sexta-feira, 22 de maio de 2009

Minha tática é ficar para sempre








Minha tática é ficar para sempre

Rogel Samuel

Escreveu Ricardo Bada em El Espectador da Colômbia que Mario Benedetti tinha muitos desafetos no mundo hispânico, que falavam mal dele porque nunca deixou de defender a Revolução Cubana, porque ele tinha um público sem precedente desde Os 20 poemas de amor e uma canção desesperada de Pablo Neruda, porque era lido pela juventude e pelos mais velhos, e porque ele tinha uma carreira literária de mais de 60 anos com êxito.

Bada diz que se encontrou com ele muitas vezes, como em Francfurt, em Berlin, em Madrid, onde almoçaram juntos em uns restaurantes pequenos que ele escolhia deixando para Bada a escolha dos vinhos.

A última vez foi em Montevidéu, em janeiro de 2002, quando lhe deu um exemplar do seu livro de haikus na sua residência. Bada já esperava a morte do amigo querido.

Benedetti consagrou-se com a novela A trégua, diz Ricardo Bada, em 1960, que deve ser sua obra-prima, com mais de 100 edições em espanhol e 19 idiomas, adaptada para o cinema, teatro, rádio e TV.

Bada termina contando que havia uma garota de programa em Madrid que se anunciava assim: “Minha tática é ficar para sempre em sua lembrança”.

Esta era, diz Bada, a tática de Mario Benedetti, a de ficar para sempre na nossa lembrança.

Shodoka: A canção da liberdade




Shodoka: A canção da liberdade

Rogel Samuel


Um dos textos mais belos do Zen é este "Shodoka: A canção da liberdade" de Daishi de Yoka (nasceu por volta do ano 665 e morreu em 713), de que traduzo os primeiros versos da tradução de Yasuda Joshu roshi e Anzan Hoshin roshi.

Diz Taisen Deshimaru que "Yoka nasceu em 665, na aldeia de Yoka, de onde vem o seu nome. Tornou-se monge com a idade de vinte anos e deixou sua casa com o objetivo de estudar o budismo em todas as suas formas, bem como os pensamentos de Lao-Tzu e Confúcio. Mas os estudos não o satisfaziam e a dúvida persistia. Um de seus amigos sugeriu que se apresentasse ao Mestre Eno (Houei-Neng, em chinês), o sexto patriarca, no monte Sokei, para compreender a verdadeira essência da filosofia do budismo. Yoka morreu em 713, na postura zazen. Dizem que seu corpo foi embalsamado nessa postura. Depois de sua morte, o imperador lhe deu o nome de Muso, "O Incomparável", Daíshi, "Grande Mestre". Ele escreveu o Shodoka que contém a essência de todos os sutras e do Zen".




Você alguma vez viu alguém no Caminho?

Além da ação e além do aprender,
a pessoa está livre,

não luta contra ilusão
ou não se apega à verdade.

A pessoa vê a natureza da ignorância
como a própria Consciência Essencial,

e a ilusão do próprio corpo da pessoa
é o Reino da Realidade.

Percebendo completamente
o Reino da Realidade como sem objeto,

a pessoa acha em si mesmo a fonte de todas as coisas
e sua própria natureza como a Consciência Desperta.

Os cinco agregados surgem e se deterioram como
nuvens sem propósito,
as três orientações torcidas vêm e vão
como bolhas de água.

A ipseidade se percebe, nem ego nem coisas existem;
num momento causa e efeito são livres.

Se qualquer coisa que eu digo é falsa
que minha língua seja arrancada durante eternidades incontáveis.

Em um único momento de despertar direto
para o Zen de Realidade como uma presença contínua,
as seis perfeições e meios hábeis incontáveis
estão completos.

Os seis reinos de existência são um sonho,
despertando-se não serão achados eles em nenhuma parte.

Nenhum erro, nenhuma felicidade, nenhuma perda, nenhum ganho;
você não achará estes na Natureza Atual.

Tendo deixado de esfregar pó do espelho,
seu brilho é completamente visto.

Quem é que pensa
no não-pensamento e não-existência?
O não-nascido é percebido
dentro do nascido.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ouvindo Claudio Santoro




Escrevo ouvindo Claudio Santoro. Pela Internet, na Radio Uol você pode ouvir um álbum de Santoro gratuitamenhte. Infelizmente é música da sua fase mais difícil. Mas música difícil tem uma virtude, nós precisamos ouvir várias vezes para "compreender". Não existe manual de instrução para ouvir-se música clássica, ainda que Aaron Copland escreveu em 1939 o seu clássico "What to Listen For in Music", traduzido no Brasil mas difícil de encontrar: "Como ouvir e entender a música", da Artenova. Música difícil é bom desafio para nossos ouvidos viciados. Música de vanguarda é sempre bom ouvir para quem gosta do novo. Eu lastimo que não haja no Brasil uma rádio ou TV com Santoro, Villa Lobos, Marlos Nobre, Guarnieri, Siqueira, Mignone, Brenno Blauth, Tacuchian, Sergio Vasconcelos Correia, Lindembergue Cardoso etc, vários são os nossos compositores de música clássica. Todos deveriam ser disponibilizados na Internet para a gente ouvir, conhecer. Isso cabe ao Ministério da Cultura, que nada faz pela música clássica. Ao contrário, no Brasil Cláudio Santoro, John Neschling e até Maria Callas experimentaram demissão. Maria Callas foi demitida no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, episódio que qualquer dia contarei...

terça-feira, 19 de maio de 2009

A água canta




Rogel Samuel

O outono lentamente se instala. Nas árvores, nas casas, no ar. Há a sutileza de um ar frio. Não é inverno, mas outono invernal. Dá para usar uma roupa um pouco mais quente. Ler um poema mais antigo de Bilac. Descreve o poema uma janela, o jardim, o mar. As folhas mortas, o navio o viajar o mar inabitado e morto. A água canta. É o amor quem canta. O fugidio amor que veio de noite, só por uma noite, amor marinheiro de Bilac que se sente envelhecido e desconfortado. O amor foge, ele é o sol. O mar está deserto, triste, as folhas amarelas caem, viuvez, velhice. Desconforto. Solidão.

Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

segunda-feira, 18 de maio de 2009

AZENHA LANÇA CD




Click na imagem para ampliar.

domingo, 17 de maio de 2009

Mario Benedetti




Mario Benedetti

Rogel Samuel

Em “Amor de tarde” Mario Benedetti se lastima como um burocrata no escritório, no trabalho, que escreve e trabalha com papel carbono, máquina de somar, telefone. O poema é simples, o poema segue mecanicamente as normas impostas pelo relógio de ponto, pelo regulamento, pela administração, um poema administrativo, um poema de planilha, carteira, identidade, do padronizado, em cujas colunas-versos se registram os cálculos do levantamento do tempo, um poema topográfico, de formulário impresso onde se lançam informações poéticas padronizadas, e que permite que estabeleçam entre elas relações definidas, por isso mesmo falsas, mentirosas, convencionais, como fórmulas lógicas e matemáticas que nunca se realizam, mas que servem para a venda, para o marketing pessoal, a ferramenta mais eficiente, o ambiente profissional, numérico, atencioso, gentil e dissimulado, no modelo de uma sociedade dos minutos e das cifras.


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Mário Benedetti faleceu ontem, aos 88 anos, deixando mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. Famoso por seus contos, "Esta manhã" (1949), "A última viagem" (1951), "Montevideanos" (1959), "A morte e suas surpresas" (1968), "Geografias" (1984), onde captou aguda e sutilmente os pequenos fatos da vida cotidiana do homem comum, e famoso por sua poesia, como os "Poemas de escritório" (1956) - e suas novelas, como "A trégua" (1960).

sábado, 16 de maio de 2009

Obsessão pelo poema




Obsessão pelo poema

Rogel Samuel


Não sei quantas vezes já me referi ao fato de que Baudelaire encheu seu poema de plurais, bosques, catedrais, órgãos, corações, gritos, tumultos, sombras, insultos, e mais. São temas baudelairianos, da visão exótica de seu mundo ”despoetizado”, Baudelaire foi primeiro poeta de um mundo sem “beleza”, desprovido de glamour romântico, por isso mesmo um poeta maldito, um poeta sem poesia, vivendo em quartos de terno luto, homem das grandes cidades modernas, e seus guetos, suas mazelas, suas telas negras, seus precipícios interiores, decadentes, um poema – como já escrevi, - ecológico, maldito, sonoro – onde os bosques têm rugidos como os grandes órgãos das catedrais, bosques em luto, em antigos choros, de duendes de fantasmas de fadas de demônios de flores das grandes árvores da montanha, os bosques se opõem aos oceanos - Baudelaire odeia os oceanos românticos, os tumultos da alma oceânica, riso amargo, sombras insultos, noite escura, sem estrelas, infinito negro, insondável, precipício, e o tradutor genial nos dá um verso extraordinário: "Porém as trevas são elas próprias as telas", telas do além dos rostos familiares, num bosque das lembranças estreladas em trevas.

LXXXII - Obsessão

Bosques, encheis de susto como as catedrais,
Como os órgãos rugis; e em corações malditos,
Quartos de terno luto e choros ancestrais,
Todos sentem ecoar vossos fúnebres gritos.
Eu te odeio, oceano! e com os teus tumultos,
Já que és igual a mim! Pois este riso amargo
Do homem a soluçar, todo sombras e insultos,
Eu o escuto no riso enorme do mar largo.
Como serias bela, ó noite sem estrelas,
Que os astros falam sempre claro em sua luz!
Busco o infinito negro e os precipícios nus!
Porém as trevas são elas próprias as telas,
Em que surgem, a vir de meu olho, aos milhares,
Seres vindos do além de rostos familiares.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Inverno antigo





Inverno antigo

Rogel Samuel

É um pequeno poema este de Salvatore Quasimodo. Com o apoio da tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, ensaio uma tradução:

Desejo tuas mãos claras
na penumbra dessa chama:
sabiam a carvalho, rosas,
ou morte. Antigo inverno.

Pássaros buscavam milho
e eram súbito feitos neve;
como palavras.
Um pouco sol, um halo de anjo,
e logo a névoa, as árvores,
e nós, como o ar da manhã.

O poema é obscuro, difícil, como quase tudo que Quasimodo escreveu. Ele era um poeta hermético. As mãos estão em chama, mãos de desejo, mãos secretas, aqueciam no inverno, com ungüento perfumado de madeira e flor. Ou morte, um cheiro de morte. Fora, os pássaros aparecem, vem comer. O frio a neve as palavras. Amanhece? Um pouco de sol sobre as árvores, vence a névoa. E nós? Como o ar da manhã, de manhã o sol é um anjo. Poema difícil, porém belo. Cheio de sugestões, são lembranças? Imagens que passam, em flashes, em cenas desconhecidas, misturadas, compostas como a realidade.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Madrugada




Madrugada

Rogel Samuel


Escrevo na madrugada. O calor está quase insuportável. O silêncio da cidade é sufocado pelo som grave dos dois ventiladores funcionando. Nenhum automóvel passa nesta rua, de natural tão deserta. Como estarão os astros? De minha janela não tenho a visão do céu, como gostaria, moro no térreo, há plantas e árvores... Em Dênia, Espanha, eu tinha a visão ampla do mar, do céu e da pequena cidade lá embaixo. Era no município de Alicante, e aquela montanha se chama Pedreguer. Fiquei cerca de um mês. Foi uma bela experiência. Nossos momentos de vida mais ricos vivemos em recordá-los. Desenvolvi uma técnica de defesa que só me recordo das ocorrências mais belas e felizes. Isto é o meu lado indígena, herança de minha avó peruana filha de uma índia quechua. Dos andes. Tive pouco contato com minha avó quechua. Ela dizia que era nobre, da família Cellis, ou Celis, nobres espanhóis, família antiquíssima atestada desde a Roma antiga. Mas meu pai certa vez relatou que ela deveria ser filha natural de um espanhol com uma índia. Escrevo de madrugada, no calor carioca. Minhas lembranças me levaram a sonhar com Andes, Pedreguer e a figura de minha avó Antonia Samuel.

Óleo de Gustavo Dall'Ara (1865-1923) - Largo da Lapa, Rio (encontrado no blog
O fingidor)

A beleza que há em tudo




Rogel Samuel

Um mestre de meditação escreveu: "A felicidade reclama a aceitação dos outros, a simplicidade do coração e o deslumbramento do espírito". Dugpa Rinpochê era um monge budista que fugiu do Tibet durante a invasão chinesa, na companhia do Dalai Lama. Ele escrevia seus aforimos numa folhinha de papel, enrolava-o, meditava sobre aquele conteúdo, e depois, quando alguém o visitava, dava de presente ao visitante. Era sua oferta, seu mimo, seu regalo, uma dádiva, uma lembrança ao recém-chegado. Seus aforismos foram reunidos e traduzidos por minha amiga portuguesa Helena Melo, que me mandou.

Primeiramente ele morou em Dharamsala, depois em Nagarkot, no Nepal, a três mil metros de altitude, "à vista dos seus três cumes lendários: o Annapurna, o Melung Tse e a cordilheira do Everest, coroados de neve". Faleceu em Dharamsala em 1989.

É fácil encontrar seus "Preceitos de vida" na Internet. Durante trinta anos o velho monge recebeu pessoas que o procuravam pedindo orientação. Durante anos uso seus preceitos na minha vida. Durante muito tempo recebi inspiraçào de seus pequenos versos.

"A felicidade reclama a aceitação dos outros, a simplicidade do coração e o deslumbramento do espírito" significa, para mim, que minha felicidade está nos outros, depende deles, de eles estarem felizes. A simplicidade do coração põe em nós a volta da humildade, da alegria de uma criança. O deslumbramento do espírito é estar apaixonado pela vida exterior, pela paisagem do mundo, pela beleza que há em tudo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

As flores do mal de Maria Azenha



Rogel Samuel

Maria Azenha vai pelas oblíquas montanhas onde as mulheres desenham com os dedos os rostos muçulmanos velados escondidos falidos mulheres em terror elas não se querem mostrar e se escondem como freiras absurdas que dizem "nao ria"... Azenha deu voz a essas mulheres mudas veladas cansadas de sofrer cansadas de morrer...


AS FLORES DO MAL


Maria Azenha



pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: “irmão, não deves rir”
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas agora choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir

não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
se podem cantando chorar
pelos filhos e pelo marido

que grito hão-de dizer?
que grito hão-de soltar
se no exílio têm ficado
cansadas de morrer?

e o vento sopra
há poeira no deserto
sobre as montanhas oblíquas
afinal quem muito sofre
é quem nunca diz sofrer

de que serve tudo isto
de que serve isto tudo
com este véu sinistro?
quem foi que as viu nascer?

pássaros mortos.
um dia apodrecem.

e alá expõe a sua terrível máscara
repleta de sangue e horror

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Gilka Machado



Rogel Samuel

Depois de uns bons e frios dias em Tiradentes, volto ao Rio de Janeiro e sua atmosfera mais quente.

Por que amamos o Rio de Janeiro?

Apesar de ser uma cidade que se tornou complicada, ainda é o lugar ideal para viver. Algo há no ar que respira alegria. Difícil ser triste por aqui. Talvez as praias, as montanhas, as pessoas colaborem para o ambiente festivo.

O Rio e suas pessoas que passam... sempre lembram o poema de Gilka Machado (1893-1980), a precursora da Garota de Ipanema:




LÉPIDA E LEVE



Lépida e leve

em teu labor que, de expressões à míngua,

o verso não descreve...

Lépida e leve,

Guardas, ó língua, em teu labor,

gostos de afago e afagos de sabor.



És tão mansa e macia,

que teu nome a ti mesma acaricia,

que teu nome por ti roça, flexuosamente,

como rítmica serpente,

e se faz menos rudo,

o vocábulo, ao teu contacto de veludo.



Dominadora do desejo humano,

Estatuária da palavra,

ódio, paixão, mentira, desengano,

por ti que incêndio no Universo lavra!...

És o réptil que voa,

o divino pecado

que as asas musicais, às vezes , solta, à toa,

e que a Terra povoa e despovoa,

quando é de seu agrado.



Sol dos ouvidos, sabiá de tato,

ó língua-idéia, ó língua-sensação ,

em que olvido insensato,

em que tolo recato,

te hão deixado o louvor, a exaltação!



- Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!

- Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!

Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de alucinação,

és o elastério da alma... Ó minha louca

língua, do meu Amor penetra a boca,

passa-lhe em todo senso tua mão,

enche-o de mim, deixa-me oca...

- Tenho certeza, minha louca,

de lhe dar a morder em ti meu coração!...



Língua do meu Amor velosa e doce,

que me convences de que sou frase,

que me contornas, que me vestes quase,

como se o corpo meu de ti vindo me fosse.

Língua que me cativas, que me enleias

os surtos de ave estranha,

em linhas longas de invisíveis teias,

de que és, há tanto, habilidosa aranha...



Língua-lâmina, língua-labareda,

Língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...

Força inferia e divina

faz com que o bem e o mal resumas,

língua-cáustica, língua-cocaína,

língua de mel, língua de plumas?...



Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,

amo-te como todas as mulheres

te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,

pela carne de som que à idéia emprestas

e pelas frases mudas que proferes

nos silêncios de Amor!...

domingo, 10 de maio de 2009

Dias das mães

Dias das mães

Rogel Samuel


Que dirá no dia das mães?
Que ou como fazer a releitura em desenho da mãe?
Mãe protetora ou geradora mãe da vida?
Mãe que dá o leite da existência, a mãe fonte da onda, do tempo, da luz, da força?
Mater dolorosa do Cristo, mãe de todos nós...
Mãe-terra, mãe-água, mãe do universo...
Mãe anjo da guarda, mãe das coisas divinas e terrenas,
Mãe morta há muito tempo mas muito viva, mãe viva, mãe vida!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

MALEVICH








Rogel Samuel



Malevich descobriu
que o branco tinha cor
as várias cores do branco
desde o branco cabralino
das brancas casas caiadas
até o branco indolor
dos muros dos hospitais
o branco das sepulturas
brancas, das paredes duras
brancas, das casas e flores
brancas, que orlam o lodo
de esgotos de favelas
e o mais branco das velas
dos lenços e dos lençóis
mesmo a branca imagem branca
do esvoaçar de uma garça
na revelação do meu sol
sobre praias do Nordeste
ou a doçura brancura
do açúcar no café
as cortesias alturas
da lua tiradentina
onde o branco dessas tintas
se finge de mais alvura
como neves Himalaias
ou branco das gravuras
da minha amiga artista
Lyria Palombini
ou o branco daquelas saias
engomadas onde passam
virgens ao sol sorridente
em direção das suas salas
decerto paredes brancas
de suas almas de escola

A arte da fuga

O frio da madrugada, em Tiradentes, Minas. Escrevo quase na total escuridão, somente com a luz que vem da tela e a suave claridade da luminária distante. Ouço uma altíssima música, no sentido espiritual do ouvir. Mas somente eu a ouço, nos fones do MP3, A arte da fuga, de Bach, e quem executa é Neville Marriner com a Academy of St Martin in the Fields etc. e é uma sucessão de fugas em contraponto... chegam a dizer que é obra inacabada de Bach, mas creio mesmo que é para nunca mais acabar, para infinitamente se realizar, se repetir, se recontar, numas voltas contínuas enquanto o tempo for tempo, enquanto a vida for viva, enquanto o ouvir for possível, e a noite for ainda noite, e o mundo dos vales e rios e montanhas existirem nesses lados, e a floresta dormir sob o manto quase imperceptível das estrelas e das nossas imaginações...

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O desespero de Barras

O desespero de Barras

Rogel Samuel


Não conheço Barras, no Piauí.
Mas conheço Barras, no Piauí.

Sofro com Barras
debaixo dágua
pátria de Governadores
e Heróis.

Thaumaturgo! Thaumaturgo!
Herói de múltiplas plagas,
orai por Barras
debaixo dágua.

Ó grande Fileto Pires
o inventor do grande teatro das selvas,
orai por Barras
debaixo dágua.

Eu sofro por aquela cidade desconhecida
mas que mora comigo dentro do meu sonho
e do meu pobre poema de lastimação...

terça-feira, 5 de maio de 2009

Cláudio Santoro




Cláudio Santoro


Rogel Samuel


Li de uma assentada o belo livro de Elson Farias sobre Cláudio Santoro ("Cláudio Santoro - cantor do sol e da paz", Manaus, Ed. Valer, 2009).

A única vez que estive com Santoro foi no aeroporto de Frankfurt no fim da década de 70, início de 80. Voltava para o Brasil. Ele vinha da França, onde creio que tinha regido a Orquestra Sinfônica da Radio-Difusão Francesa (ORTF) de Paris.

Eu disse para o pessoal da VARIG:

- Ali está o maior compositor do Brasil, coloquem-no na primeira classe.

Não adiantou. Como ele sentou-se não muito longe de mim, eu me apresentei, disse-lhe que tinha sido vizinho de D. Cecília, sua mãe, na Vila Auxiliadora, em Manaus, onde ela vivia modestamente, junto com o filho Alberto Santoro, depois físico. Foi o bastante para a conversa se iniciar. Falamos cerca de uma hora de música e de músicos. Infelizmente não posso relatar as críticas que me fez ao meio musical brasileiro, o que seria uma indiscrição. Mas me disse que estava arrependido de ter voltado para o Brasil... Contou que o prefeito de Paris tinha ido buscá-lo no Aeroporto, enquanto que no Brasil não haveria um só funcionário do MEC para ajudá-lo com as malas...

Ele dava aula de composição na Alemanha. E comentou:

- Imagine caboclo amazonense dando aula de composição na Alemanha...

O livro de Elson Farias impressiona pela riqueza de informações, de detalhes. Grande poeta, o livro está muito bem escrito e facilmente será traduzido no exterior, onde Cláudio Santoro é muito famoso.

E escrevo ao som das Sinfonias 5 e 7 de Santoro. Regidas por ele-mesmo. Orquestra Filarmônica de Leningrado e Orquestra Sinfônica da Rádio de Berlim, respectivamente.

Gravação rara.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

CONHEÇA O NOVO PORTAL ENTRE-TEXTOS

CONHEÇA O NOVO PORTAL ENTRE-TEXTOS:
http://www.portalentretextos.com.br/

NOVO POEMA

NOVO POEMA EM:
http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/

O mar de Borges





O mar de Borges


Rogel Samuel



O mar de Borges tem mitologias, cosmogonias (ou antes delas), perguntas metafísicas, o tempo distribuído em dias da criação do espírito divino, o mar perene, antigo. Quem é o mar? quem é aquele ser movente e violento e antigo que arruína a pedra e destrói os templos? Quem é aquele que é um e dos muitos mares o abismo o esplendor o azar o vento a morte? Quem o vê pela primeira vez o vê sempre renovado, sempre novo, com aquele assombro que as coisas os elementos deixam nos seus olhos, como as tardes belas e a lua e o fogo da fogueira e a fúria da serpente... Quem é o mar? Que mistério o vela, o envolve, no resídio obscuro de seu ventre?

"Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía."




"El mar" de Jorge Luis Borges (1899-1986)

Antes que el sueño (o el terror) tejiera
mitologías y cosmogonías,
antes que el tiempo se acuñara en días,
el mar, el siempre mar, ya estaba y era.

¿Quién es el mar? ¿Quién es aquel violento
y antiguo ser que roe los pilares
de la tierra y es uno y muchos mares
y abismo y resplandor y azar y viento?

Quien lo mira lo ve por vez primera,
siempre. Con el asombro que las cosas
elementales dejan, las hermosas

tardes, la luna, el fuego de una hoguera.
¿Quién es el mar, quién soy? Lo sabré el día
ulterior que sucede a la agonía.

domingo, 3 de maio de 2009

O salva os escritores é o blog


O salva os escritores é o blog


Rogel Samuel


Alceu Amoroso Lima dizia que o escritor devia trabalhar todos os dias, pois da quantidade derivava a qualidade. Ascendino Leite escrevia todo dia seu diário, seu "jornal" literário.

Como no blog da minha amiga:

http://nenhumdiasemlinha.blogspot.com/
Outro dia minha amiga X me disse que ela estava inquieta porque nada escrevia agora. Eu lhe disse que diariamente assistia neste blog. "Isto me mantém", lhe disse.

- Não tenho tempo, respondeu ela. Tenho de preparar e ministrar aulas, cuidar da casa, do filho e das netas.

O filho está separado, mora com ela.

Minha amiga X. é uma grande escritora. Eu lhe contei que Rachel de Queiroz dizia que era melhor cozinheira do que escritora. E mesmo assim escrevia crônicas maravilhosas para os jornais quase todos os dias. Rachel era uma escritora de primeira e melhor cronista. Escreveu até na cama do hospital.

O que salva os escritores é a crônica. Eu tive uma coluna diária num jornal de Manaus chamado "A gazeta". Quase era menino. Não tenho nenhum recorte daquele jornal, hoje. Não faz mal.

Hoje, o salva os escritores é o blog.

sábado, 2 de maio de 2009

novo poema

Novo poema em http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/

O pó dura para sempre




Hoje é sábado. Frase que se tornou clássica por Vinícius. Amanhã talvez não chova, como hoje.


"E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.


"Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?


Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua".



Isso escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Ali se esconde um novelo místico, ou científico. O que dura é o pó. Ou: "Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris" (Genesis 3:19 ). O mundo reduzido a cinzas. "In sudore vultus tui vesceris pane donec revertaris in terram de qua sumptus es quia pulvis es et in pulverem reverteris".

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Hino ao trabalho




Hino ao trabalho

Rogel Samuel

Bilac escreveu um dos mais belos hinos ao trabalho, desde o trabalho pré-histórico operador do fogo, construtor da primeira casa, o que começou a lavrar, o lavrador o ferreiro o coveiro... costureiro, o escritor, marinheiro, cantor, eletricista, aviador, o socialista, o homem da esperança.... O trabalho é aquela atividade, aquela mercadoria valiosíssima, que visa a um determinado fim (O capital, I, 1). Atividade essa que opõe o homem à natureza e revela sua capacidade de gerar valor, seja pela força de trabalho humano fisiológico simples, seja pelo trabalho abstrato intelectual e artístico. Todo trabalho é um dispêndio de cérebro para criar riqueza, com músculo, nervos, mãos. Produzir é em si gerar uma mercadoria, um valor. O trabalho construiu o mundo, ou com operários manuais, mecânicos, ou com cantores, pianistas, escritores e poetas. Nós somos que fizemos.


Benedicite!

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o tecto;
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo;

E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O poeta Álvaro Maia










O poeta Álvaro Maia


Rogel Samuel

Pois as garças são ângulos móveis, voadores, esparsas são as garças, são graças, finíssimas criaturas que bailam, figurativas, como anjos dos céus... estão tristes? São alegres? Estão em festas? Desenham retas e círculos de farsas, bordam pospontam com seus longos bicos em talagarças, nas tules das florestas... são aladas sensações, asas de mágoas, sobem e descem nas planuras, enfeitando os barrancos de brancura, estão em sonhos sobre as águas, são mães-dágua... rimadas ritmadas no poema de Álvaro Maia:

No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farsas,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancos de brancura,
lembram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...


Álvaro Maia nasceu em 1893, no seringal “Goiabal”, rio Madeira, município de Humaitá. Advogado, professor catedrático de português, jornalista, poeta, romancista, político, deputado, governador e senador pelo Amazonas. Faleceu em 1969. Está vivo entre os seus raros leitores.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Registro

Nosso poema "Gripe suína" ganhou chamada de capa em BLOCOS ONLINE.

Nosso texto "A teoria revelada" apareceu em
Palavra do fingidor.

gripe suína


LEIA EM

http://rogelsamuelnovospoetas.blogspot.com/
"gripe suína" - NOVO POEMA DE R. SAMUEL

terça-feira, 28 de abril de 2009

A teoria revelada




A teoria revelada

Rogel Samuel

Quando recebi o belo livro de Zemaria Pinto, "O texto nu" (Manaus, Ed. Valer, 2008), logo pensei, pelo título, tratar-se de obra de poesia. Por sabê-lo poeta. Bom poeta. Mas qual surpresa foi a minha ao ver que abria um volume de teoria literária. E mais ainda, um compêndio teórico prático, didático, das diversas teorias literárias, o mais claro possível, o mais facilitado possível, bem escrito, pelo seu bom estilo, para o público em geral e alunos da graduação em letras.

O título não engana, porém. Ali a teoria da literatura - como ele a chama - está nua. Desnudada, sem véu.

Entramos lá num terreno complexo, variado, infinito, que é aquela disciplina plural, entre filosofia e ciência, vasta e renovável.

Poucos são os bons manuais que sobreviveram, por isso. Porque novas teorias sempre aparecem. Localizadas, nacionalizadas. Porque o teórico da literatura deve saber de tudo o muito necessário para dar conta de suas tantas faces daquele conjunto de saberes: a lingüística, as estéticas, as filosofias, as diversas línguas, as diferentes literaturas nacionais, etc.

Eu me lembro de que, quando iniciei por concurso minhas aulas na Faculdade de Letras da UFRJ me jogaram aos leões, e o joguei durante vários anos, numa maluquice, uma infernal disciplina que se chamava "evolução da literatura", aquela loucura, trapalhada, pois o curso ia desde a Idade Média até as Vanguardas!
Quem é capaz de saber, de dominar tudo aquilo?

Depois o curso foi extinto.

Mesmo assim é a teoria literária francesa, norte-americana, alemã etc.

Um dos maiores talentos brasileiros, que foi José Guilerme Merquior, caiu naquela armadilha, a de escrever sobre tudo e sobre todos: Freud, Marx, Hegel, etc. Assim um grande filósofo brasileiro, o Mestre Ivan Lins, comentou que passara a vida inteira lendo Hegel. E no final da vida afirmou: "Estou começando a compreender..."
Mas não caiu no laço desse ardil o escritor e poeta Zemaria Pinto. Ele só expôs, no seu livro, as idéias claras e clássicas e consagradas, as mais conhecidas, mais gerais, de maneira direta, sem viés, sem polêmica. Basta dizer que ele não cita ninguém durante o texto, só na bibliografia, onde nos orgulhamos de estar, com dois títulos.

“O texto nu” pode ser adquirido em:
http://www.livrariavaler.com.br/index.php

As aventuras de Dianna Valente




Rogel Samuel

(Foto de Mirian Ramos: Neuza Machado em sua visita a Manaus)


Neuza Machado tem alguns livros inéditos do maior valor. Finalmente ela disponibiliza o primeiro em seu blog:

http://caffecomlitteratura.blogspot.com/

Trata-se de uma narrativa (?) em versos, ou um poema longo, um épico moderno. É algo muito original e não sei bem ainda como descrevê-lo. Ou tentar classificá-lo (se é que arte necessita de alguma classificação, coisa de professor).

Aqui está o Prólogo, e diz que tudo se vai fazer numa viagem. A Dianna Mineira Valente parece ser a própria narradora fictícia, que em viagem à Serra Futura faz o seu Neo-Narrar Inseguro, ou seja, a Narradora do Nada vai contar algo ainda muito impreciso, uma aventura.

E aparecem alguns estranhos e interessantes personagens, enquanto a narradora prossegue a sua aventura ao Monte Gigante.

Um belo poema narrativo bem humorado, com muitas variações:




AS AVENTURAS PROSOPOPAICAS DE DIANNA VALENTE


NEUZA MACHADO




I

PRÓLOGO


E eis que, naquele deslumbrante dia
de suave letargia,
a Dianna Mineira Valente,
uma Notável Incomum Vidente,
por intermédio do tédio
e de Brilhante Poderosa Lente
e de Registrada Magia,
já havia previsto, a dita,
aventura mui bendita,
aventura por certo! segura,
por certo! muito bonita!,
ao longo da Varredura
da Via um pouco interdita
que vai à Serra Futura,
a qual se chamará Ventania
na próxima nomenclatura
desta narradora Sem-Guia,
pois lá a guedelha eriçada
do tal Mago da Alcaçada
que fica na Serra Vazia,
no alto da espiralada
trilhazinh’abandonada
do Neo-Narrar Inseguro,
que, na Duração Já Sem-Muro,
sem erro!, terá serventia,
pois lá a guedelha eriçada
do Bell Mago da Indomada
recebe a suprema magia
de uma Ventarol’Alada,
um muito! Desordenada!,
também eriçando ela
a Cabeleirinha Branquela
da Narradora do Nada,
pois foi lá que começou,
e a narradora a mim contou,
a Aventura Mui Segura
da Dianna Arthemis Valente,
Honorável Incomum Vidente,
resguardada pl’o Toinzão
Charreteiro Bonitão,
um Charreteiro Eternal,
mas de bom coração,
por oferecer luz sem-igual,
uma luz matricial,
ao pobre’humano vagante
de um passado imortal,
o Toinzão Itinerante,
por ser u’a figura tal,
a tal figura’inflamante,
uma recópi’atual
de Faetonte Gigante,
aquele filho roubante
da Carruagem do Sol,
ou Hélius Apolo Cantante,
um músico itinerante,
por certo!, fenomenal!,
um demiurgo de Escol
que sabe girar o Sol,
um ex-dono incomodante
da Viatura Voante
que no vigor do arrebol
risca a telona gigante
da realidade marcante
do sonho transcendental
com mil paletas faiscantes,
paletas de tons brilhantes,
de cores reverberantes
e muito et cetera e tal.
Então?!
Então, foi nesse dia
de suave letargia
que a Dianna Quiromante
pegou a Carruagem Vazia,
uma Charretona Brilhante,
e foi, com espetacular maestria,
até ao Monte Gigante
com notável companhia,
o tal Faetonte Brilhante,
o seu Charreteiro do dia,
o Charreteiro Importante;
de dia, um Estrello-Guia;
de noite, muito distante.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O cego que vê TV




O cego que vê TV

Rogel Samuel

Pois um dos inúmeros méritos do livro de Leila Míccolis, Passagem de Calabar, é o de revelar, salientar, enfatizar, chamar à cena o leitor para a importância e beleza desse belo poema dramático, talvez o melhor da literatura brasileira, que se equipara ao “Marinheiro” de Fernando Pessoa.


Calabar foi escrito para ser representado. Traz para nós os conceitos de pátria, cidadania, memória. E também de alienação, da alienação da classe média brasileira. Ou seja: “Calabar está onde não está”, o que quer dizer que ele está em toda parte. Quem o diz é “Uma voz”, um personagem fantasma, que deve ser tudo, talvez seja mesmo a Voz da História, a voz das esquerdas, a voz política, a voz crítica.
Como “A viúva de Calabar” é a voz da revolução, da luta armada, a voz que chama para as ruas, para o grito dos excluídos, que diz “que meu ódio esteja em toda a parte”, o ódio revolta, o ódio nordestino.


O poema dramático de Ledo Ivo estampou um país fracionado, dividido, entre Norte/Nordeste e Sul/Sudeste, entre o Brasil que recebe Bolsa Família e o Brasil que não precisa receber, entre o político nordestino analfabeto de esquerda sem um dedo e o político empresário paulista intelectual doutor cosmopolita. O poema mostra a divisão ideológica do Brasil, ainda que a Leila tentou passar por cima disso para não ferir a mesma ferida. Neste poema, extremamente dramático, Ledo Ivo deu voz a quem não a tem, fez falar e mesmo gritar a grande massa da população pobre, pois “quem te fez em pedaços” que lamba as pedras, que beba a água salgada e morra na sua sede.


Para Ledo Ivo, “a História é uma ficção”, ou seja, uma narrativa, um personagem, uma Voz. “Para mim, não há verdade histórica. Há a versão do vencedor, do vencido, do observador, do pesquisador, etc. Como poeta, não estou interessado na verdade, e sim na mentira, no mito, na mitografia, na mitologia. Calabar é uma figura mítica.”
A história é sua versão, a história é uma versão da verdade.
Ledo Ivo criou também a versão dos vencidos, criou a versão dos personagens do poema. Algumas versões são dos vencidos, como do “Alagoano”, que diz:


Assim eu sou coisa grátis,
já que não tenho valor.


E criou a versão da classe média brasileira, enriquecida, alienada, que não vê nada, que não sabe de nada, que nada pensa, que não é capaz de ver o que não está na TV:


Quem vê nem sempre vê.
O melhor cego é aquele
que vê na TV.


Que esses versos valem por um poema inteiro e são da maior atualidade!

domingo, 26 de abril de 2009

Cantos de Ezra Pound




Rogel Samuel




NO início dos "Cantos", Ezra Pound diz:

E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.

Tradução de José Lino Grünewald. Foi-me dada por minha amiga Helena. O texto se move para frente, nau no mar quilha contra vagas impelindo adiante. O adjetivo "divino" cobre tudo, ambiente de mito. A "nave escura" veste o leitor de sugestão de destino. Trágico. Ovelhas a bordo ("e os nossos corpos") se abre ao sacrifício. Vem "o pranto aflito". Velas cheias. Deusa benecomata (tradução de "the trim-coifed", vestida de sua própria cabeleira(?)). Atmosfera homérica. O original reza:

And then went down to the ship,
Set keel to breakers, forth on the godly sea, and
We set up mast and sail on that swart ship,
Bore sheep aboard her, and our bodies also
Heavy with weeping, and winds from sternward
Bore us onward with bellying canvas,
Circe's this craft, the trim-coifed goddess.

Prossegue a tradução:

Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.

É o sol. É o Barco no mar. É o horizonte até o Término do dia. Bela imagem:

Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.

O tradutor abusou da maestria, compôs tudo em "O", do Sol, do sol-maior: "Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano" - (Sun to his slumber, shadows o'er all the ocean)


E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios do sol, nem a
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra sobre os homens fúnebres.

sábado, 25 de abril de 2009

As garças







As garças

(Afresco do Teatro Amazonas, possivelmente de De Angelis)

Rogel Samuel


Eu me lembro. Na década de 50 o Rio Negro invadiu o centro de Manaus. A antiga Drogaria Flink ficou debaixo dágua. As águas entraram pela praça da Matriz. Creio que foi em 1953.

Agora leio que a enchente é grande. Calamidade. "A medição do nível das águas do rio Negro, feita no principal porto de Manaus, é realizada desde 1902. Desde que começou essa medição, 1953 foi marcado pela maior enchente da história do Estado. Naquele ano, em junho, o mês de pico das cheias dos rios da região atingiu 29,69 metros", diz a Agência Estado. 3 mil casas serão afetadas. O Rio Negro atinge a maior marca em 106 anos.

O maior poeta daquelas águas é Álvaro Maia:

GARÇAS


No azul, em móveis ângulos, esparsas
as penas em finíssimas arestas,
fugindo em tempo às cerrações funestas,
vão em busca do céu bandos de garças ...
Em meio de tristezas e de festas,
fazem retas e círculos de farças,
ou pospontam sendais nas talagarças
e nas tules ondeantes das florestas...
Na tarde escura, no verdor da aurora,
voam, revoam pelo espaço afora,
- aladas sensações, asas de mágoas...
Descem, depois, aos longes da planura,
e, enfeitando os barrancosde brancura,
lembram Mães-dágua em sonhos sobre as águas...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Hino á tarde



Hino á tarde

Rogel Samuel

Bilac escreveu um glorioso hino à tarde, mas não aquela tarde cheia de brilho, de sol, de ouro em chama, luz e primavera .
A tarde que ele ama é a do fim, do pôr-do-sol, do adágio vesperal, tumba de luto e esplendor do fim do dia, cheia crepes e auriflamas, a tarde triste, mas augusta, meio envolta no vulto da noite, das estrelas, ventre da noite, e dos seus mistérios, a noite das volúpias, do sono, da continuação da vida e do nada.

Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas,
Alva! natal da luz, primavera do dia,
Não te amo! nem a ti, canícula bravia,
Que a ti mesma te estruis no fogo que derramas!
Amo-te, hora hesitante em que se preludia
O adágio vesperal, - tumba que te recamas
De luto e de esplendor, de crepes e auriflamas,
Moribunda que ris sobre a própria agonia!
Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre
Os primeiros clarões das estrelas, no ventre,
Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada,
Trazes a palpitar, como um fruto do outono,
A noite, alma nutriz da volúpia e do sono,
Perpetuação da vida e iniciação do nada.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Abertura



Rogel Samuel

Foi bela. Abertura do ano da França no Brasil. Grandiosa. Sou meio francês. Meu pai era francês. Amo Paris. Já gostei mais. Paris agora parece poluída, suja. Tem assalto. Muita gente pedindo no metrô. Desemprego, que com esta crise deve ter aumentado. Ou estou ficando velho, cansado de viagem. Geralmente sozinho. Há poucos anos passei 15 dias em Paris. Foi 2006. Frio intenso. Hotel Petit Louvre. Dirigido por árabes. Perto, a Torre. Linda, iluminada. E o Sena, com sua estátua da liberdade, que os americanos copiaram. Algumas livrarias e cafés. O mundo chic. A Escola Militar, o Campo de Marte. A solidão. A saudade do Rio. Fico por aqui.

terça-feira, 21 de abril de 2009

A beleza aruinada





Rogel Samuel


Graças a Amelia Pais conheci o poeta português Rui Pires Cabral, nascido em 1967 em Vila Real. Publicou:

Geografia das Estações, edição de autor, Vila Real, 1994
A Super-Realidade, edição do autor, Vila Real, 1995
Música Antológica & Onze Cidades, Presença, Lisboa, 1997
Praças e Quintais, Averno, Lisboa, 2003
Longe da Aldeia, Averno, Lisboa, 2005

Ele trabalha seus textos e os modifica, mesmo depois de publicados, como neste:





Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo as estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

Esta é a beleza crepuscular ou velha, suburbana, gasta. Pobre, cansada. Anônima. "Com visitas de domingo e tardes no quintal depois da escola". Esta a beleza de rostos e paisagem, em preto e branco, a dos hotéis decadentes, como a das estrelas no chão de um copo partido, aquilo que o deixava a sós consigo mesmo, a beleza fiel a si mesma, a beleza da vida em si.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Pobre elegia



Rogel Samuel

O ter sido publicado em Manaus o meu prefacio ao livro de Djalma Passos, AS VOZES AMARGAS, me leva a comentar o seu poema:



POBRE ELEGIA


Eu não te trago nem flores nem auroras,
Nem a mensagem de outro céu
Nem a terra meiga de novos caminhos ...
Eu não te trago o clarão de outras estrelas
Nem a luz de novos pensamentos,
Nem a coroa da suave esperança
Pela qual te sacrificaste...
Eu não te trago a recompensa
Do sofrimento que absorveu
Num crepúsculo de fogo, num por de sol sangrento,
Sem o ú1timo beijo dos que te amavam,
Sem o olhar dos que foram a tua propria vida
Sem os adeuses do coração que amaste ...
O que eu te trago nesta pobre elegia
É a noticia da ambição que não extinguiste,
Do ódio que não apagaste,
Da incompreensão que nao destruíste,
Da dolorosa inutilidade do teu sacrificio ...


De que trata o poema? De certo modo é um poema religioso, ou quase. Falará ele ao Cristo sacrificado? Ele nada diz, mas sugere. Como Passos era um político "de esquerda", ou melhor, do PTB da época de Jango, é possível que o poeta esteja falando de um líder sacrificado, talvez de Che Guevara. Mas não pode ser, o livro de Passos é de 52, e naquele ano Guevara ainda estava vivo e jovem.

Portanto o poema fala de algum outro revolucionário, ou santo, ou mártir.

A ambição não se extinguiu, nem o ódio, nem a incompreensão... falo "da dolorora inutilidade do teu sacrifício..."

Pobre, triste elegia!

domingo, 19 de abril de 2009

Calabar – o grito de um mito




Calabar – o grito de um mito

Rogel Samuel


Começo a comentar o excelente livro de Leila Miccolis, “Passagem de Calabar”. E o vou fazer por etapas, em várias observações aqui postadas.

Segundo ela, o que se vê em Calabar é o mito da traição.

A quem traiu Calabar? A Portugal? Ao Brasil? Calabar escolheu lutar pelos invasores holandeses, e não pelos invasores portugueses/espanhóis. É por isso um traidor? O mito da traição se expõe ironicamente nos versos de Ledo Ivo:

Major Calabar
soldado de que pátria
na Pátria sem pátria
.........................
Mal perguntado, pergunto
A quem traiu Calabar?
A que pátria traiu aquele
que não tem pátria nenhuma

Leila nos oferece um panorama do Brasil apresentando o poema de Ledo Ivo e abre a cortina de suas possibilidades com uma grande variedade de temas. Por exemplo, a questão dos gêneros, os meandros do dramático, do poema dramático. Além de literário, o ponto que ela desenvolve é o político.

sábado, 18 de abril de 2009

Cascalho




Este Cascalho de Herberto Sales me acompanha há muitos anos. Não a edição, que perdi. Mas o livro. A primeira edição é de 1944, portanto tinha eu 1 ano de idade, não sabia ler. Mas na década de 60/70 li o livro, apressadamente, como tudo o que eu fazia na época, vítima da sobrecarga de sala-de-aula. Cascalho foi uma boa leitura. Esstou, agora, relendo.

Muito me admira que o livro só se encontre em sebos.

Será que a literatura brasileira está realmente envolvida nesta crise?

Porque o mundo da ficção é deveras evanescente, e o romance um objeto de consumo. Até barato.

Escrever um romance dá muitíssimo trabalho. Físico, mental, emocional. Quantos jovens talentos se dedicam a esse ingrato mister?

Escrever um romance é como o garimpador de cascalho. Trabalha a vida inteira e quem sabe nunca encontra ouro.

O ouro é um mistério. Dilson Lages o descobriu. Seu estilo é muito semelhante ao de Herberto.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A prosa soberana




A prosa soberana

Rogel Samuel

Eu gosto dos escritores à moda antiga: Euclides da Cunha, Rui Barbosa. São textos fortes, camaleônicos, enrustidos, vulcânicos. O campeão é Antonio Vieira. O imperador da prosa. O monstro sagrado da escritura. Quem se mete a imitá-los, hoje, é rotulado de acadêmico, antiquado. Os escritores amazonenses do passado os imitavam, e até hoje prosadores como Saramago fazem uso dessa estética do texto retumbante, relâmpagos de sonoridades poéticas. De certo modo Guimarães Rosa. Ele também construía um palácio de assonâncias, como quando disse: “Sábio não é quem sempre ensina. Mas quem de repente aprende”.
São seis vezes o som de EM, que lembra o questionamento de “hein?”. Rosa constrói um romance em cima de sonoridades.
Alguns bons prosadores hoje estão esquecidos. Exemplo de Herberto Sales. Seu romance “Cascalho” tem uma “tessitura artística”, uma “arquitetura e a linguagem”, uma “densidade” estilística, no dizer de Adonias Filho.
São escritores de prosa soberana.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O texto secreto




Estou surpreso: meu próprio computador bloqueou o meu blog! Fico imaginando quantos leitores estarão impedidos de me ler, se eu mesmo tive a maior dificuldade de a mim me ver. O Internet Explorer me bloqueou como "site inseguro", " impróprio" para mim mesmo. E eu pensei, eis aí o grande barato, o escritor não deve ficar lendo e relendo o que rabiscou. A dúvida é o maior impedimento à nossa produção literária. Por que temos dúvidas à respeito dos nossos textos?

Mas eu precisava postar, não ler!

Alguns escritores dependiam da aprovação dos outros, da esposa, de alguém. Sem isso, não publicavam nada.

Outros escreviam com frenesi e nunca burilavam seu texto.

Flaubert trabalhava tanto a prosa que a desfigurava. Ele escrevia frases. Trabalhava frases. Modificava palavras.

Proust ampliava o escrito, acrescentava considerações, situações.

Pois bem. Todos os escritores devem ter um computador como o meu. Neurótico. Que esconde o que escreveu.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

novo poema

Novo poema escrito e postado em 15 de abril de 2009 em:

ROGEL SAMUEL, novos poemas.

Click para acessar.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Chuva fina, em Tiradentes




Chuva fina, em Tiradentes

Rogel Samuel

Chove. Chuva fina, em Tiradentes. Dia muito nublado, tipicamente inglês. Minha amiga X. diz que fica deprimida, com um dia assim, escuro. Sem sol. Mas nada há de depressivo neste clima meio frio, bom para dormir, para se bem vestir. Entro na única livraria da cidade. Na porta, de saída, um ex-ministro, grande intelectual e escritor. Tem casa por aqui. O livreiro me diz que também o filósofo tal por aqui está. Olho muitos livros e nada compro. Os preços elevados. Caríssimos. “O diabo na livraria do cônego”, de Eduardo Frieiro, da Itatiaia, que custa 21,00 no catálogo, em Tiradentes sai por 49,00. Mais do dobro. Gosto muito de Frieiro. Grande escritor, melhor crítico. Eu sempre quis ler este livro, que nunca li, da conjuração mineira. Chove. Chuva fina, em Tiradentes. No hotel, escrevo e posto esta crônica.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A morte do papel




A morte do papel

Rogel Samuel

Ziraldo escreveu no JB que o jornal de papel morrerá. Creio que sim. Em alguns países, o jornal impresso já perdeu a capacidade de influenciar os leitores, que já lêem o jornal ao contrário, buscando saber o que ele esconde, quais suas intenções secretas. Não, não há notícia isenta, desinteressada. Há sempre uma sutil mensagem política escondida no texto. E uma ciência da linguagem se especializou em desmascará-lo.

O texto do Ziraldo está reproduzido em “ENTRE-TEXTOS”. Ele diz que o livro impresso não morrerá. Tenho minhas dúvidas. As novas mídias do livro estão cada vez mais sofisticadas. Mesmo no Brasil já existem editoras online, como as seguintes:


http://www.livrofalante.com.br/

http://www.audiolivro.com.br/sistema/home.asp?IDLoja=6491&1ST=1&Y=3887645298176


Eu, modesto escritor, agora só escrevo pela Internet. Vários livros meus estão completamente on-line.

Há tempos escrevi que o futuro da poesia está no celular. Imagine a maravilha: seus pequenos poemas serem lidos por milhões de leitores no celular...

sábado, 11 de abril de 2009

O sol





O sol

Rogel Samuel

O sol fica fraco, o verão. O brilho intenso cai, os ares claros, as nuvens raras. O outono. O abril se vai para maio, mês das noivas. Do amor. Quando eu era garoto, havia uma canção:

Rosa de Maio
É meu desejo
Mandar-te um beijo
Nesta canção.

Não sei, creio que era Francisco Alves. Aqueles cantores: Orlando Silva, Vicente Celestino. Conheci, pessoalmente, Albenzio Perrone. No fim da vida, gerente de restaurante vegetariano. E pobre, e digno. Elegante, magro, educado. Contou-me que, um dia, quando era grande sucesso, uma "fã" lhe telefona. Uma senhora, do em hospital. Dizia que, antes de morrer, queria conhecê-lo. Perrone mandou um amigo. Ela deixou toda a fortuna para aquele amigo. Rica. Sem herdeiros. Na época do rádio, não da TV - ela não sabia que o amigo era um impostor. Um falso Perrone.
Gosto de vozeirões, escandalosos, Agnaldo Rayol, Timóteo, Caubi. Gosto de Miltinho. Encontrei Agnaldo Rayol em casa de amigos. Me disse que seu ídolo era Altemar Dutra. Espanta como Agnaldo era jovem, para sua idade. Alto, bonitão. Sorriso aberto. Me disse quão amigo é da Hebe. Por causa dela tinha-se incompatibilizado, na época, com a Globo, o que lhe custava muito caro. Caubi era meu vizinho, em Copacabana. Digo, sua "boite", creio que "Drink". Caubi posava, aos domingos de sol, na porta. Via o movimento da garotada passar. Timóteo desfilava com seu conversível, emplacado em Timóteo, uma cidade. Passava glorioso pela Avenida Atlântica. Morava perto do Arpoador, num luxuoso prédio. Tinha predileção pelos domingos de sol, de verão.
Minha avó cantava uma canção que ouvi de sua boca refrão: "eu morro, eu perco vida, mas o amor dela não hei de deixar". Meu pai entoava uma estranha canção amazonense: "Cabocla do Caxangá, vem cá, cabocla, vem cá". E canções folclóricas alsacianas. O sol está ficando fraco, vai-se o verão, a vida, as canções. Mas o brilho intenso do passado estandartiza, nos ares, as claras visões dos cânticos do outono. Abril se vai para maio, quando se espera amar.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

poços de luz




Poços de luz



Rogel Samuel


A mais bela contradição. Aquela luz da escuridão do poço? Azenha inverte os sentidos do poético, em:



poços de luz

maria azenha


fui à procura da palavra
que sonhei esta noite

há um espelho nas paredes da rua
um espelho gigante

as letras chegam-me por poços rodeados
de diamantes
crescem dos braços para a lua

o silêncio
uma ciência que se prolonga
no sangue

há praças onde esculpir o sol

Azenha faz da arena da rua um espelho, gigante espelho, nas paredes. O escuro poço é feito de luzes de diamantes esculpidos, onde se mergulha na solidão da alma. Estendem os braços para o céu, estão vindo do sangue, - o mundo de Azenha é todo multirefletido de espelhos - ela já escreveu um livro assim - são as alças de alcançar o brilho do sol, de um sol esculpido nas ruas, publicitário, exposto, onde a escritora está nua e em sangue... E onde estará a palavra sonhada?

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A outra profecia





A outra profecia

Rogel Samuel


A semana foi dominada pela tragédia em L´Aquila. Refugiei-me na Kizz. Gosto dessa banda. Como eu disse, eu tive um amigo, Carlos de Souza Neves, pesquisador das profecias. Principalmente Nostradamus. Ele é autor de um gigantesco livro, “As profecias do nosso tempo”. Eu tenho esse livro, mas não o encontro. Desorganização minha.

Ele dizia que o mar vai invadir a terra. Isto é possível, com o aquecimento global. No fim da vida, ele construiu uma casa, com cerca de 15 quartos, em Caxambu. Não é luxuosa. Eu a conheço. Após a sua morte, foi deixada, por herança, a um grupo da Sociedade Teosófica. A sua imensa biblioteca lá está.

Mas não é uma casa comum.
Ela está preparada para o fim do mundo. Souza Neves estocou tudo para sobreviver ali durante muito tempo: fósforo, álcool, lenha, óleo, etc. A própria localização, numa elevação, mostra que ele construiu um refúgio. Uma fortaleza.

Ele acreditava que a terceira guerra mundial viria do Oriente Médio. Na época nós só pensávamos no confronto entre a União Soviética e os Estados Unidos. Ele dizia que o perigo viria da zona árabe. Na época, ninguém falava em terrorismo. Mas ele sim.
Mas o pior seria a invasão do mar. Moro a beira mar. No primeiro andar.
Refugio-me na banda Kizz.

Profecias do nosso tempo




Profecias do nosso tempo

Rogel Samuel


Eu tive um grande amigo, chamava-se Carlos de Souza Neves, escritor, teosofista, especializado nas profecias. Ele escreveu um gigantesco livro, “As profecias do nosso tempo” (eu tenho esse livro, só não acho).

Dizia ele que a China ia invadir a Europa e o mundo. Eu, certamente cético, pensava que era militarmente, que o exército vermelho viria, com seus tanques... Hoje vejo que realmente os produtos industriais baratos da China dominaram o mundo e abalaram a economia dos Estados Unidos, e que o dinheiro barato chinês liquidou com o resto, os subprimes, que são as aplicações chinesas em títulos do tesouro americano. A opinião não é minha, mas do famoso Chico Oliveira e de Ben Bernanke, presidente do FED.

“Já em março de 2005, Ben Bernanke, então importante economista de Princeton, alertava para o risco da utilização dos empréstimos chineses para financiar os pesados gastos das famílias norte-americanas, em hipotecas de casas e carros. Ben é hoje o todo-poderoso presidente do FED, e de crítico converteu-se em administrador da bancarrota”. Isto está escrito em Mark Landler, do The New York Times, no artigo “Somente os bolsos chineses se enchiam”, publicado na Folha de S.Paulo, em 5/jan/2009, apud Francisco de Oliveira.

Enfim, a China invadiu o mundo com produtos e com dinheiro baratos. Souza Neves tinha razão.

Amanhã tratarei da outra “profecia” do saudoso amigo. Esta bem mais terrível.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Leonard Cohen




Poeta urbano

Rogel Samuel


Urbanos poetas os que nos falam da vida das grandes cidades, suas avenidas, trânsito intenso, com o ruído do mundo das armações de cimento e vidraça, longe das florestas, o mar poluído, o ar poluído, as pessoas anônimas, o metrô, os trens, os automóveis. Mas não longe da poesia, para esses poetas urbanos. A solidão pode ser um dos seus temas, a solidão anônima:


Leonard Cohen

PERGUNTO-ME QUANTA GENTE NESTA CIDADE

Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em apartamentos mobilhados.
Altas horas da noite quando olho os outros prédios
juro que vejo um rosto em cada janela
que me olha também
e quando volto para dentro
pergunto-me quantos se sentam às suas escrivaninhas
a escreverem isto mesmo.

Leonard Cohen

(Em “Filhos da Neve - Antologia Poética”, versões de Jorge Sousa Braga e Carlos Tê, Assírio e Alvim, 2ª ed: 1997 - colecção Rei Lagarto, enviado por Amelia Pais).

Ele é mais conhecido como músico, cantor, compositor, escritor canadense, nasceu em Montreal em 1934. Quase foi monge budista. Morou no Mount Baldy Zen Center, próximo de Los Angeles.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Duas traduções



Duas traduções

Rogel Samuel

Traduzir, além de ser uma arte, exercício útil ao escritor, para excitá-lo. Traduzir o poeta que mais amamos faz do trabalho um extremo prazer. Traduzir faz aprender, mergulhar no misterioso subterrâneo do texto e das duas línguas. Poucos tradutores agigantaram o texto original, em colaboração com a origem. No meu insignificante caso digo: ainda hei de tentar traduzir “ Le bateau ivre”, de Rimbaud, com seus 100 versos de ouro puro.

Vejamos um caso de tradução comparada, de Rainer Maria Rilke, mas sem comentário:


O torso arcaico de Apolo,

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

(Tradução: Paulo Quintela)


Não, não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro, onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

(Trad. de Manuel Bandeira)

domingo, 5 de abril de 2009

O naufrágio no Amazonas







O naufrágio no Amazonas

Rogel Samuel


Ontem, perto de Itacoatiara, de madrugada, o "Dona Zilda" naufragou com 47 pessoas a bordo. Como sempre, o mesmo problema, superlotação. Eu já passei por isso. Ia atravessar o rio, de volta para Manaus. Quando o pequeno barco começou a viagem eu vi o perigo e fiz, aos gritos, que voltassem para o porto para me deixar. Mas tive de fazer um escândalo! A irresponsabilidade é total, com a vida humana. As
pessoas têm medo de parecer medrosas e não protestam. E morrem. Meu falecido pai, navegador experimentado no Amazonas, dizia que existem mais barcos no fundo dos rios do que sobre as águas, navegando. No meu romance "O amante das amazonas", eu arrolei vários desastres.

No " Dona Zilda" havia crianças e até 2 bebês de 2 e 6 meses. Desaparecidos. O mundo amazônico é assim, selvagem e terrível. O rio Amazonas perto de Itacoatiara é tumultuso e largo como um braço de mar. O rio está cheio, quase não se vê o outro lado.

sábado, 4 de abril de 2009

que quando entrei do patamar no espaço














que quando entrei do patamar no espaço
no comando gritavam pulsações de alarme
e o repuxo das terras punham plácidas tábuas
esboroado o farol a ímpeto último.
e coloridas voavam no patamar da estupa
bandeiras de rezas estandartes de graças
e era quando ali recebíamos forças
do aro de metal tão plano quanto aço.
mas do mormaço apareciam taças
bye-rung kha-shor amorosa puro néctar túmido
no fomento do som de trompas que sobre o azul colore
levadas a pulso poderosas e em bando.
ó grande tarde de Padmasambhava
ó grande área aquela de palácio!
rufam tambores encastelados deuses
refregas rumores talássicas ameaças
de Mahakhalas de khatvangas de espadas!

quem me dera estar de volta em poema
e lá não me perder no azul do céu da cena

ROGEL SAMUEL

sexta-feira, 3 de abril de 2009

"Esse é o cara!", esse é o Brasil!











"Esse é o cara!", esse é o Brasil!

Rogel Samuel


"Esse é o cara!", disse Obama sobre Lula. Eu nem sei se o Jornal Nacional deu isso. Só leio as notícias pela Internet. Os internautas brasileiros não gostam de Lula. É a classe média. Que o rejeita. Mas esta classe representa somente 10 % da população. Basta ler os "comentários" dos jornais para ver como Lula é rejeitado ali. Há muita desinformação, ataques diários na imprensa. Criticam o problema dos hospitais públicos. Mas pouca gente se lembra que foi a oposição quem acabou com a CPMF - um crime - tirando bilhões da verba que ia para a saúde pública. A CPMF era o imposto mais justo do Brasil: não dava para sonegar, e somente os ricos pagavam. A classe média pagava uma ninharia, pobre não pagava. "Esse é o cara!" é uma frase emblemática, dito por alguém que também sabe o que é discriminação. Obama era atacado de todas as formas e lados, na campanha. Minha amiga X., que trabalhou na campanha dele, me disse. Mas, ao contrário do Brasil, houve uma onda invisível de internautas trabalhando a favor dele. Obama foi eleito pela grande massa da população americana. Se Obama conseguir debelar a crise, nós podemos dizer a seu respeito: "Esse é o cara!" E não seremos odiados por isso.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A palavra como navalha











A palavra como navalha

Rogel Samuel


O terrivelmente belo poema de Zemaria Pinto, “O exercício da crueldade” acusa desse modo:

palavras são serpentes, são navalhas
são balas que explodem dentro do peito
de quem ouve e de quem fala!

Ai palavras! Ai palavras! Estranha potência essa das palavras cruéis, enganosas, ferinas, irônicas, venenosas. Zemaria Pinto diz que elas cortam como navalhas com suas falas, falácias, que trazem espinhos venenosos escondidos, balas explosivas que vão fundo, que lá no íntimo ferem quando querem ferir, e que ulceram a boca de quem diz, de quem dispara. O veneno mais terrível não mata a serpente, mas destrói a alma da humanidade de quem as profere, as palavras danadas infernais. Todos nós já as ouvimos e as sofremos. E até mesmo as proferimos contra nossos inimigos e desafetos! Às vezes elas vêm adocicadas com o invólucro do venenoso mel dos sorrisos falsos, perigosamente afáveis, corteses, finórios.

Onde os venenos e as gozações mais ácidas aparecem é na vida parlamentar, no Parlamento, ali onde reina a esperteza, a sagacidade das inteligências maléficas e malignas prontas para tudo destruir, usurpar, danar, profanar.

Até parece que o homem não merece o sagrado e misterioso dom da fala, da linguagem, mas não é verdade. São demônios falantes, em bom português, em correto inglês etc.

Zemaria Pinto é meu amigo, um homem afável e cortês, poeta e escritor fecundo da Academia Amazonense de Letras, autor de numerosos livros.
Leia mais Zemaria Pinto em:

http://ofingidor2008.blogspot.com/