12 - A proposição pode representar a realidade inteira, mas não pode representar o que ela deve ter em comum com a realidade para poder representá-a -- a forma lógica.
Para podermos representar a forma lógica seria preciso nos colocar, com a proposição, fora da lógica; a saber, fora do mundo. O que se exprime na linguagem não podemos expressar por meio dela. A proposição mostra a forma lógica da realidade. Ela a exibe.
4.1212 - O que pode ser mostrado não pode ser dito.


sábado, 12 de setembro de 2009

FALECE ANTONIO OLINTO




Soneto de Natal de Antonio Olinto

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
Machado de Assis

Mudaria o Natal ou mudo iria
Mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
Novidadeiro, múltiplo, daria
Ao mudadiço mito da alegria
Em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
De mucama, de verso, pouso, dia,
Porque a muda modula esse desnudo
Renascimento em palha, e molda e afia
O instrumento da troca, o fim miúdo,
A noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
Ou somente o Natal me mudaria?

Nova York, Natal de 1965

"Tempo de Verso" - poesia - 1992


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O canto do rei






O canto do rei

Rogel Samuel


Depois de um elogio de Neuza Machado ao poema de Walmir Ayala abaixo, volto àqueles versos de mãos limpas de ouro, mas que sobrevivem a cada manhã fabricando seu próprio sol, rei pássaro matinal que tenta no desespero voar, e se pergunta, pária, que se condena ao estado de rei-mendigo onde claudica, ele, como pássaro, abre a sua canção ao espaço (oblíquo) de seu desusado jardim, demodê, "o coração já não se usa" (disse um poeta), pois não sendo ele-mesmo um jardineiro do chão, faz dos astros as suas flores a cada aurora, mar onde mergulha, mar onde adere, e onde naufraga, invertido (os mastros se mergulham primeiro, ao naufragar), e na sua esquadra feita de só de quilhas, no peso dessas quilhas está seu ouro, sua riqueza, suas luas, as luas do seu reino, as luas do seu reino de estrelas, que se desbobram cada madrugada como um pálio de párias, que poeta!


CANTO DO REI

Rico de ouro não sou, porém. fabrico
o sol cada manhã, estendo penas
(pássaro matinal) e atinjo antenas
de desespêro no meu vôo ubiquo.
Se tu, pálio de párias, me condenas
à rude mendicância onde claudico,
abro a minha canção no espaço oblíquo
das tuas superadas açucenas.
Jardineiro não sou. Feitor dos astros,
recrio minha aurora de aderências
na prematura submersão dos mastros.
Nas quilhas dêstes barcos que me sobram,
é que o sol dos meus ouros se conforma,
e as luas do meu reino se desdobram.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O PAPEL EM BRANCO


O papel

Rogel Samuel


O papel em branco pede o poema, o papel, pressagia o sonho, o papel, incita à escrita, o papel, nítido e branco, é uma superfície branca, de uma vida nova, que ainda vai nascer, o papel, onde nada existe, nem está escrito, o papel, me deixa vigilante, em silêncio experto, no sem-pensamento, o papel, onde me deito, em que espero lento, pingo na tinta, como que desenho, o papel, linhas finas magras, requebradas linhas, onde me descrevo, o papel, os meus dedos finos, parecem se alegram, como estar na praia, roupa de brim branca, sob o sol lavada, o papel, etc.

O PAPEL EM BRANCO




João Cabral de Melo Neto



Esta folha branca
Me prescreve o sonho;
Me incita ao verso
Nítido e preciso.

Não é a morte
Que a faz deserta;
É branca de vida
Ainda por nascer.

Eu me refugio,
Nessa sala nua
Onde nada existe
Que o tempo gaste.

Fico em silêncio,
Vigilante, desperto.
Ah, não ter pensamento,
Palavras ou obras.

Que amanhã esqueça
(Mortes parciais)
Que amanhã descubra
(De mim mesmo o próximo).

Nessa folha branca,
Em desenho me deito,
Magro ser de linhas
E dedos finos.

Pareço estar alegre
De me saber na praia,
Roupa de brim branco,
Camisa lavada;

Ou do sol, que não é
Lâmpada que se acende
Para afugentar os sonhos
Que povoam o quarto.

Essa folha branca
É também paisagem
De que sei traçar
Toda a geografia.

Tudo aí existe
Possível e futuro:
Acidentes de terreno
De trânsito e amor.

Nessa folha branca
Um menino um dia
Descobriu-se livre
De tudo inventar.

Os cabelos nos olhos
Não deixavam ver
Que era menino triste
Sempre por chorar.

Menos quando um lápis
Entre os dedos sujos
De tinta, viajava livre
Nesse mapa virgem.

Nessa folha branca
Agora, poeta, escreve
Versos que contêm
Sempre a palavra: branco.

O poema no corpo
Se aproxima tímido
Para grafar o mundo
Que deseja branco.

Sem compreender
Que o poema, talvez,
Seja o deserto branco
Que sua mão destrói.

(Donde pois o tédio
Que é o verso feito?
Por que só arrependimento
Vem da folha escrita?)

Ante a folha branca
Impossível é evitar
O pensamento de sal,
De luz, de saúde.

Nem sempre esse sol
É o sol natural,
É o sol de aspirina,
Pequenos discos brancos.

Mas é sol: espanta
Os fantasmas, e as sombras
Fogem de sob as coisas
Como ao meio-dia.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Walmir Ayala



Sou de uma geração que cultuava o poeta e crítico de arte Walmir Ayala. Grande poeta hoje esquecido nas vagas gavetas empoeiradas dos sebos e das antigas casas. Ayala era inteligente, ágil, meio gordinho (quando o vi). Aliás a única vez que o vi pessoalmente foi na sala de aula do mestre Alceu Amoroso Lima. Ayala assistiu ao curso de Cultura Brasileira do mestre Alceu, junto com outras personalidades. Sentado discretamente ali atrás, entrava e saía em silêncio, discreto, elegante, moderno. Ayala foi o primeiro intelectual moderno do Brasil, no sentido de sua pessoa e no seu modo de vestir, de ser, de ousar, rompendo uma tradição machista. Era um poeta. Um poeta excelente. Creio que nunca será esquecido.



CANTO DO REI

Rico de ouro não sou, porém. fabrico
o sol cada manhã, estendo penas
(pássaro matinal) e atinjo antenas
de desespêro no meu vôo ubiquo.

Se tu, pálio de párias, me condenas
à rude mendicância onde claudico,

abro a minha canção no espaço oblíquo
das tuas superadas açucenas.
Jardineiro não sou. Feitor dos astros,
recrio minha aurora de aderências
na prematura submersão dos mastros.

Nas quilhas dêstes barcos que me sobram,
é que o sol dos meus ouros se conforma,
e as luas do meu reino se desdobram.

Leia mais em

http://historiadosamantes.blogspot.com/2009/09/walmir-ayala.html

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A luz das coisas ocultas




A luz das coisas ocultas

Rogel Samuel


"Não existe a oposição noite e dia, passado e futuro. O sol e a lua brilham ao mesmo tempo. As coisas que não se vêem têm também a sua luz", escreveu Dugpa Rinpochê.

Estamos no mesmo tempo presente, onde passado e futuro se encontram e se manifestam. Os três tempos são um só, a vida só tem uma face: a presença, o instante presente. Não existe a oposição entre noite e dia, passado e futuro, sol e lua. Tudo está aí, ao mesmo tempo está aí, estamos ao mesmo tempo em vários lugares do mundo. Não há divisão entre eu e você, entre sujeito e objeto, entre isso e aquilo. Tudo é um só elemento, brilha na mesma luz, soa na mesma música, canta a mesma canção. O modo do mundo é sua unidade.

domingo, 6 de setembro de 2009

Khrisnamurti



Diz de Khrisnamurti, o filósofo indiano: "Ninguém pode aprisionar um homem livre. Podem arrancar-lhe os olhos, pô-lo no fundo da masmorra, mas interiormente ele é livre".

Como é isso? Que é a liberdade? Como medir o espaço da liberdade? É possível, a liberdade? Quem é livre não pode voltar à prisão nunca. Lá ele continua livre. O grande medo dos governos e das ditaduras é o homem livre. Ele está livre de crenças, de parâmetros, de conceitos, do seu próprio saber, da verdade, da religião, da moral, das marcas do passado.

Livre do passado, ele é livre de tudo, até livre de si mesmo, de seu conceito de "eu".

Livre do certo e do errado, da tradição e do erro, ele deve feito de luz, da luz da vacuidade, da luminosidade absoluta dos mil sóis.

Quem sabe como ele é?

A liberdade é invisível.

sábado, 5 de setembro de 2009

O sol do meio-dia


"O sol do meio-dia, na sua alegria, a sua apoteose, brilha para toda a gente. Distribui prodigamente as suas riquezas. Mantém-te no zénite da tua vida, e serás inesgotável, para ti e para os outros.

Não é necessário ter um domínio total de si, um conhecimento profundo do coração, para dar aos outros. O dom mantém-se na superfície dos lábios, ao virar de um gesto. É fácil de levar. Cresce na inocência e na luz. Partilhar, é multiplicar as ocasiões de felicidade.

A alegria não é uma paixão humana, violenta, que se instala por um breve instante e desaparece imediatamente. Ela é a sabedoria inerente ao ser humano, a luz do coração, o seu cintilar na vida de todos os dias" diz Dugpa Rinpochê.

Quem bem vive rindo brilha para toda a gente, distribui sua melhor riqueza, sua luz, sua felicidade, espalha e deixa um rastro perfumado de felicidade, de brilho.

Ele recomenda mantermo-nos no zênite de nossas vidas, ou seja, sempre no nosso clímax, para dar aos outros o nosso brilho e a nossa luz.

Essa luz se mantém no que os lábios dizem, na gestualidade.

A alegria não deve ser passageira, mas devemos aprender a mantê-la, é uma espécie de sabedoria humana.

Gosto desses textos.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Hollywood



Hollywood

Rogel Samuel

Certamente aqueles dias em que estive na bela casa de minha amiga Maíra foram dias felizes. Principalmente as praias, Malibu, e as outras. Foram 15 dias de farra. E Hollywood, que era bem perto, com suas belas calçadas com e sem fama, cheias de gente bonita e feliz. Jovens com carros esportes conversíveis, caríssimos, nos bares. Todo mundo parece muito rico, ali. Ou parecia. A vida luminosa, transparente. Subimos com Maíra até aquele letreiro "Hollywood", que fotografei. Éramos bons turistas, fazíamos tudo com alegria.

Até um templo budista visitamos, uma gompa gelugpa. Estava fechada, mas o encarregado abriu para que visitássemos.

Vida estranha, imagens vivas. Não, não se repetem.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Hollywood and Highland Center




H&H

Rogel Samuel


Hoje falo de um lugar, de um Shopping: o Hollywood and Highland Center, em Hollywood, onde fui várias vezes com minha amiga Maíra, que lá estava morando, e agora voltou para o Brasil.

Ele tem um enorme e horroroso Elefante. Uma estátua gigantesca, perto do Kodak Theatre.

O Elefante é o seu signo, e dispõe de um Cartão Elefante.

E tem um site, o
http://www.hollywoodandhighland.com/

Típico americano. Um hotel, o Renaissance Hollywood Hotel & Spa, com 640 apartamentos.

Por que lembrar daquele lugar? Por causa de um café, que lá não mais existe: o Café Mozart.

Certamente um café para ser lembrado, dentre o rol de cafés famosos: o Hard Rock Cafe, O Café de Flore, o Café de la Musique, O Café de la Paix...

Pequeno, aconchegante, íntimo, Maíra e eu conversamos naquele café nossas saudades do Brasil, e eu nunca me esqueci.

Assim também com Neuza Machado, no Café de Flore, numa noite de estrelas, em Paris.


Mente em paz


Mente em paz

Quando a mente está em paz
o mundo também está.
Nada é real, nada ausente,
nada se apega à realidade
nada se apega à vacuidade,
você não é santo ou sábio, apenas
alguém que completou o seu trabalho.


P'ang Yün (龐蘊 Hõ Un) (The Enlightened Heart 34)

É possível? O mundo é o reflexo do que eu penso. A paz é algo interno, e vacuidade, diz o poema. Nada se apega a realidade, nem a santidade nem a sabedoria, só a naturalidade. Quem é o iluminado? Apenas alguém "que completou o seu trabalho".

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O amor não tira nada


"O amor não tira nada. Dá." Dugpa Rimpochê resume o enorme Everest que é o amor a 6 palavras, sucinto, hermético, enigmático, mas tão claro, tão forte, tão elementar, que dá para escrever na sua superfície de translúcido cristal - o amor nada tira, nada subtrai, nada diminui, nada recusa, nada nega ou omite ou esconde ou trai - o amor nunca trai, que ama nunca trai o amante, nunca o nega, prefere morrer a negá-lo, como disse o Jesus: "Minha vida ninguém a pode tirar, eu espontaneamente a dou" -e isso é o amor em seu esplendor solar, movendo o sol e as outras estrelas.

sábado, 29 de agosto de 2009

Vontade de cantar


"Aprenda a olhar. A chave da felicidade está no olhar e no ouvir. Ouça o silêncio da paisagem do vale e das montanhas sem o pensamento, sem a rede do pensar. Quando não há “eu” nasce a felicidade, a luminosidade"(Lundrup Tashi).

Que é olhar? Como é olhar? Olhar é sair de si no objeto olhado. Ver a beleza o objeto, da luz, da cor, da montanha, do sol, da noite.

É difícil saber olhar, olhar sem pensamento, só olhar, sem julgar analisar pensar verbalizar.

Se vejo um ser belo e penso: "Que bela mulher!" já estou pensando, já não estou vendo.

A arte nos ensina a olhar. A pintura, a fotografia, a poesia.

Drummond escreveu:

“Bela
esta manhã sem carência de mito
e mel sorvido sem blasfêmia.
Bela
esta manhã ou outra possível
esta vida ou outra invenção
sem, na sombra, fantasmas.
Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.
Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.” —

Carlos Drummond de Andrade, “Novos poemas”, 1948.

A beleza não precisa de mito, invenção, fantasmas. A beleza não é “vista”, mas engolida. “Valvas, curvos pensamentos”, são as mulheres da praia, da praia de luz azul, completa. Ver é vontade de cantar, mas absoluta, “que me calo, repleto”.

“Ouça o silêncio da paisagem do vale e das montanhas sem o pensamento, sem a rede do pensar. Quando não há “eu” nasce a felicidade, a luminosidade".

(Imagem, "retrado do filho", Picasso, encontrado no Fingidor de Zemaria Pinto)

A velha casa e seus poemas

A meu poema "casa abandonada", o poeta Jefferson Bessa escreveu uma resposta:

casa abandonada (Rogel Samuel)


as janelas estavam assassinadas
assistiam a tudo
ao mar, às aves, à montanha
nunca mais fechadas
fecundas de vento
arrebatadas de sol
batidas pelo firmamento
e as janelas nunca mais se fecharam
porque não havia ninguém mais lá dentro
porque os poros da casa se abriram
às verdejantes trepadeiras
que cobriam todo passado


----------------------

Esta casa (Jefferson Bessa)

Esta casa é
O abrigo do poema.

E respiram estas paredes
A verde-planta do tempo.
Crescem por sobre a casa
O olhar presente do passado
De entre-ver nossas janelas
Que não se trancam mais.
Por lá não ter ninguém
É que elas me olham.
Por nenhuma noite mais
Fecharei minhas cortinas.

Este poema é
O abrigo desta casa.

-----------------

Minha resposta (Rogel Samuel)

Por lá não há mais ninguém
nesta casa abandonada
nem os fantasmas esguios
nem as fadas enamoradas
nem mendigos nem ninguém
mesmo o tempo por lá não encosta
mesmo as recordações se desfazem
as memórias as cansadas
naves da madrugada
cinzas do que passou
solidão das marés
esquecimento e silêncio



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Abandonar-se ao amor?

"Abandona-te ao amor, mesmo se não lhe conheceres a finalidade misteriosa. Libertar-te-á do teu medo e cobrirá de sol todos os teus actos" (Dugpa Rinpochê).

Abandonar-se ao amor? Que é o amor? Que coisa é o amor? De que está falando Dugpa Rinpochê? Do amor ou da aceitação do amor? Do amor? Da aceitação em si? O que é aceitar aquilo que é senão abandonar-se? Vejo uma flor e a aceito bela, isto é amor? O amor nos liberta do medo? Medo de quê? Por quê? O que é o medo?

Parece que nada disso tem palavra, tem resposta. Eu pelo menos não o sei. Quem sou eu para saber o que é o amor, o medo?

Lembro-me de "Amor e medo", de Casimiro de Abreu, poeta de minha predileção.

Amor e Medo

Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
— "Meu Deus! que gelo, que frieza aquela!"

Como te enganas! meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo,
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes.
Das folhas secas, do chorar das fontes,
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios,
E ao vento fresco do cair das tardes,
Eu me estremece de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea — ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia:
Diz: — que seria da plantinha humilde,
Que à sombra dela tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

Ai! se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas! ...

Ai! se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos — palpitante o seio!...

Ai! se eu te visse em languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trêmula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

Diz: — que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca — sobre um chão de brasas!

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara com meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois... desperta no febril delírio,
— Olhos pisados — como um vão lamento,
Tu perguntaras: que é da minha coroa?...
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...

Oh! não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela — eu moço; tens amor, eu — medo!...


quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Rir da desgraça?

"É bom manter o otimismo, aprendendo a rir até da própria desgraça. Não há desgraça que sobreviva a uma boa gargalhada. "Sempre poderia ser pior"(Lundrup Tashi).

Rir da desgraça? Rir, ironizar a dor, mantendo o otimismo?

Diz um provérbio tibetano: "Se o problema tem solução, para que se preocupar? Se o problema não tem solução, para que se preocupar?

O tibetanos aprenderam a sorrir. Em Katmandhu, você vai andando por uma rua de Bhoudanath, reduto tibetano, e as pessoas abrem um largo sorriso ao encontrar você, como se você fosse um velho conhecido. Mas eles são todos pobres exilados, às vezes miseráveis.

Essa história de que "rico ri a toa" não é lá muito verdadeira.

Enfim, olhar a própria pena: "Sempre poderia ser pior".

(risos)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Anibal Beça





Anibal Beça

Rogel Samuel


Anibal era um daqueles amigos que eu via raramente. Mas quando nos encontrávamos era como se sempre estivessem juntos.

A última vez que o vi foi no Armando, quando fui até a sua mesa elogiá-lo por sua participação no CD de Luiz Baccelar.

Faz anos, muitos anos.

Recentemente ele me mandou um email com poemas e inscreveu-se na minha lista de "seguidores do blog", onde ele está agora.

Anos antes, ele estava no nosso antigo "Site do escritor".

Por duas vezes estive em sua casa. Na primeira vez, há décadas, fui almoçar (eram famosos seus almoços, suas peixadas...).

A segunda vez foi num grupo de escritores para o encontro político com Thiago de Mello. Estavam todos lá, os escritores todos, os amazonenses, em torno do Thiago.

Anibal eram um grande poeta, premiado poeta.

Recebo de minha Amiga Amelia Pais o seguinte soneto:

"A manhã


A manhã nasce entre as muitas janelas
invadindo meu corpo fatigado,
sede dos meus caminhos sem cancelas,
na luz de muitos astros albergados.

Casa onde me recolho das mazelas,
dos louros, derroteiros, lado a lado,
para ouvir de mim, franco, das seqüelas:
Ecce Homo! Eis o triste camuflado.

Essa tristeza de há muito em residência
às vezes se constrói em face alegre
máscara sem eu mesmo em aparência

num carnaval escuro no seu frege.
O que me salva, cor nessa vivência,
é saber que a poesia é quem me rege.



outubro 3 de uma manhã chuvosa
na primavera amazônica.


Aníbal Beça -N.13 Set 1946/F. 25 de Agosto de 2009

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Pela vida dos outros

"O importante é não ficar pensando muito em nós mesmos, nos nossos problemas, na nossa vida. A chave da felicidade é não pensar em si mesmo o tempo todo, mas voltarmos para o exterior, para os outros, para a vida dos outros", diz Lundrup Tashi.

Que significa isso?

Nós aumentamos nossos problemas, pensando-os?

Nesse sentido, o homem mais feliz é o político, o que pensa na comunidade, na sociedade.

Político para nós é corrupto... Que engano!

O verdadeiro político luta pelos outros, pela sociedade.

Pela vida dos outros.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Da felicidade sem medo

"A felicidade entrega-se àquele que venceu o seu medo de viver, e que considera a sua vida como uma chama sagrada, na longa continuidade das eras" (Dugpa Rinpochê).

A vida é sagrada? Para ele, sim. Um luz sagrada, na longa continuidade das eras.

Difícil de acreditar.

Porém, quando ele diz que a felicidade se entrega àquele que não tem medo de viver, nós reconhecemos o fato.

Lembro-me de um amigo, cujo nome não posso ou não devo confessar, que, depois de se saber com uma doença gravíssima, em vez de se deixar mergulhar no desespero, deu uma virada existencial e se tornou vitorioso, e até quase rico.

Anthony Burgess escreveu "Laranja mecânica" depois de se saber com um câncer.

domingo, 23 de agosto de 2009

Somente o instante é eterno

"Somente o instante é eterno. Nunca apreciamos plenamente o instante", diz Dugpa Rinpochê.

Qual o apelo do instante?

Por que o instante é o eterno?

O passado é passado, nada vale. Já passou. É lembrança.

O futuro não existe, é invenção do pensamento, é fantasia, nunca será como nós o pensamos.

sábado, 22 de agosto de 2009

Do amor


Diz Dugpa Rinpochê: "Quando se ama com verdadeiro amor, a presença do ser amado é ressentida ao mesmo tempo como um sofrimento e como um prazer. É o duplo combate da sombra e da luz. Uma ameaça acrescenta-se à tua alegria, um sombrio pressentimento de fracasso que te torna infeliz. Considera a alegria e a tristeza como as duas cores de um mesmo ramo. Que uma não se erga contra a outra, e o teu amor será salvo".

Que entenderá do amor um monge budista? Ama um monge budista? Sofre as emoções do amor e da paixão, como todos nós?

Parece que sim. Sim.

Para ele, a presença do amado levanta um sentimento duplo, contraditório, dois sentimentos contraditórios, sofrimento e prazer. Sombra e luz. Uma ameaça e uma alegria, um sombrio pressentimento de fracasso e uma leva de luzes de alegria.

Considerando os dois lados como dois lados da mesma natureza, o amor é salvo, intacto. Abandonando os dois sentimentos ao seu verdadeiro estado, vivemos o amor.

E o amor "recomeça o mundo, em cada instante" diz ele.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Tufic: Pacote poético








Tufic: Pacote poético

Rogel Samuel


(Foto do blog http://palavradofingidor.blogspot.com/)

(Rio, 30 de setembro de 1999)Recebo um pacote pelo correio, um pacote amarelo que apalpo e que sinto, há objetos dentro, possivelmente livros: sim, são cinco novos livros de Jorge Tufic que eu lhe pedi pelo telefone e eu fico me lembrando que, há quarenta e três anos atrás, ele publicava o seu já clássico Varanda de pássaros.

Como pode Jorge Tufic manter 43 anos ininterruptos de poesia apesar da crise por que passa a produção cultural brasileira e a amazonense em particular? Porque depois daquele grupo do Clube da madrugada muito pouco produziu a poesia de Manaus.

Eu adolescente e Tufic já era dono de uma poderosa poesia que se afirmava principalmente nos seus sonetos extraordinariamente inovadores. Na década de 80 nós nos correspondíamos, depois ele se foi para Fortaleza e o perdi de vista. Soube que foi homenageado no Rio de Janeiro, onde moro, mas não o vi porque estava viajando.

A última vez que o encontrei foi no ano passado, em Manaus, no Galo carijó, onde gosto de almoçar sempre que estou em Manaus (também deparei ali com o Thiago de Melo, donde se conclui ser aquele bar um ponto da poesia presente).

Agora, além de seus cinco livros, vieram várias pequenas publicações, entre as quais o belíssimo Agendário de sombras, uma coleção de sonetos dos quais cito, ao acaco:

Necessito do rio e da paisagem
que me vira partir quando menino.
da visão surpreendida ou desse quanto
pode haver em redor do meu destino.
eram coisas e seres do meu tempo,
partes de mim que a vida, em seu balanço,
foi deixando passar, nuvem sujeita
aos ventos, matéria sujeita ao ranço,
rubros sóis de verão, coleita breve
de azeitonas e ocasos, também contam.
Soldado entregue ao chumbo dos brinquedos,
ao som, talvez, das águas deste inverno,
quero sentir na pele evanescente
como eu seria agora, antigamente.

Ao poetas menores como eu, Tufic humilha, com a força da sua Linguagem: mas como pessoa ele tem a gentileza dos mais nobres corações e nos brindou com imerecidas dedicatórias. Dentre sua produção recente, no ano passado ele publicou Sinos de papel, um delicioso livro de haikais que bastaria para o consagrar:

Paineira caiada
Por uma lua de espuma
Tão cheia de nada.

Jorge Alaúzo Tufic nasceu no dia 13 de agosto de 1930 e publicou seu primeiro livro aos 25 anos. A Amazônia dele se orgulha.



(Rio, 30 de setembro de 1999)



Famoso livro é o seu "Retrato de Mãe", de onde tirei alguns poemas que se tornaram famosos
na web depois de publicados no meu antigo "Site do escritor", o primeiro a por na Internet
os escritores amazonenses. Todos os anos, no dia das mães, alguns sites como o BLOCOS ONLINE
publicavam esses poemas de homenagem às mães:




1

Venham fios de luz, aromas vivos
misturar-se às palavras, à centelha
do louvor mais profundo deste filho
que se depura e sofre com tua ausência.
Venha o trigo do Líbano, a maçã
de que tanto falavas; venha a brisa
tecer, mediterrânea, esta saudade
que vem de ti quando por ti me alegro.
Que venha a primavera, saturando
vales, planícies, colorindo os montes,
noites de luar caiando os muros altos.
Venha a pedra da igreja onde ficaste
quando em febre te ardias. Venham lírios
rebrotados de ti, dos teus martírios.

2

Teus cabelos castanhos, tuas tranças
fazem lembrar as madres de Cartago.
Doce mãe, sombra tépida, murmúrio
de sonâmbulas fontes; poucos sabem
teu nome, enquanto, fatigada embora,
dás-nos o pão, o leite, a flor e o fruto.
Poucos sabem te amar enquanto viva
e, quando morta, poucos também sabem
da fraqueza que em forças transformavas.
Ai, retrato de mãe, quanto mistério

se converte na tímida lembrança
destes álbuns que lágrimas sulcaram.
Na verdade, Ramón, só de lembrá-la
um soluço arrebenta-nos a fala.

3

Lentilha, azeite doce, o acebolado
chia na frigideira de alumínio;
a casa está repLeta de convites
a janta frugal e acolhedora.
Nos arredores brinca o vento; a cerca
divisória, talvez, nada separa.
Vizinhando quintais vozes fraternas
cantam, mandam recados de ternura.
Assim te vejo, mãe, rosto suado
na lida da cozinha ou pondo a mesa.
Terrinas de coalhada, o pão redondo
a recender de ti, mais que do trigo.
Calendário sem datas, chão de outrora
como tudo passou se tudo é agora?

4



Em tudo, minha mãe, te vejo e sinto.
Neste verniz antigo, neste cheiro
Suavíssimo que vinha do teu corpo
do pólen de tuas mãos, do ortelãzinho.
Em tudo, minha mãe, teu vulto amado
se desenha mais firme, e, lentamente,
vem dizer-me aos ouvidos qualquer coisa
destes anos que pesam sobre mim.
Em tudo, minha mãe, vejo este lenço
que à passagem da dor recolhe o traço
do sorriso que foste a vida inteira.
E, mesmo quando morta, entre açucenas,
ainda ressai de ti, poder divino,
a canção que adormece o teu menino.

7

Estavas, posta no esquife, igual a todas
as defuntas convulsas, lapidadas.
Tão branca e tão distante companheira
destes ventos na pausa da agonia.
Quisera ter morrido quando foste,
nave de ti somente, abrindo rotas
na invisória partida, nesse coro
latente em nossas almas. Parecias
dormir, então, liberta como um trono.
Ó lágrimas de Orfeu, tempo escoado,
corpo de insones ânforas, mãezinha,
que sei de ti nos guantes da saudade?
Que sabemos de ti, quando te vais,
se o teu vazio é feito de punhais?


Leia alguns dos "sinos de papel" de Jorge Tufic:





oculto no dom
de não ser ninguém
o grilo é som...



pétalas de mim
cultivo num jarro velho
que já foi jardim



em tantra medito
o saber é uma pedra
a mulher, o seu grito



ah, delicadeza
a mosca, senhora tosca
baila sobre a mesa







A felicidade


"Não desesperes da felicidade. Ela não te espera no extremo oposto da terra ou numa vida futura. Ela está aí onde te encontras. Espreita o momento em que estarás enfim disposto a convidá-la, a recebê-la. Vira os teus pensamentos para ela. Basta-te simplesmente ultrapassar o teu medo", disse Dugpa Rinpochê.

Sem medo de ser feliz? Ou colocamos a felicidade sempre onde onde não estamos?

Parece que ele quis dizer que a felicidade é uma "disposição para ser feliz", uma abertura para ser feliz, um voltar-se para ela, sem medo, sem hesitação, indecisão, perplexidade, dúvida...

É isso que eu quero?

Ser feliz não é a vocação de todos? Não é de todos o destino e o objeto?

Por que é tão difícil?

Qua a cara da felicidade?


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A felicidade


Frase estranha essa, de Dugpa Rinpochê: "A felicidade não é um paraíso fechado, separado do mundo. É, ao mesmo tempo, a nascente e o oceano".

Frase estranha, difícil, enigmática.

A felicidade. Que é a felicidade? Como pode ser definida como a nascente e o oceano?

Eu não sei. Eu nada sei. A nascente do rio é o princípio de tudo, o olho d'água na montanha. Depois a água escorre, desce um pouco, e com mais engrossa fica um fio d'água e um córrego e um riacho e um rio até o grande oceano. O grande oceano pode simbolizar a grande Realização final. Ele é a felicidade. A nascente também.

A felicidade é a fonte de tudo. Tudo nasce da felicidade e para ela se dirige.

Estranha. Muita estranha frase enigmática.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Concentração


"Concentra o teu espírito numa única coisa de cada vez, evita a dispersão. Concentra a tua vontade numa cabeça de alfinete, e conseguirás atravessar o obstáculo", escreveu Dugpa Rinpochê. Como uma lente pode aumentar a luz do sol, a ponto de fazer surgir o fogo do sol na terra, assim, talvez, é o que faz a concentração com nossa mente, "nosso espírito". A dispersão a dissolve.

Lembro-me da existência do sábio francês Gaston Paris (1839-1906). Ele deve ter sido o maior filólogo de sua época, e dominava as línguas e literaturas do mundo inteiro, inclusive do oriente. Escreveu "Les contes orientaux dans la littérature du moyen âge" (Paris, 1875).

Um dia perguntaram a ele qual o segredo da sua imensa cultura.

- Eu leio uma hora por dia, respondeu ele.

Deve ter sido sua capacidade de concentração.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Renascer


"É preciso viver como se mantém uma fogueira. Procura experimentar uma paixão, uma grande idéia, cada dia, divertindo-te com a tua audácia, sem orgulho, permanecendo humilde perante as belezas da Criação", disse o mesmo Dugpa Rimpochê.

O fogo do interesse da vida deve ser realimentado todos os dias? O fogo do interesse de uma paixão tem de ser reanimado todos os dias? O fogo do interesse de uma grande idéia tem de ser reinventado todos os dias? A vida é dia a dia construída, criada, recriada, prazer perante a vida?

"Aprende a renascer a cada instante. Para onde quer que olhes, é aí que o universo começa, e a alegria está no seu início", diz mais, o velho monge.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O entusiasmo


"Desenvolve em ti o entusiasmo, a certeza, como o marinheiro mantém o rumo sobre um mar revolto, sem perder a esperança da meta, e o destino"(Dugpa Rinpochê).

Cresce em entusiasmo pela vida aquele que sabe despertar em si mesmo a certeza, o calor, o rumo, a meta, o destino.

Quem sabe o que quer sempre o alcança, por isso.

Saber alimentar esta chama é saber viver, desde o acordar, acordar para a beleza do ser.

"Ser é fazer", dizia Marx, e é nessa prática que no nosso dia somos. Diariamente somos. Pois "o eterno despertar de ti próprio destrói a lassidão, a tristeza, o sentimento de fracasso. É uma nascente de alegria permanente", escreveu o mesmo Dugpa Rinpochê.

Para ser, para viver, precisamos de entusiasmo.

domingo, 16 de agosto de 2009

O visível




"Deve tornar visível o objetivo que pretende alcançar, como a mandala numa meditação. Aprenda a gostar do sucesso. Fá-lo brilhar acima dos teus atos, como um sol, uma bela luz. Só então ele se entregará a ti", escreveu Dugpa Rinpoche.

Meditar no sucesso? Vê-lo, como numa fotografia. Pintura da terra pura aonde chegar. Não buscar uma abstração, num nevoeiro. Quem sabe o que quer tem a imagem delineada do lugar onde quer chegar, já o antecipa. Quem sabe o que quer já está lá, já o tem dentro de si. Platão dizia que o amador se transforma na coisa amada, por força de tanto imaginar, de tanto o ver, como no soneto de Camões. Não tenho logo o que buscar, diz Camões, por influência platônica, pois em mim já tenho a coisa amada. Eu sou o que amo quando amo. Meditar no sucesso? no amor? Não: sê-lo, por antecipação.

sábado, 15 de agosto de 2009

A sorte


"A sorte dorme desde sempre dentro de ti próprio, como um tesouro puro. Precisas simplesmente de acordá-la. A sorte procura-te, desde toda a eternidade. Na verdade, a sorte está enamorada de ti. Não vergues. Não desesperes. Deves fazer-te belo para o encontro, mostrar as tuas mais belas cores, as tuas mais belas paixões. Elas são as chaves mágicas que abrem todas as portas e tornam leves o que é pesado", escreveu Dugpa Rinpoche.

Para acordar a sorte devo tornar-me belo, cobrir-me de cores, paixões. Que será isso? Se eu me abater, a sorte vai abandonar-me. Se me desesperar. Devo manter-me formoso e alegre, otimista e ótimo. Não deixemos a sorte dormir para sempre, a vida é curta.

Será que é isso que Dugpa Rinpochê quis dizer?

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O obstáculo



Dugpa Rinpochê escreveu: "O obstáculo é o espelho das tuas próprias hesitações, das tuas confusões. Utiliza o obstáculo para te esclarecer a ti próprio. A provocação do dia a dia é sempre uma lâmpada para a alma".

Que é o obstáculo? Eu me atrabalho: isso é o meu obstáculo. Eu sou o criador da minha
lucidez e confusão.

O obstáculo me esclarece.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Nossos sonhos




Escreveu Dugpa Rinpochê: "Quem deseja a sorte sempre a alcança. Não deprecie nunca os nossos sonhos. Devemos fazer um pacto com eles. Eles são a nascente e a força inesgotável que nos levarão à vitória. Atrás do obstáculo, encontra-se uma liberdade virgem, um horizonte mais vasto".

Dugpa Rinpochê era um monge tibetano velho, que fugiu do Tibet junto com o Dalai Lama. Ele escrevia seus textos numas folhinhas de papel que enrolava como um canudo, como os textos antigos.

Faleceu em 1989. Morava em "Nagarkot, Nepal, a três mil metros de altitude, à vista dos seus três cumes lendários: o Annapurna, o Melung Tse e a cordilheira do Everest, coroados de neve".

Era ali que ele meditava nos seus pequenos textos.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Nome e forma


Nome e forma

Rogel Samuel


Que significa sem nome e forma? No caminho do Buda não tem nome, não tem forma, é um não-caminho... sem ir, sem abandonar o trabalho normal de caminhar. P'ang Yün trata do Satori, da iluminação, do não-condicionado, onde as flores do céu não têm nome nem forma, não criações do pensamento, não estão no círculo do pensar, estão livres do atribuir, do mental, do nascimento e morte.


Without Name and Form
SEM NOME E FORMA
Well versed in the Buddha way,
BEM VERSADO NO CAMINHO DO BUDA
I go the non-Way
EU VOU PARA O NÃO-IDO
Without abandoning my
SEM ABANDONAR
Ordinary person's affairs.
MEUS CUIDADOS PESSOAIS
The conditioned and
O CONDICIONADO
Name-and-form,
NOME E FORMA
All are flowers in the sky.
TODAS AS FLORES NO CÉU
Nameless and formless,
SEM NOME E FORMA
I leave birth-and-death.
DEIXO NASCIMENTO E MORTE.
P'ang Yün (龐蘊 Hõ Un)

domingo, 9 de agosto de 2009

A mulher que passa








A mulher que passa


Rogel Samuel



Passa. Ela passa, a viúva, elegante, balanço, o festão, o debrum, nobre, exata, ágil, belas
pernas de estatuária, passa, e ele a vê, do café onde bebe ele a vê, perdido, crispado,
ele a vê, a sente, a sabe, no seu olhar há o germe de um furacão, no seu olhar há a
doçura que se embala, há o frenesi que mata, o relâmpago... ou é o tempo, a noite? Ele,
a aérea beldade, e de seu olhar vem um relâmpago de renascimento... ela a verá outra vez?
ou só a verá por um instante na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais.



A uma Passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;
Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.
Um relâmpago, e após a noite! - Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995.
Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CHAMP DE MARS


CHAMP DE MARS

E somente porque fazia sol naquela tarde
eu não queria mais voltar pro meu país,
e somente porque fazia sol naquele canto
oh, naquela mesma imensa canção
com que, há vários anos, venho para o mesmo Campo
de Marte, em frente à Torre de Vidro
que à noite brilha como se feita
de estrelas faiscantes,
e estava, nas minhas costas
a Escola Militar onde Napoleão estudou
e na minha frente o “mur de la paix”,
inspirado no muro das lamentações,
soprando naquele panteon de assinaturas
em várias línguas dizendo a paz.

Longe a imensa Torre.

Meu pai a viu,
meu avô a viu.
A imensa Torre
aponta o céu.
(À noite brilha como se feita
de estrelas faiscantes).

Há um júbilo de estar
de ainda estar ali
depois de tantos anos
depois de tantos dias escuros e frios.
Num dia de sol.

O frio se recolheu dentro de mim.

Sofro por estar em comunhão
e porque gostaria de ficar
(não só)
porque gostaria de que Paris fosse
o subúrbio de Manaus,
que já foi no tempo do meu avô Maurice,
(no teto do Teatro Amazonas
se vê a Torre Eiffel, vista de baixo).

Sofro porque gostaria de ficar,
entre amigos
com o Cláudio Rosa, a Leila Míccolis, a Neuza Machado.

Mas em seis dias me vou,
ficará o mesmo jeito de ser
daquela ponta de praça
a mesma imensa área,
com aquele intuito amplo de conter o mundo
de a tudo reunir.
Na minha contemplação
a vida estranha
(À noite a Torre brilha como se feita
de estrelas faiscantes).

Vida estranha.
Mundo estranho.

Faz sol.

(Paris, 9 de novembro de 2006).

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Agripa Vasconcelos


Agripa Vasconcelos


Rogel Samuel

Foi um escritor de sucesso. Seus livros venderam milhares e ainda vendem. Agripa Vasconcelos escreveu "Silêncio", poemas, que o levou à Academia Mineira de Letras, aos 22 anos de idade, sucedendo a Alphonsus de Guimaraens: O livro se vendeu no Rio em 30 dias e está esgotado até hoje. "Nós e os Caminhos do Destino", foi outro êxito. O romance "Fome em Canaã" concorreu ao Concurso da Revista "O Cruzeiro", e foi premiado. "Suor de Sangue" ganhou o prêmio "Olavo Bilac", da Academia Brasileira de Letras, primeiro prêmio dos livros brasileiros de poesia, em 1949. Depois veio "A Morte do Escoteiro Caio".

Escreveu livros científicos - "De que morreu o Aleijadinho", em que diagnosticou a morte de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho: especialistas, em livros posteriores confirmam seu parecer, como o mestre Miguel Couto, que escreveu ao aluno que entregava a mão à palmatória, convencido que ficara de seu antigo erro.

* * *

Agripa escritor mineiro de corpo e alma, um verdadeiro fanatismo.
"Para ele, os poetas, os ensaístas, os romancistas mais notáveis da América são os de Minas Gerais", disse um crítico.
A Editora Itatiaia publicou ''São Chico", uma saga sobre o Rio São Francisco e "Gado Preto em ouro verde", o ciclo da cultura do café e da escravidão.

* * *

Era médico, foi para o Nordeste como cirurgião-chefe da Companhia Hidro Elétrica de Paulo Afonso, Bahia, onde construiu o "Hospital Nau Souza".
Aposentado do Banco do Brasil, do Instituto Federal e de companhias particulares no Recife, onde clinicou. Faleceu em Belo Horizonte, no dia 21 de janeiro de 1969.

* * *

Escreveu romances de sucesso: "Sinhá braba, "A vida em flor de dona Beja" (que inspirou a famosa novela), "Gongo-sogo", "Chica que manda", um excelente romance sobre Chica da Silva.

Em carta de Recife ao seu Editor, Pedro Paulo Moreira, disse:

"Minha vida nada tem de importante para seu estudo. A profissão de médico rural que fui no começo me aproximou do povo, da ralé desclassificada. E dos humildes sem justiça. Quando examino algum deles procuro conhecer vida e hábitos, o linguajar, as lendas, o folclore de sua região. Poucos conhecem o interior com mais profundidade. Homem de nenhuma vaidade, nenhum orgulho, sou um trabalhador por prazer e meus trabalhos refletem meus conhecimentos do nosso povo, daí e daqui. Uma opinião que me agradou foi a do querido Ascenso Ferreira: Seu livro sobre Beja foi o melhor romance que li". (Agripa)

Como poeta está quase desconhecido.

Era um poeta parnasiano tardio, como tantos outros.

Seu belo poema "Chuva do mar", para mim, é um clássico do gênero:

Quando Raquel casou, naquela tarde mansa
Vi desfeito de vez meu sonho de criança. . .
Um desespero atroz meu ser avassalou!
Mas alguém que conhece os mistérios do mundo
Num sussurro me disse um conselho profundo:
- Isso é chuva do mar. Vai passar.
E passou.

Quando, ainda mocinho, eu senti, doido de ira,
Que, parecendo certo, era tudo mentira
O amor que me jurara a pérfida Margot,
Quis Morrer - mas alguém que conhece essa vida
Me falou, sem calor, mas em frase sentida:
- Isso é chuva do mar: Vai passar.
E passou.

Quando Ofélia seguiu seu destino sombrio,
Senti, como ainda sinto, o coração vazio!...
Faz tanto tempo já que nem sei mais quem sou!
Mas quem viu, em meu pranto uma simples garoa
Quis em vão me dizer uma palavra boa:
- Isso é chuva de mar. Vai passar.
Não passou.

Nasceu a 12 de abril de 1900, em Matosinhos, município de Santa Luzia. Aluno de Carlos Góis e Aurélio Pires, que o consideraram o melhor aluno que tiveram.
Afrânio Peixoto, que era catedrático, quis conhecê-lo e essa amizade se prolongou até a morte do grande mestre nacional.

Na epidemia da gripe de 1918, no Rio de Janeiro, levado por Leal de Souza, prestou serviços a Coelho Neto, que o considerou sempre "amigo dos que mais viveu em meu coração".

Foi interno do mestre Miguel Couto, que escreveu, ao celebrar seu 25º aniversário como professor, no Hotel Glória, do Rio, que seus melhores internos tinham sido até então Leitão da Cunha, Otávio Aires, Gastão Crulz e Agripa Vasconcelos. A lágrima nos olhos de Miguel Couto revela que sempre o considerou como filho.

No fim do curso médico foi orador de sua turma; e Miguel Couto, paraninfo. Este começou sua oração com o elogio de seu aluno, fato até hoje inédito na oração dos paraninfos.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PAULO JACOB


PAULO JACOB

Rogel Samuel

Sob vários aspectos, ele é o maior romancista da Amazônia.
Não é muito lido, conhecido, porque autor difícil, sofisticado.
Sua morte, no dia 7 de abril de 2004, abre questão grave quanto à divulgação da cultura nacional brasileira.
Sua morte não chamou atenção.
Não se soube.
Eu mesmo, amazonense de Manaus, onde morava o escritor, não tive conhecimento.

* * *
Vim a ouvir da boca de um chofer de táxi, em Manaus, no dia 18 de junho.
Dizia-me ele:
— ...Por ali, na rua onde morava aquele desembargador, que morreu no ano passado...
A rua, cujo nome não me ocorre, fica ao lado do Igarapé.
A casa, em frente ao igarapé, exibe a vocação de Paulo Jacob. Em Manaus, mas sempre voltado para a Floresta. Que ele conheceu bem, pois foi juiz em Canutama, no rio Purus, em 1952, e durante 10 anos viajou pelo Amazonas.
Até que, nos anos 60, foi promovido a desembargador do Tribunal de Justiça.

* * *
Paulo Jacob escreveu muito. Muito. Cerca de 10 romances bem trabalhados.
Quase ganhou o maior prêmio nacional de literatura da sua época, o Walmap, em 1969, com "Dos ditos passados nos acercador do Cassianã", 2º lugar. Excelente livro, imenso, denso, 359 páginas de um tipo pequeno, corpo 10 (Rio de Janeiro, Bloch, 1969).
O Walmap tinha juízes como Jorge Amado, Guimarães Rosa e Antônio Olinto.
Os três deram o 4º lugar para "Chuva branca", em 1967, um dos seus mais belos livros. Outro livro, "Vila rica das queimadas", título bem atual, ecológico, também ficou entre os finalistas do Walmap. O título denuncia, como o livro: "O coração da mata, dos rios, dos igarapés e dos igapós morrendo", sobre o desmatamento. "Chãos de Maíconã" também "menção honrosa" do Concurso Walmap.

* * *

Festejado foi pela crítica, Paulo Jacob.
Leila Miccolis o considera "o Guimarães Rosa da Amazônia".
Guimarães Rosa ficou entusiasmado com "Chuva branca".
Aguinaldo Silva diz que ele fez "o primeiro grande romance da Amazônia".
Assis Brasil compara "Chuva branca" a "Sagarana" de Rosa e a "The wild palms" de Willian Faulkner.

* * *

Ler Paulo Jacob é dificuldade. Chega que ele, em "Chãos de Maíconã", anexou um vocabulário da língua ianoname, no fim do livro.
De um "Dicionário da língua popular da Amazônia" também ele é autor

* * *

Paulo Jacob nasceu em 24 de fevereiro de 1921 e faleceu no dia 7 de abril de 2004. Escreveu ainda: Muralha verde (1964), Andirá (1965), Estirão de mundo (1979), A noite cobria o rio caminhando (1983), O gaiola tirante rumo do rio da borracha (1987), além dos citados acima.

* * *

Em "Chuva branca", o personagem vai-se adentrando, vai-se assimilando na floresta, vai-se afastando da civilização, até que no fim parece que nem existiu - vira mito. No fim, na morte, ele tira a roupa, fica nu, perdido na mata, integrado nela, sabendo que vai morrer, perdido e integrado, no mitificado.

* * *
"O gaiola tirante rumo do rio da borracha" narra a viagem de um navio, um gaiola, um barco a vapor, saindo de Belém até o outro lado da Amazônia, no rio Purus até subir o rio Iaco, onde o navio naufragou e ali se soube que o preço da borracha despencara, de quinze mil réis caiu para oito, pondo na falência todos os coronéis. O personagem é o Comandante Antonio Damasceno.

* * *
Paulo Jacob foi professor universitário e Presidente do Tribunal de Justiça. Como Presidente de tribunal chegou a assumir o Governo do estado, em 1982. Sua morte deixa aberta a vaga de melhor romancista da região Norte.

sábado, 1 de agosto de 2009

É possível que os mastros se rompam...













É possível que os mastros se rompam...

Rogel Samuel

Brisa marinha

Enviado por Amelia Pais (Quadro de Manet)

Tradução: Augusto de Campos

A carne é triste, sim, e eu li todos os livros.
Fugir! Fugir! Sinto que os pássaros são livres,
Ébrios de se entregar à espuma e aos céus imensos.
Nada, nem os jardins dentro do olhar suspensos,
Impede o coração de submergir no mar
Ó noites! nem a luz deserta a iluminar
Este papel vazio com seu branco anseio,
Nem a jovem mulher que preme o filho ao seio.
Eu partirei! Vapor a balouçar nas vagas,
Ergue a âncora em prol das mais estranhas plagas!
Um Tédio, desolado por cruéis silêncios,
Ainda crê no derradeiro adeus dos lenços!
E é possível que os mastros, entre ondas más,
Se rompam ao vento sobre os náufragos, sem mastros, sem mastros,

[ nem ilhas férteis a vogar...
Mas, ó meu peito, ouve a canção que vem do mar!


Mallarmé ecoa a brisa, a brisa marinha. A tradução de Augusto de Campos é uma obra-prima. Podemos sentir a brisa entre os versos, e sua evocação, e sua evocação de fuga, sim, porque não adianta fugir através dos livros que já os tenho lidos, fugir, mas fugir mesmo, oh, só os pássaros são livres para fugir, fugir com minhas asas da imaginação para as maravilhosas ilhas da imensidão do mar, como nas aves, como nos pássaros ébrios de azul e de imensidão, os pássaros e naves que se entregam às espumas e/ou aos céus imensos, suspensos, amplos, livres, etc.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Quietude





Quietude

Rogel Samuel

Nada fazer, faz tudo. Das dez direções se aprende isso: não fazer nada. O mais difícil é isto: sentar-se na pose de Buda para não fazer nada. Sentar para nada fazer é tão difícil quanto entender o pensamento. Como estamos sempre pensando, estamos fazendo algo, nos distraimos. Nada fazer é a quietude do silêncio mais profundo. Se eu me sento "para meditar" já estou perdido. No meio do sansara. No meio de New York. A quietude é mente vazia, não mente morta. Mente lúcida, cheia de sua luz. Luz e silêncio. Eu nunca a vi, mas muito tenho lido a respeito.


As dez direções convergem
Cada aprendizagem para não fazer nada,
Isto a sala do treinamento de Buda;
Mente vazia, tudo acabado.

P'ang Yün (Hõ Un) (Dois Zen Classics 263)

"Quando ele veio a Baso e disse novamente, 'Quem é aquilo independente de todas as coisas? Baso lhe disse: 'Quando você beber toda a água no rio de Yang-tze, eu lhe direi.' Com isto, Koji sofreu a grande experiência e compos outro verso: " (Dois Zen Classics 263)


quinta-feira, 30 de julho de 2009

Quem é independente de todas as coisas?





Quem é independente de todas as coisas?

Rogel Samuel

Essa a pergunta sem resposta de "Hõ Koji”. Ali as coisas são a montanha, água, lenha. O grande segredo é esse: carregar lenha e água. Ninguém em púrpura, ninguém importante? Nada a escolher ou descartar, nada. Diariamente nada a acrescentar ou escolher. Puro viver.



"Hõ Koji (Hõ era sua família, Koji um título de respeito para um estudante secular de Zen) estudou primeiro com Sekitõ e depois com Baso, a quem sucedeu. Quando ele conheceu Sekitõ, ele perguntou: “Quem é independente de todas as coisas?” Antes que ele tivesse terminado de perguntar isto, Sekitõ cobriu a boca de Koji com sua mão dele. Assim Koji sofreu uma experiência e se expressou no verso seguinte:" (Dois Zen Classics 262-3)


Diariamente, nada em particular,
Só acenar com a cabeça para mim,
Nada a escolher, nada a descartar.
Nenhum próximo, nenhum andamento,
Nenhuma pessoa em púrpura,
Montanhas azuis sem nenhum pó.
Eu exercito poder oculto e sutil,
Levando água, carregando lenha.

(Dois Zen Classics 262-3)

Hõ Koji

terça-feira, 28 de julho de 2009

Vida e glória



Vida e glória


Rogel Samuel


Vida de monge? Vida gloriosa. A grande tarefa da vida: fazer o que aparece para ser feito.
Nada buscar tudo ter. O acontecimento glorioso da vida, tudo aquilo que é para ser vivido. O experimento da paz, a paz na ação, a paz ativa. Sem julgar que é bom ou mal, nada escolhe nem rejeita. Oh vida gloriosa sem outra dificuldade além do acontecimento diário de que cada coisa e cada fato é o que é, sem deslize. A maior glória do poder mágico é que as montanhas azuis, as colinas verdejantes. A luz da prática espiritual consiste nisso: levar água, juntar lenha. Quem consegue fazer sem pensar, avaliar, delirar já está na mais alta realização.

“Na minha vida diária não há nenhuma outra tarefa
Além do que acontece cair em minhas mãos.
Não escolho nada, não rejeito nada.
Em nenhuma parte há dificuldade, em nenhuma parte um deslize.
Eu não tenho nenhum outro emblema de minha glória
Além das montanhas e colinas sem uma mancha de pó.
Meu mágico poder e exercício espiritual consiste nisso:
Levar água e juntar lenha.”
(P'ang Chü-shih, A Idade Dourada do Zen 94, 304 n.5)

Mindfulness

Mindfulness

春有百花秋有月 Spring comes with its flowers, autumn with the moon,

夏有涼風冬有雪 summer with breezes, winter with snow;

若無閑事挂心頭 when useless things don't stick in the mind,

更是人間好時節 that is your best season.

Wu-men Huai-kai (無門慧開 Mumon Ekai), from Wu-men kuan (Mumonkan) case 19

(The Light Inside the Dark 97)

Concentração

A primavera vem com suas flores
o outono com a lua
o verão com a brisa, o inverno com a neve
quando coisas inúteis não aderem à mente
está na sua melhor estação.


Porque a mente livre, ampla e vazia? Espaço mental, silêncio atento, lucidez. Quem a tem? Talvez a mente de flores, a mente-lua, a mente que é como a brisa, a mente branca que cai como a neve, a mente sem aderências, sopro infinito sobre o universo das coisas, iluminada.

O mundo se abre sobre essa mente transparente. Eu não a conheço, mas há quem a tenha.

A chuva fina
cai sobre o Rio de Janeiro.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Os pássaros livres


Os pássaros livres


Rogel Samuel


Por quê? Por que pergunta Dogen pelo destino dos pássaros do céu? Eles voam para seu destino, conhecem o rumo, não deixam rastro no ar, nem precisam de um guia que os leve para lá, e lá, além, muito além daquele horizonte, sabem que está a salvação do inverno. Oh, como nós nos perdemos de nosso rastro, como esquecemos o destino, como precisamos que nos guiem. O mundo perdido, a terra prometida jogo esquecido. Nossas mentes andam cheias de palavras, cheias de esquecimento.


Os pássaros migratórios
não deixam rastro
não buscam um guia


Dogen (1200 - 1253) trad. inglesa de Robert Bly. Original em japonês.

terça-feira, 21 de julho de 2009

As gotas no telhado


As gotas no telhado


Rogel Samuel


A chuva no telhado encontra a mente aberta, a mente livre de Dogen. A mente sem limites, sem pensamentos, sem ilusões. A mente livre não se encontra senão no seu objeto: no som da chuva. Dogen é onde sua mente está. Agora ele é o som da chuva, gotejando no telhado. A mente iluminada de Dogen é livre, não se limite em si, não se apega a nada. Não se apega, apenas toca. No que toca, ali é.


Porque a mente é livre--
Escutando a chuva
Gotejando no telhado,
As gotas se tornam
Um comigo.

Dogen (1200 - 1253)

Versão inglesa de Steven Heine

Língua original japonês

domingo, 19 de julho de 2009

O pássaro voa para a serpente

O pássaro voa para a serpente


Rogel Samuel



Depois de beber o fogo do vinho da taça, por que continuar vestido com a vestimenta de inverno? O tempo voa, a vida passa, o pássaro do tempo só tem um modo de voar, e ele está voando agora, aproveitemos o pouco tempo que temos, venha, encha a taça com o fogo da vida pois o pássaro do tempo voa para a serpente, e a morte é certa, e já está próxima sempre. Eis, venha, encha a taça que a vida dura somente o tempo de bebe-la, e há pouco vinho ali e pouca chance de permanecer com ela.

Diz o poema da Khayyam:



Venha, encha a taça, e no fogo da torrente
A vestimenta de Inverno de Arrependimento voa:
O Pássaro de Tempo tem apenas um leve modo
De voar--e eis! o Pássaro está na sua Asa.


Omar Khayyam (Século 11) versão inglesa de Edward FitzGerald

Língua Original Persa/Farsi

Compartilhando a Cabana da Montanha com uma Nuvem







Compartilhando a Cabana da Montanha com uma Nuvem


Rogel Samuel


"Uma cabana solitária no cume da montanha se sobressai sobre mil outras;

Sua metade ocupada por um monge velho e a outra metade por uma nuvem:

Ontem à noite houve uma tempestade e a nuvem foi soprada para longe;

Sobretudo porque uma nuvem não é igual igual ao modo quieto do homem velho".


Poema de Kuei-tsung Chih-chih (um monge que morou numa cabana humilde em Lu-shan)

(H.C. Warren. Essays in Zen Buddhism – Second Series 352-2).



O comentarista e tradutor Warren diz que "ele esclarece habilmente a sua avaliação da Vacuidade; o verso não será entendido somente como descrevendo a sua cabana solitária onde ele morou em companhia com as nuvens".

O monge a cabana a montanha e a nuvem foram varridas pelo sopro da tempestade. Só a nuvem desapareceu, mas a montanha ficou. As ilusões são como nuvens. A meditação quieta do velho monge é sólida como a montanha. Sua cabana é seu mosteiro. Por que a iluminação do velho monge é uma tempestade? Diziam os mestres Zen que há dois meios de atingir a iluminação: tirar algodão do manto e quebrar uma pedra. O velho quebrou a pedra.

sábado, 18 de julho de 2009

O fluir do rio dos pensamentos


O fluir do rio dos pensamentos

Rogel Samuel

O mestre Dogen (1200-1253) escreveu um misterioso poema:



"Acima de tudo, não deseje tornar-se um Buda futuro;
Sua única preocupação deveria ser,
Como um pensamento segue a um pensamento,
Evitar agarrar qualquer um deles".


Porque pensar em tornar-se um futuro Buda é um pensamento. Também é um pensamento. E os pensamentos são sombras, são fantasmas, são alucinações. Não podemos ser ou fazer nada com um pensamento senão pensá-lo. Como num sonho. E assim estamos dormindo. Nossos sonhos são os pensamentos. Fantasias. Loucuras. E nossa maior loucura é agarrar um pensamento após o outro, tentar pegá-los, seguir o seu curso, acreditar neles, pensar que são verdade, que são a consciência do eu. Tornar-se um Buda futuro é um desejo, um pensamento. Mas o Buda não é pensamento. Assim, deixemos que se vão os pensamentos no seu curso. Na confusão de suas interligações. Até que, se houve um espaço de silêncio entre dois pensamentos, nesse silêncio estaremos em paz. Quando o pensamento cessa.