Mostrando postagens com marcador A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito). Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito). Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de julho de 2017

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)


A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)

2.

Não sei há quantos anos moro neste casebre.  Chovia dentro, mas Jara o reforçou. Uma árvore a cobre, com numa rede de ramagem ampla. À noite, entretanto, sinto-me ameaçado. Os animais noturnos nos espiam. O cântico da mãe da lua aterroriza. O urutau canta três oitavas lamentosas. Mas eu consigo dormir, na minha rede bem alta. O silêncio é pesado, amplo, negro, enorme. As estrelas, vivas. Felizmente não há mosquitos nesse rio. Mas um frio intenso vem de dentro do calor da noite. Ventos sinistros do alto dos Andes. O vento vem sobre o leito do rio, sob as estrelas, como uma coisa palpável, branca.

Esta noite experimentamos novamente a sinistra presença noturna daquela pantera negra.  Dormimos como sobre as assombrosas minas do Eldorado. Ouço gritos, gemidos finos, assobios. Miracã-uera cemitério. Sinto que moro em cima de um cemitério. Mas o Eldorado nos assusta, nos ilude, no escuro, no miúdo. Por aqui, a floresta aparece como um grande mapa. Nunca ninguém, nunca nenhum ser humano, nenhum civilizado pisou aqui nesses solos encharcados.
Jara não fala, é uma companhia de nada, silenciosa. Não sei de onde veio, não quem é. Às vezes, temo que ela pode matar-me, enquanto durmo. Às vezes fazemos amor. Ela compreende o meu estado, a minha depressão. Ela então acende uma espécie de cachimbo de ipadu, uma espécie de coca. E sopra na minha face. Me obriga a mascar, pondo na minha boca algumas folhas amargas, misturadas com a cinza de seu cachimbo. São cinzas da palmeira motaçu, acrescidas de um cipó amargo, chamado Tchamaru. Essa mistura me revigora, eu sinto uma embriaguez deleitosa, uma súbita euforia, e às vezes adormeço em seus braços.
- Ipadu! Ipadu! – diz ela. Ipadu, motaçu, Tchamaru!
E eu me reconheço, me recupero.
Mas ela é uma desconhecida. Mas eu a amo. Como aqui não há mais ninguém, nenhuma censura, eu a amo de todos os modos. Ela canta a sua canção selvagem. Canção de guerra, de morte. Ela pressente o perigo. O incompreensível perigo.


segunda-feira, 3 de julho de 2017

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)

A PANTERA - ROGEL SAMUEL (reescrito)
1.
Eu não sei há quanto tempo já que estou aqui. Perdi a consciência da vida e espaço, na letargia de espera, felicidade calma, apática tristeza. Nem sei mesmo onde estou, entre essas imensas árvores, onde os verdes pássaros gritam, os silvestres silvam.
Em frente, o lago verde se abre, largo, sinistro, sem nome. Minha companheira pesca, imóvel, como uma estátua nua, lança parada, ar parado, silêncio morno, calor úmido, mormaço da tarde.
Talvez eu já esteja louco, isolado aqui há muitos anos.
Talvez não.
O mundo desapareceu, mudou-se, fechou-se. O tempo morto, lembranças mortas, espaço morto, verde incompreensível.
Por que de nada me lembro? Por que de nada me não quero lembrar? A espera do porvir, a  guerra final.

Nesse momento o som de arco perfura, sei que quando ela atira não erra. 
Jara é jovem. Bela. Ombros largos, pernas longas, barriga torneada, sexo exposto.
Está comigo há tempo. Silenciosa, atenta, misteriosa, meiga. Perigosa. Protetora, amante. Ou inimiga, não sei. Os seus chefes permitiram que ela ficasse aqui comigo, não sei por quê. Acho que ela pediu. Apareceu, ficou. Vieram guerreiros, dias depois, buscá-la. Ela não foi, gostou de mim, fizemos sexo, selvagem, louco.  Eles desapareceram. Não olharam para mim.

Agora Jara é uma sentinela, está aqui para me alertar sobre aproximação do exército inimigo. Será mesmo que virão os inimigos? Talvez Jara esteja planejando matar-me. Talvez eu seja o inimigo. Mas minha letargia não agressiva, minha apatia, minha indiferença fez Jara permanecer em paz.