Mostrando postagens com marcador A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE. Mostrar todas as postagens

sábado, 21 de agosto de 2010

A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE


A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE


Rogel Samuel

SAMUEL, Rogel. A Reconstrução da Subjetividade no Grande Sertão. RIo de Janeiro, Faculdade de Letras da UFRJ, 1983. Tese de Doutoramento.



A partir do séc. XX a arte se encontra com a reificação do homem, transformado em objeto social, na massa, imanente ao todo.
As sociedades modernas são sociedades de massa e estamos nelas como a água dentro da água, para usar a metáfora de Bataille. O homem do capitalismo de massa e imanente ao todo. Se sair desta imanência, morre.
Na massa a individuação não é nem coisa nem homem. Fica no meio do caminho que vai daquela para este. Pois as coisas estão no nível da terra, do planetário, sem um sentido dinâmico que lhes dê vida. As coisas mesmas, em si mesmas, são o não-sentido, se nos a imaginamos sem uma consciência que as pense, que transforme as coisas em objetos do pensamento. A coisa, como tal, não é ainda objeto (do sujeito), não é ainda objeto do conhecimento, pois o objeto passa a existir de um sujeito que o pensa. O vazio das coisas e o terror que se limita a ver o horizonte vazio e oco, espécie de lugar sem alma, lugar da morte, paisagem lunar.
Na medida em que nós possamos ver o homem também uma coisa, seu absurdo não e menor do que o das pedras, mas ele não é sempre redutível à realidade inferior que nos atribuímos às coisas. Pois o problema que se avista na reificação é a incomunicabilidade, o absurdo de viver no mundo despovoado de sentido, de não participar da história, de não compreender o todo, de ignorar as causas das decis6es dos acontecimentos. O homem moderno se encontra num limite narcótico. O afastamento da natureza, onde era exigido o exercício pleno dos sentidos, o artificialismo da vida tecnológica, uma espécie de inteligência sem alma. Nosso mundo e o mundo eletrônico dos microcomputadores, porta-vozes de uma felicidade sem alma, anestésica, onde tudo funciona bem, sem erro, sem nervo. O homem, hoje, parece ter sido transformado em objeto da ciência, imanente ao todo.
O mundo da modernidade é o da imanência e do imediatismo.
O mundo não estaria na medida em que se pode transcendê-lo. A transcendência pertence à categoria humana, da consciência em relação às coisas. A vacuidade do olhar que vê o vídeo, revela a imanência existencial do homem não mais exercendo o seu poder de transcendência.
Objeto é o emprego que a tecnologia moderna faz das coisas tornadas úteis, práticas, aperfeiçoadas, interrompendo-se a continuidade harmoniosa e natural em que se encontravam. O olhar que vê o objeto não e o mesmo olhar que vê a coisa dada na natureza, assim como o olhar que vê o vídeo não é igual ao olhar que olha uma flor. Olhar uma flor e a redenção deste olhar capaz de transcendência. O vídeo fez o olhar desaprender, o olhar não mais sabe decodificar a flor. A flor que é flor, agora, só é e a que vem pronta, não a flor da margem da estrada. O olhar já não pára na margem da estrada, para a contemplação da flor. Pois a contemplação pertence a um passado, algo remoto e histórico. A contemplação não é possível na técnica que traduz tudo, no fato matematizado. A técnica revela o esquecimento do olhar.
A técnica prepara o homem para aceitar esta imanência, que submete o sujeito ao jugo do objeto. Ensina-o a ser “feliz”. O homem do Estado científico se submete sem protesto ao mundo dos objetos sem experimentar um horror a reificação.

domingo, 15 de agosto de 2010

A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE, 2


A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE, 2

Rogel Samuel

SAMUEL, Rogel. A Reconstrução da Subjetividade no Grande Sertão. RIo de Janeiro, Faculdade de Letras da UFRJ, 1983. Tese de Doutoramento.

Vimos que, na sociedade moderna, há furos, enclausuramentos, veredas em que só se é livre com o reconhecimento do outro, que o sertão só é grande quando absorve a vereda. E que à opulência desenvolvimentista da objetividade se opunham as diferenças, as margens, os pedaços, os detritos, os banidos, o que não e o centro. E que a obra dá um salto qualitativo nesta contradição.
Cada vez mais fomos percebendo que as formas da objetividade estavam a serviço da violência e da dominação. E que se poderia considerar a obra de arte como instrumento de dissolução da violência, abrindo perspectivas livres e recompostas, neste lugar de superação que e o discurso, como espaço utópico.
O texto se divide em três seções: As formas de objetividade, o reconhecimento crítico do impasse e a recuperação da subjetividade. Essa recuperação é confluente, não exclui a objetividade, não faz com a objetividade o que esta fez com ela, embora parta de um primeiro movimento de negação.
As questões secundárias decorrentes da questão central (a reconstrução da subjetividade) são:
a) Verificar qual o espaço e o papel da literatura no mundo da moderna sociedade tecnológica de organização visando a um fim (aqui chamado mundo moderno);
b) Provar que o personagem de Grande Sertão: veredas, Diadorim, e a síntese de um problema dialético, produto das contradições sociais, ao mesmo tempo alegórica vítima das possibilidades de emancipação e de libertação do totalitarismo da ordem tecnológica estabelecida na sociedade;
c) Para isto, estabelecermos uma teoria da dominação e da violência na modernidade;
d) Ver a relação dialética da arte com a dominação social;
e) Chegar à dialética do sertão (à lógica do sertão) que em Grande Sertão: veredas, como resposta ao totalitarismo das certezas tecnocientíficas, em que o indivíduo desaparece em favor da produtividade do todo;
f) Descobrir as relações da violência e da dominação da sociedade moderna com Grande Sertão: veredas, sua atualidade, seu engajamento.

Certamente, essas questões se davam no final dos anos 70.



sábado, 14 de agosto de 2010

A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE, 1





A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE, 1


Rogel Samuel



A medida que prosseguíamos a pesquisa de que resultou este trabalho íamos percebendo que a subjetividade se reconstruía no texto literário no sentido primeiro de uma resistência à objetividade da razão, depois como reconstituição da subjetividade perdida (do tipo reivindicatório dos direitos da paixão), para sofrer a seguir um reencontro com o sujeito esquecido pela sociedade industrial. No fim, entretanto, percebemos claramente que desse reencontro passava-se para uma reconstrução da subjetividade, considerando-se que a obra de arte supera essa dualidade de sujeito e objeto.
Essa reconstrução superativa desestabiliza a própria noção de subjetividade, e dá à condição subjetiva uma “dialética do fantástico”, isto é, aspirando a sair das grades objetivas, porque constrói um mundo autônomo e verossímil para tematizar a realidade(a sociedade), e recusando-se a ficar no “alienado” mundo subjetivo, a arte instaura uma sobredeterminação que não é mais nem sujeito nem objeto, mas é ela mesma como crítica da possibilidade de abrir espaço. A norma objetiva não foi recusada aí, do que resultaria uma visão aleatória de um mundo inexistente. E as emoções do sujeito não foram controladas pela racionalização visando a um fim. Nenhuma dessas duas margens do rio foi deixada a descoberto. A terceira margem, porém, passara a constituir-se como forma, como possibilidade de emancipação.
Portanto, a metáfora “terceira margem do rio” nos possibilitou mais uma vez compreender “literariamente” o que se passava na obra de arte, especificamente com Grande Sertão: veredas.
De Grande Sertão: veredas vimos o homem (ali Diadorim) e o mundo (ali o sertão). Como compreender esse homem e esse mundo sertanejo sob a ótica do mundo internacional atual, Ocidental, o mundo do capitalismo monopolista, estatal, científico, intervencionista, nesse complexo industrial-militar de que não participa o terceiromundista sertão? No fundo, vê-se que interpretando o papel do sertão no mundo moderno estaríamos iluminando certas zonas obscuras do papel do Terceiro Mundo. Pois literatura é problematização da ideologia tecnocientífica dominante.
Poderíamos dizer que vimos Grande Sertão: veredas sob a ótica da Escola de Frankfurt, e por isso conseguimos localizar neste romance a reconstrução superativa da subjetividade do estado de massa e da objetividade instrumentalista do capitalismo de prestação de serviços, no meio de sua crise inflacionária. Esta tese sofreu o impacto de fatos históricos da atualidade, embora a diversidade de Diadorim não seria um mero papel social.

SAMUEL, Rogel. A Reconstrução da Subjetividade no Grande Sertão. RIo de Janeiro, Faculdade de Letras da UFRJ, 1983. Tese de Doutoramento.