quarta-feira, 30 de outubro de 2019

ANTINOUS

ANTINOUS

FERNANDO PESSOA

(Trad. de Cunha e Silva Filho)

LÁ FORA A CHUVA de Adriano a alma engelhava.
Morto jazia o mancebo
Em sua nudez completa, no baixo leito,
Ante os olhos de Adriano, cujo sofrimento algo terrível lhe era.
Do eclipse da morte, sombreada, esparzia-se a luz.
Inerte jazia o mancebo. Lembrava o dia uma noite.
La fora, caía a chuva qual um enfermo apavorado
Com a Natureza que lhe roubava a vida.
De sua memória o legado nada contentava
Pois morta e apagada a alegria do que tinha sido estava.
Ó mãos que outrora abraçado haviam de Adriano as mãos cálidas
Que, agora, pelo friagem, gélidas sentia!
Ó cabelos com fitas vigorosas amarradas antigamente!
Ó olhos de ousadia meio tímida!
Ó corpo nu macho-fêmeo
Que, aos olhos da humanidade, a um deus semelhava!
Ó lábios, cuja vermelha abertura outrora roçar sabiam
Da luxúria os lugares com uma vívida variedade de artifícios!
Ó hábeis dedos das indizíveis coisas!
Ó línguas que, tornadas uma só, o sangue incandesciam!
Ó domínio completo da concupiscência entronizada
Na interrupção líquida da consciência em fúria!
Inexistentes para sempre devem ser agora todas essas coisas.
Silenciosa é a chuva, e o Imperador,
Ao pé do leito, se desespera.. Fúria é sua dor.,
Pois os deuses consigo levam a vida que nos deu
E arruínam a beleza à qual da vida o sopro deram.
Ele chora e sabe que, cada época vindoura,
Além do futuro, o observa.
Num nível universal posiciona seu amor.
Milhares de olhos futuros a miséria pranteiam-lhe.
Morto está Antinous. Morto para sempre,
Para sempre extinto. De todos os amores geral lamentação.
A própria Vênus, que era o amor de Adônis,
Vendo-o, aquele que de novo viveu e, agora, novamente morto está,
Aquele que há pouco existia e, agora, de novo defunto está,
Leva-a do antigo pesar a comungar.
Apolo, agora, triste anda porque o ladrão
De seu alvo corpo para sempre gélido fica.
Naquele ponto do mamilo nenhum beijo cuidadoso
Cobrindo o lugar silencioso das batidas do coração restaura
Para lhe abrir os olhos outra vez e sentir-lhe
A presença nas veias seguras da fortaleza do Amor.
Nenhum calor seu do outro calor exige
Suas mãos, soltas agora, por detrás de sua cabeça,
Naquela postura que tudo concede exceto as mãos,
Sobre o corpo projetado suplicarão mãos.
Cai a chuva e ele jaz como alguém que
Todos os gestos de seu amor esqueceu
E, despertado, continua por seu apaixonado amor esperando
Com a Morte se foram todas as suas habilidades e galanterias.
Não pode este gelo humano calor algum mover.
De um fogo estas cinzas nenhuma chama queimar não podem.
Ó Adriano, o que farás agora de vossa gélida vida?
Que botas deveriam ser senhor dos homens e do poder?
Por sobre o teu império visível sua ausência
Dele a ausência se faz sentida qual um noite.
Não mais existirão manhãs de esperanças e de delícias.
Agora enviuvadas são tuas noites de amor e beijos.
Os dias de esperas noturnas te foram agora roubados.
Teus lábios agora o sentido perderam de tuas alegrias,
A não ser para nomear que a Morte é
Companheira da solidão, da tristeza e do medo.
Tuas mãos indefinidas tateiam, como se tivessem deixado escapar a alegria.
Tua cabeça ergue a fim de ouvires que a chuva acabou,
E dirige ao teu adorável mancebo o teu levantado olhar.
Sobre aquele leito memorial nu, jaz ele.
Descoberto por tua própria mão, ali permanece.
Afeito a saciar teu senso instável, lá estava ele.
Insaciável e saciando mais e importunando-o
Com renovadas insaciabilidades até que sangrassem os sentidos.
Jogos conheciam sua mão e sua boca para restabelecerem
Desejos que tua gasta espinha com dificuldades suportaria.
Às vezes, a ti afigurava que era tudo vazio
De percepção em cada novo esforço de chupada luxúria.
Em seguida, para novos volteios de galanterias convocaria eles
À carne de teus nervos e tu estremecerias
sobre tuas almofadas recaindo com a sensação de teu espírito silente
.”Belo foi meu amor, , melancólico, todavia.
Daquela arte senhor que o amor cativo por inteiro torna,
Por ser lentamente triste entre as paixões da lascívia.
O Nilo, agora, o abandonou, o eterno Nilo
Sob suas madeixas molhadas da Morte a palidez azul
Contra nossos anelos de sorrisos tristes agora guerra trava.”
Até mesmo quando, pelo pensamento, a luxúria, que não é mais
Do que um esquecimento que pelas mãos reacende-lhe,
Desperta-lhe os sentidos a carne viva
E tudo de novo parece o que antes fora.
O corpo inerte no leito recompõe-se, vive
E vem para junto dele, cada vez mais junto e
Em movimentos uma invisível mão com gestos amorosos
Direcionados a todas as aberturas do corpo, a concupiscência estimulando,
Sussurra carícias rápidas que, no entanto, apenas
Demoram o bastante para sangrar de seu derradeiro vigor as fibras.
Ó doces e cruéis fugitivos paritas!
Destarte, meio que se levanta com os olhos no amante postos,
O qual, agora, nada amar pode senão o que ninguém conhece.
Vagamente, meio enxergando o que na verdade observa,
Percorre com os lábios frios o corpo inteiro.
E, assim, sem se importar com a gelidez, são os lábios que, olha!,
Na frieza do corpo imóvel mal sente ele a presença da morte,
No entanto, parece que ambos mortos ou vivos estão
Pois é o amor ainda a presença e o alento,
Enfim, na indolência gélida dos lábios do outro se cansam seus lábios.
Ah, ali a respiração pesada faz-lhe recordar os lábios
Que, independente dos deuses, uma neblina dissipou,.
Entre ele e o mancebo. As pontas dos dedos
Ainda indolentemente examinando-lhe o corpo, aguardam
Alguma reação da carne a seu estímulo para despertar.
Porém, a pergunta deles sobre o amor entendida não é:
Morto é o deus cujo culto devesse ser beijado!
As mão se levanta para o lugar onde o céu deveria estar
E grita para que mudos os deuses sua dor ouçam
Que que vossas mansas faces à sua súplica atendam,
Ó forças decisórias! De seu reino ele abdicará.
Ressequido viverá nos calmos desertos.
Nos distantes e selvagens caminhos um mendigo ou escravo será,
Porém, devolvei aos seus braços novamente o caloroso mancebo!
Se o privardes dessa oportunidade, estareis sua morte decretando!
Retirai da terra toda a feminina delicadeza
E num túmulo ainda restará algum vestígio!
Porém, pelo suave e valioso Ganimedes, Júpiter
Substituiu Hebe por ele e decidiu encher
Sua taça em grande festejo, instilando
O amor mais propício que a falta do outro.
Dos abraços femininos dissolve-se a terra
Em pó. Ó pai dos deuses, poupai, contudo,
Este mancebo, seu alvo corpo e seus áureos cabelos!
Talvez se fosse por vosso grandioso Ganimedes
Vós o farias, mas só por razões de ciúmes
Dos braços de Adriano a sua beleza para ti arrebatastes.
Um gatinho ele era fazendo o jogo da volúpia,
Sem ninguém, ou com Adriano, às vezes, só.
E às vezes ambos, ora unidos, ora afastados.
Ora sem sensualidade, ora prolongando-a em altas doses;
Ora com os olhos nela não tão abertos, no entanto, de esguelha
Saltando em volta em meia expectativa libidinosa;
Ora levemente reprimindo-a, em seguida, em incontida fúria,
Ora brincando só por brincar, ora com vontade, ora deitando-se
Junto dele, olhando-o, ora espreitando
Qual maneira de segurá-lo em seu justo controle de libidinagem.
Assim passavam as horas nos gestos das entrelaçadas mãos
E com seus membros unidos as horas voam.
Ora folhas mortais seus braços eram., ora fitas de ferro;
Ora eram seus lábios xícaras, ora as coisas que sorvem;
Ora seus olhos ficavam muito unidos; ora eram apenas olhares;
Ora em ação se achavam em descontínuos delírios;
Ora eram suas destrezas uma pluma, ora finalmente um chicote.
Uma religião se lhes tornara o amor.
Oferecida aos deuses que aos homens surgem.
Por vezes, adornava-se ou se deixava vestir
Parcialmente, depois, em e nudez de estátuas,
Imitavam, na realidade, algum deus que semelhava ser,
Em virtude da qualidade apurada do mármore, novamente homens.
Ora era Vênus, branca dos mares surgindo;
Ora era Apolo, jovem e louro;
Ora era Júpiter sentado, saciado ele em julgamento simulado diante da
Presença de seu amante a seus pés.;
Ora era ele um rito representado por alguém vigiado
Em mistérios sempre renovados.
É ele agora alguma coisa que qualquer um pode ser.
Ó inflexível negação da coisa que existe!
Ó amorosidade qual a lua de áureos cabelos!
Em demasia frios! Excessivamente frios! e o amor como ele tão frio!
Vagueia sim o amor através da memória de seu amor,
Como num labirinto, em triste júbilo da loucura.
Muito frio! Demasiadamente frio! e o amor tão frio como ele!
Vagueia sim através da memória de seu amor,
Qual num labirinto, em triste júbilo da loucura,
Que ora lhe invoca o nome e lhe pede que venha,
E ora sorria para a sua vinda representada,
Que é o coração como rostos vespertinos –
Puras sombras brilhantes das originais formas.
De volta veio a chuva qual uma indefinida dor
E no ar pôs a sensação líquida.
De súbito, o Imperador supôs que,
Bem distante, avistava esta sala e tudo ao seu redor.
Viu, então, o leito, o mancebo e a sua própria imagem
Lançada contra o leito e ele para si mesmo se tornou
Uma presença mais evidente, dizendo
Estas não proferidas palavras, exceto para a angústia de sua alma:
“ Para vós uma estátua edificarei, que servirá como
Prova, aos tempos futuros,
De meu amor, da vossa beleza e da percepção
Da divindade que a beleza propicia,
Posto que a morte, com sutis mãos reveladoras, destrói
da vida o aparato e de nosso amor o império.
Entretanto, sua estátua nua, à qual realmente vós dais vida,
A posteridade, contra a sua vontade ou não,
Sem dúvida, há de herdar, como uma dádiva de um deus constrangido.
“Sim, uma estatua vossa hei de erigir e marcar
Sobre o pináculo de vosso ser,
Por seu sutil e obscuro crime, aquele Tempo
Que receará destruir-te a vida, ou desgastar-se
Com a ferocidade da guerra e da inveja da massa e da pedra.
Não pode ser isso o Destino! Os próprios deuses, que fazem
Alterar as coisas, se transformam, a própria mão
Do Destino que por força suplanta
Os deuses propriamente ditos com a escuridão, recuará
Em arruinar desta forma vossa estátua e minha dádiva.
“Esta imagem de nosso amor os tempos cimentará.
Surgirá ele límpido do passado e será
Eterno que nem uma vitória romana.
Em cada coração se enfurecerá o futuro
Por não ter sido contemporâneo de nosso amor.
“No entanto, oh, se tudo sucedesse diversamente
Seríeis a vermelha flor minha vida perfumando.
Sobre as fontes das minhas delícias as grinaldas,
Da minh’alma a viva chama dos altares!
Fosse tudo isso algo de que agora pudésseis
Sorrir por sob as pálpebras da morte zombeteiras.
Imaginar que eu pudesse assim um prélio travar
Entre mim e os deuses em favor do brilho de vossa perdida presença;
Nada disso houve, salvo o vazio do meu ser
E vosso sorriso despertando meio consolando
O que proíbe a dor de com a esperança sonhar .”
Destarte, encaminhava-se ele qual um amante em espera,
Com esta tênue dúvida, de lugar para lugar.
Sua esperança, ora era uma grande intenção condenando-lhe
O desejo do ser, ora sentia ele que cego estava
De certo modo à percepção de seu indefinido desejo.
Não sabemos o que sentimos quando o amor a morte encontra.
Não sabemos o que r quando o amor a morte frustra.
Ora da esperança duvidava ele, ora sua esperança duvidava;
Ora o que seu desejo sonhava, a razão do sonho na realidade dele escarnecia.
E congelava a avivam um exasperado vazio.
Por outro lado, avivam os deuses do amor o escuro brilho.
“Vossa morte uma sensualidade mais elevada me concedeu -
Uma fulminante licenciosidade para a eternidade vociferando.
No meu destino imperial minha confiança deposito
A fim de que os altos deuses, que imperador me fizeram,
De mais autêntica uma vida não me negarão
O desejo de que vós devíeis viver para sempre e permanecerdes
Uma fresca presença no mundo deles melhor,
Mais encantadora e no entanto não mais sedutora,
Coisas impossíveis não há que destruam nossos desejos,
Nem nossos corações aflijam com mudança, tempo e luta.
“Amor, amor, amor meu! Sois um deus completo.
Este pensamento meu que, creio eu, seja um desejo,
Não o é , mas uma visão a mim concedida
Pelos grandes deuses, os quais amam de verdade e podem dar
Aos corações mortais, sob a forma de desejos –
De desejos contendo limites ocultos –
Das coisas genuínas uma visão além de
Nossa vida emparedada, de nossa percepção aos sentidos presa.
Sim, o que vos desejo que sejais já o sois.
Agora. Já n solo Olímpico.
Caminhais e sois perfeito, sois, todavia, o que sois,
Porquanto de nada mais necessitais para vos assumirdes
Perfeito, de vez que a perfeição sois.
“Canta meu coração qual um pássaro matinal
Nos deuses chega até mim uma grande esperança
E a meu coração pede que animado seja pelo mais sutil sentimento
E que maldade estranha alguma vos atinja
Pois pensar assim de vós mortal seria.
“Meu amor, meu amor, meu deus-amor! Deixai-me beijar
Vosso frígidos lábios ferventes, imortais agora,
Saudando-vos ante a ventura do portal da Morte.
“Não houvesse ainda nenhum Olimpo para vós, meu amor
Dar-vos-ia um , no qual o único deus poderia domínio ter
E eu vosso único adorador alegremente seria.
Vosso exclusivo adorador por toda eternidade.
Que um divino universo suficiente fosse
Para o amor e para mim e o que para mim sois.
Ter-vos é algo feito da matéria dos deuses.
“Esta, contudo, é a verdade, e a minha própria arte: o deus
Que agora sois corpo é por mim criado.
Porque, se agora sois da carne realidade
Além da qual os homens envelhecem e a noite ainda desce,
É graças ao meu grandioso poder de criar o amor que vós deveis
Essa vida que infundistes em vossa memória
E a tornastes carnal. Não tivesse meu amor
Possuído um império feito de minha poderosa vontade legionária,
Não teríeis sido enviado à companhia dos deuses.
“Descobriu-vos meu amor no momento em que vos
Acháveis apenas no vosso próprio corpo e natural aparência.
Portanto, quando agora invoco vossa lembrança, Eu apenas ascendo
Ao topo da altaneira coluna da morte na forma que assumiu
E a ponho lá como uma visão de todos os amores.
“Ó amor, meu amado, com a minha firme amorosa vontade, juntai-vos
Ao Olimpo, e lá sede o último dos deuses, cujos cabelos da cor de mel
Revelem divinos olhos! Assim como fostes na terra, ainda
No céu vos mostrais em forma física e vos movimentais,
Daquela felicidade do lar, um prisioneiro
Junto aos deuses mais antigos, enquanto eu na terra farei, sim,
Uma estátua em louvor à vossa viva imortalidade.
Entretanto, vossa verdadeira estátua viva hei de construir.
Não será de pedra somente, porém daquela mesma tristeza
Ditada pela vontade do eterno amor.
Sois um lado dela, consoante vos veem os deuses
Agora, e o outro, aqui, fala da memória vossa.
O deus daqueles homens meu lamento tornar-se-á e porão
No parapeito vossa nua memória
A qual dá para os mares dos tempos pósteros.
Dirão alguns que todo nosso amor não foi senão nossos crimes;
Outros afiarão contra nosso nomes os punhais
De seu ódios feliz contra a beleza da beleza e farão
Com que nossos nomes uma base de apoio sejam com a qual apaguem
Com desprezo total os nomes de todos os nossos irmãos.
Contudo, nossa presença, como eterna Manhã,
Haverá sempre de retornar à hora da Beleza e cintilar
Do Leste do Amor, como luz em relicários engastando
Novos futuros deuses, com o fim de adornar o mundo carente.
“Tudo que agora sois somos eu e vós.
Contém sua unidade nossa dual presença
Naquela perfeição do corpo em que meu amor,
Por vos amar, se tornou e na verdade da vida
Fez-se deusa, em paz superior à luta
Dos tempos, e das muito superiores cambiantes paixões.
“Dado que, porém, os homens veem mais com os olhos do que com a alma,
Imóvel eu, na condição de pedra, confessarei esta grande dor;
Imóvel, desejosa de que anseiem os homens por vossa presença,
Este pesar conduzirei até ao mármore
Que, em meu coração, se incrusta qual uma estrela especial.
Destarte, mesmo na pedra, nosso amor
Há de tão grandioso permanecer
Em vossa nossa, como, destino dos deuses,
De nosso amor encarnado e desencarnado a essência,
O qual, à semelhança de uma trombeta pelos mares ressoando
E atravessando de continente a continente
Sua alegre tristeza, com o sabor da morte nosso amor há de exclamar
Por sobre infinidades e eternidades.
“E aqui, memória ou estátua, continuaremos,
Ainda unidos, de mãos dadas, sempre.
Simplesmente por sentir, não sentimos a mão um do outro.
Ainda me compreenderão os homens quando perceberem o vosso sentimento.
Poderiam todos os deuses passar pela enorme rotação dos
Tempos terrestres. Se, a não ser por vossa causa, e sendo vós um deles, foi
Que vós havíeis acompanhado a partida daqueles deuses.
Ainda assim, retornariam eles, porquanto, para despertarem, dormido haviam.
“Então, no fim dos dias, logo que Júpiter renascesse
E Ganimedes outra vez início desse a seus dias festivos,
Veria nossa dual alma da morte libertada
E re nascida para a alacridade, o medo, a dor –
Ou seja, tudo que no amor se encerra;
A vida – toda a beleza que realmente em lascívia se torna .
Do lídimo amor propriamente dito do amor com o encanto surpreso;
E, se nossa própria memória por inteiro se apagasse,
Mercê da raça de alguns deuses do final dos tempos, ressuscitar
Deveria nossa dual unidade.”
Prossegue a chuva. Todavia, noites ocm passos lentos caíam,
Fechando as pálpebras de cada sentido cansadas,
A consciência própria de si mesmo e da alma
Aumentou, tal qual uma paisagem em que pouco chovia, pouco mesmo.
Imóvel se encontrava o Imperador, tão imóvel que, agora,
Com que meio olvidara onde a gora estava, ou
De onde vinha aquele lamento que era ainda sal para seus lábios.
Fora tudo algo muito distante, um pergaminho
Fechou-se. Aquilo que sentia era igual a um círculo
Que a lua aureola assim que chora a noite.
Curvada estava sua cabeça sobre os braços, e eles, deitados,
Sobre o baixo leito repousavam, aos seus sentidos alheios.
Seus olhos cerrados se lhe figuravam abertos e vendo
O chão vazio, escuro, frio, triste e sem sentido.
Seu arfar doente era tudo o que sua percepção saber podia.
Da escuridão que descia o vento levantou-se
E caiu.Nos pátios inferiores uma voz sumiu;
O Imperador dormia.
Os deuses, agora, surgiram
E consigo alguma coisa levaram - não há como saber o que fosse –
Nos invisíveis braços do poder e do descanso.
(Trad. de Cunha e Silva Filho)

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

MANAUS

Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas


Rogel Samuel


Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas,
Por que se integre à terra este cantor.
Ó monstruosas noites desamparadas
De mim se aparte a porta dessa dor.
O espelho dágua ostenta a aranha alada
Que me arrasta o interno aeroplano,
Tresloucada vespa, cristalizada
Inoculando o inferno do engano.
Mas chega de canção, Amor, que neste canto
As finas rimas dessa ladainha
Escondem teus morenos ombros de arpejos.
Ó franca zona! Do Teatro o manto!
Por sete dias tua canção é minha
Na invenção literária dos teus beijos.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

MANAUS: A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO

MANAUS: A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO AMAZÔNICO - Rogel Samuel
Em 1876 corria um rio de concentrada riqueza às margens daquele rio Negro, sobre o qual se debruça a cidade de Manaus, a minha cidade natal. A extração amazonense dobrava, a cada década. De 1821 a 1830 eram 329 toneladas de borracha. Na década seguinte dá-se a expansão: 2.314 toneladas. De 1841 a 1850, 4.693 toneladas. O grande desenvolvimento foi de 1851 a 1860: 19.383 toneladas. De 1871 a 1880, 60.225 toneladas. Depois chegou a 110.048 toneladas! A cotação da borracha amazonense subia diariamente na Bolsa de Londres. Aumentava a produção dos pneumáticos. O Amazonas, único produtor de látex do mundo. Manaus rica, copiava Paris. Comerciantes enriqueciam da noite para o dia. Ostentava o Teatro Amazonas os seus espelhos de cristal. Os milionários jogavam cartas com anelados dedos pesados de diamantes, arriscando fortunas no Hotel Cassina, no Alcazar, no Éden, no Cassino Julieta. Telhas de Marselha ao luar na Rua dos Remédios, na Rua da Glória. Arquitetura art-nouveau do palácio de Ernest Scholtz - depois Palácio Rio Negro, sede do Governo. Arandelas, bandeiras, implúvio. Intercolúnio. O cunhal, o lambrequim, a voluta, o capitel, a cornija. Arquitrave. Barrete de clérigo, adufa, muxarabi, água-furtada, muiraquitã, envasadura, atleta, estípite. O enxalso, o frontão de canela. Galilé. Pequena Manaus, grande Paris! Lojas, magazines, charutarias, livrarias, alfaiatarias, ourivesarias. Bissoc. Pâtisserie. Du sucre, des fruits, de la crème. A la ville de Paris, Au bon marché, Quartier du temple, Damas do Gabinete Villeroy, Casa Louvre, Livraria Palais Royal (na rua Municipal, n0 85, com as novidades literárias de Paris), a Livraria Universal, Agência Freitas, a Casa Sorbonne (dentro do Grande Hotel), a Confeitaria Bijou, a Padaria Progresso. Faroletes de pedra de morona e de puraquequara. A bela Villa Fany, luxuosíssima. O Cais dos Barés, a Biblioteca Provincial (que incendiou fraudulentamente, para destruir os Arquivos Públicos, nos fundos). O prédio dos Educandos Artífices que deu nome ao bairro. The Amazon Steamship Navigation Co. A Alfândega é um prédio importado, peça por peça, da Inglaterra, montado aqui. Outro edifício, projeto do próprio Gustavo Eiffel, de ferro: o Mercado Municipal. Um Serviço Telefônico serve a cidade. A eletricidade ilumina as ruas de Manaus no início do Século, talvez das primeiras cidades brasileiras a ter este serviço. Calçadas da Praça São Sebastião, em pedras portuguesas pretas e brancas, em ondas que alegorizavam o “encontro das águas” do Negro e Solimões (posteriormente imitadas na praia de Copacabana). Bondes elétricos da Manaus-traways. Consome-se Veuve Clicquot, truffes, champignon. Huntley & Palmers, Cross & Blackwell. A Cork, a Pilsen, o Bordeaux, o fiambre, o Queijo da Serra da Estrella. Lagostas, a Goiabada Christalizada. Charteuse, Anizette. Champagne Duc de Reims. O Vermouth. Água de Vichy. Leite dos Alpes Suíços. Casacas inglesas, o H. J., o pongê, o filó. Bengalas de castão de ouro. Cartolas, luvas, perfumes franceses, lenços de seda. Pistolas de prata e cabo de marfim. Gramophones de Victor. Discos duplos de Caruso. Casas aviadoras. O Amazonas participa da Exposição Comercial de St. Louis, no Missouri, e posteriormente da Exposição Universal de Bruxelas, onde ganha 32 medalhas de ouro, 39 de prata, 70 de bronze, 6 Diplomas de Honra e os 13 Grandes Prêmios. Manaus-Harbour. Tabuleiro de Xadrez. Óperas, óperas, óperas. Diariamente. Prostitutas importadas. A Cervejaria Miranda Correia.
A Praça da Saudade. O Roadway, o Trapiche. Sífilis. Malária. Vidros de Quinino Labarraque. Óleo de Fígado de Bacalhau. Vinho Silva Araújo. Regulador da Madre. Pílulas Rosadas. Café Beirão. Winchesters cabo encerado de mogno. O Asilo de Mendicidade (construído pelo Comendador). A Ponte da Imperatriz, Igarapé da Cachoeira Grande. A Serraria, no Igarapé do Espírito Santo. Banhos no Igarapé das Sete Cacimbas. Buritizal. Jogos, no Parque Amazonense. Ida a Barcelos. Noite no Jirau. Muro do Leprosário do Aleixo. No recanto - o Chalé. Vista da Bomba d’Água. Viagens. Linhas. Manaus-Belém, Manaus-Santa Isabel, Manaus-Iquitos, Manaus-Marari, Manaus-Santo Antônio do Madeira, Manaus-Belém-Baião. Gonçalves Dias no Hotel Cassina. Coelho Neto no palacete da rua Epaminondas. Euclides da Cunha no chalé da Villa Municipal. Os jornais: Amazonas Comercial, O Imparcial, O Rio Negro, Jornal do Comércio. 126 navios trafegam no interior do Amazonas. Vaticanos, gaiolas e chatas. Inaugura-se, às custas de 3,3 milhões de dólares, o Teatro Amazonas, em 1896 - a mais cara e inútil obra faraônica da História do Brasil, milionária e importada, com painéis, centenas de lustres de cristal venezianos, colunas de mármore de várias cores, estátuas de bronze assinadas por grandes mestres, espelhos de cristal, jarrões de porcelana da altura de um homem, tapetes persas - tudo o que, aliás, em 1912 desapareceu, esvaziando-se o Teatro para transformá-lo num depósito de borracha de uma firma americana. Ali o erário público foi enterrado em 10 mil contos de réis: o Teatro Amazonas custou o preço de 5 mil casas luxuosas. O dólar a 3 mil réis. Por 900 contos de réis se constrói o Palácio da Justiça. E por 1 mil e seiscentos contos de réis se constrói o Palácio do Governo, nunca concluído. O Teatro custou 10 mil vidas. Sim: Em 1919 para o Amazonas já tinham chegado 150 mil emigrantes. A borracha naqueles anos foi tão importante quanto o café. O Amazonas exportou 200 mil contos de réis em borracha, contra 300 mil contos do café paulista na mesma época. Em 1908 é fundada a mais antiga universidade do Brasil, em Manaus, com cursos de Direito (o único que sobreviveu), Engenharia, Obstetrícia, Odontologia, Farmácia, Agronomia, Ciências e Letras. Nessa época 12 milhões de francos franceses sumiram, roubados no Governo de Constantino Nery. Encampa-se, fraudulenta e inutilmente, a Manaos Improvements, por 10.500 contos de réis - o preço do Teatro Amazonas. A história de Manaus é um acúmulo de loucuras. O seu signo é o Teatro Amazonas. É difícil compreender a imagem que se tem da Amazônia e de Manaus, esta cidade colocada no meio das selvas que tem como símbolo um grande teatro. Geralmente as cidades tem um símbolo cultural. Nova Iorque é a Estátua da Liberdade, Paris é a Torre Eiffel, o Rio de Janeiro é o Pão de Açúcar. Manaus é o Teatro Amazonas. A essência dominante de Manaus é o Teatro Amazonas, como signo do lazer de uma riqueza teatral, de um luxo de opereta, pelo poder de uma classe dominante enlouquecida pelo ouro negro, ouro de uma inutilidade desvairada.

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O POETA AMAZÔNICO


UM SÉCULO DO POETA AMAZÔNICO  

ROGEL SAMUEL

Ninguém comemorou? Pois Humberto de Campos eclodiu para a notoriedade com um livro de poesia chamado “Poeira” em 1911 no Pará.
Em 1903 ele se muda para o Pará, empregado de escritório, depois vai para um seringal, onde trabalha.
Segundo Múcio Leão ele “vive longos anos em excursões no Purus, no Madeira e no Juruá. Viaja pelo Ceará, pelo Piauí e pelo Maranhão. Em 1908, dirige, no Baixo Amazonas, a exploração dos seringais. Tem, então, um contato direto e diário com a vida dos homens mais infelizes que existem no Brasil. Vê os seringueiros explorados, humilhados, assassinados, trucidados”.
Este período da vida de H. de C. é um mistério, o próprio escritor nada conta em suas duas memórias e no “Diário secreto”. Não que eu me lembre.
Quando “Poeira” é publicado, o sucesso é estrondoso.
Diz o citado Múcio Leão, seu sucessor na Academia:
Seus primeiros versos despertam um entusiasmo grande no Rio e em todo o Brasil. ...a faculdade de transformar em musicais sonetos os aspectos da existência ou do cenário do Amazonas. Celebrava os descobridores duros que se foram perder nas regiões aspérrimas do Brasil, e, sobretudo no Solimões, no Madeira, no rio Negro... Celebrava Pedro Teixeira, o primeiro civilizado que subiu o Amazonas, e o Padre Luís Figueira, que levou a cruz aos índios, nas regiões remotas do rio-mar. Celebrava a mansidão dos jesuítas e a tristeza fatalista dos seringueiros”.
“A Amazônia deu-lhe motivos imensos. Ele cantou o irapuru, evocou as visões dementes de Orellana, memorou a tribo desfeita dos Aturés. E assim cantou, também, Manôa, Diego Ordaz, Lopo de Aguirre, Afonso de Herrera, todos os violadores do Eldorado...
Como um resumo dessa tendência de sua poesia, quero citar-vos o soneto A Amazônia:
Este é o palácio da Mãe d’Água... O dia
Não corusca de sol como corusca
Seu mais frágil portal, que espanta e ofusca
De encantados metais e pedraria.
Ai, entretanto, de quem corre e o busca!
Ai de quem, ao transpor-lhe a frontaria,
Tomba lá dentro com volúpia brusca,
Arrebatado pela verde orgia!
Mães e noivas do Sul, ao noivo e ao filho,
Se andam no Euxino, entre marnéis e escolhos,
Dizei que fujam de frontais em brilho.
Lá vive a Iara, a náiade-cetáceo...
E desgraçado de quem põe os olhos
Nos traidores portais desse palácio!
Para se ter uma idéia do seu sucesso, cito o mesmo Múcio Leão: “Publicado, em 1911, o seu primeiro livro de versos, obteve Humberto de Campos a celebridade repentina. Carlos de Laet saudou-o, num dos artigos do Microcosmo, de O País, como a um próximo candidato à Academia. “Mais alguns anos (dizia Laet) e teremos o Humberto na Academia, coroado de louros, com um discurso por cima”. O Sr. Afonso Celso, Medeiros e Albuquerque cobrem de rosas a musa adolescente. E lá fora o entusiasmo é o mesmo. Guerra Junqueira brada, deslumbrado, que se aquilo é Poeira... certamente é poeira de astros... Fialho de Almeida exalta o novo cantor, achando-o “perfeito como um grego, flexuoso e sensual como um verdadeiro americano”. Em Paris, Tomaz Lopes, indo visitar Edouard Schuré, perguntou ao sábio se conhecia algum autor brasileiro. Schuré levantou-se, caminhou até à estante, tomou de um livro e o mostrou ao visitante curioso. Era o livro de Humberto de Campos!”
Quem se der ao luxo de ler suas “Poesias completas” vai encontrar inúmeros poemas de temática amazônica, e partes do livro como “Poemas amazônicos”, “Vitória-régia”, poemas como “O irapuru”, “O seringueiro”, “A morte de um seringueiro” etc.
Como era H. de C. poeta? Ainda que sua poesia não ombreasse com a de Bilac (seu ídolo), era um bom poeta parnasiano. E escreveu algumas obras-primas, como esta “Miritiba”, cidade onde nasceu, que hoje tem o seu nome:
É o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na água salobra, a canoada em fila...
Grandes redes ao sol, mangais defronte...
De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...
Duas ruas somente... a água tranqüila...
Botos no prea-mar... A igreja... A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.
Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.
Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha mãe, pela noite, agita um lenço...
Ao vir do sol, a água do mar se alteia.
Range o mastro... Depois... só me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

Humberto foi um dos maiores homens de letras do país. Incontestávelmente, nunca será esquecido.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Meu professor Anisio Teixeira na porta da FNFi


Meu professor Anisio Teixeira na porta da FNFi

Rogel Samuel

A primeira pessoa que encontrei na porta da Faculdade foi Anísio Teixeira.
Mas eu não sabia. O primo de meu pai, Gervásio, me levou até bem perto do prédio e lá fui eu, com 18 anos de idade.
- Aqui é a Faculdade Nacional de Filosofia? – perguntei para aquele senhor mal-vestido, de óculos velhos de aros “de tartaruga”. Pensei que era o porteiro. Era Anísio Teixeira, conforme depois soube, meu professor de Filosofia da Educação.
Ele me orientou, da porta, e eu fui inscrever-me no Vestibular, recém-chegado de Manaus.
Não passei, naquele primeiro vestibular.
No dia da prova de francês, estava com febre de 40 graus e D. Marcella Mortara me reprovou, ou melhor, inutilizou minha prova com um risco diagonal e escreveu como nota: “Ilegível”, e aplicou um zero.
Sempre tive uma péssima letra. Até hoje. Eu devia ter estudado caligrafia, como se faziam os antigos.
Por isso, estudei ali no Curso Vestibular da própria Faculdade, gratuito, por um ano. E foi bom.
O curso era do Diretório Acadêmico (um ano depois eu era professor ali), e os professores eram os alunos... mas uns gênios.
Fui aluno do Antônio Pio (onde andará), de latim. Lia latim e grego como eu hoje leio jornal. Anos depois foi aposentado precocemente vitimado por misteriosa doença. Fui aluno de Antonio Augusto, depois assistente do Celso Cunha. Ali só havia gênios.
Eu morava em quartos alugados e comia no Calabouço, restaurante da UME, União Minicipal dos Estudantes, que ficava nas imediações do Aeroporto Santos  Dumont. 
O Aterro estava sendo feito.
Tive a sorte de passar em primeiro lugar (foi o que me disse depois Aluísio Trinta) para o Vestibular de Letras Clássicas. Pura sorte.
Havia 20 vagas, só passamos creio que 12. Provas escritas e orais.
Celso Cunha, na prova, mandou que justificássemos o verso de Camões: “Mas porém a que cuidados”. Ele queria se explicasse o “mas porém”.
E por aí foi.
O meu quarto, no Maracanã, dava para um beco e uma casa abandonada.
Dali eu só tinha a visão daquele muro velho e, à esquerda, uma árvore antiga daquela rua Eurico Rabelo.
Como eu precisava de mesa, comprei um “bureau” usado, antigo, de madeira preta, que pertencera a um ministério. Era gigantesco.
O Maracanã ficava em frente, e nos grandes jogos cada gol soava como uma onda que se elevasse saída de um vulcão furioso.
Era possível entrar no Maracanã vazio, ir até o gramado, olhar do centro para a periferia, para aquelas galerias monstruosas e vazias, descritas por Clarice Lispector num belo conto.
Passei a explorar o Rio, de ponta a ponta.
Nos dias livres tomava um ônibus e visitava Caxias, Meriti, São Gonçalo etc.
Chegava no fim da linha, pegava o ônibus de volta.
Foi aí que desenvolvi o espírito de viajante. Mais tarde percorri o Nordeste, o Sul, e depois o mundo, Katmandhu, Sydney, Paris...
O espírito de aventura. Que perdi, depois de velho.
A porta da FNFi foi minha entrada para o mundo.



A VISÃO DO MAR


A VISÃO DO MAR

Rogel Samuel

Mas não sei como poderia subsistir hoje sem a visão do mar, como nas “Palavras ao mar”, de Vicente de Carvalho:

“Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.”

Vicente de Carvalho, que era paulista, de Santos, assim o disse. Quando ele nasceu...

“Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...”

Este hino ao mar, um dos melhores, amplo, sonoro, Vicente de Carvalho escreveu. Nasceu em abril, como diz o poema, no dia 5 de abril de 1856, “O claro mês das garças forasteiras / Abril, sorrindo em flor pelos outeiros, / Nadando em luz na oscilação das ondas”. Poeta feliz, ou melhor, da felicidade, da felicidade luminosamente azul:

“Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes...
O mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!”

Os olhos descansam na visão oceânica. Além disso, Vicente de Carvalho também foi aguerrido jornalista. Escrevia na imprensa, defendendo suas idéias. Foi deputado, Constituinte do Estado, em 1891. Seu ritmo é oral, como de tribuno, em:

“Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas...

Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino... Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o vôo!”

Em Santos ele faleceu. Em 22 de abril de 1924, aos 68 anos. Herdou o verso forte de Castro Alves. O verso: “A que as brisas da terra o sono embalam”, lembra o de Alves: “que a brisa do Brasil beija e balança”, em:

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
 
Esta estrofe ousada, esta ousadia poética de Castro Alves, de rasgar a Bandeira Nacional num poema, poderia, em outros tempos, levá-lo à prisão. Entretanto vivia na liberdade de seu tempo democrático, heróico, nos versos decassílabos heróicos, com acentos 6 - 10: -------dão------ter / ----- sil ------ lan.

Auriverde penDÃO de minha TERra,
Que a brisa do BraSIL beija e baLANça

O Brasil oscila, ali. Aos ventos. Aquele navio cheio de escravos era bem brasileiro. Uma “vergonha”, diz ele. Lembro-me do poeta amazonense Hemetério Cabrinha a recitar, na Rua Saldanha Marinho, em Manaus, na porta do jornal “A crítica”:

Era um sonho dantesco o tombadilho
que das luzernas avermelha o brilho...

Ele me lembra o seu próprio poema “O Cristo do Corcovado”:

“No escalavrado píncaro da serra,
Que o luar alveja e a luz do sol estanha;
E onde a cidade, abençoando a terra,
Se espreguiça na falda da montanha;
Ergue-se o Cristo-Redentor, coitado!
Braços ao ar, o triste olhar cravado
Na base de granito que o suporta
De alma apagada e a consciência morta.
O Cristo cujo busto alvinitente,
Granítico, imponente
E lavado de sol;
Aureolando de alvura o Corcovado,
Qual Prometeu, virado
Para o horizonte, a medir o arrebol;
E, de distância imensurável, visto
Qual uma forma etérea
É apenas um Cristo
Feito à custa de angústias e miséria.”

O poema inteiro está no nosso sítio.

O verso: “Que a brisa do Brasil beija e balança” tem 4 “bb” de beijos. A bandeira aí ondula aos beijos dos ventos. Nas cores do céu, nas cores da esperança. A bandeira irradia sol. Irradia patriotismo. “Estamos em pleno mar”, o mar azul, o “mar da memória” do amazonense Sebastião Norões:

“Eu quero é o meu mar, o mar azul. 
Essa incógnita de anil que se destrança 
em ânsias de infinito e me circunda 
em grave tom de inquietude langue.
O mar de quando eu era, não agora.
Quando as retinas fixavam tredas
a incompreensível mole líquida e convulsa.
E o pensamento convidava longes,
delimitava imprevisíveis rumos 
viagens de herói e de mancebo guapo.
Quando as distâncias fomentavam sonhos.
Rebenta em mim essa aspersão tamanha 
que a imagem imatura concebeu 
de quando o mar era meu, o mar azul.

Coube a este amazonense a glória de ter escrito um dos mais belos sonetos do mar. Longe do mar. Só de memória. Norões nasceu no dia 7 de março de 1915, em Humaitá, Rio Madeira e faleceu em Manaus. Estudou em Fortaleza. Aos 18 anos volta para Manaus, faz a Faculdade de Direito. Professor no Colégio Estadual, onde foi meu professor de geografia. Exerceu o cargo de Chefe de Polícia do Estado, quando escondeu e deu fuga ao comunista Jorge Amado. Membro do Clube da Madrugada e da Academia Cearense de Letras. “Poesia Freqüentemente” é livro de minha predileção. Ali sentimos sua poesia viva, sua poesia azul. Nesta pequena obra-prima, que é “Mar da memória”, a ânsia de infinito, como se o poeta quisesse voar, escapar do estreito espaço em que se movia, alcançar Alascas e Austrálias. Revela lembranças, do mar, dos verdes mares de Fortaleza, do mar literário, do mar de Alencar, que era verde. Mas quando “o mar é meu”, o mar de minha memória, é azul, e não verde, de minhas lembranças que se voltam para os céus, dos imprevisíveis rumos de minha vida, sonhada ainda, de imprevisíveis rumos. Pois “arte é o homem acrescentado à natureza”, escreveu Van Gogh, em carta a Théo de 1879. E ele entendia de azul, de delirante azul.


 



sexta-feira, 11 de outubro de 2019

EDITORA ITATIAIA


EDITORA ITATIAIA...Ensaio sobre a música brasileira. Mário de Andrade. Editora Itatiaia.
O turista aprendiz. Mário de Andrade. Editora Itatiaia.
O amante das Amazonas. Rogel Samuel. Editora Itatiaia.
DE Alan Collyer

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O caminho é vazio

O caminho é vazio


Rogel Samuel


Diz o TAO:

"O caminho é vazio.
Embora ele possa ser usado
Nunca será preenchido".


Tenho meditado sobre isso. Sem chegar ao fim do conceito.

O caminho é vazio. De quê? Vazio de quê?

Sim ele é vazio de ego de pensamento de ciúme de raiva de desejo de dor de sujeito de objeto de criador de criado.

O vazio do caminho é luminoso. É luminosamente vazio. É claridade e vacuidade, por isso expansão do espaço.
Talvez eu nunca compreenda esse super-conceito, esse não conceito.
Usado mas não preenchido ou gasto.
O caminho não se satura de si, pois é vazio.
E o que é vazio vigora no espaço da liberdade.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

DE LEILA MICCOLIS

O belíssimo livro de Rogel Samuel O AMANTE DAS AMAZONAS agora é bilíngue, através da versão de Marta Cortezão para o espanhol - uma preciosidade disponibilizada na íntegra no blog cujo link segue abaixo. Acesse, e mesmo que você já tenha lido, releia, porque o romance brasileiríssimo, narrado em idioma estrangeiro, ganha um novo colorido, uma nova sonoridade, uma nova textura e uma beleza ainda maior e mais rara.
👏👏👏
TRADUCTIONMARTACORTESAO.BLOGSPOT.COM
O AMANTE DAS AMAZONAS DE R. SAMUEL - TRADUCCIÓN MARTA CORTEZÃO

O romance O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel, ganhou uma tradução para o espanhol

O romance O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel, ganhou uma tradução para o espanhol realizada pela escritora Marta Cortezao. O romance é ambientado na região do Jordão-AC.
ALMAACREANA.BLOGSPOT.COM
Isaac Melo A importante obra do escritor amazonense Rogel Samuel, O AMANTE DAS AMAZONAS, publicado em 2005 pela editora Itatia...