sábado, 19 de agosto de 2017

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

DA SOMBRA DOS VENTOS AO ADEJAR DOS URUBUS

DA SOMBRA DOS VENTOS AO ADEJAR DOS URUBUS

ROGEL SAMUEL

Em “Capoeira de espinhos” Dílson Lages criou um gênero – fundiu conto, crônica, novela – construiu um texto – suas memórias ficcionais, o personagem percorre as ruas de seu passado em passos tristes, misturando fatos de um passado com as “modernidades”  presentes, como no carrinho de Chico Laranjeira que vendia melancias e CDs. Tudo mudado, tudo estragado pelos seus olhos desgastados de velho. Não mais as andorinhas do céu. O tempo morto, a vida morta, o relógio de pulso se quebra, é a morte.
Há uma frase que se repete: “quanto tempo ainda tenho?” – o livro todo é uma reflexão sobre a morte, sobre a decadência dos objetos, dos seres, das casas. O relógio roda, por horas, cada vez menos tempo de vida, cada segundo é a vida que retrocede, menor, menor, gira assim para trás, marcando o seu fim, - no fim o relógio se quebra, no chão - e a Pomba Gira, nas ruas de Aldeia Viva (aldeia morta), fabricando vento, a sombra do vento, no vermelho de suas saias, sem nome, sem destino, ou Chico Laranjeira, vendendo melancias e CDs – os CDs dos escândalos.
Apesar de poucas ruas, a cidade parece enorme, dali até as margens do Marataoã, o tempo para, o som dos ventos, tudo passa em bicicletas, em Monaretas, em sonhos.
Outro motivo constante é uma estranha colher de pedreiro, que atua como a de um coveiro do tempo, Aldeia Viva não é mais que morta, uma espera da morte, como um cemitério. Pois a cidade está poluída de fofocas, de mentiras, de histórias que são arapucas, conflitos, maledicências, esquecimentos, de cochichos por trás dos muros, que o personagem, o professor Constantino, um velho aposentado, sente-se hostilizado pelos muros das casas e calçadas, pelas janelas fechadas, pela falta de seu passado, pela decadência moral daquela vila, pela incerteza do futuro, como nos versos do Poeta Caçador:
“A mentira, a calúnia, a infâmia, o embate, / A vil maledicência, a impudicía / a fraude...”
Nas últimas linhas de seu dizer: “Quanto tempo ainda tinha?” [...] “Procurei as andorinhas no céu. Urubus, urubus.”



quarta-feira, 16 de agosto de 2017

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

“A CULPA É DOS CRÍTICOS E EDITORES”

“A CULPA É DOS CRÍTICOS E EDITORES”
Entrevista com Carlos David
Para início de conversa, indaguei-lhe se gostaria de dizer algo para os leitores do Diário Carioca, sobre esta interminável querela que o “New Criticism” (se assim se pode chamar) suscitou entre nós, com o retraimento de um bom punhado de ensaístas que vinham exercendo o ofício da crítica periodística.
— Minha primeira objeção — falou Otto Maria Carpeaux — refere-se ao próprio termo “New Criticism”. Os divulgadores desse termo no Brasil (pois só divulgam o termo), não tendo até hoje realizado a menor tentativa de aplicar às obras brasileiras os novos métodos de crítica, esses divulgadores apresentam ao leitor brasileiro o “New Criticism” como se fosse um bloco monolítico ou uma “escola”. Mas não existe nada disso. Existem, sim, profundas incompatibilidades entre diversos representantes da nova crítica anglo-americana e entre eles e os “novos críticos” de outros países. Aqueles divulgadores monolíticos podem escolher: entre não possuir a necessária inteligência para perceber e explicar as divergências, e, por outro lado, só querer esmagar o leitor brasileiro, empregando uma erudição de empréstimo para fins de cabotinismo literário. Existem bons argumentos para apoiar esta e aquela possibilidade. No resto, desejo que os novos críticos se ocupem mais com as obras literárias do que com os métodos alheios, e que aprendam línguas.
Pergunto se não veria com bons olhos a volta do rodapé semanal de crítica literária:
— O rodapé de crítica já se tornou raridade. Não voltará tão cedo. Mas não atribuo isto a uma ação vencedora dos seus inimigos, pois um dos “novos” continua escrevendo rodapés dos mais comuns. A culpa é dos editores: alguns deles preferem o anúncio de graça nas “colunas”; outros nem precisam de críticos nem de colunistas porque produzem a venda a prestações, esgotando o pequeno poder aquisitivo do público e prejudicando a literatura, da qual se julgam, olimpicamente, mecenas. Quanto à minha opinião, só desejo ver voltando o rodapé quando acompanhado de talento, o que também é cada vez mais raro, enquanto os vovôs da literatura acreditam descobrir gênios.”
(Carlos David, ‘Carpeaux: aprendam línguas’, Diário Carioca, 1960. — Excerto)

domingo, 13 de agosto de 2017

MEU PAI

MEU PAI

Rogel Samuel

Um homem corta a grama
Do outro lado da rua.
Meu pai se foi há muitos anos,
Mas a lembrança dele me desperta.
Vem de certa cena antiga
Onde aparece com seu sorrir
E o mesmo jogo de andar
Lançando os braços para trás.
Um homem corta a grama no seu quintal.
E muito tempo se passou
E não sei por que subitamente
Choro sua morte.
Tudo está em seu lugar
E por que me vejo triste?
Meu pai já não existe
Ele se decompôs no ar.
Um velho corta a grande grama
Da outra margem desta rua.

(Walden, New York, julho 2003)

A BOLA NÃO É A INIMIGA

A BOLA NÃO É A INIMIGA

ROGEL SAMUEL


                Nesse ano de Copa, me lembro de alguns indiozinhos Cambebas (ou Omáguas) que inventaram a bola, o futebol, a Copa, no Amazonas de 1744.

Quando La Condamine, em meados de 1744, descia o Rio Amazonas por inteiro, desde as montanhas peruanas, Jaén de Bracamoros, até Bélem do Pará, viu uns indiozinhos jogando bola de látex, balata, na praia.

Maravilhou-se ele e trouxe a bola para a Academia das Ciências de Paris. Lá, triunfante, jogou a bola no chão, num escândalo, para todos os sábios.

No dia seguinte, publicaram: "Estranho objeto desafia a lei da gravidade".

Ao látex La Condamine chamou de "caoutchouc", dizendo viria a ser de grande valor industrial, e que os portugueses aprenderam dos omáguas, discípulos dos Incas, que já o conheciam, sua extração e beneficiamento.

É verdade que alguns autores dizem que Colombo já a conhecera no Haiti, diz o Mestre amazonense João Nogueira da Mata, em "Biografia da borracha", de 1978, que tenho com dedicatória.

Lembro-me de Ademir da Guia. Não o jogador, mas o poema de João Cabral.

O látex é uma gosma grudenta como cola.

Era calculado o jogo, estudado, “desafinado” pelo jogador brasileiro, que dava a ele o ritmo pessoal, o tempo, o chumbo, a câmara de pesadelo lento, transformando o adversário no cúmplice de sua vitória, atando-o, na atadura hospitalar da doença que Ademir  inoculava no irrequieto adversário, como aranha, hipnotizando-o, inutilizando o ímpeto, com a anestesia do jogo pesado, encharcado, sobre areia, ou no alagado, na lama, nos baixios da alma, de um peso morto, de um psicológico, psicótico lastro do espírito, da langorosa alma, da materialidade da larva, da lesma, da gosma, da goma, dos líquidos pegajosos, espermáticos e seminais,  grude, esparadrapo, óleo podre.

"ADEMIR DA GUIA":

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.


                Não há vitória, mas "não-perda" do jogo. Falta Romário. Mesmo quando joga mal, sua  presença ameaça o adversário. Não foi à Copa porque tem voz, é sujeito, não objeto. Todo sujeito é suspeito. Opina, critica. Brasileiro não pode, não está acostumado à fala, à liberdade, à democracia. Mas à submissão, ao mandonismo, ao autoritarismo. O "povo" quis Romário? Scolari não quis. O povo? Aqui? Democracia? O Brasil das Capitanias Hereditárias vive agora uma onda de denúncias contra os representantes do povo.

Em outro poema, diz Cabral no "TORCEDOR DO AMÉRICA F.C.":

O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora.


                Cabral lembra os Ronaldos europeus:

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.

        A bola, a vida, a alma. As eleições. Não inimiga, mas amante. A bola de futebol, malícia, manha, reações perigosas, não se usa sem risco. Como a nudez da mulher, ou do touro. Cabral, nordestino, machista. Jogador toureiro,  amansa a bola. Futebol machista. O time perdedor não corta o afiado. Não o Jogador, o Clube, o time, mas a bola. O orbe. O mundo. O calo da vitória. O calo do verbo calar. A bola algo que  rola,  rebola,  imprevista,  perigosa, nervosa, telegrama, aerograma, míssil, ogiva nuclear, torpedo:

Não é a bola alguma carta
que se levar de casa em casa:

é antes telegrama que vai
de onde o atiram ao onde cai.

Parado, o brasileiro a faz
ir onde há-de, sem leva e traz;

com aritméticas de circo
ele a faz ir onde é preciso;

em telegrama, que é sem tempo
ele a faz ir ao mais extremo.

Não corre: ele sabe que a bola,
telegrama, mais que corre voa.

               
É só reler: BRASIL 4 X ARGENTINA O (Guayaquil 1981)

Quebraram a chave da gaiola
e os quadros-negros da escola.

Rebentaram enfim as grades
que os prendiam todas as tardes.

Nos fugitivos, é a surpresa,
vendo que tomaram-se as rédeas

(dos técnicos mudos, mas surpresos,
brancos, no banco, com medo).

Estão presos os da outra gaiola,
que não souberam abrir a porta:

ou não o puderam, contra o jogo
dos que estavam de fora, soltos,

De certo também são capazes
de idênticas libertinagens

uma vez soltos, porém como
se liberar daquele tronco

em que os aprisionaram os táticos
argentinos, também gramáticos.

E enquanto os fugitivos seguem
com a soltura, a sem lei que os regem,

nos bancos é uma a indignação:
dos que vão vencendo e dos que não:

“Voltamos ao futebol de ontem?
Voltou a ser um jogo dos onze?

Voltou a ser jogar de pião?
Chegou até cá a subversão?

Como é possívela haver xadrez?
Sem gramática, bispos, reis?”

                Sem subversão. Culpa daqueles indiozinhos cambebas, que inventaram o futebol por volta de 1744.


Os Cambebas, entretanto, foram exterminados!

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

LAVRADORES BEM-AVENTURADOS!


LAVRADORES BEM-AVENTURADOS!



ROGEL SAMUEL




A famosa Elegia de Camões que começa com 'Poeta Simónides, falando' tem para nós especial importância pois é lá que se vê pela primeira vez a beleza digamos ecológica.

Qual beleza? A beleza desses versos: 

Oh, lavradores bem-aventurados! 
Se conhecessem seu contentamento, 
como vivem no campo sossegados! 

É um trecho da Elegia, um comentário. Depois 
de relatar as suas agonias e experiências más como marinheiro, como amante e soldado, o grande poeta suspira pelo bucólico paraíso do campo:

Oh, lavradores bem-aventurados! 
Se conhecessem seu contentamento, 
como vivem no campo sossegados! 

E começa o encantamento da terra: ' Dá-lhes a justa terra o mantimento ' - das águas: ' dá-lhes a fonte clara a água pura ' - das casas

se suas casas d'ouro não se esmaltam, 
esmalta-se-lhe o campo de mil flores, 
onde os cabritos seus, comendo, saltam. 

É tudo o que o poeta nunca teve: a paz do campo. 

Ali amostra o campo várias cores, 
vêm-se os ramos pender co fruto ameno, 

A mansidão de um lar, que parece nunca Camões teve:


Ditoso seja aquele que alcançou 
poder viver na doce companhia 
das mansas ovelhinhas que criou! 

O poeta chega a fazer a apologia da simplicidade:

Vive um com suas árvores contente, 
sem lhe quebrar o sono sossegado 
o cuidado do ouro reluzente. 

Camões sabe ser terno, e fazer no verso simples o imortal cantar de uma felicidade de calma, de paz: 

Ali amostra o campo várias cores, 
vêm-se os ramos pender co fruto ameno, 
ali se afina o canto dos pastores: 

O que é a sua meditação de um simples repousar, do ' descanso honesto '.

Enfim, por estas partes caminhou 
a sã justiça para o Céu sereno. 


Os lavradores ' Não vêm o mar irado, a noite escura, /
por ir buscar a pedra do Oriente; / não temem o furor da guerra dura.'



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

FLORBELA ESPANCA

FLORBELA ESPANCA

ROGEL SAMUEL



Para Florbela Espanca a dor é, e estranhamente, um convento. No seu famoso soneto «A minha dor», escreveu ela: « A minha Dor é um convento»:

A minha Dor é um convento ideal 
Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres de agonias 
Ao gemer, comovidos, o seu mal... 
E todos têm sons de funeral 
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro, 
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...

Florbela era mulher bonita e uma extraordinária poetisa. A maior de seu tempo. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Mas seu sucesso é posterior e recente. Otto Maria Carpeaux não a conhece, na sua gigantesca História da Literatura Ocidental. A arte de Florbela é antiquada, seu «Livro das Mágoas», publicado em 1919, livro não modernista numa época em que apareceu a Bauhaus, em Weimar, fundada por W. Gropius, em que aparece Miró, com seu «Nu com espelho». Ela continua cultuando o velho soneto à moda parnasiana. Hernâni Cidade referirá "a violenta contradição entre o conceito de poesia de duas épocas distantes ou próximas". Mas é, possivelmente, António Ferro que, em artigo do Diário de Noticias, logo em Janeiro de 1931, chama a atenção para a poesia de Florbela.

O primeiro verso canta:« A minha Dor é um convento ideal». Como interpretar esse verso, esse convento? Talvez pela solidão, abandono... mas isso é uma deformação do sentido ideal de convento. As freiras lá não estão senão porque comungam e comungam com Deus, com Cristo. Um convento doloroso é uma contradição de termos, idéia de que alguém lá tivesse sido colocado à força, algo como uma prisão solitária, vazia e sinistra. De forma que esse verso, « A minha Dor é um convento ideal» determina as significações do inteiro soneto. E mais: 

« Cheio de claustros, sombras, arcarias, 
Aonde a pedra em convulsões sombrias 
Tem linhas dum requinte escultural.»

- mantém um segredo, ou melhor, uma «bela» contradição, pois que, se ali há claustros, sombras, a pedra em convulsões sombrias, há também «requinte», ou seja, apuro, refinamento, elegância, esmero, elevação, perfeição, volutas simétricas, arcos belos de pedras convulsionadas, Florbela transpôs, contagiou o seu secreto claustro com toda a sua sensualidade feminina, com o seu erotismo amante, esses arcos nada místicos ou de um misticismo tântrico, amoroso, sexualizado, corporal, poderosamente inscrito nas paredes, reescrito nas curvas, nas ancas, nas pernas daquela construção ideal e reservada à sua agonia amorosa, onde « os sinos têm dobres de agonias Ao gemer, comovidos, o seu mal...», o seu pecado, o seu som de funeral. Há lírios, mas belos, há:

«Há lírios 
Dum roxo macerado de martírios, 
Tão belos como nunca os viu alguém!»

Florbela contradiz o seu misticismo feminino, a beleza mística, na solidão final de seus versos:

« Nesse triste convento aonde eu moro, 
Noites e dias rezo e grito e choro, 
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...»

- onde se ouvem os sinos tocarem, nesses «em» que três vezes se repetem, em ninguém.

Filha ilegítima, nascida em 8 de dezembro de 1894, Florbela se mata em 1930. Chamava-se Flor Bela de Alma da Conceição. Não foi pobre, teve 3 maridos e 2 divórcios, algo incomum, na época. Estudou Direito, em Lisboa. Culta. Editou seus próprios livros: «Livro de mágoas» em 1919, e «Livro de Soror Saudade», em 23. Não era conservadora, como disse. Mas avançada para seu tempo. E feminista. Era. Matou-se. Sua morte ela o anunciou em carta. Não conheceu o seu grande sucesso posterior.