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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Tiradentes


Tiradentes


Rogel Samel

Novamente em casa. O Rio parece cinzento. Ouço um ruído de carro e aviões ao longe. Os aviões, estou na rota. Vão para o Santos Dumont. O Rio ainda dorme. Preparo-me para dar a minha caminhada. É bom estar em casa, mas saudades de Tiradentes e da minha amiga Lyria. Espero que ela me esteja lendo. O meu amigo Dílson Lages Monteiro escreveu um poema sobre Tiradentes:

Palpitam e apitam
Em ruas de rumores e estações
As pedras palpitam minas e ouro
Palpitam como as encostas da serra
Palpitam nuvens e cerração
O céu de sol e sombra
em silêncios e orações.

A Maria Fumaça parada, parada
na viagem derradeira
reviva em cada charrete
Como o passado em ilusão.

Tiradentes palpita.
As encostas da serra
As ruas de pedras
Palpitam e apitam paradas.

Nos rumores da estação
Palpita a Maria Fumaça
Em cada charrete apita.
Palpita e apita

Tiradentes parada.

Como este poema me soa a Tiradentes! Cidade parada, amada. As pedras da Serra de São José nas pedras das ruas.
Sobre elas, as charretes passam.
Mas o tempo, esse lambido de gato,
Não passa.
Ali não passa.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Tiradentes


Tiradentes

Rogel Samuel

Cidade parada no tempo. Cidade de poucas pessoas. Em cada esquina uma pousada, uma loja de móveis e antiguidades. Minha amiga X. quer que eu venha morar aqui. Não consigo. Escrevo numa Lan-house. Na pousada a TV não está funcionando, nem a Internet. Estou em paz, fora do tempo, das notícias, dos terrores e dos assaltos. Não sei o que se passa no mundo, senão vagamente. Em lugar do calor carioca há um friozinho pela madrugada. O mundo aqui parou.

Haverá pouca coisa a esquecer:
O vôo dos corvos,
Uma rua molhada,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o pôr-do-sol,
Três palavras que o mundo sabe,
Pouca coisa a esquecer.

Será bem fácil esquecer.
A chuva pinga
Na argila rasa
E lava lábios,
Olhos e cérebro.
A chuva pinga na argila rasa.

A chuva mansa lavará tudo:
O vôo dos corvos,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o pôr-do-sol.
Lavará tudo, até chegar
Aos duros ossos desnudados,
E os ossos, os ossos esquecem.


Archibald McLeish

Tradução de Manuel Bandeira