domingo, 19 de outubro de 2008
A REFLEXÃO
Rogel Samuel
O caso de Santo André nos lembra que nos Estados Unidos os casos de violência contra a mulher são praticadas por latinos. Foi assim que aconteceu com minha amiga X, que é amazonense, e que foi agredida pelo namorado.
A polícia lhe deu todo apoio.
Mesmo um pai que agride a filha revolta a sociedade. Minha ex-professora de inglês contou que seu pai avançou contra ela e ela fugiu trancando-se no quarto e chamou a polícia, que veio e complicou a vida do pai.
A violência brasileira ainda persiste: pais agridem os filhos, homens agridem as mulheres.
A menina de Santo André pode levar a uma reflexão mais aprofundada.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
ÌNTEGRA DO BATE-PAPO COM ROGEL SAMUEL
ÌNTEGRA DO BATE-PAPO COM ROGEL SAMUEL
http://www.dilsonlages.com.br/coluna_cont.asp?id=1027
Moderador Entre-textos: Boa noite! A partir de agora você conversa com o escritor Rogel Samuel
Data 17/10/2008 20:03:08
Rogel Samuel: Boa noite a todos.
Data 17/10/2008 20:04:09
Dílson Lages: Boa noite, amigo! Rogel, Você já me afirmou que a quarta edição do Novo Manual é a que mais lhe apraz. Por quê?
Data 17/10/2008 20:05:27
Rogel Samuel: Sim, principalmente porque até agora não li nenhum erro ou frase que eu poderia deixar melhor
Data 17/10/2008 20:05:57
Rogel Samuel: O texto foi reescrito quase totalmente. Novos conceitos foram introduzidos. Parece que está bem, pois já está na quarta edição.
Data 17/10/2008 20:06:30
Rogel Samuel: Fiz o melhor que pude.
Data 17/10/2008 20:07:23
Teresa: Professor entrei na universidade agora em São Luís no Curso de Letras e estou tendo uma certa dificuldade para gostar de literatura. O que o senhor acha que devo fazer?
Data 17/10/2008 20:07:50
Rogel Samuel: Temos 80 páginas a mais.
Data 17/10/2008 20:08:07
Rogel Samuel: Teresa, você deve procurar um romance ou um poeta do seu gosto. Existe uma coisa que se chama - crítica do gosto.
Data 17/10/2008 20:09:20
Dílson Lages: O que mudou em relação as edições anteriores do ponto de vista teórico?
Data 17/10/2008 20:09:26
Rogel Samuel: Mudou alguma coisa sim. Novos capítulos foram introduzidos e outros refeitos. Introduzi, por exemplo, o estudo da Internet.
Data 17/10/2008 20:11:01
Rogel Samuel: A webcultura, a poesia digital etc são fatos novos.
Data 17/10/2008 20:11:58
Rogel Samuel: Escrevi um pouco mais sobre a evolução da literatura.
Data 17/10/2008 20:13:03
Rogel Samuel: E separei modernidade e pós-modernidade.
Data 17/10/2008 20:13:56
Dílson Lages: O senhor vê de forma positiva o uso de novos suportes para a arte literária. Que mudanças se anunciam para o sistema literário por conta da internet?
Data 17/10/2008 20:14:07
Rogel Samuel: Acredito na webcultura. aindo hoje li no 45 graus uma excelente matéria sobre isso que veio da feira de Frankfurt.
Data 17/10/2008 20:15:54
Teresa: O senhor pode se estender um pouco no assunto? Quais romancistas e poeta o senhor indica?
Data 17/10/2008 20:15:58
Dílson Lages: Você escreve no livro que ler “é nomear sentidos”. O que muda na leitura do crítico literário e na do leitor à cara de entretenimento?
Data 17/10/2008 20:17:46
Rogel Samuel: Teresa, abra um livro.... um romance.... e se você for tomada pelo texto, continue. Se não procure outro livro. Vá assim até encontrar o seu autor do coracão.
Data 17/10/2008 20:17:54
Rogel Samuel: Teresa, quando eu era professor do segundo grau, um dia um pai de aluno me disse: meu filho não lê nada! Não adianta!. Eu disse que ia resolver o problema... Conversei com o rapaz e descobri que ele gostava mesmo era de moto
Data 17/10/2008 20:20:41
Rogel Samuel:
Data 17/10/2008 20:20:47
Verbena: Boa noite pra todo mundo online aqui! Professor quem quer fazer crítica literária deve começar por onde? Por que teoria?
Data 17/10/2008 20:21:50
Rogel Samuel: Então descobri um livro de um motoqueiro que o rapaz passou a noite lendo. De uma só vez.
Data 17/10/2008 20:22:16
Teresa: então me recomende algum romance sobre coisas do lar, tipo culinária . Tem algum de memória?
Data 17/10/2008 20:23:29
Rogel Samuel: Dilson, A leitura crítica faz levantar alguns dos sentidos possíveis. É preciso dizer que neste livro quase nada é pensamento meu, pois é um “manual”, ou seja, um livro-resumo, um vade-mecum da ciência da literatura.
Data 17/10/2008 20:23:45
Rogel Samuel: Eu sempre tive facilidade em resumir, passei a vida toda resumindo trechos, sublinhando e riscando livros (o que não recomendo), é possível saber que livros eu li porque estão todos rabiscados, anotados. Eu sempre grifei as frases mais impor
Data 17/10/2008 20:24:34
Rogel Samuel: mais importantes.
Data 17/10/2008 20:25:25
Dílson Lages: Entre as correntes da crítica literária qual mais cativa Rogel?
Data 17/10/2008 20:26:07
Rogel Samuel: O processo hermenêutico, descobrir os meus sentidos no texto. Descobrir-me no texto.
Data 17/10/2008 20:28:41
Rogel Samuel: Verbena, deve começar
Data 17/10/2008 20:30:27
Rogel Samuel: Verbena, comece lendo os críticos brasileiros. A crítica começa com Machado de Assis.
Data 17/10/2008 20:32:11
Dílson Lages: Com tantas correntes examinando os aspectos materais do textos, independente de sua natureza, e até mesmo a recepção da obra, ainda vê espaço para a crítica impressionista e para a biográfica?
Data 17/10/2008 20:32:47
Rogel Samuel: Dilson, tudo é possível na pós-modernidade. Mas seria algo novo.
Data 17/10/2008 20:34:35
Rogel Samuel: Dilson, o que se vê hoje é o fim dos gêneros, da separação entre literatura e crítica .... e o nascimento do texto.
Data 17/10/2008 20:38:21
Rogel Samuel: Um texto concorrente com o texto literário
Data 17/10/2008 20:39:11
Dílson Lages: O Novo Manual de Teoria Literária está destinado realmente a quem? Ao crítico? Ao leitor comum? Aos estudantes de letras? Quem de fato você quer atingir?
Data 17/10/2008 20:39:53
Rogel Samuel: O ideal seria o leitor em geral. Mas o maior número de leitores são alunos das faculdades de letras, da graduação e pós-graduação.
Data 17/10/2008 20:40:46
Teófilo: Alguns escritores, inclusive de bom nível, se dizem desinteressados em crítica e teoria literária. eles podem ser grandes escritores sem o estudo dessas teorias?
Data 17/10/2008 20:41:46
Rogel Samuel: Continuando a questão anterior, o crítico hoje também é um escritor.
Data 17/10/2008 20:42:13
Teófilo: E meu cordial boa noite, estou acompanhando desde o incício mas só agora criei coragem e estou perguntando.
Data 17/10/2008 20:42:37
Rogel Samuel: Teófilo, sim, podem. Há grandes escritores que não gostam da crítica. Mas depende de qual crítica.
Data 17/10/2008 20:44:02
Dílson Lages: Quando surgiu a idéia de escrever o Novo Manual de Teoria e Técnica Literária?
Data 17/10/2008 20:45:20
Rogel Samuel: Há grandes escritores que viveram da crítica, como Barthes.
Data 17/10/2008 20:45:28
Verbena: Entre as teorias que o senhor apresenta no livro, alguma mais influenciou a crítica literária?
Data 17/10/2008 20:47:42
Dílson Lages: Uma correção professor, o Novo Manual de Teoria Literária.
Data 17/10/2008 20:48:20
Rogel Samuel: Em 1983. Mas foi difícil convencer a editora, que me sugeriu, ou melhor, me impôs uma condição, que o livro fosse escrito por vários professores (e que adotassem o livro! e muitos nunca o adotaram!). Ora, foi uma imposição errada, pois se o
Data 17/10/2008 20:49:28
Dílson Lages: Rogel, qual o segredo para que este livro fosse editado sucessivas vezes e caísse no gosto de professores e estudantes?
Data 17/10/2008 20:52:32
Rogel Samuel: Dilson, não há segredo, o livro é um resumo, o mais claro possível. Espero que eu tenha facilitado as coisas. É um livro que procura ser didático.
Data 17/10/2008 20:55:30
Dílson Lages: Quais conceitos de Teoria Literária você julga mais devam ocupar o pensamento dos escritores iniciantes?
Data 17/10/2008 20:56:23
Rogel Samuel: Como eu dizia antes, o editor não acreditava no livro.
Data 17/10/2008 20:57:34
Verbena: Qual o entendimento do senhor sobre a crítica literária que se faz atualmente no Brasil?
Data 17/10/2008 20:58:12
Rogel Samuel: Hoje temos 14 edições da primeira fase e 4 da segunda. Ao todo 18 edições.
Data 17/10/2008 20:58:53
Dílson Lages: Quantos exemplares aproximadamente já circularam desta obra?
Data 17/10/2008 21:00:05
Rogel Samuel: Aos escritores iniciantes eu indicaria um crítico muito antigo chamado antonio Albalat, que escreveu A arte de escrever e outro livro sobre a formação do estilo. Ninguém lê mais isso. Mas Albalat é um mestre, está na raiz da crítica genetica
Data 17/10/2008 21:02:47
Rogel Samuel: Por exemplo, Albalat estudou os rascunhos dos grandes escritores franceses e viu como eles fizeram.
Data 17/10/2008 21:04:26
Dílson Lages: Em A crítica da escrita, o senhor enfatiza a valorização da vivência como pano de fundo para as especulações teóricas naquele livro. A vivência em o Novo Manual de Teoria Literária foi mais importante que a pesquisa bibliográfica?
Data 17/10/2008 21:05:00
Rogel Samuel: Albalat chega a recomendar a cópia e modificação dos textos...
Data 17/10/2008 21:05:22
Dílson Lages: Digo, a vivência da leitura e da sala de aula, no exercício contínuo das teorias...
Data 17/10/2008 21:06:05
Rogel Samuel: Eu não sei, pois as edições antigas eram de 3 mil exemplares. E as novas menos.
Data 17/10/2008 21:06:15
Rogel Samuel: Sim, Dilson, a vivência em sala de aula, o exercício crítico começa com o professor de literatura explicando um texto.
Data 17/10/2008 21:07:55
Rogel Samuel: O crítico tem de dominar uma série de amplos conhecimentos, como a política, a história, a filosofia, a psicanálise, a antropologia etc.
Data 17/10/2008 21:10:53
Rogel Samuel: Sem esquecer a linguistica.
Data 17/10/2008 21:11:26
Moderador Entre-textos: O bate-papo chega ao fim. Agradecemos a todos que parciparam com perguntas ou simplesmente acompanhando o diálogo.
Data 17/10/2008 21:12:24
Rogel Samuel: Agradeço a todos a atenção. Boa noite.
Data 17/10/2008 21:13:23
Moderador Entre-textos: Boa noite a todos!
Data 17/10/2008 21:13:55
http://www.dilsonlages.com.br/coluna_cont.asp?id=1027
Moderador Entre-textos: Boa noite! A partir de agora você conversa com o escritor Rogel Samuel
Data 17/10/2008 20:03:08
Rogel Samuel: Boa noite a todos.
Data 17/10/2008 20:04:09
Dílson Lages: Boa noite, amigo! Rogel, Você já me afirmou que a quarta edição do Novo Manual é a que mais lhe apraz. Por quê?
Data 17/10/2008 20:05:27
Rogel Samuel: Sim, principalmente porque até agora não li nenhum erro ou frase que eu poderia deixar melhor
Data 17/10/2008 20:05:57
Rogel Samuel: O texto foi reescrito quase totalmente. Novos conceitos foram introduzidos. Parece que está bem, pois já está na quarta edição.
Data 17/10/2008 20:06:30
Rogel Samuel: Fiz o melhor que pude.
Data 17/10/2008 20:07:23
Teresa: Professor entrei na universidade agora em São Luís no Curso de Letras e estou tendo uma certa dificuldade para gostar de literatura. O que o senhor acha que devo fazer?
Data 17/10/2008 20:07:50
Rogel Samuel: Temos 80 páginas a mais.
Data 17/10/2008 20:08:07
Rogel Samuel: Teresa, você deve procurar um romance ou um poeta do seu gosto. Existe uma coisa que se chama - crítica do gosto.
Data 17/10/2008 20:09:20
Dílson Lages: O que mudou em relação as edições anteriores do ponto de vista teórico?
Data 17/10/2008 20:09:26
Rogel Samuel: Mudou alguma coisa sim. Novos capítulos foram introduzidos e outros refeitos. Introduzi, por exemplo, o estudo da Internet.
Data 17/10/2008 20:11:01
Rogel Samuel: A webcultura, a poesia digital etc são fatos novos.
Data 17/10/2008 20:11:58
Rogel Samuel: Escrevi um pouco mais sobre a evolução da literatura.
Data 17/10/2008 20:13:03
Rogel Samuel: E separei modernidade e pós-modernidade.
Data 17/10/2008 20:13:56
Dílson Lages: O senhor vê de forma positiva o uso de novos suportes para a arte literária. Que mudanças se anunciam para o sistema literário por conta da internet?
Data 17/10/2008 20:14:07
Rogel Samuel: Acredito na webcultura. aindo hoje li no 45 graus uma excelente matéria sobre isso que veio da feira de Frankfurt.
Data 17/10/2008 20:15:54
Teresa: O senhor pode se estender um pouco no assunto? Quais romancistas e poeta o senhor indica?
Data 17/10/2008 20:15:58
Dílson Lages: Você escreve no livro que ler “é nomear sentidos”. O que muda na leitura do crítico literário e na do leitor à cara de entretenimento?
Data 17/10/2008 20:17:46
Rogel Samuel: Teresa, abra um livro.... um romance.... e se você for tomada pelo texto, continue. Se não procure outro livro. Vá assim até encontrar o seu autor do coracão.
Data 17/10/2008 20:17:54
Rogel Samuel: Teresa, quando eu era professor do segundo grau, um dia um pai de aluno me disse: meu filho não lê nada! Não adianta!. Eu disse que ia resolver o problema... Conversei com o rapaz e descobri que ele gostava mesmo era de moto
Data 17/10/2008 20:20:41
Rogel Samuel:
Data 17/10/2008 20:20:47
Verbena: Boa noite pra todo mundo online aqui! Professor quem quer fazer crítica literária deve começar por onde? Por que teoria?
Data 17/10/2008 20:21:50
Rogel Samuel: Então descobri um livro de um motoqueiro que o rapaz passou a noite lendo. De uma só vez.
Data 17/10/2008 20:22:16
Teresa: então me recomende algum romance sobre coisas do lar, tipo culinária . Tem algum de memória?
Data 17/10/2008 20:23:29
Rogel Samuel: Dilson, A leitura crítica faz levantar alguns dos sentidos possíveis. É preciso dizer que neste livro quase nada é pensamento meu, pois é um “manual”, ou seja, um livro-resumo, um vade-mecum da ciência da literatura.
Data 17/10/2008 20:23:45
Rogel Samuel: Eu sempre tive facilidade em resumir, passei a vida toda resumindo trechos, sublinhando e riscando livros (o que não recomendo), é possível saber que livros eu li porque estão todos rabiscados, anotados. Eu sempre grifei as frases mais impor
Data 17/10/2008 20:24:34
Rogel Samuel: mais importantes.
Data 17/10/2008 20:25:25
Dílson Lages: Entre as correntes da crítica literária qual mais cativa Rogel?
Data 17/10/2008 20:26:07
Rogel Samuel: O processo hermenêutico, descobrir os meus sentidos no texto. Descobrir-me no texto.
Data 17/10/2008 20:28:41
Rogel Samuel: Verbena, deve começar
Data 17/10/2008 20:30:27
Rogel Samuel: Verbena, comece lendo os críticos brasileiros. A crítica começa com Machado de Assis.
Data 17/10/2008 20:32:11
Dílson Lages: Com tantas correntes examinando os aspectos materais do textos, independente de sua natureza, e até mesmo a recepção da obra, ainda vê espaço para a crítica impressionista e para a biográfica?
Data 17/10/2008 20:32:47
Rogel Samuel: Dilson, tudo é possível na pós-modernidade. Mas seria algo novo.
Data 17/10/2008 20:34:35
Rogel Samuel: Dilson, o que se vê hoje é o fim dos gêneros, da separação entre literatura e crítica .... e o nascimento do texto.
Data 17/10/2008 20:38:21
Rogel Samuel: Um texto concorrente com o texto literário
Data 17/10/2008 20:39:11
Dílson Lages: O Novo Manual de Teoria Literária está destinado realmente a quem? Ao crítico? Ao leitor comum? Aos estudantes de letras? Quem de fato você quer atingir?
Data 17/10/2008 20:39:53
Rogel Samuel: O ideal seria o leitor em geral. Mas o maior número de leitores são alunos das faculdades de letras, da graduação e pós-graduação.
Data 17/10/2008 20:40:46
Teófilo: Alguns escritores, inclusive de bom nível, se dizem desinteressados em crítica e teoria literária. eles podem ser grandes escritores sem o estudo dessas teorias?
Data 17/10/2008 20:41:46
Rogel Samuel: Continuando a questão anterior, o crítico hoje também é um escritor.
Data 17/10/2008 20:42:13
Teófilo: E meu cordial boa noite, estou acompanhando desde o incício mas só agora criei coragem e estou perguntando.
Data 17/10/2008 20:42:37
Rogel Samuel: Teófilo, sim, podem. Há grandes escritores que não gostam da crítica. Mas depende de qual crítica.
Data 17/10/2008 20:44:02
Dílson Lages: Quando surgiu a idéia de escrever o Novo Manual de Teoria e Técnica Literária?
Data 17/10/2008 20:45:20
Rogel Samuel: Há grandes escritores que viveram da crítica, como Barthes.
Data 17/10/2008 20:45:28
Verbena: Entre as teorias que o senhor apresenta no livro, alguma mais influenciou a crítica literária?
Data 17/10/2008 20:47:42
Dílson Lages: Uma correção professor, o Novo Manual de Teoria Literária.
Data 17/10/2008 20:48:20
Rogel Samuel: Em 1983. Mas foi difícil convencer a editora, que me sugeriu, ou melhor, me impôs uma condição, que o livro fosse escrito por vários professores (e que adotassem o livro! e muitos nunca o adotaram!). Ora, foi uma imposição errada, pois se o
Data 17/10/2008 20:49:28
Dílson Lages: Rogel, qual o segredo para que este livro fosse editado sucessivas vezes e caísse no gosto de professores e estudantes?
Data 17/10/2008 20:52:32
Rogel Samuel: Dilson, não há segredo, o livro é um resumo, o mais claro possível. Espero que eu tenha facilitado as coisas. É um livro que procura ser didático.
Data 17/10/2008 20:55:30
Dílson Lages: Quais conceitos de Teoria Literária você julga mais devam ocupar o pensamento dos escritores iniciantes?
Data 17/10/2008 20:56:23
Rogel Samuel: Como eu dizia antes, o editor não acreditava no livro.
Data 17/10/2008 20:57:34
Verbena: Qual o entendimento do senhor sobre a crítica literária que se faz atualmente no Brasil?
Data 17/10/2008 20:58:12
Rogel Samuel: Hoje temos 14 edições da primeira fase e 4 da segunda. Ao todo 18 edições.
Data 17/10/2008 20:58:53
Dílson Lages: Quantos exemplares aproximadamente já circularam desta obra?
Data 17/10/2008 21:00:05
Rogel Samuel: Aos escritores iniciantes eu indicaria um crítico muito antigo chamado antonio Albalat, que escreveu A arte de escrever e outro livro sobre a formação do estilo. Ninguém lê mais isso. Mas Albalat é um mestre, está na raiz da crítica genetica
Data 17/10/2008 21:02:47
Rogel Samuel: Por exemplo, Albalat estudou os rascunhos dos grandes escritores franceses e viu como eles fizeram.
Data 17/10/2008 21:04:26
Dílson Lages: Em A crítica da escrita, o senhor enfatiza a valorização da vivência como pano de fundo para as especulações teóricas naquele livro. A vivência em o Novo Manual de Teoria Literária foi mais importante que a pesquisa bibliográfica?
Data 17/10/2008 21:05:00
Rogel Samuel: Albalat chega a recomendar a cópia e modificação dos textos...
Data 17/10/2008 21:05:22
Dílson Lages: Digo, a vivência da leitura e da sala de aula, no exercício contínuo das teorias...
Data 17/10/2008 21:06:05
Rogel Samuel: Eu não sei, pois as edições antigas eram de 3 mil exemplares. E as novas menos.
Data 17/10/2008 21:06:15
Rogel Samuel: Sim, Dilson, a vivência em sala de aula, o exercício crítico começa com o professor de literatura explicando um texto.
Data 17/10/2008 21:07:55
Rogel Samuel: O crítico tem de dominar uma série de amplos conhecimentos, como a política, a história, a filosofia, a psicanálise, a antropologia etc.
Data 17/10/2008 21:10:53
Rogel Samuel: Sem esquecer a linguistica.
Data 17/10/2008 21:11:26
Moderador Entre-textos: O bate-papo chega ao fim. Agradecemos a todos que parciparam com perguntas ou simplesmente acompanhando o diálogo.
Data 17/10/2008 21:12:24
Rogel Samuel: Agradeço a todos a atenção. Boa noite.
Data 17/10/2008 21:13:23
Moderador Entre-textos: Boa noite a todos!
Data 17/10/2008 21:13:55
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
ENTREVISTA DE ROGEL SAMUEL
ENTREVISTA DE ROGEL SAMUEL
GP - Rogel, quando foi e como se deu o encontro entre o amazonense filho de francês com brasileira e neto de rico comerciante da borracha com as artes, notadamente a Literatura?
Primeiro é bom saber: nasci pobre e não vi a riqueza de Maurice Samuel. Nasci na decadência. Você nem imagina com quem comecei: foi com Camões... Num livro didático de infância havia um trecho da Elegia que começa assim:
"Poeta Simónides, falando ? co capitão Temístocles, um dia..."
O trecho diz:
Oh ! lavradores bem-aventurados !
Se conhecessem seu contentamento,
como vivem no campo sossegados !
dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara a água pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
não vêem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas árvores contente,
sem lhe quebrar o sono sossegado
o cuidado do ouro reluzente.
E por aí vai. Eu fiquei muito impressionado. Até hoje tenho emoção com a simplicidade dos versos, a evocação. Foi Camões quem me despertou, veja só. E depois, Manuel Bandeira. Li menino. O texto de Camões está em: http://www.geocities.com/rogelsamuel/elegia.html
Depois ganhei uma antologia, que até hoje considero a melhor: «Obras primas da poesia universal», de Sergio Milliet. Editora Martins. Esgotada.
GP - Quais as influências da infância e adolescência marcaram a formação dos primeiros versos, primeiros escritos, considerando a publicação do seu primeiro poema num jornal nessa fase da sua vida?
Sim, comecei a escrever nos jornais de Manaus muito cedo, com 16, 17 anos. Naquela época era assim. Os jornais estavam abertos. Mesmo para o que não prestava. Eu me lembro de uma página muito curiosa de «O jornal do comércio», órgão dos Diários Associados em Manaus, de 16 de abril de 1961, em que há um conto meu chamado «Sofia», ao lado um novo poema de Drummond, em baixo havia uma crônica de Guilherme Figueiredo e no rodapé um artigo de Sergio Milliet, intitulado «O dia amanheceu cantando». Eu tinha 18 anos. O jornal era dirigido por Felipe Daou, ainda vivo. Aquele pessoal era mesmo irresponsável.
GP - Apesar de escrever seus versos desde a adolescência, você, pelas suas publicações, começa com Crítica da Escrita, em 1979. A poesia ficou de lado ou o professor que se impunha? Este é o resultado de seus estudos e trabalhos na universidade?
Quando me mudei para o Rio, em 1961, publiquei muito pouco. Lembro-me de artigo no «Correio da manhã», que não tenho, e pouca coisa mais. Eu estava mal acostumado: em Manaus você vinha com o original e punha na mesa do editor. No dia seguinte aquilo era publicado com destaque. No Rio, havia um clube fechado. Eu tive as portas abertas para a televisão, através do irmão de uma amiga de Manaus que dirigia a parte comercial da TV Rio, onde trabalharam na mesma época, creio, o Bôni e o Valter Clark. Trabalhei na redação muito pouco tempo e larguei. Era à noite, eu tinha faculdade de manhã. Burrice, talvez. Virei professor. Não procurei mais os jornais, não sou bom vendedor de mim mesmo.
GP - Um fato, eu conheci você primeiro pelo "Manual de teoria literária" na época em que eu fazia Letras, por volta de meados da década de 80, por ai, salvo engano. Hoje esta obra está já com 14 edições. E também, depois, o agradabilíssimo "O que é Teolit?". Como se encontrava o poeta enquanto professor?
Não se encontrava. Eu fui fazer letras porque era assim que eu supunha ser a formação do escritor. Um dia um amigo meu, o Nathanael Caixeiro, que fazia traduções, me apresentou ao pessoal da Vozes. Assim nasceu o "Manual de teoria literária". Anos depois, publiquei ali os três volumes de «Literatura básica». Foram livros com vários autores, que coordenei. Um dia mandei um projeto para os «Primeiros passos», da Brasiliense. O projeto era um livrinho: «O que é teoria literária». Depois de várias tentativas, o livro não saiu, porque invadia o conteúdo de outros títulos. Acabou sendo publicado pela Marco Zero, na época pertencente ao Marcio Souza, como "O que é Teolit?". Publiquei mais 2 livros por conta própria: «Crítica da escrita» 1981; e «O Amante das Amazonas», 1992. Hoje tenho dois livros na praça. O «Novo manual de teoria literária» (Petrópolis, Vozes, 2002. 158p), que está em 3 a edição, livro só meu, atualizado com as modernas teorias. E «O amante das amazonas» (Belo Horizonte, Itatiaia, 2005, 164 p.), que não é só a 2 a edição, mas é um livro revisto. Além disso, houve «A linguagem e a idéia no discurso poético» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1978, dissertação de Mestrado) e «A reconstrução da subjetividade no grande sertão» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1983. 290 p., tese de Doutorado, nunca publicada).
Como professor dei todo tipo de aula: para escolas particulares pobres do primeiro e segundo graus, cursinhos, no subúrbio, em escolas de ricos, no estado, no município, em faculdades particulares.
Para sobreviver dava aula de manhã, de tarde e de noite. Fui professor de latim. Estudei na UFRJ, no Rio de Janeiro, onde fui aluno de Alceu Amoroso Lima, Matoso Câmara, Afrânio Coutinho, Anísio Teixeira. Fiquei uns 10 anos sem publicar, nesse período. Depois, ingressei por concurso na UFRJ, fiz mestrado e doutorado. E me aposentei. Hoje só escrevo.
GP - O poeta aparece publicado só em 90 com "Poemas" e depois com "120 poemas". Fala dessa experiência e resultados desses projetos.
«Poemas» foi uma bela edição artesanal. Os «120 poemas» é um folheto impresso, tenho até hoje. Eu nunca parei de escrever poesia, desde a adolescência até os meus atuais 63 anos. Mas nunca consegui ter confiança no que fazia. Acho que o poeta tem de ser um louco irresponsável e não se avaliar muito. Estou pensando em colocar todos poemas num site, ou publicar em livro.
GP - Como escritor, eu vi o seu "O amante das amazonas", um livro interessantíssimo que li de um fôlego só e onde você mistura ficção e realidade com uma narrativa bem gostosa. Este livro inclusive recebeu sua segunda edição recentemente. Fala do processo de criação, expectativa e resultados com este seu projeto?
Foram dez anos de trabalho, mais de 100 livros lidos e dez versões. Mesmo essa segunda edição foi revista. O livro tem aquilo que você viu, é um mar de estórias em torno daquele Palácio construído no meio da selva. Primeiro fiz uma pesquisa, entrevistei pessoas que ainda se lembravam dos fatos. Li cerca de 100 livros. Depois, devido ao excesso de informações fiquei perdido. Aí resolvi contar para um gravador. Depois de ouvir muitas vezes, voltei a narrar no gravador. Então fiz as várias versões escritas, quase dez. Há algo de romance policial ali, além de ficção científica.
Quanto ao processo de criação... bem, é melhor escrever do que ler um romance. Ao escrever um romance você tem todas as possibilidades do mundo. Porque o mundo não existe, ali: você tem de criá-lo.
Tenho vários projetos. E vários livros escritos na gaveta. Meu único problema é que escrevo muito devagar e trabalho muito o texto. Como nunca fico satisfeito acabo criando várias versões do mesmo livro e perco muito tempo. Tudo meu leva vários anos para sair e a vida é curta. Mas cada livro ganha uma técnica especial só dele.
A minha «obra» literária publicada, aos 63 anos de idade, é muito pequena. O que eu mais publiquei foram contos e crônicas. Recentemente voltei para os livros maiores.
GP - Rogel, além de professor aposentado, poeta e escritor, você também é webjornalista e escreve regularmente para sites e portais da Internet. Fala, então, da importância da Internet na difusão do seu trabalho.
Vejo na Internet o futuro da literatura. Liberta o escritor da grande media, dos editores. O escritor logo encontra seus leitores ali. Estou publicando minha próxima novela ali, na Internet. Não passo sem Internet. Entro na Internet várias vezes ao dia. Meu mundo hoje é o mundo da Internet.
GP - Qual a avaliação que você faz desse veículo Internet na relação do escritor com o leitor? E desta com o trabalho impresso e frente a frente com o leitor?
Gosto da Internet porque esta média me levou a retomar o que eu poderia chamar de meu público e minha obra. Escrevi uma centena de artigos em jornais impressos, e muito mais na Internet. Penso que o livro vai-se tornar cada vez mais caro, e a web será o grande veículo do futuro. Para a música também. Eu gostaria de ver o Ministério da Cultura disponibilizar toda a obra de Villa Lobos em mp3, mesmo pagando ele os direitos autorais. Porque é muito difícil ouvir certas coisas. Hoje sou um escritor da rede. Se você colocar meu nome num site de busca vai-me encontrar.
GP - Você mantém na rede um sítio pessoal onde publica seus trabalhos literários, livros e, ainda, apresenta um diretório de autores. Qual a proposta deste diretório?
A princípio era uma antologia de vários autores. Tem vários anos. Tentei fazer um site de literatura de qualidade, porque na época não havia. Há livros inteiros. Há clássicos ali, e livros raros. Meu site tem muita música clássica, em midi. Fui o primeiro a publicar autores amazonenses da Net. Tenho colunistas. E escritores cativos. A grande poetisa portuguesa Maria Azenha às vezes me manda de Lisboa um poema acabado de escrever. http://www.geocities.com/rogelsamuel/
GP - Qual a avaliação que você faz da atual Literatura brasileira?
Há muita gente boa, mas a divulgação não se dá na grande media. Acho que os grandes poetas do presente só serão conhecidos daqui a muitos anos. Os grandes ficcionistas brasileiros jovens ainda não confiam na Internet. Conheço uma boa escritora que tem 5 excelentes romances para publicar. Eu disse para ela: publique na Internet. Mas o pessoal tem medo de perder a autoria. O que é um medo sem fundamento. Mesmo o livro impresso pode ser copiado. E é muito difícil encontrar um editor. E, sendo editado, é muito difícil vender o livro. É muito difícil fazer chegar o livro nas livrarias. Tudo é muito difícil na vida de um escritor. Eu escrevo há 40 anos, sei disso. Alguns tem sorte, fazem sucesso fácil. Mas o sucesso fácil pode ser enganoso. Mesmo os que fizeram muito sucesso um dia podem cair no esquecimento, depois. Eu poderia citar vários casos. Entretanto, o escritor tem de ter sucesso de alguma forma, isto é, público. Nós escrevemos para alguém. A não ser que seja um escritor que se julgue um gênio tal que escreva para o futuro. Um louco. A atual literatura tem muita gente boa. Em cada estado brasileiro você encontra uns 10 bons escritores, nem sempre eleitos pela media. Os grandes jornais só privilegiam a literatura estrangeira. Mas estão perdendo prestígio para a Internet. Os estudantes universitários só pesquisam pela Internet, não pelos jornais. Eles são os nossos grandes leitores, hoje. Você precisa ver como o Canadá promove os seus escritores. Nas livrarias eles estão na frente. Portugal os divulga no mundo. O governo espanhol mantém uma verba especial para a «nova poesia». O governo alemão compra parte da edição de todo escritor alemão, para incentivar. Há uma verba para a aposentadoria dos escritores. Nas bibliotecas, a consulta a escritores alemães é paga. Muitos governos se orgulham de seus escritores. O Brasil nada faz. Aqui o escritor não tem prestígio. Se você está em Paris e alguém pergunta: «O que você faz?», responda «Sou escritor». Será olhado com muito mais respeito.
GP - Como professor aposentado, você acha que a universidade tem cumprido o seu papel na formação dos que ali chegam e se tornam graduandos?
Algumas universidades de bom nível, talvez. Mas o bom aluno independe da Universidade. A universidade mudou muito. Está em crise.
GP - Como viajante, quais são seus planos? Fale de suas viagens.
Sim, sou um viajante nato. Gastei tudo que tinha em viagens, inclusive o fundo de garantia. Fui 2 vezes à Austrália, 3 vezes ao Nepal, várias vezes à Europa, várias vezes aos USA e ao Canadá. Foram viagens de longa permanência, sozinho. Certa vez fique 2 meses e meio no Nepal. Ou 2 meses no interior da Austrália. Creio que fui 17 vez ao exterior e viajei muito pelo sertão e pelo interior do Amazonas. Viajei de carro, trem, barco. Hoje estou mais devagar. Falta energia física. Além disso o mundo está em guerra... Lembro-me que, logo após a 11 de setembro, fui a Los Angeles: fui examinado pela polícia várias vezes no caminho. Um amigo meu estava no Oriente e de repente se viu no meio de uma guerra! Passei sobre o Iraque depois da primeira guerra do golfo e vi os campos de petróleo em chama. Estive no Aeroporto do Paquistão e me impressionou aquele país. Hoje é um pouco perigoso viajar como sempre fiz, sozinho. Além disso, há assaltos até em Paris.
GP - Quais os projetos que Rogel Samuel têm em mente por realizar?
Estou trabalhando em «A história dos amantes», que está saindo na Internet, em http://www.blocosonline.com.br/home/index.php É um texto antigo, todo re-escrito. Conta a vida de jovens na década de 60, sob a ditadura militar.
GP - Rogel, quando foi e como se deu o encontro entre o amazonense filho de francês com brasileira e neto de rico comerciante da borracha com as artes, notadamente a Literatura?
Primeiro é bom saber: nasci pobre e não vi a riqueza de Maurice Samuel. Nasci na decadência. Você nem imagina com quem comecei: foi com Camões... Num livro didático de infância havia um trecho da Elegia que começa assim:
"Poeta Simónides, falando ? co capitão Temístocles, um dia..."
O trecho diz:
Oh ! lavradores bem-aventurados !
Se conhecessem seu contentamento,
como vivem no campo sossegados !
dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara a água pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
não vêem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas árvores contente,
sem lhe quebrar o sono sossegado
o cuidado do ouro reluzente.
E por aí vai. Eu fiquei muito impressionado. Até hoje tenho emoção com a simplicidade dos versos, a evocação. Foi Camões quem me despertou, veja só. E depois, Manuel Bandeira. Li menino. O texto de Camões está em: http://www.geocities.com/rogelsamuel/elegia.html
Depois ganhei uma antologia, que até hoje considero a melhor: «Obras primas da poesia universal», de Sergio Milliet. Editora Martins. Esgotada.
GP - Quais as influências da infância e adolescência marcaram a formação dos primeiros versos, primeiros escritos, considerando a publicação do seu primeiro poema num jornal nessa fase da sua vida?
Sim, comecei a escrever nos jornais de Manaus muito cedo, com 16, 17 anos. Naquela época era assim. Os jornais estavam abertos. Mesmo para o que não prestava. Eu me lembro de uma página muito curiosa de «O jornal do comércio», órgão dos Diários Associados em Manaus, de 16 de abril de 1961, em que há um conto meu chamado «Sofia», ao lado um novo poema de Drummond, em baixo havia uma crônica de Guilherme Figueiredo e no rodapé um artigo de Sergio Milliet, intitulado «O dia amanheceu cantando». Eu tinha 18 anos. O jornal era dirigido por Felipe Daou, ainda vivo. Aquele pessoal era mesmo irresponsável.
GP - Apesar de escrever seus versos desde a adolescência, você, pelas suas publicações, começa com Crítica da Escrita, em 1979. A poesia ficou de lado ou o professor que se impunha? Este é o resultado de seus estudos e trabalhos na universidade?
Quando me mudei para o Rio, em 1961, publiquei muito pouco. Lembro-me de artigo no «Correio da manhã», que não tenho, e pouca coisa mais. Eu estava mal acostumado: em Manaus você vinha com o original e punha na mesa do editor. No dia seguinte aquilo era publicado com destaque. No Rio, havia um clube fechado. Eu tive as portas abertas para a televisão, através do irmão de uma amiga de Manaus que dirigia a parte comercial da TV Rio, onde trabalharam na mesma época, creio, o Bôni e o Valter Clark. Trabalhei na redação muito pouco tempo e larguei. Era à noite, eu tinha faculdade de manhã. Burrice, talvez. Virei professor. Não procurei mais os jornais, não sou bom vendedor de mim mesmo.
GP - Um fato, eu conheci você primeiro pelo "Manual de teoria literária" na época em que eu fazia Letras, por volta de meados da década de 80, por ai, salvo engano. Hoje esta obra está já com 14 edições. E também, depois, o agradabilíssimo "O que é Teolit?". Como se encontrava o poeta enquanto professor?
Não se encontrava. Eu fui fazer letras porque era assim que eu supunha ser a formação do escritor. Um dia um amigo meu, o Nathanael Caixeiro, que fazia traduções, me apresentou ao pessoal da Vozes. Assim nasceu o "Manual de teoria literária". Anos depois, publiquei ali os três volumes de «Literatura básica». Foram livros com vários autores, que coordenei. Um dia mandei um projeto para os «Primeiros passos», da Brasiliense. O projeto era um livrinho: «O que é teoria literária». Depois de várias tentativas, o livro não saiu, porque invadia o conteúdo de outros títulos. Acabou sendo publicado pela Marco Zero, na época pertencente ao Marcio Souza, como "O que é Teolit?". Publiquei mais 2 livros por conta própria: «Crítica da escrita» 1981; e «O Amante das Amazonas», 1992. Hoje tenho dois livros na praça. O «Novo manual de teoria literária» (Petrópolis, Vozes, 2002. 158p), que está em 3 a edição, livro só meu, atualizado com as modernas teorias. E «O amante das amazonas» (Belo Horizonte, Itatiaia, 2005, 164 p.), que não é só a 2 a edição, mas é um livro revisto. Além disso, houve «A linguagem e a idéia no discurso poético» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1978, dissertação de Mestrado) e «A reconstrução da subjetividade no grande sertão» (Rio de Janeiro, Faculdade de Letras, 1983. 290 p., tese de Doutorado, nunca publicada).
Como professor dei todo tipo de aula: para escolas particulares pobres do primeiro e segundo graus, cursinhos, no subúrbio, em escolas de ricos, no estado, no município, em faculdades particulares.
Para sobreviver dava aula de manhã, de tarde e de noite. Fui professor de latim. Estudei na UFRJ, no Rio de Janeiro, onde fui aluno de Alceu Amoroso Lima, Matoso Câmara, Afrânio Coutinho, Anísio Teixeira. Fiquei uns 10 anos sem publicar, nesse período. Depois, ingressei por concurso na UFRJ, fiz mestrado e doutorado. E me aposentei. Hoje só escrevo.
GP - O poeta aparece publicado só em 90 com "Poemas" e depois com "120 poemas". Fala dessa experiência e resultados desses projetos.
«Poemas» foi uma bela edição artesanal. Os «120 poemas» é um folheto impresso, tenho até hoje. Eu nunca parei de escrever poesia, desde a adolescência até os meus atuais 63 anos. Mas nunca consegui ter confiança no que fazia. Acho que o poeta tem de ser um louco irresponsável e não se avaliar muito. Estou pensando em colocar todos poemas num site, ou publicar em livro.
GP - Como escritor, eu vi o seu "O amante das amazonas", um livro interessantíssimo que li de um fôlego só e onde você mistura ficção e realidade com uma narrativa bem gostosa. Este livro inclusive recebeu sua segunda edição recentemente. Fala do processo de criação, expectativa e resultados com este seu projeto?
Foram dez anos de trabalho, mais de 100 livros lidos e dez versões. Mesmo essa segunda edição foi revista. O livro tem aquilo que você viu, é um mar de estórias em torno daquele Palácio construído no meio da selva. Primeiro fiz uma pesquisa, entrevistei pessoas que ainda se lembravam dos fatos. Li cerca de 100 livros. Depois, devido ao excesso de informações fiquei perdido. Aí resolvi contar para um gravador. Depois de ouvir muitas vezes, voltei a narrar no gravador. Então fiz as várias versões escritas, quase dez. Há algo de romance policial ali, além de ficção científica.
Quanto ao processo de criação... bem, é melhor escrever do que ler um romance. Ao escrever um romance você tem todas as possibilidades do mundo. Porque o mundo não existe, ali: você tem de criá-lo.
Tenho vários projetos. E vários livros escritos na gaveta. Meu único problema é que escrevo muito devagar e trabalho muito o texto. Como nunca fico satisfeito acabo criando várias versões do mesmo livro e perco muito tempo. Tudo meu leva vários anos para sair e a vida é curta. Mas cada livro ganha uma técnica especial só dele.
A minha «obra» literária publicada, aos 63 anos de idade, é muito pequena. O que eu mais publiquei foram contos e crônicas. Recentemente voltei para os livros maiores.
GP - Rogel, além de professor aposentado, poeta e escritor, você também é webjornalista e escreve regularmente para sites e portais da Internet. Fala, então, da importância da Internet na difusão do seu trabalho.
Vejo na Internet o futuro da literatura. Liberta o escritor da grande media, dos editores. O escritor logo encontra seus leitores ali. Estou publicando minha próxima novela ali, na Internet. Não passo sem Internet. Entro na Internet várias vezes ao dia. Meu mundo hoje é o mundo da Internet.
GP - Qual a avaliação que você faz desse veículo Internet na relação do escritor com o leitor? E desta com o trabalho impresso e frente a frente com o leitor?
Gosto da Internet porque esta média me levou a retomar o que eu poderia chamar de meu público e minha obra. Escrevi uma centena de artigos em jornais impressos, e muito mais na Internet. Penso que o livro vai-se tornar cada vez mais caro, e a web será o grande veículo do futuro. Para a música também. Eu gostaria de ver o Ministério da Cultura disponibilizar toda a obra de Villa Lobos em mp3, mesmo pagando ele os direitos autorais. Porque é muito difícil ouvir certas coisas. Hoje sou um escritor da rede. Se você colocar meu nome num site de busca vai-me encontrar.
GP - Você mantém na rede um sítio pessoal onde publica seus trabalhos literários, livros e, ainda, apresenta um diretório de autores. Qual a proposta deste diretório?
A princípio era uma antologia de vários autores. Tem vários anos. Tentei fazer um site de literatura de qualidade, porque na época não havia. Há livros inteiros. Há clássicos ali, e livros raros. Meu site tem muita música clássica, em midi. Fui o primeiro a publicar autores amazonenses da Net. Tenho colunistas. E escritores cativos. A grande poetisa portuguesa Maria Azenha às vezes me manda de Lisboa um poema acabado de escrever. http://www.geocities.com/rogelsamuel/
GP - Qual a avaliação que você faz da atual Literatura brasileira?
Há muita gente boa, mas a divulgação não se dá na grande media. Acho que os grandes poetas do presente só serão conhecidos daqui a muitos anos. Os grandes ficcionistas brasileiros jovens ainda não confiam na Internet. Conheço uma boa escritora que tem 5 excelentes romances para publicar. Eu disse para ela: publique na Internet. Mas o pessoal tem medo de perder a autoria. O que é um medo sem fundamento. Mesmo o livro impresso pode ser copiado. E é muito difícil encontrar um editor. E, sendo editado, é muito difícil vender o livro. É muito difícil fazer chegar o livro nas livrarias. Tudo é muito difícil na vida de um escritor. Eu escrevo há 40 anos, sei disso. Alguns tem sorte, fazem sucesso fácil. Mas o sucesso fácil pode ser enganoso. Mesmo os que fizeram muito sucesso um dia podem cair no esquecimento, depois. Eu poderia citar vários casos. Entretanto, o escritor tem de ter sucesso de alguma forma, isto é, público. Nós escrevemos para alguém. A não ser que seja um escritor que se julgue um gênio tal que escreva para o futuro. Um louco. A atual literatura tem muita gente boa. Em cada estado brasileiro você encontra uns 10 bons escritores, nem sempre eleitos pela media. Os grandes jornais só privilegiam a literatura estrangeira. Mas estão perdendo prestígio para a Internet. Os estudantes universitários só pesquisam pela Internet, não pelos jornais. Eles são os nossos grandes leitores, hoje. Você precisa ver como o Canadá promove os seus escritores. Nas livrarias eles estão na frente. Portugal os divulga no mundo. O governo espanhol mantém uma verba especial para a «nova poesia». O governo alemão compra parte da edição de todo escritor alemão, para incentivar. Há uma verba para a aposentadoria dos escritores. Nas bibliotecas, a consulta a escritores alemães é paga. Muitos governos se orgulham de seus escritores. O Brasil nada faz. Aqui o escritor não tem prestígio. Se você está em Paris e alguém pergunta: «O que você faz?», responda «Sou escritor». Será olhado com muito mais respeito.
GP - Como professor aposentado, você acha que a universidade tem cumprido o seu papel na formação dos que ali chegam e se tornam graduandos?
Algumas universidades de bom nível, talvez. Mas o bom aluno independe da Universidade. A universidade mudou muito. Está em crise.
GP - Como viajante, quais são seus planos? Fale de suas viagens.
Sim, sou um viajante nato. Gastei tudo que tinha em viagens, inclusive o fundo de garantia. Fui 2 vezes à Austrália, 3 vezes ao Nepal, várias vezes à Europa, várias vezes aos USA e ao Canadá. Foram viagens de longa permanência, sozinho. Certa vez fique 2 meses e meio no Nepal. Ou 2 meses no interior da Austrália. Creio que fui 17 vez ao exterior e viajei muito pelo sertão e pelo interior do Amazonas. Viajei de carro, trem, barco. Hoje estou mais devagar. Falta energia física. Além disso o mundo está em guerra... Lembro-me que, logo após a 11 de setembro, fui a Los Angeles: fui examinado pela polícia várias vezes no caminho. Um amigo meu estava no Oriente e de repente se viu no meio de uma guerra! Passei sobre o Iraque depois da primeira guerra do golfo e vi os campos de petróleo em chama. Estive no Aeroporto do Paquistão e me impressionou aquele país. Hoje é um pouco perigoso viajar como sempre fiz, sozinho. Além disso, há assaltos até em Paris.
GP - Quais os projetos que Rogel Samuel têm em mente por realizar?
Estou trabalhando em «A história dos amantes», que está saindo na Internet, em http://www.blocosonline.com.br/home/index.php É um texto antigo, todo re-escrito. Conta a vida de jovens na década de 60, sob a ditadura militar.
O Brasil sairá da crise intocado
O Brasil sairá da crise intocado
Rogel Samuel
"Brasil é pouco afetado pela crise, apesar de o crescimento diminuir", diz o Financial Times.
A nossa media nem deu ênfase a esta notícia. Para ela, quanto pior, melhor. E quando Lula disse que seria uma marola, todos o ironizaram.
"O Brasil deve emergir da crise relativamente intocado", diz o Financial Times (na Folha online).
"Economistas que previamente esperavam um crescimento de 4.5 a 5,5% no ano que vem, agora esperam entre 2,5 e 3,5%", diz o jornal americano.
As empresas brasileiras estão muito menos endividadas do que as rivais estrangeiras.
"Em geral, é ruim, mas nas atuais circunstâncias, é bom o Brasil estar relativamente isolado do resto do mundo",
diz Nathan Balnce da Tendências, firma de consultoria em São Paulo.
"Não estou dizendo que não seremos atingidos ou que seremos apenas marginalmente atingidos. Mas quando a poeira baixar, o Brasil vai se sair melhor do que muitos outros lugares", diz Jean-Marc Etlin do Itaú BBA, banco de investimentos de São Paulo.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
MILHÕES CONTINUAM
MILHÕES CONTINUAM
Rogel Samuel
Hoje as bolsas subiram no mundo todo e o Mr. Dolar caiu por aqui.
O mundo se curou da crise?
Triste mundo onde vivemos: o capitalismo queima milhoes, bilhões e a fome, a miséria, a doença continuam.
Creio que somente com o que foi gasto para estancar esta crise nós poderíamos acabar com toda a pobreza do mundo.
Mas o capital não se acumla em favor das mulheres e homens.
Nem é uma necessidade humana. Pelo menos é assim que aparece.
Rogel Samuel
Hoje as bolsas subiram no mundo todo e o Mr. Dolar caiu por aqui.
O mundo se curou da crise?
Triste mundo onde vivemos: o capitalismo queima milhoes, bilhões e a fome, a miséria, a doença continuam.
Creio que somente com o que foi gasto para estancar esta crise nós poderíamos acabar com toda a pobreza do mundo.
Mas o capital não se acumla em favor das mulheres e homens.
Nem é uma necessidade humana. Pelo menos é assim que aparece.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
COMO SERÁ?
COMO SERÁ?
Rogel Samuel
Ninguém sabe como seremos afetados pela crise. O ministro Mântega já disse: "Não temos mais ilusão. Os países em desenvolvimento serão afetados pela desaceleração global".
no discurso no Comitê de Desenvolvimento do Banco Mundial, em Washington.
Mas até agora, depois de tantos debates, a melhor análise para mim foi a do ex-ministro Delfim. Apesar de todas as diferenças, foi o único que me acrescentou algo.
Para ele, os Estados Unidos se recuperarâo antes de todos, e dominarão outra vez o mundo. Nada de pensar que os EEUU acabaram.
Para Mântega, todo o peso estará em cima dos países pobres, por causa dos combustíveis e alimentos.
Como combustível e alimentos não faltam no Brasil, creio que seremos afetados moderadamente
Como será isso?
Ninguém sabe. Nada se sabe.
domingo, 12 de outubro de 2008
O PERIGO DA CRISE É A GUERRA, 2
O PERIGO DA CRISE É A GUERRA, 2
ROGEL SAMUEL
No mundo arcaico, a destruição da violência e a sobrevivência da sociedade eram tarefa da guerra. A transcendência da razão, em lugar de eliminar a violência, define a violência como o mal, e confisca a violência para que fique submetida ao controle do Estado. No mundo arcaico, a violência pura não tinha assim essas características de mal.
O mundo moderno instaurou um dualismo entre bem e mal, tentando o império do bem sobre a violência do mal. Este império do bem seria a violência sob o controle do Estado.
O mundo dualista só admite a violência como forma de exclusão racional da violência individual, através das instituições do Direito e da Justiça, através do militarismo.
O Bem passa a ser uma exclusão da violência de todos, destituída de todos, assumindo o Estado o papel de representante da violência coletiva. A fraqueza do mundo pós-moderno é não oferecer um espaço de legitimação da violência, assim como o impasse do final do Século XX foi a impossibilidade de um confronto entre os dois Impérios. A violência explodiu para dentro, ou para os lados.
A repressão da violência por parte do Estado, e por parte do Império, não a erradica, nem a libera. Acumulada, por parte do Estado ou do Império, a violência parece ainda mais ameaçadora.
Se o Bem é uma exclusão da violência, isso acaba funcionando em proveito da violência, pois o Bem não está excluído de usar a violência. A violência do Bem acaba transferindo o Bem para o outro lado, já que um Bem violento aparece.
A exclusão da vingança individual do mundo pós-moderno (transferida para o Direito), deixa aberto um perigoso espaço para a violência, que a moralidade racional não tem sabido neutralizar.
(Esse texto pertence a "A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE DO GRANDE SERTÃO", tese de doutoramento de Rogel Samuel, 1983, inédita).
sábado, 11 de outubro de 2008
O perigo da crise é a guerra, 1
O perigo da crise é a guerra, 1
ROGEL SAMUEL
As crises econômicas geram as guerras. Uma guerra foi sempre a resposta dada às crises, às hiperinflações.
Ainda há o perigo da guerra? Nada sei, mas muito desconfio.
Foi uma crise que levou Hitler ao poder, e lhe deu tanto poder carismático.
A individuação na sociedade primitiva era fundada na fusão provocada pela festa. Neste sentido, a guerra participava da mesma natureza que tinha a festa. A guerra produzia a
unidade do grupo, com a característica de dirigir a violência destrutiva para fora.
A festa provocava a dissolução da violência “para dentro”. Um retorno à intimidade perdida.
A família, como concepção burguesa de organização da sociedade em núcleos familiares, mantinha viva a “biologia” da vida, presa à propriedade privada, mas o Estado moderno dissolveu os núcleos familiares.
O resultado da guerra antiga, para o vitorioso, era o consumo do escravo, como propriedade e coisa. O princípio do militarismo é a reversibilidade metódica da violência social para fora. E todo Estado considera seu vizinho um inimigo em potencial.
Chama-se Estado ao princípio da ordem racional que organiza um todo com a finalidade de sua própria sobrevivência.
O Estado moderno, apesar da globalização, como empresa, sempre vê o seu vizinho como um perigoso concorrente. Todo Estado sempre se prepara para a guerra. A guerra é a mãe do Estado. A idéia de dissolução das nacionalidades e do nacionalismo nasceu nas internacionais socialistas, que viram isto desde 1848. Mas o projeto de dissolução dos Estados nacionais, e do nacionalismo, hoje, ameaça com sinais de um Império Universal que está em crise.
O impasse do militarismo moderno reside na organização de um império que se tem de consolidar, econômica e universalmente. Se o problema do Estado é a existência de outro Estado nas suas fronteiras, o problema do Império é a existência de outro Império.
Os exércitos da Rússia e da China ainda são uma "ameaça".
(Esse texto pertence a "A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE DO GRANDE SERTÃO", tese de doutoramento de Rogel Samuel, 1983, inédita).
ROGEL SAMUEL
As crises econômicas geram as guerras. Uma guerra foi sempre a resposta dada às crises, às hiperinflações.
Ainda há o perigo da guerra? Nada sei, mas muito desconfio.
Foi uma crise que levou Hitler ao poder, e lhe deu tanto poder carismático.
A individuação na sociedade primitiva era fundada na fusão provocada pela festa. Neste sentido, a guerra participava da mesma natureza que tinha a festa. A guerra produzia a
unidade do grupo, com a característica de dirigir a violência destrutiva para fora.
A festa provocava a dissolução da violência “para dentro”. Um retorno à intimidade perdida.
A família, como concepção burguesa de organização da sociedade em núcleos familiares, mantinha viva a “biologia” da vida, presa à propriedade privada, mas o Estado moderno dissolveu os núcleos familiares.
O resultado da guerra antiga, para o vitorioso, era o consumo do escravo, como propriedade e coisa. O princípio do militarismo é a reversibilidade metódica da violência social para fora. E todo Estado considera seu vizinho um inimigo em potencial.
Chama-se Estado ao princípio da ordem racional que organiza um todo com a finalidade de sua própria sobrevivência.
O Estado moderno, apesar da globalização, como empresa, sempre vê o seu vizinho como um perigoso concorrente. Todo Estado sempre se prepara para a guerra. A guerra é a mãe do Estado. A idéia de dissolução das nacionalidades e do nacionalismo nasceu nas internacionais socialistas, que viram isto desde 1848. Mas o projeto de dissolução dos Estados nacionais, e do nacionalismo, hoje, ameaça com sinais de um Império Universal que está em crise.
O impasse do militarismo moderno reside na organização de um império que se tem de consolidar, econômica e universalmente. Se o problema do Estado é a existência de outro Estado nas suas fronteiras, o problema do Império é a existência de outro Império.
Os exércitos da Rússia e da China ainda são uma "ameaça".
(Esse texto pertence a "A RECONSTRUÇÃO DA SUBJETIVIDADE DO GRANDE SERTÃO", tese de doutoramento de Rogel Samuel, 1983, inédita).
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
A cara da crise
A cara da crise
Rogel Samuel
Há uns meses, com o dólar despencando e ficando cada vez mais barato, um amigo economista me disse:
- Se eu tivesse dinheiro compraria tudo em dólar.
Ninguém acreditava.
- O problema é como guardar dólar em casa, concluiu.
Essa crise ainda não mostrou bem o que é. A maioria dos americanos ainda nem se deu conta dela, pois pela Internet perguntei a um amigo meu americano se estava com medo da crise e ele, na maior calma, respondeu:
- Eu não tinha ações em bolsa...
É como quem diz: "Isso não é comigo".
Mas é. Tomara que ele esteja certo. Que seja apenas "crise de capitalistas".
terça-feira, 7 de outubro de 2008
Está na hora de comprar
Está na hora de comprar
Rogel Samuel
Se eu fosse jovem e rico neste momento de crise econômica entraria comprando as ações que estão na baixa, baratas.
Contam que foi assim que Paul Getty se tornou num dos homens mais ricos do mundo. Ele já era rico, mas não tanto, durante a Grande Depressão. Mas depois sua fortura chegou a 50 bilhões de dólares com a Pacific Western Oil Corporation.
Seu pai não acreditava nele, que era um playboy, casado várias vezes. Por isso o deserdou, deixando somente 500 mil dólares de herança (dos 10 milhões que tinha). Mesmo assim Getty se fez um bilionário com esse dinheiro.
Há um pânico hoje nas bolsas, que desabam.
- Estou perdendo um Mercedes por dia, disse uma senhora rica a um amigo meu, corretor.
Muitos perderão suas fortunas. Mas alguns, espertos e pacientes, vão ganhar um oceano de riquezas.
Rogel Samuel
Se eu fosse jovem e rico neste momento de crise econômica entraria comprando as ações que estão na baixa, baratas.
Contam que foi assim que Paul Getty se tornou num dos homens mais ricos do mundo. Ele já era rico, mas não tanto, durante a Grande Depressão. Mas depois sua fortura chegou a 50 bilhões de dólares com a Pacific Western Oil Corporation.
Seu pai não acreditava nele, que era um playboy, casado várias vezes. Por isso o deserdou, deixando somente 500 mil dólares de herança (dos 10 milhões que tinha). Mesmo assim Getty se fez um bilionário com esse dinheiro.
Há um pânico hoje nas bolsas, que desabam.
- Estou perdendo um Mercedes por dia, disse uma senhora rica a um amigo meu, corretor.
Muitos perderão suas fortunas. Mas alguns, espertos e pacientes, vão ganhar um oceano de riquezas.
domingo, 5 de outubro de 2008
THE AMAZON, 1
The Journey
Trad.
CHRISTOPHER SCHINDLER
There in the town of Patos in Pernambuco in front of everyone I don’t want to remember, we said our good-byes at the Gate in the first light of dawn on Christmas day 1897 - my mother and I. I never saw her again. I left with two changes of clothing in a suitcase tied up and sewn together and a stereoscope to look at views of Manaus, Belém, Paris, London, Vienna and St. Petersburg.
I rode along on a mule in a wool convoy through the Borborema and three days later I was in Timbauba de Mocós, head of the rail line, gathering place for cowboys from Paraíba and Rio Grande do Norte. There I boarded a train to Recife where I found lodgings in the Brum near the Lingueta wharf and stayed for five days before boarding the Alfredo bound for the Amazon. I was in my teens.
We traveled a whole day and awoke on the following at Cabedelo. The dock was filled with anxious people out to meet the fighting men from Canudos, Monte Santo e Favela, Travessia and Uauá. Spirits were high but there was also a lot of shrieking and tears. We did not linger there but went on to Natal where migrants fleeing from the Northeast were waiting for a boat to the Amazon country. Besides 500 soldiers of the Pará police, the entire 4th battalion of infantry returning from the War, without casualties, was already settled in the hold of the ship; so, in Fortaleza, Commandant Bezerra had to have a list read aloud of more than 600 souls done in by the dry spells of the Northeast, part of a steady migration since '79 to the Amazon because it had stopped raining. The ship in which not even a single crate of pigs would fit, accommodated that horde stinking of dust, sweat, manure and urine - hammocks crisscrossing - there was stealing, drinking, rapes, fighting, knifings and death. A father caught a guy by surprise with his daughter in a livestock stall and skinned him; another, drunk, pissed right on the floor where it trickled towards a crowd of people sleeping on the floor; on a chicken cage a man had taken off his gear and was resting under the light of a yellow oil-lamp full of flies. He was a soldier.
I was still in the hold when we passed the lighthouse at Acaraú and stopped in Amarração to get rid of a corpse, a prisoner and two passengers covered with smallpox. But we sailed right past Tutóia and arrived at the port of São Luís where the Alfredo was surrounded by small boats and dinghies transforming the water into a gigantic, floating market. They all climbed aboard: sellers of fried shrimp, sweets and fruit. What a wonderful journey it was! Then untied and dispached, the Alfredo continued her heavy navigation along the coast towards Belém and, as it was growing dark, we slowed down to let the sand pilot on. When the Alfredo crossed the estuary of the Amazon River, like a bush red-pepper, it penetrated the great river with binnacles lit as it was night and in spite of all covered with stars.
In Belém I stayed at the Two Nations’ Hotel (one of its owners was Portuguese, the other Spanish). As I had to wait a month for the Barão de Juruá bound for the Amazon, my money started to run out. I slept outdoors to save money for meals and I already owed the skipper for advancing me passage-fare.
Once embarked I would arrive in Manaus without hindrance after six days at eight miles an hour. Two days later we passed Boca do Purus and 5 days later the mouth of the Juruá. We traveled all day and all night. At the mouth of the Juruá the Solimões River is 12 km wide and birds unable to fly far (the trumpeter, curassow, cujubim) could not manage to cross it but died, tired and drowning, at the bottom of waves brushed with yellow from the headwind. In eight days’ travel on the Juruá we arrived at the Tarauacá River and docked at São Felipe, a nice, clean town of forty-five houses. Nine days later we entered the Jordão River from which point the Barão, because of its draft, could not continue. So we went on by canoe on the Bom Jardim Bayou. We paddled upriver and came to our end and destination, the point of our knot, the terminus, the final boundary, the farthest and innermost place on this terrestial orb – we finally got to Hell’s Bayou, the limit of the ends of the earth where we encountered the legendary, mythical and infinite Manixi rubber plantation wrapped in the weight of its fame and wonder – forty days after leaving Belém, three months and five days since leaving Patos.
But I didn’t mention that I had come to look for my brother Antonio and uncle Genaro who had been sent off to Manixi. No. They had been rubber tappers on the Jantiatuba for the Pixuna rubber plantation, 1,270 miles from the city of Manaus (where years later the Alfredo would shipwreck). They were staying along the Eiru river on a bend, almost a lake, really. From there they left on a barge, boat and canoe to the Gregorio river where they worked for Frenchmen. From there to the Mu, on to Paraná da Arrependida - free tappers that they were - they went up to where they say the son of Euclides da Cunha, who was a deputy, died in a tappers uprising. They traveled on to the Riozinho do Leonel, along the Tejo, Breu, the beautiful Corumbam Bayou – magnificent! – the Hudson, Paraná Pixuna, Moa, Juruá-mirim, up to the Paraná do Ouro Preto, entered the Amônea via the Paraná dos Numas, near the Paraná São João, then along a natural canal without name leading to an unknown place and there they met the boat that went to Hell’s Bayou. It left them in Manixi, in Acre, where they settled down, free tappers of the rubber plantation owner.
I confess (this whole book is a confession of my life) that I felt at that moment that Genaro and Antonio were longing to return to the brush country. The Amazon crisis was getting worse and conditions already were getting bad for tappers – so my brother and uncle fretting and wasting away in order to draw milk from the jungle for no gain.
Now when they saw me they couldn’t grasp what I was doing there. I emerged thin, overwhelmed under my curls of brown hair, forlorn, like an apparition, from a bench under the canopy of a shed (I remember a dark, stormy downpour, night lightning and the whistling of the wind). No, they didn’t recognize me (I was a witness to their fate), they were not overjoyed to see me, rather, they resented me. Hadn’t they left, quite young, more than ten years ago with the memory of a kid in bleach worn diapers? Didn’t they see me as the incarnate killer of their hopes, the bold headline of one more crisis coming to this part of the country upon more bad news, renewing a complaint which already had gone on so many years, scattering the family in all directions (people that I neither knew nor knew if they were still alive) – one went to São Paulo and became a soldier, another with muscular legs left suddenly for Belém returning later via Piauí passing through Serra Grande to Teresina, then via Maranhão to Goiás, a footloose ruffian he was, then climbing the Tocantins to Bahía where he finally disappeared and there was no news of him except that he ended up in the leprosary of Paricatuba (“I have faith in a man who eats and walks armed,” he told us the day he left. “It gives you muscle and guts. With a full stomach, a gun and knife at my side I can take on any kind of wild animal!”). The other, the oldest – ah! – was dying of hunger, exhausted, worn out, because he wouldn’t leave his old mother (she loved him most of all. She died two years after I left. She despised me; I know she hated me, cursed me on her deathbed). And our sister, pretty, captivating, the youngest - her husband left to work as a drover in Vila de Santa Rita to earn something to escape the hunger of the world while the brush country was peeling with drought; yes, our whole family, messed up and broken, as I later saw, left me all by myself to the horror of God.
So, they hadn’t said a word. They were withdrawn and I just sat there in the dark for a long while brushing off the rain from my tied-up suitcase, crying in desertion and solitude. I wanted to go back and not be there. I wished I hadn’t come. But I had no way back. And I never returned.
Slowly from the next day on, I began to do those necessary things like cooking, cleaning the hut, fishing, gathering fruit so I wouldn’t go hungry. And since I now owed the boss (whom I didn’t know), I had to start running, a prisoner of odd jobs, going along the trappers’ path with a small tin cup, doing the smoke curing with uricury, chips of cow tree and acabu, making my own rubber balls. The milk turned black at my touch. Farming and rubber tapping don’t mix? Produce what you eat? They told me nothing, taught me nothing, like they didn’t know I was there. And they didn’t talk to each other. They had become dumb animals – I don’t think they knew how to talk. They returned at dark, like worn-out monkeys, mute and dirty, they ate and they slept, stinking. At dawn, they were back on the trail; they moved mechanical as if by some internal wire contraption. I don’t know where or for what.
But I learned to cut the trees, cure the latex, pile up rubber balls with the pervasive sound of oily bubbling from the nudging dark waters of Hell’s Bayou (which I can still hear to this day and will keep hearing until the hour of my death in this end of nowhere).
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
A Internet no Himalaia
A Internet no Himalaia
Rogel Samuel
Um dos meus blogs foi visitado pelo Butão, um país não só distante como belo. Tenho um livro de fotografias do Butão e suas montanhas e vales. É um reino nas cordilheiras do Himalaia. O visitante de meu blog foi em busca de uma foto. Certamente ele não conseguiria ler nada em português.
Mas lembro-me de um dia, estando eu no Nepal, mais precisamente naquele lugar onde se cremam os corpos na beira do rio, e que aparece no filme "O pequeno Buda", quando ouvi perto de mim a língua portuguesa. Era um casal de São Paulo.
Mas o Butão ainda é mais distante, mais secreto, mais frio, mais sagrado. Eu gostaria de rever aqueles lugares. Mas confesso que agora, aos 65 anos, já me pesa a idade. De Katmandhu se podem ver as montanhas altas e nevadas. Elas aparecem na linha do horizonte como num sonho. Estão lá, ao lado daqueles mosteiros, estupas e corvos. Muitos corvos. Muitos mendigos.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
A crise e suas conseqüências
A crise e suas conseqüências
Rogel Samuel
O ideal do capitalismo, que nasceu do chamado mercado aberto, é conseguir o máximo de objetividade no mínimo de riscos, medo que nunca perdeu devido à característica inicial de jogo de que vivia o chamado mercado aberto. Foi por isso que o Renascimento experimentou uma época de tantos desastres e guerras.
Na raiz da crise atual do capitalismo está o fato de que ele deve gerar lucros sempre, de que ele deve crescer sempre, subir sempre. O capitalismo está condenado a crescer. Crescer ou morrer. Ele deixou de ser capitalismo de produção de bens de consumo para transformar-se em capitalismo (sob controle estatal) de produção de serviços (saúde, educação, treinamento, lazer e cultura). Além disso, o capital aumentou demais, gerando a volatilidade. O aumento da produção de serviços e a produtividade crescente, além da ameaça inflacionária (devido a demandas salariais e a crescente tendência ao aumento dos “funcionários” públicos que prestam serviços sociais), e a redução da capacidade competitiva dos Estados Unidos no mercado mundial são considerados as raízes da crise atual. Os conflitos políticos do futuro eclodiriam em torno de problemas de interesse público (produção de serviços), tais como saúde, educação, proteção ambiental, criminalidade etc. Mas isto tudo de modo diferente do Manifesto Comunista de 1848 e dos revolucionários estudantis de 1968. Na economia permanece a questão trabalhista. Mas não na sociologia e na cultura, nem na política. Neste sentido, as mudanças e os conflitos da sociedade pós-industrial representam uma mudança ideológica na atual sociedade ocidental.
O modo de produção capitalista adotou o sistema econômico racionalizado sob controle estatal a partir da Primeira Guerra Mundial, sob mecanismos reguladores, assegurando à produtividade do trabalho um progresso cada vez mais desenvolvido e um método de exploração de recursos, em que tudo é testado por aparelhos cada vez mais sofisticados e aperfeiçoados de tempos em tempos, criando assim a pesquisa industrial.
No mundo moderno, a saída se encontra na produtividade e suas conseqüências, tais como os sistemas de crédito e o planejamento. O que sustenta esse sistema de capitalismo avançado é o desejo de lucros, o aumento do capital das empresas, as investidas econômicas, o progresso de sucesso dos “melhores” e dos ‘‘maiores’’, a performance do lucro líquido, embora com a conseqüente e aparente distribuição pelo sistema de participação dos empregados das empresas. E onde até as chamadas políticas de interesse social nada mais são do que investimentos sociais, isto é, o sistema investe recursos nos homens e tal investimento, como qualquer outro, é uma atividade racional visando a um fim de retorno, igualmente financeiro, para aumentar a produtividade.
Os sistemas econômicos modernos foram beneficiados pela ciência estatística, para o fim de padronizar o grau de eficiência das empresas e para a previsão da relação correta entre o investimento, a produtividade e a lucratividade (lucro líquido sobre o faturamento da empresa), em que há estatísticas para tudo, principalmente para as taxas de crescimento comparativamente ao lucro, ao patrimônio investido e ao imobilizado com as instalações.
Essa tecnologia reguladora do sistema econômico assegurou ao capitalismo avançado um crescimento contínuo, embora pontuado de crises, através de novas estratégias, de novas tecnologias, de tal forma que a inovação foi institucionalizada como uma necessidade, para auto-regulação do próprio crescimento econômico, o que é totalmente o oposto das sociedades tradicionais. Essa inovação institucionalizada provoca um processo de modernização contínua, não significando que o sistema se modifique estruturalmente pelo novo, mas que sua estrutura dinâmica cresça e evolua com novas tendências e formulas de regulação, num movimento de expansão da atividade de racionalização, assumindo a forma legítima de dominação e de totalitarismo. E a isso corresponde o fim das sociedades tradicionais.
Diz Habermas que o “capitalismo se define por um modo de produção que não somente põe em problema como também o resolve”. A legitimação da sociedade capitalista não desce do céu, como na Idade Média, mas está estabelecida sobre a base do trabalho social. O sistema de dominação do mundo moderno está justificado, invocando-se a legitimação das relações de produção, onde o mecanismo econômico fica em permanente expansão, desde o subsistema de onde se originou e onde começou a crescer, a saber, o subsistema que era constituído pela organização racional visando a um fim específico dentro do sistema da sociedade tradicional . Agora, os sistemas de dominação estão adaptados as exigências de racionalidade.
A racionalidade “por baixo” significa a adaptação as condições da mudança comercial e aos novos modos de produção, a infra-estrutura social (o sistema escolar, por exemplo, as Forças Armadas, a família, isto é, uma urbanização das formas de vida).
A esta racionalização “por baixo”, corresponde uma racionalização “por alto”, a saber, trata-se de legitimar a dominação e orientar a ação.
A visão do mundo tradicional perde diante disto sua força e validade. São destituídos de valor os mitos, as religiões e as metafísicas justificativas. Em lugar disto, aparecem éticas e crenças subjetivas, que asseguram o caráter obrigatório da orientação moderna.
quarta-feira, 1 de outubro de 2008
O Rolex de ouro
Rogel Samuel
Dr. Alberto era viúvo e aos 75 anos sentiu umas dores. Foi a um outro médico. O câncer era grave, delicado, disse-lhe o amigo, também médico. Alberto preparou tudo: sepultura, dividiu os bens entre os filhos e resolveu se dar um presente com o dinheiro que sobrou: um Rolex de ouro maciço. Até a pulseira era de ouro. Quando morresse, deveria ser enterrado com ele. Os filhos nada disseram, mas se entreolharam, ressabiados. Para não sentir dores, Alberto passou a aplicar-se doses mínimas de morfina. Com o agravamento do quadro, as doses foram aumentando, de modo que ele ficava desacordado. Mas não tirava o Rolex do braço. O tratamento prosseguiu por alguns meses: quimioterapia e outras violências. Com o tempo, o câncer foi regredindo e debelado. Alberto não morreu. Ficou o Rolex.
Dr. Alberto era viúvo e aos 75 anos sentiu umas dores. Foi a um outro médico. O câncer era grave, delicado, disse-lhe o amigo, também médico. Alberto preparou tudo: sepultura, dividiu os bens entre os filhos e resolveu se dar um presente com o dinheiro que sobrou: um Rolex de ouro maciço. Até a pulseira era de ouro. Quando morresse, deveria ser enterrado com ele. Os filhos nada disseram, mas se entreolharam, ressabiados. Para não sentir dores, Alberto passou a aplicar-se doses mínimas de morfina. Com o agravamento do quadro, as doses foram aumentando, de modo que ele ficava desacordado. Mas não tirava o Rolex do braço. O tratamento prosseguiu por alguns meses: quimioterapia e outras violências. Com o tempo, o câncer foi regredindo e debelado. Alberto não morreu. Ficou o Rolex.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
Meditação de Baudelaire
Meditação de Baudelaire
Rogel Samuel
Baudelaire medita. No seu poema “Elevação” ele quer voar sobre pântanos e descampados, sobre o céu e o mar, sobre mesmo o sol, muito além do horizonte do visto no visível, para além das estrelas, para purificar-se de saber, para beber o licor do fogo do saber que ocupa os espaços que tudo permeia, nos vazios que dão conta de tudo.
Mas a arte do poema está em sua excelente tradução, de Jamil Almansur Haddad.
Por sobre os pantanais, por sobre os descampados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além do sol, muito além do horizonte,
Para além dos confins dos longes estrelados,
Meu espírito, vais, todos os céus te movem,
Como um bom nadador cais em delíquio na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda,
Levado por volúpia indizível e jovem.
Bem longe deves voar destes miasmas tão baços;
Vai te purificar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor,
O claro fogo que enche os límpidos espaços.
E por trás do pesar e dos tédios terrenos
Que gravam de seu peso a existência brumosa,
Feliz este que pode e de asa vigorosa
Lançar-se para os céus lúcidos e serenos!
Este cujo pensar, como a andorinha, muda
Para o céu da manha num vôo ascensional,
Que plana sobre a vida, a entender afinal
A linguagem da flor e da matéria muda!
(Trad. Jamil Almansur Haddad)
Élévation
Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delà les confins des sphères étoilées,
Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.
Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.
Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins;
Celui dont les pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
— Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!
Encontrei uma tradução que não diz de quem é, tradução apócrifa na Internet, muito boa e um pouco mais baudelaireana:
Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do íngneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,
Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.
Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.
Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;
Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
QUEM ESTÁ PRESO A UMA ESTRELA
QUEM ESTÁ PRESO A UMA ESTRELA
Rogel Samuel
Disse Leonardo da Vinci: “Quem está preso a uma estrela não anda para trás”, no sentido de que não entra em decadência, no sentido de que consegue completar e triunfar com toda a glória em tudo o que começou, todos os seus projetos, todas as belas coisas por que se inflamou. Significa que consegue trazer à tona, “trazer à luz do dia, de modo puro e formulado, os contornos do conteúdo vislumbrado” (Bloch).
Isso se aplica aos gênios como Leonardo e aos povos. Mas também se aplica aos mortais como nós, aos nossos desejos, como escreveu o jovem Goethe: “Desejos são pressentimentos das capacidades que estão dentro de nós, prenúncios do que seremos capazes de realizar”.
É quando esses atos prospectivos trabalham em nosso favor e obtém êxito “a partir da tremenda expectativa que deles se apoderou, a partir da afinidade com a estrela que ainda se encontra abaixo da linha do horizonte". A partir do futuro. É quando “a água que eu toco jamais foi navegada” de Dante. Citações todas do princípio esperança de Bloch, que reúnem juventude, mudança, produtividade, não com arrogância, mas com a visão do que deve ocorrer nas ocasiões da criação.
domingo, 28 de setembro de 2008
A CRISE DA POESIA
A CRISE DA POESIA
Rogel Samuel
A crise americana me lembra um poema de Xavier Placer, poeta que pessoalmente conheci quando eu era jovem:
A ERIKA
Não desesperes, Érika
da sorte
Um a um os teus deuses
mudaram-se pra América
do Norte?
Toda-poderosa –
dança! voa! ri da morte
O poema está em "Minipoemas" (Rio de Janeiro: Edições Xagorá, 1978). Placer (1916-2008) era professor, bibliotecário, trabalhava na Biblioteca Nacional onde on conheci. Nasceu em Niterói e escreve ensaio, poesia e prosa. Publicava uns livrinhos muito finos (nos dois sentidos) e conversávamos muito sobre poesia. Ele era um mestre, muito culto e sempre disposto ao um bom papo:
... Porque para esse recalcitrante vivente, o homem,
a poesia importa pouco.
Mas está-aí. E assume muitas formas, silentes,
insidiosas, submarinas.
A poesia sabe-se destino, a poesia
sabe-se a íntima do ser, e lá
- selva não, grande senhora –
dobra a alva túnica-sem-costura e ajoelha todas as horas.
Aqui a poesia empresta aos mármores a matéria de seu rosto.
Ele me deu uma coletânea de seus livros, com dedicatórias. Eram minipoemas e miniprosas como esses:
O GESTO
Junto às coisas somos
que nem dão por nós
Vertigem e fúria –
tudo na voragem
fenece e perece
Só o gesto, o claro
gesto, funda
morre nunca
ESCRITO NUM VOLANTE
O QUE VOCÊ AMA
em alguma parte fica e vivifica
não implode, revem de-longe
tempo puro
O QUE VOCÊ AMA
vê em caixa alta com todas as letras
partilha ou passa ao papel
seu bem de raiz
O QUE VOCÊ AMA
ninguém te tira
Rogel Samuel
A crise americana me lembra um poema de Xavier Placer, poeta que pessoalmente conheci quando eu era jovem:
A ERIKA
Não desesperes, Érika
da sorte
Um a um os teus deuses
mudaram-se pra América
do Norte?
Toda-poderosa –
dança! voa! ri da morte
O poema está em "Minipoemas" (Rio de Janeiro: Edições Xagorá, 1978). Placer (1916-2008) era professor, bibliotecário, trabalhava na Biblioteca Nacional onde on conheci. Nasceu em Niterói e escreve ensaio, poesia e prosa. Publicava uns livrinhos muito finos (nos dois sentidos) e conversávamos muito sobre poesia. Ele era um mestre, muito culto e sempre disposto ao um bom papo:
... Porque para esse recalcitrante vivente, o homem,
a poesia importa pouco.
Mas está-aí. E assume muitas formas, silentes,
insidiosas, submarinas.
A poesia sabe-se destino, a poesia
sabe-se a íntima do ser, e lá
- selva não, grande senhora –
dobra a alva túnica-sem-costura e ajoelha todas as horas.
Aqui a poesia empresta aos mármores a matéria de seu rosto.
Ele me deu uma coletânea de seus livros, com dedicatórias. Eram minipoemas e miniprosas como esses:
O GESTO
Junto às coisas somos
que nem dão por nós
Vertigem e fúria –
tudo na voragem
fenece e perece
Só o gesto, o claro
gesto, funda
morre nunca
ESCRITO NUM VOLANTE
O QUE VOCÊ AMA
em alguma parte fica e vivifica
não implode, revem de-longe
tempo puro
O QUE VOCÊ AMA
vê em caixa alta com todas as letras
partilha ou passa ao papel
seu bem de raiz
O QUE VOCÊ AMA
ninguém te tira
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
A raiz da crise
A raiz da crise
Rogel Samuel
Minha amiga x. foi vítima da crise financeira americana. Mora em Nova Iorque e de lá me diz por email que o banco para quem ela pagava as prestações de sua casa (nada própria) faliu e a instituição financeira que assumiu a dívida a refinanciou para cima colocando os que deviam em situação de quase inadimplência. Não ter onde morar em cidade americana é tragédia. Parece que aí reside a raiz da crise: os bancos americanos estavam com muito dinheiro estocado e resolveram financiar casa própria para qualquer pobretão a juros baixíssimos. O mercado imobiliário exultou e inflacionou o mercado numa especulação imobiliária nunca vista antes. E qualquer casinha passou a valer logo um milhão de dólares.
Resultado: muita gente não pagou porque não pode e os títulos agora podres ameaçam arruinar a maior economia do planeta. Esses títulos eram revendidos de banco em banco. Que não paguemos nós essa conta.
Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco
Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco
“Harpa do caçador”
Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco, autor da “Harpa do caçador”, nasceu em Barras, em 8 de fevereiro de 1829 e faleceu no dia 10 de julho de 1891.
O CANTO DO CAÇADOR
Sou filho das selvas, sou tosco, grosseiro,
Sou brusco, selvagem; não sou trovador;
Eu tenho outras lidas, eu tenho outro emprego,
Que em tudo me ajusta: - eu sou caçador.
Se a lira hoje empunho, se solto este canto,
Não queiram tornar-me por um trovador:
Eu canto inspirado das cenas sublimes
Que encantam, que enlevam quem é caçador.
Certeira clavina carrego com arte,
E as aves persigo por longa floresta:
Matreiros veados, ligeiros, sagazes,
Que gosto que eu acho, matá-los à sesta!
Meus simples prazeres, por bailes, teatros,
Torneios e jogos dos homens da praça,
Não troco; não valem torneios e jogos,
Teatros e bailes, os gozos da caça.
A margem de um lago, nas noites de lua,
Com todo o sossego na rede deitado,
Eu gozo o sussurro da aragem no bosque,
Contemplo os encantos dum céu estrelado.
Mas logo desperto do enlevo sublime,
Ouvindo as pisadas, sutis, do veado;
Na rede me sento, preparo a clavina;
Em torno reparo, - com todo cuidado.
Até que dos bosques, a praia do lago,
Eu noto-o saindo com todo o vagar:
- Aponto a clavina, desfecho sobre ele,
E ei-lo de envolta co'as morte a lutar!
Apenas preparo de novo a espingarda,
Na rede, em sossego, me tomo a deitar:
Contemplo as estrelas, no lago brilhando,
E as nuvens correndo, brincando ao luar.
Eis nota uns estalos ao longe soarem;
Um surdo ruído, que imita o trovão;
Recresce'os estalos, - recresce o ruido:
- Mil vultos descubro, da lua ao clarão.
São porcos bravios, - queixadas chamados,
Que os dentes estalam, qual bomba ao quebrar-se;
Correndo e roncando, do lago - na lama,
A grande manada ja vejo deitar-se.
O tiro certeiro de novo rebenta;
Seu eco retumba no vasto sertão!
Que gosto que sinto, - ao ver estendidos
Três porcos, e mais, dum tiro, - no chão!
Então a clavina eu limpo de novo;
Depois a carrego com todo o vagar;
Arrumo a patrona , num ramo a penduro,
E torno, em sossego, na rede a deitar.
Contemplo os mais doces, mais simples momentos
Que levo na vida, sem ter que invejar
Recolhe-se a noite; sucede-lhe o dia:
As caças, correndo, vou logo apanhar.
Dum porco roliço, - com a faca cortante,
Retalho, com gosto, mui larga papada;
E noto a gordura, que excita apetite,
E eu como a costela, nas brasas assada.
As peles das caças com varas espicho;
Ao sol as estendo, depois, p'ra secarem;
E quando curtidas, de roupa me servem,
Privando os espinhos meu corpo arranharem.
Meus simples prazeres, por bailes, teatros,
Torneios e jogos dos homens da praça,
Não troco; não valem torneios e jogos,
Teatros e bailes, - os gozos da caça.
De longa cabaça - buzina preparo,
Que em tudo arremeda da onça o roncar;
Com ela, de noite, da casa distante,
E os cães amarrados, me vou emboscar.
Troando a buzina na vasta planície,
Seu eco responde - dos morros além...
Que grato alvoroço! - que gosto indizível!
- Eu ouço que a onça responde também!
Eu deixo que a noite seu manto recolha;
Que a aurora derrame seu frouxo c1arão;
Que o astro do dia, do leito se erguendo,
Inunde com luzes o vasto sertão.
Alegre contemplo da aurora a beleza;
O hino que entoam-lhe as aves - cantando;
O zéfiro branda, que - ledo - vagueia,
Das flores - no prado - perfume espalhando.
E eu calço as perneiras de peles macias;
Depois de calçá-as, eu tomo o gibão;
No ombro a clavina e a rígida lança;
No cinto, de um lado, penduro o facão.
De medo despido, com passos seguros
Com os cães companheiros, - amigos fiéis,
Eu parto, me rindo de vê-los pulando,
Alegres, brincando, em tomo a meus pés.
Eu sigo no rumo que a onça roncava;
Seu rasto diviso gravado na lama;
Os cães a perseguem correndo, latindo:
Exploram-lhe o faro, cheirando na rama.
E eu corro com pressa, gritando após eles,
A fim de excitar-lhes coragem, bravura:
Com animo forte, nas brenhas me interno,
Não temo no bosque medonha espessura.
Eu puxo de um lado, do cinto pendente,
Facão afiado, com ele picando;
Eu subo dos morros - ao cimo elevado,
Eu desço p'ra os vales, os cães procurando.
Até que bradarem com força já ouço:
Que chegue, - que é tempo de a onça matar!
Eu corro contente; desprezo o perigo;
E a hórrida fera já ouço o bramar!
É numa medonha sombria espessura
Que a onça tremenda se acha emboscada;
Dos ramos pendentes das hirtas tabocas
O orvalho desprende-se a cada passada.
Então - de gatinhas - com toda a cautela,
Tomando chegada, na ponta do pé;
Espio no rumo que a ouço rosnando,
Estendo o pescoço, p'ra ver se dou fé.
Mas - ei-la que parte com fúria, bramindo,
Aos cães acossando, querendo-os tragar!
E eles, - coitados! –lá vejo-os correndo:
Com medo, gritando, - vão longe parar!
A onça persegue-os a longa distância,
Rosnando e batendo co'as patas no chão;
Seus roncos medonhos retumbam no vale,
Tal como estampido de horrendo trovão!
Redobra com fúria seus fortes bramidos,
E o orbe em seus eixos parece oscilar;
Os tinidos brutos - do bosque desertam,
E a terra percebo nos pés me faltar! ...
Eu vou de mansinho, p'ra ela me chego;
Parando, - examino ... me tomo a chegar;
Ate que a descubro, deitada, me olhando,
A cauda movendo, já quase a saltar!
E logo que a vejo, que aponto a clavina,
- Na boca terrível, que a morte vomita,
O cão satisfeito, pulando, contente,
Encrava-lhe os olhos, a vista lhe fita.
Até que, de envolta com chamas o fumo,
A morte rebenta, - voando lá vai: -
A hórrida fera, que sangue respira,
- Rugindo, convulsa, sem forças já cai! ...
Então, dum só pulo, chegando-me a ela,
A lança lhe embebo no rígido peito:
O sangue espadana da larga ferida;
Já ela experimenta da morte o efeito! ...
E os cães, quando ouvem do tiro o ribombo,
Arrojam-se à fera, e cravam-lhe os dentes;
Mil vezes a mordem, com raiva, com gana,
Até que - já morta, - se mostram contentes.
Que gosto indizível de mim se apodera! ...
Que gosto que sinto, na casa ao chegar!...
Alegre, cercado de muitas pessoas,
O horrível combate começo a contar.
Teus bailes, teatros, torneios e jogos
Desprezo, - não quero-os, ó homens da praça!
Só quero que deixes que eu goze em sossego
Dos gratos prazeres que encontro na caça.
O CAÇADOR METAMORFOSEADO EM SOLDADO
(A Franklin A. de Meneses Dória)
O rude caçador, que outrora armado
De certeira clavina e rija lança,
De afiado facão, pendente ao cinto,
Nas brenhas, sem temor, seu passo avança;
O rude caçador, que outrora errante
Por ínvias, ermas selvas vagueava
Rodeado de cães, trajando peles,
As feras nos seus antros atacava;
O rude caçador, que mal cuidava
Em fazer consistir sua grandeza
No gozo dessas cenas majestosas
Que nos bosques ostenta a natureza;
O rude caçador, que mal buscava
Concentrar seu sentir, seu gosto e vida
Nessa vivenda descuidosa e grata,
Que não será jamais dele esquecida;
Já de macias peles não se adorna,
Nem do cinto, o facão lhe pende ao lado,
Nem no ombro a clavina e rija lança,
Nem e de um cão, sequer, acompanhado!
Fundiu-lhe o coração, fundiu-lhe a alma,
Ao seu todo fundiu-lhe ardente chama
Desse sagrado fogo, que o devora,
- Do amor da pária, - que a guerra o chama.
Não trepidou sequer um só momento
Ao reclamo da pátria, ao seu chamado:
Desprezou suas selvas majestosas,
Seus cães amigos, - e se fez soldado!...
Ei-lo que parte; - não vacila o passo:
Vai a morte afrontar em campo armado! ...
Ei-lo que parte; não de cães seguido,
Mas sim de heróis da pátria rodeado!
Uma esperança só lhe assoma ao peito;
Uma esperança só - sua alma encerra:
É ver da pátria a glória aurifulgente,
Ou cair com os seus, - ficar por terra! ...
O CANTO DO VOLUNTÁRIO
Em pobre choupana de folhas coberta,
De galas despida, foi onde nasci;
No centro das selvas, num bosque sombrio,
De imensas palmeiras foi onde cresci.
Em luta co'as feras nos antros medonhos,
La onde se abrigam mil tigres sedentos,
Os risos, as graças me foram constantes:
Gozei os mais doces, mais gratos momentos.
Do mundo as grandezas, as honras, o luxo,
Seus ricos tesouros jamais desejei;
Com o pouco que tinha, vivia contente,
No peito a cobiça jamais abriguei.
Aos simples prazeres meu peito aspirava;
Na caça encontrei-os; que mais eu quisera?
Mais simples prazeres no mundo não vejo;
Nem mesmo - maiores - o mundo mos dera ...
Gozando os afagos de mãe carinhosa,
No teto paterno vivia contente;
Dum pai ilustrado colhia as lições,
- Ouvia os conselhos dum velho prudente.
Deixei-os! - E certo, - deixei-os com magoa;
Eo pranto saudoso meu rosto banhou!
Deixei-os; que a pátria, se vendo ultrajada,
- "ÀS ARMAS! ÀS ARMAS, MEUS FILHOS!" - bradou.
Corri para as armas; já delas coberto,
- Soldado ofereci-me: - soldado já sou!
E o côncavo lenho , que fumo vomita,
Os mares talhando, - comigo voou!
Em luta co' as ondas, num mar tormentoso,
As nuvens, comigo, parece elevar-se;
Outrora impelido ao centro dos mares,
Parece, comigo, querer sepultar-se! ...
Ao choque continuo das ondas bravias,
Já sinto a cabeça em torno rodar;
Um súbito enjôo de mim se apodera,
Que aos tombos, as quedas ... me faz ir deitar!
Terrível moléstia prostrou-me, abateu-me!
Os gelos da morte - cheguei a sentir!,..
De meus companheiros a muitos, - coitados!
Num leito de dores - eu vi sucumbir!
.............................
Em fim aportamos. As forças perdidas
Recobro de novo; começo a marchar
Em busca do campo do fero inimigo,
Que teve o arrojo de a pátria ultrajar!
Mas sendo a viagem extensa e penosa,
A fim de fazê-la, cavalos comprei;
Fiquei sem cavalos, fiquei sem dinheiro:
Ladrões mos furtaram; a pé caminhei!
Por montes e vales, por lagos imensos,
A pé e descalço por ínvios caminhos,
Caçando, com sede, os pés lacerando
Nas rígidas pontas de agudos espinhos!
Em pobres barracas, as noites chuvosas
Passando - molhado - em péssima cama;
E outras tremendo, tolhido de frio,
Levando-as deitado té mesmo na lama!
Do sol abrasado, os dias levando,
Em duro exercício ou marchas forçadas;
As noites velando, exposto ao relento,
Em rondas contínuas ou guardas pesadas.
Sofrendo desprezo de guascas grosseiros
Que os brios da pátria não sabem prezar,
Que uma só gota do pérfido sangue
A fim de salvá-los se negam a dar!
E tendo somente por triste alimento
O agro churrasco e o mau chimarrão!
Sofrendo privanças de todas as sortes
Sem que gozar possa a menor distração!
Eis quanto hei sofrido, com o riso nos lábios,
Por ti, cara pátria, pois teu filho sou;
E mais eu sofrera por ti - satisfeito,
Que o sangue, que a vida com gosto te dou.
Em premio só peço: - se o fero inimigo,
Em duro combate, meus dias ceifar,
Que a injuria a ti feita, não deixes impune;
Que a morte dum filho tu saibas vingar!
P'ra que reconheça o audaz estrangeiro
Que nos não tememos seus golpes de morte;
Que sabe afrontá-los um bom brasileiro,
Nascido nas plagas ardentes do Norte!
O SELVAGEM
Não cinjo um diadema sobre a fronte,
Nem coroas de louros a guarnecem;
Nem mesmo sobre o peito resplandecem
Ricos emblemas de honra e distinção;
Outras são as vantagens de que gozo,
Outros privilégios que me assistem:
Em quiméricas honras não consistem,
Nem essas quero, que vaidades são ...
Não habito palácios suntuosos,
Onde se nota o luxo deslumbrante;
E onde a prata, o ouro, o diamante,
Por toda parte vê-se em profusão;
Numa humilde choupana abrigo tenho,
Tão pobre, tão singela quanta honrada;
Pelo crime jamais se viu manchada,
Nem teve nela o vicio habitacão.
Amigos tenho alguns, inda que raros,
Porem mais raros um monarca os tem;
Um só dos meus amigos vale bem
Daqueles dos monarcas - um milhão:
São, pois, os meus amigos - verdadeiros,
Francos, leais, sinceros, dedicados;
Os seus pelo interesse são guiados:
Por ele, seus amigos venderão! ..
E minha pátria a selva majestosa,
Onde pude encontrar felicidade,
Onde, comigo, impera a liberdade,
Donde foi desterrada a escravidão.
Dos homens não me oprimem vis cadeias:
Sou livre quanto é livre o próprio vento,
As asas solto livre ao pensamento,
Livre conservo sempre o coração.
Desfruto a doce paz, gozo e sossego;
Dos ricos não invejo áureas riquezas;
Do mundo não me cegam vas grandezas;
Nem de seus vícios temo a corrupção.
Sou pobre; porem vivo a meu contento;
Sacio meus desejos moderados,
Enquanto aos ricos noto - atormentados -,
Sem poderem conter sua ambição!
“Harpa do caçador”
Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco, autor da “Harpa do caçador”, nasceu em Barras, em 8 de fevereiro de 1829 e faleceu no dia 10 de julho de 1891.
O CANTO DO CAÇADOR
Sou filho das selvas, sou tosco, grosseiro,
Sou brusco, selvagem; não sou trovador;
Eu tenho outras lidas, eu tenho outro emprego,
Que em tudo me ajusta: - eu sou caçador.
Se a lira hoje empunho, se solto este canto,
Não queiram tornar-me por um trovador:
Eu canto inspirado das cenas sublimes
Que encantam, que enlevam quem é caçador.
Certeira clavina carrego com arte,
E as aves persigo por longa floresta:
Matreiros veados, ligeiros, sagazes,
Que gosto que eu acho, matá-los à sesta!
Meus simples prazeres, por bailes, teatros,
Torneios e jogos dos homens da praça,
Não troco; não valem torneios e jogos,
Teatros e bailes, os gozos da caça.
A margem de um lago, nas noites de lua,
Com todo o sossego na rede deitado,
Eu gozo o sussurro da aragem no bosque,
Contemplo os encantos dum céu estrelado.
Mas logo desperto do enlevo sublime,
Ouvindo as pisadas, sutis, do veado;
Na rede me sento, preparo a clavina;
Em torno reparo, - com todo cuidado.
Até que dos bosques, a praia do lago,
Eu noto-o saindo com todo o vagar:
- Aponto a clavina, desfecho sobre ele,
E ei-lo de envolta co'as morte a lutar!
Apenas preparo de novo a espingarda,
Na rede, em sossego, me tomo a deitar:
Contemplo as estrelas, no lago brilhando,
E as nuvens correndo, brincando ao luar.
Eis nota uns estalos ao longe soarem;
Um surdo ruído, que imita o trovão;
Recresce'os estalos, - recresce o ruido:
- Mil vultos descubro, da lua ao clarão.
São porcos bravios, - queixadas chamados,
Que os dentes estalam, qual bomba ao quebrar-se;
Correndo e roncando, do lago - na lama,
A grande manada ja vejo deitar-se.
O tiro certeiro de novo rebenta;
Seu eco retumba no vasto sertão!
Que gosto que sinto, - ao ver estendidos
Três porcos, e mais, dum tiro, - no chão!
Então a clavina eu limpo de novo;
Depois a carrego com todo o vagar;
Arrumo a patrona , num ramo a penduro,
E torno, em sossego, na rede a deitar.
Contemplo os mais doces, mais simples momentos
Que levo na vida, sem ter que invejar
Recolhe-se a noite; sucede-lhe o dia:
As caças, correndo, vou logo apanhar.
Dum porco roliço, - com a faca cortante,
Retalho, com gosto, mui larga papada;
E noto a gordura, que excita apetite,
E eu como a costela, nas brasas assada.
As peles das caças com varas espicho;
Ao sol as estendo, depois, p'ra secarem;
E quando curtidas, de roupa me servem,
Privando os espinhos meu corpo arranharem.
Meus simples prazeres, por bailes, teatros,
Torneios e jogos dos homens da praça,
Não troco; não valem torneios e jogos,
Teatros e bailes, - os gozos da caça.
De longa cabaça - buzina preparo,
Que em tudo arremeda da onça o roncar;
Com ela, de noite, da casa distante,
E os cães amarrados, me vou emboscar.
Troando a buzina na vasta planície,
Seu eco responde - dos morros além...
Que grato alvoroço! - que gosto indizível!
- Eu ouço que a onça responde também!
Eu deixo que a noite seu manto recolha;
Que a aurora derrame seu frouxo c1arão;
Que o astro do dia, do leito se erguendo,
Inunde com luzes o vasto sertão.
Alegre contemplo da aurora a beleza;
O hino que entoam-lhe as aves - cantando;
O zéfiro branda, que - ledo - vagueia,
Das flores - no prado - perfume espalhando.
E eu calço as perneiras de peles macias;
Depois de calçá-as, eu tomo o gibão;
No ombro a clavina e a rígida lança;
No cinto, de um lado, penduro o facão.
De medo despido, com passos seguros
Com os cães companheiros, - amigos fiéis,
Eu parto, me rindo de vê-los pulando,
Alegres, brincando, em tomo a meus pés.
Eu sigo no rumo que a onça roncava;
Seu rasto diviso gravado na lama;
Os cães a perseguem correndo, latindo:
Exploram-lhe o faro, cheirando na rama.
E eu corro com pressa, gritando após eles,
A fim de excitar-lhes coragem, bravura:
Com animo forte, nas brenhas me interno,
Não temo no bosque medonha espessura.
Eu puxo de um lado, do cinto pendente,
Facão afiado, com ele picando;
Eu subo dos morros - ao cimo elevado,
Eu desço p'ra os vales, os cães procurando.
Até que bradarem com força já ouço:
Que chegue, - que é tempo de a onça matar!
Eu corro contente; desprezo o perigo;
E a hórrida fera já ouço o bramar!
É numa medonha sombria espessura
Que a onça tremenda se acha emboscada;
Dos ramos pendentes das hirtas tabocas
O orvalho desprende-se a cada passada.
Então - de gatinhas - com toda a cautela,
Tomando chegada, na ponta do pé;
Espio no rumo que a ouço rosnando,
Estendo o pescoço, p'ra ver se dou fé.
Mas - ei-la que parte com fúria, bramindo,
Aos cães acossando, querendo-os tragar!
E eles, - coitados! –lá vejo-os correndo:
Com medo, gritando, - vão longe parar!
A onça persegue-os a longa distância,
Rosnando e batendo co'as patas no chão;
Seus roncos medonhos retumbam no vale,
Tal como estampido de horrendo trovão!
Redobra com fúria seus fortes bramidos,
E o orbe em seus eixos parece oscilar;
Os tinidos brutos - do bosque desertam,
E a terra percebo nos pés me faltar! ...
Eu vou de mansinho, p'ra ela me chego;
Parando, - examino ... me tomo a chegar;
Ate que a descubro, deitada, me olhando,
A cauda movendo, já quase a saltar!
E logo que a vejo, que aponto a clavina,
- Na boca terrível, que a morte vomita,
O cão satisfeito, pulando, contente,
Encrava-lhe os olhos, a vista lhe fita.
Até que, de envolta com chamas o fumo,
A morte rebenta, - voando lá vai: -
A hórrida fera, que sangue respira,
- Rugindo, convulsa, sem forças já cai! ...
Então, dum só pulo, chegando-me a ela,
A lança lhe embebo no rígido peito:
O sangue espadana da larga ferida;
Já ela experimenta da morte o efeito! ...
E os cães, quando ouvem do tiro o ribombo,
Arrojam-se à fera, e cravam-lhe os dentes;
Mil vezes a mordem, com raiva, com gana,
Até que - já morta, - se mostram contentes.
Que gosto indizível de mim se apodera! ...
Que gosto que sinto, na casa ao chegar!...
Alegre, cercado de muitas pessoas,
O horrível combate começo a contar.
Teus bailes, teatros, torneios e jogos
Desprezo, - não quero-os, ó homens da praça!
Só quero que deixes que eu goze em sossego
Dos gratos prazeres que encontro na caça.
O CAÇADOR METAMORFOSEADO EM SOLDADO
(A Franklin A. de Meneses Dória)
O rude caçador, que outrora armado
De certeira clavina e rija lança,
De afiado facão, pendente ao cinto,
Nas brenhas, sem temor, seu passo avança;
O rude caçador, que outrora errante
Por ínvias, ermas selvas vagueava
Rodeado de cães, trajando peles,
As feras nos seus antros atacava;
O rude caçador, que mal cuidava
Em fazer consistir sua grandeza
No gozo dessas cenas majestosas
Que nos bosques ostenta a natureza;
O rude caçador, que mal buscava
Concentrar seu sentir, seu gosto e vida
Nessa vivenda descuidosa e grata,
Que não será jamais dele esquecida;
Já de macias peles não se adorna,
Nem do cinto, o facão lhe pende ao lado,
Nem no ombro a clavina e rija lança,
Nem e de um cão, sequer, acompanhado!
Fundiu-lhe o coração, fundiu-lhe a alma,
Ao seu todo fundiu-lhe ardente chama
Desse sagrado fogo, que o devora,
- Do amor da pária, - que a guerra o chama.
Não trepidou sequer um só momento
Ao reclamo da pátria, ao seu chamado:
Desprezou suas selvas majestosas,
Seus cães amigos, - e se fez soldado!...
Ei-lo que parte; - não vacila o passo:
Vai a morte afrontar em campo armado! ...
Ei-lo que parte; não de cães seguido,
Mas sim de heróis da pátria rodeado!
Uma esperança só lhe assoma ao peito;
Uma esperança só - sua alma encerra:
É ver da pátria a glória aurifulgente,
Ou cair com os seus, - ficar por terra! ...
O CANTO DO VOLUNTÁRIO
Em pobre choupana de folhas coberta,
De galas despida, foi onde nasci;
No centro das selvas, num bosque sombrio,
De imensas palmeiras foi onde cresci.
Em luta co'as feras nos antros medonhos,
La onde se abrigam mil tigres sedentos,
Os risos, as graças me foram constantes:
Gozei os mais doces, mais gratos momentos.
Do mundo as grandezas, as honras, o luxo,
Seus ricos tesouros jamais desejei;
Com o pouco que tinha, vivia contente,
No peito a cobiça jamais abriguei.
Aos simples prazeres meu peito aspirava;
Na caça encontrei-os; que mais eu quisera?
Mais simples prazeres no mundo não vejo;
Nem mesmo - maiores - o mundo mos dera ...
Gozando os afagos de mãe carinhosa,
No teto paterno vivia contente;
Dum pai ilustrado colhia as lições,
- Ouvia os conselhos dum velho prudente.
Deixei-os! - E certo, - deixei-os com magoa;
Eo pranto saudoso meu rosto banhou!
Deixei-os; que a pátria, se vendo ultrajada,
- "ÀS ARMAS! ÀS ARMAS, MEUS FILHOS!" - bradou.
Corri para as armas; já delas coberto,
- Soldado ofereci-me: - soldado já sou!
E o côncavo lenho , que fumo vomita,
Os mares talhando, - comigo voou!
Em luta co' as ondas, num mar tormentoso,
As nuvens, comigo, parece elevar-se;
Outrora impelido ao centro dos mares,
Parece, comigo, querer sepultar-se! ...
Ao choque continuo das ondas bravias,
Já sinto a cabeça em torno rodar;
Um súbito enjôo de mim se apodera,
Que aos tombos, as quedas ... me faz ir deitar!
Terrível moléstia prostrou-me, abateu-me!
Os gelos da morte - cheguei a sentir!,..
De meus companheiros a muitos, - coitados!
Num leito de dores - eu vi sucumbir!
.............................
Em fim aportamos. As forças perdidas
Recobro de novo; começo a marchar
Em busca do campo do fero inimigo,
Que teve o arrojo de a pátria ultrajar!
Mas sendo a viagem extensa e penosa,
A fim de fazê-la, cavalos comprei;
Fiquei sem cavalos, fiquei sem dinheiro:
Ladrões mos furtaram; a pé caminhei!
Por montes e vales, por lagos imensos,
A pé e descalço por ínvios caminhos,
Caçando, com sede, os pés lacerando
Nas rígidas pontas de agudos espinhos!
Em pobres barracas, as noites chuvosas
Passando - molhado - em péssima cama;
E outras tremendo, tolhido de frio,
Levando-as deitado té mesmo na lama!
Do sol abrasado, os dias levando,
Em duro exercício ou marchas forçadas;
As noites velando, exposto ao relento,
Em rondas contínuas ou guardas pesadas.
Sofrendo desprezo de guascas grosseiros
Que os brios da pátria não sabem prezar,
Que uma só gota do pérfido sangue
A fim de salvá-los se negam a dar!
E tendo somente por triste alimento
O agro churrasco e o mau chimarrão!
Sofrendo privanças de todas as sortes
Sem que gozar possa a menor distração!
Eis quanto hei sofrido, com o riso nos lábios,
Por ti, cara pátria, pois teu filho sou;
E mais eu sofrera por ti - satisfeito,
Que o sangue, que a vida com gosto te dou.
Em premio só peço: - se o fero inimigo,
Em duro combate, meus dias ceifar,
Que a injuria a ti feita, não deixes impune;
Que a morte dum filho tu saibas vingar!
P'ra que reconheça o audaz estrangeiro
Que nos não tememos seus golpes de morte;
Que sabe afrontá-los um bom brasileiro,
Nascido nas plagas ardentes do Norte!
O SELVAGEM
Não cinjo um diadema sobre a fronte,
Nem coroas de louros a guarnecem;
Nem mesmo sobre o peito resplandecem
Ricos emblemas de honra e distinção;
Outras são as vantagens de que gozo,
Outros privilégios que me assistem:
Em quiméricas honras não consistem,
Nem essas quero, que vaidades são ...
Não habito palácios suntuosos,
Onde se nota o luxo deslumbrante;
E onde a prata, o ouro, o diamante,
Por toda parte vê-se em profusão;
Numa humilde choupana abrigo tenho,
Tão pobre, tão singela quanta honrada;
Pelo crime jamais se viu manchada,
Nem teve nela o vicio habitacão.
Amigos tenho alguns, inda que raros,
Porem mais raros um monarca os tem;
Um só dos meus amigos vale bem
Daqueles dos monarcas - um milhão:
São, pois, os meus amigos - verdadeiros,
Francos, leais, sinceros, dedicados;
Os seus pelo interesse são guiados:
Por ele, seus amigos venderão! ..
E minha pátria a selva majestosa,
Onde pude encontrar felicidade,
Onde, comigo, impera a liberdade,
Donde foi desterrada a escravidão.
Dos homens não me oprimem vis cadeias:
Sou livre quanto é livre o próprio vento,
As asas solto livre ao pensamento,
Livre conservo sempre o coração.
Desfruto a doce paz, gozo e sossego;
Dos ricos não invejo áureas riquezas;
Do mundo não me cegam vas grandezas;
Nem de seus vícios temo a corrupção.
Sou pobre; porem vivo a meu contento;
Sacio meus desejos moderados,
Enquanto aos ricos noto - atormentados -,
Sem poderem conter sua ambição!
O POETA CAÇADOR
O POETA CAÇADOR
Rogel Samuel
Ele é um poeta camoniano. Teodoro de Carvalho e Silva Castelo Branco, autor da “Harpa do caçador”, nasceu em Barras, em 8 de fevereiro de 1829 e faleceu no dia 10 de julho de 1891. É um poeta clássico, dos melhores da nossa literatura brasileira. E dia virá em que ele vai figurar ao lado dos maiores do Século 19. Seu verso é perfeito, camoniano, como no soneto dedicado ao neto de D. Pedro II:
Despende, ó lira minha, um doce harpejo;
Mitiga por um pouco essa amargura,
A que te habituou a desventura,
Para um canto entoares de festejo.
Pois de um ramo imperial agora vejo
Uma nascente flor, cândida e pura;
A cuja peregrina formosura
Num canto festival hoje cortejo.
De vós, Senhor, descende a flor mimosa,
A quem ouso oferecer meu canto rude
E beijar-lhe, em vossas mãos, a mão piedosa.
O Eterno Criador sempre lhe ajude
A percorrer a senda gloriosa,
Que ao termo nos conduz da sã virtude.
(1866).
.......
Não se iluda: Dia virá em que Teodoro Castelo Branco será estudado nas escolas.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
A PRIMAVERA
A PRIMAVERA
Rogel Samuel
Hoje, primeiro dia da primavera, é bom reler o nosso poeta Casimiro de abreu. O Brasil é um país florido dos substantivos das primeiras estrofes: risos, afago, amores, flores, rindo, festa. A musicalidade desses versos é ritmado pelas sílabas ----4 -----10.
Casimiro é um clássico nessas coisas musicais.
Na segunda parte o poeta entristece: sombria, amargura, murcha, fenece, amargo.
Casimiro está triste, apaixonado, pois "Na mocidade, na estação fogosa,/ Ama-se a vida — a mocidade é crença, / E a alma virgem nesta festa imensa / Canta, palpita, s'extasia e goza".
E morre.
A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.
Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.
Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.
A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.
Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: — Como é linda a veiga!
Responde a rosa: — Como é doce o orvalho!
II
Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.
São flores murchas; — o jasmim fenece,
Mas bafejado s'erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.
Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe entumece o seio.
Na primavera — na manhã da vida —
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.
Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida — a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s'extasia e goza.
1 de julho, 1858
Rogel Samuel
Hoje, primeiro dia da primavera, é bom reler o nosso poeta Casimiro de abreu. O Brasil é um país florido dos substantivos das primeiras estrofes: risos, afago, amores, flores, rindo, festa. A musicalidade desses versos é ritmado pelas sílabas ----4 -----10.
Casimiro é um clássico nessas coisas musicais.
Na segunda parte o poeta entristece: sombria, amargura, murcha, fenece, amargo.
Casimiro está triste, apaixonado, pois "Na mocidade, na estação fogosa,/ Ama-se a vida — a mocidade é crença, / E a alma virgem nesta festa imensa / Canta, palpita, s'extasia e goza".
E morre.
A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.
Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.
Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.
A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.
Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: — Como é linda a veiga!
Responde a rosa: — Como é doce o orvalho!
II
Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.
São flores murchas; — o jasmim fenece,
Mas bafejado s'erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.
Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe entumece o seio.
Na primavera — na manhã da vida —
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.
Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida — a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s'extasia e goza.
1 de julho, 1858
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
A vida
A VIDA
Rogel Samuel
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel, lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: -- Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
A arte deste soneto de Camôes está em que conta uma estória do princípio ao fim sem deixar de ser soneto, isto é, sem afastar-se do gênero e tornar-se uma simples narrativa em versos. A primeira estrofe é dominada pelo "servir", que se repete três vezes, e também significava viver como servo e então estar preso, apaixonado. A segunda estrofe é o lugar do tempo, dos dias, do passar dos anos. A terceira é a do engano: não podia o pai fazer casar a mais nova sem primeiro encaminhar a mais velha. A última estrofe é dominada pela vida.
Rogel Samuel
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel, lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assi negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: -- Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
A arte deste soneto de Camôes está em que conta uma estória do princípio ao fim sem deixar de ser soneto, isto é, sem afastar-se do gênero e tornar-se uma simples narrativa em versos. A primeira estrofe é dominada pelo "servir", que se repete três vezes, e também significava viver como servo e então estar preso, apaixonado. A segunda estrofe é o lugar do tempo, dos dias, do passar dos anos. A terceira é a do engano: não podia o pai fazer casar a mais nova sem primeiro encaminhar a mais velha. A última estrofe é dominada pela vida.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
A LUA
A LUA
Rogel Samuel
Verlaine escreveu:
A LUA BRANCA
A lua branca
luz sobre o bosque.
De cada ramo,
ouço uma voz
vem da folhagem:
Oh! bem-amada!
O lago reflete,
profundo espelho,
o vulto vago
daquele salgueiro
que uiva ao vento.
Sonhar é a hora...
Do espaço desce
uma entranhada
calma imprecisa
que do céu estrelado
a lua irisa.
A hora indecisa...
(Trad. livre de Rogel Samuel)
Lembro-me de Bidu Sayão cantando esses versos musicados por Debussy, que foi aluno da sogra de Verlaine quando ele tinha oito anos. O luar sobre a copa das árvores faz falara voz amada. O lago reflete o mistério daquele silêncio, daquele sonho. A lua ilumina o silêncio, a calma que desce sobre o bosque. Mas não há paz: a hora é indecisa.
Rogel Samuel
Verlaine escreveu:
A LUA BRANCA
A lua branca
luz sobre o bosque.
De cada ramo,
ouço uma voz
vem da folhagem:
Oh! bem-amada!
O lago reflete,
profundo espelho,
o vulto vago
daquele salgueiro
que uiva ao vento.
Sonhar é a hora...
Do espaço desce
uma entranhada
calma imprecisa
que do céu estrelado
a lua irisa.
A hora indecisa...
(Trad. livre de Rogel Samuel)
Lembro-me de Bidu Sayão cantando esses versos musicados por Debussy, que foi aluno da sogra de Verlaine quando ele tinha oito anos. O luar sobre a copa das árvores faz falara voz amada. O lago reflete o mistério daquele silêncio, daquele sonho. A lua ilumina o silêncio, a calma que desce sobre o bosque. Mas não há paz: a hora é indecisa.
sábado, 20 de setembro de 2008
A ILUMINAÇÃO
A ILUMINAÇÃO
Rogel Samuel
Escreveu Dogen (1200-1253):
A iluminação é como a lua refletida na água.
A lua não fica molhada, nem é a água se quebra.
Embora sua luz seja larga e grande,
A lua é refletida mesmo numa poça de uma polegada.
A lua inteira e o céu inteiro
São refletidos numa gota na grama.
O que é a iluminação? Ele não o diz. A lua não se dissolve na água, a água não contém a lua. A lua não está na água, onde é vista. Por que se quebraria a água? Sua luz branca é larga e grande, mas está contida em cada gota, em cada folha da grama. E não se perde.
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Victor Hugo
Victor Hugo
Rogel Samuel
Não sei por que há franceses que não gostam de Hugo. Mas o seu sucesso era enorme e
sua obra gigantesco monumento. Aprendi a amá-lo a partir de seus poemas, que li desde criança numa antologia de Sergio Milliet. Seu romantismo se expressa assim:
Oh! não insulteis nunca uma mulher perdida!
Quem sabe qual o transe em que ela foi vencida?
Quem sabe se foi longo o seu combate rude,
Entre as mil privações que assaltam a virtude?
Se o vento das paixões soprou com violência,
Quem já viu a mulher, que prendia a inocência
Nas pequeninas mãos cruzadas sobre o seio,
Não ir no turbilhão, gritando, com receio?...
Tal a gota de chuva, - pérola da rama: -
Brilha ao passar do vento, oscila e cai na lama!
A culpa é nossa; é tua, ó rico! é do teu ouro!
Mas, no lodo é que o mar esconde o seu tesouro...
Para que o pingo d’água erga-se da poeira,
Com o vivo esplendor e a limpidez primeira.
Já que as transformações se operam pra melhor,
Dai-lhe um raio de sol! dai-lhe um raio de amor!
(Trad. de Múcio Teixeira)
Rogel Samuel
Não sei por que há franceses que não gostam de Hugo. Mas o seu sucesso era enorme e
sua obra gigantesco monumento. Aprendi a amá-lo a partir de seus poemas, que li desde criança numa antologia de Sergio Milliet. Seu romantismo se expressa assim:
Oh! não insulteis nunca uma mulher perdida!
Quem sabe qual o transe em que ela foi vencida?
Quem sabe se foi longo o seu combate rude,
Entre as mil privações que assaltam a virtude?
Se o vento das paixões soprou com violência,
Quem já viu a mulher, que prendia a inocência
Nas pequeninas mãos cruzadas sobre o seio,
Não ir no turbilhão, gritando, com receio?...
Tal a gota de chuva, - pérola da rama: -
Brilha ao passar do vento, oscila e cai na lama!
A culpa é nossa; é tua, ó rico! é do teu ouro!
Mas, no lodo é que o mar esconde o seu tesouro...
Para que o pingo d’água erga-se da poeira,
Com o vivo esplendor e a limpidez primeira.
Já que as transformações se operam pra melhor,
Dai-lhe um raio de sol! dai-lhe um raio de amor!
(Trad. de Múcio Teixeira)
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
A webcultura
ROGEL SAMUEL
A ameaça nos ronda. É falta de poesia. Eu vinha pela Tiradentes, passo
pela Rua Luiz de Camões, esquecida. Depois, a Travessa das Belas Artes.
Lá, só poucas mulheres ("da vida"), decadentes. Esperam fregueses, à luz
do dia. A seguir, o Beco do Tesouro. Nada mais pobre. "Proibidos beijos
ousados", está escrito no cardápio da Adega Flor de Coimbra. Em sonhos,
no meio do conflito. Estresse de notícias. Estamos assistindo ao fim da
Internet, como espaço livre de opinião, sem limites. A censura vai
acabar com a webcultura. Marca o fim da vida e arte virtual. Nasce a
desconfiança, a incerteza. Vamos nos entocar nos redutos, voltar à
civilização do papel, um estágio anterior ao micro: Fim do digital
público (melhor para mim, pois só assim paro de escrever essas crônicas
e me dedico a terminar, antes de morrer, os livros que tenho na gaveta).
Restritos são "os beijos ardentes". Lembro-me de um soneto de Olegário
Mariano, que não está nas suas "Obras Completas" e que começa: "As
coisas boas da vida, tu podes ter sem comprar".
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
AINDA
Rogel Samuel
A atual crise econômica americana assusta e muito quem sabe que o mundo está globalizado e que quando um elo do capitalismo se rompe "tudo o que é sólido se desmancha no ar", como disse Marx no "Manifesto":
"Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas, as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas. Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte".
O mundo é um todo, uma estrutura. Ou seja: "Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolve-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material quanto à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação torna-se propriedade comum de todas", escreveu o mesmo Marx, ainda atual.
A atual crise econômica americana assusta e muito quem sabe que o mundo está globalizado e que quando um elo do capitalismo se rompe "tudo o que é sólido se desmancha no ar", como disse Marx no "Manifesto":
"Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de idéias secularmente veneradas, as relações que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de ossificar-se. Tudo que era sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar com serenidade suas condições de existência e suas relações recíprocas. Impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo. Necessita estabelecer-se em toda parte, explorar em toda parte, criar vínculos em toda parte".
O mundo é um todo, uma estrutura. Ou seja: "Em lugar do antigo isolamento de regiões e nações que se bastavam a si próprias, desenvolve-se um intercâmbio universal, uma universal interdependência das nações. E isto se refere tanto à produção material quanto à produção intelectual. As criações intelectuais de uma nação torna-se propriedade comum de todas", escreveu o mesmo Marx, ainda atual.
sábado, 13 de setembro de 2008
O homem que roubava pássaros
O homem que roubava pássaros
Rogel Samuel
Ele conseguia aprisionar os pássaros no céu. Ninguém sabia como. Depois ele roubava seus
cantos e saía pela estrada cantando como um pássaro. Mas sua meta era voar. O dia que conseguiu
voar desapareceu da região.
Agora corre o boato que ele está tentando roubar as estrelas.
Rogel Samuel
Ele conseguia aprisionar os pássaros no céu. Ninguém sabia como. Depois ele roubava seus
cantos e saía pela estrada cantando como um pássaro. Mas sua meta era voar. O dia que conseguiu
voar desapareceu da região.
Agora corre o boato que ele está tentando roubar as estrelas.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
O PÁSSARO DO PASSADO
Rogel Samuel
O PÁSSARO DO PASSADO
Graça de Carvalho morreu. Era minha amiga. Grande poetisa. Filha de Farias de Carvalho, autor de minha preferência. Graça andava deprimida, tinha 57 anos. Se tanto. Eu adiava visitá-la, em Niterói. Devo a ela um livro raro, de Farias, «Canção de bem amar...».
O primeiro poema de «Pássaro de cinzas», de Farias de Carvalho, que deu nome ao livro, e é assim seu «Prólogo»:
Desses mortos ocasos esquecidos
chega-me agora o pássaro de cinza;
de ontem são suas asas, de silêncio
o seu bico pousado sobre a ponte
entre o vencido vale e o bosque a entrar,
bica-me o peito onde marés antigas
jogam restos de mastros e fantasmas
desses velhos piratas que ficaram
tatuados na penumbra de olhos idos.
E sem saber talvez do inútil intento
ninha o vazio do momento, à espera
da comida do sonho que ontem davam
essas mãos que se foram, consumidas
nesses mortos ocasos esquecidos...
Encontrei a nova edição de «Pássaro de cinza» na livraria do Aeroporto, de volta ao Rio. Eu antes dispunha de um xeróx feito na Biblioteca Pública do Amazonas, há décadas. Era 28 de dezembro de 2000, o avião lotado dos que vinham para o Reveillon, um clima de «fim de siècle » pairava no ar. A meu lado um cavalheiro estrangeiro lia um livro, com gravuras. Sério, aborrecia-se cada vez que eu saía de meu lugar para andar, estirar as pernas, no corredor do aeroplano. Irritava-se com minha incontinência. Em pouco o calor da manhã clara de Manaus foi substituído por um tempo chuvoso, feio, frio, escuro, de Brasília. E eu voltava, voltava, continuava, continuava lendo, relendo, o poeta, o professor Carlos Farias Ouro de Carvalho. E vi os 35 anos se passando, desde que o vi pela última vez, no Colégio Estadual do Amazonas. Farias parecia com Orson Welles, gordo, moreno, os olhos esbugalhados, poderosos, carregados de genialidade, sorriso delirante, dramático, gestos largos, voz tonitruante, grave, minha leitura prosseguia, eu revia todos aqueles poemas de meu Professor de Literatura, de vida, moreno, gordo, talentoso, imponente, belo, que faleceu em Niterói, fazia “cartomancia clínica” em Niterói, dizem, inventava sonhos, futuros, inventariava profissões, ressuscitava esperanças mortas, profetizava, arregimentava os signos do zodíaco e orquestrava novas configurações prestidigitadas. Farias, figura extraordinária, agora reeditado. Quanto vale a sua poesia? Quem sabe. Ele faz parte do quarteto de ouro: Norões, Bacellar, Tufic e Farias, os quatro grandes da poesia do Amazonas, que fazem parte de meu arcabouço intelectual, tão improvisado. Sou um provinciano. Manaus é para mim minha pátria espiritual, mas não parece. Quando vou a Manaus só permaneço 3, 5 dias. Nunca mais voltei. Carrego Manaus dentro de mim. Não preciso estar lá. Farias faz parte de minhas mais antigas leituras. Me deu aula de vida, de alegria, de charme, de dignidade, nobreza. Ninguém tão elegante quanto ele, no gesto largo da mão gorda, na inclinação da face, na inflexão da voz, nas metáforas exatas, Farias cantava as aulas, declamava, não reclamava (nunca nos repreendeu), me ensinou a Poesia, a Ousadia, a Superação, foi um pai, um amigo, um exemplo, um grande exemplo de educador, no mais elevado sentido desse incômodo e errático termo, e hoje escrevo estas notas, vindas de longe, do tempo em que Farias exercia sobre a minha consciência de adolescente um papel mítico, imortalizado na arquitetura de seu «Pássaro de cinza», dedicado ao Dr. João Veiga, que relembro na sua bela casa da Getúlio Vargas, casa que não mais deve existir, aliás nada mais existe, nem Farias, nem Graça, tudo desapareceu no fundo da noite, dos anos, e se, na hora de minha morte, as imagens de minha vida se projetarem na minha consciência que se extingue, virão como um pássaro. Mas liberto desse passado de cinzas.
O SOL
O SOL
Rogel Samuel
O primeiro poema de «Plenilúnio» de Ledo Ivo dá nome ao livro e surpreende.
Na força, quase brutal, de seus versos, uma estranha rima, que diz:
“Uma lua enorme
paira no céu pálido
..................
lua dissoluta
dos filhos da puta”
Depois o poeta, em «Soneto da neve», conta da neve «branca como o esperma», e inveja a noite,
«cobra escondida
entre as bananeiras»
os anjos ocultos no bosque»,
as almas, como o gelo, se evaporam
no dia findo», onde «galinhas brancas
ciscam o universo».
O poeta se encapsula «na rua General Polidoro»:
«minha vida eterna
é problema meu»
ou no «Soneto injurioso», onde
«o silêncio sucede ao barulho infernal
Assim será a morte, assim será o dia
em que a morte virá, fria como uma jia».
Assim será a morte, a velha puta escrota
que avança para nós escondida na bruma."
Gosto da poesia de Ledo Ivo dos 80 anos. Ele exorciza a morte. O título do livro não bate com os versos. Poesia do contraste. Pós-moderna.
Leio na praia. Interrompo a leitura. Olho o mar. Quatro engraxates descem a rampa. São quatro meninos parecidos, morenos. Dois devem ser irmãos, mesmo gêmeos. Um alcoólatra entra na água. O avô e sua netinha chegam na areia. Uma mulher se aproxima da água com cuidado. A mãe se preocupa com os filhos que correm. O rapaz põe seu cão para nadar. O velho sem barriga ainda se pensa jovem atleta e passeia de peito estufado, jogando os braços. O casal de amigos passa e me vê. Acena, e passa.
O sol.
“Assim será a morte, assim será o dia
em que a morte virá, fria como uma jia”.
Rogel Samuel
O primeiro poema de «Plenilúnio» de Ledo Ivo dá nome ao livro e surpreende.
Na força, quase brutal, de seus versos, uma estranha rima, que diz:
“Uma lua enorme
paira no céu pálido
..................
lua dissoluta
dos filhos da puta”
Depois o poeta, em «Soneto da neve», conta da neve «branca como o esperma», e inveja a noite,
«cobra escondida
entre as bananeiras»
os anjos ocultos no bosque»,
as almas, como o gelo, se evaporam
no dia findo», onde «galinhas brancas
ciscam o universo».
O poeta se encapsula «na rua General Polidoro»:
«minha vida eterna
é problema meu»
ou no «Soneto injurioso», onde
«o silêncio sucede ao barulho infernal
Assim será a morte, assim será o dia
em que a morte virá, fria como uma jia».
Assim será a morte, a velha puta escrota
que avança para nós escondida na bruma."
Gosto da poesia de Ledo Ivo dos 80 anos. Ele exorciza a morte. O título do livro não bate com os versos. Poesia do contraste. Pós-moderna.
Leio na praia. Interrompo a leitura. Olho o mar. Quatro engraxates descem a rampa. São quatro meninos parecidos, morenos. Dois devem ser irmãos, mesmo gêmeos. Um alcoólatra entra na água. O avô e sua netinha chegam na areia. Uma mulher se aproxima da água com cuidado. A mãe se preocupa com os filhos que correm. O rapaz põe seu cão para nadar. O velho sem barriga ainda se pensa jovem atleta e passeia de peito estufado, jogando os braços. O casal de amigos passa e me vê. Acena, e passa.
O sol.
“Assim será a morte, assim será o dia
em que a morte virá, fria como uma jia”.
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
OBRAS COMPLETAS
OBRAS COMPLETAS
Rogel Samuel
É um livro enorme, 1.099 páginas. Gosto desse tipo de livro. «Obra completa». É bom ver a obra inteira, integral, completa. Não acho este vasto volume vai ser completo, final. Mesmo com mais de 80 anos, Lêdo Ivo continua com fôlego. Basta ler o seu último livro, o «Plenilúnio», com poemas de 2001-2004. Um dos seus melhores.
Gosto sim dessas obras completas, mas raramente leio as introduções críticas. Como sou um crítico literário medíocre mas de carteirinha, profissional, raramente leio os confrades. Com exceção, claro, dos gênios, como Roberto Schwarz , Haroldo de Campos.
Pois me enganei: li, e com admiração, o texto introdutório de Ivan Junqueira. Apesar da ironia no título («Quem tem medo de Lêdo Ivo?»), traça excelente visão da poesia do poeta e da poesia brasileira como um todo.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Os presidentes
Os presidentes
Rogel Samuel
O Presidente Lula elogiou a imprensa dizendo que sem a liberdade de imprensa nunca teria chegado ao poder.
Ele disse isso no discurso de abertura da Semana da Academia Internacional de Televisão, "que reuniu cerca de 300 executivos estrangeiros e brasileiros, jornalistas e políticos no salão Cristal do Hotel Copacabana Palace".
O Presidente afirmou ainda que, mais cedo ou mais tarde, "a verdade termina aparecendo": porque "os telespectadores ou leitores são críticos implacáveis e juízes muito severos" e que "são plenamente capazes de separar o joio do trigo, a informação da desinformação, a notícia da campanha, a verdade da eventual manipulação. Quem não demonstra consideração por sua inteligência, termina por perder credibilidade".
Para ele o melhor juiz é mesmo o leitor, e que já passou a época da manipulação.
Isso me leva à reflexão sinistra seguinte e sua questão: Será mesmo que um negro pode governar os USA? Quando Morales venceu escrevi um texto prevendo os imensos problemas que ele teria se levasse à frente seu projeto de governo.
Não sei em outro lugar, mas no Rio de Janeiro a rejeição ao Presidente metalúrgico é muito grande. Graças à sua pessoal interferência o Rio realizou o Pan. E ele recebeu por isso a maior vaia da história da República.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
A montanha de areia
A montanha de areia
Rogel Samuel
Há um texto antigo que diz: "A montanha de areia é dispersada". O símbolo, o sentido global disso é que o resultado dos nossos objetivos é comprometido e invertido. É um presságio que diz: Esmagar a montanha em poeira. Sua fonte e crédito é o MO, um jogo divinatório tibetano feito ou organizado por Mipham, um grande iogue antigo.
Eu o consulto às vezes, sem muita certeza de que o enigma se resolverá, ou se o MO vai dignar-se a falar comigo, um mísero mortal.
Não sei o que significa MO. Em Katmandhu, havia um famoso iogue, meio mendigo, que jogava o MO nas ruas. E era muito consultado.
Há outros jogos, como aquele que dizem Napoleão usava para a guerra. O imperador o trouxe do Egito, onde era utilizado pelos faraós.
Quem bom seria para nós, nas nossas dúvidas diárias, ter algo que nos dissesse se tal negócio seria bem sucedido, se aquela viagem seria boa, etc.
Vivemos nossas dúvidas sem recurso lógico para resolvê-las. Principalmente quanto ao futuro.
Mas recorro ao MO por hábito, por esporte, pela crença. Recorro ao MO na Internet:
http://www.magastral.com/astrotibet/mo/mo.html
Não recomendo a ninguém, pois vicia.
Hoje, por hábito, perguntei se eu deveria fazer uma certa viagem. O MO respondeu:
"A montanha de areia é dispersada". Ou seja, "o resultado dos vossos objetivos é
comprometido e invertido".
Confesso que fico feliz. Estou cada vez mais velho para viajar.
sábado, 6 de setembro de 2008
UM QUADRO
Um quadro
Rogel Samuel
Dogen, ainda Dogen (1200-1253) escreveu, ou melhor, pintou um quadro imaginativo perene, máximo, perto da perfeição absoluta, em poucas palavras. Nós vemos aí o tempo, o tempo vazio, o tempo imóvel, o pensamento imóvel, a imobilidade do instante eterno, a pura percepção do absoluto universal, vazio e luminoso - barco vazio sintoniza que não vamos a nenhum lugar, porque já chegamos, porque já estamos lá, inundados de felicidade, em paz com o universo, em paz com o céu e com o inferno, livres das ondas do bem e do mal, livres do ventos do destino, das causas, das conseqüências, das interferências, nós somos ali o todo e o tudo, com a transparência do luar.
Meia-noite.
Nenhuma onda, nenhum vento,
o barco vazio
é inundado de luar.
Rogel Samuel
Dogen, ainda Dogen (1200-1253) escreveu, ou melhor, pintou um quadro imaginativo perene, máximo, perto da perfeição absoluta, em poucas palavras. Nós vemos aí o tempo, o tempo vazio, o tempo imóvel, o pensamento imóvel, a imobilidade do instante eterno, a pura percepção do absoluto universal, vazio e luminoso - barco vazio sintoniza que não vamos a nenhum lugar, porque já chegamos, porque já estamos lá, inundados de felicidade, em paz com o universo, em paz com o céu e com o inferno, livres das ondas do bem e do mal, livres do ventos do destino, das causas, das conseqüências, das interferências, nós somos ali o todo e o tudo, com a transparência do luar.
Meia-noite.
Nenhuma onda, nenhum vento,
o barco vazio
é inundado de luar.
MORRE ALPHONSUS DE GUIMARAES FILHO
MORRE ALPHONSUS DE GUIMARAES FILHO
Rogel Samuel
Os grandes poetas morrem e ninguém sabe. Porque não morrem. Não morrem nunca. Eu não sabia até hoje, quando lí em Blocos, dito por Glauco Mattoso. Morreu o poeta e partiu, para a rota do desconhecido, como ele escreveu:
Rota do Desconhecido
Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.
Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!
Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-28
Rogel Samuel
Os grandes poetas morrem e ninguém sabe. Porque não morrem. Não morrem nunca. Eu não sabia até hoje, quando lí em Blocos, dito por Glauco Mattoso. Morreu o poeta e partiu, para a rota do desconhecido, como ele escreveu:
Rota do Desconhecido
Quando eu seguir na rota do desconhecido
a minha voz ficará cantando na tua memória
e tua alma sentirá a presença
do meu sonho em teu sonho,
do meu riso de perdão à miséria do mundo.
Então, Amada, canta!
A noite se embalará com as canções marinhas
subindo, diretas, do teu coração.
Tua alma será, então uma praia branca,
onde cantarão os pescadores tristes:
os teus sonhos de amor abraçados ao desânimo...
Eu irei longe... Minha memória errará nas estrelas
e minha alma será o vento que acarinha plantas,
que acarinha flores sonolentas.
Eu irei longe, eu irei tão longe,
que meu coração vencerá distâncias
para ouvir tuas canções praieiras,
amada, grande Amada,
e minha alma será o céu pontilhado de estrelas
que há de fazer adormecer tua saudade!
Publicado no livro Lume de estrelas: poemas (1940).
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Poemas reunidos, 1935/1960. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p. 27-28
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
O SOPRO DO NADA
O sopro do nada
Rogel Samuel
O soneto parece uma carta, responde a um jovem. Posso? - pergunta ele. Não, não pode. Só um deus o pode. O homem não acompanha a um deus na lira. Não se pode acompanhar a lira de Apolo. Que se passa no coração de um deus? Seu canto é alento, vem do nada. É vento porque vida, cantar é existir. Para o deus tudo é possível, não para nós. O assunto do canto não é o que amas. O que amas passa, é momentâneo. O tema do canto é o eterno, o que está sempre lá, só deus o pode, nós não conseguimos acompanhar Rainer Maria Rilke.
Um deus o pode. Mas, dize-me, poderia um
homem acompanhá-lo na lira encantada?
Sua mente é discórdia e nas encruzilhadas
do coração Apolo não tem templo algum.
O canto, como o ensinas, não é o querer
nem busca do que querer que seja de atingível.
Cantar é existir. para o deus, tudo é factível.
Mas nós, quando é que somos? Quando ao nosso ser
dará ele de volta a terra e as estrelas?
Não é o que amas, jovem, mesmo que forçasse
a voz em tua boca. Aprende a esquecê-las,
tais canções. Elas passam, frutos do momento.
O canto em verdade de outro sopro faz-se.
Um sopro de nada. Um alento em Deus. Um vento.
(Trad. José Carlos Paes )
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
OS GRAMPOS
Os grampos
Rogel Samuel
Getúlio só falava em público com a mão na boca. Ele escondia a boca para que ninguém
que soubesse ler os lábios pudesse saber o que ele dizia. E dizem que ele contava coisas diferentes para cada interlocutor, fazendo uma grande confusão entre os seus supostos "confidentes", de forma que ninguém sabia ao certo o que ele pensava e que decisões ia tomar. Contam que ele se mostrava íntimo de todos, confiava em todos, e a todos ele traía. Mesmo sua mulher não sabia ao certo o que ele pensava, pois para ela um dia dizia uma coisa, no outro o seu contrário. Com isso ficou no poder por muitos anos.
De Tancredo se diz que ele nunca falava nada sério ao telefone, que desligava ou dizia algum disparate, como "não estou ouvindo" etc. Também não tinha confidentes.
Getúlio sempre era bonzinho e sorridente, mas quando seu interlocutor se retirava despejava o ódio nas coisas. Jogava tudo no chão. Era bonzinho e perigoso. E muito vaidoso: durante toda a vida desconheceu a existência de seu maior adversário, Carlos Lacerda. Dizem que nunca pronunciou o nome de Lacerda. Ignorou-o até o fim.
Talvez por isso Lacerda o odiava tanto.
Rogel Samuel
Getúlio só falava em público com a mão na boca. Ele escondia a boca para que ninguém
que soubesse ler os lábios pudesse saber o que ele dizia. E dizem que ele contava coisas diferentes para cada interlocutor, fazendo uma grande confusão entre os seus supostos "confidentes", de forma que ninguém sabia ao certo o que ele pensava e que decisões ia tomar. Contam que ele se mostrava íntimo de todos, confiava em todos, e a todos ele traía. Mesmo sua mulher não sabia ao certo o que ele pensava, pois para ela um dia dizia uma coisa, no outro o seu contrário. Com isso ficou no poder por muitos anos.
De Tancredo se diz que ele nunca falava nada sério ao telefone, que desligava ou dizia algum disparate, como "não estou ouvindo" etc. Também não tinha confidentes.
Getúlio sempre era bonzinho e sorridente, mas quando seu interlocutor se retirava despejava o ódio nas coisas. Jogava tudo no chão. Era bonzinho e perigoso. E muito vaidoso: durante toda a vida desconheceu a existência de seu maior adversário, Carlos Lacerda. Dizem que nunca pronunciou o nome de Lacerda. Ignorou-o até o fim.
Talvez por isso Lacerda o odiava tanto.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Borghese
Borghese
Rogel Samuel
"Borghese" é o título do poema de Rilke. Tradução de Augusto de Campos. O poema é tão bom, e nítido, que se pode "ver" as bordar de mármore, "ouvir" a água fluir, cair, a água caindo sobre a água ainda que muda, a água esperando a água, a água dialogando com a água, como no côncavo da mão que a vai beber, a água espelhando o céu, emoldurado pelo verde-escuro, a água que escorre na bela pia batismal em círculos constantes, impassíveis, sob o musgo que na última bacia fecha a travessia. Toda a arte se deve ao tradutor Augusto, que recriou o poema, que recriou o objeto de mármore, as bacias de água que em queda entram, derramam-se na nossa imaginação.
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,
muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;
ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante —
mente, impassível e sem nostalgia,
descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
O ERO POEMA
Rogel Samuel
Leio na Internet um poema erótico de Elmar Carvalho, um ero poema, da ero moça:
A ero moça
A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência...
E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência.
Lembro-me bem das aeromoças que abrem os braços sobre as poltronas e as emergências. O poeta, na sua emergente eroticidade, mostra as saídas da quintessencia. Este é um poema que opõe a vida X a morte. As saídas de emergência... são para o desastre. As entradas de quintessência são para o êxito, a alegria, a vitalidade humana. Abrir os braços mostra as saídas da morte, abrir as pernas a maternidade da vida. É eros contra a morte. Como sempre.
Leio na Internet um poema erótico de Elmar Carvalho, um ero poema, da ero moça:
A ero moça
A aeromoça
abre os braços
e mostra as saídas
de emergência...
E eu a sonhar
que ela abrisse
as pernas e mostrasse
as entradas de quintessência.
Lembro-me bem das aeromoças que abrem os braços sobre as poltronas e as emergências. O poeta, na sua emergente eroticidade, mostra as saídas da quintessencia. Este é um poema que opõe a vida X a morte. As saídas de emergência... são para o desastre. As entradas de quintessência são para o êxito, a alegria, a vitalidade humana. Abrir os braços mostra as saídas da morte, abrir as pernas a maternidade da vida. É eros contra a morte. Como sempre.
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