domingo, 22 de abril de 2018

A mulher que passa

A mulher que passa








A mulher que passa


Rogel Samuel



Passa. Ela passa, a viúva, elegante, balanço, o festão, o debrum, nobre, exata, ágil, belas pernas de estatuária, passa, e ele a vê, do café onde bebe ele a vê, perdido, crispado, ele a vê, a sente, a sabe, no seu olhar há o germe de um furacão, no seu olhar há a
doçura que se embala, há o frenesi que mata, o relâmpago... ou é o tempo, a noite? Ele, a aérea beldade, e de seu olhar vem um relâmpago de renascimento... ela a verá outra vez?
ou só a verá por um instante na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais.



A uma Passante

A rua em derredor era um ruído incomum,
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;
Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que se embala e o frenesi que mata.
Um relâmpago, e após a noite! - Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?
Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995.
Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

sábado, 21 de abril de 2018

Pitigrilli

Pitigrilli, o esquecido


Pitigrilli, o esquecido

Rogel Samuel


Li na juventude muitos livros de Pitigrilli. Ele se chamava Dino Segre (Turim, 9 de maio de 1893 — Turim,
8 de maio de 1975) era italiano.



Em Pitigrilli fala de Pitigrilli, uma das últimas obras, mostra sua opção pelo espiritismo, ou, pelo menos, sua enorme curiosidade pelo lado oculto das religiões. Já estava em idade avançada e morava em Buenos Aires, Argentina, onde se refugiou. Influenciou alguns autores e pensadores italianos, argentinos e brasileiros, como Guido Gozzano, Flavio Bonfá e Julio Cortázar.

Por isso fiquei feliz em encontrar

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/castidade.html

Ninguém mais lê Pitigrilli.

Só eu.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

SUTRA DE PROTEÇÃO CONTRA ARANHAS ETC

SUTRA DE PROTEÇÃO CONTRA ARANHAS ETC

KHANDHAPARITTAM

A Proteção contra Khandha

Isto foi ouvido por mim:
Certa vez o Sublime permanecia em Savatthi, Bosque Jeta, parque de Anathapindika e, nas imediações, em Savatthi, um certo monge morreu ferido por uma cobra. Então, em verdade, muitos monges se aproximaram de onde estava o Sublime, e tendo-se aproximado, O saudaram e sentaram-se a um lado. Depois de sentados, em verdade, aqueles monges falaram para o Sublime deste modo: “Aqui, em Savatthi, um certo monge, tendo sido ferido por uma cobra, morreu”.

[E o Sublime disse então:] “Em verdade, ó monges, aquele monge não saturou os quatro reinos de serpentes com uma amorosa mente. Se, ó monges, em verdade, aquele monge tivesse permeado os quatro reais clãs de serpente com a mente amorosa, ó monges, em verdade aquele monge não teria morrido tendo sido ferido por uma serpente. E quais são os quatro reais clãs de serpente?  O real clã de serpente Virupakkha, o real clã de serpente Erapatha, o real clã de serpente Tchabyaputta, o real clã de serpente Kanhagotamaka. Em verdade, ó monges, aquele monge não saturou os quatro reais clãs de serpente com amorosa mente. Se, em verdade, ó monges, aquele monge tivesse saturado estes quatro reais clãs de serpente com amorosa mente, ó monges, em verdade aquele monge não teria morrido se ferido por serpente. Eu conclamo a vocês, ó monges, de permear estes quatro reais clãs de serpente com amorosa mente, para a segurança pessoal, para a proteção pessoal”. O Sublime disse isto. Tendo dito isto, o Caminhante, o Mestre outra vez proferiu assim:

1.  Meu amor está com os Virupakkhas
Meu amor está com os Erapathas
Meu amor está com os Tchabyaputtas
Meu amor está com os Kanhagotamakas

2.  Meu amor está com quem não tem pés
Meu amor está com quem tem dois pés
Meu amor está com quem tem quatro pés
Meu amor está com quem tem muitos pés

3.  Que não me fira nenhum que não tenha pés
Que não me fira nenhum que tenha dois pés
Que não me fira nenhum que tenha quatro pés
Que não me fira nenhum que tenha muitos pés

4.  Possam todos os seres, todos aqueles com vida
Possam todos aqueles que retornaram
Em sua totalidade
Possam todos ver o que é bom
Que nenhum mal venha a sofrer

O Buddha é ilimitado, o Dhamma é ilimitado, a Sangha é ilimitada, mas os corpos têm limites. Serpentes, escorpiões, centopéias, aranhas, lagartos, ratos. A segurança deles foi feita por mim. A proteção deles foi feita por mim. Possam estes seres recolher (a suas habitações).

Que eu adoro o Sublime, adoro os sete completamente iluminados.

PELA FORÇA DESTA VERDADE POSSAM AS TRÊS JÓIAS PROTEGER VOCÊ!  (Três vezes)

CUIDADO COM A ARANHA MARRON... FOI ENCONTRADA NO RIO DE JANEIRO... ESCONDE-SE NOS SAPATOS E ROUPAS... O SORO SE ENCONTRA NO INSTITUTO VITAL BRASIL, EM SANTA ROSA, NITERÓI... ELA É PEQUENA A GENTE SÓ CONSEGUE SENTIR 3 DIAS DEPOIS... PODE NECROSAR E ATÉ MATAR... HÁ UMA EPIDEMIA DELAS...

sábado, 14 de abril de 2018

O MORCEGO

O MORCEGO
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica dasede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede...”
-- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!
AUGUSTO DOS ANJOS

quarta-feira, 11 de abril de 2018

MORRE MASSAUD MOISÉS

Massaud Moisés (São Paulo9 de Abril de 1928) foi um professor titular da Universidade de São Paulo (USP), Brasil, de 1973 a 1995, ano em que se aposentou. Faleceu no dia 11 de Abril de 2018 vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

casa abandonada

casa abandonada
rogel samuel
as janelas estavam assassinadas
assistiam a tudo
ao mar, às aves, à montanha
nunca mais fechadas
fecundadas de vento
arrebatadas de sol
batidas pelo firmamento
e as janelas nunca mais se fecharam
porque não havia ninguém mais lá dentro
porque os poros da casa se abriram
às verdejantes trepadeiras
que cobriram todo traço do passado

terça-feira, 10 de abril de 2018

E SOMENTE A NOITE COMPREENDIA AS SUAS PALAVRAS

E SOMENTE A NOITE COMPREENDIA AS SUAS PALAVRAS

E SOMENTE A NOITE COMPREENDIA AS SUAS PALAVRAS

Rogel Samuel


- E tu, última sombra, demais não será para saltares do chão pedir e pelo bosque voares? Em ti já as figuras sutis se delineiam das finais invisíveis. O do rastro não é senão o de meu desatinado rumo.
- Aonde foram eles, aonde, aonde? Ao fim do mundo?
         «...et la nuit seule entendit leurs paroles...» - cantava Verlaine.
- Gruta de luz! Gruta de luz!
Lá fora, gigantes chamam para a luta.
- Que gigantes? Avança, prepara o combate, as grandes armas já ouço, que rolam, pesadas como bolas, de aço e no vácuo tempo de entrechocarem-se. Avança! O que está cumpra-se de imediato, escrito, o cortinado abra-se da cornija do luar,  que a fina roupagem de gaze a veste, que seja desnudado o limbo, vai. Vai, e a vida valerá teu grito de socorro. E a angústia tua nos gigantes clama para a luta?
         Mas nada. O bosque morto, daquele halo de leite impregnado, de lua e o seu silêncio como diáfano véu circulando como cobra que serpenteia entre as árvores...
«A lua branca, no bosque brilha. De cada ramo, parte uma voz: Oh, bem amada!»
Lá bem longe, sopram os gigantes grandes tubos e escudos dos ventos. Mas não aqui, nessa calma, massa lassitude plácida. A gruta se enviesa em si. Velam-se as paisagens em harmonia oblíqua. Desço a ladeira, saio da massa da paisagem, intocado. Passo. Em vão. Cruzam-me ruas, calçadas em diagonal, lusco-fusco, molhadas da madrugada, vitrificadas do nada, amassadas por grandes árvores escuras que se curvam no meio do vento como comadres assanhadas. As folhas escorregam pelo chão. Não é rua, mas o Bois de Vincennes, Paris. Os lencinhos das folhas das árvores caem. Flutuam, gélidos.
Um vulto cabisbaixo sob as formidáveis árvores passa, envolto em manto preto, desaparecendo mergulhado na neblina de luz da lua. É uma velha. Que prossegue. Ela fala baixinho e sozinha gesticula (balbuciando talvez suas coisas do passado, referindo-se a seres que já morreram, ou será uma prece repetida em murmúrios por aléias velhas ali mesmo onde talvez ela conhecera seu jovem amor, talvez).
Eu a sigo. Vejo-a esconder de mim umas notas velhas, amassadas, amarradas em nó de pano. Talvez pense que sou um ladrão (e talvez eu mesmo seja), do tempo, do passado, de histórias de narrativas... aquilo não é dinheiro, mas algo mais precioso, mais raro, as velhas cartas de amor, sobras daquela era curva de preto. Ela já não me vê, mas pressente, eu a sigo, como um assassino. Ela prossegue, figura embaçada, saída das brumas do seu desconhecido passado.
         Agora chove.
         Pois na face da paisagem (aquelas árvores encurvadas sob a chuva fina, aquelas aléias e o lago por cuja superfície lisa onde cai a gélida geada) aquela mulher prossegue já coberta pela sombrinha... eu estou perto daquele templo tibetano karma-kagiu, a velha meio torta, resmunga alguma coisa para um invisível ser a seu lado, apontando-o, acusando-o com o dedo indicador, em ameaça: «você me abandonou», parece gritar.
Mas, louca, um sorriso se esmalta, e depois a estranha gargalhada, sardônica, louca teatralidade, que se espalha, por todo o espaço do mundo daquele bosque se espraia... a vera, a realidade da horrível comédia... o sorriso...
         Oh, poucos puderam presenciar tão rara de face para o meio da noite escura, naquela facetada madrugada, pois a senhora parou, sem me ver, ria-se tragicamente para a capa do copa daquelas grandes árvores altas, falando aquelas incompreensíveis coisas naquele idioma histórico, desusado, arquivado e raro... e desapareceu como a sombra da neblina onde fiquei à espera de que os grandes gigantes aparecessem para a minha luta.

(FOTO DE R. SAMUEL)

sábado, 7 de abril de 2018

Noite negra

Noite negra
Noite. Noite negra, nesta montanha.
Unidos pelo mesmo hálito,
o mesmo manto sem estrelas.
Nesse mundo, onde estamos nós?
Nessa noite negra. Tão negra
que deixamos acesa aquela luz.
Entre nós. Nossas luzes.
Negra noite
ROGEL SAMUEL.

um poema azul

um poema azul



um poema azul
sai da parte nova
da velha cidade
que escreve a cena
do azul poema
sob sol tão belo

por que neste zelo
esta cor tão velha
renova revela
risco no vermelho
sua prova senha
que azul aceita

por que neste traço
não se lança, pássaro
sobrevoa aquela
longínqua montanha?

esta cor tamanha
faz-me prisioneiro
e do ar cordeiro
que do texto inteiro
sou escrito nela?

leva me revela
sobrevejo aquela
forte aquarela
e naquela tela
me lanço no ar.

meu amor primeiro
vejo-te inteiro
neste meu ofício
de fantasiar.

mas triste é a noite
e esta senhora
que me trouxe a hora
para vida a fora
eu me lastimar.

cada vez mais perto
estende o seu mundo
seu ponto segundo
seu sagrado ato:
que não creio revele
seu pior segredo:
nem por mais sentir
o menor dos medos
pois neste ofício
pois neste tinteiro
o azul faz poema
e a tua pena
vai-te envenenar.


ROGEL SAMUEL
(maio de 2.000)