sábado, 2 de maio de 2009

O pó dura para sempre




Hoje é sábado. Frase que se tornou clássica por Vinícius. Amanhã talvez não chova, como hoje.


"E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.


"Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?


Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua".



Isso escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Ali se esconde um novelo místico, ou científico. O que dura é o pó. Ou: "Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris" (Genesis 3:19 ). O mundo reduzido a cinzas. "In sudore vultus tui vesceris pane donec revertaris in terram de qua sumptus es quia pulvis es et in pulverem reverteris".

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Hino ao trabalho




Hino ao trabalho

Rogel Samuel

Bilac escreveu um dos mais belos hinos ao trabalho, desde o trabalho pré-histórico operador do fogo, construtor da primeira casa, o que começou a lavrar, o lavrador o ferreiro o coveiro... costureiro, o escritor, marinheiro, cantor, eletricista, aviador, o socialista, o homem da esperança.... O trabalho é aquela atividade, aquela mercadoria valiosíssima, que visa a um determinado fim (O capital, I, 1). Atividade essa que opõe o homem à natureza e revela sua capacidade de gerar valor, seja pela força de trabalho humano fisiológico simples, seja pelo trabalho abstrato intelectual e artístico. Todo trabalho é um dispêndio de cérebro para criar riqueza, com músculo, nervos, mãos. Produzir é em si gerar uma mercadoria, um valor. O trabalho construiu o mundo, ou com operários manuais, mecânicos, ou com cantores, pianistas, escritores e poetas. Nós somos que fizemos.


Benedicite!

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o tecto;
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O poeta Álvaro Maia










O poeta Álvaro Maia


Rogel Samuel

Pois as garças são ângulos móveis, voadores, esparsas são as garças, são graças, finíssimas criaturas que bailam, figurativas, como anjos dos céus... estão tristes? São alegres? Estão em festas? Desenham retas e círculos de farsas, bordam pospontam com seus longos bicos em talagarças, nas tules das florestas... são aladas sensações, asas de mágoas, sobem e descem nas planuras, enfeitando os barrancos de brancura, estão em sonhos sobre as águas, são mães-dágua... rimadas ritmadas no poema de Álvaro Maia:

No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farsas,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancos de brancura,
lembram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...


Álvaro Maia nasceu em 1893, no seringal “Goiabal”, rio Madeira, município de Humaitá. Advogado, professor catedrático de português, jornalista, poeta, romancista, político, deputado, governador e senador pelo Amazonas. Faleceu em 1969. Está vivo entre os seus raros leitores.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Registro

Nosso poema "Gripe suína" ganhou chamada de capa em BLOCOS ONLINE.

Nosso texto "A teoria revelada" apareceu em
Palavra do fingidor.

gripe suína


LEIA EM

http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/
"gripe suína" - NOVO POEMA DE R. SAMUEL

terça-feira, 28 de abril de 2009

A teoria revelada




A teoria revelada

Rogel Samuel

Quando recebi o belo livro de Zemaria Pinto, "O texto nu" (Manaus, Ed. Valer, 2008), logo pensei, pelo título, tratar-se de obra de poesia. Por sabê-lo poeta. Bom poeta. Mas qual surpresa foi a minha ao ver que abria um volume de teoria literária. E mais ainda, um compêndio teórico prático, didático, das diversas teorias literárias, o mais claro possível, o mais facilitado possível, bem escrito, pelo seu bom estilo, para o público em geral e alunos da graduação em letras.

O título não engana, porém. Ali a teoria da literatura - como ele a chama - está nua. Desnudada, sem véu.

Entramos lá num terreno complexo, variado, infinito, que é aquela disciplina plural, entre filosofia e ciência, vasta e renovável.

Poucos são os bons manuais que sobreviveram, por isso. Porque novas teorias sempre aparecem. Localizadas, nacionalizadas. Porque o teórico da literatura deve saber de tudo o muito necessário para dar conta de suas tantas faces daquele conjunto de saberes: a lingüística, as estéticas, as filosofias, as diversas línguas, as diferentes literaturas nacionais, etc.

Eu me lembro de que, quando iniciei por concurso minhas aulas na Faculdade de Letras da UFRJ me jogaram aos leões, e o joguei durante vários anos, numa maluquice, uma infernal disciplina que se chamava "evolução da literatura", aquela loucura, trapalhada, pois o curso ia desde a Idade Média até as Vanguardas!
Quem é capaz de saber, de dominar tudo aquilo?

Depois o curso foi extinto.

Mesmo assim é a teoria literária francesa, norte-americana, alemã etc.

Um dos maiores talentos brasileiros, que foi José Guilerme Merquior, caiu naquela armadilha, a de escrever sobre tudo e sobre todos: Freud, Marx, Hegel, etc. Assim um grande filósofo brasileiro, o Mestre Ivan Lins, comentou que passara a vida inteira lendo Hegel. E no final da vida afirmou: "Estou começando a compreender..."
Mas não caiu no laço desse ardil o escritor e poeta Zemaria Pinto. Ele só expôs, no seu livro, as idéias claras e clássicas e consagradas, as mais conhecidas, mais gerais, de maneira direta, sem viés, sem polêmica. Basta dizer que ele não cita ninguém durante o texto, só na bibliografia, onde nos orgulhamos de estar, com dois títulos.

“O texto nu” pode ser adquirido em:
http://www.livrariavaler.com.br/index.php

As aventuras de Dianna Valente




Rogel Samuel

(Foto de Mirian Ramos: Neuza Machado em sua visita a Manaus)


Neuza Machado tem alguns livros inéditos do maior valor. Finalmente ela disponibiliza o primeiro em seu blog:

http://caffecomlitteratura.blogspot.com/

Trata-se de uma narrativa (?) em versos, ou um poema longo, um épico moderno. É algo muito original e não sei bem ainda como descrevê-lo. Ou tentar classificá-lo (se é que arte necessita de alguma classificação, coisa de professor).

Aqui está o Prólogo, e diz que tudo se vai fazer numa viagem. A Dianna Mineira Valente parece ser a própria narradora fictícia, que em viagem à Serra Futura faz o seu Neo-Narrar Inseguro, ou seja, a Narradora do Nada vai contar algo ainda muito impreciso, uma aventura.

E aparecem alguns estranhos e interessantes personagens, enquanto a narradora prossegue a sua aventura ao Monte Gigante.

Um belo poema narrativo bem humorado, com muitas variações:




AS AVENTURAS PROSOPOPAICAS DE DIANNA VALENTE


NEUZA MACHADO




I

PRÓLOGO


E eis que, naquele deslumbrante dia
de suave letargia,
a Dianna Mineira Valente,
uma Notável Incomum Vidente,
por intermédio do tédio
e de Brilhante Poderosa Lente
e de Registrada Magia,
já havia previsto, a dita,
aventura mui bendita,
aventura por certo! segura,
por certo! muito bonita!,
ao longo da Varredura
da Via um pouco interdita
que vai à Serra Futura,
a qual se chamará Ventania
na próxima nomenclatura
desta narradora Sem-Guia,
pois lá a guedelha eriçada
do tal Mago da Alcaçada
que fica na Serra Vazia,
no alto da espiralada
trilhazinh’abandonada
do Neo-Narrar Inseguro,
que, na Duração Já Sem-Muro,
sem erro!, terá serventia,
pois lá a guedelha eriçada
do Bell Mago da Indomada
recebe a suprema magia
de uma Ventarol’Alada,
um muito! Desordenada!,
também eriçando ela
a Cabeleirinha Branquela
da Narradora do Nada,
pois foi lá que começou,
e a narradora a mim contou,
a Aventura Mui Segura
da Dianna Arthemis Valente,
Honorável Incomum Vidente,
resguardada pl’o Toinzão
Charreteiro Bonitão,
um Charreteiro Eternal,
mas de bom coração,
por oferecer luz sem-igual,
uma luz matricial,
ao pobre’humano vagante
de um passado imortal,
o Toinzão Itinerante,
por ser u’a figura tal,
a tal figura’inflamante,
uma recópi’atual
de Faetonte Gigante,
aquele filho roubante
da Carruagem do Sol,
ou Hélius Apolo Cantante,
um músico itinerante,
por certo!, fenomenal!,
um demiurgo de Escol
que sabe girar o Sol,
um ex-dono incomodante
da Viatura Voante
que no vigor do arrebol
risca a telona gigante
da realidade marcante
do sonho transcendental
com mil paletas faiscantes,
paletas de tons brilhantes,
de cores reverberantes
e muito et cetera e tal.
Então?!
Então, foi nesse dia
de suave letargia
que a Dianna Quiromante
pegou a Carruagem Vazia,
uma Charretona Brilhante,
e foi, com espetacular maestria,
até ao Monte Gigante
com notável companhia,
o tal Faetonte Brilhante,
o seu Charreteiro do dia,
o Charreteiro Importante;
de dia, um Estrello-Guia;
de noite, muito distante.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O cego que vê TV




O cego que vê TV

Rogel Samuel

Pois um dos inúmeros méritos do livro de Leila Míccolis, Passagem de Calabar, é o de revelar, salientar, enfatizar, chamar à cena o leitor para a importância e beleza desse belo poema dramático, talvez o melhor da literatura brasileira, que se equipara ao “Marinheiro” de Fernando Pessoa.


Calabar foi escrito para ser representado. Traz para nós os conceitos de pátria, cidadania, memória. E também de alienação, da alienação da classe média brasileira. Ou seja: “Calabar está onde não está”, o que quer dizer que ele está em toda parte. Quem o diz é “Uma voz”, um personagem fantasma, que deve ser tudo, talvez seja mesmo a Voz da História, a voz das esquerdas, a voz política, a voz crítica.
Como “A viúva de Calabar” é a voz da revolução, da luta armada, a voz que chama para as ruas, para o grito dos excluídos, que diz “que meu ódio esteja em toda a parte”, o ódio revolta, o ódio nordestino.


O poema dramático de Ledo Ivo estampou um país fracionado, dividido, entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste, entre o Brasil que recebe Bolsa Família e o Brasil que não precisa receber, entre o político nordestino analfabeto de esquerda sem um dedo e o político empresário paulista intelectual doutor cosmopolita. O poema mostra a divisão ideológica do Brasil, ainda que a Leila tentou passar por cima disso para não ferir a mesma ferida. Neste poema, extremamente dramático, Ledo Ivo deu voz a quem não a tem, fez falar e mesmo gritar a grande massa da população pobre, pois “quem te fez em pedaços” que lamba as pedras, que beba a água salgada e morra na sua sede.


Para Ledo Ivo, “a História é uma ficção”, ou seja, uma narrativa, um personagem, uma Voz. “Para mim, não há verdade histórica. Há a versão do vencedor, do vencido, do observador, do pesquisador, etc. Como poeta, não estou interessado na verdade, e sim na mentira, no mito, na mitografia, na mitologia. Calabar é uma figura mítica.”
A história é sua versão, a história é uma versão da verdade.
Ledo Ivo criou também a versão dos vencidos, criou a versão dos personagens do poema. Algumas versões são dos vencidos, como do “Alagoano”, que diz:


Assim eu sou coisa grátis,
já que não tenho valor.


E criou a versão da classe média brasileira, enriquecida, alienada, que não vê nada, que não sabe de nada, que nada pensa, que não é capaz de ver o que não está na TV:


Quem vê nem sempre vê.
O melhor cego é aquele
que vê na TV.


Que esses versos valem por um poema inteiro e são da maior atualidade!

domingo, 26 de abril de 2009

Cantos de Ezra Pound




Rogel Samuel




NO início dos "Cantos", Ezra Pound diz:

E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.

Tradução de José Lino Grünewald. Foi-me dada por minha amiga Helena. O texto se move para frente, nau no mar quilha contra vagas impelindo adiante. O adjetivo "divino" cobre tudo, ambiente de mito. A "nave escura" veste o leitor de sugestão de destino. Trágico. Ovelhas a bordo ("e os nossos corpos") se abre ao sacrifício. Vem "o pranto aflito". Velas cheias. Deusa benecomata (tradução de "the trim-coifed", vestida de sua própria cabeleira(?)). Atmosfera homérica. O original reza:

And then went down to the ship,
Set keel to breakers, forth on the godly sea, and
We set up mast and sail on that swart ship,
Bore sheep aboard her, and our bodies also
Heavy with weeping, and winds from sternward
Bore us onward with bellying canvas,
Circe's this craft, the trim-coifed goddess.

Prossegue a tradução:

Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.

É o sol. É o Barco no mar. É o horizonte até o Término do dia. Bela imagem:

Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.

O tradutor abusou da maestria, compôs tudo em "O", do Sol, do sol-maior: "Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano" - (Sun to his slumber, shadows o'er all the ocean)


E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios do sol, nem a
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra sobre os homens fúnebres.

sábado, 25 de abril de 2009

As garças







As garças

(Afresco do Teatro Amazonas, possivelmente de De Angelis)

Rogel Samuel


Eu me lembro. Na década de 50 o Rio Negro invadiu o centro de Manaus. A antiga Drogaria Flink ficou debaixo dágua. As águas entraram pela praça da Matriz. Creio que foi em 1953.

Agora leio que a enchente é grande. Calamidade. "A medição do nível das águas do rio Negro, feita no principal porto de Manaus, é realizada desde 1902. Desde que começou essa medição, 1953 foi marcado pela maior enchente da história do Estado. Naquele ano, em junho, o mês de pico das cheias dos rios da região atingiu 29,69 metros", diz a Agência Estado. 3 mil casas serão afetadas. O Rio Negro atinge a maior marca em 106 anos.

O maior poeta daquelas águas é Álvaro Maia:

GARÇAS


No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farças,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancosde brancura,
lembram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Hino á tarde



Hino á tarde

Rogel Samuel

Bilac escreveu um glorioso hino à tarde, mas não aquela tarde cheia de brilho, de sol, de ouro em chama, luz e primavera .
A tarde que ele ama é a do fim, do pôr-do-sol, do adágio vesperal, tumba de luto e esplendor do fim do dia, cheia crepes e auriflamas, a tarde triste, mas augusta, meio envolta no vulto da noite, das estrelas, ventre da noite, e dos seus mistérios, a noite das volúpias, do sono, da continuação da vida e do nada.

Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas,
Alva! natal da luz, primavera do dia,
Não te amo! nem a ti, canícula bravia,
Que a ti mesma te estruis no fogo que derramas!
Amo-te, hora hesitante em que se preludia
O adágio vesperal, - tumba que te recamas
De luto e de esplendor, de crepes e auriflamas,
Moribunda que ris sobre a própria agonia!
Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre
Os primeiros clarões das estrelas, no ventre,
Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada,
Trazes a palpitar, como um fruto do outono,
A noite, alma nutriz da volúpia e do sono,
Perpetuação da vida e iniciação do nada.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Abertura



Rogel Samuel

Foi bela. Abertura do ano da França no Brasil. Grandiosa. Sou meio francês. Meu pai era francês. Amo Paris. Já gostei mais. Paris agora parece poluída, suja. Tem assalto. Muita gente pedindo no metrô. Desemprego, que com esta crise deve ter aumentado. Ou estou ficando velho, cansado de viagem. Geralmente sozinho. Há poucos anos passei 15 dias em Paris. Foi 2006. Frio intenso. Hotel Petit Louvre. Dirigido por árabes. Perto, a Torre. Linda, iluminada. E o Sena, com sua estátua da liberdade, que os americanos copiaram. Algumas livrarias e cafés. O mundo chic. A Escola Militar, o Campo de Marte. A solidão. A saudade do Rio. Fico por aqui.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A beleza aruinada





Rogel Samuel


Graças a Amelia Pais conheci o poeta português Rui Pires Cabral, nascido em 1967 em Vila Real. Publicou:

Geografia das Estações, edição de autor, Vila Real, 1994
A Super-Realidade, edição do autor, Vila Real, 1995
Música Antológica & Onze Cidades, Presença, Lisboa, 1997
Praças e Quintais, Averno, Lisboa, 2003
Longe da Aldeia, Averno, Lisboa, 2005

Ele trabalha seus textos e os modifica, mesmo depois de publicados, como neste:





Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo as estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

Esta é a beleza crepuscular ou velha, suburbana, gasta. Pobre, cansada. Anônima. "Com visitas de domingo e tardes no quintal depois da escola". Esta a beleza de rostos e paisagem, em preto e branco, a dos hotéis decadentes, como a das estrelas no chão de um copo partido, aquilo que o deixava a sós consigo mesmo, a beleza fiel a si mesma, a beleza da vida em si.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Pobre elegia



Rogel Samuel

O ter sido publicado em Manaus o meu prefacio ao livro de Djalma Passos, AS VOZES AMARGAS, me leva a comentar o seu poema:



POBRE ELEGIA


Eu não te trago nem flores nem auroras,
Nem a mensagem de outro céu
Nem a terra meiga de novos caminhos ...
Eu não te trago o clarão de outras estrelas
Nem a luz de novos pensamentos,
Nem a coroa da suave esperança
Pela qual te sacrificaste...
Eu não te trago a recompensa
Do sofrimento que absorveu
Num crepúsculo de fogo, num por de sol sangrento,
Sem o ú1timo beijo dos que te amavam,
Sem o olhar dos que foram a tua propria vida
Sem os adeuses do coração que amaste ...
O que eu te trago nesta pobre elegia
É a noticia da ambição que não extinguiste,
Do ódio que não apagaste,
Da incompreensão que nao destruíste,
Da dolorosa inutilidade do teu sacrificio ...


De que trata o poema? De certo modo é um poema religioso, ou quase. Falará ele ao Cristo sacrificado? Ele nada diz, mas sugere. Como Passos era um político "de esquerda", ou melhor, do PTB da época de Jango, é possível que o poeta esteja falando de um líder sacrificado, talvez de Che Guevara. Mas não pode ser, o livro de Passos é de 52, e naquele ano Guevara ainda estava vivo e jovem.

Portanto o poema fala de algum outro revolucionário, ou santo, ou mártir.

A ambição não se extinguiu, nem o ódio, nem a incompreensão... falo "da dolorora inutilidade do teu sacrifício..."

Pobre, triste elegia!

domingo, 19 de abril de 2009

Calabar – o grito de um mito




Calabar – o grito de um mito

Rogel Samuel


Começo a comentar o excelente livro de Leila Miccolis, “Passagem de Calabar”. E o vou fazer por etapas, em várias observações aqui postadas.

Segundo ela, o que se vê em Calabar é o mito da traição.

A quem traiu Calabar? A Portugal? Ao Brasil? Calabar escolheu lutar pelos invasores holandeses, e não pelos invasores portugueses/espanhóis. É por isso um traidor? O mito da traição se expõe ironicamente nos versos de Ledo Ivo:

Major Calabar
soldado de que pátria
na Pátria sem pátria
.........................
Mal perguntado, pergunto
A quem traiu Calabar?
A que pátria traiu aquele
que não tem pátria nenhuma

Leila nos oferece um panorama do Brasil apresentando o poema de Ledo Ivo e abre a cortina de suas possibilidades com uma grande variedade de temas. Por exemplo, a questão dos gêneros, os meandros do dramático, do poema dramático. Além de literário, o ponto que ela desenvolve é o político.

sábado, 18 de abril de 2009

Cascalho




Este Cascalho de Herberto Sales me acompanha há muitos anos. Não a edição, que perdi. Mas o livro. A primeira edição é de 1944, portanto tinha eu 1 ano de idade, não sabia ler. Mas na década de 60/70 li o livro, apressadamente, como tudo o que eu fazia na época, vítima da sobrecarga de sala-de-aula. Cascalho foi uma boa leitura. Esstou, agora, relendo.

Muito me admira que o livro só se encontre em sebos.

Será que a literatura brasileira está realmente envolvida nesta crise?

Porque o mundo da ficção é deveras evanescente, e o romance um objeto de consumo. Até barato.

Escrever um romance dá muitíssimo trabalho. Físico, mental, emocional. Quantos jovens talentos se dedicam a esse ingrato mister?

Escrever um romance é como o garimpador de cascalho. Trabalha a vida inteira e quem sabe nunca encontra ouro.

O ouro é um mistério. Dilson Lages o descobriu. Seu estilo é muito semelhante ao de Herberto.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A prosa soberana




A prosa soberana

Rogel Samuel

Eu gosto dos escritores à moda antiga: Euclides da Cunha, Rui Barbosa. São textos fortes, camaleônicos, enrustidos, vulcânicos. O campeão é Antonio Vieira. O imperador da prosa. O monstro sagrado da escritura. Quem se mete a imitá-los, hoje, é rotulado de acadêmico, antiquado. Os escritores amazonenses do passado os imitavam, e até hoje prosadores como Saramago fazem uso dessa estética do texto retumbante, relâmpagos de sonoridades poéticas. De certo modo Guimarães Rosa. Ele também construía um palácio de assonâncias, como quando disse: “Sábio não é quem sempre ensina. Mas quem de repente aprende”.
São seis vezes o som de EM, que lembra o questionamento de “hein?”. Rosa constrói um romance em cima de sonoridades.
Alguns bons prosadores hoje estão esquecidos. Exemplo de Herberto Sales. Seu romance “Cascalho” tem uma “tessitura artística”, uma “arquitetura e a linguagem”, uma “densidade” estilística, no dizer de Adonias Filho.
São escritores de prosa soberana.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O texto secreto




Estou surpreso: meu próprio computador bloqueou o meu blog! Fico imaginando quantos leitores estarão impedidos de me ler, se eu mesmo tive a maior dificuldade de a mim me ver. O Internet Explorer me bloqueou como "site inseguro", " impróprio" para mim mesmo. E eu pensei, eis aí o grande barato, o escritor não deve ficar lendo e relendo o que rabiscou. A dúvida é o maior impedimento à nossa produção literária. Por que temos dúvidas à respeito dos nossos textos?

Mas eu precisava postar, não ler!

Alguns escritores dependiam da aprovação dos outros, da esposa, de alguém. Sem isso, não publicavam nada.

Outros escreviam com frenesi e nunca burilavam seu texto.

Flaubert trabalhava tanto a prosa que a desfigurava. Ele escrevia frases. Trabalhava frases. Modificava palavras.

Proust ampliava o escrito, acrescentava considerações, situações.

Pois bem. Todos os escritores devem ter um computador como o meu. Neurótico. Que esconde o que escreveu.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

novo poema

Novo poema escrito e postado em 15 de abril de 2009 em:

ROGEL SAMUEL, novos poemas.

Click para acessar.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Chuva fina, em Tiradentes




Chuva fina, em Tiradentes

Rogel Samuel

Chove. Chuva fina, em Tiradentes. Dia muito nublado, tipicamente inglês. Minha amiga X. diz que fica deprimida, com um dia assim, escuro. Sem sol. Mas nada há de depressivo neste clima meio frio, bom para dormir, para se bem vestir. Entro na única livraria da cidade. Na porta, de saída, um ex-ministro, grande intelectual e escritor. Tem casa por aqui. O livreiro me diz que também o filósofo tal por aqui está. Olho muitos livros e nada compro. Os preços elevados. Caríssimos. “O diabo na livraria do cônego”, de Eduardo Frieiro, da Itatiaia, que custa 21,00 no catálogo, em Tiradentes sai por 49,00. Mais do dobro. Gosto muito de Frieiro. Grande escritor, melhor crítico. Eu sempre quis ler este livro, que nunca li, da conjuração mineira. Chove. Chuva fina, em Tiradentes. No hotel, escrevo e posto esta crônica.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A morte do papel




A morte do papel

Rogel Samuel

Ziraldo escreveu no JB que o jornal de papel morrerá. Creio que sim. Em alguns países, o jornal impresso já perdeu a capacidade de influenciar os leitores, que já lêem o jornal ao contrário, buscando saber o que ele esconde, quais suas intenções secretas. Não, não há notícia isenta, desinteressada. Há sempre uma sutil mensagem política escondida no texto. E uma ciência da linguagem se especializou em desmascará-lo.

O texto do Ziraldo está reproduzido em “ENTRE-TEXTOS”. Ele diz que o livro impresso não morrerá. Tenho minhas dúvidas. As novas mídias do livro estão cada vez mais sofisticadas. Mesmo no Brasil já existem editoras online, como as seguintes:


http://www.livrofalante.com.br/

http://www.audiolivro.com.br/sistema/home.asp?IDLoja=6491&1ST=1&Y=3887645298176


Eu, modesto escritor, agora só escrevo pela Internet. Vários livros meus estão completamente on-line.

Há tempos escrevi que o futuro da poesia está no celular. Imagine a maravilha: seus pequenos poemas serem lidos por milhões de leitores no celular...

sábado, 11 de abril de 2009

O sol





O sol

Rogel Samuel

O sol fica fraco, o verão. O brilho intenso cai, os ares claros, as nuvens raras. O outono. O abril se vai para maio, mês das noivas. Do amor. Quando eu era garoto, havia uma canção:

Rosa de Maio
É meu desejo
Mandar-te um beijo
Nesta canção.

Não sei, creio que era Francisco Alves. Aqueles cantores: Orlando Silva, Vicente Celestino. Conheci, pessoalmente, Albenzio Perrone. No fim da vida, gerente de restaurante vegetariano. E pobre, e digno. Elegante, magro, educado. Contou-me que, um dia, quando era grande sucesso, uma "fã" lhe telefona. Uma senhora, do em hospital. Dizia que, antes de morrer, queria conhecê-lo. Perrone mandou um amigo. Ela deixou toda a fortuna para aquele amigo. Rica. Sem herdeiros. Na época do rádio, não da TV - ela não sabia que o amigo era um impostor. Um falso Perrone.
Gosto de vozeirões, escandalosos, Agnaldo Rayol, Timóteo, Caubi. Gosto de Miltinho. Encontrei Agnaldo Rayol em casa de amigos. Me disse que seu ídolo era Altemar Dutra. Espanta como Agnaldo era jovem, para sua idade. Alto, bonitão. Sorriso aberto. Me disse quão amigo é da Hebe. Por causa dela tinha-se incompatibilizado, na época, com a Globo, o que lhe custava muito caro. Caubi era meu vizinho, em Copacabana. Digo, sua "boite", creio que "Drink". Caubi posava, aos domingos de sol, na porta. Via o movimento da garotada passar. Timóteo desfilava com seu conversível, emplacado em Timóteo, uma cidade. Passava glorioso pela Avenida Atlântica. Morava perto do Arpoador, num luxuoso prédio. Tinha predileção pelos domingos de sol, de verão.
Minha avó cantava uma canção que ouvi de sua boca refrão: "eu morro, eu perco vida, mas o amor dela não hei de deixar". Meu pai entoava uma estranha canção amazonense: "Cabocla do Caxangá, vem cá, cabocla, vem cá". E canções folclóricas alsacianas. O sol está ficando fraco, vai-se o verão, a vida, as canções. Mas o brilho intenso do passado estandartiza, nos ares, as claras visões dos cânticos do outono. Abril se vai para maio, quando se espera amar.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

poços de luz




Poços de luz



Rogel Samuel


A mais bela contradição. Aquela luz da escuridão do poço? Azenha inverte os sentidos do poético, em:



poços de luz

maria azenha


fui à procura da palavra
que sonhei esta noite

há um espelho nas paredes da rua
um espelho gigante

as letras chegam-me por poços rodeados
de diamantes
crescem dos braços para a lua

o silêncio
uma ciência que se prolonga
no sangue

há praças onde esculpir o sol

Azenha faz da arena da rua um espelho, gigante espelho, nas paredes. O escuro poço é feito de luzes de diamantes esculpidos, onde se mergulha na solidão da alma. Estendem os braços para o céu, estão vindo do sangue, - o mundo de Azenha é todo multirefletido de espelhos - ela já escreveu um livro assim - são as alças de alcançar o brilho do sol, de um sol esculpido nas ruas, publicitário, exposto, onde a escritora está nua e em sangue... E onde estará a palavra sonhada?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A outra profecia





A outra profecia

Rogel Samuel


A semana foi dominada pela tragédia em L´Aquila. Refugiei-me na Kizz. Gosto dessa banda. Como eu disse, eu tive um amigo, Carlos de Souza Neves, pesquisador das profecias. Principalmente Nostradamus. Ele é autor de um gigantesco livro, “As profecias do nosso tempo”. Eu tenho esse livro, mas não o encontro. Desorganização minha.

Ele dizia que o mar vai invadir a terra. Isto é possível, com o aquecimento global. No fim da vida, ele construiu uma casa, com cerca de 15 quartos, em Caxambu. Não é luxuosa. Eu a conheço. Após a sua morte, foi deixada, por herança, a um grupo da Sociedade Teosófica. A sua imensa biblioteca lá está.

Mas não é uma casa comum.
Ela está preparada para o fim do mundo. Souza Neves estocou tudo para sobreviver ali durante muito tempo: fósforo, álcool, lenha, óleo, etc. A própria localização, numa elevação, mostra que ele construiu um refúgio. Uma fortaleza.

Ele acreditava que a terceira guerra mundial viria do Oriente Médio. Na época nós só pensávamos no confronto entre a União Soviética e os Estados Unidos. Ele dizia que o perigo viria da zona árabe. Na época, ninguém falava em terrorismo. Mas ele sim.
Mas o pior seria a invasão do mar. Moro a beira mar. No primeiro andar.
Refugio-me na banda Kizz.

Profecias do nosso tempo




Profecias do nosso tempo

Rogel Samuel


Eu tive um grande amigo, chamava-se Carlos de Souza Neves, escritor, teosofista, especializado nas profecias. Ele escreveu um gigantesco livro, “As profecias do nosso tempo” (eu tenho esse livro, só não acho).

Dizia ele que a China ia invadir a Europa e o mundo. Eu, certamente cético, pensava que era militarmente, que o exército vermelho viria, com seus tanques... Hoje vejo que realmente os produtos industriais baratos da China dominaram o mundo e abalaram a economia dos Estados Unidos, e que o dinheiro barato chinês liquidou com o resto, os subprimes, que são as aplicações chinesas em títulos do tesouro americano. A opinião não é minha, mas do famoso Chico Oliveira e de Ben Bernanke, presidente do FED.

“Já em março de 2005, Ben Bernanke, então importante economista de Princeton, alertava para o risco da utilização dos empréstimos chineses para financiar os pesados gastos das famílias norte-americanas, em hipotecas de casas e carros. Ben é hoje o todo-poderoso presidente do FED, e de crítico converteu-se em administrador da bancarrota”. Isto está escrito em Mark Landler, do The New York Times, no artigo “Somente os bolsos chineses se enchiam”, publicado na Folha de S.Paulo, em 5/jan/2009, apud Francisco de Oliveira.

Enfim, a China invadiu o mundo com produtos e com dinheiro baratos. Souza Neves tinha razão.

Amanhã tratarei da outra “profecia” do saudoso amigo. Esta bem mais terrível.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Leonard Cohen




Poeta urbano

Rogel Samuel


Urbanos poetas os que nos falam da vida das grandes cidades, suas avenidas, trânsito intenso, com o ruído do mundo das armações de cimento e vidraça, longe das florestas, o mar poluído, o ar poluído, as pessoas anônimas, o metrô, os trens, os automóveis. Mas não longe da poesia, para esses poetas urbanos. A solidão pode ser um dos seus temas, a solidão anônima:


Leonard Cohen

PERGUNTO-ME QUANTA GENTE NESTA CIDADE

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilhados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.

Leonard Cohen

(Em “Filhos da Neve - Antologia Poética”, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, Assírio e Alvim, 2ª ed: 1997 - colecção Rei Lagarto, enviado por Amelia Pais).

Ele é mais conhecido como músico, cantor, compositor, escritor canadense, nasceu em Montreal em 1934. Quase foi monge budista. Morou no Mount Baldy Zen Center, próximo de Los Angeles.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Duas traduções



Duas traduções

Rogel Samuel

Traduzir, além de ser uma arte, exercício útil ao escritor, para excitá-lo. Traduzir o poeta que mais amamos faz do trabalho um extremo prazer. Traduzir faz aprender, mergulhar no misterioso subterrâneo do texto e das duas línguas. Poucos tradutores agigantaram o texto original, em colaboração com a origem. No meu insignificante caso digo: ainda hei de tentar traduzir “ Le bateau ivre”, de Rimbaud, com seus 100 versos de ouro puro.

Vejamos um caso de tradução comparada, de Rainer Maria Rilke, mas sem comentário:


O torso arcaico de Apolo,

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

(Tradução: Paulo Quintela)


Não, não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro, onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

(Trad. de Manuel Bandeira)

domingo, 5 de abril de 2009

O naufrágio no Amazonas







O naufrágio no Amazonas

Rogel Samuel


Ontem, perto de Itacoatiara, de madrugada, o "Dona Zilda" naufragou com 47 pessoas a bordo. Como sempre, o mesmo problema, superlotação. Eu já passei por isso. Ia atravessar o rio, de volta para Manaus. Quando o pequeno barco começou a viagem eu vi o perigo e fiz, aos gritos, que voltassem para o porto para me deixar. Mas tive de fazer um escândalo! A irresponsabilidade é total, com a vida humana. As
pessoas têm medo de parecer medrosas e não protestam. E morrem. Meu falecido pai, navegador experimentado no Amazonas, dizia que existem mais barcos no fundo dos rios do que sobre as águas, navegando. No meu romance "O amante das amazonas", eu arrolei vários desastres.

No " Dona Zilda" havia crianças e até 2 bebês de 2 e 6 meses. Desaparecidos. O mundo amazônico é assim, selvagem e terrível. O rio Amazonas perto de Itacoatiara é tumultuso e largo como um braço de mar. O rio está cheio, quase não se vê o outro lado.

sábado, 4 de abril de 2009

que quando entrei do patamar no espaço














que quando entrei do patamar no espaço
no comando gritavam pulsações de alarme
e o repuxo das terras punham plácidas tábuas
esboroado o farol a ímpeto último.
e coloridas voavam no patamar da estupa
bandeiras de rezas estandartes de graças
e era quando ali recebíamos forças
do aro de metal tão plano quanto aço.
mas do mormaço apareciam taças
bye-rung kha-shor amorosa puro néctar túmido
no fomento do som de trompas que sobre o azul colore
levadas a pulso poderosas e em bando.
ó grande tarde de Padmasambhava
ó grande área aquela de palácio!
rufam tambores encastelados deuses
refregas rumores talássicas ameaças
de Mahakhalas de khatvangas de espadas!

quem me dera estar de volta em poema
e lá não me perder no azul do céu da cena

ROGEL SAMUEL

sexta-feira, 3 de abril de 2009

"Esse é o cara!", esse é o Brasil!











"Esse é o cara!", esse é o Brasil!

Rogel Samuel


"Esse é o cara!", disse Obama sobre Lula. Eu nem sei se o Jornal Nacional deu isso. Só leio as notícias pela Internet. Os internautas brasileiros não gostam de Lula. É a classe média. Que o rejeita. Mas esta classe representa somente 10 % da população. Basta ler os "comentários" dos jornais para ver como Lula é rejeitado ali. Há muita desinformação, ataques diários na imprensa. Criticam o problema dos hospitais públicos. Mas pouca gente se lembra que foi a oposição quem acabou com a CPMF - um crime - tirando bilhões da verba que ia para a saúde pública. A CPMF era o imposto mais justo do Brasil: não dava para sonegar, e somente os ricos pagavam. A classe média pagava uma ninharia, pobre não pagava. "Esse é o cara!" é uma frase emblemática, dito por alguém que também sabe o que é discriminação. Obama era atacado de todas as formas e lados, na campanha. Minha amiga X., que trabalhou na campanha dele, me disse. Mas, ao contrário do Brasil, houve uma onda invisível de internautas trabalhando a favor dele. Obama foi eleito pela grande massa da população americana. Se Obama conseguir debelar a crise, nós podemos dizer a seu respeito: "Esse é o cara!" E não seremos odiados por isso.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A palavra como navalha











A palavra como navalha

Rogel Samuel


O terrivelmente belo poema de Zemaria Pinto, “O exercício da crueldade” acusa desse modo:

palavras são serpentes, são navalhas
são balas que explodem dentro do peito
de quem ouve e de quem fala!

Ai palavras! Ai palavras! Estranha potência essa das palavras cruéis, enganosas, ferinas, irônicas, venenosas. Zemaria Pinto diz que elas cortam como navalhas com suas falas, falácias, que trazem espinhos venenosos escondidos, balas explosivas que vão fundo, que lá no íntimo ferem quando querem ferir, e que ulceram a boca de quem diz, de quem dispara. O veneno mais terrível não mata a serpente, mas destrói a alma da humanidade de quem as profere, as palavras danadas infernais. Todos nós já as ouvimos e as sofremos. E até mesmo as proferimos contra nossos inimigos e desafetos! Às vezes elas vêm adocicadas com o invólucro do venenoso mel dos sorrisos falsos, perigosamente afáveis, corteses, finórios.

Onde os venenos e as gozações mais ácidas aparecem é na vida parlamentar, no Parlamento, ali onde reina a esperteza, a sagacidade das inteligências maléficas e malignas prontas para tudo destruir, usurpar, danar, profanar.

Até parece que o homem não merece o sagrado e misterioso dom da fala, da linguagem, mas não é verdade. São demônios falantes, em bom português, em correto inglês etc.

Zemaria Pinto é meu amigo, um homem afável e cortês, poeta e escritor fecundo da Academia Amazonense de Letras, autor de numerosos livros.
Leia mais Zemaria Pinto em:

http://ofingidor2008.blogspot.com/

domingo, 29 de março de 2009

O Liszt de Christopher Schindler















O Liszt de Christopher Schindler

Rogel Samuel

Talvez seja um dos seus melhores CDS, esse "Liszt", de Christopher Schindler. Pode ser integralmente baixado ou mesmo ouvido em parte em

http://christopherschindler.net/default.aspx



A capa é de sua mulher, a artista plástica Christine Zachary.

http://dailyartchronicle.blogspot.com/




Christopher Schindler já gravou Cláudio Santoro, Bartok, Shostakovich, Gershwin, Mozart,
Beethoven, Rachmaninoff. Foi finalista no Villa-Lobos Piano Competition no Rio de Janeiro e tocou a Sonata Dante de Liszt em Bellagio, Italy, em recital patrocinado pela Fundação Rockefeller. Ele foi pianista do Oregon Ballet Theatre's Rhapsody in Blue e apareceu em dois dois pianos na produção de My Fair Lady, in 2005, produzida no Portland Center Stage e no Dallas Theater Center.
Christopher Schindler nasceu em Everett Washington e começou seus estudos musicais
com nove anos. Com 13 anos tocou com a Everett Symphony. Ele tem Mestrado pela
University of Washington e Doutorado em Arte Musical pela University of Oregon.
Foi professor na Marylhurst University e conferencista.
Solista com várias orquestras, como Seattle Philharmonic, Everett Symphony, Vancouver Symphony, Columbia Symphony, Yaquina Chamber Orchestra and University of Oregon Symphony. Medalha de Ouro no International Piano Recording Competition of Fort Worth in 1978.
Seu CD,” Anthology: Early Live Performances”, tem música de Bach, Mozart, Schoenberg, e
Schubert. Foi aluno de Joyce Ways, Randolph Hokanson, Neal O'Doan, Marlene Thal, Bela Nagy e de Karl Ulrich Schnabel, filho do famoso Artur Schnabel, um dos maiores pianistas de
todos os tempo.

Você pode baixar o CD LISZT por apenas 9,99 US.

sábado, 28 de março de 2009

José Martí



Jose Martí

Rogel Samuel


Famoso e pequenino poema o do cubano José Marti (1853–1895), por nós todos amado como o poeta da revolucionária rosa branca da paz:

Cultivo uma rosa branca,
em julho como em janeiro,
para o amigo sincero
que me dá sua mão franca.

Para o cruel que me arranca
o coração com que vivo,
cardo nem urtiga cultivo:
cultivo uma rosa branca.

Poeta da paz, marxista à sua maneira, amado em Cuba. Martí foi preso, condenado a trabalhos forçados. Sua saúde ficou abalada na prisão. Foi deportado. Morou na Espanha e em Nova Iorque. Funda o Partido Revolucionário Cubano. Martí morreu lutando na revolução de libertação de Cuba. Um intelectual fecundo, para ele "a melhor maneirade ser livre é ser culto.


sexta-feira, 27 de março de 2009

Passagem para a Índia

Passagem para a Índia

Rogel Samuel

No aeroporto de Nova Dheli, em dezembro de 92, vivi uma experiência de horror. À caminho de Kathmandu, com 3 malas (2 eram do Lama que estivera conosco, no Rio, cheia de livros), ia embarcar no dia seguinte, cedo.
- O Sr. não pode pernoitar no aeroporto, disse-me um policial, expulsando-ne.
Acabei na rua!
Depois descobri um salão externo, para onde se subia por um elevador que dava direto na rua. Mas toda vez que eu tentava subir por ali, um grupo de jovens com cara de quem iam assaltar entrava junto e eu saía.
Veio um outro policial que me ajudou, pois à vista dele os jovens sumiram.
Acima tentei ir ao banheiro. Tive de pedir a umas garotas americanas que guardassem minhas malas. Uma lagoa de urina no chão.
Havia pedintes dentro daquela área do aeroporto!
Depois descobri que havia uma área vip, com restaurante de luxo. Mas só deu para tomar um chá, logo o meu vôo chegou.
Se for à India não leve bagagem.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Onde andará o poema?

Rogel Samuel


Estou numa Lan-house, um pouco quente, e vim ao blog para dar conta de uma coisa: minha postagem diária.

Rubem Braga produzia suas melhores crônicas quando não tinha assunto. Ele era o mestre. Um dia entrou pela manhã, bêbado, na nossa faculdade de letras. Entrou na biblioteca, falava alto.

- Vocês têm meus livros? gritou.

Ivete, a diretora da Biblioteca, mandou que os serventes expulsassem aquele bêbado.

- Mas é o Rubem Braga, dissemos.

E fizemos uma roda em torno dele e ele falou de sua vida particular, íntima, desabafou, quase chorou, contou coisas que não se podem publicar.

Quando eu o chamei de Embaixador, ele se irritou. Ele tinha sido Embaixador do Brasil, recente.

No fim apaixonou-se por nossa colega e minha amiga até hoje, Maria Alice Capucci, que é uma loura belíssima.

Escreveu um poema para ela. Onde andará o poema?

domingo, 22 de março de 2009

A última hora



A última hora

Rogel Samuel


Lembra Thich Nhat Hanh que no romance “O estrangeiro”, de Andre Camus há um personagem que vivia como um homem morto. Estava condenado à morte. Era um assassino.

Mas na prisão ele teve a consciência da passagem do tempo, ele despertou para o
momento que passa, pois eram seus últimos momentos de vida.

O seu mestre foi uma pequena janela acima de sua cabeça por onde ele podia ver um
pedaço de céu. Do céu azul. E devido aquele céu azul ele se iluminou, isto é,
teve a percepção do presente.

Mas ele só despertou para isso dois dias antes de sua morte. Mesmo assim ele resolveu
viver aqueles seus dois últimos dias de maneira muito profunda e intensa.

Então ele descobriu uma coisa fantástica: ele tinha vivido até então como um homem morto, com um morto vivo, como quem estivesse dormindo, e só agora ele acordava!

Ele descobriu isso dois dias antes de morrer.

Antes da execução ele recebeu a visita do padre. O padre queria salvá-lo.
Mas ele não aceitou, porque ele viu que estava mais desperto do que o padre.
E pediu que o padre se retirasse para que ele pudesse viver aquela sua última hora de modo profundo.


http://odomadordamontanha.blogspot.com/2009/01/thich-nhat-hanh.html

sábado, 21 de março de 2009

A semana



A semana

Rogel Samuel (Foto de R. Samuel)

Primeiro escrevi algo triste. Sobre a morte. Meu predileto tema. Depois mudei. Rasguei a fantasia. É certo que ela morreu naqueles dias. Eu deveria pranteá-la? Mas sua morte não me fez triste. Com a placidez, a calma com que experimentou a vida, ela morreu. Ela nunca nos passou tristeza.

A semana sim. A vida também. O tempo. A crise. Há tempos, escrevi um poemazinho ordinário, que diz: "Que é viver? / permanecer / ou passar?" Não continua, a vida. Nem se demora, a morte. Não há se não a permanência da inconstância, transitória. Nem estou aqui para a filosofia barata de domingo. A semana passou, na velocidade do seu nada, do seu vácuo.

Grossas correntes, pesadas, a morte que me faz libertar das grossas correntes. Viver plenamente a felicidade do dia presente, por que não sei se amanhã acordarei. "Vaidade das vaidades, tudo é correr atrás do vento". A vida é vento. Instilou a vida um sopro no nariz do boneco de barro que foi Adão. A vida é oxigênio. Nos planetas sem oxigênio haverá vida? Nós nos estafamos, em vão. "Ai palavras, ides no vento".

Em Long Beach, demos uma pequena caminhada a pé pela praia. Meus amigos Vitrolinha e Nenen tinham saudade de Copacabana. Do calor das águas. Almoçamos no famoso Crocodile Cafe. Mais bela é Malibu. Conheci toda aquela costa, de Malibu a Dana Point.

Vitrolinha, minha amiga de infância, tinha uma tia chamada Lula. Tia Lula era muito minha amiga. Magra, sorria. Morava no Bairro do Céu. Sem brincadeira, Manaus tinha o Bairro do Céu. Tia Lula morava na Boa Sorte. Era o nome da rua. Ninguém dizia: Rua. Só Boa Sorte. "Onde mora?" - "Moro na Boa Sorte"; ou: "No céu".

sexta-feira, 20 de março de 2009

A terceira Ode de Horácio


A terceira Ode de Horácio

Rogel Samuel


O inicio da Ode III de Horacio assim traduzimos e nos diz:

Para a nave que leva Virgilio


Nave, que leva Virgilio, você leva
A metade de minha alma.
Por isso peço à amorosa deusa
de Chipre e ao pai dos ventos
que o restituam a salvo
para as areias Áticas
Como fizeram aos irmãos da bela Helena,
brilhantes astros.


O seguimento da ode é de difícil e trabalhosa tradução. Faz uma reflexão sobre os perigos do mar.

Minha primeira professora de latim na Faculdade foi Z. Autran. Na época havia latim no
vestibular. Não me lembro como se escrevia seu primeiro nome. Era tia de Paulo Autran.

Certa vez ficamos dias reunidos para traduzir uma Ode horaciana. O texto não fazia sentido.

Nunca estudei tanto quanto naquele tempo o latim.

Mas eu era burro mesmo e tinha péssima memória.

Meu professor de latim no Vestibular foi Antonio Pio. Um verdadeiro gênio. Lia no original
o texto latino como quem lê português. Anos depois foi professor da Universidade mas
aposentou-se cedo, vítima de doença misteriosa. Voltou para Franca, SP, e nunca mais o vimos.

Depois de dias de luta com uma estrofe de Horácio, recorremos a ele. E ele, como quem toma um
jornal, deu uma olhadela nos versos e logo disse:

- Não dá sentido porque esta palavra aqui não é latina, mas grega. E imediatamente nos
dava a tradução.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Tiradentes


Tiradentes

Rogel Samuel

Cidade parada no tempo. Cidade de poucas pessoas. Em cada esquina uma pousada, uma loja de móveis e antiguidades. Minha amiga X. quer que eu venha morar aqui. Não consigo. Escrevo numa Lan-house. Na pousada a TV não está funcionando, nem a Internet. Estou em paz, fora do tempo, das notícias, dos terrores e dos assaltos. Não sei o que se passa no mundo, senão vagamente. Em lugar do calor carioca há um friozinho pela madrugada. O mundo aqui parou.

Haverá pouca coisa a esquecer:
O vôo dos corvos,
Uma rua molhada,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o pôr-do-sol,
Três palavras que o mundo sabe,
Pouca coisa a esquecer.

Será bem fácil esquecer.
A chuva pinga
Na argila rasa
E lava lábios,
Olhos e cérebro.
A chuva pinga na argila rasa.

A chuva mansa lavará tudo:
O vôo dos corvos,
O modo do vento soprar,
O nascer da lua, o pôr-do-sol.
Lavará tudo, até chegar
Aos duros ossos desnudados,
E os ossos, os ossos esquecem.


Archibald McLeish

Tradução de Manuel Bandeira

terça-feira, 17 de março de 2009

Ó virgens que passai, ao Sol-poente


Ó VIRGENS QUE PASSAI AO SOL POENTE

Rogel Samuel



É assim que diz o famoso soneto de Antonio Nobre:

Ó virgens que passai, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz onipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

Cantai! cantai as límpidas cantigas!
Das ruína do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz... Cantai!


Antônio Nobre é poeta simbolista, portanto no seu famoso soneto, o «sol-poente» nos deve remeter a «algo», deve escamotear o sentido, para alguma outra natureza, esconde o que diz.
Não seria a velhice, pois o poeta morreu jovem, com 33 anos, em 1900.
Talvez as virgens, úberes, fartas de potencialidades, a ser fecundadas na «fartura da seara reluzente», gozosas, obreiras dessa tarde, desejantes, grávidas de prazeres, vitalidades...
Mas, por que «o sol poente»?
Por que não o despertar, o meio-dia, o pleno sol da tarde?
E, sendo «poente», por que «ardente»?
E sendo «ardente», por que tomba, por que cadente, no meio dessa seara reluzente?
E se «virgens», por que «o vinho, a Graça, a formosura, o luar!»
Sim, que de mistérios vive a poesia.
Engana o/a leitora, engana-se o/a leitora, que pensa estar, apenas, o sujeito do poema lastimando o seu «perdido lar», as suas «ilusões antigas», as ruínas do seu lar.
Sim, é certo.
Certo, certo de que tudo isso é assim, também.
E o que o poeta Nobre não se deve confundir com a pessoa Nobre.
O «personagem» do poema pode ser um velho.
Mas velho possante («O Sol que tomba, aureolando o Mar»), rico de vida, de vitalidade («A fartura da seara reluzente»).
A força, a beleza do poema reside no contraste: «suaves e frescas raparigas» X «ruína do meu lar».
E sua canção é o hino que desperta «todas aquelas ilusões antigas».
A oposição e o sentido está nas belas rimas poente-ardente, cantar-lar, onipotente-reluzente, mar-luar, cantigas-raparigas, desaterrai-cantai.
São rimas significativas, verdadeiras pontes de significação, irradiam sentidos.
Sim.
Sim, tudo isso «eu vi morrer», de súbito, sim, o lar despedaçado.
E o poeta precisa morrer, dormir, esquecer, fugir daquelas lembranças do passado familiar, feliz, longe daquelas «estradas ermas», lar que era «sol», «mar»,

A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

O poema se encontra consigo mesmo. No fim.
Toda a fantasia da dança feminina, ao cair da tarde, seus cantos, suas suavidades reluzentes no conjunto desses evocativos versos.
Afinal são fantásticos dias de infância recuperados ao sol poente. Na voz daquelas raparigas virgens, que passam, como passaram as vozes familiares das mulheres da infância, das irmãs, mães tias avós que passaram todas pela estrada.
O lar é isso. Conjunto de pessoas.
Não lar-casa. Mas grupo familiar.
Ó Primas e Irmãs, ó virgens, cantai! Esta é a canção. O poema envolve sonoridade corredia: é poema para ler lido alto, em voz alta.
Poesia alta, graça, frescura, leveza. Aureolando o Mar, límpidas cantigas.
Fartura do canto daquelas ilusões antigas de um passado, das lembranças da infância do seu perdido lar.

James Langston Hughes

TRECHO DA ESTREVISTA QUE NOS SURPREENDEU


TRECHO DA ESTREVISTA DA GRANDE POETA PORTUGUESA MARIA AZENHA EM 13/3/2009 QUE NOS SURPREENDEU:

Dílson Lages: Que escritores brasileiros a senhora já leu?
Maria Azenha: Dilson, cito de memória: Clarice Lispector, Andrade, Bandeira, Melo Neto, Adélia Prado, Rogel Samuel...

segunda-feira, 16 de março de 2009

Viagem



Viagem

Preparo-me para Manaus
em breve naquela sala
Aeronave não, ave
mergulho no passado.
Certas ruas, certas casas
Calçadas
pisadas pelos meus mortos.

Mas o rio Negro passa,
em silêncio ameaçador.
Me ameaça com sua mordaça.

(Rogel Samuel)

Felicidade


A felicidade não é um paraíso fechado, separado do mundo. É, ao mesmo tempo, a nascente e o oceano. DUGPA RINPOCHÊ

domingo, 15 de março de 2009

Quiromancia



Quiromancia

Rogel Samuel

Jefferson Bessa escreveu:

Quiromancia

abro as linhas das mãos
e vejo o instante
das estreitas linhas
das nuvens com o céu:
assim se abrem
os brancos e as linhas
destes versos



Nas linhas de suas mãos estão as quilhas das suas naves, das aves que voam no seu rumo, no céu está escrito com que e com quem você deve navegar, viajar, as linhas finas de seus versos. A Quiromancia interpreta o presente onde está o horizonte do futuro e o eco do passado, a estrutura do viver. Ali está inscrita e subscrita a vida, a forma do destino, o perfil das nuvens do céu, as linhas e os detalhes das curvas da vida, da sorte, do caráter, da personalidade e do amor. Somos escritos nas estrelas das palmas de nossas mãos, estamos nas palmas daquela entidade, daquela divindade que nos contém e nos escreve.

Nossos segredos estão desenhados nas finas linhas de cada mão, na mão que segura a mão, que transmite a outra mão o seu ter e o seu teor, pois, como escreveu Rosa no Grande Sertão, o que a mão diz a outra mão é o curto, na adivinhação das carícias e segredos através da interpretação das linhas das mãos e dos poemas, que revelam o destino, a sorte da poesia, da fantasia do Passado, Presente e Futuro. Ali registrados estão no formato de linhas de um caderno vivo da carne quente das mãos que se acariciam, que determinam, os nossos estados de consciência.

Palmistry é o estudo das características da poética, a temperatura da música dos nossos versos.

A biblioteca de Hitler



A biblioteca de Hitler

Rogel Samuel


Muitos autodidatas se fizeram pelo esforço de ler. Kaganovitch, filho de sapateiro, era grande leitor e foi o autor do primeiro plano qüinqüenal soviético e braço direito de Stalin. Mussolini era filho de ferreiro, Stalin filho de sapateiro, Hitler filho de pequeno funcionário e todos venceram pela leitura. Philip Snowden era filho de um ferreiro, caiu de um andaime e ficou muitos anos entrevado e para não sucumbir à solidão passou a ler intensamente. Aos 18 anos já tinha uma cultura impressionante, voltou a andar e acabou, graças à sua erudição, chefe do Partido Trabalhista inglês e anos depois chegou ao poder. Também Lincoln não freqüentou escola.
Isso vem à mente ao saber do livro de Timothy W. Ryback (Knopf; $25.95), A biblioteca privada de Hitler.
Hitler tinha 16 mil livros e lia um livro por noite e possuía as obras completas de Shakespeare.
Ele era um grande ator dramático: "Hitler entra em um corredor", escreve uma testemunha, "cheira o ar durante um minuto, procura no escuro , sente a atmosfera, de repente explode as palavras que vão como uma seta para seu objetivo, atingindo cada ferida privada , liberando a massa inconsciente, expressando as aspirações mais íntimas, e atingindo o que a maioria dos desejos quer ouvir."

sábado, 14 de março de 2009

Keats









Keats

Rogel Samuel

Leio em Torre de papel, de Eduardo Frieiro, que as obras de Keats receberam as piores críticas. O grande poeta romântico inglês foi ridicularizado pela Quarterly Review, onde J. Lockhard se referiu a ele como um certo boticário que deveria voltar às sangrias, poções, emplastros e purgantes. Ele era farmacêutico. E realmente Keats abandonou a poesia para cuidar de seu irmão gravemente enfermo... Sua poesia não lhe ofereceu nada, nem fama, nem alegria, nem reconhecimento. “Padeceu fome e finou-se de tuberculose em Roma, aos vinte e cinco anos de idade“, diz Frieiro. Como seu amigo Chatterton, a quem dedicou o Endymion, morreu “de incompreensão e desdém”. Segundo Lord Byron a Quarterly Review” o matou.
Ele escreveu pouco, por pouco tempo, só três anos, de 1816 a 1819. Foram 150 poemas. Os mais famosos foram escritos em nove meses, de janeiro a setembro de 1819. Nasceu em Londres, em 1795 e morreu em Roma, em 1821.
Produziu belos poemas, como a Ode à melancolia, de que ouso traduzir livremente a última estrofe:

Ela mora com a Beleza - Beleza que tem que morrer;
E a Alegria, cuja mão já está em seus lábios
Em despedida; e perto do dolorido Prazer,
Bebendo veneno enquanto bebe os favos de mel:
Sim, no mesmo templo de Delícia
O véu da Melancolia tem seu santuário soberano.
A alma dele provará a tristeza do seu poder,
…
E estará entre os seus troféus nublados pendurados.

sexta-feira, 13 de março de 2009

ENTREVISTA COM MARIA AZENHA


ENTREVISTA COM MARIA AZENHA




Sessão do Dia
13/03/2009 15:58

http://www.dilsonlages.com.br/home.asp

Moderador Entre-textos: Boa tarde! A partir de agora você conversa com a poetisa portuguesa Maria Azenha.
Data 13/3/2009 15:58:30
Dílson Lages: Escritora, como ocorre seu processo de escritura poética?
Data 13/3/2009 16:00:10
Hanah: Maria Azenha, reescreve muito os seus poemas? Em caso afirmativo ao fazê-lo, sente o processo de depuração da sua linguagem poética?
Data 13/3/2009 16:22:19
Maria Azenha: Boa tarde, Hanah. Tenho trabalhado muito nesse sentido.
Data 13/3/2009 16:23:41
Maria Azenha: Como se procurasse um segredo tão escondido,que o revelaria em dois ou 3 versos
Data 13/3/2009 16:25:13
Dílson Lages: Boa tarde, escritora, vou repetir pergunta que fiz antes de sua entrada na sala. Como ocorre seu processo de escritura poética?
Data 13/3/2009 16:28:40
Maria Azenha: DDistinguiria 3 tempos:antes, no momento da revelação,e a leitura em voz alta do que foi escrito...
Data 13/3/2009 16:30:14
Maria Azenha: Purificando a matéria das palavras chego à audição subtil do Som primordial
Data 13/3/2009 16:31:42
Dílson Lages: Sua poesia concilia conceitos e imagens, como se houvesse uma permanente ´tentativa de fazer filosofia. Para a escritora, poesia é mais imagem? Ou mais filosofia?
Data 13/3/2009 16:32:08
Patrícia: Qual poetas Maria Azenha mais leu?
Data 13/3/2009 16:35:51
Maria Azenha: A Imagem é fundamental desde que carregada de filosofia, embora sem filosofar A imagem é importante desde que carregada de ideias de sabedoria... A Imagem é muito importante,a filosofia é para quem a descodificar...
Data 13/3/2009 16:35:52
Maria Azenha: A Imagem é fundamental desde que carregada de filosofia, embora sem filosofar A imagem é importante desde que carregada de ideias de sabedoria... A Imagem é muito importante,a filosofia é para quem a descodificar...
Data 13/3/2009 16:35:52
Patrícia: Vejo a paisagem de Portugal fluir em seus versos. Portugal é para a poetisa poesia?
Data 13/3/2009 16:37:54
Maria Azenha: Herberto Helder,Pessoa,Luiza NETO jorge...e tantos!
Data 13/3/2009 16:38:55
Maria Azenha: Portugal profundo é o mistério do Ser,por isso tão cheio de mar e sol e a poesia que isso implica... Portugal profundo é Poesia!
Data 13/3/2009 16:40:59
Patrícia: A senhora utiliza a internet para divulgar a poesia. A tecnologia é hoje uma grande aliada da literatura?
Data 13/3/2009 16:44:50
Maria Azenha: é um dos meios que utilizo,grande aliada de de facto.Não me confino a essa forma.
Data 13/3/2009 16:46:39
Maria Azenha: penso que a Poesia deve ser revelada em diferentes suportes
Data 13/3/2009 16:47:34
Maria Azenha: Como diz Augusto de Campos:A poeisa é uma família de dispersa de náufragos bracejando no tempo e no espaço"...
Data 13/3/2009 16:51:05
Dílson Lages: Ouvi atentamente o maravilhoso cd que recebi como cortesia sua. Que outros suportes além da internet e do cd, a poetisa utiliza em sua criação?
Data 13/3/2009 16:51:50
Maria Azenha: suportes plásticos, refiro-me à pintura,canto,por vezes,fotografia,vídeos...
Data 13/3/2009 16:54:09
Dílson Lages: Aproveito o ensejo também para agradecer o belo presente que foi o cd. Estamos preparando a divulgação intensa dele quando estrear a TV Entretextos.
Data 13/3/2009 16:54:30
Maria Azenha: desde já dou os parabéns!e agradeço a vossa amabilidade em estar hoje aqui convosco
Data 13/3/2009 16:55:56
Dílson Lages: Em uma de suas entrevista, a senhora faz alusão ao diálogo que estabelece entre artes plásticas e poesia. É possível tecer seu ponto de vista sobre essa relação?
Data 13/3/2009 16:56:25
José Carvalho: Boa Tarde Maria Azenha, lembrando-me dos seus últimos poemas que li no seu website o "Bosque Azul", pergunto, se concorda, que a sua poesia é um espaço de comunhão com o cosmos e a terra? Cito: "as nuvens estão juntando o céu aos bocad
Data 13/3/2009 16:57:09
Maria Azenha: a poesia sem partilha reduz-se a um deserto estéril
Data 13/3/2009 16:57:10
Carlos Vitor: Onde colhe suas reservas poéticas? Parece que o cotidiano é a grande matéria prima de sua literatura...
Data 13/3/2009 16:57:51
José Carvalho: (cont.) "Cito: "as nuvens estão juntando o céu aos bocados/ nas montanhas está escondido o puro ouro…"
Data 13/3/2009 16:58:17
Maria Azenha: Diria que a pintura é poesia animada de cor, plano,transfigurada pela emoção dos objectos nela presentes
Data 13/3/2009 16:58:26
Maria Azenha: J.C.-como disse Bloom-a poesia é a coroa da literatura da Imaginação...
Data 13/3/2009 17:00:23
Maria Azenha: Carlos vítor- assim parece ser também,mas cada poema jamais permanece o mesmo assim como os objectos do cotidiano
Data 13/3/2009 17:03:24
Dílson Lages: Que escritores brasileiros a senhora já leu?
Data 13/3/2009 17:05:29
José Carvalho: Como foi, ou como é, para a poeta dar voz à sua própria poesia, refiro-me ao Cd "O Mar Atinge-nos".
Data 13/3/2009 17:06:03
Maria Azenha: ...é o da Voz oum misterioso momento onde vejo no reflex
Data 13/3/2009 17:08:31
Carlos Vitor: Há um quê de misticismo, de sublimação em sua poesia? É possível explicar de onde nasce isso?
Data 13/3/2009 17:10:46
Maria Azenha: no reflexo dos sons a poesia -guitarra
Data 13/3/2009 17:12:11
Maria Azenha: Dilson. cito de memória:Clarice Lispector,Andrade,bandeira,,Melo Neto, adélia prado, Rogel samuel...
Data 13/3/2009 17:13:15
Patrícia: Qual resposta sua obra tem recebido do Brasil e de brasileiros?
Data 13/3/2009 17:13:20
Maria Azenha: Carlos vítor-se nasce , nasceu comigo desde que me conheço como ser existencial...talvez haja essa sublimação através de um místico sentido da Vida
Data 13/3/2009 17:14:42
Maria Azenha: tenho sido acolhida com muita emoção e agrado. Em tempos disse poemas no teatro Municipal de s. Paulo a propósito de pessoa. e fomos muito ouvidos...
Data 13/3/2009 17:16:05
Maria Azenha: foi uma experiência muito forte
Data 13/3/2009 17:16:58
Maria Azenha:
Data 13/3/2009 17:17:59
José Carvalho: Maria Azenha, tem heterónimo ou heterónimos?
Data 13/3/2009 17:18:06
Maria Azenha: é uma pergunta curiosa...
Data 13/3/2009 17:18:57
Maria Azenha: se a função da Poesia for despertar-nos do nosso sono de morte para um sentido mais abrangente da Vida, então é preciso dar vozes e personalidades várias à Voz
Data 13/3/2009 17:20:28
Patrícia: Qual imagem, já que sua poesia, as valoriza tanto, é mais obsessiva em sua poesia?
Data 13/3/2009 17:20:44
Maria Azenha: pode explicar-se melhor?
Data 13/3/2009 17:22:47
Patrícia: Qual analogia se repete mais em seus versos
Data 13/3/2009 17:25:55
Maria Azenha: a refer~encia aos espelhos é quase obsessiva...o homem tem uma visão fragmentada da Realidade...os heterónimos são espelhos...
Data 13/3/2009 17:26:20
Maria Azenha: a água , a mulher, os frutos ,
Data 13/3/2009 17:27:36
Dílson Lages: Azenha, o exercício do magistério de alguma forma contribuiu para o exercício da poesia?
Data 13/3/2009 17:28:05
Maria Azenha: sem dúvida,pela disciplina métrica da matemática e pela sua porta de probabilidades...
Data 13/3/2009 17:29:20
Maria Azenha: não esqueço que passei os últimos anos de magistério em contacto com alunos de Artes
Data 13/3/2009 17:30:04
Dílson Lages: Hoje, o que produz Maria Azenha?
Data 13/3/2009 17:30:52
Maria Azenha: Hoje voltei, mais acentuadamente, à posição de Aluna do Universo!Poeisa...poesia...poesia em todos os momentos...sou quase obsessiva em descobrir no Sil~encio o que lá vibra...
Data 13/3/2009 17:32:26
Moderador Entre-textos: Agradecemos a escritora Maria Azenha e a todos que participaram do bate-papo. E colocamos o espaço a disposição da escritora para as palavras finais...
Data 13/3/2009 17:32:50
Maria Azenha: quero agradecer a Profes. Dilson Lages esta possibilidade de comunicarmos, aos que se fizeram presentes com suas questões e que a todos nunca falte o pão sagrado da Poesia!
Data 13/3/2009 17:35:16
Moderador Entre-textos: O Portal Entretextos é quem agradece. Boa noite, Portugal! Boa tarde, Brasil!
Data 13/3/2009 17:36:07
Maria Azenha: Boa noite, brasil! Boa noite portugal1
Data 13/3/2009 17:37:29

O verão, o vento




O verão, o vento


Rogel Samuel


Chega o verão e continua, mormaço e cansaço, chuvas tardias, cai o sol, cai na alma, verão de ventos velozes, de mar sujo.
Não é o amazônico do grande Bacellar que diz:

No livre azul o sossegado vento
lívido sonha linhas de escultura
que moldará nas nuvens no momento
de apascentá-las pela tarde pura.

Luiz Bacellar nos fala sempre quando vejo esse azul livre da tarde pura de livre azul. De nuvens e de tardes. Verão inania verba de Bilac:

Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava,
O que a boca não diz, o que a mão não escreve?
..................................................................
E as palavras de fé que nunca foram ditas?
E as confissões de amor que morrem na garganta?

Hoje sofro o verão. Passo pelo mar distante, vestido. Mas um fio de esperança perfumada me fez ficar, perder-me. Naquele limite da linha do horizonte me firmo. Que sonhos trará esse fim de verão, com os seus mornos dedos azuis? Passa a brisa...

Num arrepio de pressentimento
o ruflo de asa risca na brancura,
o sol arranca brilhos do cimento
do muro novo, a folha cai. Madura.
Todo verão proclama: a tarde limpa,
esmaltada de claro; pela grimpa
do morro verde a cabra lenta vai...
A luz resvala na amplidão sonora.
Por que senti roçar-me a face agora
um beijo, um frêmito, um suspiro, um ai?
(Continua o soneto de verão, Bacellar).

Sim, o verão do Rio difere em sua luz. Sua amplidão. Sem os muros claros de Olinda. O cimento caiado, de Cabral. Reflete o branco o sol, o lento sol. E à noite as estrelas inquietas, como as ilhas do verão de Fernando Pessoa, que sonhou com nossas margens, com nossas antilhas...

Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,

Sim, a transparente solidão do ar, em ruído e em bando, o triunfo de pássaros no horizonte, cortinados de ametistas praias espalmadas palmares vistas entrevistas distantes diamantes o espaço imperfeito do amor. O ver verão. Asas sobre a praia, "Para onde vai a minha vida, e quem a leva?" (tece Pessoa:)

(Não tenho sentido,
Alma ou intenção...
Estou no meu olvido...
Dorme, coração...).

No Rio o verão ganha significado: a vida pulsa, sua, lateja. O verão mostra que o Rio está vivo... e eu quase me mudo para Tiradentes...