segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O sol do verão



O sol do verão

 

Rogel Samuel

 

O sol, o verão. O brilho intenso, os ares claros, as nuvens raras. No Rio é tempo de amar.

         Lembro-me de crônica de Rubem Braga, sobre o começo do verão.

         Um dia - e não sei se já contei - estávamos na biblioteca da Faculdade que na época era a FNFi, ou Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Ficava onde hoje está a Academia de Letras.

         Era manhã cedo.

         Entra um bêbado.

Um homem em desalinho, mas bem vestido.

Grita:

         - Tem meus livros aí?

         Ivete, a diretora da biblioteca, manda chamar os funcionários para que ponham para fora o intruso.

         Mas não deixamos e ele se reuniu conosco.

         Era Rubem Braga.

         Tinha acabado de ser embaixador, ou coisa assim.

         Não disse quem era, mas nos contou sua vida (com detalhes indiscretos que não devo contar).

Escreveu um poema para minha amiga Maria Alice (que faleceu este ano).

         Falou de literatura, poesia, vida. De Copacabana.

         Narrou suas mágoas.

Braga é um dos maiores escritores do país.

Seu texto, comparável a Clarice, a Machado, a Francisco Manuel de Melo.

Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666) é autor da CARTA DE GUIA DOS CASADOS, escrita na prisão, que fala 'do amor e da obediência'.

Diz Manuel de Melo: 'Não sou já mancebo. Criei-me em cortes; andei por esse mundo; atentava para as coisas; guardava-as na memória. Vi, li, ouvi."

O texto seco, sem adjetivos, direto e elegante. Como eu gosto.

' Estes serão os textos, estes os livros que citarei a V. Mercê, neste papel; onde, juntas algumas histórias que me forem lembrando, pode muito bem ser não sejam agora menos úteis que essa máquina de gregos e romanos, de que os que chamamos doutos, para cada coisa nos fazem prato, que às vezes nos enfastia'.

Mas meu assunto é o sol.

O sol do verão me alucina.

         E de Braga a D. Francisco Manuel de Melo passei.

Precisamos aprender a escrita com D. Francisco. E a bem casar.

Minha amiga X me critica. Diz que a minha linguagem é telegráfica.

Sim. É. Corto mais do que introduzo palavras.

Meu ideal é escrever uma crônica de uma única linha.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE












MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE

Rogel Samuel


De minha cara amiga Graça Carvalho, já falecida, recebi um precioso presente, a “Cartilha do bem sofrer com lições de bem amar”, do seu pai, o super-poeta amazonense Farias de Carvalho, publicada em 1967 e desde então esgotada.
Lá re-encontro o poema “Ocaso”, que não lia desde que Farias de Carvalho foi meu professor, no noturno do Colégio Estadual, onde ele lecionava literatura e eu tanto aprendia com ele: “Meus mortos hão de vir no fim da tarde”.
Só dá para ler este belo texto quem o situa na Manaus da década de 50, ou início de 60, quando foi ele escrito.
Aquela era uma cidade sem iluminação, ilhada no meio da maior floresta tropical do mundo. Ao cair da tarde, as perigosas trevas da floresta invadiam, a nostalgia da escuridão e da morte ameaçava, aquele Rio Negro ficava realmente Negro. Negro como a Morte Negra. Negro da morte de vinte e oito mil índios vitimados em 1729, numa hecatombe nunca esquecida por aquelas margens, de tal sorte que perto dali há um rio, chamado Rio Urubu, “rio doente para sempre, / desde o município de Silves”, como certa vez escrevi; rio onde um dia meu pai não me deixou mergulhar, “como se ali o rio pudesse / para sempre me tragar”.
Naquelas águas estão sepultados nossos antepassados e o grande guerreiro Ajuricaba, o herói que está em toda a parte ao mesmo tempo [Aiuricaua], rio de sangue Negro, de espinhos venenosos, de cadáveres históricos. Há demônios nas margens e eu me lembro da impressão trágica, da depressão que nos assaltava, ao cair da tarde, quando a cidade invadida por nuvens de moscas besouros, piuns, carapanãs sanguessugas, corujas, e aranhas peludas que saíam de seus esconderijos, e escorpiões de ébano que procuravam caça, a floresta ameaçada agora ameaçava, retomava e reconquistava o seu lugar em São João da Barra, nos expulsando para sempre, tudo debaixo da gloriosa chuva do ouro do mais esplendoroso por-de-sol do mundo, algo como explosão de bomba atômica terminal, final, de fim de mundo, finnisterra, que se expandia em coloridas nuvens para todos os lados, junto com misteriosas aves do entardecer.
Ajuricaba veio do rio Hiiaá, na margem esquerda do Negro, entre o Padauari e o Aujurá, no distrito de Lamalonga. Para salvar seu filho caiu em emboscada e foi prisioneiro da Coroa Portuguesa, em 1729, a Coroa o queria vivo para o supliciar com castigo e morte. No caminho, Ajuricaba, que era homem fortíssimo, arrancou do poste o grampo que o prendia e, com as correntes nas mãos algemadas, faz a matança dos soldados portugueses antes de se precipitar nas águas escuras do Rio Negro, onde morreu, não sem antes as amaldiçoar, e diz a lenda que é por isso que aquelas águas são estéreis, e não têm peixe. Logo depois, em vingança, o capitão Belchior Mendes de Moraes dizimou 300 malocas, matando em sacrifício mais de 28 mil índios das margens do rio que passou a se chamar Rio Urubu devido à montanha de cadáveres. E mais tarde balesteiros, sob o comando de um padre de nome piedoso, Frei José dos Inocentes, depois nome de rua de puta em Manaus, espalharam roupas contaminadas com varíola que disseminaram uma gigantesca epidemia que infectou 40 mil índios, arruinados de varíola, que é uma doença infecto-contagiosa, virulenta, que apodrece o corpo ainda vivo com erupções de pus e raquialgia, pápulas, pústulas, cegueira e agonia de uma morte bacteriológica lenta, os cadáveres semi-vivos sendo devorados por moscas, piuns, carapanãs, mutucas, cabo-verdes, potós, catuquis, marimbondos, suvelas, besouros e formigas. A saúva antropófaga devora um corpo em 20 minutos. Na construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, em 1908, os mortos largados no caminho para serem enterrados na volta (30.430 operários foram internados no Hospital da Candelária, entre 1908 e 1912) e quando a locomotiva voltava só encontrava ossos brancos e limpos, comidos pelas saúvas. E também a formiga-de-fogo, a saca-saia, a lava-pés, a manhura, a cabeçuda, a taioca, a carregadeira, a táxi, a tracuá, a tocandira, peluda, enorme, venenosa, uma única picada basta para abater um homem, com fortes dores e febre, usada pelos índios na iniciação masculina dos garotos, que tinham de enfiar o braço numa cumbuca de tocandiras para provar que eram machos. E a formiga roceira, e a cortadeira, e a guerreira, a correição. Von Martius descreveu populações inteiras fugindo das formigas. As açucareiras eram capazes de fazer recuar um inteiro exército!
Por isso os mortos vinham no fim da tarde, “molhados da ferrugem líquida do rio”, diz o poeta, “que banha as margens dêste ... silêncio lúcido e sonoro / que embala na praia ao fim das tardes / os olhos de éter dos defuntos tortos / que lambem com o olhar a praia longe”.
Além disso, o trágico planger dos sinos da Matriz, construída por índios, da Igreja de São Sebastião, da Igreja dos Remédios, que se ouviam na inteira cidade, graves, ameaçadores, profundos, lembravam a Morte, e as rádios todas tocavam umas Avemarias, a Rádio Baré, a Difusora, a Rio-Mar, rádios de meu tempo, e misteriosas velhas beatas vestidas de negro, veladas, engolfadas, balbuciantes de preces, que se dirigiam às missas, entrando ainda sob a saraivada de toques dos imensos sinos magistrais.
É claro que, para nós, jovens poetas, devassos e boêmios, era a hora de nos preparar para as aulas e depois beber no Bacurau, no início da João Coelho, junto com catraieiros, prostitutas, mendigos e bandidos alcoólatras, provando aqueles peixes fritos, o pacu, a sardinha, o matrinchão, entre goles de cachaça barata; ou íamos para o Bar Bolero, que ficava na Cachoeirinha, na Rua Belém (creio eu, pois a memória já me falha), onde ouvíamos Nelson Gonçalves cantar os maiores sucessos em serenata, como os “Lábios que beijei”, e isso ia até ao raiar do dia, quando voltávamos, bêbados, felizes, para nossas casas, a pé, sob o latido generalizado dos cachorros dentro dos muros das casas, cães que não compreendiam por que tão tarde (e tão cedo) passávamos nós por ali, no deserto das ruas que um dia inspirou o poeta L. Ruas a escrever:

Ah!
Esta lua
Neste fim de rua 


Vamos ler o poema:


MEUS MORTOS HÃO DE VIR NO FIM DA TARDE 

FARIAS DE CARVALHO

Meus mortos hão de vir no fim da tarde
molhados da ferrugem liquida do rio
que banha as margens deste meu silencio,
deste silencio lúcido e sonoro
que embala na praia ao fim das tardes
os olhos de éter dos defuntos tortos
que lambem com o olhar a praia longe. 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde
mordendo a pele aquática do vento;
(vento, vento de tíbias descarnadas
arrepiando o pelo das vidraças). 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde.
Aguçai vossos dentes, cães do tempo,
vamos comer a morte no crepúsculo.
molhados da ferrugem liquida do rio
que banha as margens deste meu silencio,
deste silencio lúcido e sonoro
que embala na praia ao fim das tardes
os olhos de éter dos defuntos tortos
que lambem com o olhar a praia longe. 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde
mordendo a pele aquática do vento;
(vento, vento de tíbias descarnadas
arrepiando o pelo das vidraças). 
Meus mortos hão de vir no fim da tarde.
Aguçai vossos dentes, cães do tempo,

vamos comer a morte no crepúsculo.

DE LOS HERMOSOS EL RETOÑO ANSIAMOS



DE LOS HERMOSOS EL RETOÑO ANSIAMOS


Rogel Samuel



Daqueles belos seres a volta ansiamos, Pra que suas belas rosas nunca morram. Pois quando cair do tempo o Outono Guardemos sua beleza de memória.
Manuel Bandeira parecia cansado, quando o vi. Festejo solitariamente 42 anos de poesia. O primeiro poema foi publicado no dia 8 de fevereiro de l959, em O jornal, de Manaus. Não um poema que envergonhe muito, mas com os lugares-comuns da poética, poetizando e repetindo o já lido. Mas poesia é o que [ainda] não existe...
Mas Tu, que só a teus tão belos olhos amas, Apenas te alimenta o próprio engano. E onde abundância existe colhes fome. Pois Tu, do mundo agora o ornamento,
Por isso, festejo silenciosamente 42 anos de poesia. Não triste, porém. Afinal, escrevi. Publiquei. Andei em antologias. A Poesia, como a riqueza, não tem quem a quer? Há poetas que morrem sem a ver. Outros escrevem obras-primas.
Em ti sepultas teu contentamento. E da natureza egoísta que há contigo Piedade não tens do mundo e nem lamentas, Nem colhes do chão do canto o que te é devido. Que faz o poeta menor? "Relê as folhas que já foram lidas". Variação do já feito e lido. A musicalidade de Casimiro lembra Manuel Bandeira. "Hoje, amanhã e sempre...". Conheci-o bem velho. Morava em frente à FNFi. Fomos visitá-lo. Batemos à porta. Ele abriu. "Que vocês querem?", pergunta, com a voz nasal. Contamos quem somos etc. "Estou doente, não dá" - pede licença, fecha a porta. Creio que estava só. Havia um tapete oriental na parede, um vento gelado saía, vento de coisa velha, mofo. O vento gelado da morte. Vestia pijama de listas. Parecia cansado. "Hoje, amanhã e sempre / teu nome será para nós, Manuel / Bandeira". Manuel era próximo da morte. Diz Shakespeare,

From fairest creatures we desire increase, That thereby beauty’s rose might never die, But as the riper should by time decease, His tender heir might bear his memory: But thou, contracted to thine own bright eyes, Feed’st thy light’s flame with self-substantial fuel, Making a famine where abundance lies, Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel Thou that art now the world’s fresh ornament And only herald to the gaudy spring, Within thine own bud buriest thy content And, tender churl, mak’st waste in niggarding. Pity the world, or else this glutton be, To eat the world’s due, by the grave and thee.

Traduzido por Ivo Barroso assim:
Dos seres ímpares ansiamos prole Para que a flor do belo não se extinga, E se a rosa madura o Tempo colhe, Fresco botão sua memória vinga. Mas tu, que só com os olhos teus contrais, Nutres o ardor com as próprias energias Causando fome onde a abundância jaz, Cruel rival, que o próprio ser crucias. Tu, que do mundo és hoje o galardão, Arauto da festiva Natureza, Matas o teu prazer inda em botão E, sovina, esperdiças na avareza. Piedade, senão ides, tu e o fundo Do chão, comer o que é devido ao mundo.

A tradução de Manuel Mújica Láinez é:
De los hermosos el retoño ansiamos para que su rosal no muera nunca, pues cuando el tiempo su esplendor marchite guardará su memoria su heredero. Pero tú, que tus propios ojos amas, para nutrir la luz, tu esencia quemas y hambre produces en donde hay hartura, demasiado cruel y hostil contigo. Tú que eres hoy del mundo fresco adorno, pregón de la radiante primavera, sepultas tu poder en el capullo, dulce egoísta que malgasta ahorrando. Del mundo ten piedad: que tú y la tumba, ávidos, lo que es suyo no devoren.

E a nossa tradução livre: 

Daqueles belos seres a volta ansiamos, Pra que suas belas rosas nunca morram. Pois quando cair do tempo o Outono Guardemos sua beleza de memória. Mas Tu, que só a teus tão belos olhos amas, Apenas te alimenta o próprio engano. E onde abundância existe colhes fome. Pois Tu, do mundo agora o ornamento, Solitário cantor da primavera, Em ti sepultas teu contentamento. E da natureza egoísta que há contigo Piedade não tens do mundo e nem lamentas, Nem colhes do chão do canto o que te é devido.

(Festejo, em grande estilo, com Shakespeare nesta crônica, escrita no dia 8 de fevereiro de 2001, esquecida na gaveta do micro da memória. Pela leitura, obrigado).

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A MORTE NO ENVELOPE

A MORTE NO ENVELOPE

ROGEL SAMUEL

A vida é breve. O Brasil não tem tradição de literatura policial. Outros
gêneros literários sumiram, também. A nova poesia, os novos contistas, o
novo romance. Falta mídia? Não acredito. Faltam editoras. Não faltam
leitores. Coelho Neto escreveu 112 livros e 50 peças de teatro. Vida
breve. Até o fim Raquel de Queiroz escreveu (e muito bem) no "Estado de São
Paulo". Pode ser lida pela Internet. "Por que os pássaros cantam?"
Recebo um e-mail: "Caro R., o que é diferente em sua crônica é que ela
se vai encadeando a partir de referências, sem fixar-se no tema
inicialmente proposto. Você segue o fluxo labiríntico..." No tempo de
Humberto de Campos, não havia e-mail. Ele recebia inúmeras cartas.
Escreveu obra gigantesca, hoje desconhecida. "A morte no envelope" de
Luiz Lopes Coelho vem à lembrança nos dias de antraz. Toda semana decido
parar de escrever esta crônica. Mas recebo e-mail de gente importante
que diz que leu e gostou. Ler já é muito. A literatura não morre no
envelope, mas na estante. Coelho Neto e Humberto de Campos escreveram
muito, como Camilo, um gênio, que ainda se lê com prazer. Estilo rápido,
nervoso e elétrico. A grande massa da literatura morre, morreu, ou
morrerá. Balzac escrevia por compulsão. Um dos mais bem sucedidos
escritores do Brasil, Jorge Amado, produzia um bom livro a cada dois
anos. Mas há autores de um livro só, como Manuel Antonio de Almeida.
Assis Brasil escreveu (e continua escrevendo) mais de cem livros. Vive
de literatura, produz romances, ensaios, antologias. É um mestre. A
"Tragédia burguesa", de Otavio de Faria, tem quinze grossos volumes.
Elogiada por Mestre Alceu, hoje desapareceu. Ele era excelente crítico
de cinema. Tobias Barreto, dono de respeitável obra, não se encontra.
Escreveu obras filosóficas importantes. Onde estão seus livros? Vida
breve. Bach resumiu a "poética" de sua música na "A Arte da Fuga" (que
contém o seu nome: si bemol, lá, dó, si). Conhecida um século depois.
Mas A Arte da Fuga ficou incompleta. A última fuga não acaba; continua a
rolar, sem fim. Vida breve. Infinita.

QUE MAIS?


QUE MAIS?

ROGEL SAMUEL

Quem é? É Bernstein regendo a Eroica de Beethoven. Ele tem momentos de
suprema glória, de ânimo, de certeza, fazendo tudo girar à sua volta
como num balé de invisível e arrebatadora revolução. Todo Beethoven
revolucionário está ali, dança e avança, a Eroica, a primeira obra
romântica da história de todas as artes. Comecei a ouvi-la cedo, numa
gravação que hoje começo a pensar em procurar. Sei de um sebo que a tem.
Volto do teatro. No Rio faz 15 graus. No dia anterior, tivemos a
orquestra do Mozarteun de Salzburgo. Na quarta, a cravista suíça
Christine Daxelhofer tocou para uma sala quase vazia. Ingressos a dez
reais. O "Tokyo Ballet"foi impressionante. A " Kabuki Suite", de Toshiro
Mayuzumi foi extraordinária. A estória está entre a tradição e a
influência ocidental. A música, bela, muito influenciada por Stravinky.
Hoje saio de um show de D. Ivone de Lara, no Teatro Rival, que faz 67
anos, o teatro. Ela é uma excelente sambista. Pena que o som estivesse
errado: não ouvi uma palavra do que ela cantava. O som, alto e
desgastante. Karajan dizia que, numa ópera, todos tinham de entender as
palavras. Não apenas as notas. A vice-governadora Benedita estava lá.
Vejo o vídeo: Bernstein, possuído do ritmo. Seu biógrafo diz que,
durante quase dez anos em que regeu a Filarmônica de NY, só recebeu
críticas. Dali saiu para a de Viena, onde fez suas melhores gravações.
Por que a crítica é sempre burra? Bernstein foi colega do nosso Eleazar
de Carvalho, que de certo modo o superou na sucessão de Serge
Koussevitzky. Mas dizem que Bernstein foi preterido devido à
peculiaridades de sua vida privada que não importa aqui. De Carvalho fez
brilhante carreira nos Estados Unidos e no Brasil. Eu o ouvi diversas
vezes. Eleazar e Bernstein herdaram do professor Koussevitzky o tipo de
regência dramática, dançante. E a mania de falar ao público. De dar
aula, antes do concerto. O anel de ouro, que Bernstein usava, pertencera
a Serge Koussevitzky. Eleazar dançava xerém no pódio. Ele veio do
sertão. Foi marinheiro. É pena que as nossas orquestras fossem tão
ruins, naquela época, e que ele estivesse sempre apoiado pela direita.
Como Villa Lobos, apoiado por Getúlio. Naquela época podia-se ouvir
Jacques Klein, que morreu aos 48 anos. Klein fazia algumas caretas ao
tocar certos trechos, como se não tivesse satisfeito consigo mesmo.
Bernstein gritava ao reger. Como se estivesse morrendo. A época dos
grandes maestros acabou. E Bernstein foi um extraordinário músico, claro
e intenso. Como Toscanini: fale-se o que quiser, mas a sua regência era
precisa, clara, e ele era um homem desprovido de vaidade, pura música.
Recebeu críticas mordazes de Furtwängler: "faltam as pequenas nuances",
diz, a propósito da "Leonora" de Beethoven. Chega a chamar o mestre
Toscanini de "ignorante naïve". Diz que a música de Toscanini não é
"orgânica" - e ele estava tratando da "Eroica". Diz Furtwängler que
Toscanini só conhece duas coisas: "tutti e aria" - e o pior é ele tem
razão. "É uma maneira de agir verdadeiramente primitiva". Argumenta que
ele é "exagerado, sentimental e homófono" e que "faz de seus defeitos
uma virtude". "Ao inverso de Nikisch, ele não tem talento manual inato,
mas sabe fazer uma consumação gigantesca do espaço, do que resulta que
seus tutti são todos parecidos". Diz que ele é "um grosseiro
mal-entendido", é só "um culto da personalidade", e seu sucesso deriva
da sua personalidade. Mas "seu sucesso é funesto, pois atinge até os
alemães" etc. [L'órchestre: des rites et des dieux, Mutations. Paris,
Mai 1988]. Enfim... e a guerra? Sobrevoei a cidade e fiquei no Aeroporto
de Karachi, vindo de New Delhi, e quis muito conhecer um lugar como
aquele. Era uma cidade de outro mundo. Nosso avião foi invadido por
jovens rapazes que limparam o avião andando de quatro por entre as
cadeiras com escovas nas mãos como se fossem quadrúpedes. Não olhavam
para cima, para nós, passageiros, como se fôssemos de uma classe social
tão suprema que só lhes era permitido rastejar entre nossas pernas. E
estávamos num avião da KLM. As casas eram baixas e brancas, quadradas
como caixas. Havia um deserto cinzento ao redor. Depois entrou um casal
idoso, ela, uma senhora ricamente vestida, exageradamente cheia de
jóias. Ele, num terno aprumado, anelão no dedo. O contraste entrara no
avião. Fico imaginando um bombardeio ali. Por quê? Ou, como diria
Hamlet: Que mais?

sábado, 27 de janeiro de 2018

AS FLORES VESTIDAS DE BRANCO

AS FLORES VESTIDAS DE BRANCO


ROGEL SAMUEL



Na rua sou abordado. A mulher que me pede dinheiro. Geralmente nunca paro, nessas ocasiões.
Eu vinha de um concerto. A Filarmônica do Rio de Janeiro, de Florentino Dias, que melhorou muito. Concerto pela paz, com distribuição de muitas
flores brancas por moças vestidas de branco, como castas noivas e com a presença do cônsul americano e de sua família. Encontrei meu amigo C. no foyer. Conversamos sobre política e música. Falamos sobre Menininha Lobo, uma grande pianista brasileira. Digo: Cassar sempre me lembra os anos sessenta. O Congresso é o contrário das ditaduras. Ele não me
compreende e se irrita, acha que defendo Jader. Vejo que nossa conversa se torna cada vez mais ácida e rapidamente me despeço, pois o concerto vai começar. O começo foi fraco, a Abertura "Salvador Rosa", de Carlos Gomes. Depois a orquestra foi ficando maior, foi "esquentando", e no fim apresentou uma Quinta Sinfonia de Tchaikovsky que emocionou. Conheço a
orquestra desde o tempo do falecido amigo Nathanael Caixeiro. "Nata", violinista da orquestra, professor de filosofia e história, e tradutor.
Traduzia de várias línguas. Tinha coleção de violinos. Mas era pobre, morava mal. O apartamento dava para um viaduto horrível, o Paulo de Frontin. Eu o conheci em Campo Grande, quando professor do Estado. Logo
encontramos um ponto de apoio nas nossas conversas: a música. Nata também pintava, e muito bem. Assinava ironicamente "Petit-grand", porque era baixinho. Teve morte antológica. Um domingo cedo foi levar o cão
para passear. Depois, como sempre fazia, ia praticar o violino, sentado na cama. Sua mulher foi fazer um café. Quando voltou, ele estava morto, segurava o violino e o arco, braços abertos na cama. Sou abordado na rua
por mulher diferente, não exatamente mendiga, vestida de classe média baixa, uma viúva, ou abandonada pelo marido. Noto que suas mão tremem, pálidas. A rua deserta, me pede dinheiro, envergonhada de pedir. "Tenho de comprar comida pra minha casa", ela diz, e abre dois sacos plásticos de supermercado, onde posso ver bananas. "Não tenho mais dinheiro", diz ela, e começa a chorar. Parece doente. Suas lágrimas eram reais. Ela sofria. Via-se a pedir dinheiro e sofria. Soluçava para dentro, por sua desgraça. Os sinos, à distância, tocam. A desgraça, a fome. Lembrei-me
de que, na Sala Cecília Meireles, tocou-se a "Valsa das Flores". Das flores brancas, alvas, puras, castas. Meu pensamento fugia, voava pelo espaço. Uma menina passou, sorrindo. Era como se estivesse vestida de
branco. Sorriu. Sento-me no bar e me ponho a ler Alfonsina Storni:

Tu me queres alva,
me queres de espuma,
me queres de nácar,
que seja açucena
mais casta que todas.
De perfume suave;
corola fechada.
Nem raio de lua
filtrado me toque.
Nem a margarida
seja minha irmã.
Tu me queres nívea,
Tu me queres branca,
tu me queres casta.

Tu, que as taças todas
já tiveste à mão.
Os lábios corados
de frutos e mel.
Tu, que no banquete
coberto de pâmpanos,
as carnes gastaste
festejando a Baco.
Tu, que nos jardins
escuros do engano,
lascivo e vermelho
correste no abismo.

Ó tu, que o esqueleto,
não sei por que graça
ou por que milagre
conservas intacto,
só me queres branca,
(que Deus te perdoe!)
só me queres casta,
(que Deus te perdoe!)
só me queres alva.

Foge para o bosque,
vai para a montanha,
purifica a boca,
vive na humildade.
Segura com as mãos
a terra orvalhada.
Alimenta o corpo
de raiz amarga.

Bebe a água das rochas,
dorme sobre a geada,
renova os tecidos
com salitre e água.
Conversa com os pássaros,
lava-te na aurora.
E já quando as carnes
ao corpo te voltem,
e quando hajas posto
nas carnes a alma
que, pelas alcovas
ficou enredada.
Então, homem puro,
pretende-me nívea,
pretende-me branca,
pretende-me casta.
(Trad. de Oswaldo Orico)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Carlos Castelo Branco na Academia Brasileira

Carlos Castelo Branco na Academia Brasileira



Carlos Castelo Branco na Academia Brasileira

Rogel samuel


Leio em "Os dias esquecidos" de Ascendino Leite que num dia quentíssimo do Rio de Janeiro
- fazia 43 graus, disse Ascendino - Carlos Castelo Branco foi eleito para a ABL.

Era o dia 4 de novembro de 1983.

Carlos Castelo Branco teve 21 votos, Mário Quintana derrotado 17 votos.

Quintana concorreu três vezes, sempre derrotado.

Carlos Castelo Branco sucedeu a R. Magalhães Júnior.

Entrevistado, Quintana disse:

- Não fui eleito, mas estou em boa companhia, como a de Monteiro Lobato, que tentou duas
vezes.

Ascendino, sempre ácido, chamou o poeta Quintana de "desmunhecado", o que não sei o que quis dizer. E "meio amargo".

Ascendino lembra que a Academia recusou Jorge de Lima 3 ou 4 vezes. "Vergonha irreparável",
diz.

Acontece que Jorge de Lima era meio "louco". Louco de genialidade. Contam que ela entrava em delírio, subia na mesa. Dizem que seu psiquiatra foi quem o aconselhou a escrever "Invenção de Orfeu", como terapia. Aquele psiquiatra merecia uma homenagem nacional.

Carlos Castelo Branco declarou que tinha sido eleito por seu jornalismo.

- "Minha obra literária é escassa e remota".

Mas Carlos Castelo Branco era um extraordinário escritor.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O quarteto

O quarteto



O quarteto

Rogel Samuel

Eles conversavam e tocavam pela noite a dentro naquela casa, em Manaus, que reunia três a quatro senhores para tocar. Um era meu pai, um comerciante francês, outro um padre velho alemão, um terceiro era um músico manauara, pai do poeta Luiz Bacellar, e mais outro de que não me lembro. Tocavam para si mesmos, não para um público. O francês no piano ou no violino, o alemão com o violino, o amazonense na viola. Não me lembro se alguém tocava violoncelo. Tocavam trios ou quartetos de Beethoven. Tocavam bem. Como o teto da casa velha era muito alto, a acústica da sala era muito boa. A casa velha tinha um teto muito alto, e uns desenhos inscritos, umas pinturas onde a sonoridade das arcadas se infiltravam. A sala era muito boa. Eles conversavam e tocavam Beethoven pela noite a dentro. Em plena selva amazônica, tocavam Beethoven. Ensaiavam juntos, argumentavam, e às vezes punham algum disco da RCA VICTOR para comparar alguma passagem difícil. Beethoven era ouvido ali, e talvez algum
desconhecido que passasse pela rua àquela hora se perguntasse o que eram aqueles sublimes sons na cidade de Manaus da década de 40.

A palavra pesada

A palavra pesada



A palavra pesada

Rogel Samuel

Bilac era intelectual e emocionalmente inquieto, instável, liricamente ansioso, tanto que o titulo de seu livro é “Alma Inquieta”, onde se lê que a palavra não consegue exprimir a sua inquietude, aquilo que ele nem diz nem escreve, porque não encontra a apropriada voz ou não consegue, pois a palavra inútil não responde ao turbilhão fervente do que está só em pensamento – o pensamento, o sentimento é evanescente, leve, para a palavra pesada, fria, espessa, de pedra, uma laje, um sepulcro a palavra inútil, a palavra abafada, sem o perfume sutil que revoa e ilumina com a luz que refulge da idéia - pois quem vai conseguir moldar a expressão de tudo? quem vai conseguir colocar o risco do céu na mão da terra? quem vai dar apropriada voz à ira e ao asco e ao desespero e à fé e às confissões de amor que não saem à luz do dia?

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
- Ardes, sangras, pregada a' tua cruz, e, em breve,
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava...


O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava:
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve...
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve,
Que, perfume e dano, refulgia e voava.


Quem o molde achará para a expressão de tudo?
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta?


E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo?
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?!