quinta-feira, 2 de março de 2017

FALA INICIAL




FALA INICIAL


Rogel Samuel



No primeiro verso: “Não posso / mover / meus passos”, há sete sílabas, com três tônicas: PO / VER / PAS – e marcam a sucessão de tônicas e átonas, compassada sucessão dos iniciais passos do “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles.
Mas já que o Romanceiro começa por um “não” – “não” de “não posso”, ou seja, “não” de interdição, do Interdito, do Proibido, do Negado, “não” da “morte e destruição”, daquela revolução que se perdeu, trágica, “que transita sobre angústias”.
Quem diz, no início: “não posso”, numa introdução negativa, negada, invertida, inversa – diz também “não entrarás, ó leitor”, e/ou “não vou ser capaz de fazer”, ó poeta. É a anti-proposição,  do Romanceiro.
Não, não posso entender o que aconteceu, naquele labirinto da História, onde o Brasil é esquecido, nó cego, morto, apagado, não da memória daquela estória de amores e de ódios. Não, não compreendo eu, o que estava acontecendo, naquele vinte e um de abril, no instante de lá, a terra está confusa, no ar sinto sinos, na boca ouço “o roçar das rezas”, na pele me arrepia a morte, ao ouvir a condenação, a culpa, o degredo, o Não.

Não posso mover meus passos
por êsse atroz labirinto
de esquecimento e cegueira
em que amôres e ódios vão:
-pois sinto bater os sinos,
percebo o roçar das rezas,
vejo o arrepio da morte,
à voz da condenação;

Mas vejo, e já pressinto, a masmorra, a sombra, o carcereiro que transita pisando angústias com o coração fechado, as altas madeiras do cadafalso, a morte pública, o pasmo da multidão.
          O poema todo é acompanhado pela batida sincopada de um “ÃO”, - ão! – ão! – ão! -  que se repete, com a regularidade da marcha fúnebre, cadavérica, do bater de pesados, soturnos sinos, funerários: vão, condenação, coração, multidão, oração, proclamação etc. até o fim, com o fim mortal “eterna escuridão”.

-avisto a negra masmorra
e a sombra do carcereiro
que transita sobre angústias,
com chaves no coração;
-descubro as altas madeiras
do excessivo cadafalso
e, por muros e janelas,
o pasmo da multidão.

O próximo verso é magistral: “batem patas de cavalos”. Por quê digo magistral? Primeiro, pelas consoantes que batem: o “b”, o “p”, o “t”, o “k” (de cavalos) – todas batem naqueles cinco “aa” – ba – pa – ca – va ---- de tal modo que quase é possível, com certa imaginação sonora, ouvir as patas dos cavalos batendo nas calçadas, nas pedras daquelas ruas de Vila Rica, no dia vinte e um de abril de 1789, cavalos dos soldados da morte, cavalos signos masculinos do poder de vida e morte.
Ah, aliás todo o poema é sonoro: dá para “ouvir” o bater dos sinos, o sussurrar das rezas, o tilintar das chaves, as patas dos cavalos, a voz do Brigadeiro... – aquilo fala da desgraça, das vozes daquele fatídico dia.

Batem patas de cavalos.
Suam soldados imóveis.
Na frente dos oratórios,
que vale mais a oração?
Vale a voz do Brigadeiro
sobre o povo e sobre a tropa,
louvando a augusta Rainha,
-já louca e fora do trono
na sua proclamação.


Ali, o poema cai na “cova do tempo”. Lá, as “intrigas de ouro e de sonho” se confundiram sinistramente com a condenação e a morte. Ali, se misturam “quem ordena, julga e pune” com “quem é culpado e inocente”. Lá, a “tinta das sentenças” e “o sangue dos enforcados” morrem no mesmo pântano lúgubre e terrível. Ali, “o castigo e o perdão” caem na mesma cova.  Lá, confundem-se “liras, espadas e cruzes”. E ali no mesmo vão obscuro, “as palavras, o secreto pensamento, as coroas e os machados, mentira e verdade estão.”  Lá os “ossos, nomes, letras, poeira...”.  Sim, rostos, almas, herdeiros, rastros - o mundo está no mesmo chão do esquecimento.

Ó grandes muros sem eco,
presídios de sal e treva
onde os homens padeceram
sua vasta solidão...

Você sabe o que é “muros sem eco”? Muros sem fala, nem eco? Muros dos presídios amargos e escuros? Presídios de solidão vasta e padecer?

Não choraremos o que houve,
nem os que chorar queremos:
contra rocas de ignorância
rebenta a nossa aflição.

Choramos êsse mistério,
êsse esquema sôbre-humano,
a força, o jôgo, o acidente
da indizível conjunção
que ordena vidas e mundos
em pólos inexoráveis
de ruína e de exaltação.

Ó silenciosas vertentes
por onde se precipitam
inexplicáveis torrentes,
por eterna escuridão!


         No alto da praça principal de Ouro Preto há estátua de mulher que sorri, no cimo do prédio onde é hoje o Museu da Inconfidência, mas que era Cadeia: um museu da tortura (tão próprio nesse país), a Casa do Poder Repressivo, na época da Inconfidência, sim, há uma estátua, e ela representa a justiça, ela é mulher com afiada e pontiaguda faca, espada na mão, espada que aponta o espaço, lá onde se pode imaginar o vão do ventre de um ser humano, espada fina, na ameaçadora mão, da Justiça, que ri, que sorri, que perigosamente sorri, de prazer, de gozo, sorriso do mistério, nunca desvendado, sorriso das lendas mortas, das silenciosas vertentes, das falas, dos mitos, da substância inexplicável das correntes escuras da escravidão, sorriso da morte, do escuro destino, da sombra da Noite, da destruição das vidas e dos amores, de amadas, de poetas, de ouro, de diamantes, daquele esquema ultramarítimo da espoliação capitalista, da força da devassa, do santo inquérito, do cadafalso, da tortura, das masmorras de pedra, do esquartejamento, do ouro!

A obra póstuma




A obra póstuma

Rogel Samuel



De modo que, amigo/a leitor/a, foi assim que Guimarães Rosa iniciou um discurso na Academia de Letras... pela conclusão. Um dia desses conto para você como foi o meu encontro com Guimarães Rosa. Hoje não. Hoje quero dizer que a tarde está fria. Chris, ou o seu disco, toca uma sonata de Schubert. Todas as tardes frias se parecem com uma sonata de Schubert. Eu só sei disso por ouvi-las numa tarde fria e escura. As tardes frias e escuras são profundas. Não é a toa que o carioca é leviano. Aqui não há tardes frias e escuras. Só dá para ser superficial. Chris é de Portland, no Oregon. Há paredes, na sonata de Schubert. Paredes por onde a imaginação se debate, entre esses muros ela se agita, sonha com o espaço. Ninguém pode prender um homem livre. Podem encarcerá-lo na profundeza das mais secreta masmorra, mas internamente ele permanece livre, disse alguém. Na sonata em A maior, está dito "Opus Posthumous", D. 959. É assim, nessa tarde póstuma. A sonata da morte. Mas tão leve, tão linda. Um dia estive para morrer, fui entrando num bom estado de paz, de tranqüilidade... até que o médico me deu uma injeção e despertei neste nosso mundo. Chris, eu me lembro dele em Friday Harbour, Whashington DC. Havia um piano velho, descobrimos um piano velho, no fundo do estádio, onde todos os dias Chris ia praticar. O teclado estava meio solto. O velho piano quebrado. Lá, eu, ele e Chrystal, sua esposa, ouvíamos Beethoven. Era o único piano daquela parte da ilha. Opus Posthumous, diz o disco. Tão fria, tão bela, e tão póstuma. Lembra a limpidez frígida do túmulo.
            A segunda vez que o encontrei foi na Austrália. Lá ele tinha um teclado portátil, com o qual podia tocar o Cravo Bem Temperado de Bach.  Som de cravo. Nós estávamos no meio de uma grande floresta, alguns quilômetros de Kyogle. Ao amanhecer havia vários animais. Nos cercavam, nos espiavam. Pessoas falavam que ali havia as mais venenosas serpentes. A Austrália é a pátria das serpentes. Negras, veludo negro liso. Aquele era um lugar extraordinário: Vajradhara Gompa. As noites punham tantas estrelas que entontecíamos só de vê-las e pensá-las. Oh, Montanhas.
            Sydney. Lembro do hotel Sullivans, Oxford Street 21, em Paddington. A vida noturna da cidade. Pubs, clubs. Visitei a exposição de Sebastião Salgado ali.  Sydney é a capital da fotografia. Há um erotismo no ar. Respira jovialidade e democracia. Eu quase fico lá, de vez. Não há crimes, nem violência, em Sydney. Culturas variadas em harmonia. Fraternidade universal. Em Paddington estávamos em paz. Ouvi a Quarta Sinfonia de Brahms naquela monstruosa Opera House. Infelizmente a Orquestra Sinfônica de Sydney deixa a desejar. Ou aquele maestro. É certo que sou fanático desta sinfonia. Tenho dela diferentes gravações. A melhor, para mim, é a de Bernard Haitink, com a Boston Symphony Orchestra.

                        Vou escrever uma crônica para deixar na gaveta. Quando eu morrer, alguém, a amiga Nappy por exemplo, deve publicá-la. E publicar com o aviso: "Opus Posthumous". Chic.

quarta-feira, 1 de março de 2017

A amizade é um refúgio

A amizade é um refúgio











A amizade é um refúgio


Rogel Samuel



Quando somos jovens temos naturalmente muitos amigos, espontaneamente. São colegas de rua, de colégio, de faculdade.

Na meia-idade diminui o número de amigos.

Mas na velhice (e eu me incluo aqui) são raros os amigos. Muitos já morreram. Outros mudaram-se, moram longe, em outra cidade, ou país.

Também o velho fica chato, fala menos, reclama mais, sente dores, seu corpo não agüenta longos encontros nos bares, pára de beber, tem de fazer dieta e por aí vai.

As velhas amizades permanecem. Mas há um problema: as pessoas mudam, ficam reacionárias, repetitivas, conversar com um velho às vezes é já saber o que ele vai dizer.

E há velhos que param de ler, ou só se limitam a reler os velhos livros já sabidos.

Algumas pessoas até ficam desagradáveis, só falam de filhos e netos, ou de doença.

Mas para mim o pior velho é aquele cujas opiniões são formadas pela televisão, pela imprensa em geral (que no Brasil mente sem pudor).

"A amizade é um refúgio, diz Dugpa Rinpochê, uma comunidade sagrada, fraterna. É um dos "refúgios preciosos" de que falam os diferentes Budas. No tumulto do mundo moderno, o homem e a mulher devem encontrar refúgio. Quando se encontrou refúgio, os problemas desaparecem como um vôo de pássaros perturbados pela pedra. Perdem o seu peso, e põem-se a dançar.

"Precisarias da força ascética do eremita, do mestre de sabedoria, para te libertar a ti próprio da cegueira e da ilusão. Hoje, o homem moderno não pode fazer nada sem a ajuda dos outros. Não vive nas solidões do Tibete, fora do mundo, protegido dos profanos pelo recinto sagrado do mosteiro. É o diálogo, a partilha, a reciprocidade que nos libertam, e nos trazem de novo à nascente Única, comum a todos os seres", conclui ele.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Hollywood and Highland Center

Hollywood and Highland Center



H&H

Rogel Samuel


Hoje falo de um lugar, de um Shopping: o Hollywood and Highland Center, em Hollywood, onde fui várias vezes com minha amiga Maíra, que lá estava morando, e agora voltou para o Brasil.

Ele tem um enorme e horroroso Elefante. Uma estátua gigantesca, perto do Kodak Theatre.

O Elefante é o seu signo, e dispõe de um Cartão Elefante.

E tem um site, o
http://www.hollywoodandhighland.com/

Típico americano. Um hotel, o Renaissance Hollywood Hotel & Spa, com 640 apartamentos.

Por que lembrar daquele lugar? Por causa de um café, que lá não mais existe: o Café Mozart.

Certamente um café para ser lembrado, dentre o rol de cafés famosos: o Hard Rock Cafe, O Café de Flore, o Café de la Musique, O Café de la Paix...

Pequeno, aconchegante, íntimo, Maíra e eu conversamos naquele café nossas saudades do Brasil, e eu nunca me esqueci.

Assim também com Neuza Machado, no Café de Flore, numa noite de estrelas, em Paris.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O sol do verão Rogel Samuel

 O sol do verão

Rogel Samuel

O sol, o verão. O brilho intenso, os ares claros, as nuvens raras. No Rio é tempo de amar.
            Lembro-me de crônica de Rubem Braga, sobre o começo do verão.
            Um dia - e não sei se já contei - estávamos na biblioteca da Faculdade que na época era a FNFi, ou Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Ficava onde hoje está a Academia de Letras.
            Era manhã cedo.
            Entra um bêbado.
Um homem em desalinho, mas bem vestido.
Grita:
            - Tem meus livros aí?
            Ivete, a diretora da biblioteca, manda chamar os funcionários para que ponham para fora o intruso.
            Mas não deixamos e ele se reuniu conosco.
            Era Rubem Braga.
            Tinha acabado de ser embaixador, ou coisa assim.
            Não disse quem era, mas nos contou sua vida (com detalhes indiscretos que não devo contar).
Escreveu um poema para minha amiga Maria Alice (será que ela ainda o guarda? - vou perguntar).
            Falou de literatura, poesia, vida. De Copacabana.
            Narrou suas mágoas.
Braga é um dos maiores escritores do país.
Seu texto, comparável a Clarice, a Machado, a Francisco Manuel de Melo.
Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666) é autor da CARTA DE GUIA DOS CASADOS, escrita na prisão, que fala 'do amor e da obediência'.
Diz Manuel de Melo: 'Não sou já mancebo. Criei-me em cortes; andei por esse mundo; atentava para as coisas; guardava-as na memória. Vi, li, ouvi."
O texto seco, sem adjetivos, direto e elegante. Como eu gosto.
' Estes serão os textos, estes os livros que citarei a V. Mercê, neste papel; onde, juntas algumas histórias que me forem lembrando, pode muito bem ser não sejam agora menos úteis que essa máquina de gregos e romanos, de que os que chamamos doutos, para cada coisa nos fazem prato, que às vezes nos enfastia'.
Mas meu assunto é o sol.
O o sol do verão me alucina.
            E de Braga a D. Francisco Manuel de Melo passei.
Precisamos aprender a escrita com D. Francisco. E a bem casar.
Minha amiga X me critica. Diz que a minha linguagem é telegráfica.
Sim. É. Corto mais do que introduzo palavras.
Meu ideal é escrever uma crônica de uma única linha.


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

OH, ABRE ALAS, PARA O CARNAVAL ...

OH, ABRE ALAS, PARA O CARNAVAL ...

ROGEL SAMUEL

    "Oh abre alas, que eu quero passar!..."  A lembrança mais antiga, a do carnaval de rua. Levavam cadeiras de casa para ver o desfile. Na Avenida. Nada de escola de samba. Blocos, carros, sem alegorias, só fantasias. Só alegria. Serpentinas, confetes coloridos. Muita lança-perfume. De vidro, de metal. Grandes, médias, pequenas. "Oh abre alas, que eu quero passar!..."  A Camélia, enorme boneca, passava. Saía do Olímpico. Pandeiros. No baile chic, ou de classe-média. Os ricaços da época tinham seu carnaval no Club, no Municipal, no Copa, classes sociais, distintas. Castas. O carnaval dos pobres não era ali. Pobre, pacífico no cotidiano, quando bebe quer brigar. Briga de morte. Basta uma gracinha para a sua «dama», sai morte, facadas, escopetadas, tiros. O álcool libera a morte, animal feroz. No dia seguinte,
Acorda Maria Bonita
Levanta, vem fazer o café,
Que o dia já vem raiando
E a polícia já está de pé
     Assistimos à passagem do carnaval-alegria para o carnaval-espetáculo. Carnaval-mercadoria. Mecanizado. A degradante comercialização da arte do carnaval-bum-bum. A vendibilidade, dessacralização do popular. No carnaval as mulheres eram mais belas nas cabeças dos cabras embriagados:
Se você fosse sincera,
Ô ô ô ô, Aurora
Veja só que bom que era,
Ô ô ô ô, Aurora
Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora
Ô ô ô ô, Aurora...
     O carnaval do Rio na Rio Branco. Vinha da Central, descia a Presidente Vargas e terminava na Cinelândia. Ou melhor, terminava no Aterro, o dia nascendo, grande banho de mar à fantasia na praia do Flamengo. O Aterro, na madrugada, vivia o verdadeiro Carnaval, a orgia do Carnaval, liberado, reinando Baco. Não era iluminado, como agora. Agora predomina o mau-gosto, o grosseiro, a música automática da cultura de massa carnavalizada.
     Bom era ver a descida do Salgueiro, do morro até a Saens Peña. Aquela majestade salgueirense, cantava:
Apesar
de não possuir grande beleza
Chica da Silva
surgiu no seio
da mais alta nobreza
O contratador
João Fernandes de Oliveira
a comprou
para ser a sua companheira
E a mulata que era escrava
sentiu forte transformação
trocando o gemido da senzala
Pela fidalguia do salão
     Talvez o mais belo samba-enredo de escola de samba de todos os tempos. Saiu da genialidade de Noel Rosa de Oliveira e Anescarzinho, em 1963. A fantasia de Chica, usada por Isabel Valença, custou um milhão e trezentos mil. Tinha uma cauda de sete metros. As anáguas precisaram de armação de aço. A peruca media um metro e dez centímetros de altura. Ornada de pérolas. O Salgueiro investiu 40 milhões e 200 mil cruzeiros. Governo Lacerda. O enredo teve a colaboração de Joãozinho Trinta, a convite de Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona. Foi seu primeiro trabalho.
Eu sou da lira
Não posso negar
Rosa de Ouro
é quem vai ganhar
     Os novos sambas-enredo seguem o molde morto do que já é aceito. O carnaval-espetáculo, belo,  de rua, sucumbe ao excesso de luzes, de refletores, dos olhos das TVS.  Sucumbe à busca da fama, um fantasma, contrário á beleza do anonimato  singelo da arte popular. Da arte do tempo árabe dos Bailes no Sírio e Libanês.
Atravessamos
o Deserto do Saara
O sol estava quente
E queimou a nossa cara
     Sim, gloriosa, Emilinha Borba, cantando, do mestre Braguinha, o hino do existencialismo:
Chiquita bacana
Lá da Martinica
Se veste com uma casca
De banana nanica
Não usa vestido
Não usa calção
Inverno pra ela
É pleno verão
Existencialista
Com toda razão
Só faz o que manda
O seu coração
      O carnaval nasceu do culto da dança coletiva. Liberdade em expansão, é nele que um povo se exprime. Emilinha era rainha do povo, heroína de uma consciência social aceita. Ele era linguagem da liberdade de uma opressão de canais de comunicação sentimental, imagem social. No carnaval se ouvia cantar:
Se a canoa não virar
Olê-olê-olá
Eu chego lá
Rema, rema, rema, remador
Quero ver depressa o meu amor
Se eu chegar depois do sol raiar
Ela bota outro em meu lugar


      Era a disposição irreverente que responde à realidade, desde "Oh abre alas, que eu quero passar!...", ate "é hoje só, amanhã não tem mais".

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Promessas de carnaval

Promessas de carnaval




Promessas de carnaval


Rogel Samuel



O meu poema de carnaval é de certa forma muito popular. Agradou, anda na net, circula em sites e blogs neste carnaval que se aproxima. Gosto de carnaval, ou melhor, gostei mais quando tinha menos gente, menos calor, menos idade. Estou velho, já não subo nas mesas a cantar, a sambar, a rir e a gritar na alegria das serpentinhas e nos brilhos das alegorias. Nem mais bebo do cálice das belezas cariocas com aquelas exuberâncias da década de 60. Mas a culpa não é só minha. O mundo mudou, não só eu. O carnaval de inocente tornou-se agreste e comercial. Mas ainda belo, rico, quente.


Nesse carnaval entôo em surdina
breve texto esta canção
desenvolvendo a paisagem cristalina
tinta azul, papel na mão
espuma do ar mantida em vestes finas
toldo de amor que aparelha e envolve
e te molesta a alegria matutina
passando o pente o tema a minha senha
e ergues a tricotar a estrela fescenina
brincando de tua passarela
e sonhada é férrea a tua serpentina
borboleta de papel de seda
que me despeço de tua face de menina
teu aço besuntado de abelha.

OS MISTÉRIOS DE UNS VERSOS

OS MISTÉRIOS DE UNS VERSOS

ROGEL SAMUEL

Olavo Bilac escreveu:

Língua Portuguesa

Ultima flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma 
De virgens selvas e de oceano largo! 
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

E me chama logo a atenção as críticas veladas à língua portuguesa que se encontram ali, e as oposições do tipo “esplendor e sepultura”, “ouro - ganga impura”, etc – mas principalmente  “O gênio sem ventura [Camões] e o amor sem brilho [da mãe do poeta]”.
Bilac nunca é simples tanto quanto parece [mesmo nos mistérios de sua vida].
Que Camões tivesse tido uma vida “desventurada” tudo bem... mas não a sua obra, principalmente “Os lusíadas”, que é o melhor e o mais moderno poema épico da Modernidade, a epopéia do imperialismo capitalista, da globalização moderna que se seguiu. Camões, é hoje autor universalmente consagrado, “apesar” da língua portuguesa (que Bilac critica, que chama de “sepultura”), ao nível de Dante, Shakespeare etc.
A crítica camuflada a essa “língua-túmulo” pode ser lida talvez como da acanhada vida literária brasileira daquela época, em comparação com Paris e com a consagração imediata de um escritor como Victor Hugo...
Mas Bilac aqui era o “príncipe”... um refinado dândi, elegante e vaidoso... Suas conferências enchiam as salas... Talvez por isso é que a rebeldia modernista o atacou com tanto ódio.
Não podia reclamar.
Mas só uma crítica psicanalítica pode entender esse “amor sem brilho” no que se refere ao amor de sua mãe. Algo curioso que ainda vou pesquisas na enciclopédia da vida literária daquela época que é o “Diário secreto”, de Humberto de Campos.
Mas para isso tenho de descobrir os dois volumes na minha sala desorganizada. 
P.S.: BILAC BRIGOU COM SEU PAI E CEDO SAIU DE CASA E NUNCA MAIS VOLTOU. IA VER A MÃE MAS NÃO ENTRAVA, FICAVA NA RUA. A MÃE LAVAVA ELA MESMA A SUA ROUPA. BILAC MOROU EM PENSÕES MODESTAS E NO FIM NA CASA DE SUA IRMÃ. COELHO NETO CONTA QUE ELE TEVE UM FILHO, MAS NUNCA SE PROVOU ISSO. MEDEIROS DE ALBUQUERQUE INSINUA QUE BILAC ERA GAY. NA HORA DA MORTE, SEU PAI SE RECONCILIOU COM ELE E ENCONTRARAM O LIVRO MUITO USADO DAS POESIAS DE BILAC ESCONDIDO NA CAMA DO VELHO, QUE ERA MÉDICO E QUERIA QUE O FILHO FOSSE MÉDICO E NÃO... POETA.

A DANÇA DE BEETHOVEN

A DANÇA DE BEETHOVEN

ROGEL SAMUEL

Quando a Sétima Sinfonia apareceu, em 8 de dezembro de 1813, um crítico, creio que Weber, o compositor, escreveu mais ou menos o seguinte: "o mestre está completamente louco, sua sétima sinfonia é inexecutável".
Parece que confusões e dificuldades houve, entre os músicos, durante os ensaios. A sinfonia, aliás, exige um conjunto de virtuoses para ser bem 'vivace', desde os seus opulentos 62 compassos iniciais, e nela Beethoven faz o peso do mundo dançar. Além de ser 'dançante', inventa a Sétima algo inusitado em matéria de música sinfônica, uma espécie de voragem instrumental, um sorvedouro de ritmos meio enlouquecidos, excitados, sonoros turbilhões. Beethoven está rindo por trás da música, em gargalhadas de mago ensandecido, ruidosas ufanias de liberdade espiritual, nunca antes ouvidas, imaginadas. Histérica, a orquestra chega a um clímax final, delírio apoteótico de grande esplendor. Sim, só grandes orquestras, com grandes maestros, podem executar aquilo, e a observação de Weber estava certa - esta sinfonia não se pode executar facilmente, ou seja: poucos saberão – mas todos sabem ouvir, se ainda sentem a alegria da dança espiritual de suas mais elevadas aspirações.
"Desejo falar aos que sofrem..." escreveu o compositor, que era "socialista". Via em Napoleão a redenção das massas (depois mudou, que Napoleão sagrou-se a si mesmo imperador). Ele exprime paixão das massas, paixão romântica, as mesmas perplexidades, os encantamentos e emoções que sentimos hoje. Suas sinfonias são música de massa, para grandes salas. Contêm hinos, triunfo e regozijo. Manifesta a onipotência adolescente, desperta o jovem que ainda vive em nós. Nada melhor exprime os sentidos das sinfonias do que aquela Ode de Schiller na qual se inspirou Beethoven para compor a Nona.
Oh! Júbilo, centelha clara e ardente
Do divino fulgor, luz essencial!
Ébrios do teu clarão onipotente,
Penetramos em teu santuário ideal.
Une-se ao teu prestígio, novamente,
Tudo o que separou, na vida, o mal.
De novo os homens trêmulos se irmanam
Ao resplendor de tua chama celestial!
Desde a Terceira Sinfonia, o libelo romântico em favor das ilusões sociais perdidas e românticas, até a música moderna, ouvimos os ecos de uma cultura que luta contra formas mecânicas de viver.
Na sua Teoria Política, Adorno via a sociedade tecnocrática moderna com certo pessimismo, acreditando ser muito difícil humanizar o capitalismo. Ele critica a manipulação de que é vitima a produção artística contemporânea.
Para ele, a arte traduz os antagonismos sociais. Diz que as condições sócio-econômicas do mundo moderno impedem a esperança de uma liberação da arte, como elemento de superestrutura, já que a arte não consegue escapar do domínio exercido pela ideologia dominante. Na atual sociedade capitalista, a música também é um elemento da superestrutura, e por isso se encontra hoje num impasse dentro do capitalismo. Ela foi liberada das funções culturais que lhe eram atribuídas, e transformou-se num produto industrial, numa mercadoria que se consome e que não se liberta como elemento industrial, ou "cult", já que não consegue escapar do domínio exercido pela ideologia dominante. Na atual sociedade capitalista, ela se encontra num impasse, dentro do capitalismo.
Mas "toda música... teve sua origem em execuções coletivas do culto e da dança, fato que nunca foi superado ... mesmo que a música tenha rompido há tempos com toda execução coletiva. [Mesmo] a música polifônica diz "nós"..." (Adorno, Filosofia da nova música, p. 24).
Rogel Samuel

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A PRIMEIRA ESTROFE DE 'LE BATEAU IVRE'

A PRIMEIRA ESTROFE DE 'LE BATEAU IVRE'

ROGEL SAMUEL

            A primeira estrofe de 'Le bateau ivre' de Rimbaud (Trad. Augusto de Campos) assim canta:
            Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
            Senti-me libertar dos meus rebocadores.
            Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
            Os espetaram nus em postes multicores.
  Que significam esses 'Rios impassíveis'? Que 'eu' é um rebocador?
  Ora, numa interpretação bastante ousada, poder-se-ia dizer:
  O poeta genial arrasta consigo o cursor da poesia moderna, que ele inaugura
            Tinha ele - e o verso confirma - a completa consciência de que estava criando a Poesia, como criou, a poesia moderna, a poesia visionária, a poesia decodificada com o que em poética se fez, a super-poesia que aquele 'rebocador' arrasta para o Grande Oceano da Linguagem, o mar aberto de nossa imaginação incontrolável, do que se fez depois dele, do que se ousou escrever depois dele, do que depois dele se alargou, se experimentou, no horizonte das possibilidades daqueles 'cortinados de amestistas' de que falava Pessoa.
            Quando eu atravessava os Rios impassíveis,
            Senti-me libertar dos meus rebocadores.
            Aqueles rios da força da Linguagem sempre estariam 'impassíveis' no barco da arte até ele, bêbado da liberdade de
sua escrita, liberar, sair dos diques clássicos, românticos, parnasianos, por onde atravessou, e dessas amarras de ferro se abrir,
partir, voar ( 'Então eu mergulhei nas águas do poema').
            Todo o poema é, para nós, a  'arte poética' de Rimbaud, o pioneiro.
            Talvez nunca mais apareça um poeta como ele.
            Por quê?
            Quem, das amarras dos cais dos rios por onde  conseguia passar o ritmo de seu verso, a travessia do seu navegar e
discorrer - quem se soltaria das amarras linguísticas imagísticas formais - quem mais se libertou que não fosse no caminho que
ele abriu e desvendou, ele?
            Por quê?
            Porque foi a partir dele que a poesia se desatou, para um panteísmo diversificado, para adquirir a forma lógica interna,
a forma lógica própria, a forma lógica por onde cada grande passo estabelece suas próprias caminhadas no desconhecido, na
invenção, depois cada poeta teve de reinventar a própria poesia, suas novas leis, expor suas novas normas, suas não-leis e
não-normas.
            Rimbaud canta a liberdade!
            Confesso que leio e releio este poema, sempre, obsessivamente, e que ao longo dos anos não me canso de ler, nem
esgoto a leitura, e a cada leitura me conduzo a um paraíso diferente universo.
       Cruéis peles-vermelhas com uivos terríveis
       Os espetaram nus em postes multicores.
            De onde Rimbaud vai tirar aqueles ' Cruéis peles-vermelhas '?
            A aparente confusão do primeiro ponto se deve a que Augusto de Campos traduziu [e muito bem] 'haleurs ' por
'rebocadores' e não ' sirgadores ' (ou puxadores com sirga, com corda). O que, na realidade, fica mais verdadeiro, mas menos
apropriado ao poema.
            A tradução de Augusto de Campos é, em cada caso, ótima, perfeita, excelente. Mas criadora. Ou seja: inventa. E faz
bem.
            Os 'sirgadores' - nautas que o levavam - mortos por índios, sacrificados a flechadas, como disse Augusto Meyer.
            A idéia de novidade, na época, estava associada, talvez, à América, com seus peles-vermelhas.
             Significa que o poeta, o tema, quer pular o Oceano, mergulhar no Futuro, a saber, na América, no Novo mundo da
Nova Poesia a inaugurar, na poesia selvagem e indígena a falar?
            De onde o Rimbaud vai tirar os índios senão do Porvir?
            Rimbaud não deixa escapar o fato, a imagem,  para dar ao quadro uma enorme sensação de escândalo, o escândalo
do futuro, toda novidade é escandalosa: o sirgadores estão nus, os postes são coloridos, ali especados, alvejados.
            A confusão, ou melhor, a transferência entre 'rebocadores' e 'sirgadores ' é a mesma que faz do sujeito do poema a
própria barca bêbada, o navio fantasma.
            Sim, Rimbaud pintou o quadro do futurista futuro, a partir do tema do navio fantasma (que na época era comum, e
ainda hoje o é).
            Com ele morre o certo e se inaugura a aventura.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

CASA ABANDONADA

Por lá não há mais ninguém
nesta casa abandonada
nem os fantasmas esguios
nem as fadas enamoradas
nem mendigos nem ninguém
mesmo o tempo por lá não encosta
mesmo as recordações se desfazem
as memórias as cansadas
naves da madrugada
cinzas do que passou
solidão das marés
esquecimento e silêncio

ROGEL SAMUEL

As vozes narrativas

As vozes narrativas

NEUZA MACHADO




Oh, ruturas! Dona Mariazinha de Abreu e Souza (a dona da casa ficcional), certamente, é proprietária também de uma casa jamais olvidada nas lembranças e recordações de quem narra (“tinha sempre muito que fazer naquela casa”). D. Mariazinha de Abreu é uma das inúmeras vozes narrativas que, nesta terceira fase do romance, colaboraram com o narrador principal, incluindo evidentemente a já assinalada Sabá Vintém, a manicure, aquela que “sabia de todos os escândalos da cidade, da vida íntima de todas as famílias” do lugar. Na casa digna de ser lembrada, com seus personagens e recantos secretos, como diria Gaston Bachelard, D. Mariazinha ocupava lugar de destaque.


Bachelard sonhou, em Paris, com uma casa da região vinícola de Champagne, sua indelével terra natal. O escritor João Guimarães Rosa, nascido em Cordisburgo e cidadão do mundo, sonhou com o Sertão de Minas Gerais, sua incomum casa onírica. Juan Carlos Onetti criou uma entrópica cidade, Santa Maria, para representar os problemas citadinos de seu país, o Uruguai. O segundo narrador rogeliano sonhou e sonha no Brasil e em suas viagens pelo mundo com os monumentais Palácios da Era da Borracha (recriou-os ficcionalmente por intermédio do Palácio Manixi), onde se condensaram/condensam os mistérios de uma antiga felicidade”. A casa ficcional de D. Mariazinha de Abreu é mais do que a casa primitiva, é representante da Cidade íntima, a casa onírica, a casa dos sonhos (felizes e/ou infelizes), “onde se condensam os mistérios da felicidade” (ou os mistérios dos momentos infaustos). Esta “casa” se revela por intermédio de “inspirações inconscientes profundas”, originárias de antigas vivências ou de externa realidade angustiante, ainda presentes no século XX. “O onirismo arraigado assim localiza de algum modo o sonhador”, e este sonhador não poderá se revelar apenas como um narrador, que, ao longo da narrativa, se posiciona simplesmente como um personagem como outro qualquer (Roland Barthes). Este segundo narrador não será jamais um personagem qualquer. Ele é o porta-voz de uma consciência interativa. No capítulo ONZE: RIBAMAR, o mundo sócio-substancial e o mundo mítico-substancial se desvanecem para cederem o lugar à referida casa onírica do narrador aqui reverenciado. Esta casa diferenciada, edificada nos domínios de um singular imaginário-em-aberto, foi um poderoso alicerce para a posterior realidade ficcional, entrópica, da ficção pós-modernista de Segunda Geração.

O fogo da labareda da serpente
Sobre O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O PIANO, A TARDE

O PIANO, A TARDE

ROGEL SAMUEL

Minha tia Maria José dispunha os frascos de perfume sobre um aparador de cor escura e tampo de mármore rosa. Os nomes insinuantes, sensuais, Tabu, Coty, Maja, poemas de amor. Ela nos recebia à tarde para servir café com brevidades. No fim de seus dias estava sempre sentada na poltrona. Não se levantava, dormia ali mesmo, o rádio ainda ligado no programa nenhum, só ruído neutro de seus sonhos de mulher solteira. Lembro-me do seu programa preferido: ' um piano ao cair da tarde' . O som não chegava em acordes completos porque o rádio era apenas um radinho RCA Victor de poucos recursos, mas ela sonhava com seus invisíveis amantes. Ao cair da tarde seu leque se misturava com o leque das cores do sol que recebia o piano, cujas valsas se alçavam no ar fino, cobriam casas e vilas. E se subíssemos pelas janelas da rua Barroso poderíamos ver os gradis da Igreja de Sta Rita e o vão escuro do que tinha sido o igarapé que anos atrás passava por ali, com suas ar aras e serpentes venenosas. Olhando-se um pouco mais acima estavam os pássaros tardios que partiam para o anoitecer de tudo, para noite do mundo, para o outro mundo, do outro lado do universo, no oceanos dos rios de nossos medos, signos e ansiedades. Os pássaros eram de um rendilhado fino e tinham nos seus bicos gotas de rubis reluzentes, mergulhavam no ouro do por do sol finalmente afastado. E um piano, ao cair da tarde.
------------------------------
 
neste carnaval a batucada alada
do teu coração vem em segredo
pulsando implode com soluço e gozo
da tua dentina o brilho serpentina
se envolve na tua boca pequenina
onde o desejo acende teus incensos
sândalo salgado perfumada rima
no carnaval de tão perdida rosa
que desce tua cintura e goza

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ENTREVISTA DE R. SAMUEL A LUIZ ALBERTO MACHADO



ENTREVISTA DE R. SAMUEL A LUIZ ALBERTO MACHADO


ENTREVISTA DE ROGEL SAMUEL A LUIZ ALBERTO MACHADO

GP - Rogel, quando foi e como se deu o encontro entre o amazonense filho de francês com brasileira e neto de rico comerciante da borracha com as artes, notadamente a Literatura?
Primeiro é bom saber: nasci pobre e não vi a riqueza de Maurice Samuel. Nasci na decadência. Você nem imagina com quem comecei: foi com Camões... Num livro didático de infância havia um trecho da Elegia que começa assim:
"Poeta Simónides, falando ? co capitão Temístocles, um dia..."
O trecho diz:
Oh ! lavradores bem-aventurados !
Se conhecessem seu contentamento,
como vivem no campo sossegados !
dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara a água pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
não vêem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas árvores contente,
sem lhe quebrar o sono sossegado
o cuidado do ouro reluzente.
E por aí vai. Eu fiquei muito impressionado. Até hoje tenho emoção com a simplicidade dos versos, a evocação. Foi Camões quem me despertou, veja só. E depois, Manuel Bandeira. Li menino. O texto de Camões está no nosso blog.
Depois ganhei uma antologia, que até hoje considero a melhor: «Obras primas da poesia universal», de Sergio Milliet. Editora Martins. Esgotada.
GP - Quais as influências da infância e adolescência marcaram a formação dos primeiros versos, primeiros escritos, considerando a publicação do seu primeiro poema num jornal nessa fase da sua vida?
Sim, comecei a escrever nos jornais de Manaus muito cedo, com 16, 17 anos. Naquela época era assim. Os jornais estavam abertos. Mesmo para o que não prestava. Eu me lembro de uma página muito curiosa de «O jornal do comércio», órgão dos Diários Associados em Manaus, de 16 de abril de 1961, em que há um conto meu chamado «Sofia», ao lado um novo poema de Drummond, em baixo havia uma crônica de Guilherme Figueiredo e no rodapé um artigo de Sergio Milliet, intitulado «O dia amanheceu cantando». Eu tinha 18 anos. O jornal era dirigido por Felipe Daou, ainda vivo. Aquele pessoal era mesmo irresponsável.
GP - Apesar de escrever seus versos desde a adolescência, você, pelas suas publicações, começa com Crítica da Escrita, em 1979. A poesia ficou de lado ou o professor que se impunha? Este é o resultado de seus estudos e trabalhos na universidade?
Quando me mudei para o Rio, em 1961, publiquei muito pouco. Lembro-me de artigo no «Correio da manhã», que não tenho, e pouca coisa mais. Eu estava mal acostumado: em Manaus você vinha com o original e punha na mesa do editor. No dia seguinte aquilo era publicado com destaque. No Rio, havia um clube fechado. Eu tive as portas abertas para a televisão, através do irmão de uma amiga de Manaus que dirigia a parte comercial da TV Rio, onde trabalharam na mesma época, creio, o Bôni e o Valter Clark. Trabalhei na redação muito pouco tempo e larguei. Era à noite, eu tinha faculdade de manhã. Burrice, talvez. Virei professor. Não procurei mais os jornais, não sou bom vendedor de mim mesmo.
GP - Um fato, eu conheci você primeiro pelo "Manual de teoria literária" na época em que eu fazia Letras, por volta de meados da década de 80, por ai, salvo engano. Hoje esta obra está já com 14 edições. E também, depois, o agradabilíssimo "O que é Teolit?". Como se encontrava o poeta enquanto professor?
Não se encontrava. Eu fui fazer letras porque era assim que eu supunha ser a formação do escritor. Um dia um amigo meu, o Nathanael Caixeiro, que fazia traduções, me apresentou ao pessoal da Vozes. Assim nasceu o "Manual de teoria literária". Anos depois, publiquei ali os três volumes de «Literatura básica». Foram livros com vários autores, que coordenei. Um dia mandei um projeto para os «Primeiros passos», da Brasiliense. O projeto era um livrinho: «O que é teoria literária». Depois de várias tentativas, o livro não saiu, porque invadia o conteúdo de outros títulos. Acabou sendo publicado pela Marco Zero, na época pertencente ao Marcio Souza, como "O que é Teolit?". Publiquei mais 2 livros por conta própria: «Crítica da escrita» 1981; e «O Amante das Amazonas», 1992. Hoje tenho dois livros na praça. O «Novo manual de teoria literária» (Petrópolis, Vozes, 2002. 158p), que está em 3 a edição, livro só meu, atualizado com as modernas teorias. E «O amante das amazonas» (Belo Horizonte, Itatiaia, 2005, 164 p.), que não é só a 2 a edição, mas é um livro revisto. Além disso, houve «A linguagem e a idéia no discurso poético» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1978, dissertação de Mestrado) e «A reconstrução da subjetividade no grande sertão» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1983. 290 p., tese de Doutorado, nunca publicada).
Como professor dei todo tipo de aula: para escolas particulares pobres do primeiro e segundo graus, cursinhos, no subúrbio, em escolas de ricos, no estado, no município, em faculdades particulares.
Para sobreviver dava aula de manhã, de tarde e de noite. Fui professor de latim. Estudei na UFRJ, no Rio de Janeiro, onde fui aluno de Alceu Amoroso Lima, Matoso Câmara, Afrânio Coutinho, Anísio Teixeira. Fiquei uns 10 anos sem publicar, nesse período. Depois, ingressei por concurso na UFRJ, fiz mestrado e doutorado. E me aposentei. Hoje só escrevo.
GP - O poeta aparece publicado só em 90 com "Poemas" e depois com "120 poemas". Fala dessa experiência e resultados desses projetos.
«Poemas» foi uma bela edição artesanal. Os «120 poemas» é um folheto impresso, tenho até hoje. Eu nunca parei de escrever poesia, desde a adolescência até os meus atuais 63 anos. Mas nunca consegui ter confiança no que fazia. Acho que o poeta tem de ser um louco irresponsável e não se avaliar muito. Estou pensando em colocar todos poemas num site, ou publicar em livro.
GP - Como escritor, eu vi o seu "O amante das amazonas", um livro interessantíssimo que li de um fôlego só e onde você mistura ficção e realidade com uma narrativa bem gostosa. Este livro inclusive recebeu sua segunda edição recentemente. Fala do processo de criação, expectativa e resultados com este seu projeto?
Foram dez anos de trabalho, mais de 100 livros lidos e dez versões. Mesmo essa segunda edição foi revista. O livro tem aquilo que você viu, é um mar de estórias em torno daquele Palácio construído no meio da selva. Primeiro fiz uma pesquisa, entrevistei pessoas que ainda se lembravam dos fatos. Li cerca de 100 livros. Depois, devido ao excesso de informações fiquei perdido. Aí resolvi contar para um gravador. Depois de ouvir muitas vezes, voltei a narrar no gravador. Então fiz as várias versões escritas, quase dez. Há algo de romance policial ali, além de ficção científica.
Quanto ao processo de criação... bem, é melhor escrever do que ler um romance. Ao escrever um romance você tem todas as possibilidades do mundo. Porque o mundo não existe, ali: você tem de criá-lo.
Tenho vários projetos. E vários livros escritos na gaveta. Meu único problema é que escrevo muito devagar e trabalho muito o texto. Como nunca fico satisfeito acabo criando várias versões do mesmo livro e perco muito tempo. Tudo meu leva vários anos para sair e a vida é curta. Mas cada livro ganha uma técnica especial só dele.
A minha «obra» literária publicada, aos 63 [na época] anos de idade, é muito pequena. O que eu mais publiquei foram contos e crônicas. Recentemente voltei para os livros maiores.
GP - Rogel, além de professor aposentado, poeta e escritor, você também é webjornalista e escreve regularmente para sites e portais da Internet. Fala, então, da importância da Internet na difusão do seu trabalho.
Vejo na Internet o futuro da literatura. Liberta o escritor da grande media, dos editores. O escritor logo encontra seus leitores ali. Estou publicando minha próxima novela ali, na Internet. Não passo sem Internet. Entro na Internet várias vezes ao dia. Meu mundo hoje é o mundo da Internet.
GP - Qual a avaliação que você faz desse veículo Internet na relação do escritor com o leitor? E desta com o trabalho impresso e frente a frente com o leitor?
Gosto da Internet porque esta média me levou a retomar o que eu poderia chamar de meu público e minha obra. Escrevi uma centena de artigos em jornais impressos, e muito mais na Internet. Penso que o livro vai-se tornar cada vez mais caro, e a web será o grande veículo do futuro. Para a música também. Eu gostaria de ver o Ministério da Cultura disponibilizar toda a obra de Villa Lobos em mp3, mesmo pagando ele os direitos autorais. Porque é muito difícil ouvir certas coisas. Hoje sou um escritor da rede. Se você colocar meu nome num site de busca vai-me encontrar.
GP - Você mantém na rede um sítio pessoal onde publica seus trabalhos literários, livros e, ainda, apresenta um diretório de autores. Qual a proposta deste diretório?
A princípio era uma antologia de vários autores. Tem vários anos. Tentei fazer um site de literatura de qualidade, porque na época não havia. Há livros inteiros. Há clássicos ali, e livros raros. Meu site tem muita música clássica, em midi. Fui o primeiro a publicar autores amazonenses da Net. Tenho colunistas. E escritores cativos. A grande poetisa portuguesa Maria Azenha às vezes me manda de Lisboa um poema acabado de escrever. 
GP - Qual a avaliação que você faz da atual Literatura brasileira?
Há muita gente boa, mas a divulgação não se dá na grande media. Acho que os grandes poetas do presente só serão conhecidos daqui a muitos anos. Os grandes ficcionistas brasileiros jovens ainda não confiam na Internet. Conheço uma boa escritora que tem 5 excelentes romances para publicar. Eu disse para ela: publique na Internet. Mas o pessoal tem medo de perder a autoria. O que é um medo sem fundamento. Mesmo o livro impresso pode ser copiado. E é muito difícil encontrar um editor. E, sendo editado, é muito difícil vender o livro. É muito difícil fazer chegar o livro nas livrarias. Tudo é muito difícil na vida de um escritor. Eu escrevo há 40 anos, sei disso. Alguns tem sorte, fazem sucesso fácil. Mas o sucesso fácil pode ser enganoso. Mesmo os que fizeram muito sucesso um dia podem cair no esquecimento, depois. Eu poderia citar vários casos. Entretanto, o escritor tem de ter sucesso de alguma forma, isto é, público. Nós escrevemos para alguém. A não ser que seja um escritor que se julgue um gênio tal que escreva para o futuro. Um louco. A atual literatura tem muita gente boa. Em cada estado brasileiro você encontra uns 10 bons escritores, nem sempre eleitos pela media. Os grandes jornais só privilegiam a literatura estrangeira. Mas estão perdendo prestígio para a Internet. Os estudantes universitários só pesquisam pela Internet, não pelos jornais. Eles são os nossos grandes leitores, hoje. Você precisa ver como o Canadá promove os seus escritores. Nas livrarias eles estão na frente. Portugal os divulga no mundo. O governo espanhol mantém uma verba especial para a «nova poesia». O governo alemão compra parte da edição de todo escritor alemão, para incentivar. Há uma verba para a aposentadoria dos escritores. Nas bibliotecas, a consulta a escritores alemães é paga. Muitos governos se orgulham de seus escritores. O Brasil nada faz. Aqui o escritor não tem prestígio. Se você está em Paris e alguém pergunta: «O que você faz?», responda «Sou escritor». Será olhado com muito mais respeito.
GP - Como professor aposentado, você acha que a universidade tem cumprido o seu papel na formação dos que ali chegam e se tornam graduandos?
Algumas universidades de bom nível, talvez. Mas o bom aluno independe da Universidade. A universidade mudou muito. Está em crise.
GP - Como viajante, quais são seus planos? Fale de suas viagens.
Sim, sou um viajante nato. Gastei tudo que tinha em viagens, inclusive o fundo de garantia. Fui 2 vezes à Austrália, 3 vezes ao Nepal, várias vezes à Europa, várias vezes aos USA e ao Canadá. Foram viagens de longa permanência, sozinho. Certa vez fique 2 meses e meio no Nepal. Ou 2 meses no interior da Austrália. Creio que fui 17 vez ao exterior e viajei muito pelo sertão e pelo interior do Amazonas. Viajei de carro, trem, barco. Hoje estou mais devagar. Falta energia física. Além disso o mundo está em guerra... Lembro-me que, logo após a 11 de setembro, fui a Los Angeles: fui examinado pela polícia várias vezes no caminho. Um amigo meu estava no Oriente e de repente se viu no meio de uma guerra! Passei sobre o Iraque depois da primeira guerra do golfo e vi os campos de petróleo em chama. Estive no Aeroporto do Paquistão e me impressionou aquele país. Hoje é um pouco perigoso viajar como sempre fiz, sozinho. Além disso, há assaltos até em Paris.
GP - Quais os projetos que Rogel Samuel têm em mente por realizar?
Estou trabalhando em «A história dos amantes», que está saindo na Internet, em http://www.blocosonline.com.br/home/index.php É um texto antigo, todo re-escrito. Conta a vida de jovens na década de 60, sob a ditadura militar. 

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

CONCEIÇÃO

CONCEIÇÃO












CONCEIÇÃO

Rogel Samuel

Ele teve amante chamada Conceição.
Talvez aquele tenha sido 'nome de guerra' da bela e sólida jovem, profissional de amor no cabaré Xangri-lá, em Manaus.
Ele se apaixonou.
Ao Cabaré chegava de carro com chofer, era rico na época, trazendo presentes.
O Xangri-lá ficava fora da estrada, num sítio semi-secreto, um baixio no meio da selva, longe dos olhos das famílias amazonenses, mas conhecidíssimo por todos os seus filhos jovens da época.
Lá se tocava música arrastada e decadente, como decadentes e arrastados eram os boleros da época de Dalva, de Ângela Maria. Falavam de tristeza e de dor de cotovelo, e um dos que mais tocava dizia: 'Assim... se passaram dez anos...'
Dançava-se ali, ambiente de respeito.
Tudo ali era muito limpo, tudo era muito sadio, as moças ficavam muito quietas num canto, os 'fregueses' sentavam-se em mesas a sós ou em grupos calmos, pediam uma XPTO, sorriam para as moças, que correspondiam, discretas.
Um ou outro se levantava e tirava alguma dama para dançar, ou para a sua mesa.
Os encontros íntimos, se houvessem, se davam nos fundos do prédio, por onde se penetrava a partir de uma cortina verde, atravessando um longo corredor iluminado por luz mortiça vermelha, e lá no fundo para uma galeria de portas.
Tudo muito cheiroso e limpo, tudo muito cheio de flores de papel crepom.
Mas para quem chegava, o Xangri-lá era apenas um típico lugar de dança, e muitos ali iam apenas para dançar, prosear com os amigos e beber uma cerveja.
As moças, como eram chamadas, eram quase todas do interior.
Jovens, algumas deviam ter mesmo uns dezesseis anos, ou menos, coisa inadmissível hoje, mas que na época não causava espanto.
Elas pareciam felizes.
Algumas faziam as unhas, outras se distraíam com qualquer coisa, mas mantinham-se caladas.
Havia um certo respeito ambiente, ali se encontravam alguns dos mais respeitáveis senhores da terra, a maioria casados.
Ele não, era jovem e solteiro.
Foi lá que conheceu a Conceição e por ela se apaixonou de verdade.
Paixão de jovem é sempre séria, ele quis casar-se com ela, ninguém deixou, ela mesma não quis, que continuassem amantes.
Mas ela continuava a morar ali, e era exclusiva dele, e todo dinheiro e presentes que ele lhe dava ela mandava para a família guardar. No fim estava de casa nova.
Mas de vez em quando Conceição sumia. Ia visitar a mãe. Ausentava-se por uns dias.
Voltava cada vez mais feliz.
Um dia se foi de vez, e ele nunca mais a viu.
Deixou um bilhete, em que dizia que háq muito tempo tinha um noivo no interior, que viera para a Capital apenas para trabalhar, arrumar um dinheiro para casar. Agradecia a ele tudo que ele fizera por ela, e terminava com um 'Deus te recompense'.
Ele enlouqueceu, chorou, quis achá-la, mas o Amazonas é enorme...
Dias depois, soube que ela estava casada.
Passaram-se cerca de cinqüenta anos.
Semana passada, vinha ele pelo Amazonas Shopping quando foi abordado por uma senhora de idade.
- Lembra-se de mim?
Ele se espantou, e disse:
- Não. Não se lembrava.
Ela então tirou um caderno da bolsa, escreveu um telefone, entregou para ele, e disse:
- Eu sou a Conceição... - e desapareceu na multidão de Natal do Shopping.
No dia seguinte, ele viu que tinha perdido o número. Outra vez.

Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia




O Coração
Solveig von Schoultz, 1907-1996, Finlândia

Demos-lhe sementes; não muitas,
mas quanto bastasse para não se cansar;
água lhe demos, apenas um dedal,
para a fonte lhe recordar.
Abrimos tão pouco a porta,
para que os céus lhe batessem no olhar
e à gaiola um pequeno espelho prendemos
para de frente a nuvem poder contemplar.
Quieta se sentava, com as asas palpitantes.
Assim ela cantava.
[ trad. josé agostinho baptista ]

domingo, 12 de fevereiro de 2017

NATUREZA MORTA

NATUREZA MORTA


NATUREZA MORTA


Rogel Samuel


De Walmir Ayala um poema, intitulado «Estação», que sempre relembro, quando vou à cozinha.
Ayala, poeta excelente, não sei por que esquecido.

Na geladeira as frutas
escurecem de mortas

O quadro ele começa. A geladeira das frutas. Mortas. Geladas. Frutas. Personalizadas. Com o matiz erótico que caracteriza a poesia dele. Frutas mortas, natureza morta, alma morta, amor morto. Na mesa da geleira, deste Himalaya morto, neste Instituto Médico Legal da autópsia do pomar.

as peras são secretas
usinas de água doce,

- dentro das peras o que está senão sua secreção, a suculenta feminidade, sua pose de ovário e úvula, a complexidade singela, aquela sua capacidade de oferta, de entrega, de lamúria, as águas mortas, internas, os entraves pântanos doces das almas das mais líquidas partes da natureza do amor, das estivais qualidades da natureza das carícias do corpo úmido, dos corpos entregues a si mesmos, que é quando são partes do mais tátil amor que se dá às mãos que deles fazem seus prazeres e mergulhos, nos gozos internos e usos, no segredo do maior e cavernoso introduzir hipodérmico da sua capacidade de sentir e de pulsar. Que é? A água doce do amor, a usina do impulso amoroso. São os líquidos doces, langorosos, das umidades humanas.

um mamão decepado
mostra a íntima carne

O mamão, macho, o masculino mamão, castrado porém, digo, amputado, calado, prostrado, exibindo entranhas estranhas, carne devastada, intimidade devassada.
O mamão, porte de guilhotinado em bastilhas vasilhas das sobremesas - mamão revolução do estraçalhado. Mamão carne vegetal gengiva mole e aberta.

e as goiabas oloram
seu verão serenado.

O cheiro das goiabas, o perfume do verão no inverno do refrigerador, em antífrase feliz as perfumadas açucaradas e brandas goiabas. O verão olorizado de sereníssimo repouso. Oferecidas ao seu saboroso cheiro do pomar tropical.


Mas são mortas e lentas
neste ofertório as frutas.

Oh, está morto, tudo está congeladamente morto, com frieza mortal da morte lenta, da morte eterna, mumificada, gelada, branca, da porta aberta esta geleira tumular, este himalaia ofertório poético.

Um vapor congelado
contorna seu mistério.

Envoltas no nevoeiro, envoltas no seu mistério frio, branco, hospitalizado, as obscurecidas frutas medicalizadas, no branco arrepio da poesia misteriosa, do mistério da poesia...

E elas posam no ardor
do branco cemitério
de seu grave pomar.

Fotógrafo, o poeta Ayala abre, no seu cemitério doméstico e culinário, a escrita de seu receituário de forno e fogão, na gravitação polar de sua tematização estival (e não outonal). No seu bosque enclausurado.

E a geladeira inventa
surdo primaverar.



Em outro poema, no AQUÁRIO ACESO, os peixes dormem, no suspensório de seus sonhos:


Os peixes submersos dormem
Nadando um sonho enorme
- o aquário é breve e claro,
com selvas silenciosas
que o todo-poderoso
nutre de grão e larva.

A poesia-aquário tem seu conteúdo em peixes que nadam sem acordar, sem perturbar, entre árvores silenciosas e águas selvagens, eternizados pela luminosidade da escrita do todo-poderoso deus que o escreve e nutre de grão e larva, Ayala pesca na profundidade de si mesmo um labirinto de significação e submersão de tentáculos poéticos onde se move como um polvo.

No entanto os peixes dormem.
Qualquer tremor das águas
e nadam aclarados
sonhando-se acordados
sonhando-se acordados.

E o leitor se enreda, se embriaga, sonha. Sonha dentro deste aquário verbal. Treme nessas águas de cristal líquido, o leitor sonha que lê, o poeta sonha-se lido, aclarado, viagem e volta ao íntimo gozo de seu interminável passeio.

No seu POMAR ABERTO, erótico, encontra entre as árvores do bosque o objeto de seu amor, o impossível de sua gestualidade desejante, o desconhecido toque de musa, o paraíso pomar de pomos de ouro e luar e perfume do ar, as suculentas frutas, a poesia de Ayala reflete sempre o domínio do delírio paradisíaco perdido, o coro de laranjais em adágio.


Teu doloroso cheiro de laranjas
inventa este pomar que me embriaga

No prazer doloroso pomar em que se perde ele cria um labirinto embriagante cheio de sucos de invenção poética. As vespas de fogo rasgam a luz da venenosa atmosfera de seu ferrão, o luar do amor abre no peito a rosa amarga do gemido gozo e o desenho do rosto grego, da estátua em pedra que não está mais para estátua eterna e solitária, mas para frutas do verão da geladeira, mortas. Um paraíso tropical em pomos de ouro a transportar, a ler.


há vespas inflamadas e um luar
enclausura em teu peito a rosa amarga
deste gemido em que és como o desenho
de um rosto antigo, de um sorriso em pedra
(eterno e solitário).


Estranho gemido do amoroso langor do gozo que enfim o sorriso corta como a lâmina de faca, como os fios da noite.


Este sorriso que de repente no silêncio medra
e corta os fios da noite em que viajo
para os sempres de mim, tão decididos:
então nos laranjais escuto o adágio,
e o coração que ocultas é sonoro
como a ilha do amor em que me perco
e onde me salvo, e para sempre choro.

Sim, o amor na sua poesia é Ilha, lá onde se salva o que se perde, e onde se perde o que se salva, e onde pela contínua solidão como sempre chora.

Porque o amor é natureza morta.