terça-feira, 20 de outubro de 2009

Aniversario de Morte de Clarisse Indio do Brazil - 7/10/1919‏









(Desenho de Ronald de Carvalho dedicado a Fernando Pessoa)












POEMAS INÉDITOS


7 de Outubro de 1919/2009

Ronald de Carvalho 1920

EPITAPHIO

Foste infeliz? Foste feliz? Quem disse,
Quem decifrou jamais o sybilino,
O terrivel segredo do destino,
Que fez parar teu coração, Clarisse?

Dormes, agora, sob a terra dura!...
Dormes, mas sonhas, pois em torno, tudo
Se entreabre em florações de ouro e velludo,
E ha mais astros no calmo azul da altura.

Detem, Viajor, o passo! Attende um pouco!
Neste silencio ha vozes mysteriosas...
Vê que humana expressão têm estas rosas,
Vê que o prazer é um pensamento louco...

Na vida incerta e vária, tudo passa!
Mas, eterno será quem, um segundo,
Derramou sobre as lagrimas do mundo
A alma tranquilla como um céo sem jaça!


Belmiro Braga
janeiro - 1920

Senhora Indio do Brazil

Vi-a uma vez apenas. Foi na igreja
mais humilde e mais pobre da cidade;
e, entre os pobres, ao ve-la, a Caridade
vi formosa, risonha e bemfaseja.

Todos se acercam d`Ella. Este deseja
ouvir-lhe a doce voz de suavidade,
este os braços lhe estende na anciedade,
aquelle outro, a sorrir, as mãos lhe beija...

E Ella, nos olhos um sorriso infindo,
abrindo a bolsa e o coração abrindo,
em bençãos se desfaz, ingenua e bella...

E. ao ve-la, dos altares resplendentes,
mostram-se os Santos muito mais contentes
que aquelles pobres socorridos d`Ella!...

A leoa no jardim

















A leoa no jardim


Rogel Samuel


Li que os Estados Unidos estão sendo invadidos por cobras. Grandes serpentes. Apareceram, assustaram. Vieram do nada, foram abandonadas e cresceram. Cinco metros. Amazônicas, sucuris.

Lembro-me de, há muitos anos, quando eu morava sem Santa Teresa. Minha casa ficava encostada à floresta, à Floresta da Tijuca, uma beleza. Hoje seria um perigo. Rua Falet, hoje favela.

Pois tinha fugido uma leoa, que um milionário criava.

Todos se assustaram. E diariamente eu abria com cuidado a porta da rua, com medo de que houvesse uma leoa no jardim (depois capturada).

sábado, 17 de outubro de 2009

O livro de Céleste Albaret


















O livro de Céleste Albaret

Rogel Samuel



Leio com sofreguidão o livro de Céleste Albaret, "o Sr. Proust". Ela foi sua governanta durante os últimos 8 anos de vida do escritor, quando ele escrevia, recluso, a sua grande obra. Um Proust diferente, magnífico, grandioso aparece. Ele foi um dos autores que mais li e reli na vida. Mas nenhum livro me mostrou inteiro o que era o homem. Um grande senhor. Mergulhado na solidão de seu quarto, na solidão de seu trabalho, trabalho noturno, asmático. Raramente saía, no meio da guerra, da primeira guerra mundial, que ignorou. A guerra não o incomodou, senão no início do livro, quando fez sua última viagem ao Grande Hotel, de Cabourg, na costa normanda, de trem. No fim da temporada o hotel fechou, ia virar hospital militar. Mas ainda estou lendo...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

a palavra falada tentada forçada escrita























a palavra falada tentada forçada escrita


rogel samuel



a palavra falada tentada forçada escrita
a ventarola do fio do violino na porta
o mormaço cobre o túmulo e volta a ser gente
e volta a ser gleba
voltamos nós
à palavra falada ouvida esquecida esquisita
morta
como o fio do destino à porta
é um outro lugar
um salão sagrado, familiar, construído há muito tempo,
e cheio de morte
ecoando suavemente mofado escuro quieto
como uma nuvem de umidade
por cima do tapete verde da pedra
espero a “Celebração da paz”, de Holderlin

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Leitura de "Leituras inesquecíveis" de Dilson Lages











Leitura de "Leituras inesquecíveis" de Dilson Lages


Rogel Samuel


Acabo de ler "Leituras inesquecíveis" de Dilson Lages Monteiro e vejo como ele pôde imediatamente compor o espírito poético de Ascendino Leite, autor de minha predileção.

Leio Ascendino há muitos anos, digo, leio os seus diários, os seus "jornais" (como ele os chama). Confesso que não gosto de seus romances, que já os li. Ele também é um bom poeta.

Ascendino tem algumas obras-primas, como esse "Um ano no outono". Eu o leio e releio como um vade-mecum da arte de escrever.

Certamente Ascendino é um homem reacionário, mas... que importa? Borges o era. E o mestre Ascendino Leite, para mim, lançou o estilo do futuro: o da "postagem" de blog.

É só conferir.

a chuva de jefferson bessa


a chuva
com seus "chhh"
com seus chiados e teclados
com seus dedos molhados
toca a sua canção no poema
(ao longe ouve-se uma trovoada:
que deus ruge ao longe?)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fragmento de Herta Muller














Fragmento de Herta Muller



Rogel Samuel



Li hoje agora um fragmento de Herta Muller em português em espanhol e penso que a tradução espanhola está melhor. Herta faz um tipo de poesia em prosa, ou o contrário. Ensaio uma tradução do espanhol, mas não concluo, assim:

"Em torno do monumento dos caídos cresceram rosas. Formaram um matagal espesso, asfixia a herva. Flores brancas e miudas, enrugadas, como papel. Sonoras. Amanhece, logo será dia.

Toda manhã, quando percorre o seu caminho solitário até o moinho, Windisch calcula que dia é aquele. Em frente ao monumento dos caídos calcula os anos..."



A cova

Há roseiras em volta do monumento aos combatentes. Transformaram-se em matagal.
Tão emaranhadas que asfixiam as ervas. Dão rosas brancas, pequenas e amarrotadas como papel. Rumorejam. Começa a amanhecer. Em breve será dia.
Todas as manhãs, no seu caminho solitário em direcção à azenha, Windisch regista o dia que começa. Em frente ao monumento aos combatentes, conta os anos. Mais adiante,
junto ao primeiro choupo onde a bicicleta passa sempre pela mesma cova, conta os dias.
E à noite, quando fecha a porta da azenha, Windisch conta de novo os anos e os dias.
Lá de longe vê as pequenas rosas brancas, o monumento aos combatentes e o choupo. E, se há nevoeiro, ao passar de bicicleta o branco das rosas e o branco da pedra estão ali mesmo à sua frente. Windisch atravessa o nevoeiro. Windisch tem o rosto húmido e segue até chegar à azenha. Por duas vezes as roseiras mostraram os espinhos nus e as ervas rasteiras tiveram a cor da ferrugem. Por duas vezes o choupo esteve tão despido que as hastes ameaçavam quebrar-se. Por duas vezes a neve cobriu os caminhos.
Windisch conta dois anos junto ao monumento aos combatentes e duzentos e vinte e um dias ao transpôr a cova ao pé do choupo.
Todos os dias, ao passar a cova, Windisch pensa: “O fim está próximo.” Desde que pensou em emigrar, Windisch vê o fim por toda a parte na aldeia. E o tempo que parou para todos os que querem ficar. E que o guarda-nocturno para ali vai ficar, para além do fim, segundo lhe parece.
E depois de ter contado duzentos e vinte e um dias e ter sido sacudido ao passar a cova, Windisch desmonta pela primeira vez. Encosta a bicicleta ao choupo. Os seus passos fazem barulho. No jardim da igreja esvoaçam pombos bravos. São cinzentos como a luz. Só o ruído os torna diferentes.
Windisch faz o sinal da cruz. O batente da porta está molhado. Fica-lhe colado à mão. A porta da igreja está trancada. E Santo António está do outro lado da parede. Segura nas mãos um lírio branco e um livro castanho. Está encerrado.
Windisch sente frio. Olha ao longo da rua. Onde a rua acaba, irrompem as ervas na aldeia. Lá ao fundo segue um homem. O homem é um risco negro que segue por entre as plantas. As ervas pujantes fazem-no pairar sobre a Terra.
[in O Homem é um Grande Faisão Sobre a Terra, tradução de Maria Antonieta C. Mendonça, Cotovia, 1993]

http://bibliotecariodebabel.com/excertos/quatro-fragmentos-de-herta-muller/



EL BACHE

En torno al monumento a los caídos han crecido rosas. Forman un matorral tan espeso que asfixian la hierba. Son flores blancas y menudas, enrolladas como papel. Y crujen. Estás amaneciendo. Pronto será de día.

Cada mañana, cuando recorre en solitario la carretera que lleva al molino, Windisch cuenta qué día es. Frente al monumento a los caídos cuenta los años. Detrás de él, junto al primer álamo donde su bicicleta cae siempre en el mismo bache, cuenta los días. Por la tarde, cuando cierra el molino, Windisch vuelve a contar los días y los años.

Ve de lejos las pequeñas rosas blancas, el monumento a los caídos y el álamo. Y los días de niebla tienen el blanco de las rosas y el blanco de la piedra muy pegados a él cuando pasa pedaleando por en medio. La cara se le humedece y él pedalea hasta llegar. Dos veces se quedó en pura espina el matorral de rosas, y la mala hierba, debajo, parecía aherrumbrada. Dos veces se quedó el álamo tan pelado que su madera estuvo a punto de resquebrajarse. Dos veces hubo nieve en los caminos.

Windisch cuenta dos años frente al monumento a los caídos, y doscientos veintiún días en el bache, junto al álamo.

Cada día, al ser remecido por el bache, Windisch piensa: “El final está aquí”. Desde que se propuso emigrar ve el final en todos los rincones del pueblo. Y el tiempo detenido para los que quieren quedarse. Y Windisch ve que el guardián nocturno se quedará ahí hasta más allá del final.

Y tras haber contado doscientos veintiún días y ser remecido por el bache, Windisch se apea por primera vez. Apoya la bicicleta contra el álamo, sus pasos resuenan. Del jardín de la iglesia alzan el vuelo unas palomas silvestres. Son grises como la luz. Sólo el ruido permite diferenciarlas.

Windisch se santigua. El picaporte está húmedo. Se le pega en la mano. La puerta de la iglesia está cerrada con llave. San Antonio está al otro lado de la pared. Tiene un lirio blanco y un libro marrón en la mano. Lo han encerrado.

Windisch siente frío. Mira a lo lejos. Donde acaba la carretera, las olas de hierba se quiebran sobre el pueblo. Allí al final camina un hombre. El hombre es un hilo negro que se interna entre las plantas. Las olas de hierba lo levantan por encima del suelo.

Pertenece a El hombre es un gran faisán en el mundo. Editado por Siruela, 1992. La traducción es Juan José del Solar y el texto está tomado de El Cultural.es

http://elestablodepegaso.blogspot.com/

domingo, 11 de outubro de 2009

O arco do azul infinito









O arco do azul infinito


Rogel Samuel




O arco do menino é de plástico, é de ouro, ferro, prata, e quem o sabe é de sonhos, de flores, de estrelas, de algas, de claridade do sol... mas não são de pássaros, nunca nunca, pois os pássaros pousam no ar do arco quando o menino dorme, no ar do arco das árvores como guerreiros cansados de azul, do azul silêncio do espaço infinito...




O MENINO E O ARCO

(Enviado por Amélia Pais)

O menino tem um arco.

É de plástico.

(Mas é de ouro
ou de ferro
ou de prata
- quem o sabe?)

E com ele
o menino colhe flores
e estrelas e algas
da funda claridade.
Nunca pássaros.


Esses, pousam no arco
enquanto o menino dorme
sob as árvores,
como um guerreiro cansado.

Glória de Sant'Anna, em Um Denso Azul Silêncio

* Nascida e falecida em Portugal, viveu longos anos em Moçambique

sábado, 10 de outubro de 2009

As delícias da solidão













As delícias da solidão


Rogel Samuel

Eu prefiro acompanhado, mas também a solidão tem as suas delícias. Chove, no Rio de Janeiro. Desde ontem chove. Leio a poetisa portuguesa Soledade Santos‏, enviada por Amélia Pais. Na sala há uma TV ligada. Noticiário. Na mesa uma chícara de café. Não tenho um gato de barro, nem castiçal. Nem flores, nem conchas. Tenho livros, cadernos, canetas. Não tenho novelos de lã, nem revista de tricot. Tenho sim uma tarde de chuva. Tenho um computador ligado, quadros na parede. Uma foto de Rimbaud, de 1872, foto de Etiènne Carjat, emoldurada em preto. Está aqui. Carjat (1828-1906), foi um fotógrafo francês, caricaturista e escritor, conhecido por seus retratos fotográficos de escritores e artistas. Comprei esta fotografía às margens do Sena. Estava com minha amiga francesa Annie Geraud. Grande dia. Grande poeta. Grande Amiga.

Soledade Santos‏
TO BE ALONE

«To be alone is one of life's greatest delights»
D. H. Lawrence

uma chávena de chá sobre a mesa
um gato de barro um castiçal
algumas flores conchas livros
um caderno dois novelos
de lã e uma revista de tricot –
espólio de uma tarde à chuva
nessas delícias da solidão
que D H Lawrence cantou

Soledade Santos

(poema publicado em DiVersos 8, ed.Sempre-em-pé)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

HERTA MULLER




A escritora, no momento em que soube do prêmio.
Foto de Dagens Nyheter, published in Stockholm, Sweden

Nobel da Literatura para Herta Müller



Nobel da Literatura para Herta Müller

PÚBLICO

O Prémio Nobel da Literatura foi atribuído este ano à escritora alemã de origem romena Herta Müller, de 56 anos.


A Academia sueca sublinha que Herta Müller consegue, "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos desapossados".

Müller é autora de livros como “O homem é um grande faisão sobre a terra”, editado em Portugal pela Cotovia, e “A terra das ameixas verdes”, publicado a nível nacional pela Difel.

Nascida a 17 de Agosto de 1953, na aldeia de Nitzkydorf, perto de Timisoara, na Roménia. Estudou alemão e literatura romena na sua terra natal e trabalhou depois como tradutora numa fábrica de Timisoara, antes de ser demitida das suas funções em 1979 por se ter recusado a colaborar com a polícia política de Nicolae Ceaucescu.

Müller acabou por abandonar o seu país em 1987 para ir para a Alemanha com o marido, o também escritor Richard Wagner. Para trás deixou uma longa luta perdida pela publicação dos seus trabalhos frontalmente críticos ao regime totalitário de Ceausescu, que acabaria por ser derrubado dois anos depois de Müller sair da Roménia.

Em 1984 foi distinguida com o Prémio Aspekte e onze anos depois recebeu o prémio europeu de literatura Aristeion e foi eleita para a Academia Alemã para Língua e Poesia. Em 1998, recebeu o prémio irlandês IMPAC, no ano seguinte o Prémio Franz Kafka. Em 2003, foi galadoarda com o prémio Joseph Breitbach de literatura alemã, em 2004 com o prémio de literatura da Fundação Konrad Adenauer e, em 2006, com o Prémio Würth de literatura europeia.

A notícia da distinção com o Prémio Nobel da Literatura 2009 apanhou desprevenida a escritora alemã. “Estou surpreendida e ainda nem acredito, de momento não posso dizer mais nada”, disse Herta Müller num comunicado divulgado pela Hanser Verlag, a editora da romancista.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Estranho poema









Estranho poema


Rogel Samuel





Escreveu Pedro Benjamín Palacios, conhecido como "Almafuerte", um estranho poema:

Não se dê por vencido, nem, se vencido, não se sinta escravo, nem, se escravo, não fique trêmulo de medo, imagine-se como um bravo, e ataque feroz, ainda que mal ferido, com a tenacidade do prego enferrujado que velho e gasto, mas volta a prego, sem a estupidez não covarde do pavão que amaina sua plumagem ao primeiro som, continuando como Deus que nunca chora, ou Lúcifer, que nunca lê, ou como o carvalho, cuja grandeza necessita de água, e não a implora ... que morda e se vingue rolando na poeira, sua cabeça!







No te des por vencido, ni aún vencido,
no te sientas esclavo, ni aún esclavo;
trémulo de pavor, piénsate bravo,
y acomete feroz, ya mal herido.

Ten el tesón del clavo enmohecido
que ya viejo y ruin, vuelve a ser clavo,
no la cobarde estupidez del pavo
que amaina su plumaje al primer ruido.

Procede como Dios que nunca llora;
o como Lucifer, que nunca reza;
o como el robledal, cuya grandeza
necesita del agua y no la implora...

¡Que muerda y vocifere vengadora,
ya rodando en el polvo, tu cabeza!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Tivemos ídolos






















Tivemos ídolos

Rogel Samuel




Elizabeth Taylor se submeterá a uma cirurgia cardíaca. Ela tem 77 anos e anda em cadeira de rodas. Ela está envelhecida. Tirou um tumor do cérebro. Mas continua linda. Ela é uma de minhas paixões. Não faz muito tempo ela estava viciada em drogas e álcool. Para nós, para a nossa geração, ela ainda é o último dos monstros sagrados do cinema. Cheia de jóias até na velhice, ela agora se involve em causas sociais e é fiel a seus amigos.

Somos de uma geração afortunada. Tivemos ídolos.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

há fotografias como punhais







há fotografias como punhais

Rogel Samuel


Para ela fotografias há que são punhais, poemas tamém, os poemas todos já foram escritos, reescritos, ela só faz este pedaço do oficio, o oficio das trevas, das argilas, dos pedaços de argila, impressos na chuvas, nos ventos, nas folhas noviças, o pai, a mãe ja partiram, e se foram numa voragem de passado remoto, a moça feia de varíola nunca amada que na taberna de Vladivostoque se ofereceu a Joseph Kessel, como pouca gente sabe, daquela guerra, deste verso, quase desconhecida guerra, mas ela lá esteve, e trouxe o verso, e por isso os outros versos todos já foram escritos, são chagas, são punhais crescendo bem como fogo, porque tudo é um problema insolúvel...

há fotografias como punhais. e poemas também.

todos os poemas que escreverei já foram escritos
dou-me apenas ao ofício das trevas
de os revelar em pedaços de argila

neles todos estão impressos a chuva e o vento
e as folhas noviças dos séculos e
meu pai e minha mãe que já partiram
esvoaçando num passado remoto

e também a rapariga feia e bela desfigurada pela varíola
que nunca fora amada porque não era bela
e que numa noite na taberna de Vladivostoque
se ofereceu derradeiramente a Joseph Kessel

talvez pouca gente saiba deste verso
que nunca terá sido dito deste modo
e foi acontecido durante a guerra sino-japonesa

quase ninguém esteve lá para o ver

mas eu estive. trouxe -o comigo.
é exactamente por esta razão que os meus poemas

já foram todos escritos.

são como chagas alastrando e crescendo em searas de fogo

estando entre a terra e as estrelas.

sei apesar de tudo porque li Juan Gelman
que cada lágrima é um problema insolúvel







MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

As vogais de água













As vogais de água

Rogel Samuel


Azenha nos fala de lugares (sagrados) onde chegam sons misteriosos milagrosos estranhos
sons de vogais de água, talvez de chuvas, talvez de fontes, talvez de mares, novos e
reunidos por assomos de memória, por redes vertiginosas de emblemas, de entoações
concentradas por palavras, por luzes e lanternas, por velas em "ii", por projetos
diluídos em água, em feminina água, em espelhos de água, onde transporta seus sonhos
de um lado para outro, abrindo a fórceps um buraco nos espelhos...






vogais de água
há lugares onde chegam vogais de água
lugares novos espantados que assomam à memória
por redes vertiginosas

as suas entoações concentram-se em palavras fabulosas
palavras luminosas sur-
preendidas pelos castiçais dos ii

um projecto de água

digo:

transportar o sonho de um lado para outro
abrir com toda a força um buraco nos espelhos

MARIA AZENHA
A chuva nos espelhos

domingo, 4 de outubro de 2009

A morte de Mercedes sosa









A morte de Mercedes Sosa


Rogel Samuel



Lembramos dela cantando a canção da chilena Violeta Parra, lembramos dela graças à vida, que tanto lhe deu, como os olhos para ver o céu estrelado, o amado, e o ouvir das canções da noite, de grilos e canários, e martírios turbinas latidos e a voz do amado, e o som do abecedário, as palavras e o pensar, a mãe o amigo o irmão a rota da vida e da alma, e os pés sobre as cidades praias e desertos, montanhas e estradas, e a vida o cérebro e o coração dos materiais do canto, de todos, o cantar de todos, o cântico da américa latina.

Gracias A La Vida



Composição: Violeta Parra

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió dos luceros que cuando los abro
Perfecto distingo lo negro del blanco
Y en alto cielo su fondo estrellado
Y en las multitudes el hombre que yo amo
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el oído, que en todo su ancho
Traba noche y dia grillos y canarios
Martirios, turbinas, ladridos, chubascos
Y la voz tan tierna de mi bien amado
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado el sonido y el abecedario
Con él las palabras que pienso y declaro
Madre, amigo, hermano y luz alumbrando
La ruta del alma del que estoy amando
Gracias a la vida,que me ha dado tanto
Me ha dado la marcha de mis pies cansados
Con ellos anduve ciudades y charcos
Playas y desiertos, montañas y llanos
Y la casa tuya, tu calle y tu patio
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dió el corazón que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros
Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto
Gracias a la vida

sábado, 3 de outubro de 2009

FOTO


The Daytona Beach News-Journal, published in Daytona Beach, FL USACLOSE XPrint PageReadable PDFWeb Site

O espírito olímpico



O espírito olímpico

Rogel Samuel

Um jornal americano disse que a escolha do Rio significava a humilhação de Obama. Isto é o oposto do espírito olímpico que diz que o importante é competir, e que não vencidos nem vencedores. "Recordar o espírito olímpico é, por outro lado, aderir a uma aspiração de harmonia, cultura e paz universais, numa permanente busca da concretização de uma utopia, na crença na capacidade humana de construir o ideal. Sem esquecer, pois, a importância da presença de um ideal messiânico , estamos a celebrar o homem na dimensão de promotor da paz e do progresso , na sua capacidade de realizar e de sonhar , e de sonhar até com ideais de glória. Estas vertentes de exaltação da capacidade humana têm fortes raízes na cultura greco-latina".

É o que se lê em "O Espírito Olímpico no novo milénio", publicação do II Congresso da Associação Portuguesa de Estudos Clássicos. Excerto do prefácio de Francisco de Oliveira, publicada pela Universidade de Coimbra.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Um soneto de Shakespeare
















Um soneto de Shakespeare


Rogel Samuel



Ele começa por belas criaturas cujas formosuras de juventude queremos que nunca morram, que nunca cheguem ao outono, ou que, quando cairem as flores, guardemos na memória a sua bela herança de beleza.

Depois, pergunta clássica: por que te guardas, ó jovem, para quê? para quem? por que a ninguém amas, por que a adversidade já que és o ornamento do mundo? Guardas tua beleza para a tua própria velhice? Cantor ou cantora da primavera, egoísta, esperas pelo túmulo para colher os louros que te foram servidos...

Traduzimos:



SHAKESPEARE



Daquelas belas criaturas retorno ansiamos,
A que suas belezas nunca morram
E quando cair do tempo o Outono
Guardemos na memória sua herança.

E Tu, que só teus belos olhos amas,
Te alimentas apenas de tua própria chama
E produzes fome onde abundância existe
Por que teu suave ser é tão adverso?

Pois és do mundo agora o ornamento
És o único cantor da primavera
E recusas em ti o teu contentamento

Egoísta da natureza que há contigo
Do mundo não tens piedade, nem lamentas
Se colher no chão do túmulo o que te foi servido

(trad. Rogel Samuel)

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Bilac






Bilac


Rogel Samuel


Ele escreveu um soneto famoso, bendito o que fez na terra o fogo, o teto, a charrua, a enxada, o que plantou o pão do trigo, e forjou o ferro, o que fez o jazigo, a casa dos mortos, o que fabricou o alfabeto, e deu esmola, e fez o barco no mar, a vela ao pano, e inventou o canto, a lira, o dominou o raio, e alçou o aeroplano, e descobriu a esperança, essa mentira, essa ilusão:


"Benedicite"


Bendito o que na terra o fogo fez, e o teto
E o que uniu à charrua o boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que do chão abjeto,
Fez aos beijos do sol, o oiro brotar, do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano,
E o que inventou o canto e o que criou a lira,
E o que domou o raio e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito entre os mais o que no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

As bandeiras congeladas





As bandeiras congeladas

Rogel Samuel




Holderlin vê as heras amarelas e as rosas. A paisagem sobre a lagoa. Holderlin parece
um poeta zen. Ele vê. Cisnes Graciosos enfiam a cabeça na água. Na água plácida, santa, calma. Mas ele parece que sonha. Pois não é verão, mas inverno. Não há água no lago, nem cisnes, nem flores, nem calor, nem sol. Os muros estão mudos e frios. São muros. As bandeiras congelam.

METADE DA VIDA


Heras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; ao vento
Tatalam bandeiras.

(Trad. Manuel Bandeira)

terça-feira, 29 de setembro de 2009


O Fogo sob a Neve

O Fogo sob a Neve

Filme sobre Monge Budista preso pelos chineses no Festival do Rio.

O Fogo sob a neve





Titulo Original: Fire Under the Snow
Titulo em Inglês: Fire Under the Snow
Classificação:16


Direção: Makoto Sasa
Roteiro:

Elenco:

Fotografia: Vladimir Subotic, Lincoln Maguire, Makoto Sasa
Montagem: Milica Zec
Música:

País: Estados Unidos / Japão
Ano: 2008
Duração: 75min



Sinopse:

O monge budista Palden Gyatso nasceu em 1933, e assistiu ainda jovem à invasão da China ao Tibet. Na época, foi preso junto com muitos outros monges em manifestações pacíficas de protesto. Durante os 33 anos em que esteve detido pelo governo chinês, viveu em prisões e campos de trabalho forçado. Sua fé no budismo permitiu sua sobrevivência após décadas de tortura. Em 1992 foi solto e fugiu para a Índia, onde encontrou com o Dalai Lama. Hoje vive lá com outros exilados tibetanos e é ativista na luta pela libertação do Tibet. O filme conta com farto material de arquivo da invasão do Tibet.

Biografia do diretor:

Nasceu no Japão e estudou Mídia na Universidade de Keio. Em 1998, mudou-se para Nova York, onde fez mestrado em Estudos de Mídia na New School. Dirigiu diversos curtas-metragens e trabalhou como assistente de edição e montadora de longas-metragens de ficção e documentários. Hoje, realiza vídeos para um canal de streaming da Sony no Japão, o website World Event Village. Este é seu primeiro longa-metragem.


Mostra: Limites e Fronteiras

Em Exibição
Sábado - 03/10/2009 Espaço de Cinema 2 14:30:00 hs EC250
Sábado - 03/10/2009 Espaço de Cinema 2 21:15:00 hs EC253
Domingo - 04/10/2009 C.C. Justiça Federal 17:15:00 hs JF025
Segunda - 05/10/2009 Est Barra Point 2 16:30:00 hs BP251
Quarta - 07/10/2009 Est Vivo Gávea 5 17:30:00 hs GV563
Quinta - 08/10/2009 Est Vivo Gávea 2 22:40:00 hs GV270




segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O teto do mundo oceânico












O teto do mundo oceânico

Rogel Samuel


O mar paira sobre a imaginação do cemitério, o mar recomeçando sempre, onda após onda, o mar profundo túmulo coberto de diamantes, abismo do sol, límpidas obras, ondas de uma eterna causa, o tempo o sonho, a sabedoria, tesouro e templo de Minerva?, massa calma e nítida, o mar dos primeiros poetas, o mar de Homero, o mar heróico, como nos primeiros versos desse CEMITÉRIO MARINHO de Valéry na tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correa, tradução clássica:


Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses!


Que lavor puro de brilhos consome
Tanto diamante de indistinta espuma
E quanta paz parece conceber-se!
Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge oTempo e o Sonho é sabedoria.


Tesouro estável,templo de Minerva,
Massa de calma e nítida reserva,
Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!

sábado, 26 de setembro de 2009

Todo progresso ruma para o nada












Todo progresso ruma para o nada

Rogel Samuel

(Na foto: Irã, ontem)

Diz Bloch que “o próprio processo do mundo é uma função utópica”.

O que ele quis dizer com isso?

Todo planejamento e transformação do mundo visa a uma utopia: é a Aurora que ainda ronda o mundo. Os anseios, as enteléquias. Segundo Aristóteles, “o resultado ou a plenitude ou a perfeição de uma transformação ou de uma criação, em oposição ao processo de que resulta tal criação ou transformação – é a enteléquia. Isto é uma energia. A forma ou a razão que determinam a transformação ou a criação de um ser”. A energia é “segundo Aristóteles, o exercício mesmo da atividade, em oposição à potência da atividade e, pois, à forma”.

A utopia é uma função pública. O que persegue o bem, o que acha que a sociedade se transforma.

O Brasil mudou, mas a grande media parece que ainda não percebeu. O que há na media: ela perdeu o poder de definir o real.

“Todas as novas modas já não servem para nada”. No mundo pós-moderno cada um vai por si.

Tudo se esvai. Fantasmas,

Benvenuto Celline conta que fantasmas foram projetados na fumaça no Coliseu.
Assim, “Le néant” de Montparnasse dizia: todo progresso ruma para o nada.

A teoria da decisão filosófica de Euryalo Cannabrava




A teoria da decisão filosófica de Euryalo Cannabrava


Rogel Samuel


Mais uma vez tento reler o livro de meu mestre Euryalo Cannabrava. Livro difícil, mas extraordinário.

Cannabrava tentava publicá-lo quando era meu professor, na pós-graduação.

Ele um dia entrou furioso na nossa sala e contou que tinha ida ao gabinete do amazonense Artur Cesar Ferreira Reis, que era então presidente do Conselho Federal de Cultura, autoridade que dirigia o Instituto Nacional do Livro em plena era da ditadura militar.

- Começa que eu tive de marcar audiência e ele me deixou esperando na ante-sala, contou irado.

- Quando entrei no gabinete com os manuscritos do livro debaixo do braço, ele, sem levantar os olhos dos papéis que assina, perguntou:

- Que o senhor deseja, professor?

- Eu não agüentei: dei o murro na mesa dele e disse: "Exijo respeito!"...

E por aí foi a briga.

- Certamente o livro não será publicado... - disse Cannabrava.

Mas foi.

Euryalo Cannabrava é um dos mais importantes filósofos do Brasil. Mario de Andrade o chamava de Mestre. Professor catedrático do Colégio Pedro II, professor-visitante das Universidades de Columbia, de Londres (a convite de A. J. Ayer). Era professor de Cibernética e Lógica Matemática. Autor de diversos livros, como "Descartes e Bergson"(que tenho, com dedicatória), "Elementos de metodologia filosófica", "Ensaios Filosoficos", "Estética da Crítica" e outros.

O curso de Cannabrava a que assisti foi surpreendente. Ele contava casos de sua vida pessoal, de suas amizades, de sua formação. Disse que teve uma preceptora alemã quando criança, e que caçou búfalos selvagens na ilha de Marajó.

Seu nome é mundialmente conhecido nos dicionários de filosofia e ele se correspondia até com Bertand Russel.

O difícil era acompanhar suas aulas quando começava a discorrer sobre a lógica matemática...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

MORRE ESPOSA DE ANIBAL BEÇA


Morreu hoje (24) pela manhã a Drª. Eugenia Torenco Beça, que há exatos 22 dias perdeu o marido, o poeta Anibal Beça. Parada respiratória e refluxo foram às causas da morte, ela estava internada na unidade 2 do Hospital Santa Júlia – na Av. Boulevard Álvaro Maia, zona centro-sul de Manaus. O corpo seguirá para o necrotério do próprio hospital e posteriormente encaminhada a uma funerária para ser velada por familiares e amigos.


A manhã(Anibal Beça)



A manhã nasce entre as muitas janelas
invadindo meu corpo fatigado,
sede dos meus caminhos sem cancelas,
na luz de muitos astros albergados.

Casa onde me recolho das mazelas,
dos louros, derroteiros, lado a lado,
para ouvir de mim, franco, das seqüelas:
Ecce Homo! Eis o triste camuflado.

Essa tristeza de há muito em residência
às vezes se constrói em face alegre
máscara sem eu mesmo em aparência

num carnaval escuro no seu frege.
O que me salva, cor nessa vivência,
é saber que a poesia é quem me rege.



outubro 3 de uma manhã chuvosa
na primavera amazônica.


Aníbal Beça -N.13 Set 1946/F. 25 de Agosto de 2009





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Iran Fersil


Iran Fersil




Rogel Samuel





Morreu hoje, às 15 horas, no Rio de Janeiro, o poeta amasonense IRANÁRIS FERREIRA DA SILVA (Manaus 4 de abril 1912 - 24 de setembro 2009), o Iran Fersil. Ele foi jornalista no Rio (A noite) e professor de matemática na Escola Técnica de Manaus.

Ele tinha 97 anos e meio e era casado há 75 anos com sua esposa, Eulice Esteves da Silva hoje com 93. Morreu dormindo, de parada cardíaca. Deixou os filhos Maíra Esteves, Nicolino Marinho D'Antona, Renata D'Antona e duas netas, a conhecida escritora Eulícia Esteves (Coordenadora de Música Popular da Funarte) e Isabela Esteves Albrecht, arquiteta, que mora em Paris.

Iranáris era meu amigo há 50 anos. Sua produção poética é muito grande, mas toda publicada nos jornais de Manaus. Ele nunca publicou um só livro. Ele dizia que sua mãe era uma índia Baré.

Era do nosso Grêmio Gregório de Matos. Leia:




POUCO SONHO E MUITO AMOR


Diz-me baixinho, amor; diz, segredando,
palavras de afeto e de carinho,
para que eu vá dormindo de mansinho,
depois desperter mais e mais te amando.
Vem em meus olhos, lado a lado, andando,
para que eu não me sinta tão sozinho;
vem, sem receio, que eu serei bonzinho,
porque sem ti me quedarei chorando.
E nosso par será mui venturoso:
símbolo de amor, de gozo e de ventura
que tanta inveja então há de causar.
Serás feliz, querida, eu bem ditoso,
no lindo sonho cheio de ternura
que de tão belo não devia findar!





VOLTA!

Você voltou! Por que você voltou?
Melhor seria sempre ser ausente.
Pois que mudada está, mui diferente,
não parecendo aquela que me amou.

Perdeu, mesmo, o jeito de inocente
que, noutros tempos, tanto me encantou...
Sorriso, fala... em fim tudo mudou...
Como possível foi, tão de repente?

Volta! Já não desejo ter agora
o mesmo amor que tive outrora,
que fêz minhalma desvairada, louca.

Vai! Segue, em paz, seus floridos caminhos!...
Que outros possam colher os seus carinhos,
que de o fazer minha vontade é pouca!



MINHA VIDA

É minha vida um grã vergel talhado
por fortes ventos das desilusões;
os flóreos ramos com que hei sonhado
brotam flôres de decepções.

Nos seus canteiros, já não há trinado
a passarada, tão belas canções...
somente anum, em canto magoado,
toca de perto os nossos corações.

Minhalma errante, passa, preocupada,
colhendo, aqui, ali, pétalas caídas
que já não têm um pouco de perfume...

Assim, meu coração, de caminhada,
está deserto de amizades tidas,
guardando um resto de feral ciúme...


A MORENA E A ROSA

Dei-lhe uma rosa perfumada e bela
colhida há pouco num dos meus jardins
tenho açucenas cravos e jasmins
mas nenhum’outra se compara a ela.

Nem todas flôres têm felizes fins
mas minha rosa que destino o dela:
iluminando o peito da donzela
dando realce a todos os seus quindins.

No lindo quadro se nos afigura
uma bela e meiga, outra linda e pura
que enfim nos deixa a alma duvidosa

pois entre a flor e a escultural pequena
não sei se a rosa que enfeita a morena
ou se a morena que realça a rosa.

A amizade é um refúgio











A amizade é um refúgio


Rogel Samuel



Quando somos jovens temos naturalmente muitos amigos, espontaneamente. São colegas de rua, de colégio, de faculdade.

Na meia-idade diminui o número de amigos.

Mas na velhice (e eu me incluo aqui) são raros os amigos. Muitos já morreram. Outros mudaram-se, moram longe, em outra cidade, ou país.

Também o velho fica chato, fala menos, reclama mais, sente dores, seu corpo não agüenta longos encontros nos bares, pára de beber, tem de fazer dieta e por aí vai.

As velhas amizades permanecem. Mas há um problema: as pessoas mudam, ficam reacionárias, repetitivas, conversar com um velho às vezes é já saber o que ele vai dizer.

E há velhos que param de ler, ou só se limitam a reler os velhos livros já sabidos.

Algumas pessoas até ficam desagradáveis, só falam de filhos e netos, ou de doença.

Mas para mim o pior velho é aquele cujas opiniões são formadas pela televisão, pela imprensa em geral (que no Brasil mente sem pudor).

"A amizade é um refúgio, diz Dugpa Rinpochê, uma comunidade sagrada, fraterna. É um dos "refúgios preciosos" de que falam os diferentes Budas. No tumulto do mundo moderno, o homem e a mulher devem encontrar refúgio. Quando se encontrou refúgio, os problemas desaparecem como um vôo de pássaros perturbados pela pedra. Perdem o seu peso, e põem-se a dançar.

"Precisarias da força ascética do eremita, do mestre de sabedoria, para te libertar a ti próprio da cegueira e da ilusão. Hoje, o homem moderno não pode fazer nada sem a ajuda dos outros. Não vive nas solidões do Tibete, fora do mundo, protegido dos profanos pelo recinto sagrado do mosteiro. É o diálogo, a partilha, a reciprocidade que nos libertam, e nos trazem de novo à nascente Única, comum a todos os seres", conclui ele.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Quinto Império









O Quinto Império

Rogel Samuel




Abandonar o aconchego da lareira, do lar, do ninho, e lançar-se no sonho, no erguer das asas, abandonar a felicidade, a paz da vida que apenas dura, a espera da sepultura, o contentamento e lançar-se para as conquistas, para a Conquista, para o realidade do Quinto Império.

Que seria o Quinto Império?

O Quinto Império foi imaginado por Vieira: os quatro Impérios eram dos Assírios,
dos Persas, dos Gregos e dos Romanos.

Pessoa diz que os quatro primeiros impérios são o Império Grego, Romano, o Cristianismo e a Europa.

Seria a Era de D. Sebastião.

Oh, triste de quem fica em casa, feliz com seu lar. "Vive porque a vida dura". Não tem alma, ou nada lhe diz mais que a espera da sepultura.

Ser descontente! Viajar! Perder e perder-se em países! Um dia a terra será o Teatro do Dia Claro do Quinto Império... parece que o Quinto Império deve ser procurado, não construído.

Será que o Quinto Império não seria o próprio Fernando Pessoa?


Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.


Grécia, Roma, Cristandade,
Europa-- os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Somos condenados à felicidade









Somos condenados à felicidade


Rogel Samuel


Alain no seu delicioso "Propos sur le bonheur" diz que com mau humor ninguém consegue nada.

O mau humor, diz ele, é mais causa do que efeito. Ele até arrisca a dizer que uma das causas das doenças dos humanos é o esquecimento da gentileza, da polidez. O mau humor é, para ele, uma violência do corpo sobre si mesmo.

Aquele que busca a felicidade, que gosta dela, deve aprender a rir.

Mas reagir contra o mau humor não é fácil, quase impossível.

Dizia Chagdud Tulku Rinpochê que o ser humano de mau humor vira porco-espinho: ninguém se aproxima dele. Fica só.

Acredito que a solidão é do solitário, não das gentes - é o solitário quem quer.

Alguns têm o riso fácil e quase nunca se irritam. "Nós temos a liberdade de amar, de escolher. Não és tu quem decide, com as tuas angústias e as tuas contradições, mas a vida soberana que está em ti, aquela a quem os lamas chamam a Grande Deusa", diz Dugpa Rinpochê.

"A felicidade é primeiramente uma disposição de espírito, uma maneira diferente de olhar para o mundo. Chega até nós porque nós a desejamos apaixonadamente, segundo a lei de atração e de harmonia que rege o universo", diz o Rinpochê.

Afinal entre estar irritado, triste e estar feliz a diferença é de uma interpretação.

Os gregos diziam que a eudaimon, que é a palavra para “feliz”, ou eudaimonia, significa “que tem um poder divino (daimon) bem disposto". A felicidade era uma disposição divina, acima das disposições humanas. Algo divino, como para Aristóteles, tem a ver com a auto-suficiência.

"De um modo estrito, o termo "eudaimonia" é uma transliteração da palavra grega para
prosperidade, boa fortuna, riqueza ou felicidade", diz Scott Carson. Mas sem a concepção utilitarista de felicidade, apesar de ambas as noções poderem, em alguns pensadores, contar como aspectos da eudaimonia.

A palavra é composta pelo prefixo eu- (bem) e pelo substantivo "daimon" (espírito).

Pode-se dizer que a eudamonia é uma predisposição para a felicidade. E que os gregos de um modo geral entendiam que a eudamonia, ou felicidade, era o fim último da vida, algo que estamos sempre buscando, da vida a finalidade. Seja prazer, riqueza etc.

Somos condenados à felicidade.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cada ser humano é uma estrela





Cada ser humano é uma estrela

Rogel Samuel


"Como explicar que aquele pianista que morre de medo antes de entrar em cena depois seja possuído de grande e jubilosa alegria?", pergunta Alain. Talvez porque seus dedos não sabem o que é ter medo, e o medo é um fantasma da sua cabeça. Esse é o sentido do "treinamento" do corpo.

Em tudo podemos nós treinar. Eu escrevo diariamente como "treinamento", como um pianista que depende de várias horas de estudo por dia para poder estar sempre em forma: Quando se senta ao piano, "naturalmente" seus dedos sabem o que fazer e aquilo se torna para ele uma verdadeira natureza, ele naturalizou e se integrou com o piano. Nós somos capazes de muitas coisas desde que treinemos. Como os lutadores treinam e se adestram. E como há uma integração do corpo com a mente, vencemos alguns obstáculos.

Este é o sentido da disciplina.

A disciplina não é uma canga rígida, que estrangula o corpo. Ela permite que nos libertemos constantemente de nós próprios, disse Dugpa Rinpochê.

Creio que sem alegria não há disciplina. Sem prazer.

O maior obstáculo é aquela sensação enorme de um “eu” que há em nossa mente.
O “eu” é um fantasma que nos segue como uma sombra.

Quando começamos a nos exercitar, esquecemos temporariamente do “eu”.
Aí somos felizes.

Os conflitos, o ódio, a violência, provêm de um sentimento enorme de um eu ferido, nascido de desconhecimento de si mesmo, que gera dor e confusão, disse o Rinpochê.

“Não somos nada, tudo é o que almejamos”, escreveu mais ou menos Heidegger na Floresta Negra.

“Não duvides do teu próprio esplendor interior. Cada ser vivo é uma estrela”, disse Dugpa Rimpochê.

São pensamentos contraditórios. Mas sem a contradição não damos conta da dialética da realidade, diz o materialismo histório marxista.

domingo, 20 de setembro de 2009

O sol de sua vida




O sol de sua vida

Rogel Samuel



Li no "Propos sur le bonheur", do lendário filósofo Alain (Paris, Gallimard, 1928), que o Bucéfalo era um cavalo rebelde porque tinha medo da própria sombra. Quando ele foi dado ao jovem rei Alexandre ninguém o podia montar, era terrível.

Alexandre, discípulo de Aristóteles, logo compreendeu a causa e, tomando-o por suas rédeas, fez com que o belo cavalo malígno ficasse com os olhos voltados para o sol até cansá-lo e domá-lo.

Assim, todos os que têm medo. Temem a própria sombra. Temem o próprio bater de seu coração, temem o futuro e porque ignoram a verdadeira causa inventam logo qualquer perigo inexistente.

Alexandre não era somente um guerreiro, mas um filósofo, como seu preceptor. Não tinha medo?

Talvez. Mas, como o seu cavalo Bucéfalo, só se voltava para o sol.

Morreu cedo. Mas glorioso.

sábado, 19 de setembro de 2009

É a luz do coração que os junta





Diz Dugpa Rinpochê que devemos escolher os amigos “pela qualidade das suas almas”, mesmo que eles não partilhem das nossas aspirações e dos nossos projetos. Recomenda que não fiquemos sozinhos, pois precisamos “de uma família humana maior, para abrir o coração”, para libertar-nos. Os Amigos devem ser considerados “como irmãos e irmãs, com os quais partilhamos um segredo”. Podem comunicar-se por silêncios, sonhos premonitórios, intuições.

Para ele os amigos são espelhos dos amigos, se reconhecem uns nos outros, avaliam-se no mesmo espelho e nunca deixam de se amar. “Um é o espelho fiel do outro”, diz.
“Fica à escuta dos teus amigos, atento, disponível, como deve estar um irmão, um confidente - então eles formarão à tua volta um círculo mágico, uma mandala protetora”.

É a luz do coração que os junta, diz Dugpa Rinpochê.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O mar não tem tamanho, tem dimensão.







O mar não tem tamanho, tem dimensão.


Rogel Samuel


Quem consegue entender? Pois disse Dugpa Rinpochê: "Constrói uma ilha para ti e para
aqueles a quem amas, um templo, uma fortaleza inexpugnável... mas deixa a tua porta aberta dia e noite".

Que a porta está aberta, da fortaleza inexpugnável, do castelo, do templo, da ilha.

A porta da ilha é o amplo mar, com suas algas e ilhas e vôo de gaivota.

Toda a vez que penso, que vejo o mar me lembro do poema de Sebastião Norões, que foi meu professor de geografia.

“Eu quero é o meu mar, o mar azul.
Essa incógnita de anil que se destrança
em ânsias de infinito e me circunda
em grave tom de inquietude langue.
O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,
delimitava imprevisíveis rumos
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.
Rebenta em mim essa aspersão tamanha
que a imagem imatura concebeu
de quando o mar era meu, o mar azul.”

O mar é isso, é a glória do espaço da liberdade, das ânsias de liberdade de voar, o mar antigo. O mar de Austrálias e de luzes. Viagens de Ulisses e de mancebos guapos, de heróis e de barcos bêbados de ondas. O mar dos azulejos de amestistas, o mar que era meu, o meu mar, o mar azul.

Nada mais belo do que isso: ser dono do mar, imaginar-se dono do mar. De quando o mar era meu, essa aspersão ampla e tamanha de tudo, essa viagem de longes, de langues, de anil e de esmeraldas balançantes.

O mar não tem tamanho, tem dimensão.

O mar é o amar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A mais alta realização



A mais alta realização

Rogel Samuel


O que seria a mais alta realização? P'ang Yün fixa uma imagem do que seria a mais alta realização. O passado, o presente, o futuro... o tempo é a realização suprema.

A realização é "mente vazia". Sem "saudade" do passado, sem apego ao presente, sem ansiedade pelo futuro. Deixar o presente se apresentar como é. A realidade (os dharmas aqui significam o real da realidade) não tem vida auto-consciente, inerente. A maior penetração é ver que nada "tem vida", nem mesmo o presente (que está passando). O passado não mais existe, o futuro nem ainda é.

E mais: tudo é como é. Não existe nada errado (a ser purificado), nem existe nenhuma ordem a ser mantida. Tudo é, ou está sendo. Tudo está passando (portanto não existe nada, algo que passa não pode ser considerado).



A mais alta realização (P'ang Yün)

O passado já é passado.
Não tente recuperá-lo.

O presente não permanece.
Não tente tocá-lo.

De momento a momento.
O futuro não vem;
Não pense nisto
Antes.

Tudo que vem ao olho,
Deixe que seja.

Não há nenhuma ordem
A ser mantida;
nenhuma sujeira a ser limpa.

Com a mente realmente vazia
Penetrante, os dharmas
Não têm nenhuma vida.

Quando você puder ficar assim,
Você completou
A mais alta realização.

(Trad. Rogel Samuel)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Por que viajar por essa porta?





Por que viajar por essa porta?

Rogel Samuel



Escreveu Dugpa Rinpochê: "Podes utilizar o instante como uma porta, e deslocar-te no tempo. Tudo é possível. Reencontrar-se com a idade de cinco anos, num quarto de criança, ou no pátio de uma escola, não é uma divagação pouco consistente, nostálgica. Estás realmente nesse quarto de criança, nessa escola, isto é, no Presente dessa época. É o segredo do Instante, a chave de ouro que abre todas as portas: tudo se passa no mesmo lugar, no mesmo tempo, no mesmo momento. Estamos realmente lá, e lá é aqui".



Por que viajar por essa porta? Ver a escadaria da minha escola "Princesa Isabel", em 1948, subindo para aquele espaço, onde D. Ivete Ibiapina nos esperava com seu cantar, e de lá avistar a praça, o espaço, o Ideal Clube, o palacete dos dois pianos, o monumento ao Congresso Eucarístico, e ao longe o rio, o Rio Negro, o Rio Sempre Negro, o Rio para sempre Negro, ameaçador como a morte, no centro do qual tudo gira, num rodopio de vida e de morte, onde tudo desaparece e reaparece, ou melhor, onde nada desaparece sem deixar o seu rastro: "o instante como um vazio rodopiante, no centro da roda da vida e da morte. Esse estado de ser nunca desaparece. Ele é a permanência, o fundamento, e, no entanto, move-se constantemente, sem nunca alterar a sua imobilidade irradiante", diz
o mesmo Dugpa Rimpochê.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Nenhuma noite é tão longa





Nenhuma noite é tão longa

Rogel Samuel



Escreveu Dugpa Rimpochê: "Mantém o teu espírito permanentemente na alegria do instante e o medo será destruído. Nenhuma noite é tão longa e escura que impeça a alvorada".

Nenhuma noite é tão longa que impeça a alvorada de surgir. Nenhuma noite é tão escura que não deixe de nascer o sol. A obscuridade da noite, por mais sinistra que seja, também passa.

Por que manter-se o espírito no instante?

- Porque o instante passa.

Nenhuma noite é tão longa: o dia nascerá. As épocas mais obscuras da História foram longas noites tenebrosas, obscuras, mas passaram.

O mundo do espírito, o mundo da mente, é o momento presente, onde tudo o ocorre.

Só o presente é eterno.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Meditar na estrada


"Quando tu andas, abandona-te à estrada, com o espírito calmo, sem tensão nem agitação. A marcha é regeneradora. Utiliza-a como uma meditação", escreveu Dugpa Riompochê.

Caminhar, abandonar-se ao andar, ouvir o caminho, o silêncio do caminho.

A meditação andando é excelente.

No "Manual para a prática da meditação", escreveu BIKKU MANGALO:


"Entre as sessões da prática sentada,o meditador deve procurar um local tranqüilo, onde possa caminhar de lá para cá sem ser perturbado. Não precisa ser muito longo. Mesmo o nosso quarto, se não for pequeno demais, pode servir. Ou um corredor, jardim, salão, etc. O melhor neste exercício é que caminhamos mais lentamente do que o fazemos normalmente. A marcha deve ser, entretanto, tão simples e natural quanto permita sua velocidade. Durante o período de andar, de lá para cá, a atenção deve estar fixa no movimento das pernas e pés".
http://caminhodeshantideva.blogspot.com/2009/07/manual-para-pratica-da-meditacao.html

domingo, 13 de setembro de 2009

Wittgenstein

Escreveu Dugpa Rinpochê: "Não oponhas o visível e o invisível, o mundo material e o mundo do espírito. Seria como afirmar que o gelo não é água". Que dizem nossos olhos sobre o visível e o invisível? Onde está o limite que separa, a que podemos chegar, entre o pensável e o além? Eu me lembro de um belo texto de Heidegger sobre a questão desse limite. Heidegger e Wittgeinstein pensaram o limite. "O pensamento contém a possibilidade do estado de coisas que ele pensa. O que é pensável é igualmente possível", escreveu Wittgeinstein. Transcrevo aqui a súmula que fiz para meus alunos da tradução de Authur Gianotti do:



TRACTATUS LOGICO-PHILOSOPHICUS DE WITTGENSTEIN (1918/1921)

Trad. José Arthur Gianotti


Sinopse feita por Rogel Samuel



O mundo

1 - O mundo é tudo o que ocorre.
1.1 - O mundo é o conjunto dos fatos, não das coisas.
1.11 - O mundo é determinado pelos fatos, estes fatos sendo a totalidade dos fatos.
1. 12 - Porque a totalidade dos fatos determina aquilo que ocorre e também aquilo que não corre.
1. 13 - Os fatos, no espaço lógico, constituem o mundo.
1. 2 - O mundo se decide em fatos.
1. 21 - Algo pode ocorrer,ou não ocorrer e todo o resto permanecer igual.
2 - O que ocorre, o fato, é a existência de estados de coisas.
2.01 - O estado de coisas é uma ligação de objetos (entidades, coisas).
2.011 - É essencial para a coisa poder ser parte integrante de um estado de coisas.
2.012 - Em lógica nada é acidental: se a coisa pode aparecer dentro de um estado de coisas é necessário que a possibilidade do estado de coisas esteja previamente inscrito na coisa.


Os objetos

2.02 - O objeto é simples.
2.0201 - Cada enunciado sobre complexos se sobre complexos pode decompor em um enunciado proposições que descrevem integralmente os complexos.
suas partes constitutivas e naquelas
2.021 - Os objetos formam a substância do mundo. Eis porque não podem ser compostos.
2.0211 - Se o mundo não tivesse ponto de substância, o fato de saber se uma proposição tem sentido dependeria de saber se outra proposição é verdadeira.
2.0212 - Seria impossível de projetar uma imagem do mundo, verdadeira ou falsa.
2.022 - É evidente que tão diferente que pudesse ser do mundo real um mundo imaginário ele deve ainda assim ter alguma coisa de comum -- uma forma -- com o mundo real.
2.023 - Esta forma estável consiste em objetos.
2. 0231 - A substância do mundo só pode determinar uma forma, e não propriedades materiais já que estas propriedades materiais são representadas pelas proposições, formadas pela configuração dos objetos.
2.0232 - Seja dito de passagem: os objetos são incolores.


Os estados de coisas

2.03 - No estado de coisas os objetos se ligam uns aos outros como elos
de uma cadeia.
2.031 - No estado de coisas os objetos se comportam uns em relação aos outros de uma maneira determinada.
2.032 - A maneira pela qual os objetos se ligam no estado de coisas constitui a estrutura do estado de coisas.
2.033 - A forma é a possibilidade da estrutura.
2.034 - A estrutura do fato consiste nas estruturas dos estados de coisas.
2.04 - A totalidade dos estados de coisas existentes é o mundo.
2.05 - A totalidade dos estados de coisas existentes determina igualmente que tipos de estados de coisas não existem.
2.06 - A existência e a inexistência de estados de coisas constituem a realidade.
(A existência de estados de coisas nós a chamamos também de fato positivo, sua inexistência de fato negativo.)
2.061 - Os estados de coisas são independentes uns dos outros.
2.062 - Da existência ou não-existência de um estado de coisas não
é possível concluir a existência ou não-existência de outro.
2.063 - A realidade total é o mundo.


A imagem

2.1 - Nós nos fazemos imagens dos fatos.
2.11 - A imagem representa o fato no espaço lógico, a existência e a não-existência dos estados de coisas.
2.12 - A imagem é uma transposição da realidade.
2.13 - Na imagem os elementos da imagem correspondem aos objetos.
2.14 - A imagem reside no fato de que seus elementos têm ligações determinadas uns com os outros.
2.141 - A imagem é um fato.
2.15 - O fato de que os elementos da imagem têm ligações determinadas uns com os outros se relaciona ao fato de que as coisas se comportam da mesma maneira umas com as outras.
Esta conexão dos elementos da imagem nós a chamamos sua estrutura, e a possibilidade dela sua forma de representação.
2.151 - A forma da representação é a possibilidade de que as coisas se comportem umas com as outras como os elementos da imagem.
2.1511 - A imagem se enlaça com a realidade; ela a atinge.
2.1512 - É como um padrão de medida que se aplica à realidade.
2.15121 - Somente os pontos extremos dos traços que dividem a superfície estão em contato com o objeto a medir.
2.1513 - Segundo esta concepção, pertence igualmente à imagem a relação de representação que a torna uma imagem.
2.1514 - A relação de representação é constituída pelo modo por que os elementos da imagem se coordenam com as coisas.
2.1515 - Estas coordenações são espécies de antenas dos elementos da imagem, pelas quais as imagens entram em contato com a realidade.
2.16 - O fato de ser imagem implica que haja alguma coisa comum entre a imagem e aquilo que ela representa.
2.161 - É necessário que na imagem e naquilo que ela representa haja qualquer coisa de idêntico, para que uma possa:ser uma imagem do outro no sentido preciso do termo.
2.17 - Aquilo que a imagem deve ter de comum a fim de que a possa representar à sua maneira com é a forma da representação.
2.171 - A imagem pode representar cada realidade da qual ela tem a forma A imagem entendida no espaço pode representar tudo o que é espacial, a imagem colorida tudo o que é colorido etc.
2.172 - Entretanto a imagem não pode representar sua própria forma de representação: ela apenas a mostra.
2.173 - A imagem representa seu objeto de fora (seu ponto de vista constitui sua forma de representação); eis por que a imagem representa o objeto de modo justo ou falso.
2.174 - A imagem, porém, não poderia representar-se fora de sua forma de representação.
2.18 - Aquilo que cada imagem, de qualquer maneira que seja, deve ter em comum com a realidade, para absolutamente podê-la representar -justamente ou falsamente -- é a forma lógica, isto é, a forma da realidade.
2.181 - Se a forma da representação é a forma lógica, a imagem se chama imagem lógica.
2.182 - Toda imagem é também uma imagem lógica (entretanto, nem toda imagem
é espacial).
2.19 - A imagem lógica pode representar o mundo.
2.2 - A imagem tem em comum com o objeto representado a forma lógica da representação.
2.201 - A imagem representa a realidade porque ela representa uma possibilidade de existência e de não-existência de estados de coisas.
2.202 - A imagem representa uma possibilidade de estado de coisas no espaço lógico.
2.203 - A imagem contém a possibilidade do estado de coisas que ela representa.
2.21 - A imagem concorda ou não com a realidade: ela é fiel ou infiel, verdadeira ou falsa.
2.22 - A imagem representa aquilo que ela representa independentemente de sua verdade ou de sua falsidade; por meio de sua forma de representação.
2.221 - Aquilo que a imagem representa constitui seu sentido.
2.222 - No acordo ou no desacordo do sentido da imagem consiste sua verdade ou sua falsidade.

O signo proposicional

3. A imagem lógica dos fatos constitui o pensamento.
3.001 - "Um estado de coisas é pensável" significa: nos podemos fazer-nos dele uma imagem.
3.01 - A totalidade dos pensamentos verdadeiros constitui uma imagem do mundo.
pensamento.
3.02 - O pensamento contém a possibilidade do estado de coisas que ele pensa. O que é pensável é igualmente possível.
3.03 - Nos não poder1amos pensar nada ilógico porque dessa forma teriamos de pensar ilogicamente.
3.031 - Alguém disse que Deus poderia tudo criar menos aquilo que contrariasse as leis lógicas. Com efeito, nós não poderíamos dizer como seria um mundo "ilógico".
3.12 - Chamo signo proposicional ao signo pelo qual exprimimos o pensamento.
3.144 - É possível descrever situações, impossível entretanto nomeá-las. (Os nomes são como pontos; as proposições são como flechas, elas têm um sentido).
3.202 - Os signos simples empregados nas preposições são chamados nomes.
3.221 - Eu não posso nomear os objetos. Os signos os representam. Eu só posso falar dos objetos. Eu não saberia pronunciá-los. Uma proposição só pode dizer de uma coisa como ela é, não o que ela é.
4.001 - A totalidade das proposições é a linguagem.
4.023 - Por meio da proposição a realidade é fixada enquanto sim ou enquanto não. A realidade é completamente descrita por ela. Assim como a descrição de um objeto se dá segundo as suas propriedade externas, a proposição descreve a realidade segundo suas propriedades internas. A proposição constrói o mundo com a ajuda de andaimes lógicos.
4.116 - Em geral tudo o que pode ser pensado o pode ser claramente. Tudo o que se deixa exprimir, deixa-se claramente.
4.12 - A proposição pode representar a realidade inteira, mas não pode representar o que ela deve ter em comum com a realidade para poder representá-a -- a forma lógica.
Para podermos representar a forma lógica seria preciso nos colocar, com a proposição, fora da lógica; a saber, fora do mundo. O que se exprime na linguagem não podemos expressar por meio dela. A proposição mostra a forma lógica da realidade. Ela a exibe.
4.1212 - O que pode ser mostrado não pode ser dito.


sábado, 12 de setembro de 2009

FALECE ANTONIO OLINTO




Soneto de Natal de Antonio Olinto

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"
Machado de Assis

Mudaria o Natal ou mudo iria
Mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
Novidadeiro, múltiplo, daria
Ao mudadiço mito da alegria
Em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
De mucama, de verso, pouso, dia,
Porque a muda modula esse desnudo
Renascimento em palha, e molda e afia
O instrumento da troca, o fim miúdo,
A noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
Ou somente o Natal me mudaria?

Nova York, Natal de 1965

"Tempo de Verso" - poesia - 1992


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O canto do rei






O canto do rei

Rogel Samuel


Depois de um elogio de Neuza Machado ao poema de Walmir Ayala abaixo, volto àqueles versos de mãos limpas de ouro, mas que sobrevivem a cada manhã fabricando seu próprio sol, rei pássaro matinal que tenta no desespero voar, e se pergunta, pária, que se condena ao estado de rei-mendigo onde claudica, ele, como pássaro, abre a sua canção ao espaço (oblíquo) de seu desusado jardim, demodê, "o coração já não se usa" (disse um poeta), pois não sendo ele-mesmo um jardineiro do chão, faz dos astros as suas flores a cada aurora, mar onde mergulha, mar onde adere, e onde naufraga, invertido (os mastros se mergulham primeiro, ao naufragar), e na sua esquadra feita de só de quilhas, no peso dessas quilhas está seu ouro, sua riqueza, suas luas, as luas do seu reino, as luas do seu reino de estrelas, que se desbobram cada madrugada como um pálio de párias, que poeta!


CANTO DO REI

Rico de ouro não sou, porém. fabrico
o sol cada manhã, estendo penas
(pássaro matinal) e atinjo antenas
de desespêro no meu vôo ubiquo.
Se tu, pálio de párias, me condenas
à rude mendicância onde claudico,
abro a minha canção no espaço oblíquo
das tuas superadas açucenas.
Jardineiro não sou. Feitor dos astros,
recrio minha aurora de aderências
na prematura submersão dos mastros.
Nas quilhas dêstes barcos que me sobram,
é que o sol dos meus ouros se conforma,
e as luas do meu reino se desdobram.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O PAPEL EM BRANCO


O papel

Rogel Samuel


O papel em branco pede o poema, o papel, pressagia o sonho, o papel, incita à escrita, o papel, nítido e branco, é uma superfície branca, de uma vida nova, que ainda vai nascer, o papel, onde nada existe, nem está escrito, o papel, me deixa vigilante, em silêncio experto, no sem-pensamento, o papel, onde me deito, em que espero lento, pingo na tinta, como que desenho, o papel, linhas finas magras, requebradas linhas, onde me descrevo, o papel, os meus dedos finos, parecem se alegram, como estar na praia, roupa de brim branca, sob o sol lavada, o papel, etc.

O PAPEL EM BRANCO




João Cabral de Melo Neto



Esta folha branca
Me prescreve o sonho;
Me incita ao verso
Nítido e preciso.

Não é a morte
Que a faz deserta;
É branca de vida
Ainda por nascer.

Eu me refugio,
Nessa sala nua
Onde nada existe
Que o tempo gaste.

Fico em silêncio,
Vigilante, desperto.
Ah, não ter pensamento,
Palavras ou obras.

Que amanhã esqueça
(Mortes parciais)
Que amanhã descubra
(De mim mesmo o próximo).

Nessa folha branca,
Em desenho me deito,
Magro ser de linhas
E dedos finos.

Pareço estar alegre
De me saber na praia,
Roupa de brim branco,
Camisa lavada;

Ou do sol, que não é
Lâmpada que se acende
Para afugentar os sonhos
Que povoam o quarto.

Essa folha branca
É também paisagem
De que sei traçar
Toda a geografia.

Tudo aí existe
Possível e futuro:
Acidentes de terreno
De trânsito e amor.

Nessa folha branca
Um menino um dia
Descobriu-se livre
De tudo inventar.

Os cabelos nos olhos
Não deixavam ver
Que era menino triste
Sempre por chorar.

Menos quando um lápis
Entre os dedos sujos
De tinta, viajava livre
Nesse mapa virgem.

Nessa folha branca
Agora, poeta, escreve
Versos que contêm
Sempre a palavra: branco.

O poema no corpo
Se aproxima tímido
Para grafar o mundo
Que deseja branco.

Sem compreender
Que o poema, talvez,
Seja o deserto branco
Que sua mão destrói.

(Donde pois o tédio
Que é o verso feito?
Por que só arrependimento
Vem da folha escrita?)

Ante a folha branca
Impossível é evitar
O pensamento de sal,
De luz, de saúde.

Nem sempre esse sol
É o sol natural,
É o sol de aspirina,
Pequenos discos brancos.

Mas é sol: espanta
Os fantasmas, e as sombras
Fogem de sob as coisas
Como ao meio-dia.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Walmir Ayala



Sou de uma geração que cultuava o poeta e crítico de arte Walmir Ayala. Grande poeta hoje esquecido nas vagas gavetas empoeiradas dos sebos e das antigas casas. Ayala era inteligente, ágil, meio gordinho (quando o vi). Aliás a única vez que o vi pessoalmente foi na sala de aula do mestre Alceu Amoroso Lima. Ayala assistiu ao curso de Cultura Brasileira do mestre Alceu, junto com outras personalidades. Sentado discretamente ali atrás, entrava e saía em silêncio, discreto, elegante, moderno. Ayala foi o primeiro intelectual moderno do Brasil, no sentido de sua pessoa e no seu modo de vestir, de ser, de ousar, rompendo uma tradição machista. Era um poeta. Um poeta excelente. Creio que nunca será esquecido.



CANTO DO REI

Rico de ouro não sou, porém. fabrico
o sol cada manhã, estendo penas
(pássaro matinal) e atinjo antenas
de desespêro no meu vôo ubiquo.

Se tu, pálio de párias, me condenas
à rude mendicância onde claudico,

abro a minha canção no espaço oblíquo
das tuas superadas açucenas.
Jardineiro não sou. Feitor dos astros,
recrio minha aurora de aderências
na prematura submersão dos mastros.

Nas quilhas dêstes barcos que me sobram,
é que o sol dos meus ouros se conforma,
e as luas do meu reino se desdobram.

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