quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

EUCLIDES DA CUNHA - À MARGEM DA HISTÓRIA

Na Amazônia, Terra Sem História
Impressões Gerais
Ao revés da admiração ou do entusiasmo, o que nos sobressalteia
geralmente, diante do Amazonas, no desembocar do dédalo florido do
Tajapuru, aberto em cheio para o grande rio, é antes um
desapontamento. A massa de águas é, certo, sem par, capaz daquele
terror a que se refere Wallace; mas como todos nós desde mui cedo
gizamos um Amazonas ideal, mercê das páginas singularmente líricas
dos não sei quantos viajantes que desde Humboldt até hoje
contemplaram a hiléia prodigiosa, com um espanto quase religioso -
sucede um caso vulgar de psicologia: ao defrontarmos o Amazonas
real, vemo-lo inferior à imagem subjetiva há longo tempo
prefigurada. Além disto, sob o conceito estritamente artístico, isto
é, como um trecho da terra desabrochando em imagens capazes de se
fundirem harmoniosamente na síntese de uma impressão empolgante, é
de todo em todo inferior a um sem número de outros lugares do nosso
país. Toda a Amazônia, sob este aspecto, não vale o segmento do
litoral que vai de Cabo Frio à Ponta do Munduba.
É sem dúvida, o maior quadro da Terra; porém chatamente rebatido num
plano horizontal que mal alevantam de uma banda, à feição de restos
de uma enorme moldura que se quebrou, as serranias de arenito de
Monte Alegre e as serras graníticas das Guianas. E como lhe falta a
linha vertical, pré excelente na movimentação da paisagem, em poucas
horas o observador cede às fadigas de monotonia inaturável e sente
que o seu olhar, inexplicavelmente, se abrevia nos sem-fins daqueles
horizontes vazios e indefinidos como o dos mares.
***
A impressão dominante que tive, e talvez correspondente a uma
verdade positiva, é esta: o homem, ali, é ainda um intruso
impertinente. Chegou sem ser esperado nem querido - quando a
natureza ainda estava arrumando o seu mais vasto e luxuoso salão. E
encontrou uma opulenta desordem... Os mesmos rios ainda não se
firmaram nos leitos; parecem tatear uma situação de equilíbrio
derivando, divagantes, em meandros instáveis, contorcidos sem
“sacados”, cujos istmos a reveses se rompem e se soldam numa
desesperadora formação de ilhas e de lagos de seis meses, e até
criando formas topográficas novas em que estes dois aspectos se
confundem; ou expandindo-se em “furos” que se anastomosam,
reticulados e de todo incaracterísticos, sem que se saiba se tudo
aquilo é bem uma bacia fluvial ou um mar profusamente retalhado de
estreitos.
Depois de uma única enchente se desmancham os trabalhos de um
hidrógrafo.
A flora ostenta a mesma imperfeita grandeza. Nos meios-dias
silenciosos - porque as noites são fantasticamente ruidosas -, quem
segue pela mata, vai com a vista embotada no verde-negro das folhas;
e ao deparar, de instante em instante, os fetos arborescentes
emparelhando na altura com as palmeiras, e as árvores de troncos
reilíneos e paupérrimos de flores, tem a sensação angustiosa de um
recuo às mais remotas idades, como se rompesse os recessos de uma
daquelas mudas florestas carboníferas desvendadas pela visão
retrospectiva dos geólogos.
Completa-a, ainda sob esta forma antiga, a fauna singular e
monstruosa, onde imperam, pela corpulência, os anfíbios, o que é
ainda uma impressão paleozóica. E quem segue pelos longos rios, não
raro encontra as formas animais que existem, imperfeitamente, como
tipos abstratos ou simples elos da escala evolutiva. A “cigana”
desprezível, por ex., que se empoleira nos galhos flexíveis das
oiranas, trazendo ainda na asa de vôo curto a garra do réptil...
Destarte a natureza é portentosa, mas incompleta. É uma construção
estupenda a que falta toda a decoração interior. Compreende-se bem
isto: a Amazônia é talvez a terra mais nova do mundo, consoante as
conhecidas induções de Wallace e Frederico Hartt. Nasceu da última
convulsão geogênica que sublevou os Andes, e mal ultimou o seu
processo evolutivo com as várzeas quaternárias que se estão formando
e lhe preponderam na topografia instável.
Tem tudo e falta-lhe tudo, porque lhe falta esse encadeamento de
fenômenos desdobrados num ritmo vigoroso, de onde ressaltam,
nítidas, as verdades da arte e da ciência - e que é como que a
grande lógica inconsciente das coisas.
Daí esta singularidade: é de toda a América a paragem mais
perlustrada dos sábios e é a menos conhecida. De Humboldt a Em.
Goeldi - do alvorar do século passado aos nossos dias, perquirem-na,
ansiosos, todos os eleitos. Pois bem, lede-os. Vereis que nenhum
deixou a calha principal do grande vale; e que ali mesmo cada um se
acolheu, deslumbrado, no recanto de uma especialidade. Wallace,
Mawe, W. Edwards, d’Orbigny, Martius, Bates, Agassiz, para citar os
que me acodem na primeira linha, reduziram-se a geniais escrevedores
de monografias.
A literatura científica amazônica, amplíssima, reflete bem a
fisiografia amazônica: é surpreendente, preciosíssima, desconexa.
Quem quer que se abalance a deletreá-la, ficará, ao cabo desse
esforço, bem pouco além do limiar de um mundo maravilhoso.
Há uma frase do Professor Frederico Hartt que delata bem o delíquio
dos mais robustos espíritos diante daquela enormidade. Ele estudava
a geologia do Amazonas quando em dado momento se encontrou tão
despeado das concisas fórmulas científicas e tão alcandorado no
sonho, que teve de colher, de súbito, todas as velas à fantasia:
- “Não sou poeta. Falo a prosa da minha ciência. Revenons!”
Escreveu; e encarrilhou-se nas deduções rigorosas. Mas decorridas
duas páginas não se forrou a novos arrebatamentos e reincidiu no
enlevo... É que o grande rio, malgrado a sua monotonia soberana,
evoca em tanta maneira o maravilhoso, que empolga por igual o
cronista ingênuo, o aventureiro romântico e o sábio precavido. As
“amazonas” de Orellana, os titânicos curriquerês de Guillaume de
L’Isle e a Mana del Dorado de Walter Raleigh, formando no passado um
tão deslumbrante ciclo quase mitológico, acolchetam-se em nossos
dias às mais imaginosas hipóteses da ciência. Há uma hipertrofia da
imaginação no ajustar-se ao desconforme da terra, desequilibrando-se
a mais sólida mentalidade que lhe balanceie a grandeza. Daí, no
próprio terreno das indagações objetivas, as visões de Humboldt e a
série de conjeturas em que se retravam, ou contrastam, todos os
conceitos, desde a dinâmica de terremotos de Russell Wallace ao
bíblico formidável das galerias pré-diluvianas de Agassiz.
Parece que ali a imponência dos problemas implica o discurso
vagaroso das análises: às induções avantajam-se demasiado os lances
da fantasia. As verdades desfecham em hipérboles. E figura-se alguma
vez em idealizar aforrado o que recai nos elementos tangíveis da
realidade surpreendedora, por maneira que o sonhador mais
desensofrido se encontre bem na parceria dos sábios deslumbrados.
Vai-se, por ex., com Fred. Katzer a seriar, a escandir e aconfrontar
velhíssimos putrefactos ou graptólitos numa longa romaria ideal
pelos mais remotos pontos nas mais remotas idades - largo tempo, a
debater-se entre as classificações maciças, a enredar-se na trama
das raízes gregas das nomenclaturas bravias - e de improviso, os
dizeres da ciência desfecham num quase idealismo: as análises
rematam-nas prodígios; as vistas abreviadas nos microscópios
desapertam-se no descortino de um passado muitas vezes milenário; e
esboçados os contornos estupendos de uma geografia morta,
alonga-se-lhe aos olhos a perspectiva indefinida daquele extinto
oceano médio-devônico que afogava todo o Mato Grosso e a Bolívia,
cobrindo quase toda a América meridional e chofrando no levante as
antiquíssimas arribas de Goiás, últimos litorais do continente
brasilio-etiópico que aterrava o Atlântico indo abranger a África...
Segue-se com os naturalistas da Comissão Morgan, e a história
geológica, a despeito de linhas mais seguras, não perde o traço
grandioso, desenvolvendo-se às duas margens do largo canal terciário
que por longo tempo separou os planaltos brasileiros e os das
Guianas, até que o vagaroso sublevar dos Andes, no Ocidente,
serrando-lhe um dos extremos, o transmudasse em golfo, em estuário,
em rio.

O misterioso desaparecimento de Agatha Christie

O misterioso desaparecimento de Agatha Christie 

 fonte:

http://www.portalentretextos.com.br/colunas/panorama/o-misterioso-desaparecimento-de-agatha-christie,216,7267.html

Dame Agatha Mary Clarissa Mallowan (Torquay, 15 de Setembro de 1890 — Wallingford, 12 de Janeiro de 1976), mundialmente conhecida como Agatha Christie, foi uma romancista policial britânica, autora de mais de oitenta livros. Seus livros são dos mais traduzidos de todo o planeta, superados apenas pela Bíblia e pelas obras de Shakespeare[1], com mais de 4 bilhões de cópias vendidas em diversas línguas.[2]

Conhecida como Duquesa da Morte, Rainha do Crime, dentre outros títulos, criou os famosos personagens Hercule Poirot, Miss Marple, Tommy e Tuppence Beresford e Parker Pyne, entre outros. Agatha Christie escreveu também sobre o pseudônimo de Mary Westmacott.

Agatha Mary Clarissa Miller nasceu em 15 de Setembro de 1890, na costa de Devon, na cidade de Torquay, sendo a terceira filha de um rico americano.[1]. Os seus livros venderam centenas de milhões de cópias em inglês, além de mais algumas centenas de milhões em línguas estrangeiras, totalizando mais de 4 bilhões. Ela é a autora mais publicada de todos os tempos em qualquer idioma, somente ultrapassada pela Bíblia e por Shakespeare. Ela é a autora de oitenta romances policiais e coleções de pequenas histórias, 19 peças e seis romances escritos sob o nome de Mary Westmacott. Agatha Christie foi pioneira ao fazer com que os desfechos de seus livros fossem extremamente impressionantes e inesperados, sendo praticamente impossível ao leitor descobrir quem é o assassino.[1]

Primeiros anos

O pai de Agatha, Frederick, era americano e passava a maior parte do tempo viajando, já a mãe, Clara, era uma mulher muito tímida, de quem Agatha herdou boa parte de sua personalidade. O casal tinha mais dois filhos, Madge e Monty, ambas mais velhas que a futura escritora[3]. Em 1896, mudou-se, junto à família para a França.[4] Embora Madge e Monty recebessem uma educação formal, a mãe decidiu que a filha mais nova deveria começar a estudar antes dos 8 anos, então com 5 anos de idade, Agatha já sabia ler, a partir de então, praticamente só foi educada em casa, tendo diversos tutores e professores particulares. Quando a filha tinha ainda 11 anos, o seu pai, Frederick, morreu, a partir de então Agatha começou a viajar para vários lugares do mundo junto com a mãe.[3]Aos 16 anos, foi para uma escola de aperfeiçoamento em Paris, onde se destacou como cantora e pianista.[1]

Conheceu o Coronel Archibald Christie, piloto do Corpo Real de Aviadores em 1912, e manteve com ele um romance tempestuoso, casaram-se em 24 de Dezembro de 1914.[3]Enquanto o marido esteve na Primeira Guerra Mundial, Agatha trabalhou em um hospital e em uma farmácia, funções que influenciaram seu trabalho: muitos dos assassinatos em seus livros foram cometidos com o uso de veneno.[1] Em 1919, teve com Archibald sua primeira, e única, filha, Rosalind, e em 1926, a mãe de Agatha, Clara, morreu, e naquele mesmo ano a autora se divorcia do marido e desaparece por vários dias.[3] A irmã mais velha de Agatha, Madge faleceu em 1923, já o irmão Monty, morreu em 1929.[4]

Início na literatura

Começou a escrever The Mysterious Affair at Styles em 1916, e o livro foi publicado em 1920 pela editora Bodley Head vendendo cerca de 2.000 cópias, após ser rejeitado por 6 editoras.[1] Em seguida vieram The Secret Adversary, The Murder on the Links, The Man in the Brown Suit, Poirot Investigates e The Secret of Chimneys. Mas o sucesso veio em 1926 com a publicação de The Murder of Roger Ackroyd, que vendeu 5.000 cópias.[1] O livro causou polêmica, pois Agatha contrariou as regras dos romances policiais.

Desaparecimento

Em 3 de Dezembro de 1926, seu marido Archie revela que está apaixonado por por outra mulher, Nancy Neele, e quer o divórcio, e então deixa a esposa, para passar um fim de semana com a amante e alguns amigos em Godalming, Surrey. Após chegar em casa e não encontrar o marido, Agatha abandonou a casa em Styles por volta das 21h45 daquela noite com uma pequena mala. Na manhã do dia 4 de Dezembro seu carro foi encontrado em um barranco no lago de Silent Pool em Newlands Corner, com os faróis acesos. Dentro do Morris Cowley verde foram deixados um casaco de pele, a sua mala e uma carteira de motorista vencida. O desaparecimento da autora se tornou notícia em Surrey quando a polícia local publicou um relatório de pessoas desaparecidas, e passou-se a oferecer £100 para quem tivesse qualquer informação sobre a autora. Aviões, mergulhadores e escoteiros buscavam por Agatha - ao todo a busca teve a ajuda de 15.000 voluntários.[5]

Várias informações foram acrescentadas à história do desaparecimento da autora, no livro The World of Agatha Christie. Martin Fido diz que na semana de seu desaparecimento Agatha deixou uma carta para Carlo Fisher, sua secretária pedindo para cancelar uma hospedagem em Yorkshire. Segundo Martin, a autora escreveu também uma carta ao marido fazendo-lhe duras críticas. Ainda no sábado, antes da descoberta do carro da autora, ela havia escrito uma carta a Campbell Christie, de Londres, dizendo que iria para Yorkshire, mas a carta foi perdida antes que Campbell pudesse lê-la. Uma nota também foi escrita para o vice-chefe de polícia de Surrey(ainda antes de encontrar-se o carro de Agatha), informando que Archie temia por sua segurança.[5]

Descoberta

Agatha Christie estava desaparecida há 11 dias, desde que seu carro havia sido encontrado no lago Silent Pool, e estava sendo procurada por aviões(foi a primeira vez que se usou aviões para buscar algum desaparecido na Inglaterra), quando a polícia soube que ela estava no Hydropathic Hotel (hoje Old Swan Hotel), em Harrogate. Agatha chegou lá de táxi no dia 4 de Dezembro levando consigo apenas uma mala.[5]

A autora estava hospedada sobre o nome de Teresa Neele (o mesmo sobrenome da amante de seu marido), e dizia ser da Cidade do Cabo, e explicou que era uma mãe de luto pela morte de seu filho. No hotel Agatha foi vista dançando, jogando bridge, fazendo palavras cruzadas e lendo jornais. Curiosamente, a autora deixou um anúncio no The Times dizendo que Teresa Neele procurava parentes e amigos da África do Sul, interessante ressaltar, que a irmã de Agatha, Madge, morreu em 1923, após voltar do país africano[4]. A autora foi reconhecida no hotel pelo músico Bob Sanders Tappin que reivindicou a recompensa de £100. Sanders disse que se dirigiu a autora como "Mrs. Christie" e que essa respondeu-lhe, mas disse que estava sofrendo de amnésia. Agatha foi encontrada pela polícia no dia 19 de Dezembro.[5]

Controvérsia

Várias teorias foram criadas para explicar o falso desaparecimento da autora, algumas pessoas defendem que o escândalo foi um golpe publicitário para aumentar a venda de seus livros (The Murder of Roger Ackroyd lançado semanas antes do desaparecimento, continuava na lista de best-sellers), outras que a intenção da autora era apenas se vingar de Archibald, simulando sua morte para que o marido fosse acusado de assassiná-la, e finalmente há os que dizem que a autora realmente sofreu um acidente de carro e perdeu a memória.[5]

Embora em seus livros autobiográficos não haja quase nenhuma informação sobre o episódio de seu desaparecimento, acredita-se que, em "O Retrato", publicado sob o nome de Mary Westmacott, Agatha conte muito da sua história através da personagem Celia, que pensa em suicídio após ser abandonada pelo marido.[5]

O segundo casamento e retorno à literatura

Em 1927 Agatha voltou a escrever, com a publicação de The Big Four, protagonizado por Hercule Poirot. Mesmo após o escândalo de seu desaparecimento, Agatha só se separou de Archibald em 1928, dois anos após o incidente. No outono do mesmo ano, o arqueólogo britânico Leonard Woolley convidou Agatha para o Oriente Médio, onde estava no comando de escavações em Ur. No ano seguinte Agatha voltou a Ur, onde conheceu o jovem assistente de Woolley, Max Mallowan (14 anos mais jovem que Agatha), com quem se casou em 1930. A autora manteve seu nome como Agatha Christie porque assim estava celebrizada entre os seus leitores, mas em sua vida particular era chamada de Mrs. Mallowan. Com o marido, Agatha viajou por todo o mundo, fazendo escavações e tomando conhecimentos sobre arqueologia, e escreveu um livro sobre a experiência, Come, Tell Me How You Live. O casamento com Mallowan duraria até a morte da escritora. Sua única filha, Rosalind casou-se no início da Segunda Guerra Mundial, e em 1943 teve um filho, Mathew Prichard, o único neto de Agatha Christie.[1]

Em 1934, Agatha alcança o auge de sua carreira, com um de seus livros mais famosos, Murder on the Orient Express, adaptado para o cinema, teatro e TV em incontáveis ocasiões, sendo a mais famosa delas a versão de 1974 do romance, que rendeu um Óscar a Ingrid Bergman, e três prêmios BAFTA. [6] Só no ano de lançamento do filme, o romance original vendeu 3 milhões de cópias. [7]

Últimos anos

Em 1971, Agatha tornou-se dama do império britânico. O último livro protagonizado por Hercule Poirot, Curtain (escrito nos anos 40), foi publicado em Dezembro de 1975, porque Agatha já não se sentia disposta a escrever. A autora veio a falecer 2 meses depois, em 12 de Janeiro de 1976, por conta de uma pneumonia. Encontra-se sepultada em St Mary Churchyard, Cholsey, Oxfordshire na Inglaterra.[8] Já o último livro de Miss Marple, Sleeping Murder (também escrito nos anos 40) foi publicado em Outubro de 1976. O marido Max Mallowan morreu em 1978.[1]

O Legado de Agatha

Ao contrário dos irmãos, Agatha nunca teve chance de frequentar a escola pública, e foi educada pela mãe, num ambiente quase recluso onde Agatha interessou-se pela música clássica e sonhava em ser cantora lírica. Agatha chegou até mesmo a estudar música em Paris. Em sua infância, também através da mãe, teve o primeiro contato com a literatura.[9]

Em seus 56 anos de carreira Agatha escreveu mais de 80 livros, fora as várias peças teatrais e adaptações cinematográficas e televisivas de suas obras, protagonizadas por Hercule Poirot, o detetive belga popularizado pelo uso de suas células cinzentas, e Miss Marple, a solteirona, que observando a natureza humana pode solucionar os mais obscuros mistérios.[1][9]

Referências

    ↑ a b c d e f g h i j k l Hercule Poirot Central Agatha's Life(em inglês). Página visitada em 5 de Abril de 2011
    ↑ Michael Fleming. Variety.Agatha Christie gets a clue for filmmakers Página visitada em 5 de Abril de 2011
    ↑ a b c d Agatha Christie Biography(em inglês). Página visitada em 27 de Novembro de 2011.
    ↑ a b c Agatha Christie Timeline Life Events(em inglês). Página visitada em 27 de Novembro de 2011.
    ↑ a b c d e f Hercule Poirot Central Agatha Christie's Disappear(em inglês).Página visitada em 5 de Abril de 2011
    ↑ a b IMDB Murder on the Orient Express(1974). Página visitada em 18 de Julho de 2011
    ↑ a b c d e f g h Hercule Poirot Central Facts and Trivia on Agatha Christie (em inglês). Página visitada em 1 de Maio de 2011
    ↑ Find a Grave Agatha Christie(em inglês). Página visitada em 18 de Julho de 2011
    ↑ a b c Scribd "Agatha". Página visitada em 20 de Abril de 2011
    ↑ a b c d The St. Martin's Theatre The Mousetrap(em inglês). Página visitada em 26 de Novembro de 2011.
    ↑ a b Agatha Christie World's Biggest Book(em inglês). Página visitada em 23 de Julho de 2011.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

POSSÍVEL NOTURNO EM LÁ MENOR




POSSÍVEL NOTURNO EM LÁ MENOR


l. ruas


Ah!
Esta lua
Neste fim de rua.

Os homens se devoram
Mesmo sobre cadáveres
E ainda chorando a morte
Matam a própria vida.

Esta lua
Somente lua
Neste absolutamente
Fim de rua.

Para o fim da escura rua
Bêbedos passos caminham.
Minha sombra, minha dor,
Meu desengano também.

Ah!
Esta lua
Neste fim de rua.

AS DROGAS A MATARAM?


domingo, 12 de fevereiro de 2012

A GRANDE VOZ QUE SE CALA

GAROTO CANTOR

O maníaco do parque




O maníaco do parque



Por Ribamar Bessa Freire

    O velho, como era seu hábito diário, caminhava em ritmo acelerado pelas alamedas do Campo de São Bento, no bairro de Icaraí, em Niterói, que ocupa uma área de 40.000 metros quadrados – um quarteirão inteiro.

De repente, parou debaixo da árvore, se abaixou e recolheu a manga do chão. Examinou-a. Viu que não estava mordida por morcego ou passarinho. Cheirou, acariciou a fruta madura e, tristonho, resmungou:

- Essas são as últimas mangas da estação.

Era quase um lamento, mas ele não falava sozinho como podia parecer. Sua conversa era com as mangueiras que todos os anos, sempre em fevereiro, encerram a temporada de frutos iniciada três meses antes. Prosseguiu sua marcha debaixo das árvores centenárias e frondosas do parque, entre as quais as imponentes palmeiras imperiais e a calabura, com suas flores pequenas e brancas salpicadas de sementes amarelas, cujos galhos em escadinha proporcionam sombra refrescante.

Depois, sempre com seu bonezinho azul protegendo a careca do sol, o velho foi costeando os canteiros de flores, deu a volta no lago que tem um chafariz, atravessou a pequena ponte, passou pelo caramanchão coberto de trepadeiras, lianas e cipós e parou diante do coreto. Fingiu que não ouviu o rapaz dizer, em voz baixa, à namorada:

- Disfarça que lá vem o velho maníaco.

Ele ficou com essa fama de maníaco do parque, no tempo em que ainda fazia suas preleções aos jovens do Colégio Estadual Joaquim Távora, que se reuniam no coreto para matar aulas e, às vezes, para fumar um baseado. Por acreditar na educação como redentora da humanidade, o velho fazia longos discursos aos estudantes, tentando despertar neles uma consciência socioambiental. Insistia na responsabilidade individual, de cada um, em relação ao lixo e apontava para o parque coberto de sujeira.

Seu tom de voz era de um missionário. Dizia que aquele era um combate desigual travado por um exército de garis, que perdia todas as batalhas para os usuários do parque, responsáveis por tanta sujeira. Diariamente “jogavam no mato” garrafas de plástico e de vidro, copos e sacos de plástico, papel plastificado, latas de cerveja e de refrigerantes, embalagens plásticas e de papel de alumínio, pontas de cigarro, etc., etc.

Em seu discurso inflamado, o velho mostrava como o lixo pode ser altamente prejudicial ao meio ambiente, à saúde humana e à vida urbana, entupindo os bueiros, provocando alagações, mortes, desabamentos. Discorria sobre o tempo de decomposição de muitos resíduos sólidos, sobretudo dos 800 bilhões de objetos de plástico que são produzidos anualmente no mundo, muitos dos quais acabam chegando aos rios e oceanos, matando peixes e aves por asfixia.

- Vocês não viram no Jornal Nacional aquela baleia que morreu com mais de 800 kg de sacos de plástico dentro do estômago? – ele perguntava num exercício de retórica.

Os jovens ouviam tudo em profundo silêncio, numa atitude aparente de respeito e atenção. Mas quando o velho virava as costas, debochavam, faziam teatrinho, imitando-o e, pior, continuavam emporcalhando os canteiros de flores sobre os quais era atirada diariamente uma enxurrada de lixo, embora existam dezenas de lixeiras espalhadas por todo o parque.

O velho resolveu então partir para a guerrilha e o terrorismo. Um dia, viu uma senhora de classe média, vestida com roupa de butique, atirar garrafas pet num canteiro de flores. Deu um grito: – “Ei, minha senhora, não faça isso, vai matar as plantinhas. Isso é um crime contra a vida”.  Ela peitou o velho: “Não é da sua conta”.  Ele, então, aos berros, a chamou de porca, de criminosa. Duas velhinhas que assistiram tudo, o censuraram por ter sido excessivamente agressivo.

Mas a gota d’água foi quando ele viu uma jovem mãe, bonita, cheirosa e gostosa, caminhando com seu filho de uns três anos para o parquinho de diversão, onde as crianças se divertem no carrossel ou no bate-bate. Depois de jogar um saco de pipoca vazio no chão do rinque de patinação, a jovem mãe atirou um copo de plástico com um canudinho sobre um canteiro de flores, dando um mau exemplo ao próprio filho.

Foi aí que a fama de maníaco do parque se consolidou. É que o velho perdeu a esperança na humanidade. Já que não podia mudar o mundo, não deixou que o mundo o mudasse. Concentrou todas as suas energias num combate solitário sem trégua aos canudinhos de plástico, a quem devota um ódio supino, porque são tantos espalhados pelo parque, que os garis deixaram de recolhê-los.

Hoje, em suas caminhadas diárias, o velho, portando uma luva descartável, vai recolhendo o lixo, que deposita nas lixeiras, dedicando especial atenção ao que é rejeitado pelos próprios garis. Nesta cruzada santa, ele se tornou uma espécie de auxiliar de gari. Ganhou fama de maníaco, de doido. Quem é o doente: o velho ou os que o chamam de maníaco? Pobre planeta!

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A ABORDAGEM DO CICLO DA BORRACHA NA FICÇÃO AMAZONENSE

A ABORDAGEM DO CICLO DA BORRACHA NA FICÇÃO AMAZONENSE
POR
LUCILENE GOMES LIMA

http://ciclodaborracha.blogspot.com/


O veio aberto pela pesquisa histórica sobre o “ciclo da borracha” foi também amplamente explorado pela ficção amazônica e amazonense, em particular. Do final do século XIX, passando por todas as décadas do século XX, foram escritas obras que abordaram integralmente ou fizeram referência parcial ao ciclo. O paroara (1899), de Rodolfo Teófilo, é uma das primeiras obras a abordar o ciclo através da aventura de um imigrante cearense na selva amazônica. Seguem-lhe Inferno verde, especialmente o conto “Maiby” (1908), de Alberto Rangel; o conto “Judas- Asvero” , em  À margem da história (1909), de Euclides da Cunha;  Deserdados (1921), de Carlos de Vasconcelos; A selva (1930), de Ferreira de Castro; Amazônia que ninguém sabe (1932) , de Abguar Bastos; Terra de ninguém (1934), de Francisco Galvão; Marupiara (1935), de Lauro Palhano; Um punhado de vidas (1949), de Aristófanes Castro; No circo sem teto da Amazônia (1955), de Ramayana de Chevalier; Beiradão (1958), de Álvaro Maia; Arapixi (1963), de Adaucto de Alencar Fernandes; Dos ditos passados nos acercados do Cassianã (1969), de Paulo Jacob; Terra firme (1970), de Antisthenes Pinto; Coronel de barranco (1970), de Cláudio Araújo Lima; Regime das águas (1985), de Francisco Vasconcelos; O amante das Amazonas (1992), de Rogel Samuel e “Três histórias da terra”, em O tocador de charamela (1995), de Erasmo Linhares.
Através dessas obras, o “ciclo da borracha” e, mais especificamente, o mundo do seringal, desfilou na ficção, tornando-se um tema comezinho abordado na literatura amazonense. Surgiu, desse modo, um ambiente comum à ficção composto pela margem, onde se localiza o barracão com as atividades que lhe são peculiares, e pelo centro, o local onde se move o seringueiro e se desenrolam acontecimentos a ele ligados. Geralmente, o enfoque das obras acentua mais um ambiente do que o outro ou, ainda, os dois têm pouco destaque no sentido de serem tratados sem detalhamento. Nesse último caso, importa aos ficcionistas explorar imagens estereotipadas em torno do seringalista e do seringueiro, personagens centrais na ficção sobre a borracha. Em romances como A selva e Coronel de barranco, entretanto, os ficcionistas expõem em detalhes o funcionamento do seringal e o processo econômico do ciclo. Em A selva, tanto a margem quanto o centro recebem um enfoque didático. Alberto, o protagonista do romance, inicia uma ação romanesca que vai desde o recrutamento para o trabalho no seringal até a sua integração nele, conhecendo-o em profundidade.  Inicialmente, Alberto observa e analisa a viagem no vapor, o tratamento dado ao nordestino, depois conhece o funcionamento do seringal e sua ingerência na vida dos seringueiros. Indo para o centro, é guiado pela personagem Firmino, seringueiro manso que lhe ensina pacientemente a técnica de coleta do látex e os conhecimentos necessários para sobreviver na selva.

ARCO-ÍRIS EM IPANEMA

Leitores do GLOBO fotografaram arco-íris em diversos pontos da cidade. Este, em Ipanema, foi fotografado por Bianca Derbander Eu-Repórter - Foto da leitora Bianca Derbander

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

TUBARÃO

Biólogo observa tubarão: dentículos na pele diminuem resistência e aumentam impulsão
Os tubarões são conhecidos por sua habilidade ímpar ao nadar. Há muito se suspeita que essa habilidade é fruto das escamas que ele possui na pele (chamadas de dentículos), que diminuem a resistência da água contra a pele, fenômeno conhecido como arrasto.
Mas um grupo de cientistas liderado por George Lauder, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, mostrou que eles fazem mais do que diminuir o arrasto. “Ficamos surpresos, pois não imaginávamos que a pele do tubarão, além de servir para diminuir o arrasto, podia também aumentar o empuxo, dando a eles uma força adicional para se mover na água”, explicou Lauder ao iG.

O SUPREMO ESPANHOL ACABA COM O JUIZ GARZÓN

EL PAÍS, ESPANHA

NERUDA

POEMAS DE AMOR 
20
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada
e tiritam, azuis, os astros, à distância”. 
Gira o vento da noite pelo céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Eu a quis e por vêzes ela também me quis.
Eu a tive em meus braços em noites como esta. 
Beijei-a tantas vêzes sob o céu infinito.
Ela me quis e às vêzes eu também a queria. 
Como não ter amado seus grandes olhos fixos?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E desce o verso à alma como ao campo o rocio.
Que importa se não pôde o meu amor guardá-la. 
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. À distância alguém canta. À distância. 
Minha alma se exaspera por havê-la perdido.
Como para cercá-la meu olhar a procura.
Meu coração a busca, ela não está comigo.
A mesma noite faz branquear as mesmas árvores. 
Já não somos os mesmos, nós os de outros dias.
Já não a quero, é certo, quanto a quis, no entanto. 
Minha voz ia no vento para alcançar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos. 
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.
Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.
Ai, é tão breve o amor e é tão extenso o olvido.
Porque em noites como esta eu a tive em meus braços, 
minha alma se exaspera por havê-la perdido.
Mesmo sendo esta a última dor que ela me cause 
e êstes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.
(Trad. de Domingos Carvalho da Silva)

NEYMAR FAZ A FESTA

O craque desequilibrou. É desta forma que pode ser resumida a vitória do Santos sobre o Botafogo-SP, por 4 a 1, na noite desta quinta-feira, no Estádio Santa Cruz. Com três gols do atacante Neymar, o time da Vila Belmiro precisou apenas dos últimos minutos do confronto, válido pela sexta rodada do Campeonato Paulista, para sair de campo vencedor. Felipe Anderson completou o triunfo santista.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

WANDO NO CHACRINHA

O DEBATE DA CARTA MAIOR

Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS


Lucilene Gomes Lima: FICÇÕES DO CICLO DA BORRACHA NO AMAZONAS
Estudo comparativo dos romances A selva, Beiradão e O amante das amazonas

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL), Editora da Universidade do Amazonas, 2009. 240p. ISBN 978-85-7401-458-6.


    Escritores brasileiros abordaram amplamente os ciclos econômicos através de sua prosa. A partir do movimento romântico, alguns romances de caráter regionalista ou sertanista já abordam as temáticas em torno dos ciclos econômicos, entre eles, podemos citar O garimpeiro, de Bernardo Guimarães, em que o ciclo da mineração é subsidiário da temática amorosa.
    Não obstante, a abordagem literária em torno dos ciclos econômicos ganhou maior expressão com os denominados romances de 30, em que não apenas ciclos econômicos, como o do cacau e da cana-de-açúcar são abordados num maior número de obras, como também fenômenos de calamidade geográfica, a exemplo da seca na região do Nordeste brasileiro.
    O ciclo econômico do cacau propiciou destaque, principalmente, para  a literatura de Jorge Amado, sendo Terras do sem fim (1942) um dos seus romances mais representativos sobre essa temática. Em torno do ciclo da cana-de-açúcar, destacam-se as obras de José Lins do Rego: Menino do engenho (1932), Doidinho (1933), Moleque Ricardo (1935), Usina (1936) e Fogo morto (1943). O ciclo das secas motivou igualmente a produção de várias obras: O quinze (1930), de Raquel de Queiroz, A bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, e Vidas secas (1938), de Graciliano Ramos.
    Especialmente nos romances do ciclo das secas, desenvolveu-se um discurso literário peculiar e, às vezes, linear, em torno de alguns aspectos como a atuação da seca no ambiente e suas conseqüências para os agrupamentos humanos. Desse modo, em torno desse tema, tornaram-se comuns imagens da vegetação esturricada e do solo fendido pelo sol inclemente, do céu límpido e sem nuvens e das aves de arribação. Outra imagem comum é a peregrinação do retirante que abandona a sua terra em busca de condições de sobrevivência. Esse momento do êxodo do flagelado da seca estabelece uma relação com outro ciclo econômico, amplamente explorado ficcionalmente, o “ciclo da borracha”.
    No Amazonas, desenvolveu-se uma literatura que abordou o ciclo econômico da borracha. Uma das primeiras obras sobre este tema, O paroara (1899), de Rodolfo Teófilo, faz a mediação entre o ciclo da seca e o da borracha, uma vez que trata do deslocamento dos nordestinos até a Amazônia para trabalharem nos seringais.
    Considerando-se como marco inicial O paroara, a ficção sobre o “ciclo da borracha” completou um século de produção. Podemos afirmar que a abordagem teve uma continuidade ao longo desse século, pois cada década apresenta pelo menos uma obra. Nesse contínuo, evidenciamos uma constância de abordagem em termos de um tratamento maniqueísta, em que o explorador (o seringalista) aparece como um ser vilanesco sem que sejam enfocadas as determinações históricas mais profundas do processo econômico. A recorrência à História aparece apenas como suporte documental para várias obras que procedem a enumeração e descrição de alguns tópicos (vida no barracão e nos centros de extração, carência sexual dos seringueiros, truculência do patrão seringalista, entre outros).
   

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor

Dissertação de mestrado: Estudo comparativo dos romances “A selva” (FERREIRA DE CASTRO), “Beiradão” (ÁLVARO MAIA) e “O amante das amazonas” (ROGEL SAMUEL), Editora da Universidade do Amazonas, 2009. 240p. ISBN 978-85-7401-458-6.

O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor 

por Lucilene Gomes Lima



O amante das amazonas: o ciclo sob o olhar de um analista-autor


2ªedição, Editora Itatiaia.
Rogel Samuel, autor de O amante das amazonas, agrega duas características relevantes para nosso estudo sobre as obras literárias do “ciclo da borracha”. A primeira delas é a experiência que, em seu caso, não é direta, vem de reminiscências legadas pela memória de antepassados, como o avô, um alsaciano enriquecido pelos lucros da borracha amazônica, no início do século XX. A segunda característica motivadora do estudo desse romance surge do fato de o autor ser analista literário, atividade resultante de sua carreira no magistério. (108)
Entendemos ser a atividade de analista empreendida por Rogel Samuel a promotora da diversificação de abordagem do romance O amante das amazonas. Não o nomeamos, contudo, um escritor-crítico, conforme concebe Leyla Perrone-Moisés(109) por entendermos que o autor exerce a atividade de analista paralelamente a de escritor e por considerarmos que tanto a sua produção teórica quanto a sua produção ficcional não alcançaram a extensão e o nível de sistematização necessários à qualificação de escritor-crítico, como o estabelece o estudo de Perrone-Moisés. Uma vez que Samuel não pratica a análise do texto ficcional como corolário de sua atividade de escritor, podemos considerar o oposto: que sua atividade de professor e analista possibilitou a expressão de ficcionista, expressão essa que marcará a renovação da terceira fase ficcional do ciclo.
O amante das Amazonas realiza a brevidade que, segundo lembra o narrador de um romance de Ítalo Calvino, é necessária aos romances modernos: “[...] Hoje em dia, escrever romances longos é um contra-senso: a dimensão do tempo foi estilhaçada, não conseguimos viver nem pensar senão em fragmentos de tempo que se afastam, seguindo cada qual sua própria trajetória e logo desaparecem [...].” (110) Dessa forma, o romance se divide em 23 capítulos curtos: Viagem, Palácio, Numas, Paxiúba, Ferreira, Júlia, Desaparece, Ratos, Frei Lothar, Perdida, Ribamar, Manaus, Conversas, O leque, A livraria, Benito, Rua das Flores, Encontro, Mistério, Noite, O pórtico, Jornal, Fim. São capítulos que, por sua vez, não estabelecem uma continuidade linear do enredo, alguns deles basicamente introduzem personagens, o que reforça a característica fragmentária da narrativa.
Fragmentado é ainda o narrador do romance. Divide-se entre primeira e terceira pessoas. Em primeira pessoa, narra Ribamar, retirante do povoado de Patos, em Pernambuco, vindo para a Amazônia em 1897. Já a voz que narra alternando a primeira e terceira pessoas tece comentários, dialoga com o leitor, insere digressões e se assume como ser ficcional: “[...]sei, e de antemão o digo, que esta é apenas uma obra de ficção, e portanto mentirosa, dentre as várias que há na literatura amazonense, e espere o leitor e a leitora o surpreender-se como, apesar disso, o fio do destino do que vai descobrir é correto. Todos os fatos, aqui expostos, foram realidades notáveis e aconteceram realmente para a minha imaginação [...].” (111)
As narrações em primeira e terceira pessoas, portanto, não se apresentam como instâncias independentes. Por vezes, a forma indireta da terceira pessoa se personaliza. Expressa-o o fato de que o romance se inicia com a narração em primeira pessoa da personagem Ribamar para, posteriormente, no capítulo dez, ser atribuída ao narrador em terceira pessoa, que destaca: “O Manixi naquela época agonizava, improdutivo. Fazia dois anos que o próprio Ferreira não aparecia, e a sede, depois da morte do Capitão João Beleza, ficara sob as ordens de um Ribamar (d’Aguirre) de Souza, oriundo de Patos, Pernambuco, conforme o primeiro capítulo desta minha narrativa.”(112)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

LUSITÂNIA

LUSITÂNIA

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.
Sophia de Mello Breyner Andresen , Obra Poética I

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

NEUZA MACHADO: SOBRE "O AMANTE DAS AMAZONAS"

A “economia política”  do Manixi, constituída a partir do momento em que, entre os diversos elementos da riqueza, apareceu um novo objeto, a população mestiça, oriunda do acasalamento entre brancos, negros e índios, ao longo do século XX, conheceu o impasse da gritante desigualdade social (ratos/população versus gatos/famílias poderosas). A “arte de governo” do imperador Pierre Bataillon, tradicional, não suportou as inovações políticas da pós-modernidade em andamento. O que ocorreu por ali, será relatado na terceira parte (ficcional e pós-moderna) do romance, a partir do momento em que o segundo narrador, trasladando o espaço narrativo para Manaus, passa a falar do fim do apogeu capitalista no Amazonas. Entretanto, antes, buscarei retomar o plano mítico do Manixi.
Recupero o parágrafo acima do capítulo TRÊS: NUMAS, para referendar, ou seja, assinar, por minha vez, as anteriores premissas de Michel Foucault, sobre as suas teses referentes ao capitalismo primitivo de modelo familiar, da qual se originaram (realçadas no capítulo anterior destas minhas reflexões teórico-interpretativas, sobre este romance em especial) todas as questões de domínio político-familiar do capitalismo selvagem, determinador de regras trabalhistas desumanas, referentes ao Manixi da primeira etapa ficcional do romance O Amante das Amazonas. A retomada do parágrafo será necessária, uma vez que, para repensar o conflito entre o sócio-substancial (os brancos, os mestiços e os Caxinauás domesticados) e o mítico-substancial (a singularíssima Nação Numa: nação indígena idealizada ficcionalmente e miticamente), situado no entroncamento reflexivo-imaginativo de uma região fronteiriça ao Peru e Bolívia (Amazonas e Acre), inacessível nos anos finais do século XIX, faz-se necessário uma retrospectiva mítico-reflexiva (para a dimensão mítico-substancial do Manixi) e histórico-reflexiva (para a dimensão sócio-substancial do mesmo Manixi), por novas vias teóricas, evidentemente, mas nem por isto distantes das induções político-filosóficas de Michel Foucault, sobre o capitalismo em estado inicial e de base familiar, anterior ao século XX.
Instigada pela (e intrigada com a) criatividade ficcional do narrador do século XX (lembremo-nos do trecho: “Os Numas. Reagiram violentamente desde 1847, quando o sábio Francis de Castelnau por ali passou e os descreveu na Expedition dans lês parties centrales de l’Amerique du Sud. (...). Também Travestin, em Le fleuve Juruá, se refere àquelas lutas que tiveram contra os Numas”) e pelo meu limitado conhecimento pessoal e teórico da realidade manauara (uma vez que ali me estabeleci, no ano de 1996, como professora-substituta convidada de Teoria Literária, Literatura Brasileira e Literatura Amazonense, na Universidade Federal do Amazonas), procurei repensar fenomenicamente o título do romance, buscando uma ligação do mesmo com a mítica Nação Numa, brilhantemente realçada nas certamente (e futuramente) imortais páginas rogelianas desta diferenciada narrativa ficcional pós-moderna/pós-modernista de Segunda Geração.
Nestes termos reflexivo-interpretativos, a partir daí, surge uma pergunta: Castelnau descreveu miticamente os Numas Indomáveis (possivelmente, uma das tribos ainda hoje isoladas, desconhecidas) ou descreveu realmente mulheres índias belicosas, comparadas com as lendárias amazonas guerreiras da Grécia Antiga? A verdade é que, ao longo da busca teórico-histórica restrita à época assinalada pelo escritor, não distingui nenhuma informação quanto à possibilidade de existência desta aludida tribo indígena e o encontro da mesma com os aventureiros citados, entre as muitas nações silvícolas da localidade apontada, inclusive, em relação às tribos originárias dos Andes, tribos estas oriundas da dominação espanhola (anos iniciais da Era Moderna) fronteiriça à região amazônica brasileira (Peru e Bolívia). No entanto, sobre o mito de um grupo de índias brasileiras de ânimo aguerrido, também conhecidas como amazonas guerreiras (inseridas no título do romance), existem muitas informações mítico-históricas. Por conseguinte, depois das reflexões teórico-críticas, buscando solucionar o assunto, pude perceber uma ligação dos Numas invisíveis com o título do romance, uma vez que o escritor, por sua formação humanístico-literária, foi certamente um circunspecto estudioso da mitologia indígena de sua região de nascimento, incluso também o conhecimento de outros arcabouços míticos da humanidade. Por este aspecto, percebo o romance O Amante das Amazonas firmemente associado ao escritor-narrador, enquanto apreciador (amante intelectual) das heróicas narrativas indígenas, as quais povoaram o seu imaginário infanto-juvenil nos anos em que ali viveu, além de conhecedor inconteste das inúmeras formações mítico-religiosas tanto do Oriente quanto do Ocidente. Assim, pelo meu ponto de vista crítico-interpretativo, as “amazonas” do título seriam os próprios índios Numas (homens e mulheres indistintamente), criativamente desrealizados por seu apreciador ficcional. Entretanto, tal afirmação será reinterpretada, a seguir, quando, por tal causa, buscarei conhecimentos histórico-lendários esclarecedores a respeito do mito das gregas amazonas guerreiras, mito este plantado aqui no Brasil por exploradores estrangeiros, desde o início da colonização. Por via histórico-interpretativa, manifesta-se o conceito de que os míticos Numas foram formalizados ficcionalmente a partir de anteriores relatos lendário-familiares, intensificados pelas doutrinações totalitárias amazonenses, impositivas, e pelas intermitentes transmissões da literatura oral e escrita, pois, segundo a ficção aqui assinalada, “não ficavam visíveis, às claras, de frente, nítidos, senão de viés, difusamente entrevistos, só pressentidos na obliqüidade do olhar”.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

L. RUAS - SONETO

A égua caminhava a passos largos
Por entre a lama espessa, mal cheirosa,
A égua que nasceu de barro e sopro,
Pesada e, ao mesmo tempo, vaporosa.

A égua percorreu todo o passado:
É lenda, é mito, é sombra luminosa;
Galopa semeando vida e morte,
É frágil como a flor e belicosa.

Tem alma muito embora em seu ventre
Aninhe fauna imunda e tenebrosa
De serpes e batráquios peçonhentos.

A égua chega sempre. Chora às vezes.
Às vezes, come fezes. Eu a vi
Comendo, em céu de estrelas, uma rosa. 


http://aparicaodoclown.blogspot.com/2009/01/sonetos-autobiogrficos.html



ANO DO DRAGÃO DE ÁGUA

Aldeões chineses executam a dança do dragão, em Zhaiyinggu, no sudoeste da China. O governo do país disse que as vendas no varejo subiram 16,2% durante o feriado do Ano Novo Lunar, em que se celebrou, em 2012, o ano do dragão

NEUZA MACHADO: SOBRE "O AMANTE DAS AMAZONAS"

O Manixi, o que me acena provocativamente, não é o Manixi real dos manuais geográficos da região amazonense. Encontro-me, aqui, acanhada pelo mítico-ficcional Seringal Manixi e por seu Palácio magnificente, “supremo, inominável, majestoso” ; inclusive, por seu dono extraordinário, cuja alcunha reputada é Pierre Bataillon, “um homem que vivia debaixo do ouro no Alto Juruá” ; além de deparar-me enlaçada nas inúmeras questões pós-modernas deste diferenciado romance. Entretanto, para deslindá-lo reflexivamente, com convicção teórico-interpretativa, buscando o plano do silêncio fenomenológico à moda dos atuais pensamentos interativos, ou do filósofo francês Gaston Bachelard, ou pela poderosa lente genealógica de Michel Foucault, não me furtarei a um cotejamento com a realidade histórico-geográfica do Amazonas, confrontando-a com o sistema mítico-social da ficção rogeliana, em benefício de esclarecimentos interpretativos. Por conseguinte, buscarei, no texto ficcional pós-moderno, as informações proveitosas ao meu interativo e reflexivo pensamento dialetizado.
O Manixi da narrativa rogeliana poderá ser visto pelo mesmo prisma que revelou aos leitores universais o Sertão ficcional de Guimarães Rosa. Assim como o Sertão roseano, oriundo do sertão de Minas Gerais, que “está em todo lugar”, como diz Riobaldo (o personagem-narrador de Guimarães Rosa), do mesmo modo percebo o Manixi ficcional rogeliano. Assim como o Sertão de Guimarães Rosa foi visto, por mim, em meu livro, Do Pensamento Contínuo à Transcendência Vital (do cogito(1) ao cogito(3)), como um reflexo da casa primordial, repensada a partir da ciência filosófica de Gaston Bachelard, da mesma forma o espaço ficcional do Manixi será aqui interpretado. A narrativa revelou-me, e revelará aos futuros leitores rogelianos, as íntimas lembranças (memória) e recordações (matéria poética) do narrador amazonense, sobre a sua “casa primordial” inesquecível. Os sentidos vitais (auditivos, visuais, nasais, táticos, gustativos), provindos da infância e adolescência, vividos ali, permaneceram/permanecem intensos e persistentes em suas lembranças poetizadas, mesmo que ele esteja hoje distanciado geograficamente de seu lugar de nascimento, e são percebidos liricamente (matéria lírica interferindo no relato ficcional) ao longo da narrativa. Quem se lembra (recorda ficcionalmente) do Igarapé do Inferno (por que “do Inferno”?) e de toda aquela paisagem dantesca é o segundo narrador, originário do entrópico século XX. O personagem-narrador Ribamar de Sousa apenas se coloca como o porta-voz de suas reminiscências (ou o duplo, ou a máscara ficcional do criador singular atavicamente preso às lembranças e recordações do passado, fossem boas ou más).
 “Pois nós retornávamos em busca daquele passado interdito, pois nós chegávamos no fim daquela era, quando o Palácio transparecia com deslumbramento nos seus múltiplos reflexos das quinquilharias de cristal, janelas e bandeiras das portas transformadas em lúcidas placas de ouro reluzente e vívido e muito louco”, afirma(m) o(s) narrador(es) (s). O primeiro narrador, Ribamar de Sousa (reduplicado por uma pluralização pessoal) chega ao Palácio Manixi quando este já começava a apresentar-se em seu processo de decadência. Para revelá-lo reflexivamente aos leitores atuais e do futuro, buscarei reforço analítico-interpretativo na Poética da Casa de Gaston Bachelard e em outras interferências filosóficas (citações), valiosas, retiradas dos diversos livros de sua fase noturna. O Palácio, a Floresta, a Cidade, todos os planos desta obra diferenciada se distinguem a partir de um único princípio, ou seja, refletem a “casa inesquecível” de que nos fala Bachelard, com seus recantos secretos aninhados no mais profundo dos pensamentos. Por isto, o “Igarapé do Inferno” (por que Igarapé do Inferno?) se revela a sinalizar íntimas lembranças infernais, lembranças que obrigam o primeiro narrador a revelá-las. Quem está buscando o “passado interdito” é o segundo narrador, porque foi ele, enquanto singularidade ativa de seu núcleo social primitivo, que chegou ali, pelo nascimento, já no final de uma era de glórias capitalistas, já no início da decadência do esplendor da borracha.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A propósito de "A Sombra da Romã" - um Inédito em "CASAL DAS LETRAS"

A sombra da romã, de Maria Azenha



Rogel Samuel


A arte minimalista é daquelas que mais me atrai. Creio que é da nossa época o teor dessa estética - a minimal. Somos agora seres econômicos, concisos, precisos, e tentamos viver o simples. O ideal seria habitar na cabana de palha ao pé da montanha, ou na praia isolada e azul - e se possível só.

Azenha conseguiu isso no seu livro, dar só o essencial, como nos versos de seu poema:

O teu rosto adormeceu no meu, em flor.
Nele pousou o nevoeiro.


 

 

A propósito de "A Sombra da Romã" - um Inédito em "CASAL DAS LETRAS"


Inédito

O TORMENTO DA NEVE



Numa cadeira de rodas que não rodava
Vi uma mulher coroada por uma montanha de neve.
Na relva do tapete uma criança de joelhos
Com um pássaro morto no centro da cabeça.
É ela que escreve esta página suja de terra
Com pancadas vivas de violência de sangue e uma gazela.
Não sei se Deus estava presente ou chorava
Mas as janelas sem estrelas e esta beleza sem nexo
Gritaram ouro cortado entre os dedos e o sexo
Cuspiram enxofre para dentro do poema.




Maria Azenha
in   http://www.casaldasletras.com/convidados.html

MORA PIRITHA

Neuza Machado: Sobre o Amante das amazonas.

Pois se nada no romance poderá constar-se como “absoluto”, quem “arranca do corpo a substância e a transmite à vida da superfície” (do rio) não é absolutamente uma fêmea Numa, é um macho Numa. Se fosse uma fêmea, não arrancaria a substância sexual do próprio corpo, projetando-a em uma superfície. A substância sexual, advinda do orgasmo feminino, produz-se em espécie de interna umidade viscosa, e assim permanece. Percebo esta cena não-absoluta como uma questão a ser exaustivamente repensada. O verdadeiro narrador (o dono do ato de narrar) colocou o narrador-personagem Ribamar de Sousa em uma encruzilhada entrópica pós-moderna/pós-modernista. E graças a esta entropia narrativa, e aos enclaves do texto ficcional (espaços em branco, os quais não deverão ser desconsiderados futuramente, em outras edições do romance), os leitores poderão repensar o estigma do preconceito, neste atual momento histórico, seja ele de que natureza for.
Entretanto, continuo submetendo-me aos riscos teórico-reflexivos. Reflito a cena: “Ato terminal. Calor, prazer. O morno rio ressurge, como látex do sangue aquecido. (...) excreção brusca, violenta, do humor que escorre. Espuma de sangue”. Busco os referentes estruturalistas/semiológicos basilares, propiciadores de meu repensar fenomenológico: “Excreção brusca”: função fisiológica que expulsa (no caso, bruscamente) para o exterior alguma matéria excrementícia, como, por exemplo, o sêmen. “Humor”: qualquer líquido que atue no corpo dos vertebrados, como, por exemplo, o sêmen. Estes, por acaso, não seriam índices de uma sexualidade masculina? O líquido viscoso sexual feminino é interiorizado e não se revela em “excreções bruscas”.
Como já disse o sermonista barroco português-brasileiro Padre Antônio Vieira, as palavras têm mistérios. “Partes sólidas, estreitas”. As indiazinhas Numas rogelianas não possuem as partes exuberantes das vitalizadas e jovens mulheres índias. As índias joviais possuem formas arredondadas, sensuais, femininas. As indiazinhas Numas da ficção pós-modernista, assim como as lendárias amazonas guerreiras da antiguidade greco-romana, são masculinizadas. As indiazinhas do texto ficcional desta atualidade entrópica  “desaparecem uma na outra”. Penso que, se o ato fosse realmente lésbico, as indiazinhas Numas não desapareceriam uma na outra, pelo menos, por meio dos órgãos sexuais considerados tradicionalmente como normais. Em se tratando de relacionamento sexual entre duas mulheres, não há como uma se introduzir na outra, no ar. De sorte que, por interferência do alargadíssimo imaginário-em-aberto de quem realmente narra, o vento mítico (associado à água mítica, transformadora) encobre o narrador-personagem Ribamar de Sousa e faz “o morno rio [sexual-imaginário] [ressurgir], como látex do sangue aquecido”, sacralizando o ato sexual-amoroso (diferenciado) das duas divindades númicas.
“O morno rio ressurge, como látex do sangue aquecido”. “Rio”, “látex” e “sangue”. Recupero Bachelard. Encontro-me às voltas com a palavra “rio”, colocada comparativamente ao “sangue” e ao “látex”, indistintamente, neste parágrafo sobre o amor transcendental entre as duas indiazinhas Numas. A palavra “rio” associada ao “sangue” e ao “látex” está ali subentendida como um “sangue maldito”, à moda de Poe, ou como “um sangue valoroso”, à semelhança de Paul Claudel? Penso que este “rio” em especial possui as qualidades simbólicas referentes às três dimensões ─ sócio-substancial, mítico-substancial e ficcional ─ desta obra literária pós-moderna/pós-modernista de Segunda Geração, ou seja, a palavra “rio” tanto poderá ser avaliada pelo plano subjetivo quanto pelo plano objetivo ou pelo imaginário-em-aberto do narrador principal.


http://ofogodalabareda.blogspot.com/

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

NEUZA MACHADO: SOBRE "O AMANTE DAS AMAZONAS"


“Não ficavam visíveis, às claras”. Como posso detectar o sentido oculto dos invisíveis e indomáveis Numas desta narrativa? Que são os Numas? Seriam eles, verdadeiramente e geograficamente, por via de acomodamento fonético-vocabular, os inconfundíveis Iauanauas (ou Yamináua ou Jaminaua ou Jamináwa) do Rio Gregório, detectados etnograficamente? Ou seriam o subgrupo isolado também chamados de Iauanauas, da cabeceira do Rio Acre, mas tribo diferente da população do Rio Gregório? Segundo dados governamentais, existe também um grupo indígena, peruano e boliviano, chamado Iauana, não reconhecido pelos governos de lá, mas incluído na relação de índios brasileiros do subconjunto Pano setentrional, isolado, dos Rios Jandiatuba e Jataí. No âmbito das suposições teórico-interpretativas, os Numas mítico-ficcionais poderiam provir dessas tribos isoladas, as quais viviam, e ainda vivem em menor número, em jurisdições estabelecidas na região interregno do Estado do Acre com o Departamento Ucayali, no Peru.
Entretanto, de acordo com esta narrativa histórico-mítico-ficcional, especialmente, os Numas “não ficavam visíveis, às claras”. Seriam eles os míticos Numes de passados relatos simbólicos, aquelas aéreas divindades mitológicas que se elevavam no ar por meio de influição divinizadora? Seriam eles os antigos gênios alados, só perceptíveis por meio de espiritualíssima intuição? Ou foram germinados e multiplicados, simbolicamente e criativamente, a partir da deusa suméria Inanna, protetora da guerra e do prazer sexual, associada ao vento, enquanto divindade mítica? Se por vezes penso nas genealogias dos diversos arcabouços míticos-religiosos da humanidade, percebo sempre uma espécie de confluência aproximando os relatos.
“Não ficavam visíveis”: repenso a informação reflexivamente, porque esta fase do romance se desenvolverá por intermédio do patrocínio de reminiscências caprichosas do imaginário mítico-familiar, todas interligadas aos diversos narrares tradicionais da realidade mítico-indígena-e-social brasileira. Tais narrativas, indiscutivelmente poderosas, heroicamente/simbolicamente personificadas por criaturas aladas extraordinárias, foram, são e sempre serão representativas das potências da natureza e das incríveis incomuns qualidades do ser humano. Em outras palavras, os Numas ascendem, ficcionalmente e miticamente, por intermédio do poderoso tronco familiar, primitivo e ímpar, do índio amazonense, oriundo das altas e inóspitas regiões andinas. O mencionado tronco, certamente, no meio dos infindáveis inter-relacionamentos sócio-culturais, foi realçado como fundamento sanguíneo intercambiável, digno de ser aceito como altamente proveitoso no âmbito da real miscigenação da sociedade manauara e brasileira, altiva e historicamente preconceituosa, uma vez que o glorioso mito do ativo exercício do poder estará sempre e indissoluvelmente interligado às grandes alturas, pouco hospitaleiras.
Contudo, são os mítico-ficcionais Numas que estão aqui, nas páginas deste meu artigo teórico-interpretativo, como assunto de comentários reflexivos. E se, como diz o narrador-personagem, o Ribamar de Sousa, “a vida é um caminho que de repente se bifurca”, observo a seguir outras informações estimáveis.
“Nessa matéria nada é absoluto” (ou seja, pela via do dicionário português-brasileiro, “não tem limites”, “não sofre restrição de espécie alguma”, “não enuncia um sentido completo”, “não é narrativa autoritária”, “não é um narrar despótico, imperioso, soberano, incondicional, incontestável”, qualquer que seja a definição do termo “absoluto”), diz o narrador, reafirmando, por via ficcional, o que, reflexiva e teoricamente, procuro assegurar, pela diretriz do conhecimento fenomenológico, como narrativa pós-moderna/pós-modernista de Segunda Geração. “Nada é absoluto”, porque, para criar um texto narrativo, diferenciado das narrativas exemplares, lineares e absolutas, e para interagir com o arcabouço mítico-indígena da realidade sócio-mítica amazonense (que diligencia elevar a figura do índio de sexo masculino, forte, destemido, possuidor de “grosso falo” como símbolo de “dinâmica sexualidade”), o escritor, de origem manauara, obrigou-se criativamente e ficcionalmente a recuperar os traços do conhecimento coletivo e abrangente (formal e impositivo) de seu (do autor) anterior meio social citadino, por questões substanciais ainda relacionados com a história primitiva do homem brasileiro civilizado.

TRAGÉDIA NO EGITO

Cairo - Pelo menos setenta e três pessoas morreram nesta quarta-feira no Egito em confrontos após uma partida de futebol entre dois times da cidade de Port-Saïd (Norte), que de acordo com a Irmandade Muçulmana foram causados por partidários do ex-presidente Hosni Mubarak.
O número de mortos ainda é provisório, mas já se trata de um dos piores episódios de violência registrados num estádio.
"Os confrontos começaram logo após o jogo entre as equipes de Al-Masry e Al-Ahly e deixaram 73 mortos", anunciou o vice-ministro da saúde, Elmy al-Hefny
De acordo com dados apurados pela AFP em quatro hospitais da cidade de Port-Saïd, centenas de pessoas foram feridas.
Fontes médicas informaram que estas cifras ainda podem aumentar, já que ambulâncias continuavam a levar feridos aos hospitais horas após o início dos confrontos, que começaram logo após o apito final da partida.
Neste jogo válido pela 17ª rodada do Campeonato Egípcio, o Al-Ahly, um dos melhores clubes do país, perdeu por 3 a 1 do rival Al-Masri, sofrendo sua primeira derrota da temporada.
Um fotógrafo da AFP que presenciou as cenas de violência relatou que torcedores do Al-Masri atiraram pedras, garrafas de vidro e foguetes no setor reservado aos fãs do Al-Ahly.
Fontes médicas também relataram que pessoas morreram ou foram feridas por ter sido atacadas com armas brancas.
A Irmandade Muçulmana acusou simpatizantes do ex-presidente Hosni Mubarak de serem responsáveis por estes confrontos.
"Os eventos de Port-Saïd foram premeditados e têm a assinatura dos partidários do antigo regime", afirmou o deputado Essam al-Erian num comunicado publicado no site do Partido da Liberdade e da Justiça (PLJ), formação política da Irmandade Muçulmana.
Essam al-Erian declarou que a Assembleia do Povo, cuja maioria dos membros está ligada à Irmandade Muçulmana, pretende pedir ao ministro do Interior e aos responsáveis pela segurança do estádio que "assumam plenamente suas responsabilidades".
O presidente da Assembleia do Povo, o islamista Saad al-Katatni, anunciou que a Câmara dos Deputados se reunirá nesta quinta-feira para discutir a respeito destes eventos.
Já o deputado liberal Amr Hamzawi pediu a demissão do ministro do Interior, assim como do governador e do chefe de segurança da cidade de Port-Saïd.
O marechal Hussein Tantawi, líder do Conselho Supremo das Forças Armadas, no poder desde a queda do ex-presidente Mubarak, enviou dois aviões militares ao local para ajudar na evacuação de feridos e dos jogadores das duas equipes, revelou a televisão de Estado egípcia.
O procurador-geral Abdel Meguid Mahmoud pediu uma investigação imediata, ainda de acordo com este canal.
A televisão de Estado mostrou diversas imagens do caos no estádio, com torcedores correndo para todas as direções.
O treinador do Al-Ahly, o português Manuel José, mostrou-se muito chocado quando deu entrevista à imprensa do seu país.
"Já era possível sentir a tensão durante o jogo. Quando terminou, milhares de pessas invadiram o gramado. Nem consegui chegar ao vestiário com toda a confusão. Apesar de protegido por seguranças, recebi golpes na cabeça e no pescoço, mas estou bem", relatou.
Todas as lojas da cidade de Port-Saïd fecharam suas portas e diversos voluntários ajudaram a transportar feridos com seus veículos.
Tiroteios foram ouvidos na estrada entre Port-Saïd e a capital Cairo.
Mais cedo, as autoridades egípcias relataram um incêndio em outra arena de futebol, o estádio Nacional de Cairo. O fogo foi controlado, mas a partida entre o al-Zamalek e o Ismaïly foi cancelada.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

MIANMAR

A candidata a Presidente de Mianmar, Aung San Suu Ky, cumprimenta os eleitores durante visita a cidade de Pakokku Township

Monjes Y Monjas Abandonan Monasterios


Monjes Y Monjas Abandonan Monasterios

RFA | 31 de enero de 2012

La mayor intrusión por parte de las autoridades chinas está vaciando las instituciones budistas en un condado de la Región Autónoma Tibetana.

Monjes y monjas han abandonado sus monasterios en un condado del Tíbet Central, prefiriendo dejarlo que someterse a “intrusivas” nuevas regulaciones chinas, de acuerdo a fuentes tibetanas.

El éxodo durante los dos últimos meses llega en medio de una creciente represión por las autoridades chinas, luego de manifestaciones tibetanas subrayando los abusos en los derechos humanos  y las auto-inmolaciones sin precedentes, la mayoría por monjes que alimentaron crecientes frenos a la religión.
“Los monjes y monjas ya han abandonado” sus monasterios en el condado de Driru, en la prefectura de Nagchu, en la Región Autónoma Tibetana (TAR, por sus siglas en ingles), dijo un tibetano que vive en Australia, hablando en condición de anonimato y citando fuentes de la región.

Nombró a los monasterios de Driru, Pekar, Choeling, Tagmo y Drongna, y Jana, un convento, como las instalaciones afectadas.

“Todos ellos, que no están dispuestos a vivir bajo las estrictas restricciones impuestas por las autoridades chinas, eligieron marcharse”, dijo.

Un monje tibetano residente en el monasterio de Sera en India, confirmó el relato, citando a sus propias fuentes en Driri y nombrando otros monasterios, incluidos los de Drubde y Rachen, que dijo estás ahora desiertos.

“Los monjes están preocupados de que puedan forzarlos a retornar, porque los oficiales chinos están diciendo que ellos no tienen autoridad para irse por sí mismos” dijo.

Boicot a las celebraciones
Los tibetanos locales están ahora boicoteando las celebraciones del Año Nuevo Lunar para manifestar su apoyo a los monjes que se han marchado, dijo.

No queda bien claro si los monasterios han sido formalmente clausurados, o si algunos monjes o monjas residentes permanecen allí.

Algunos de las restricciones impuestas sobre los monasterios tibetanos por China, incluyen límites al número de monjes matriculados, y un límite de 18 años de edad para quienes desean unirse, dijo la fuente residente en Australia.

“Además, los monasterios tienen que pedir permiso de las autoridades chinas para todo tipo de trabajo, pequeño o grande”.

Las autoridades chinas han intentado también confiscar los ingresos de los almacenes del monasterio y otras ganancias, dijo la fuente.

Pero como los monasterios fueron construidos con contribuciones del público en general, y no con fondos chinos, los monjes consideran la orden china como una “interferencia en su libertad religiosa” dijo.

“Ellos han desafiado a los chinos a convertir la riqueza de todos los monasterios en efectivo y distribuirlo entre la gente, quienes son los verdaderos propietarios de la riqueza”.

Los  tibetanos locales protestan ante la situación de que los oficiales chinos estén diciendo que solo “unos pocos monjes que no quieren vivir en los monasterios están creando el problema”, dijo la fuente.

Aumento masivo en la intrusión

Hablando en una entrevista el experto en Tíbet de la Universidad de Columbia, Robbie, Barnett, dijo que ha habido un “incremento masivo” en la intrusión del Estado en los monasterios en la Región Autónoma Tibetana, en las pasadas semanas.

Bajo las actuales regulaciones, todos los monasterios de la region deben exhibir retratos de los líderes chinos Mao Zedong, Jiang Zemin y Hu Jintao, y deben izar la bandera china, dijo.
En una nueva regla enviada a la capital regional, Lhasa, el 20 de diciembre, los funcionarios del partido comunista localizados en los monasterios deben “hacerse amigos” de un monje, y llevar un archivo de lo que ese monje piensa, dijo Barnett.

“Esta clase de incursiones de las autoridades, ya por las fuerzas de seguridad o por la imposición de funcionarios y “equipos de trabajo” sobre los monjes, están llevando al punto en el que solo veremos monjes alejándose de estos lugares”, dijo Barnett.
También hablando en una entrevista, Buchung Tsering, vide presidenta de la Campaña Internacional por el Tíbet (ICT, por sus siglas en inglés), dijo que el budismo en Tíbet está enfrentando “crecientes restricciones y amenazas como nunca se han visto antes”.

“Y esto es algo que las autoridades chinas deberían tener en cuenta”.

El budismo debería ser “dejado solo, como solía ser, sin ninguna participación política”, dijo Buchung.

“A menos que las autoridades chinas desistan, su continua interferencia en los procesos religiosos de los tibetanos, irá en detrimento del futuro del budismo tibetano”.
Expansión de las protestas
Mientras tanto, dijeron las fuentes, pósters y panfletos llamando por la libertad de Tíbet y el retorno del líder espiritual, el Dalai Lama, aparecieron el 25 de enero en el monasterio de Ragya en la prefectura de Golog de la provincia china de Qinghai.

“La policía no pudo identificar a los responsables, y más tarde amenazó con cerrar el monasterio” dijo el exilado tibetano residente en India, Ragya Lowang, citando fuentes de la región.
Los monjes habían exhibido antes una gran foto del Dalai Lama y la prohibida bandera nacional tibetana, en el principal salón del monasterio, promoviendo una investigación por las autoridades chinas, dijo Ragya Lowang.

También la semana pasada, el 23 de enero, “varios cientos” de monjes y laicos tibetanos del monasterio de Namtso y del pueblo de Meruma en la prefectura de Ngaba, en Sichuan, se sentaron en un cruce de caminos para manifestar contra el dominio chino, según una fuente tibetana local.

Los laicos se quitaron su ropa interior y quedaron medio desnudos, cantando mantras y comiendo tsampa (harina de cebada tostada) en protesta” dijo la fuente.

“Ellos marcharon a la principal ciudad de Meruma, y cuando la policía china trató de bloquearlos, continuaron caminando, cantando eslóganes por la larga vida del Dalai Lama y por la libertad del Tíbet” dijo.
El mismo día, cientos de tibetanos también se reunieron en el monasterio de Tsodun en Ngaba y realizaron una vigilia con encendido de velas. La vigilia duró por tres horas, comenzando a las 5 pm, según un informe de la ICT.

“Policías y soldados arribaron, y no se conocen las consecuencias del incidente”, dijo ICT en su informe.-