segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Cláudio Santoro

Cláudio Santoro
Rogel Samuel

Li de uma assentada o belo livro de Elson Farias sobre Cláudio Santoro ("Cláudio Santoro - cantor do sol e da paz", Manaus, Ed. Valer, 2009).
A única vez que estive com Santoro foi no aeroporto de Frankfurt no fim da década de 70, início de 80. Voltava para o Brasil. Ele vinha da França, onde creio que tinha regido a Orquestra Sinfônica da Radio-Difusão Francesa (ORTF) de Paris.
Eu disse para o pessoal da VARIG:
- Ali está o maior compositor do Brasil, coloquem-no na primeira classe.
Não adiantou. Como ele sentou-se não muito longe de mim, eu me apresentei, disse-lhe que tinha sido vizinho de D. Cecília, sua mãe, na Vila Auxiliadora, em Manaus, onde ela vivia modestamente, junto com o filho Alberto Santoro, depois físico. Foi o bastante para a conversa se iniciar. Falamos cerca de uma hora de música e de músicos. Infelizmente não posso relatar as críticas que me fez ao meio musical brasileiro, o que seria uma indiscrição. Mas me disse que estava arrependido de ter voltado para o Brasil... Contou que o prefeito de Paris tinha ido buscá-lo no Aeroporto, enquanto que no Brasil não haveria um só funcionário do MEC para ajudá-lo com as malas...
Ele dava aula de composição na Alemanha. E comentou:
- Imagine caboclo amazonense dando aula de composição na Alemanha...
E escrevo ao som das Sinfonias 5 e 7 de Santoro. Regidas por ele-mesmo. Orquestra Filarmônica de Leningrado e Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim, respectivamente.
Gravação rara.

domingo, 15 de janeiro de 2017

jardim antigo - rogel samuel

jardim antigo - rogel samuel

um fato aconteceu
no silêncio das flores do jardim abandonado
entre os arbustos
e folhas secas
aumentaram as cores
a vivacidade variada
libertaram
não sabem a nenhum
germinam grandes entre pedaços de
estatuária
debaixo de pedras
dentro dos tanques surdos
somente perdidos anjos
e o cão preto
aquelas aves desgarradas
aquelas murtas velhas
não a vêem
à noite um lagarto verde
entre as estrelas azuis
as flores dormem
as flores há muito tempo lá estavam
elas dormem

Carta de Guia dos Casados



Carta de Guia dos Casados

D. FRANCISCO MANUEL DE MELO (Lisboa, 23 de Novembro de 1608 – Lisboa, Alcântara, 24 de Agosto ou 13 de Outubro de 1666) - Carta de Guia dos Casados



(...) Uma das coisas que mais assegurar podem a futura felicidade de casados é a proporção do casamento. A desigualdade no sangue, nas idades, na fazenda, causa contradição; a contradição, discórdia. E eis aqui os trabalhos por onde vêm. Perde-se a paz, e a vida é inferno.
Para satisfação dos pais convém muito a proporção do sangue para o proveito dos filhos, a da fazenda, para o gosto dos casados, a das idades. Não porém que seja preciso uma conformidade, de dia por dia, entre o marido, e mulher; mas que não seja excessiva a vantagem de um a outro. Deve ser esta vantagem, quando a haja, sempre a parte do marido, em tudo à mulher superior. E quando em tudo sejam iguais, essa é a suma felicidade do casamento.
Dizia um nosso grande cortesão, havia três castas de casamento no mundo: casamento de Deus, casamento do diabo, casamento da morte. De Deus, o do mancebo com a moça. Do diabo, o da velha com o mancebo. Da morte, o da moça com o velho.
Ele certo tinha razão porque os casados moços podem viver com alegria, as velhas casadas com moços vivem em perpétua discórdia; os velhos casados com as moças apressam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas demasias.
Mas porque estas coisas são muito gerais, e ainda os incapazes têm delas conhecimento que aos entendidos lhes sobeja, é tempo de passar a alguns mais particulares avisos.
Senhor, saiba V. M.cê que à sua alma se acrescenta outra alma de novo; à sua obrigação se junta outra obrigação. Assim devem crescer seus cuidados, e seus respeitos. E da mesma sorte que, se a um homem que possuísse uma herdade, a qual cultivasse, lhe fosse deixada outra de novo, para o mesmo efeito este tal homem, sem diminuir em sua alegria, era força que na diligência se avantajasse, por abranger com seu trabalho a ambas aquelas suas fazendas; nem mais nem menos deve o casado multiplicar o tento, e a fadiga (sem que por isso se entristeça), por não faltar ao novo cargo que tomou, e lhe entregaram, com a mulher que lhe deram; não para que a arriscasse, e perdesse (e a si mesmo com ela), mas para que com maior cómodo e descanso pudesse passar com ela a vida.
(...) Provemos a ver se será possível dar alguma regra ao amor; ao amor, que soe ser a principal causa de fazer os casados mal-casados, umas vezes porque falta, e outras porque sobeja. Armemos-lhe, se quer, as redes; caia ele se quiser; e o mais certo será que voe, e fuja delas, porque quiçá por isso o pintaram com asas.
Ame-se a mulher, mas de tal sorte que se não perca por ela seu marido. Aquele amor cego fique para as damas, e para as mulheres o amor com vista. Ou cure os olhos que tem, ou os peça emprestados ao entendimento desses que lhe sobejam. (...)
Saiba-se, e tema-se, que também há Narcisos do amor alheio, como de seu próprio.
(...) Há alguns, Senhor N., de tão pouco juízo, que fazem ostentação de seu próprio cativeiro. Igual afronta é a um casado saber-se que o manda a sua mulher, que saber-se é ela de seu marido escrava, e não companheira.
Este foro, esta prerrogativa, de que cada um é bem que use, logo ao princípio convém que se concerte. O marido tenha as vezes de Sol em sua casa, a mulher, as da Lua. Alumie com a luz que ele lhe der, e tenha também alguma claridade. A ele sustente o poder, a ela a estimação. Ela teme a ele, e ele faça que todos a temam a ela, serão ambos obedecidos.
Dissera eu que as mulheres são como as pedras preciosas, cujo valor cresce, ou mingua, segundo a estimação que delas fazemos.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O AMANTE DAS AMAZONAS



POIS que esta narrativa - paródia de romance histórico que define com boa precisão esta minha tardia confissão - vai-lhe revelar a vida tão surpreendente de Ribamar de Sousa, aquele adolescente que eu era, aparecido num inesperado dia de inverno da Amazônia dentro da chuva compacta de um ostinato extremamente percussivo em comandos de improvisação de uma partitura imaginária, ecológica, de acordes politonais sobre o que sentado estava num banco de madeira no alpendre do tapiri ao som do suporte de compassos 5/4 do Igarapé do Inferno, que sai no Igarapé Bom Jardim, que sai no Rio Jordão, que sai no Rio Tarauacá, que sai no Rio Juruá, afluente do Rio Amazonas, o Solimões, aonde estamos retornando.
Lembro-me de que, naquele Igarapé do Inferno, mas logo mais abaixo na última linha que riscava o horizonte daquela tarde - era uma diagonal dourada com a tempestade se aproximando na outra ponta do horizonte - como num recorte de uma cena de um escrupuloso sonho histórico, soberanamente saltou sobre meus olhos o vulto belo e art-nouveau do Palácio Maxini (que era como se chamava aquela construção), sede do Seringal e residência de Pierre Bataillon, pois nós retornávamos em busca daquele passado interdito, pois nós chegávamos no fim daquela era quando o Palácio transparecia com deslumbramento nos seus múltiplos reflexos das quinquilharias de cristal, janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de ouro reluzente e vívido e muito louco, de um ouro muito louco e muito vivo, de um brilho vivíssimo, dourado e louco, fantasmático e delirante, desterritorializado e dIspare, produzido pela acumulação primitiva de quase um século de exploração e investimento e agenciamento de sobrepostos níveis heterogêneos de história, num engendramento de todo varrido do planeta moderno, confinado ali, circunscrito ali, centrado ali na dependência permanente de si e de seu retardado isolamento e de seu anacrônico testemunho.

OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS



OS SONHOS COMO PRINCÍPIO DAS ESPERANÇAS ÀS VEZES PERDIDAS






Rogel Samuel

          Há uma conferência de Ernst Bloch, conhecida como “O Homem Como Possibilidade”, que se inicia assim: “ Senhoras e Senhores, vamos começar moderadamente. Mas também com vigor e ousadia. Vamos começar com os sonhos.” Desde que a li, pela primeira vez, na década de sessenta, este texto me persegue. Bloch (1885–1977), como se sabe, foi marxista alemão  que saiu para os Estados Unidos, depois de 1933, por causa do nazismo. Sua obra mais famosa é “O princípio da esperança” (3 volumes, publicada de 1952 a 1959). 
          Na conferência citada diz ele que os sonhos não se dão só à noite, há sonhos diurnos, quando o eu não desaparece, mantém-se presente e sem censura. Nestes nossos desejos voam, povoam, sem hipocrisia, sem camuflagem. Sem medo. Nossos desejos dominam nossos sonhos diurnos: uma bela roupa, uma jóia, uma vitrine. A casa de nossos sonhos. O livro de nossos sonhos. No mundo dos sonhos, o custo de vida não é tão alto, nem nossos salários tão baixos. Não, nada precisamos comprar, pagar, no aberto mundos dos sonhos. Somos – todos – participantes dessa sociedade de consumo de sonhos. 
          E pronto: parece que aí está, quase sem a gente perceber, o “princípio da esperança”, que guia nossas vidas. Parece, mas não é bem assim. O livro de Bloch é difícil e gigantesco (três volumes, em cerca de 1400 páginas na tradução inglesa!). 
 Bloch mistura marxismo com a doutrina judaica de redenção, e faz da dicotomia aristotélica de potência e ato a base de uma certa teoria da história à caminho da progressiva emancipação redentora, ou seja, o caminho da esperança  de melhores dias, vida melhor, em melhores condições. 
          Segundo Douglas Kellner, que encontrei na Internet, - (“ Ernst Bloch, Utopia and Ideology Critique”) -, o primeiro volume trata do nosso consumo dos sonhos diurnos: a moda, a propaganda, as viagens, os filmes e outros objetos culturais. 
          O segundo volume versa sobre os sonhos de “um mundo melhor”, analisa as utopias políticas, as utopias tecnológicas, as utopias arquitetônicas, além dos ideais de paz e tranqüilidade. 
          O terceiro volume aborda as imagens do desejo na moralidade, na música, na morte, na religião, na natureza e no ambiente, no bem. 
          Todos três volumes estudam a questão cultural do “sonho de uma vida melhor”, que ele trata como mitos, formas de arte, política e religião. Enfim, a questão da “emancipação” 
          Lembra Bloch que Lênin lastimou certa vez que o movimento havia perdido a capacidade de sonhar. Mostra a contradição entre o feijão e o sonho:  «Delicados coexistem os pensamentos, ásperas se chocam as coisas no espaço», escreveu. Lembra que estamos sempre cercados de conflitos, e que, frente aos sonhos, o mundo real é contrário e contraditório, e se acha carregado das tensões de ontem e anteontem. «O velho não quer passar. E o novo não quer chegar». Mas, «o que contrapomos ao mal, não deve ser uma loucura solitária». A realidade não é fixa, acabada, mas mutável. É possível enfrentá-la, modifica-la. As coisas estão fluindo. Ela foram feitas e por isso mesmo podem ser modificadas. Existe sempre a possibilidade de mudança. «Poder ser diferente significa poder transformar-se em outra coisa melhor». 
         Ora, quem sonha são os poetas, principalmente românticos, que sonham «as ilusões perdidas»: 


Minh’alma é triste como a rôla aflita 
Que o bosque acorda desde o albor da aurora, 
E em doce arrulo que o soluço imita 
O morto esposo gemedora chora. 
E, como a rôla que perdeu o esposo, 
Minh’alma chora as ilusões perdidas, 
E no seu livro de fanado gôzo 
Relê as fôlhas que já foram lidas. 
E como notas de chorosa endeixa 
Seu pobre canto com a dor desmaia, 
E seus gemidos são iguais à queixa 
Que a vaga solta quando beija a praia. 
Como a criança que banhada em prantos 
Procura o brinco que levou-lhe o rio, 
Minh’alma quer ressuscitar nos cantos 
Um só dos lírios que murchou o estio. 
Dizem que há gozos nas mundanas galas 
Mas eu não sei em que o prazer consiste. 
- Ou só no campo, ou no rumor das salas, 
Não sei porque mas a minh’alma é triste!

         Como toda ilusão, a realidade já nasce «perdida», e os românticos lastimavam que, em verdade, não encontravam a materialidade de seus sonhos. Ou seja, a vida concreta (se se pode falar assim – e só em crônica se pode) não corresponde ao sonho abstrato, e aqui os gozos, os prazeres, os brincos (os brinquedos), os amores, no campo ou na cidade não correspondem ao idealizado pela imaginação.  Por isso, «a minha alma é triste».
          No poema de Casimiro de Abreu se pode ouvir, até mesmo, um OH! – esta exclamação lamentosa -  rola, bosque, acorda,  albor, aurora, soluço, morto, esposo, chora etc. – uma série de oooos, todos lamentosos acentos. 
 Incompatibilizados com o mundo, não é sem razão que os românticos acabem morrendo tão cedo. Morrem de inanição espiritual, depressão. Sucumbem à glória do capitalismo da primeira revolução industrial. 
         A poesia (mas nem sempre) pertence à categoria dos sonhos:
Conheces a região do laranjal florido? 
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro; 
No céu azul perpassa a brisa num gemido... 
A murta nem se move e nem palpita o louro... 
Não a conheces tu? Pois lá... bem longe, além, 
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem! 
(Diz Goethe, na belíssima tradução do mestre João Ribeiro.)
        Sim, esta é a região dos sonhos. Lá, bem longe, além. Lá é melhor. Para lá é que devemos ir, escapar, fugir. Lá está tudo o que é belo, perfeito. Lá está a felicidade. Não a conheces tu, leitor e leitora? Será que existe mesmo? 
        Mas... não percamos as esperanças.

O TAO

O Caminho é vasto e sem favores.
O Tao vazio é profundo.
Com um coração vazio, sua natureza é
Facilmente aprendida,
Embora seu poder abranja o cosmos.
Com sua sabedoria pode-se discernir
Os grandes mistérios da vida,
Para que o coração se torne puro
Como o trono dos imortais.
- Loy Ching-Yuen (1873-1960)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Dylan Thomas

ESTE LADO DA VERDADE


Dylan Thomas

Para Llewlyn

Este lado da verdade,
Meu filho, tu não podes ver,
Rei de teus olhos azuis
No país que cega a tua juventude,
Que está todo por fazer,
Sob os céus indiferentes
Da culpa e da inocência
Antes que tentes um único gesto
Com a cabeça e o coração,
Tudo estará reunido e disperso
Nas trevas tortuosas
Como o pó dos mortos.

O bom e o mau, duas maneiras 
De caminhar em tua morte 
Entre as triturantes ondas do mar, 
Rei de teu coração nos dias cegos, 
Se dissipam com a respiração, 
Vão chorando através de ti e de mim

(tradução: Ivan Junqueira)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A VILA DAS OITO BALEIAS ENCALHADAS



A VILA DAS OITO BALEIAS ENCALHADAS

ROGEL SAMUEL

Durer gostaria de morar naquela cidade onde há oito baleias encalhadas, canta Marianne Moore mãe da poesia moderna, em seu poema “The steeple-Jack”, o consertador de campanários, ou um João-ninguém no ar manso do mar das casas num dia bonito, vindo das águas-fortes de Durer onde as ondas mais parecem escamas de peixe, “com a mão direita ela as penetras – as coisas – com lápis bisturi, o verso cicatriz” - diz João Cabral - e as vê onde as gaivotas rodopiam ao redor da torre do relógio, na ronda do imaginário farol, nem mesmo precisando mover as asas de sutil papel, apenas com um estremecimento do corpo na plumagem de arrepios aéreos, o mar (diz ela, e não duvido), da cor do pescoço de pavão, uma cor púrpura, chegando a verde-anil, que é o azul daquele Arraial do Cabo na minha adolescência, as estrelas da Praia dos Anjos brilhando no chão por onde passávamos a caminho dos ninhos de amor das aventuras de lá, e a arte, na sua essencial erótica marítima, grande cascos de baleias, impotentes, jacentes, brancos, talhados em mármores familiares, estátuas jacentes pois Marianne Moore viu no avanço do risco rígido do mar em brancos barcos, e em Arraial do Cabo as sandálias de espumas multicores, aros do sol, os ácidos do sol de aço dourado a fogo, sol forte de febre, as primeiras estrelas visitantes cruzadas em desígnios e misteriosos signos, da poesia ela, pegajosa, confidencial, cheia de aritméticas pinças, de Marianne Moore, que quando escreve em vez de lápis, diz Cabral, emprega instrumento cortante, a saber, bisturi, um canivete, e faz rir de delírio geológico, ilógico, colorido, reduzido, imagem a fragmentos de sonho, lembranças do Morrro do Miranda, dos anjos da Praia dos Anjos, do Morro do Atalaia, da Ilha dos Franceses, da poesia-água-forte, água em movimento, ávido tecido vivo de esmeraldas e ametistas, mar memorial delirante em viver o azul nas sonhadas capelas e marés e nos alpendres chamuscados de matiz de águas-marinhas profundas, pois foi o que viu Bachelard ali, em “L´eau et les rêves”, no seu “ensaio sobre a imaginação da matéria”, a água domada e desumanizada, pertencente ao domínio da mitologia primitiva, diz ele, aventuras das grandes viagens marítimas em vendavais de narrativas, ao nível dos grandes mitos das poderosas forças da imaginação heróica e material, em vidro estilhaços da profundidade igual ao que não existe, ao inconsciente que marítimo é narrativo, na mitologia do chão catando pelo rastro da origem a fabulação, diz Bachelard, este buscar participando da tonificação da vida, da renovação dos quereres do amor, do amor todo nascente da água do ventre, como certas deusas, ou o nascimento de Vênus, de Botticeli, mencionada em Apeles, presente no relato da criação de Hesíodo, na Teogonia, Afrodite surgindo das espumas nascentes da mistura do sêmen e do sangue de Urano, ou em versão, não encontrada na Ilíada, onde a deusa do amor nasce da união de Zeus e Dione nas douradas praias amadas de Arraial do Cabo, no Estado do Rio de Janeiro, abstração límpida do neoplatonismo da natureza dual do amor sobre as conchas são vaginas da beleza em flor...
* * * 
“O JOÃO-DA-TORRE” de Marianne Moore 
(fragmento) 
Dürer teria visto um motivo para viver 
                                    numa vila como esta, em cuja praia há oito baleias
 para se olhar; onde a suave brisa entra na casa da gente em dia
 claro, vinda de água em água-forte
          com ondas formais como num peixe as
 escamas.
 Uma por uma aos pares e aos trios, as gaivotas não
         param de ir e vir, sobre o relógio da vila voando,
 ou de circunavegar o farol sem nem sequer mover as asas –
 elevando-se firmes com leve
         tremor de corpo -, ou então, em bando,
 de miar
 onde um mar da púrpura do pescoço do pavão
          se transforma em verde-anil, como Dürer a degradar
 o verde-pinho do Tirol no azul-pavão e no cinza-guiné.
 Você pode ver uma lagosta
          de onze quilos; redes a secar
 ao sol. O
 remoinho pífano-e-tímpano da tempestade
          enverga a relva salina do brejo, perturba as estrelas
 no céu e a estrela na torre da igreja; é um privilégio ver tamanha
 confusão. As árvores e as flores
          da costa têm a favorecê-las
 a neblina 
                                                  (trad. José Antonio Arantes)


O CARTÃO POSTAL

O CARTÃO POSTAL


Rogel Samuel



        Eu tinha nas mãos um velho cartão-postal. E uma edição de La vida es sueño. Era uma velha loja no centro velho da cidade, uma loja de coisas usadas, talvez um bazar beneficente. Estava cheia de trastes cobertos de uma poeira decadente. Quando entrei fui logo atraído pela pilha de livros a um canto, onde descobri o livro de Calderón. Depois descobri uma caixa de sapato cheia de velhas fotografias. O cartão postal. Era uma foto velha, mas muito nítida, meio sépia, da minha cidade natal. A rua era aquela. Pude reconhecer cada pedra, cada porta, cada janela. Sabia mesmo quem habitava ali. Na grande casa da esquina morava o meu amigo de infância X. Quando sua mãe estava grávida, uma vidente lhe disse: ia ser menina. A família preparou um enxoval de menina. Nasceu menino. Quando tinha sete anos de idade, disse para a mãe: queria ser bailarino. A mãe se persignou. Nada disse para o marido, que era violento. Quando tinha doze anos entrou para aquela escola, onde o conheci. Como era muito louro, belo, alto e feminino, na escola só encontrou inimigos. Ninguém se aproximava. Na rua os moleques freqüentemente tentaram agredi-lo. Quando passavam pela frente de sua casa, gritavam palavrões. Faziam gestos indecentes. Por isso quase não saía de casa. Mas se vestia muito bem. Família rica e conhecida na cidade. Usava umas blusas de seda branca, que dizem ele mesmo fazia. A mãe todos os dias ia levá-lo ao colégio. A mãe era amiga de nossa família. Mas nossas mães nos proibiam de falar com ele. Ele só se aproximava de algumas meninas, no recreio. Mas era um bom aluno e excelente desenhista. Quando tinha cerca de quinze anos, o pai o surpreendeu vestido com roupa da mãe, todo pintado. Espancou-o tão violentamente que ele ficou vários dias sem poder ir à escola, com vários hematomas no rosto. Logo no fim do ano eu me mudei para o Rio de Janeiro e o perdi de vista. Soube que o pai o mandara  morar com umas tias. As tias o rejeitavam, mas o pai era rico e pagava bem. Quando o pai soube que ele dormia fora suspendeu o pagamento. As tias o expulsaram. Contam que ele vivia nas ruas, onde se prostituía. Depois trabalhou como cabeleireiro e manicuro. Aquela loja estava cheia de trastes velhos, cobertos de uma poeira decadente. Quando fui pagar, a velha que me atendeu falou, com  estranha voz: “Eu nasci aí, nesta cidade”. Era ele, o meu amigo X. Não me reconheceu. Aquela mulher tinha os dentes estragados, o ralo cabelo branco mal pintado, amarrado para atrás. Era um ser em ruína. Eu nada disse, paguei e saí da loja, sobraçando o livro de Calderón,   La vida es sueño.

domingo, 8 de janeiro de 2017

POEMA

Cuidado! Mesmo a lua caindo em gotas de orvalho,
Se você é atraído para assistir,
Faz-se um muro diante da Verdade.
- Sogyo (1667-1731)
...

sábado, 7 de janeiro de 2017

DUGPA RINPOCHÊ