sexta-feira, 24 de março de 2017

A espada das mãos vazias

A espada das mãos vazias

Rogel Samuel


Fernando Pessoa é perfeito. Em tudo o que fez. Leio «O guardador de rebanhos», a sua técnica de meditação. Na melhor tradição dos mestres Zen, ele diz: sou um pastor de pensamentos.


«Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

«Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.»

Reúne ele os pensamentos como um pastor suas ovelhas. Para que não se percam. Não se extraviem. Não divaguem. Não delirem. Reúne suas ovelhas dentro de si. É o que o Zen diz: «Viver dentro da casa». Dentro da casa é dentro de si. « Permanecer como se é, estar completo em si mesmo ... cada manhã é uma boa manhã, cada dia um lindo dia, não importa a tormenta que esteja desabando... » (Suzuki, «Viver através do Zen»).

Diz Suzuki que o poeta Hakuin (1685-1768) explica aquilo assim:

«As formigas vagarosas lutam para carregar as asas de uma libélula morta;

As andorinhas da primavera pousam lado a lado num ramo de salgueiro;

As fêmeas dos bichos-da-seda, pálidas e cansadas, ficam imóveis segurando as cestas repletas de folhas de amora;

Os garotos da vila são vistos com rebentos de bambu roubados arrastando-se através das cercas quebradas.»

Mas não é para ser compreendido! Se for compreendido, terá outro sentido. Nossas experiências diárias «são de fato experiências do Zen, mas não conseguimos reconhecer isso porque nós, como seres intelectuais, perdemos algo que nos permitia entender o significado».

Que perdemos? Perdemos a beleza. A claridade. Não vemos a beleza dos pássaros no céu, as flores na terra. A luz sobre a montanha, as sombras estreladas da noite.

A vida em si é beleza, algo misterioso. Escapa à compreensão intelectual.

Sotoba, um dos poetas da dinastia Sung, escreveu:

«A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang;
Quando ainda não se esteve lá
Muita mágoa se possui;
Mas uma vez lá e para casa se encaminhando,
Quantas coisas prosaicas se observa!
A chuva nebulosa no Monte Lu,
E as vagas encapeladas no Che Kiang.»
[Suzuki, «Essays in Zen Buddhism», I, p. 22.]

«Não há nada especial»: O mesmo velho mundo... e não obstante deve haver algo novo e belo na nossa consciência, pois de outra forma não se poderia dizer: "Está tudo o mesmo".

Uma grande mudança, uma grande iluminação teve lugar. Mas tudo está o mesmo.

Por isso um monge jardineiro aproximou-se certa vez do mestre e manifestou-lhe o desejo de ser iluminado no Zen. O mestre disse: «Venha novamente quando não houver ninguém por perto». No dia seguinte, o monge observou que não havia ninguém perto e implorou-lhe para revelar o segredo. Disse o mestre: "Aproxime-se mais de mim". O monge chegou mais perto dele. Disse então o mestre: "O Zen é algo que não pode ser transmitido por palavras".

Algum segredo foi revelado? Sim, o sol brilha no luminoso dia. E ele está alegre e feliz.

Pessoa reúne seus pensamentos como um jogador reúne suas cartas de baralho. São os pensamentos-realidade, pensamentos-pedras.

Desconfia das aparências, das ilações. O Ser só existe quando se torna consciente de si mesmo, diz Suzuki. Mantêm-se na arte da atenção, da presença. Quando ver, ver. Quando ouvir, somente ouvir. Não sair. A distração, para o mestre Zen, é a morte. Como para o lutador de espadas. A alegria, a felicidade está no momento presente, no fragmento presente.

E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

O passado é um cadáver morto e podre, o futuro é ilusão e desconhecido. Passado e futuro trazem confusão mental, sofrimento. Se me deixo na confusão de minhas ilusões fico perdido e em perigo, como quem escala a montanha. Ver é ver, pensar é pensar. Cada um de cada vez. Ver e pensar ao mesmo tempo é a loucura burra das fantasias irreais. Uma realidade só se dá única. Ver e estar consciente de que estou vendo, pensar e estar consciente de que estou pensando. Um guardador de rebanhos.

É por isso que digo que Pessoa era perfeito, em tudo o que fazia, que fechava os olhos e deitava na relva. Pleno. Na rainha das meditações, a realidade plena. Plenamente alcançada. Desperto. Livre.

Como diz o Zen: «Seguro uma espada em minhas mãos e fico com as mãos vazias». 

quarta-feira, 22 de março de 2017

“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade




“FIOS DE LUZ: AROMAS VIVOS”: a voz da saudade


por Tânia Du Bois

        Fios de luz, aromas vivos: leitura de Retrato de Mãe,soneto de Jorge Tufic, por Rogel Samuel: “Venham os fios de luz para tecê-la, aromas vivos para senti-la, às palavras do filho descrevê-la, proferi-la” (Rogel Samuel).
        Não conheço Jorge Tufic pessoalmente, e sim através de suas obras literárias: adoro! Penso que o Poeta merece uma homenagem especial, e o escritor Rogel Samuel dá essa atenção através de reflexões literárias em 15 sonetos de Tufic.
         Samuel ressalta o caráter literário da obra com olhar sobre o poeta. Revela o poder de quem interpreta costurando palavras e dando o significado à estrutura maternal dos sonetos, e declara que “o mundo poético e o mundo da realidade colidem, possuindo cada qual a sua própria verdade”.
        Fios de luz, aromas vivos – são sonetos que Jorge Tufic, inspirado na realidade, reconhece como expressão das lembranças. Segundo Samuel, “... acaba por ser mais real do que a própria realidade.” A voz de Tufic reflete a sua própria imagem, onde faz um testemunho do Retrato de Mãe. Em jogo de palavras, proclama histórias que espelham a sua relação com a sua mãe, como se fosse ontem e vivesse o amanhã. Cria significado através do tempo e das lembranças que sinalizam a sua ausência, buscando dar sentido à sua vida. “Que restara de ti, dos teus pertences? //... Tudo posto num saco humilde e roto. / Eu quis, então, medir esse legado, / mas limites não vi para a tristeza. / Davas a sensação de que o tesouro / se enterrara contigo. //... Que eternidade / pode igualar-se à voz desta saudade?”
        Através da imagem poética, mostra o seu eu versusmãe, ao alcançar a infinitude do tempo: sua intimidade desvela os mistérios da dor da ausência. Nesse horizonte, o poeta compreende, interpreta e projeta o sentido da herança da Grande Mãe que se perde com a morte.
        Fios de luz, aromas vivos revela a parceria de mãe e filho, onde apenas o amor é o único segredo. E a memória do poeta reconstrói os bons momentos sem se perder no tempo. “Nossa infância era tudo iluminada / pelas fontes da tua juventude. //... Ainda te vejo, o porte esbelto indo / por aqueles baldios transparentes / onde a luz, de tão verde, pincelando / os ermos...”
        Mesmo com a saudade presente, Jorge Tufic, em seus sonetos, volta ao seio materno para registrar a importância e a resistência da lembrança (viva) em sua vida. Ao escrever Retrato de Mãe, não teve medo de mostrar a outra face, o lado filho.
        O encontro entre lembranças e saudades, filho e mãe, deu a oportunidade ao escritor Rogel Samuel de fazer a análise detalhada da obra, mostrando o Poeta Jorge Tufic com o dom do mistério menor e mais emoção, revelando, mais uma vez, o seu talento literário.

terça-feira, 21 de março de 2017

Cantos de Ezra Pound

Cantos de Ezra Pound




Rogel Samuel




NO início dos "Cantos", Ezra Pound diz:

E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.

Tradução de José Lino Grünewald. Foi-me dada por minha amiga Helena. O texto se move para frente, nau no mar quilha contra vagas impelindo adiante. O adjetivo "divino" cobre tudo, ambiente de mito. A "nave escura" veste o leitor de sugestão de destino. Trágico. Ovelhas a bordo ("e os nossos corpos") se abre ao sacrifício. Vem "o pranto aflito". Velas cheias. Deusa benecomata (tradução de "the trim-coifed", vestida de sua própria cabeleira(?)). Atmosfera homérica. O original reza:

And then went down to the ship,
Set keel to breakers, forth on the godly sea, and
We set up mast and sail on that swart ship,
Bore sheep aboard her, and our bodies also
Heavy with weeping, and winds from sternward
Bore us onward with bellying canvas,
Circe's this craft, the trim-coifed goddess.

Prossegue a tradução:

Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.

É o sol. É o Barco no mar. É o horizonte até o Término do dia. Bela imagem:

Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.

O tradutor abusou da maestria, compôs tudo em "O", do Sol, do sol-maior: "Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano" - (Sun to his slumber, shadows o'er all the ocean)


E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios do sol, nem a
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra sobre os homens fúnebres.





Ezra Pound - Os Cantos - Trad. José Lino Grünewald
CANTO 1
E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.
Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.
Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.
Até o território cimeriano,
E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios do sol, nem a
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra sobre os homens fúnebres.
Refluindo o mar, chegamos ao local
Premeditado por Circe.
Aqui os ritos de Perímedes e Euríloco e
“De espada a cova cubital escavo
Vazamos libações a cada morto,
Primeiro o hidromel, depois o doce
Vinho mais água com farinha branca
E orei pela cabeça dos finados;
Em Ítaca, os melhores touros estéreis
Para imolar, cercada a pira de oferendas,
Um carneiro somente de Tirésias,
Carneiro negro e com guizos.
Sangue escuro escoou dentro do fosso,
Almas vindas do Erebus, mortos cadavéricos,
De noivas, jovens, velhos, que muito penaram;
Úmidas almas de recentes lágrimas,
Meigas moças, muitos homens
Esfolados por lanças cor de bronze,
Desperdício de guerra, e com armas em sangue
Eles em turba em torno de mim, a gritar,
Pálido, reclamei-lhes por mais bestas;
Massacraram os rebanhos, ovelhas sob lanças;
Entornei bálsamos, clamei aos deuses,
Plutão, o forte, e celebrei Prosérpina;
Desembainhada a diminuta espada,
Fiquei para afastar a fúria dos defuntos,
Até que ouvisse Tirésias.
Mas primeiro veio Elpenor, o amigo Elpenor,
Insepulto, jogado em terra extensa.
Membros que abandonamos em casa de Circe,
Sem agasalho ou choro no sepulcro,
Já porque outras labutas nos urgiam.
Triste espírito. E eu gritei em fala rápida:
‘‘Elpenor, como veio a esta praia escura
Veio a pé, mais veloz que os marinheiros?”
E ele, taciturno:
Azar e muito vinho. Adormeci
Na morada de Circe ao pé do fogo.
Descendo a escadaria distraído
Desabei sobre a pilastra,
Com o nervo da nuca estraçalhado
O espírito procurou o Avernus.
Mas, ó Rei, me lembre, eu peço,
E sem agasalho ou choro,
Empilhe minhas armas numa tumba
A beira—mar com esta gravação:
Um homem sem fortuna e com um nome a vir.
E finque o remo que eu rodava entre os amigos
lá, ereto, sobre a tumba.”
Veio Anticléia, a quem eu, repelia,
E então Tirésias tebano,
Levando o seu bastão de ouro, viu —me
E falou primeiro:
“Uma segunda vez? Por quê? homem de maus fados,
Face aos mortos sem sol e este lugar sem gáudio?
Além do fosso! eu vou sorver o sangue
Para a profecia.”
E eu retrocedi,
E ele, vigor sangüíneo: “Odysseus
Deverás retornar por negros mares
Através dos rancores de Netuno,
Todos teus companheiros perderás.
Depois veio Anticléia.
Divus, repouse em paz, digo, Andreas Divus,
In ofiicina Wecheli, 1538, vindo de Homero.
E ele velejou entre Sereias ao
largo e além até Circe.
Venerandam,
Na frase em Creta, e áurea coroa, Afrodite,
Cypri munimenta sortita est, alegre, orichalchi, com dourados
Cintos, faixas nos seios, tu, com pálpebras de ébano
Levando o ramo de ouro de Argicida.

domingo, 19 de março de 2017

A pátria real e a pátria imaginária

A pátria real e a pátria imaginária

Rogel Samuel

“Não sejas um escritor, mas um profeta”, diz o verso de Antonio Quadros (1923-1993), o poeta português. Certamente assim os poetas eram conhecidos, na Grécia antiga. Que é um profeta? Profeta é o indivíduo que prevê o futuro, o que diz o que vai acontecer. “Não digas o que sabes nos teus versos, / Deixa para trás a ciência e a consciência; / Tudo aquilo que em ti não for ausência / São ideais perdidos, ou submersos.” É o poema. Não dizer o que sabe significa não repetir o passado, mas proferir o futuro, inaugurá-lo, fundá-lo. Falar do ausente, construir a presença daquilo que ainda não existe ou do que não está lá. O poema assim se chama “Poética contraditória”:

Não digas o que sabes nos teus versos,
Deixa para trás a ciência e a consciência;
Tudo aquilo que em ti não for ausência
São ideais perdidos, ou submersos.
Abandona-te às vozes que não ouves,
E liberta os teus deuses nos teus dedos;
Não busques os sorrisos, mas os medos,
E o que não for ignoto e só, não louves.
Ser misterioso e triste, é ser poeta:
Mesmo a luz que palpita nos teus cantos.
É uma imagem heróica dos teus prantos.
Percorre o teu caminho até ao fundo,
E com os versos que achaste, aumenta o mundo.
Não sejas um escritor, mas um profeta.

É um poema do livro de António Quadros “Viagem desconhecida”, de 1952. Nesta região desconhecida do porvir o poema se lança, ouvindo as vozes, liberando os seus deuses, os seus medos, o seu mistério, o seu pranto. É um mergulho no caminho do herói, ou seja, do profeta. Do que profere. O que diz o que não sabe, o que ouve o que não foi dito, o que vê o que não está na frente de seus olhos. Ou seja, entra nos portal heróico e perigoso do mito.
“António Quadros (1923-1993) defende que a nação portuguesa na sua essência (...) é dotada de um eschaton, de uma razão teológica, que consiste num diálogo ou numa dialética entre o humano e o divino: «Talvez nenhuma história humana, como a portuguesa, em seu esplendor, em seu claro-escuro e em seu negrume, seja tão dramaticamente exemplar desta dialéctica.» (...), escreveu Antonio Quadros Ferro (que deve ser seu filho). Ele chama isso de dialética entre Pátria Real e Pátria Imaginária.
“As caravelas já não partem deslumbradas a desvelar o Cabo. Não. O tempo é outro. Mas os pescadores portugueses continuam na praia a fixar com olhos estáticos o mar infindável e a viver e a lutar e a sofrer e a morrer o destino do mar.
E na imaginação das crianças e dos adolescentes, no inconsciente dos adultos frustrados numa fixação à terra que lhes parece injusta e odiosa, a ideia da aventura, da viagem, do descobrimento palpita como uma promessa e como uma fascinação" escreveu António Quadros.
Confira em:
http://antonioquadros.blogspot.com/

Todo progresso ruma para o nada

Todo progresso ruma para o nada












Todo progresso ruma para o nada

Rogel Samuel

(Na foto: Irã, ontem)

Diz Bloch que “o próprio processo do mundo é uma função utópica”.

O que ele quis dizer com isso?

Todo planejamento e transformação do mundo visa a uma utopia: é a Aurora que ainda ronda o mundo. Os anseios, as enteléquias. Segundo Aristóteles, “o resultado ou a plenitude ou a perfeição de uma transformação ou de uma criação, em oposição ao processo de que resulta tal criação ou transformação – é a enteléquia. Isto é uma energia. A forma ou a razão que determinam a transformação ou a criação de um ser”. A energia é “segundo Aristóteles, o exercício mesmo da atividade, em oposição à potência da atividade e, pois, à forma”.

A utopia é uma função pública. O que persegue o bem, o que acha que a sociedade se transforma.

O Brasil mudou, mas a grande media parece que ainda não percebeu. O que há na media: ela perdeu o poder de definir o real.

“Todas as novas modas já não servem para nada”. No mundo pós-moderno cada um vai por si.

Tudo se esvai. Fantasmas,

Benvenuto Celline conta que fantasmas foram projetados na fumaça no Coliseu.
Assim, “Le néant” de Montparnasse dizia: todo progresso ruma para o nada.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Bandeiras de ferro

BANDEIRAS DE FERRO


Foto de R. Samuel: Katmandhu.








Bandeiras de ferro

Rogel Samuel

Estranhas bandeiras são aquelas, que vi em Katmandhu, bandeiras de ferro. Acenam ao vento do alto da montanha, mas são, pesadamente, bandeiras do mais fero ferro. Parecem oscilar aos ventos frios que por ali passaram, adejando e ondulantes no ar limpo da tarde, mas são solidamente, asperamente, de ferro bruto.

Elas estão no alto da estupa de Soyambhu, têm um mantra de Kalachakra marcado como um carimbo ao centro, ao ventre, talvez para proteger o meio-ambiente, os arredores. Estou pasmo como naquele tempo eu pude tanto circular, tanto fotografar, tanto circumambular aquela extraordinária estupa.

Somos todos devedores dos ares que vêm de lá trazendo as graças, as bênçãos daquela estupa, com seus templos, com suas trompas, com suas bandeiras de ferro, imóveis, imobilizadas pelos anos perenes.

quinta-feira, 16 de março de 2017

A ELIZETH


A ELIZETH

Rogel Samuel


 Recebo um presente rico. Um extraordinário presente, de minha Amiga Lyra. É um disco, um primor de Elizeth Cardoso. Eu me lembro que tive outra amiga comum, vizinha e amiga de Elizeth. Uma dama, as três. Elizeth, dizia minha amiga, almoçava frugalmente. Uma fruta, umas folhas de alface. Lutava contra a gordura. Elizeth canta, divina. Me lembro de outras divas, como Montserrat Caballé e La Callas, que também lutaram contra a gordura. "A Sra Onassis é muito gulosa, mas não come nada. Apenas prova o molho com um pedacinho de pão, na cozinha", conta Christian Cafarakis, biógrafo de Onassis, que foi marinheiro no Cristina. Callas e Onassis brigavam diariamente, aos gritos. Dois temperamentos explosivos. Mas se amavam. Callas nada queria da fortuna dele. Quem deu despesa foi Jackie. Segundo o biógrafo, em três anos de casamento, Onassis deu-lhe 120 pulseiras, 50 de brilhantes, 500 pares de brincos, 300 colares, e mil anéis, além de uma coleção de pedras preciosas, soltas. O mais exótico presente foi um par de sandálias de veludo azul-rei, como "babouches", com um diamante de 16 quilates em cima, cercado de diamantes e esmeraldas em círculos e triângulos. O Sr. Onassis pagou por isso a soma de 120.000 dólares. Presente de aniversário de Jackie, em agosto de 1970. Elizeth canta, perfeita. Ela me lembra minha prima M., que a adorava, na juventude. M. era uma mulher belíssima. Meu pai a chamava de "bebecadum", não sei por que. Morava, quando jovem, na Tijuca. Na época a Tijuca era muito elegante. Tínhamos uma vizinha que desfilava num Cadilac branco, conversível, e que morava numa mansão, um pouco acima na Rua Des. Isidro. Nosso vizinho tinha um casal de filhos, jovens e belos. Foi com muita surpresa que, anos mais tarde, eu soube que o menino, hoje, é delegado de polícia, como o pai. Meu tio era vivo e nos levava à Barra da Tijuca, aos domingos. Era uma praia deserta. Minha prima M. casou-se com o empresário J., muito rico, que era muito meu amigo. Eles se foram para os Estados Unidos. A última vez que a vi  foi na década de 70, em casa da Mariza Raja Gabaglia, na época casada com um pecuarista. Em Ipanema. Eu estava ali com minha amiga R., quando minha prima M. chegou, com o marido. Década de 70. M. usava um vestido preto brilhante, os ombros à mostra, os cabelos soltos. Nenhum enfeite, nem uma jóia. Ornava-se de sua beleza. O salto altíssimo dos sapatos exaltava o porte de seu perfume. Dominava o ambiente, com seu sorriso de rainha. Agradável, simples e digna. Você pensa que a namorei?  Mariza Raja Gabaglia estava no ápice de sua fama e glória, como escritora e mulher. Sim, os anos 70, em Ipanema. Saíamos de madrugada e esticávamos no Degrau. Ou em algum botequim operário, onde era possível encontrar Mário Henrique Simonsen falando de ópera. Sim, vivi os anos 70. Tudo isso me sugere a Elizeth, a Divina. "Seu mal é comentar o passado..." canta ela. Muitos foram os anos que se passaram, Elizeth morreu. Morreu a Callas, o Onassis, a Jackie. Meu tio, meu pai e o empresário J. Todos morreram. A vida está morrendo. Os anos morrem. A vida, eu a recebi, um presente rico, como este disco da Elizeth.

quarta-feira, 15 de março de 2017

A APARIÇÃO NA ALAMEDA DE MALLARMÉ



A APARIÇÃO NA ALAMEDA DE MALLARMÉ - Rogel Samuel
Canta o poema “Aparição” de Stéphane Mallarmé (1842-1898), na deliciosa tradução de Onestaldo de Pennafort:
A lua estava triste. Arcanjos sonhadores
Em pranto, o arco nas mãos, no sossego das flores
Aéreas, vinham tirar de evanescentes violas
Alvos ais resvalando entre o azul das corolas.
— Era o dia feliz do teu primeiro beijo.
Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.
Eu ia à toa, o olhar no chão velho e tristonho,
Quando, trazendo nos cabelos um sol lindo,
Na alameda e na tarde apareceste rindo.
E eu julguei ver, com seu chapéu de luz, a fada
Que nos meus sonos bons de criança mimada
Sempre deixou nevar dentre as mãos mal fechadas
Punhados celestiais de estrelas perfumadas.
Se nós “traduzíssemos” — a lua se entristecia — poderíamos melhor sonhar com a atmosfera do poema. Sim, a lua se entristecia, como os arcanjos que voavam ao redor. A lua se entristecia e fazia os arcanjos chorar. Ou fazia chorar as suas violas lamurientas. O branco vem da lua para os “ais” das violas... Mas por que se entristeceria a lua? Aquele era o feliz dia do seu primeiro beijo, feliz e não triste. O poeta ia colher um sonho, o beijo do verso musical. O arco nas mãos dos anjos soa um pouco fálico, mas em Mallarmé tudo é obscuro. Ele ia, caminhava à toa, olhando o chão velho quando ela aparece com seu sol nos cabelos. Com seu punhado de estrelas nas mãos, para a criança, estrelas perfumadas. O poema parece simples, claro. Mas não, nunca se sabe. Em Mallarmé não.
A lua estava triste, mas o sol aparece. A tristeza ia ali, até que aparece o sol nos cabelos da amada. O poema opõe “sol” e “lua”. Geralmente o sol é masculino; como a lua, feminina. Geralmente. A lua pacifica e entristece. O sol aumenta e anima. É assim naquela mitologia tântrica. Aqui o poeta é lua, a amada sol. Não excepcional o fato de Mallarmé ser um poeta “maldito”. Os malditos são os que invertem as coisas, revolucionam e põem tudo de cabeça para o ar. A vida da poesia assim o faz. A poesia é a fada da criança mimada e voluntariosa em seus cuidados. Sem remorso, sem queixa. Não, não há romantismo, mas decadentismo. E simbolismo. Mallarmé faz dançar os seus símbolos, seus arcanjos e convivas do salão da Rue de Rome, no “verbo mágico” das suas “extravagâncias verbais”, na volúpia do seu famoso hermetismo, aqui não tão impenetrável. Evasão, magia, mas algo tênue: o poema é quase ainda parnasiano. Mallarmé ilumina as vitrines de palavras e imagens que dançam em festa galante na alameda da tarde. Por isso o poema musical, deliciosamente valsa.
Para me torturar, meu sonho, meu desejo
Embriagavam-se bem do perfume de queixa
Que mesmo sem remorso e sem motivo deixa,
No coração que o colhe, a colheita de um sonho.
— a música que a embaladora tradução de Pennafort mantém acesa, digo, audível, como em certas assonâncias:
me - meu - meu
vam-se - bem - perfume - quei
mes - sem - mor - sem
coração - colhe - colheita
— tão boa quanto o ritmo do original francês:
Ma songerie aimant à me martyriser
s'enivrait savamment du parfun de tristesse
que même sans regret et sans déboire laisse
la cueillaison d'un rêve au coeur qui l'a cueilli.
Sim, sim, as soluções de Pennarfort são sempre ótimas. Mas ele acaba escrevendo um novo texto. Outro poema. Paródia.

MALLARMÉ

MALLARMÉ


 retrato por Nadar


BRISA MARINHA

  
A carne é triste e eu, ai! já li todos os livros,
Fugir! Fugir pra longe. Ouço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noites! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países,
Um Tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.

(Brisa Marinha, poema de Stéphane Mallarmé. FONTE: Antologia “Oiro de vário tempo e lugar  - De São Francisco de Assis a Louis Aragon-”. Versão por A. Herculano de Carvalho. Porto-Portugal: O oiro do dia, 1983.)

Original:
BRISE MARINE
La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les  livres.
Fuir! là-bas fuir ! Je sens que des oiseaux sont  ivres
D´être parmi l´écume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retriendra ce coeur qui dans la mer se  trempe
O nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l´ancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l´adieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux qu´un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon coeur, entends le chant des  matelots!



ENVIADO POR AMELIA PAIS