terça-feira, 15 de janeiro de 2019

O pó dura para sempre

O pó dura para sempre




Hoje é sábado. Frase que se tornou clássica por Vinícius. Amanhã talvez não chova, como hoje.


"E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.


"Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?


Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua".



Isso escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Ali se esconde um novelo místico, ou científico. O que dura é o pó. Ou: "Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris" (Genesis 3:19 ). O mundo reduzido a cinzas. "In sudore vultus tui vesceris pane donec revertaris in terram de qua sumptus es quia pulvis es et in pulverem reverteris".

AS ANDANÇAS DE STRADELLI PELO AMAZONAS

Antonio José Souto Lourei
15 h

AS ANDANÇAS DE STRADELLI PELO AMAZONAS
PARTE I

ANTONIO LOUREIRO
Quando seu pai morreu, Stradelli suspendeu os estudos de Direito, que fazia em Pisa, e resolveu ser um explorador de terras ainda pouco visitadas e desconhecidas, a contragosto da sua mãe, que não aprovava essa ideia, principalmente para tê-lo perto de si. Apesar desse fato, preparou-se para aquilo que sempre desejara ser: geógrafo e etnólogo. Para tanto aprendeu topografia, farmácia, homeopatia, etnologia, botânica, zoologia, e até fotografia, lendo tudo o que podia sobre esses assuntos, pois estava vivamente interessado em visitar a África.
De repente houve uma mudança de planos e se voltou para o Brasil, no que foi apoiado pela Real Sociedade de Geografia Italiana, passando a estudar português e espanhol, no que pode ter sido influenciado pelas notícias da Ordem Franciscana, então empenhada na evangelização dos indígenas da Bacia Amazônica. Estando tudo pronto e preparado para a execução do seu ideal, embarcou para o Brasil, em 1879, chegando a Manaus, no mês de julho.
Iniciavam-se os quarenta e sete anos de vida dedicados à Amazônia..
Manaus aumentava celeremente de tamanho desde quando o Mundo necessitara cada vez mais da borracha natural, para atender a demanda das novas descobertas como os pneus para bicicletas e automóveis, e as capas de isolamento para fios elétricos e telefônicos. A partir deste momento, o simples vilarejo de pouco mais de 10.000 habitantes, sem atrativos, ou possibilidades de progresso tornar-se-ia em uma metrópole moderna de mais de 100.000 habitantes, em 1910, com todos os equipamentos urbanos, que a maior parte das cidades brasileiras então não possuía: telefones, em 1887; água encanada, desde 1888; eletricidade e bondes elétricos, em 1894; cabo submarino, em 1896; esgotos, em 1906, além de ruas largas, jardins floridos e prédios colossais, como o Teatro Amazonas. E corria muito dinheiro, sendo um dos grandes centros compradores de diamantes do Mundo. A Amazônia de então estava mais ligada às cidades da Europa e América do Norte, do que ao restante do Brasil, através de linhas de navegação inglesas e alemãs, e mais tarde, através da Ligure Brasiliana, ao Mediterrâneo, com Gênova, via Marselha, Barcelona, Tanger, Lisboa e Madeira.
A Inglaterra, da qual a Amazônia era uma colônia econômica, além da navegação interna, controlava os investimentos da infraestrutura, as exportações e as importações de borracha e alimentos, pois o Brasil não tinha produção suficiente para fornece-los aos seringais, os navios necessários ao fluxo da produção, fabricados em Glasgow e Liverpool. Na realidade, os laços da Amazônia com o restante do País eram meramente políticos e tradicionais.
Em Manaus respirava-se praticamente borracha, que representava quase 100% da sua monolítica economia. Sem erro, a Amazônia era a maior leoa do Império Britânico, e dela saíam anualmente o equivalente a 600 toneladas de ouro, em borracha.
postado por ISAAC MELLO

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O índio Arimoque

O índio Arimoque















O índio Arimoque


Neuza Machado



O índio Arimoque - possivelmente, um passageiro personagem ficcional - é citado apenas uma vez na extensão geográfico-narrativa do Seringal Manixi, mas sua presença lendária realça-se imensuravelmente, alcançando o plano ilimitado das palavras não-ditas. A sua rápida aparição põe-se em evidência justamente porque, assim como um meteoro brilhantíssimo passando pela terra, a lembrança de seu halo monumental continua a iluminar o espaço narrado. Por que um índio lendário, poderoso, se tornou “prisioneiro” dos fúnebres limites do Seringal? Seria ele também um representante da tribo dos Caxinauás pacificados? Se existiu realmente, sua fama ficou reservada por via oral apenas para privilegiados amazonenses. Nas lendas indígenas, conhecidas textualmente, não há o nome deste índio, assinalado rapidamente no romance O Amante das Amazonas.


O índio Arimoque só aparece neste parágrafo. No entanto, posso afiançar que sua rápida menção possui importância capital no desenrolar narrativo. Diz o narrador: “Suas histórias fantásticas circulam até hoje pela região”. Com a permissão do relato, vou buscá-las por meio de uma aproximação histórica intuitiva, não autorizada cientificamente.


Examinando informações generalizadas sobre os diversos nomes de tribos da região amazônica mencionadas nesta obra ficcional do final do século XX - principalmente das que se assemelhassem à possibilidade de o nome do índio Arimoque ser um patronímico, denunciando assim a sua origem genética - e procurando semelhanças fonéticas entre as grafias encontradas, avistei alhures uma referência aos índios Aruaques (comedores de farinha), também conhecidos por Kali’na ou Caraíbas. Esses Aruaques (ou Aruakes ou Arahuaco em espanhol), mesmo fazendo parte dos grupos indígenas do Brasil, são oriundos de outras localidades tais como Flórida (atualmente, região comandada pelos Estados Unidos da América do Norte), Porto Rico, Cuba, Antilhas, Bahamas, na cadeia secundária da Cordilheira dos Andes, e outros tantos e inúmeros locais da América do Sul. Os Aruaques são lendários, por isto obriguei-me a sinalizar uma aproximação genética deles com o índio Arimoque, da narrativa ficcional aqui assinalada. Possivelmente, o narrador optou por espécie de corruptela semântica para nomeá-lo rapidamente, em um criativo simulacro lingüístico. Não é a ficção pós-modernista a arte de imaginar o real? E, por ventura, a crítica literária não deveria se posicionar de acordo com o objeto estudado?


O fogo da labareda da serpente - Sobre O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

CONHECES A REGIÃO DO LARANJAL FLORIDO?

CONHECES A REGIÃO DO LARANJAL FLORIDO?














CONHECES A REGIÃO DO LARANJAL FLORIDO?


Rogel Samuel

No início da "Canção de Mignon" de GOETHE misterioso verso: "Conheces a região do laranjal florido?" No original há um "lá", que se repete (Dahin, dahin), objetivando transcendência que a tradução excelente de João Ribeiro manteve. Um lá (Mignon) que talvez se refere a certo lugar na Itália, diz Eça de Queiroz, n'O mandarim. Um lieder de Schubert, de 1816. A terra privilegiada onde o laranjal floresce ouro (Citronen blühen). Um "lá... bem longe, além", que aponta para lugar, a princípio
paradisíaco, onde o sujeito do poema nos convida a ir, com ele, onde dourados pomos brilham na escuridão (Gold-Orangen glühen), e no céu azul a brisa, tudo em paz, nada move, nada passa, nem a vida, nem a glória (nem o louro)... Não a conheces tu? Quisera ir-me contigo...

Conheces a região do laranjal florido?
Ardem, na escura fronde, em brasa os pomos de ouro;
No céu azul perpassa a brisa num gemido...
A murta nem se move e nem palpita o louro...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu querido bem!

[Kennst du das Land, wo die Citronen blühen,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühen?
Kennst du es wohl? — Dahin, dahin!
Möchtl ich... ziehn.]

A estrofe epígrafe de "A canção do exílio", de Gonçalves Dias, por isso a transcrevo. Não sei alemão. João Ribeiro, sábio e erudito filólogo carioca (1860-1934), também poeta. Hoje esquecido. Não mais editado. Em 1932 escreveu um ensaio sobre Goethe. Foi jornalista, catedrático do Pedro II. Soube dar e transpor o clima da "A canção de mignon".

A casa, sabes tu? em luzes brilha toda,
E a sala e o quarto. O teto em colunas descansa.
Olham, como a dizer-me, as estátuas em roda:
- Que fizeram de ti, ó mísera criança!
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Quisera ir-me contigo, ó meu senhor, meu bem!

Súbito, Goethe introduz, nessa região maravilhosa, fantástica, irreal - uma casa! Sólida casa, como deve ser a tradição familiar: "O teto em colunas descansa". Casa paterna, a sala e o quarto, o mais íntimo das forças arquitetônicas do espírito ("sabes tu?), que olham, falam, vêem a desgraça a que fomos reduzidos ("que fizeram de ti, ó mísera criança?") - não, não a conheço, não a reconheço, a casa de meus pais, no além, no bem longe, aonde o poeta me levou. Meus familiares estátuas tumulares...

Conheces a montanha ao longe enevoada?
A alimária procura entre névoas a estrada...
Lá, a caverna escura onde o dragão habita,
E a rocha donde a prumo a água se precipita...
Não a conheces tu?
Pois lá... bem longe, além,
Vamos, ó tu, meu pai e meu senhor, meu bem!

Goethe introduz palavra-chave, palavra grave, palavra-montanha, ponto de fuga, de onde a dor se despedaça: meu "pai". Não só pai, mas pai e "senhor", com os semas que a idéia de senhor nos traz, nos põe, dispõe,
na mesa da leitura, do poder, da Lei. Do nome, do não. Goethe e João Ribeiro têm algo em comum além das "afinidades eletivas": a idéia, a ideologia do pai. João Ribeiro não teve pai (faleceu cedo), foi criado
pelo avô, "culto e liberal" (diz Afrânio Coutinho). Goethe cultuou o pai, herói. Entre eles se estabelece laço cúmplice da volta ao Pai. Meu pai, cuja língua materna era o alemão, recitava Goethe de memória. Mas a
montanha está enevoada, envolvem-se os mistérios de grandeza... os animais procuram estrada... lá reside o perigo - o dragão! - na Caverna escura, indevassável, uterina, se verte a água, da vida, que a prumo se
precipita, nas veias do destino... Não a conheces tu? É lá, lá...

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O sol do verão


O sol do verão


Rogel Samuel


O sol, o verão. O brilho intenso, os ares claros, as nuvens raras. No Rio é tempo de mar.

         Lembro-me de crônica de Rubem Braga, sobre o começo do verão.

         Um dia - e não sei se já contei - estávamos na biblioteca da Faculdade que na época era a FNFi, ou Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Ficava onde hoje está a Academia de Letras.

         Era manhã cedo.

         Entra um bêbado.

Um homem em desalinho, mas bem vestido.

Grita:

         - Tem meus livros aí?

         Ivete, a diretora da biblioteca, manda chamar os funcionários para que ponham para fora o intruso.

         Mas não deixamos e ele se reuniu conosco.

         Era Rubem Braga.

         Tinha acabado de ser embaixador, ou coisa assim.

         Não disse quem era, mas nos contou sua vida (com detalhes indiscretos que não devo contar).

Escreveu um poema para minha amiga Maria Alice (que faleceu).

         Falou de literatura, poesia, vida. De Copacabana.

         Narrou suas mágoas.

Braga é um dos maiores escritores do país.

Seu texto, comparável a Clarice, a Machado, a Francisco Manuel de Melo.

Dom Francisco Manuel de Melo (1608-1666) é autor da CARTA DE GUIA DOS CASADOS, escrita na prisão, que fala 'do amor e da obediência'.

Diz Manuel de Melo: 'Não sou já mancebo. Criei-me em cortes; andei por esse mundo; atentava para as coisas; guardava-as na memória. Vi, li, ouvi."

O texto seco, sem adjetivos, direto e elegante. Como eu gosto.

' Estes serão os textos, estes os livros que citarei a V. Mercê, neste papel; onde, juntas algumas histórias que me forem lembrando, pode muito bem ser não sejam agora menos úteis que essa máquina de gregos e romanos, de que os que chamamos doutos, para cada coisa nos fazem prato, que às vezes nos enfastia'.

Mas meu assunto é o sol.

O sol do verão me alucina.

         E de Braga a D. Francisco Manuel de Melo passei.

Precisamos aprender a escrita com D. Francisco. E a bem casar.

Minha amiga X me critica. Diz que a minha linguagem é telegráfica.

Sim. É. Corto mais do que introduzo palavras.

Meu ideal é escrever uma crônica de uma única linha.

domingo, 30 de dezembro de 2018

AS ONDAS DO TEMPO DESTE FIM DE ANO















AS ONDAS DO TEMPO DESTE FIM DE ANO



Rogel Samuel




Que a última estrofe de «O cemitério marinho» de Paul Valéry assim canta:

«Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! »

Uso a extraordinária tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
O poema enorme, difícil.
Desde que o li, pela primeira vez, há mais de quarenta anos, tento penetrar no mar de seu sentido. Às vezes, parece entender-se. Outras vezes, inatravessável é o seu mar. Mas sempre o sinto, o que importa. O que importa é sentir um poema. Não «interpretá-lo». Os intelectuais matam o poema, intelectualizam-no. Por isso Barthes foi tão bom crítico. Barthes fazia o texto falar, deixava-o falar-se.

«Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses! »

Seja como for, Valéry nos abre à imaginação o grande oceano da morte. Mas «recomeçando sempre». Sempre, «sobre a calma dos deuses».
Sei que não é algo para ser lido no Ano Novo, mas que tema mais religioso do que a morte neste túmulo do oceano de «tanto diamante de indistinta espuma », onde «quanta paz parece conceber-se!».

«Quando repousa sobre o abismo um sol,
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria. »


O poema tem ímpetos de infinito, abre-se para a eternidade, «massa de calma e nítida reserva»:

«Água franzida, Olho que em ti escondes
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!»

Valery disse que seu poema é sua «poesia verdadeira», mesmo as passagens mais abstratas. Disse que via ali uma espécie de «lirismo» , algo «abstrato mas de uma abstração motriz mais que filosófica».


Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Diz da vida, do amor, da ordem e desordem da vida e do amor, do mar e do sol, das colinas das ondas, da chave do mistério do «mar de nossa conversa», como dizia Cabral:


Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

É uma reflexão sobre o tempo:


Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.


É uma reflexão sobre os movimentos das ondas da vida:

A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.

O poema foi publicado no número de junho de «La Nouvelle Revue française», mas ele deve ter trababalhado no poema desde muito tempo.


Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.


Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.



Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o
Teto tranqüilo, onde bicavam velas!

É esta tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia que me ocorre das ondas do tempo neste Novo Ano.

chuva na cidade

chuva na cidade
rogel samuel
porteiros lavam as calçadas
ou varrem para o meio-fio
viúvas saem a passear com o cão
andando devagar
homens de terno tiram os carros das garagens
deixando dormindo suas esposas
que sonham com suas asas
há uma brisa fresca neste verão
o dia nublado

sábado, 29 de dezembro de 2018

Cada ser humano é uma estrela

Cada ser humano é uma estrela





Cada ser humano é uma estrela

Rogel Samuel


"Como explicar que aquele pianista que morre de medo antes de entrar em cena depois seja possuído de grande e jubilosa alegria?", pergunta Alain. Talvez porque seus dedos não sabem o que é ter medo, e o medo é um fantasma da sua cabeça. Esse é o sentido do "treinamento" do corpo.

Em tudo podemos nós treinar. Eu escrevo diariamente como "treinamento", como um pianista que depende de várias horas de estudo por dia para poder estar sempre em forma: Quando se senta ao piano, "naturalmente" seus dedos sabem o que fazer e aquilo se torna para ele uma verdadeira natureza, ele naturalizou e se integrou com o piano. Nós somos capazes de muitas coisas desde que treinemos. Como os lutadores treinam e se adestram. E como há uma integração do corpo com a mente, vencemos alguns obstáculos.

Este é o sentido da disciplina.

A disciplina não é uma canga rígida, que estrangula o corpo. Ela permite que nos libertemos constantemente de nós próprios, disse Dugpa Rinpochê.

Creio que sem alegria não há disciplina. Sem prazer.

O maior obstáculo é aquela sensação enorme de um “eu” que há em nossa mente.
O “eu” é um fantasma que nos segue como uma sombra.

Quando começamos a nos exercitar, esquecemos temporariamente do “eu”.
Aí somos felizes.

Os conflitos, o ódio, a violência, provêm de um sentimento enorme de um eu ferido, nascido de desconhecimento de si mesmo, que gera dor e confusão, disse o Rinpochê.

“Não somos nada, tudo é o que almejamos”, escreveu mais ou menos Heidegger na Floresta Negra.

“Não duvides do teu próprio esplendor interior. Cada ser vivo é uma estrela”, disse Dugpa Rimpochê.

São pensamentos contraditórios. Mas sem a contradição não damos conta da dialética da realidade, diz o materialismo histório marxista.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A perda de um grande amigo: Benedito Nunes


A perda de um grande amigo: Benedito Nunes

Rogel Samuel


Soube de sua morte no blog do Zemaria Pinto, no “Palavra do fingidor”.

A última vez que o vi foi na UFAM, em Manaus, durante um seminário. Eu estava sentado a seu lado, junto com sua esposa, conversamos muito e dele ganhei um exemplar de uma revista acadêmica. Depois de tantos anos, ele me reconhecera. Tinha uma memória privilegiada, uma inteligência imediata, uma cultura enciclopédica, e uma humildade e simplicidade cativantes.

Ele era um grande mestre, respeitado no mundo todo, até por nomes como Foucault.

Foucault veio de Paris para visitá-lo, e se hospedou em sua casa, na praia.

Também estive com ele na Editora Vozes, na UFRJ, em alguns poucos encontros. 

Mantive uma correspondência com ele.

Foi pouco. Mas a companhia de um Mestre tem efeito multiplicador.

Encontro agora uma pequena carta que me escreveu:

“Belem, 17.12.86

Prezado Rogel Samuel:

Só agora – tantos foram “os trabalhos e os dias” de viagem neste ano - posso agradecer-lhe o artigo com referencias à minha pessoa. Também agradeço o Teolit, livro de um Mestre, igualmente Inventor, que me ensina a ensinar.

Um abraço do

Benedito Nunes”

Não encontro outra carta, no meio da papelada desorganizada em que vivo.

Mas a dor de sua perda.