A árvore da morte
CLARISSE DE OLIVEIRA
Aos nos dirigirmos à árvore de Pequi, cujos frutos eram os preferidos do Dr. Lund, o dinamarquês que retirou esqueletos de animais antidiluvianos da Lagoa Santa, Minas Gerais, afim de sermos filmados numa homenagem do Centro de Arqueologia Brasileiro, me apontaram imensa árvore, me dizendo:
- Naquela árvore, Fernão Dias Paes Leme, enforcou seu filho, que estava sempre ameaçando se apoderar da chefia da Bandeira.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
MADONNA, a mulher do ano da Billboard, emociona em discurso poderoso!
MADONNA, a mulher do ano da Billboard, emociona em discurso poderoso!
“Estou aqui em frente a vocês como um capacho. Quer dizer, como uma artista feminina. Obrigada por reconhecerem minha habilidade de dar continuidade à minha carreira por 34 anos diante do sexismo e da misoginia gritante, e do bullying e abuso constante.
As pessoas estavam morrendo de AIDS em todos os lugares. Não era seguro ser gay, não era legal ser associada à comunidade gay. Era 1979 e Nova York era um lugar muito assustador. No meu primeiro ano [na cidade] eu fiquei sob a mira de uma arma de fogo, fui estuprada num terraço com uma faca na minha garganta e tive meu apartamento invadido e roubado tantas vezes que parei de trancar as portas. Com o passar do tempo, perdi para a AIDS ou para as drogas ou para as armas quase todos os amigos que tinha. Como vocês podem imaginar, todos esses acontecimentos inesperados não apenas me ajudaram a me tornar a mulher ousada que está aqui, mas também me lembraram que sou vulnerável, e que na vida não há segurança verdadeira exceto sua autoconfiança.
Eu me inspirei, é claro, em Debbie Harry e Chrissie Hynde e Aretha Franklin, mas meu muso verdadeiro era David Bowie. Ele personificava o espírito masculino e feminino e isso me agradava. Ele me fez pensar que não havia regras. Mas eu estava errada. Não há regras se você é um garoto. Há regras se você é uma garota. Se você é uma garota, você tem que jogar o jogo. Você tem permissão para ser bonita, fofa e sexy. Mas não pareça muito esperta. Não aja como você tivesse uma opinião que vá contra o status quo. Você pode ser objetificada pelos homens e pode se vestir como uma prostituta, mas não assuma e se orgulhe da vadia em você. E não, eu repito, não compartilhe suas próprias fantasias sexuais com o mundo. Seja o que homens querem que você seja, e mais importante, seja alguém com quem as mulheres se sintam confortáveis por você estar perto de outros homens. E por fim, não envelheça. Porque envelhecer é um pecado. Você vai ser criticada e humilhada e definitivamente não tocará nas rádios.
Eventualmente fui deixada em paz porque me casei com Sean Penn e estava fora do mercado. Por um tempo eu não fui considerada uma ameaça. Anos depois, divorciada e solteira, fiz meu álbum ‘Erotica’ e meu livro ‘Sex’ foi lançado. Eu me lembro de ser a manchete de cada jornal e revista. Tudo que lia sobre mim era ruim. Eu era chamada de vagabunda e de bruxa. Uma das manchetes me comparava ao demônio. Eu disse ‘Espera aí, o Prince não está correndo por aí usando meia-calça, salto alto, batom e mostrando a bunda?’ Sim, ele estava. Mas ele era um homem. Essa foi a primeira vez que eu realmente entendi que mulheres não têm a mesma liberdade dos homens.
Eu me lembro de desejar ter uma mulher para me apoiar. Camille Paglia, a famosa escritora feminista, disse que eu fiz as mulheres retrocederem ao me objetificar sexualmente. Então eu pensei, ‘Se você é uma feminista, você não tem sexualidade, você a nega’. E eu disse ‘Dane-se. Eu sou um tipo diferente de feminista. Sou uma feminista má’.
Eu acho que a coisa mais controversa que eu já fiz foi ficar aqui. Michael se foi. Tupac se foi. Prince se foi. Whitney se foi. Amy Winehouse se foi. David Bowie se foi. Mas eu continuo aqui. Eu sou uma das sortudas e todo dia eu agradeço por isso. O que eu gostaria de dizer para todas as mulheres que estão aqui hoje é: Mulheres têm sido oprimidas por tanto tempo que elas acreditam no que os homens falam sobre elas. Elas acreditam que elas precisam apoiar um homem. E há alguns homens bons e dignos de serem apoiados, mas não por serem homens, mas porque eles valem a pena. Como mulheres, nós temos que começar a apreciar nosso próprio mérito. Procurem mulheres fortes para que sejam amigas, para que sejam aliadas, para aprender com elas, para as inspirem, apoiem e instruam.
Estou aqui mais porque quero agradecer do que para receber esse prêmio. Agradecer não apenas a todas as mulheres que me amaram e me apoiaram ao longo do caminho; vocês não têm ideia de quanto o apoio de vocês significa. Mas para aqueles que duvidam e para todos que me disseram que eu não poderia, que eu não iria e que eu não deveria, sua resistência me fez mais forte, me fez insistir ainda mais, me fez a lutadora que sou hoje. Me fez a mulher que sou hoje. Então, obrigada.
domingo, 11 de dezembro de 2016
A COMPAIXÃO
DUGPA RINPOCHÊ: Lembra-te. A compaixão é uma das formas silenciosas da felicidade. Ela permite que tu possas tecer laços de outro, entre ti e os outros, que dês à tua alegria maiores e mais vastos horizontes. A felicidade não aprisiona. Liberta.
sábado, 10 de dezembro de 2016
sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
A HISTÓRIA DE UM VIOLINO GUARNERI
LEIA A HISTÓRIA DE UM VIOLINO GUARNERI, O VIOLINO DE MEU PAI, EM
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NOSSA COLUNA QUINZENAL...
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A HISTÓRIA DE UM VIOLINO GUARNERI
O PENSAMENTO
DUGPA RINPOCHÊ: O pensamento confuso, complicado, é a fonte de todos os sofrimentos. Torne a encontrar a simplicidade e a transparência do coração.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
O INSTANTE
DUGPA RINPOCHÊ: Pensa e age sempre a partir do instante. O poder da vida não flutua no passado nem no futuro, que não são senão visões do espírito. Incarna-se no Instante. É no instante que descobrirás o poder da vida, não a sonhar sobre o passado ou o futuro.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
A FELICIDADE
- DUGPA RINPOCHÊ: A felicidade é primeiramente uma disposição de espírito, uma maneira diferente de olhar para o mundo. Chega até nós porque nós a desejamos apaixonadamente, segundo a lei de atração e de harmonia que rege o universo.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
CLARICE LISPECTOR
RESTOS DO CARNAVAL
Não, não deste último carnaval. Mas não sei por que este me transportou para a minha infância e para as quartas-feiras de cinzas nas ruas mortas onde esvoaçavam despojos de serpentina e confete. Uma ou outra beata com um véu cobrindo a cabeça ia à igreja, atravessando a rua tão extremamente vazia que se segue ao carnaval. Até que viesse o outro ano. E quando a festa ia se aproximando, como explicar a agitação íntima que me tomava? Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate. Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu.
No entanto, na realidade, eu dele pouco participava. Nunca tinha ido a um baile infantil, nunca me haviam fantasiado. Em compensação deixavam-me ficar até umas 11 horas da noite à porta do pé de escada do sobrado onde morávamos, olhando ávida os outros se divertirem. Duas coisas preciosas eu ganhava então e economizava-as com avareza para durarem os três dias: um lança-perfume e um saco de confete. Ah, está se tornando difícil escrever. Porque sinto como ficarei de coração escuro ao constatar que, mesmo me agregando tão pouco à alegria, eu era de tal modo sedenta que um quase nada já me tornava uma menina feliz.
E as máscaras? Eu tinha medo, mas era um medo vital e necessário porque vinha de encontro à minha mais profunda suspeita de que o rosto humano também fosse uma espécie de máscara. À porta do meu pé de escada, se um mascarado falava comigo, eu de súbito entrava no contato indispensável com o meu mundo interior, que não era feito só de duendes e príncipes encantados, mas de pessoas com o seu mistério. Até meu susto com os mascarados, pois, era essencial para mim.
Não me fantasiavam: no meio das preocupações com minha mãe doente, ninguém em casa tinha cabeça para carnaval de criança. Mas eu pedia a uma de minhas irmãs para enrolar aqueles meus cabelos lisos que me causavam tanto desgosto e tinha então a vaidade de possuir cabelos frisados pelo menos durante três dias por ano. Nesses três dias, ainda, minha irmã acedia ao meu sonho intenso de ser uma moça - eu mal podia esperar pela saída de uma infância vulnerável - e pintava minha boca de batom bem forte, passando também ruge nas minhas faces. Então eu me sentia bonita e feminina, eu escapava da meninice.
Mas houve um carnaval diferente dos outros. Tão milagroso que eu não conseguia acreditar que tanto me fosse dado, eu, que já aprendera a pedir pouco. É que a mãe de uma amiga minha resolvera fantasiar a filha e o nome da fantasia era no figurino Rosa. Para isso comprara folhas e folhas de papel crepom cor-de-rosa, com as quais, suponho, pretendia imitar as pétalas de uma flor. Boquiaberta, eu assistia pouco a pouco à fantasia tomando forma e se criando. Embora de pétalas o papel crepom nem de longe lembrasse, eu pensava seriamente que era uma das fantasias mais belas que jamais vira.
Foi quando aconteceu, por simples acaso, o inesperado: sobrou papel crepom, e muito. E a mãe de minha amiga - talvez atendendo a meu apelo mudo, ao meu mudo desespero de inveja, ou talvez por pura bondade, já que sobrara papel - resolveu fazer para mim também uma fantasia de rosa com o que restara de material. Naquele carnaval, pois, pela primeira vez na vida eu teria o que sempre quisera: ia ser outra que não eu mesma.
Até os preparativos já me deixavam tonta de felicidade. Nunca me sentira tão ocupada: minuciosamente, minha amiga e eu calculávamos tudo, embaixo da fantasia usaríamos combinação, pois se chovesse e a fantasia se derretesse pelo menos estaríamos de algum modo vestidas - à ideia de uma chuva que de repente nos deixasse, nos nossos pudores femininos de oito anos, de combinação na rua, morríamos previamente de vergonha - mas ah! Deus nos ajudaria! não choveria! Quanto ao fato de minha fantasia só existir por causa das sobras de outra, engoli com alguma dor meu orgulho, que sempre fora feroz, e aceitei humilde o que o destino me dava de esmola.
Mas por que exatamente aquele carnaval, o único de fantasia, teve que ser tão melancólico? De manhã cedo no domingo eu já estava de cabelos enrolados para que até de tarde o frisado pegasse bem. Mas os minutos não passavam, de tanta ansiedade. Enfim, enfim! Chegaram três horas da tarde: com cuidado para não rasgar o papel, eu me vesti de rosa.
Muitas coisas que me aconteceram tão piores que estas, eu já perdoei. No entanto essa não posso sequer entender agora: o jogo de dados de um destino é irracional? É impiedoso. Quando eu estava vestida de papel crepom todo armado, ainda com os cabelos enrolados e ainda sem batom e ruge - minha mãe de súbito piorou muito de saúde, um alvoroço repentino se criou em casa e mandaram-me comprar depressa um remédio na farmácia. Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava.
Quando horas depois a atmosfera em casa acalmou-se, minha irmã me penteou e pintou-me. Mas alguma coisa tinha morrido em mim. E, como nas histórias que eu havia lido sobre fadas que encantavam e desencantavam pessoas, eu fora desencantada; não era mais uma rosa, era de novo uma simples menina. Desci até a rua e ali de pé eu não era uma flor, era um palhaço pensativo de lábios encarnados. Na minha fome de sentir êxtase, às vezes começava a ficar alegre mas com remorso lembrava-me do estado grave de minha mãe e de novo eu morria.
Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.
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CLARICE LISPECTOR
Felicidade Clandestina
sábado, 3 de dezembro de 2016
A morte no envelope
A morte no envelope
Rogel Samuel
Bach resumiu sua "poética" na "A Arte da Fuga" (que tem seu nome: si bemol, lá, dó, si). Conhecida um século depois.
Mas A Arte da Fuga ficou incompleta. A última fuga não acaba; continua a rolar, sem fim. Vida breve. Infinita.
A vida é breve. O Brasil não tem tradição de literatura policial. Outros gêneros literários sumiram, também. A nova poesia, os novos contistas, o novo romance. Falta mídia? Não acredito. Faltam editoras? Não faltam leitores. Coelho Neto escreveu 112 livros e 50 peças de teatro. Vida breve. Humberto de Campos recebia inúmeras cartas. Escreveu obra gigantesca, hoje quase desconhecida. "A morte no envelope" de Luiz Lopes Coelho me vem à lembrança.
A literatura não morre no envelope, mas na estante. Coelho Neto e Humberto de Campos escreveram muito, como Camilo, um gênio, que ainda se lê, com prazer. Estilo rápido,
nervoso, elétrico. A grande massa da literatura morre, morreu, ou morrerá. Balzac escrevia por compulsão. Um dos mais bem sucedidos escritores do Brasil, Jorge Amado, produzia um bom livro a cada dois anos. Mas há autores de um livro só, como Manuel Antonio de Almeida.
Assis Brasil continua escrevendo. Mais de cem livros. Vive de literatura, produz romances, ensaios, antologias. É um mestre. A "Tragédia burguesa", de Otavio de Faria, tem quinze grossos volumes. Elogiada por Mestre Alceu, hoje desapareceu. Ele era excelente crítico de cinema. Aliás, adorava cinema. Dizem que ele saía de uma sala de cinema e entrava noutra. Tobias Barreto, dono de respeitável obra, não mais se lê.
Escreveu obras filosóficas importantes. Onde estão seus livros? Vida breve. Bach resumiu a "poética" de sua música na "A Arte da Fuga" (que contém o seu nome: si bemol, lá, dó, si). Conhecida um século depois.
Mas a Arte da Fuga ficou incompleta. A última fuga era a morte.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2016
Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos me ouviria?
RAINER MARIA RILKE
RAINER MARIA RILKE
(Trad. de João Accioli)
PRIMEIRA ELEGIA
Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgastar-nos a face — a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos — talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.
Sim, as primaveras precisam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janemla aberta,
uma viola d'amore se abandonava. Tudo isso era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, aà espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imoral sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas — estas abandonadas
que te parecem tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser — nasciemnto supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objetivo amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.
Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoes, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa...
O que pede essa voz? a ansiada libertação
da aparência de injustiça que as vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.
É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo o quanto se encandeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. — Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.
Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentas Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações — que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2016
COGUMELOS NOS JARDINS DA VIDA
COGUMELOS NOS JARDINS
DA VIDA
CLARISSE DE OLIVEIRA
A umidade provoca
fungos nos troncos mortos das árvores. É o que o habitante da cidade, em seus
jardins, conhece como "orelha-de-pau". Os elementais têm atração por
esses fungos, e também pelos Cogumelos.
Nada mais atrativo do que um gnomo sob um Cogumelo, numa pequena loja da
Europa, seja em madeira ou em porcelana. A alma do Gnomo se manifesta também
como um Velho, aparecendo com seus olhos azuis e longa barba branca. O crepitar
da lareira no Inverno ou as manchas de Sol no chão dos bosques, que surgem
através das copas das árvores, nas Estações mais quentes, tornam ativas as
Almas dos Elementais. Os elementais não são alegres nem tristes: - suas almas
se modificam de acordo com os transtornos da humanidade - no entanto, eles têm
uma espécie de poesia que é o resíduo do amor entre os humanos, fungos do
Espírito, podridão das caricias que perdem o latejar do aquecimento da
Salamandra eterna, enquanto a Sensualidade empalidece com a morte da carne dos
humanos.
Uma espécie de iniciação se processa
entre os princípios funcionais ativos, os "neterw", esses poderes que
não são deuses, mas, segundo os egípcios, "entidades divinas" ou
atributos divinos, que podem ser os ornamentos de muitos aspectos da Vida, - aqueles
que não formam Destinos... e são livres até desejarem a fatalidade da
atração humana e mergulharem no
Estupor de "Onde foi que eu errei?"
A cegueira desse Estado em que
estamos tão perto da Realidade da Revelação, a ponto de a podermos tocar com os
dedos, e no entanto não nos julgamos cegos e por isso nos perguntamos:
- É preciso ver?
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COGUMELOS NOS JARDINS DA VIDA
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA
A LUZ IRROMPE ONDE NENHUM SOL BRILHA
DYLAN THOMAS
A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.
Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.
A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.
A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.
A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.
( tradução: Fernando Guimarães)
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terça-feira, 29 de novembro de 2016
COMO FOI
(foto de R. SAMUEL)
COMO FOI
Rogel Samuel
Eu o conheci em Katmandhu, Nepal, no dia 2 de Janeiro de 1994.
Não esqueci a data, que é meu aniversário. Eu tinha chegado do Brasil para encontrar o Lama Lobsang Tenpa, que tinha estado conosco por dois anos e meio. Lobsang Tenpa morava no mosteiro de Kopan, nas montanhas.
Minha viagem tinha sido um inferno. Era a primeira vez que eu ia ao Oriente. Trazia três pesadas malas: a minha, a outra, cheia de oferecimentos para os Lamas (tinha até quilos de pedras coloridas) e a terceira, dos livros do lama tibetano, que era a mais pesada. Saí do Rio e cheguei em Amsterdan no dia do natal.
Uma confusão no aeroporto, pois era de noite, eu queria colocar as malas num porta-malas para não levá-las para o hotel. Triste idéia, pois o aeroporto é uma cidade, levei uma hora para descobrir onde era e arranjar as moedas pra poder abrir o armário. Cometi outro erro: meu sobretudo ficou ali. Quando cheguei do lado de fora a temperatura estava
vários graus abaixo de zero.
No dia seguinte fui taxado com uma grande multa de excesso de bagagem e viajei para New Delhi. Ali novos problemas: atravessei a "fronteira" do Aeroporto, pois tinha visto da Índia, e a polícia não me deixou voltar, já que meu vôo para Katmandhu era no dia seguinte. Acontece que eu pretendia ficar no Aeroporto, pois tinha pouco tempo para um hotel e o
tráfego ali é terrível. Vi-me na rua, cercado de mendigos que pediam e de meninos que puxavam minhas malas e roupas, oferecendo-se para carregá-las (ou talvez sair correndo com elas, um para cada lado).
Enfim descobri um canto no Aeroporto onde ficar. Tinha mendigos ali também. Trauma de quem mora no Rio (pois a Índia é muito mais segura).
Outro problema: como ir ao banheiro, abandonando as malas? Não havia carrinho. Enfim descobri duas jovens americanas com quem deixei as malas. O Aeroporto de Nova Delhi melhorou muito, depois.
A chegada em Katmandhu foi outra odisséia. Mas não conto.
Naquele mesmo dia falei do meu hotel com o Lama Lobsang Tenpa pelo telefone, tomei um táxi e fui levar seus livros pela pior estrada que vi. Fiquei ali umas horas, o táxi esperando (era barato), e no dia seguinte mudei-me para o mosteiro de Kopan.
Ali quase morri de frio. Muito abaixo de zero era a cabana onde me alojaram, sem calefação. Uma noite acendi todas as velas que pude, perto de mim. Mas algo me dizia que não era aquilo. Tive sonhos estranhos. Eu tinha de sair dali.
Um dia o Geshe (Lama) disse para mim: vá, veja os lugares importantes lá fora. O abade me perguntou: "Você pensa em ficar aqui?" Enfim, eu era gentilmente expulso do primeiro mosteiro budista onde pretendia permanecer em retiro.
Assim, no dia 2 de janeiro, abandonando minhas complicadas malas (se você for ao Oriente não leve nada, apenas uma bolsinha ou mochila), desci a montanha num caminhão cheios de monginhos que iam a um pic-nic e faziam grande algazarra. Desci em Boudanath, perto da grande estupa de Gerukansor. Aluguei um quarto no famoso Lotus Guest House. Entrei numa loja, disposto a bisbilhotar. Era uma loja de artigos de Dharma: estátuas de Bhuddhas etc. Ali conheci o dono, que ficou meu amigo e que sempre reencontro quando volto lá. Ele me disse: "You must see the King of Sakyas!". ("Você tem de ver o Rei dos Sakyas!").
Eu não tinha a menor idéia de quem era aquele "Rei". Já que por ali há vários Reis, pensei tratar-se de um deles. Subi a rua indicada pelo meu amigo. No mosteiro Tharlan, mil monges estavam do lado de fora, ao redor.
Era um espetáculo muito bonito de ver. A Gompa estava fechada, mas às vezes a grande porta se entreabria e os monges se prosternavam, em reverência. Eu sentia que lá dentro estava alguém da máxima importância.
Eu comecei a tirar fotos. Sempre gostei. Já ganhei até um prêmio nacional de fotografia. Já tive laboratório em casa. Comecei a clicar, pra todos os lados. Havia uma portinha lateral aberta. Me deu uma curiosidade de ver lá dentro. Entrei devagar. Parei. Ninguém me dizia nada. Atravessei e... eis que me vejo dentro do grande mosteiro vazio e no seu centro, sentado em meditação, na minha frente, Sua Santidade
Sakya Trizin que se estava preparando para conceder a primeira iniciação da "Coleção de todas as sadhanas" (Dun Tab Kun Tub).
Foi um choque. Fiquei estarrecido, imóvel. Olhou para mim, e me cumprimentou, com a cabeça. Naquele momento eu soube que aquele era o meu mestre, em pessoa.
Fiquei dois meses ali, com ele, de manhã à noite, recebendo a Coleção das sadhanas, que estava começando.
Foi assim.
COMO FOI
Rogel Samuel
Eu o conheci em Katmandhu, Nepal, no dia 2 de Janeiro de 1994.
Não esqueci a data, que é meu aniversário. Eu tinha chegado do Brasil para encontrar o Lama Lobsang Tenpa, que tinha estado conosco por dois anos e meio. Lobsang Tenpa morava no mosteiro de Kopan, nas montanhas.
Minha viagem tinha sido um inferno. Era a primeira vez que eu ia ao Oriente. Trazia três pesadas malas: a minha, a outra, cheia de oferecimentos para os Lamas (tinha até quilos de pedras coloridas) e a terceira, dos livros do lama tibetano, que era a mais pesada. Saí do Rio e cheguei em Amsterdan no dia do natal.
Uma confusão no aeroporto, pois era de noite, eu queria colocar as malas num porta-malas para não levá-las para o hotel. Triste idéia, pois o aeroporto é uma cidade, levei uma hora para descobrir onde era e arranjar as moedas pra poder abrir o armário. Cometi outro erro: meu sobretudo ficou ali. Quando cheguei do lado de fora a temperatura estava
vários graus abaixo de zero.
No dia seguinte fui taxado com uma grande multa de excesso de bagagem e viajei para New Delhi. Ali novos problemas: atravessei a "fronteira" do Aeroporto, pois tinha visto da Índia, e a polícia não me deixou voltar, já que meu vôo para Katmandhu era no dia seguinte. Acontece que eu pretendia ficar no Aeroporto, pois tinha pouco tempo para um hotel e o
tráfego ali é terrível. Vi-me na rua, cercado de mendigos que pediam e de meninos que puxavam minhas malas e roupas, oferecendo-se para carregá-las (ou talvez sair correndo com elas, um para cada lado).
Enfim descobri um canto no Aeroporto onde ficar. Tinha mendigos ali também. Trauma de quem mora no Rio (pois a Índia é muito mais segura).
Outro problema: como ir ao banheiro, abandonando as malas? Não havia carrinho. Enfim descobri duas jovens americanas com quem deixei as malas. O Aeroporto de Nova Delhi melhorou muito, depois.
A chegada em Katmandhu foi outra odisséia. Mas não conto.
Naquele mesmo dia falei do meu hotel com o Lama Lobsang Tenpa pelo telefone, tomei um táxi e fui levar seus livros pela pior estrada que vi. Fiquei ali umas horas, o táxi esperando (era barato), e no dia seguinte mudei-me para o mosteiro de Kopan.
Ali quase morri de frio. Muito abaixo de zero era a cabana onde me alojaram, sem calefação. Uma noite acendi todas as velas que pude, perto de mim. Mas algo me dizia que não era aquilo. Tive sonhos estranhos. Eu tinha de sair dali.
Um dia o Geshe (Lama) disse para mim: vá, veja os lugares importantes lá fora. O abade me perguntou: "Você pensa em ficar aqui?" Enfim, eu era gentilmente expulso do primeiro mosteiro budista onde pretendia permanecer em retiro.
Assim, no dia 2 de janeiro, abandonando minhas complicadas malas (se você for ao Oriente não leve nada, apenas uma bolsinha ou mochila), desci a montanha num caminhão cheios de monginhos que iam a um pic-nic e faziam grande algazarra. Desci em Boudanath, perto da grande estupa de Gerukansor. Aluguei um quarto no famoso Lotus Guest House. Entrei numa loja, disposto a bisbilhotar. Era uma loja de artigos de Dharma: estátuas de Bhuddhas etc. Ali conheci o dono, que ficou meu amigo e que sempre reencontro quando volto lá. Ele me disse: "You must see the King of Sakyas!". ("Você tem de ver o Rei dos Sakyas!").
Eu não tinha a menor idéia de quem era aquele "Rei". Já que por ali há vários Reis, pensei tratar-se de um deles. Subi a rua indicada pelo meu amigo. No mosteiro Tharlan, mil monges estavam do lado de fora, ao redor.
Era um espetáculo muito bonito de ver. A Gompa estava fechada, mas às vezes a grande porta se entreabria e os monges se prosternavam, em reverência. Eu sentia que lá dentro estava alguém da máxima importância.
Eu comecei a tirar fotos. Sempre gostei. Já ganhei até um prêmio nacional de fotografia. Já tive laboratório em casa. Comecei a clicar, pra todos os lados. Havia uma portinha lateral aberta. Me deu uma curiosidade de ver lá dentro. Entrei devagar. Parei. Ninguém me dizia nada. Atravessei e... eis que me vejo dentro do grande mosteiro vazio e no seu centro, sentado em meditação, na minha frente, Sua Santidade
Sakya Trizin que se estava preparando para conceder a primeira iniciação da "Coleção de todas as sadhanas" (Dun Tab Kun Tub).
Foi um choque. Fiquei estarrecido, imóvel. Olhou para mim, e me cumprimentou, com a cabeça. Naquele momento eu soube que aquele era o meu mestre, em pessoa.
Fiquei dois meses ali, com ele, de manhã à noite, recebendo a Coleção das sadhanas, que estava começando.
Foi assim.
VIGIAR E PUNIR
(LIVRO ESSENCIAL PARA COMPREENDER O QUE SE PASSA NO BRASIL)
"O poder sobre o corpo, por outro lado, tampouco deixou de existir totalmente até meados do século XIX. Sem
dúvida, a pena não mais se centralizava no suplício como técnica de sofrimento; tomou como objeto a perda de um bem
ou de um direito. Porém castigos como trabalhos forçados ou prisão - privação pura e simples da liberdade - nunca
funcionaram sem certos complementos punitivos referentes ao corpo: redução alimentar, privação sexual, expiação física,
masmorra. Conseqüências não tencionadas mas inevitáveis da própria prisão? Na realidade, a prisão, nos seus dispositivos
mais explícitos, sempre aplicou certas medidas de sofrimento físico. A crítica ao sistema penitenciário, na primeira
metade do século XIX (a prisão não é bastante punitiva: em suma, os detentos têm menos fome, menos frio e privações
que muitos pobres ou operários), indica um postulado que jamais foi efetivamente levantado: é justo que o condenado
sofra mais que os outros homens? A pena se dissocia totalmente de um complemento de dor física. Que seria então um
castigo incorporai?"
"Permanece, por conseguinte, um fundo "supliciante" nos modernos mecanismos da justiça criminal - fundo que não está inteiramente sob controle, mas envolvido, cada vez mais amplamente, por uma penalidade do incorporal.
......................
Essa dupla ambigüidade da confissão (elemento de prova e contrapartida da informação; efeito de coação e
transação semivoluntária) explica os dois grandes meios que o direito criminal clássico utiliza para obtê-la: o juramento
que se pede ao acusado antes do interrogatório (ameaça por conseguinte de ser perjuro diante da justiça dos homens e
diante da de Deus; e ao mesmo tempo, ato ritual de compromisso); a tortura (violência física para arrancar uma verdade
que, de qualquer maneira, para valer como prova, tem que ser em seguida repetida, diante dos juizes, a título de confissão
"espontânea"). No fim do século XVIII, a tortura será denunciada como resto das barbáries de uma outra época: marca de
uma selvageria denunciada como "gótica". É verdade que a prática da tortura remonta à Inquisição, é claro, e mais longe
ainda do que os suplícios dos escravos. Mas ela não figura no direito clássico como sua característica ou mancha. Ela tem
seu lugar estrito num mecanismo penal complexo em que o processo de tipo inquisitorial tem um lastro de elementos do sistema acusatório; em que a
demonstração escrita precisa de um correlato oral; em que as técnicas da prova administrada pêlos magistrados se
misturam com os procedimentos de provas que eram desafios ao acusado; em que lhe é pedido - se necessário pela coação
mais violenta- que desempenhe no processo o papel do parceiro voluntário; em que se trata em suma de produzir a
verdade por um mecanismo de dois elementos - o do inquérito conduzido em segredo pela autoridade judiciária e o do ato
realizado ritualmente pelo acusado. O corpo do acusado, corpo que fala e, se necessário, sofre, serve de engrenagem aos
dois mecanismos; é por isso que, enquanto o sistema punitivo clássico não for totalmente reconsiderado, haverá muito
poucas críticas radicais da tortura.(15) Com muito mais freqüência, simples conselhos de prudência:
O interrogatório é um meio perigoso de chegar ao conhecimento da verdade..." (FOUCAULT. VIGIAR E PUNIR)
segunda-feira, 28 de novembro de 2016
A floresta do fim do mundo
A floresta do fim do mundo
A floresta do fim do mundo
Neuza Machado
Eis aí o espaço da ficção traduzido como a barca de Caronte a carregar o “coração triste” de quem narra, juntamente com os “mortos” de sua história extra-sensorial. Mas não é simplesmente uma “água melancolizante”, como a de Edgar Alan Poe, que preside a obra assinalada; é antes de tudo a atormentada água do sofrimento do povo primitivo do Amazonas, aquela que marcou a gênese de sua própria realidade sócio-espiritual (do povo primitivo, bem entendido). O narrador pós-moderno, em sua ativada solidão citadina, intelectualizada e contemplativa, socialmente distanciado do viver primitivo, meditou os “rios de sangue” que compuseram a realidade histórica do Amazonas. E, pela meditação, eis aí/aqui a mitológica barca de Caronte navegando insolitamente e ficcionalmente em direção a um espaço ensoberbecido - o Manixi - e ao seu rio da morte, o Igarapé do Inferno.
“A morte está nela”, na barca de Caronte. “A água leva para bem longe, a água passa como os dias”, diz Gaston Bachelard. A água mítica de Ribamar (do ribeiro ao Oceano), o primeiro personagem-narrador, para se livrar definitivamente de sua histórica dor - “matar” a dor que o consumia -, obrigou-se a ir ao fim do mundo, daquele mundo mítico onde se localizava o Igarapé do Inferno. Eis aqui o verdadeiro embate, embate infernal, para enterrar os mortos dignamente, fossem eles índios ou brancos ou mestiços, enterrar para sempre um passado histórico desvalorizado. Oh, “terra sem história”, como disse Euclides da Cunha. Mas, Euclides da Cunha não conheceu a dor de quem mergulhou a própria “taça de prata dourada na fonte que borbulhava” e viu “ela se encher de lágrimas”, se encher de “sangue”. “Quando o coração está triste, toda a água do mundo se transforma em lágrimas”, disse Gaston Bachelard. A narrativa ficcional pós-moderna, entrópica, é demonstrativa da tristeza que assolava o narrador do final do século XX, século de guerras e mortes inglórias, mas levando seus “mortos” em uma “barquinha de nada”, à moda daquele “filho” roseano, de “A terceira margem do rio”, que carregou, durante toda a sua existência, o seu velho pai/Sertão no coração.
In: O fogo da labareda da serpente (Sobre O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel)
sábado, 26 de novembro de 2016
Jorge Luis Borges - O Punhal

O Punhal
Jorge Luis Borges
A Margarita Bunge
Numa gaveta há um punhal.
Foi forjado em Toledo, em fins do século passado; Luis Melián Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; Evaristo Carriego teve-o uma vez na mão.
Os que o vêem têm de brincar um pouco com ele; percebe-se que há muito o buscavam; a mão se apressa em apertar o punho que a espera; a lâmina obediente e poderosa folga com precisão na bainha.
O punhal outra coisa quer.
É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno, o punhal que na noite passada matou um homem em Tacuarembó, e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.
Numa gaveta da secretária, entre borradores e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o dirige porque o metal se anima, o metal que em cada contato pressente o homicida para quem os homens o criaram.
Às vezes, dá-me pena. Tanta dureza, tanta fé, tanta impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.
(Borges, Jorge Luís, Nova antologia pessoal, São Paulo: Difel. 1986)
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Jorge Luis Borges - O Punhal
CIDADES
Cidades - Rogel Samuel
Desta janela vejo a torre da capela, entre as árvores, no sopé da montanha. As magnólias reverdecem. O resto é floresta. Que será aquela igrejinha no meio das árvores da floresta ? Uma grande torre de nuvens se ergue no céu, parecendo mais alta do que as mais altas montanhas. Um aeroplano cruza o espaço. Em Katmandhu, quando o céu está limpo e claro, se podem ver as brancas e grandes geleiras dos Himalaias, ao longe, como uma dentadura de reluzente cristal. Eu quero muito voltar para lá, rever Boudanath e Thamel. Há cidades incorporadas na nossa substância mental : Manaus, Sydney, Katmandhu. E esta Poços de Caldas. As cidades são nossas personalidades edificadas em pavimentos e ares. Um dia, um amigo disse, em Manaus : « Amanhã o R. vai-se sentir em casa » porque eu voltava para Rio. Mas eu não consigo ver o Rio dentro de mim, senão quando estou muito longe. Aí me ocorrem imagens, lembranças, músicas. Marchas de carnaval. A estupa de Jerukhanshor, em Boudanath ; o Teatro Amazonas, em Manaus; a casa do Chris, em Portland; a UBC, em Vancouver. Onde eu realmente gostaria de estar? Não sei, não tenho raízes profundas. Um dia Lothar, em Frankfurt, me disse que ele era cidadão das cidades. Ele era da Mendelshonstrasse, onde morava. Em Manaus, morei na rua Sete de Setembro. Pelas janelas dos fundos se via o Rio Negro. Havia um gavião que morava num buraco perto do telhado da edificação de uma velha fábrica. Todas as tardes, ao por do sol, eu ia de binóculo vê-lo. Parecia uma águia romana, desafiando o espaço, de asas abertas. Aquela fábrica datava da época da borracha. Ficava nos fundos do cinema que havia nas margens do igarapé, creio que Cine Éden, ex-Alcasar, hoje igreja evangélica. As ruas guardam também muito sofrimento, camadas de lembranças acumuladas e mortes. Como os trechos escuros de Paris. Qual a cidade mais alegre ? Depende de cada um, de suas lembranças. E das magnólias.
(FOTO DE R. SAMUEL)
Desta janela vejo a torre da capela, entre as árvores, no sopé da montanha. As magnólias reverdecem. O resto é floresta. Que será aquela igrejinha no meio das árvores da floresta ? Uma grande torre de nuvens se ergue no céu, parecendo mais alta do que as mais altas montanhas. Um aeroplano cruza o espaço. Em Katmandhu, quando o céu está limpo e claro, se podem ver as brancas e grandes geleiras dos Himalaias, ao longe, como uma dentadura de reluzente cristal. Eu quero muito voltar para lá, rever Boudanath e Thamel. Há cidades incorporadas na nossa substância mental : Manaus, Sydney, Katmandhu. E esta Poços de Caldas. As cidades são nossas personalidades edificadas em pavimentos e ares. Um dia, um amigo disse, em Manaus : « Amanhã o R. vai-se sentir em casa » porque eu voltava para Rio. Mas eu não consigo ver o Rio dentro de mim, senão quando estou muito longe. Aí me ocorrem imagens, lembranças, músicas. Marchas de carnaval. A estupa de Jerukhanshor, em Boudanath ; o Teatro Amazonas, em Manaus; a casa do Chris, em Portland; a UBC, em Vancouver. Onde eu realmente gostaria de estar? Não sei, não tenho raízes profundas. Um dia Lothar, em Frankfurt, me disse que ele era cidadão das cidades. Ele era da Mendelshonstrasse, onde morava. Em Manaus, morei na rua Sete de Setembro. Pelas janelas dos fundos se via o Rio Negro. Havia um gavião que morava num buraco perto do telhado da edificação de uma velha fábrica. Todas as tardes, ao por do sol, eu ia de binóculo vê-lo. Parecia uma águia romana, desafiando o espaço, de asas abertas. Aquela fábrica datava da época da borracha. Ficava nos fundos do cinema que havia nas margens do igarapé, creio que Cine Éden, ex-Alcasar, hoje igreja evangélica. As ruas guardam também muito sofrimento, camadas de lembranças acumuladas e mortes. Como os trechos escuros de Paris. Qual a cidade mais alegre ? Depende de cada um, de suas lembranças. E das magnólias.
(FOTO DE R. SAMUEL)
AS ONDAS DO TEMPO DESTE FIM DE ANO
AS ONDAS DO TEMPO DESTE FIM DE ANO
AS ONDAS DO TEMPO DESTE FIM DE ANO
Rogel Samuel
Que a última estrofe de «O cemitério marinho» de Paul Valéry assim canta:
«Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! »
Uso a extraordinária tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
O poema enorme, difícil.
Desde que o li, pela primeira vez, há mais de quarenta anos, tento penetrar no mar de seu sentido. Às vezes, parece entender-se. Outras vezes, inatravessável é o seu mar. Mas sempre o sinto, o que importa. O que importa é sentir um poema. Não «interpretá-lo». Os intelectuais matam o poema, intelectualizam-no. Por isso Barthes foi tão bom crítico. Barthes fazia o texto falar, deixava-o falar-se.
«Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses! »
Seja como for, Valéry nos abre à imaginação o grande oceano da morte. Mas «recomeçando sempre». Sempre, «sobre a calma dos deuses».
Sei que não é algo para ser lido no Ano Novo, mas que tema mais religioso do que a morte neste túmulo do oceano de «tanto diamante de indistinta espuma », onde «quanta paz parece conceber-se!».
«Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria. »
O poema tem ímpetos de infinito, abre-se para a eternidade, «massa de calma e nítida reserva»:
«Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!»
Valery disse que seu poema é sua «poesia verdadeira», mesmo as passagens mais abstratas. Disse que via ali uma espécie de «lirismo» , algo «abstrato mas de uma abstração motriz mais que filosófica».
Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.
Diz da vida, do amor, da ordem e desordem da vida e do amor, do mar e do sol, das colinas das ondas, da chave do mistério do «mar de nossa conversa», como dizia Cabral:
Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.
É uma reflexão sobre o tempo:
Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.
É uma reflexão sobre os movimentos das ondas da vida:
A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.
O poema foi publicado no número de junho de «La Nouvelle Revue française», mas ele deve ter trababalhado no poema desde muito tempo.
Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.
Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.
Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas!
É esta tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia que me ocorre das ondas do tempo neste Novo Ano.
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