sábado, 16 de maio de 2009

Obsessão pelo poema




Obsessão pelo poema

Rogel Samuel


Não sei quantas vezes já me referi ao fato de que Baudelaire encheu seu poema de plurais, bosques, catedrais, órgãos, corações, gritos, tumultos, sombras, insultos, e mais. São temas baudelairianos, da visão exótica de seu mundo ”despoetizado”, Baudelaire foi primeiro poeta de um mundo sem “beleza”, desprovido de glamour romântico, por isso mesmo um poeta maldito, um poeta sem poesia, vivendo em quartos de terno luto, homem das grandes cidades modernas, e seus guetos, suas mazelas, suas telas negras, seus precipícios interiores, decadentes, um poema – como já escrevi, - ecológico, maldito, sonoro – onde os bosques têm rugidos como os grandes órgãos das catedrais, bosques em luto, em antigos choros, de duendes de fantasmas de fadas de demônios de flores das grandes árvores da montanha, os bosques se opõem aos oceanos - Baudelaire odeia os oceanos românticos, os tumultos da alma oceânica, riso amargo, sombras insultos, noite escura, sem estrelas, infinito negro, insondável, precipício, e o tradutor genial nos dá um verso extraordinário: "Porém as trevas são elas próprias as telas", telas do além dos rostos familiares, num bosque das lembranças estreladas em trevas.

LXXXII - Obsessão

Bosques, encheis de susto como as catedrais,
Como os órgãos rugis; e em corações malditos,
Quartos de terno luto e choros ancestrais,
Todos sentem ecoar vossos fúnebres gritos.
Eu te odeio, oceano! e com os teus tumultos,
Já que és igual a mim! Pois este riso amargo
Do homem a soluçar, todo sombras e insultos,
Eu o escuto no riso enorme do mar largo.
Como serias bela, ó noite sem estrelas,
Que os astros falam sempre claro em sua luz!
Busco o infinito negro e os precipícios nus!
Porém as trevas são elas próprias as telas,
Em que surgem, a vir de meu olho, aos milhares,
Seres vindos do além de rostos familiares.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Inverno antigo





Inverno antigo

Rogel Samuel

É um pequeno poema este de Salvatore Quasimodo. Com o apoio da tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, ensaio uma tradução:

Desejo tuas mãos claras
na penumbra dessa chama:
sabiam a carvalho, rosas,
ou morte. Antigo inverno.

Pássaros buscavam milho
e eram súbito feitos neve;
como palavras.
Um pouco sol, um halo de anjo,
e logo a névoa, as árvores,
e nós, como o ar da manhã.

O poema é obscuro, difícil, como quase tudo que Quasimodo escreveu. Ele era um poeta hermético. As mãos estão em chama, mãos de desejo, mãos secretas, aqueciam no inverno, com ungüento perfumado de madeira e flor. Ou morte, um cheiro de morte. Fora, os pássaros aparecem, vem comer. O frio a neve as palavras. Amanhece? Um pouco de sol sobre as árvores, vence a névoa. E nós? Como o ar da manhã, de manhã o sol é um anjo. Poema difícil, porém belo. Cheio de sugestões, são lembranças? Imagens que passam, em flashes, em cenas desconhecidas, misturadas, compostas como a realidade.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Madrugada




Madrugada

Rogel Samuel


Escrevo na madrugada. O calor está quase insuportável. O silêncio da cidade é sufocado pelo som grave dos dois ventiladores funcionando. Nenhum automóvel passa nesta rua, de natural tão deserta. Como estarão os astros? De minha janela não tenho a visão do céu, como gostaria, moro no térreo, há plantas e árvores... Em Dênia, Espanha, eu tinha a visão ampla do mar, do céu e da pequena cidade lá embaixo. Era no município de Alicante, e aquela montanha se chama Pedreguer. Fiquei cerca de um mês. Foi uma bela experiência. Nossos momentos de vida mais ricos vivemos em recordá-los. Desenvolvi uma técnica de defesa que só me recordo das ocorrências mais belas e felizes. Isto é o meu lado indígena, herança de minha avó peruana filha de uma índia quechua. Dos andes. Tive pouco contato com minha avó quechua. Ela dizia que era nobre, da família Cellis, ou Celis, nobres espanhóis, família antiquíssima atestada desde a Roma antiga. Mas meu pai certa vez relatou que ela deveria ser filha natural de um espanhol com uma índia. Escrevo de madrugada, no calor carioca. Minhas lembranças me levaram a sonhar com Andes, Pedreguer e a figura de minha avó Antonia Samuel.

Óleo de Gustavo Dall'Ara (1865-1923) - Largo da Lapa, Rio (encontrado no blog
O fingidor)

A beleza que há em tudo




Rogel Samuel

Um mestre de meditação escreveu: "A felicidade reclama a aceitação dos outros, a simplicidade do coração e o deslumbramento do espírito". Dugpa Rinpochê era um monge budista que fugiu do Tibet durante a invasão chinesa, na companhia do Dalai Lama. Ele escrevia seus aforimos numa folhinha de papel, enrolava-o, meditava sobre aquele conteúdo, e depois, quando alguém o visitava, dava de presente ao visitante. Era sua oferta, seu mimo, seu regalo, uma dádiva, uma lembrança ao recém-chegado. Seus aforismos foram reunidos e traduzidos por minha amiga portuguesa Helena Melo, que me mandou.

Primeiramente ele morou em Dharamsala, depois em Nagarkot, no Nepal, a três mil metros de altitude, "à vista dos seus três cumes lendários: o Annapurna, o Melung Tse e a cordilheira do Everest, coroados de neve". Faleceu em Dharamsala em 1989.

É fácil encontrar seus "Preceitos de vida" na Internet. Durante trinta anos o velho monge recebeu pessoas que o procuravam pedindo orientação. Durante anos uso seus preceitos na minha vida. Durante muito tempo recebi inspiraçào de seus pequenos versos.

"A felicidade reclama a aceitação dos outros, a simplicidade do coração e o deslumbramento do espírito" significa, para mim, que minha felicidade está nos outros, depende deles, de eles estarem felizes. A simplicidade do coração põe em nós a volta da humildade, da alegria de uma criança. O deslumbramento do espírito é estar apaixonado pela vida exterior, pela paisagem do mundo, pela beleza que há em tudo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

As flores do mal de Maria Azenha



Rogel Samuel

Maria Azenha vai pelas oblíquas montanhas onde as mulheres desenham com os dedos os rostos muçulmanos velados escondidos falidos mulheres em terror elas não se querem mostrar e se escondem como freiras absurdas que dizem "nao ria"... Azenha deu voz a essas mulheres mudas veladas cansadas de sofrer cansadas de morrer...


AS FLORES DO MAL


Maria Azenha



pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: “irmão, não deves rir”
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas agora choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir

não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
se podem cantando chorar
pelos filhos e pelo marido

que grito hão-de dizer?
que grito hão-de soltar
se no exílio têm ficado
cansadas de morrer?

e o vento sopra
há poeira no deserto
sobre as montanhas oblíquas
afinal quem muito sofre
é quem nunca diz sofrer

de que serve tudo isto
de que serve isto tudo
com este véu sinistro?
quem foi que as viu nascer?

pássaros mortos.
um dia apodrecem.

e alá expõe a sua terrível máscara
repleta de sangue e horror

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Gilka Machado



Rogel Samuel

Depois de uns bons e frios dias em Tiradentes, volto ao Rio de Janeiro e sua atmosfera mais quente.

Por que amamos o Rio de Janeiro?

Apesar de ser uma cidade que se tornou complicada, ainda é o lugar ideal para viver. Algo há no ar que respira alegria. Difícil ser triste por aqui. Talvez as praias, as montanhas, as pessoas colaborem para o ambiente festivo.

O Rio e suas pessoas que passam... sempre lembram o poema de Gilka Machado (1893-1980), a precursora da Garota de Ipanema:




LÉPIDA E LEVE



Lépida e leve

em teu labor que, de expressões à míngua,

o verso não descreve...

Lépida e leve,

Guardas, ó língua, em teu labor,

gostos de afago e afagos de sabor.



És tão mansa e macia,

que teu nome a ti mesma acaricia,

que teu nome por ti roça, flexuosamente,

como rítmica serpente,

e se faz menos rudo,

o vocábulo, ao teu contacto de veludo.



Dominadora do desejo humano,

Estatuária da palavra,

ódio, paixão, mentira, desengano,

por ti que incêndio no Universo lavra!...

És o réptil que voa,

o divino pecado

que as asas musicais, às vezes , solta, à toa,

e que a Terra povoa e despovoa,

quando é de seu agrado.



Sol dos ouvidos, sabiá de tato,

ó língua-idéia, ó língua-sensação ,

em que olvido insensato,

em que tolo recato,

te hão deixado o louvor, a exaltação!



- Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!

- Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!

Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de alucinação,

és o elastério da alma... Ó minha louca

língua, do meu Amor penetra a boca,

passa-lhe em todo senso tua mão,

enche-o de mim, deixa-me oca...

- Tenho certeza, minha louca,

de lhe dar a morder em ti meu coração!...



Língua do meu Amor velosa e doce,

que me convences de que sou frase,

que me contornas, que me vestes quase,

como se o corpo meu de ti vindo me fosse.

Língua que me cativas, que me enleias

os surtos de ave estranha,

em linhas longas de invisíveis teias,

de que és, há tanto, habilidosa aranha...



Língua-lâmina, língua-labareda,

Língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...

Força inferia e divina

faz com que o bem e o mal resumas,

língua-cáustica, língua-cocaína,

língua de mel, língua de plumas?...



Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,

amo-te como todas as mulheres

te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,

pela carne de som que à idéia emprestas

e pelas frases mudas que proferes

nos silêncios de Amor!...

domingo, 10 de maio de 2009

Dias das mães

Dias das mães

Rogel Samuel


Que dirá no dia das mães?
Que ou como fazer a releitura em desenho da mãe?
Mãe protetora ou geradora mãe da vida?
Mãe que dá o leite da existência, a mãe fonte da onda, do tempo, da luz, da força?
Mater dolorosa do Cristo, mãe de todos nós...
Mãe-terra, mãe-água, mãe do universo...
Mãe anjo da guarda, mãe das coisas divinas e terrenas,
Mãe morta há muito tempo mas muito viva, mãe viva, mãe vida!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

MALEVICH








Rogel Samuel



Malevich descobriu
que o branco tinha cor
as várias cores do branco
desde o branco cabralino
das brancas casas caiadas
até o branco indolor
dos muros dos hospitais
o branco das sepulturas
brancas, das paredes duras
brancas, das casas e flores
brancas, que orlam o lodo
de esgotos de favelas
e o mais branco das velas
dos lenços e dos lençóis
mesmo a branca imagem branca
do esvoaçar de uma garça
na revelação do meu sol
sobre praias do Nordeste
ou a doçura brancura
do açúcar no café
as cortesias alturas
da lua tiradentina
onde o branco dessas tintas
se finge de mais alvura
como neves Himalaias
ou branco das gravuras
da minha amiga artista
Lyria Palombini
ou o branco daquelas saias
engomadas onde passam
virgens ao sol sorridente
em direção das suas salas
decerto paredes brancas
de suas almas de escola

A arte da fuga

O frio da madrugada, em Tiradentes, Minas. Escrevo quase na total escuridão, somente com a luz que vem da tela e a suave claridade da luminária distante. Ouço uma altíssima música, no sentido espiritual do ouvir. Mas somente eu a ouço, nos fones do MP3, A arte da fuga, de Bach, e quem executa é Neville Marriner com a Academy of St Martin in the Fields etc. e é uma sucessão de fugas em contraponto... chegam a dizer que é obra inacabada de Bach, mas creio mesmo que é para nunca mais acabar, para infinitamente se realizar, se repetir, se recontar, numas voltas contínuas enquanto o tempo for tempo, enquanto a vida for viva, enquanto o ouvir for possível, e a noite for ainda noite, e o mundo dos vales e rios e montanhas existirem nesses lados, e a floresta dormir sob o manto quase imperceptível das estrelas e das nossas imaginações...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O desespero de Barras

O desespero de Barras

Rogel Samuel


Não conheço Barras, no Piauí.
Mas conheço Barras, no Piauí.

Sofro com Barras
debaixo dágua
pátria de Governadores
e Heróis.

Thaumaturgo! Thaumaturgo!
Herói de múltiplas plagas,
orai por Barras
debaixo dágua.

Ó grande Fileto Pires
o inventor do grande teatro das selvas,
orai por Barras
debaixo dágua.

Eu sofro por aquela cidade desconhecida
mas que mora comigo dentro do meu sonho
e do meu pobre poema de lastimação...

terça-feira, 5 de maio de 2009

Cláudio Santoro




Cláudio Santoro


Rogel Samuel


Li de uma assentada o belo livro de Elson Farias sobre Cláudio Santoro ("Cláudio Santoro - cantor do sol e da paz", Manaus, Ed. Valer, 2009).

A única vez que estive com Santoro foi no aeroporto de Frankfurt no fim da década de 70, início de 80. Voltava para o Brasil. Ele vinha da França, onde creio que tinha regido a Orquestra Sinfônica da Radio-Difusão Francesa (ORTF) de Paris.

Eu disse para o pessoal da VARIG:

- Ali está o maior compositor do Brasil, coloquem-no na primeira classe.

Não adiantou. Como ele sentou-se não muito longe de mim, eu me apresentei, disse-lhe que tinha sido vizinho de D. Cecília, sua mãe, na Vila Auxiliadora, em Manaus, onde ela vivia modestamente, junto com o filho Alberto Santoro, depois físico. Foi o bastante para a conversa se iniciar. Falamos cerca de uma hora de música e de músicos. Infelizmente não posso relatar as críticas que me fez ao meio musical brasileiro, o que seria uma indiscrição. Mas me disse que estava arrependido de ter voltado para o Brasil... Contou que o prefeito de Paris tinha ido buscá-lo no Aeroporto, enquanto que no Brasil não haveria um só funcionário do MEC para ajudá-lo com as malas...

Ele dava aula de composição na Alemanha. E comentou:

- Imagine caboclo amazonense dando aula de composição na Alemanha...

O livro de Elson Farias impressiona pela riqueza de informações, de detalhes. Grande poeta, o livro está muito bem escrito e facilmente será traduzido no exterior, onde Cláudio Santoro é muito famoso.

E escrevo ao som das Sinfonias 5 e 7 de Santoro. Regidas por ele-mesmo. Orquestra Filarmônica de Leningrado e Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim, respectivamente.

Gravação rara.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

CONHEÇA O NOVO PORTAL ENTRE-TEXTOS

CONHEÇA O NOVO PORTAL ENTRE-TEXTOS:
http://www.portalentretextos.com.br/

NOVO POEMA

NOVO POEMA EM:
http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/

O mar de Borges





O mar de Borges


Rogel Samuel



O mar de Borges tem mitologias, cosmogonias (ou antes delas), perguntas metafísicas, o tempo distribuído em dias da criação do espírito divino, o mar perene, antigo. Quem é o mar? quem é aquele ser movente e violento e antigo que arruína a pedra e destrói os templos? Quem é aquele que é um e dos muitos mares o abismo o esplendor o azar o vento a morte? Quem o vê pela primeira vez o vê sempre renovado, sempre novo, com aquele assombro que as coisas os elementos deixam nos seus olhos, como as tardes belas e a lua e o fogo da fogueira e a fúria da serpente... Quem é o mar? Que mistério o vela, o envolve, no resídio obscuro de seu ventre?

"Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía."




"El mar" de Jorge Luis Borges (1899-1986)

Antes que el sueño (o el terror) tejiera
mitologías y cosmogonías,
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era.

¿Quién es el mar? ¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?

Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas

tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía.

domingo, 3 de maio de 2009

O salva os escritores é o blog


O salva os escritores é o blog


Rogel Samuel


Alceu Amoroso Lima dizia que o escritor devia trabalhar todos os dias, pois da quantidade derivava a qualidade. Ascendino Leite escrevia todo dia seu diário, seu "jornal" literário.

Como no blog da minha amiga:

http://nenhumdiasemlinha.blogspot.com/
Outro dia minha amiga X me disse que ela estava inquieta porque nada escrevia agora. Eu lhe disse que diariamente assistia neste blog. "Isto me mantém", lhe disse.

- Não tenho tempo, respondeu ela. Tenho de preparar e ministrar aulas, cuidar da casa, do filho e das netas.

O filho está separado, mora com ela.

Minha amiga X. é uma grande escritora. Eu lhe contei que Rachel de Queiroz dizia que era melhor cozinheira do que escritora. E mesmo assim escrevia crônicas maravilhosas para os jornais quase todos os dias. Rachel era uma escritora de primeira e melhor cronista. Escreveu até na cama do hospital.

O que salva os escritores é a crônica. Eu tive uma coluna diária num jornal de Manaus chamado "A gazeta". Quase era menino. Não tenho nenhum recorte daquele jornal, hoje. Não faz mal.

Hoje, o salva os escritores é o blog.

sábado, 2 de maio de 2009

novo poema

Novo poema em http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/

O pó dura para sempre




Hoje é sábado. Frase que se tornou clássica por Vinícius. Amanhã talvez não chova, como hoje.


"E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.


"Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?


Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua".



Isso escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Ali se esconde um novelo místico, ou científico. O que dura é o pó. Ou: "Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris" (Genesis 3:19 ). O mundo reduzido a cinzas. "In sudore vultus tui vesceris pane donec revertaris in terram de qua sumptus es quia pulvis es et in pulverem reverteris".

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Hino ao trabalho




Hino ao trabalho

Rogel Samuel

Bilac escreveu um dos mais belos hinos ao trabalho, desde o trabalho pré-histórico operador do fogo, construtor da primeira casa, o que começou a lavrar, o lavrador o ferreiro o coveiro... costureiro, o escritor, marinheiro, cantor, eletricista, aviador, o socialista, o homem da esperança.... O trabalho é aquela atividade, aquela mercadoria valiosíssima, que visa a um determinado fim (O capital, I, 1). Atividade essa que opõe o homem à natureza e revela sua capacidade de gerar valor, seja pela força de trabalho humano fisiológico simples, seja pelo trabalho abstrato intelectual e artístico. Todo trabalho é um dispêndio de cérebro para criar riqueza, com músculo, nervos, mãos. Produzir é em si gerar uma mercadoria, um valor. O trabalho construiu o mundo, ou com operários manuais, mecânicos, ou com cantores, pianistas, escritores e poetas. Nós somos que fizemos.


Benedicite!

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o tecto;
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!