terça-feira, 13 de novembro de 2018

A PANTERA. 11

A PANTERA. 11

 ONZE
Ficamos num apartamento de sala e quarto de um membro de nossa organização e, quando os documentos de Jara ficaram prontos, embarcamos para aquela ilha, onde nos hospedamos num chalé. Quando um companheiro apareceu, fomos com ele para a sua casa no meio da floresta. Lá soube de outros companheiros meus que estavam longe, dispersos no mundo. Ou mortos.
Depois, nós nos mudamos para uma cabana isolada, onde moramos por algum tempo. Lá cozinhávamos e caminhávamos ao redor. Dias calmos. De lá podíamos avistar o mar e o horizonte distante.
Depois voltamos para o centro da ilha, onde nos demoramos mais e de lá partimos para uma cidadezinha de barco e numa enseada, onde ficamos morando num barco. Até voltarmos para a cabana.

Na cabana tudo era paz.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Arte Poetica de Borges

Arte Poetica
de Jorge Luis Borges

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.
Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.
Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
en una música, un rumor y un símbolo,
ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. 
La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.
A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.
Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.
También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
Y es otro, como el río interminable.

sábado, 10 de novembro de 2018

A PANTERA DEZ - ROGEL SAMUEL

A PANTERA DEZ - ROGEL SAMUEL

“Que é aquilo?”, pergunto, mostrando o brilho no alto da montanha. “Não sei“, disse Jara, e me abraçou. 
Mas seguimos aquela estrada sem saber aonde nos levava e enquanto aquela fuga pela planície às sombras nos impelia, à minha amiga fiel mais eu me cingia. Como sem ela pudera prosseguir? Quem para alçar-me esforço me daria?
Assim chegamos àquela pequena, deserta e triste cidade que aparecia. E logo pudemos trocar nossos uniformes de soldado por roupas novas, comprar malas, ir a um hotel onde tomamos banho e, sabendo que havia um aeroporto perto, logo nos dirigimos para lá. 
No pequeno aeroporto pagamos um aeroplano que nos deixou numa cidade maior próxima.
Ali comprei um carro (pois só agora eu vi que Jara trazia duas grandes bolsas cheias de ouro), e de madrugada, como que foragidos escondidos, partimos para o sul.
Viajamos o dia inteiro e à noite nos abrigamos num hotel onde adormeci no colo da minha amiga, que ficou acordada, protegendo-me, arma em punho. 
Quando acordei estava bem melhor e logo sem problemas partimos, descendo aquele desconhecido país em direção Sudeste, dormindo nos hotéis da estrada e foi assim que, depois de vários dias chegamos a uma grande cidade, onde comecei a tratar dos nossos documentos falsos.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Da arte do sol

Da arte do sol


Rogel Samuel: Da arte do sol



Escrevo de madrugada. Nunca dormi muito bem, e sempre acordo durante a noite. Esta é a hora boa para ler, pensar, rever a vida. Antigamente era possível sair de madrugada. Quando eu morava em Copacabana, nessas horas eu saía para caminhar na praia e ver o sol nascer. O sol sempre nasce com esplendor, como tudo que nasce. A vida é o nascimento: o demais é um declinar-se para a morte, já pensou Heiddeger. Se nos fosse possível imaginar, diz Nietzsche, a dissonância feita criatura humana (pois o homem é uma dissonância) esta, para poder suportar a vida, teria a necessidade de uma admirável ilusão que lhe escondesse a sua verdadeira natureza, sob um véu de beleza. Esta é a finalidade da arte apolínea. Da arte do sol. O nome de Apolo resume aqui essas ilusões sem número da bela aparência que tornam, a cada instante, a existência digna de ser vivida e nos incitam a vivê-la no instante seguinte. A vida sempre renasce. Sempre que as potências dionisíacas a subverte violentamente, é desejável que Apolo, envolvido em nuvens, desça até nós, para curar a nossa escuridão, a nossa embriaguez.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Bernardim Ribeiro

Esperança minha, is-vos:
nam sei se vos verei mais,
pois tam triste me leixais.
Noutro tempo ua partida,
qu'eu nam quisera fazer,
me magoou minha vida
quanto eu nela viver.
Desta já quê posso crer:
que, pois qu'assi me leixais,
é pera nam tornar mais.
Após tamanha mudança
ou desaventura minha,
onde vos m'is, esperança,
vá-se todo o mais qu'eu tinha.
Perca-s'assi tam-nasinha
tudo, pois que nam olhais
quam tarde e mal me leixais.
Bernardim Ribeiro In "Cancioneiro de Garcia de Resende"

terça-feira, 6 de novembro de 2018

JEREMIAS E OS MORTOS DA BAIXADA

JEREMIAS E OS MORTOS DA BAIXADA

JEREMIAS E OS MORTOS DA BAIXADA
(CRÔNICA ANTIGA)

Rogel Samuel


«Na sexta-feira, 1 de abril de 2005, chacinas no Rio podem ter matado 41 pessoas. Foi uma das madrugadas mais sangrentas no Estado.» Noticiários transformados em plantões  policiais.

«A esperança mói.
A esperança dói.»

Escreveu Cassiano, em «Jeremias sem chorar».

*    *    *

Antes da queda do muro de Berlin, estava eu em casa do Lothar, na Mendelsonstrasse, em Frankfurt. Via tv todos os dias, fora estava frio. Comentei, para ele: «Não vejo notícias de crimes, por aqui». Ele retrucou: «Não há, não. Uma associação de consumidores impôs, em ação na Justiça, que não se divulgasse isso».
- Por quê? Perguntou o senso comum brasileiro. Não fere a liberdade de imprensa?
- Não, disse ele. A media tem de estar a serviço da população...
- Mas a população não deve ser informada sobre o perigo?
- Não é o caso, argumentou ele. Se há um assassino, ou uma quadrilha solta na cidade, não é meu problema, mas da polícia, cabe à polícia prendê-lo. A polícia tem o dever constitucional de proteger-me, e para tal é paga. Quanto à imprensa, não tem o direito de aterrorizar-me.

Calei-me. 

*    *    *

                        Pareceu-me ter um ar
de abismo, não obstante alva
            e limpa como uma estrela-

*    *    *

Cassiano Ricardo, dos maiores poetas do Brasil. Sob certos aspectos, o maior de sua geração, na técnica, na variação de sua poética, «renovando a poesia», disse Cabral. Sobre ele, Oswaldino Marques escreveu o clássico da crítica literária brasileira: «O laboratório poético de Cassiano Ricardo». 

*    *    *

Lembra Oswaldo Mariano a observação de Mestre Alceu de que Archibald MacLeish escreveu que o poema deveria ser  um «globe fruit», integrado no «pensamento planetário», na era cósmica. Por isso, diz o autor do prefácio, no livro predomina «a esfericidade semântica», e a rima «esfera» e «espera». Ou em «Os sobreviventes»:

Milhões de crianças chorando
            na noite esférica.
Por que choram?
                        Não são
            elas que choram.

                        É o futuro.

*   *   *

 Escreveu Archibald MacLeish:
 
 
Haverá pouca coisa a esquecer: 
o vôo dos corvos, 
uma rua molhada, 
o modo do vento soprar, 
o nascer da lua, o por-do-sol, 
três palavras que o mundo sabe, 
pouca coisa a esquecer. 
 
*    *    *
Em «Os que virão depois», diz Cassiano:

não os sobreviventes 
que hoje usam máscaras
        pra fingir de vivos 

não os que poderiam
 ter morrido esta noite
sob a chuva de sol
                        nuclear 

mas os que acordarão
           como pássaros
 que anunciam o amanhe-
                   cer 

sem nenhuma surprêsa
   de ainda estarem
                    vivos 

*    *    *
É assim na tradução de Bandeira.
É assim nos mortos da Baixada.

*    *    *


Sim, acordar. Como os pássaros. Mas sem nenhuma surpresa acordaremos vivos, sem a esperança que dói. O mundo que mais parece abismo, uma estrela branca, pairando no ar. Quando morrer esquecerei de tudo, e todos me esquecerão. Haverá, de pouca coisa a esquecer, quase nada: o fracos poucos versos que fiz, os romance que construí, essas minhas crônicas. Pouca coisa. Três palavras que o mundo sabe. Para mim, será bem mais difícil esquecer: meu amor fracassado, minhas impossibilidades, meu caso perdido. Acordar, renascer? Não creio. Meus olhos fechados sob a campa. Não verei nem o nascer da lua, nem o por-do-sol.
A chuva pinga, na argila rasa.

Meu avô

REPUBLICADO À PEDIDO DE MINHA MEIA-IRMÃ ARIETE SAMUEL
Meu avô
Rogel Samuel
Maurice Samuel nasceu em Strasburg e faleceu em 1942, em Manaus, onde se estabeleceu como exportador de borracha. Mesmo sem tê-lo conhecido, é meu ídolo.
Possuía um navio, o "Adamastor", e o historiador T. Loureiro, em "A grande crise", coloca-o entre os maiores de sua época. Seu escritório ficava na rua Marcílio Dias, onde depois se construiu o Hotel Amazonas.
Casou-se com D. Antonia Cellis, peruana, que meu pai dizia ser filha bastarda do Duque de Cellis (família real espanhola, que se radica na Roma antiga) com uma índia quéchua.
O certo é que minha avó índia D. Antonia tinha um porte real, e era natural de Remate de Males, ou Letícia, e teve dois filhos: Albert Samuel, meu pai; e Marcela Baird, casada com Jorge Baird.
Segundo relato de meu pai, Maurice Samuel trabalhava na companhia de navegação "The Amazon River", quando veio a Manaus e viu que aqui havia oportunidade de grandes negócios.
Por isso largou o emprego e se estabeleceu como negociante exportador de borracha, graças aos seus conhecimentos de várias línguas (inclusive o hebraico, conheci sua Bíblia em hebraico) e também à sua experiência na companhia de navegação.
Maurice Samuel prosperou nos negócios.
Adquiriu um navio com o qual passou a morar e viajar na compra de borracha, navio esse que fotografei na praia de São Raimundo e cujas fotos estão publicadas no meu romance "O amante das amazonas".
Em Manaus, ele morou em algumas das melhores mansões da época, como a que existia ao lado do "castelinho" da Vila Municipal, à direita de quem entra: uma grande casa com arco frontal que examinei por fora.
Mas preferia viver no navio Adamastor, onde nasceu meu pai, que foi transbordado no meio do Rio Juruá para outro navio, um inglês, junto com a mãe, em direção a Strasburg, a fim de fugir da malária que vitimava todas as crianças por ali.
Antonia e seu filho viveram um tempo em Strasburg, e depois voltou sozinha, deixando o filho aos cuidados dos tios, da família Levy, com que foi criado meu pai, só conhecendo o seu próprio pai aos quinze anos, quando veio a Manaus para depois concluir sua educação em Paris, onde estudou engenharia naval, sem concluir, e depois foi servir em San Tropet, porque era militar antes da Segunda Guerra Mundial, época de seu retorno à casa paterna, a pedido do pai doente e com os negócios em franca decadência.
A sua volta ao Brasil salvou a sua vida, pois meu pai perdeu todos na guerra, companheiros e parentes, toda a família Samuel e Levy foi exterminada, por ser judia, seja na guerra, seja nas garras do nazismo.
Meu pai sempre se recusava a falar no assunto, e desenvolveu um verdadeiro horror à Europa, mesmo muitos anos depois.
O que para nós a Europa significa de civilização e cultura, nós que odiamos o Brasil e sonhamos com as maravilhas européias, para ele, para meu pai, que sofreu a Primeira Guerra quando menino, que atravessou a Guerra Civil Espanhola quando retornava ao Brasil, e que teve seus primos e tios assassinados brutalmente pelo nazismo, a Europa para ele sempre significou o pior pesadelo, o horror do inferno, o mais perigoso lugar de todos os lugares da terra.
Ele não falava, mas odiava a Europa.
Eu só compreendi isso depois de assistir ao filme “A dama dourada”, de Simon Curtis, que recomendo a todos os meus amigos judeus.
Quando estive pela primeira vez em Strasburg, e lá estive diversas vezes, ele se recusou a dizer onde morava, mas creio que era na praça Kleber, e a casa sempre existiu.
Nunca voltou.
D. Antonia, minha avó, era mulher independente e muito moderna para a época.
Saía sozinha, viajou várias vezes sozinha para São Paulo e talvez para a Europa e andava a cavalo. Tinha uma bela coleção de jóias e objetos de valor, como uns brincos de brilhante que pendiam das orelhas e dela herdei algumas colheres de um faqueiro de prata que estão até hoje comigo; também vi em sua casa um revólver de prata lavrada, ricamente trabalhado, que pertencera a meu avô, e vinha numa caixa de madeira forrada de veludo escuro.
Meu pai dizia que, se meu avô recuperasse tudo que o se lhe devia, certamente ficaria rico outra vez.
Mas ele era um homem bondoso e ajudou a muita gente.
Entretanto Maurice Samuel era um “bon-vivant”, curtia a vida, e sabia viver.
Como para todos os milionários da época, em Manaus tudo era possível, tudo era permitido, todos os gostos e sabores estavam à mão, não havia pecado nem proibições.
Quando meu pai, com quinze anos de idade, o conheceu, meu avô lhe ofereceu um cigarro.
Diante da inibição e indecisão de meu pai, ele disse:
- Fume, ora pois! – e rebentou numa grande gargalhada...
Curiosamente, meu pai nunca fumou nem bebeu.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A PANTERA NOVE - ROGEL SAMUEL

A PANTERA NOVE - ROGEL SAMUEL
 
A glória do sol por fim apareceu. Ainda dormindo estava e eis noto um vulto perto de mim. Era Jara, e assim que a vi se alumiaram meus pensamentos e uma aura de calma que é a maravilha da vida. A força do alto da colina nos impele, disse-me ela. Não nos retenha. Vamos, pois, cingindo o meu braço sem demora. Aqui tornar inútil nos seria, vamos ao sol que surge que é o melhor passo para subir do monte a penedia. E eu ergui-me, então, sem mais demora, e em silêncio, os olhos fitos no semblante de Jara, amparei-me do seu braço. Ela agora mais bela me aparecia. “Comigo vem, disse-me ela”, linda e luminosa, “vamos seguir adiante”. Fugíamos ante a alva na sombra matutina, e já nos ficava aos olhos descobertas as oscilações da estrada. Pela planície andamos que deserta parecia, chegando àquela parte onde o sol não pudera ainda secar o orvalho sobre a relva. Jara brandamente as mãos abriu e o seu movimento noto e compreendo: vimos a passo lento que se aproximava a pantera – Jara me abraçou, dizendo: “Não tema, ela está calma e dócil”.

Resplandecia já o sol no horizonte quando a perdemos. Algumas árvores apareceram na nossa frente, algumas ostentando doce fruto que colhemos. Uma luz pelo espaço vi que deslizava qual voo de ave igual que seja. Olhei de novo contemplando e logo abaixo outro vulto aparecia de igual cor e brilho assinalado. Mas Jara então bradou, como quem já aquelas coisas conhecia: “Curva os joelhos e baixa a cabeça, respeitoso, eis dos deuses os mensageiros! De agora em diante hás de ver outros – uma voz cantando justamente pudemos ouvir e se tornou, como veio, incontinente.

E ficamos, de repente, atordoados. E avistamos uma montanha luminosa.