segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

HOMEM, AMAZÔNIA E ECOLOGIA: A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO DE DJALMA BATISTA

HOMEM, AMAZÔNIA E ECOLOGIA: A CONTRIBUIÇÃO DO PENSAMENTO DE DJALMA BATISTA

Isaac Melo
Pode-se, sem falso louvor, situar Djalma Batista entre os grandes estudiosos amantes da Amazônia; um amazonófilo, utilizando-se, aqui, da expressão cunhada por Gilberto Freyre para se referir a Leandro Tocantins. A ecologia, posteriormente a integrar as ciências ecológicas, passou a ganhar feições próprias, como ciência, a partir do século XIX, adquirindo expressiva força na década de 1960, com o advento dos movimentos ambientais. Apesar de ser alvo de estudos desde tempos remotos, como os desenvolvidos, na Grécia antiga, por Hipócrates e Aristóteles, referentes à história natural, só mais recente o nosso “grande lar” passou a ser objeto de atenção e estudo científico.
A Amazônia, enquanto grande reserva natural do planeta, desde a lenda das amazonas, propagada pelo relato de Frei Gaspar de Carvajal, em 1542, sempre atraiu sobre si a curiosidade exploratório-científica, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, exemplificada, entre outras, pelas clássicas expedições naturalistas de La Condamine (1735), Alexandre Rodrigues Ferreira (1786), Martius-Spix (1817-1820), Bates-Wallace (1848), Agassiz (1865-1866). Inicialmente a natureza exercia o predomínio sobre o fator humano. Aquela era maior do que este, e o absorvia. Daí a expressão de Euclides da Cunha, em princípio do século XX, inebriado pela grandiosidade da selva frente ao homem: “O homem, ali, é ainda um intruso impertinente”. Porém, com o aumento do fluxo humano, entre outros, proporcionado pela migração, somado ao aperfeiçoamento da técnica que permitiu desenvolver novas tecnologias, a Amazônia passou a sofrer considerável impacto sobre o seu meio natural. O que antes parecia ser inviolável, indobrável, mostra-se um complexo sensível às intervenções humanas desmedidas. A Amazônia passa então a necessitar ou a exigir uma ética que regule e oriente o agir humano sobre ela. A ecologia ou as ciências ecológicas vem colaborar, nesse primeiro momento, para tal reflexão, ao conceber o homem em interação com toda a biosfera.
Djalma Batista (1916-1979) encontra-se entre aqueles que vem colocar a Amazônia na grande pauta da reflexão nacional e mesmo internacional, num momento em que a própria Amazônia passa a ser alvo da cobiça internacional, frente ao descaso governamental brasileiro, que, pode-se afirmar, não sabia como integrá-la ao restante do país. Cientista, pesquisador, escritor, literato, homem de profunda cultura, Djalma, arguto nas observações e rigoroso nos registros, distancia-se do pensamento romantizado acerca da Amazônia para lançar um olhar mais acurado e crítico, com embasamento científico, às grandes questões que se apresentavam à complexa realidade amazônica.
Médico formado pela famosa Faculdade de Medicina da Bahia (1939), quando de seu retorno à Amazônia, aos 23 anos, lança-se ao estudo dos diversos problemas que assolavam a região, entre os quais, as doenças tropicais, a hanseníase e a tuberculose, onde alcança resultados notáveis. Quando mais adiante assume a direção do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), de 1959 a 1968, irá reclamar a necessidade do desenvolvimento tecnológico da região aliado ao desenvolvimento cultural de seus habitantes.
A Amazônia de Djalma ainda é, em grande parte, desconhecida cientificamente, por isso ele afirmava que “a Amazônia, se não é o infinito, é pelo menos o indefinido” (2003, p.65), por isso a necessidade de pesquisadores para descerrar o ‘véu de Ísis’ que envolvia a região, hoje, em parte, desnudada pelos modernos satélites que exibem, com precisão, detalhes dos lugares mais remotos da planície amazônica. Por isso afirmava que a natureza amazônica não estava suficientemente conhecida e estudada, o que ainda persiste.
Djalma não encarava a Amazônia segundo os critérios tradicionais da geografia física, política ou continental, mas a partir da geografia humana. Logo percebeu o ponto nevrálgico da ocupação amazônica. Para ele, toda a história da Amazônia tinha sido, até aquele momento, uma colonização desorganizada, em que a produção extrativa era a base de todo erro estrutural da economia, devido sua condição arcaica. Compreendia que todo o processo de ocupação tinha sido uma aventura, a serviço de empreendimentos mercantis, que começaram desde a primeira hora. “A ocupação da Amazônia, nos moldes de uma política meramente imediatista, é propriamente um crime”, ressaltava o cientista (cf. 1976, p.128).
Acerca do boom gomífero, a borracha, Djalma afirmava que esta era o verdadeiro símbolo da Amazônia, contemporaneamente, cujas oscilações constituiram o fluxo e o refluxo das marés sociais e econômicas. Entrevia, no entanto, a transposição desse símbolo para o rio, em perene movimento, sempre adiante, a insinuar, a exemplificar, a impor a atividade. Hoje diríamos as rodovias, e mesmo, o transporte aéreo. Segundo ele, o alvorecer promissor de um ciclo de cultura na Amazônia, proporcionado pela borracha, não correspondeu totalmente à expectativa, pois, na economia permanecemos sempre extrativistas e predatórios, e não principiamos sequer a construir uma economia no sentido capitalista; na alimentação, deixamos os enlatados, porém, continuamos a receber quase tudo de fora, o que poderia ser cultivado em nossas terras; o comércio em geral ainda não era comércio, mas puro escambo, troca de mercadorias por gêneros. Além disso, a condição de vida do povo, em geral, não havia progredido.
O resultado da época do fastígio, a toda a Amazônia, segundo Djalma, teria sido um certo quê de novo-rico, ou de aristocrata arruinado, que levou a exibicionismos e exteriorização muito além das reais possibilidades do meio. Da saga da especiaria aliada à exploração gomífera surgiu um sacrificado, ao mesmo tempo herói e mártir, que era o homem, em cuja defesa Djalma se colocava intransigentemente. Por meio da defesa à natureza, ele chegava à defesa do homem transposto àquelas paragens. Por isso, o pensamento djalmiano se contrapõe a do ‘homem impertinente’, de Euclides da Cunha. Assevera Djalma: “Reanimando o habitante da Amazônia, através da educação, enquanto a paisagem seja defendida, é preciso aprender a tirar, do que a terra possui ou pode dar, com a aplicação de novas técnicas e de nova orientação, as vantagens e os privilégios que não soubemos ou não pudemos até agora valorizar” (1976, p.101). A floresta não é uma redoma de cristal, de aura intocável, ela poder ser manejada de forma racional em favor de seus habitantes. É possível desenvolver, preservando.
Diferente de certos ecologistas radicais hodiernos, para Djalma a floresta não deve constituir uma barreira ao desenvolvimento da Amazônia, mas ser considerada um dos mais preciosos recursos. O que tem de se criar, afirmava o pesquisador, são bases econômicas realmente estáveis, simultâneas a bases culturais, que permitam o progresso da terra e representem boas condições para sua gente, sem que se destruam as potencialidades da terra e sem que o homem seja tentado a emigrar por se sentir abandonado e sem horizontes (cf. 1979, p.291). Lição que ainda não foi assimilada de toda. Depreende-se assim, que o desenvolvimento do homem amazônico encontra-se sempre atrelado à preservação da floresta. Por isso era categórico em afirmar: “é preciso de qualquer maneira defender a ecologia amazônica” (1979, p.25).
A preservação da floresta se conjugaria com o desenvolvimento cultural do povo. Djalma atacava o subdesenvolvimento cultural como um dos principais problemas da Amazônia a ser superado: “O que sei é que o importante, na Amazônia, é preparar o povo para procurar suas próprias soluções, criadas pela experiência de seus homens devidamente esclarecidos e amadurecidos, sem cópias nem modelos alienígenas” (1976, p.213). É claro que numa reflexão atualizada, o subdesenvolvimento cultural, apesar de não está superado, poderia ser substituído pelos grandes latifúndios agro-pecuários que devastam e dominam, rápido e assombrosamente, grandes áreas na Amazônia. Por isso Djalma pregava a necessidade de se criar uma consciência da importância da natureza amazônica, que deve ser conhecida e amada, para poder ser defendida na sua ecologia, isto é, nas relações que os seres têm de guardar entre si, partindo do homem, que é o comandante lógico de todo o processo transformador.
A educação assume um lugar de destaque no pensamento djalmiano. A cultura amazônica declinava, afirmava ele, pois havia se chegado a um nível de cultura muito baixo. Por isso os seus esforços, para o estudo do “complexo amazônico”, de formar pesquisadores locais, acrescidos aos de fora, enquanto esteve à frente do INPA. Essa pobreza generalizada, agravada pelo isolamento, teria suas raízes na ausência, pouca oportunidade ou má orientação da educação, e, consequentemente, subdesenvolvimento psicossocial ou sóciocultural. Portanto, para ele, a solução estaria na educação, que levantaria o nível cultural da população, dando-lhe novos horizontes, com a valorização do trabalho e novas perspectivas de vida, que deveria ser boa e digna, em qualquer lugar; estaria também na criação de novas condições econômicas, reduzindo o extrativismo a um número suportável pela natureza, sem que esta se desgastasse de modo ameaçador como estava acontecendo (cf. 1979, p.90), e prossegue até hoje.
A cultura, a que se chegaria pela educação, seria um forte fator para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da humanidade: “Estou convicto de que só há uma força, hoje, no mundo, capaz de sustentar os ideais supremos de Liberdade, de Justiça Social e de Paz: é a cultura” (2003, p.97). Djalma prosseguia afirmando que a memória, o raciocínio, a imaginação, o espírito crítico, dependem de exercício, treinamento e estímulo: só eles poderão conduzir à ciência, à arte, à criação literária, à filosofia, ao domínio das ideias e dos fatos, isto é, à cultura, como o patrimônio espiritual de um povo. Ainda acrescentava que essa civilização só poderia surgir de um movimento de cima para baixo, isto é, do homem de estudo para a massa, e com a elevação gradual desta, através de uma sistemática e eficiente divulgação do saber. Se não havia pesquisadores e cientistas, então o que se devia fazer era formá-los. Por isso ele propunha, em primeiro plano, a organização de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Como homem de letras, chegou mesmo a expressar: “Precisamos, enfim, de poetas, de muitos poetas na Amazônia, que eternizem no verso os anseios e os sentimentos do povo” (2003, p.94). É incomum ouvir apelos assim vindos do meio científico. Mas Djalma era um devoto do homem diante do altar da natureza.
Acerca da criação de um possível Centro de Estudos Amazônicos, em tom quase poético, Djalma se deleitava com a ideia que este só lhe podia trazer o concurso, inútil porque vazio, despretensioso porque sincero, de sua mocidade, formada no culto devocional e no amor afervorado pela terra e pelo homem amazônicos: terra feiticeira e boa, portentosa e triste, que encerra o futuro da humanidade no seu seio carinhoso – no recesso ignoto de suas florestas, onde corre a seiva fecunda de uma botânica intrincada e nova, e toda uma zoologia que assombra e fascina; na trama vascular de seus caudalosos rios; no sistema nervoso de suas cidades, vilas e povoados, vibrando ao toque mágico de suas convulsões potâmicas, geológicas e econômicas (cf. 2003, p.12).
Naquele momento crítico da história brasileira, em que o governo militar passou a incentivar a ocupação da Amazônia, Djalma alertava: “Não basta para o Brasil a posse física da Amazônia, urge recuperá-la para a economia e criá-la para a cultura brasileira” (2003, p.94). Isso não queria dizer uma ocupação desorganizada e uma exploração predatória, pois o que mais o impressionava constantemente naquele momento era o desmatamento desmedido, contra o qual ergueu sua voz veementemente. Por isso ressaltava que tudo nos cumpre fazer para defendê-la, e, defendendo-a, desenvolvê-la. Considerava uma estultície pensar em reduzir toda a riqueza amazônica a dinheiro, porque, em troca dele, teríamos o deserto. Além disso, a floresta comporta valor em si mesmo. A grande esperança continuava sendo, entretanto, o despertar da consciência ecológica, assegurava.
Por fim, decorridos mais de três décadas da publicação de sua principal obra, O Complexo da Amazônia (1976), e de seu falecimento (1979), seu pensamento ainda permanece uma verdade que não se esgotou e um testemunho que não envelheceu. Um homem que levantou ardorosamente a bandeira da preservação da Amazônia, num momento em que pouco se falava ou se conhecia em relação à ecologia. A Amazônia persiste a necessitar de outros Djalmas capazes de ir além de sua época, na busca de solução e empreendimentos que ajudem cada vez mais a garantia de todos ao bem supremo da vida, numa era em que esta se vê constantemente ameaçada. Que a memória de Djalma Batista não se reduza a nomes de avenidas e escolas, mas ganhe a consciência dos homens, de quem foi defensor intransigente, pois “asseguro que nada mais sou que um dos que muito desconhecem a Amazônia, pertencendo, no entanto, ao grupo dos que almejam entendê-la e defendê-la”. O que fez de modo ímpar.
REFERÊNCIAS
BATISTA, Djalma. O complexo da Amazônia: análise do processo de desenvolvimento. Rio de Janeiro: Conquista, 1976.
BATISTA, Djalma. Amazônia, Cultura e Sociedade (Org. Tenório Teles). Manaus: Editora Valer, 2003.

domingo, 1 de dezembro de 2013

J. G. de Araujo Jorge

J. G. de Araujo Jorge

 
J. G. de Araujo Jorge
 
 
 
Nasceu em 20 de maio de 1914, na Vila de Tarauacá, Estado do Acre. Filho de Salvador Augusto de Araújo Jorge e Zilda Tinoco de Araujo Jorge.
Descendente, pelo lado paterno de tradicional família alagoana, os Araujo Jorge. Sobrinho do embaixador Artur Guimarães de Araujo Jorge, ( autor de inúmeras obras sobre Filosofia, História  e Diplomacia), sobrinho neto de Adriano  de Araujo Jorge , médico, escritor, grande orador, que foi Presidente perpétuo da Academia Amazonense de Letras,  e do Prof. Afrânio de Araujo Jorge, fundador do Ginásio Alagoano, de Maceió.
Descende pelo lado materno dos Tinocos, dos Caldas e dos Gonçalves,  de Campos, Macaé, e S. Fidélis,  Estado do Rio.
Passou sua infância no Acre, em Rio Branco, onde fez o curso primário no Grupo Escolar, 7 de Setembro. No Rio , realizou o curso secundário nos Colégios Anglo-Americano e Pedro II Colaborou desde menino na imprensa estudantis. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II, no velho casarão de S.Cristovão, consumido pelas chamas muitos anos depois. Data dessa época, ainda ginasiano, sua primeira colaboração  na imprensa adulta: em 1931 viu publicado o seu poema "Ri Palhaço, Ri" no  "Correio da Manhã", depois transcrito no "Almanaque Bertand" de 1932.
Entretanto, este como outros trabalhos desse tempo, não foram incluídos em seus livros. Colaborou também no jornal " A Nação" ; nas revistas: " Carioca", "Vamos Ler", etc. Formou-se  pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.
Em 1932, No Externato Colégio Pedro II, em memorável certame, foi escolhido o " Príncipe dos Poetas", sendo saudado na festa por Coelho Neto, "Príncipe dos prosadores brasileiros" recebendo das mãos da poetisa Ana Amélia, Presidente da Casa do Estudante, como prêmio e homenagem, um livro ofertado por  Adalberto Oliveira, então " Príncipe da Poesia Brasileira".
Na Faculdade de Direito foi o fundador e o 1º Presidente da Academia de Letras, que teve como patrono Afrânio Peixoto, então professor de Medicina Legal.
Foi locutor e redator de programas radiofônicos, atuando nas Rádios Nacional, Cruzeiro do Sul, Tupi e Eldorado. Em 1965, era professor  de História e Literatura, do Colégio  Pedro II.
Orador oficial de entidades universitárias, (do CACO  da União Democrática Estudantil, precursora da UNE, da Associação Universitária, etc), ainda estudante, venceu concursos de oratória. Em Coimbra recebeu no título de " estudante honorário" e fez Curso de Extensão Cultural na Universidade de Berlim.  
Com irrefreável vocação política, foi candidato a vários cargos públicos. Elegeu-se Deputado Federal em 1970 pela Guanabara, reelegendo-se já para o  seu terceiro mandato em 1978 .
Ocupou a vice-liderança do MDB e a presidência da Comissão de Comunicação na  Câmara dos Deputados.
Politicamente participou sempre das lutas anti-fascistas, como democrata e socialista. Lutou, ainda estudante, contra o "Estado Novo". Foi preso e perseguido várias vezes durante esse período . Deixou de ser orador de sua turma por estar detido na Vila Militar, sob as ordens do Gal. Newton Cavalcanti, durante todo "estado de guerra" de 1937.   
Foi conhecido como o Poeta  do Povo e da Mocidade, pela sua mensagem social e política e por sua obra lírica, impregnada de romantismo moderno, mas às vezes, dramático.
Foi um dos poetas mais lidos, e talvez por isto mesmo, o mais combatido do Brasil.
Faleceu em 27 de Janeiro de 1987.

 

 

Os versos que te dou


 

 
Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...
E hei de faze-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei  depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...
Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escuta-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...
Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revive-los nas
lembranças que a vida não desfez...
E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...
Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...
Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.
 


 
("Meu Céu Interior" – 1934)
 

("Meu Céu Interior" – 1934)





" Criação "
O diabo é que não sou complicado
sempre sei o que sinto, o que quero,
pelo menos no momento que passa.

Por isso não tenho dificuldade em meu verso,
na verdade, não tenho nenhum trabalho,
ele vem e me diz: aqui estou!

Pois bem: que cante!
(  " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )




" Canto Banal "

Não te quero dizer palavras difíceis e deformantes
nem inventar imagens que embelezam talvez
mas que não reconheces.

Não tocarei música para os teus ouvidos
nem criarei poesia para a tua imaginação,
nem nada esculpirei que já não estejas em ti...

Nesse instante serei banal,
não respeitarei nem mesmo o silêncio,
nada que nos eleve além do plano em que estamos,
não serás estrela, não serás a nuvem, não serás a flor...

Quando chegares, e eu tomar teu corpo
em meus braços nervosos, te direi apenas:
- meu amor!

( " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )




" Estranho Instrumento "
Meu coração, como uma harpa submersa,
jaz no fundo de que ignorado oceano?

Que estranhas correntes arrancam de suas cordas
sons líquidos e redondos que se perdem côncavos
antes de chegar à tona?...

Que peixes cegos tiram notas imprevistas
e se vão tontos na ondulação do canto que despertam
entre espectros calcários e verdes algas trementes?

Que músicas borbulhantes se agitam, nascidas
de que movimentos sem origens, incognoscíveis,
marcando um tempo morto e imensurável?

Meu coração é como uma harpa submersa,
sem dedos, sem cordas, tocando sozinha
uma canção que desvenda os mistérios da vida
para os peixes ouvirem.

( " Harpa Submersa " 1a ed. 1952 )





Amo !"


     Amo a terra ! Amo o sol ! Amo o céu ! Amo o mar !
Amo a vida ! Amo a luz ! Amo as árvores ! Amo
a poesia que escrevo e entusiasta declamo
aos que sentem como eu a alegria de amar !

Amo a noite ! Amo a antiga palidez do luar !
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo !
Uma folha que cai ! Um perfume no ar
onde um desejo extinto sem querer inflamo !

Amo os rios ! E a estranha solidão em festa,
dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta !

Amo a cor que há nos sons ! Amo os sons que há na cor !
E em mim mesmo - amo a glória de sentir-me um Poeta
e amar imensamente o meu imenso amor !.

( "Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I -  1a edição 1965 )







Soneto


Bom o tempo que ficou, — amei-te na alegria
de uma tarde azulada e linda de Setembro,
— disso tudo hoje triste eu muita vez me lembro
enquanto uma saudade o peito crucia...

Amei-te, como nunca outro alguém te amaria,
eras o meu sonhar de Janeiro à Dezembro...
Depois... Tu me deixas-te, e ainda hoje se relembro,
Amargo a mesma dor cruel daquele dia...

Agora sem viver, — sou um corpo sem alma, —
conformo-me com tudo, e vou chegando ao fim
— como a tarde que cai bem suavemente em calma.

Já não sinto... não sofro... já nem vivo até.
— Se a vida ainda era vida ao ter-te junto à mim
hoje, longe de ti, - nem vida ao menos é!

                                                           J. G. de Araujo Jorge

Civilizações perdidas: Novos vestígios de povos do passado



NEUZA MACHADO: Paxiúba, emblema da Amazônia amontoada e brutal, sombria, desconhecida, nociva


“Paxiúba, emblema da Amazônia amontoada e brutal, sombria, desconhecida, nociva”.[i] Por que o narrador visualiza “Paxiúba (como) emblema da Amazônia amontoada e brutal, sombria, desconhecida, nociva”? Paxiúba é o símbolo do guerreiro mítico, gerado por seres excepcionais: a índia caxinauá e o negro barbadiano. O pai de Paxiúba, para o projeto mítico-ficcional em questão, teria de ter uma ascendência diferenciada, notável. Paxiúba teria de ser oriundo da fusão do lendário indígena com o fantástico do imaginário africano. Há poucos negros no Estado do Amazonas. O “pai” teria de se constituir diferente dos outros pais das miscigenações usuais da realidade dos costumes amazonenses. O caboclo, originário da mistura entre o índio e o branco, não possui o porte, o vigor deste personagem. Paxiúba é o “emblema”, o símbolo dos poucos “bugres”, representantes da raça forte que por ali transita. Para a “Amazônia amontoada e brutal, sombria, desconhecida, nociva”, o autor reserva os símbolos depreciativos. “Amazônia amontoada”: todos os estratos sociais (brasileiros e universais) que para ali vão, em busca de riqueza fácil. “Amazônia brutal”: espaço geográfico onde se digladiam, em prol do rendimento pecuniário, seres grosseiros e violentos, já maculados pelas regras insanas do capitalismo selvagem. “Amazônia sombria”: receptáculo de seres tristes, lúgubres, despóticos, capazes de quaisquer ações de conseqüências desagradáveis para alcançarem seus intentos progressistas. “Amazônia desconhecida”: espaço geográfico ignorado politicamente (pelo menos, durante a ocasião do desenvolvimento do projeto ficcional), “terra de ninguém” onde se faz presente a lei do preferencialmente forte, social e miticamente apresentada. “Amazônia nociva”: Amazônia em que todos estes danos, apresentados pelo narrador, ameaçam destruir a hegemonia da nação brasileira. Paxiúba é o “emblema” (símbolo) porque, por intermédio de sua face sócio-substancial, duplicada pela ficção, o narrador o coloca como “pistoleiro do rei”, o capanga profissional, o assecla do poderoso dono do Manixi. E, para ser o “emblema” do Amazonas e sustentar a honraria, o candidato ao cargo e ao título teria (terá) de ostentar (mesmo que não fosse / que não seja imortal) a poderosa face do mito.

 “Paxiúba, pistoleiro do rei”. A partir desta assertiva, inicia-se a transformação dimensional do personagem. O semi-humano Paxiúba foi apresentado aos leitores, anteriormente, à moda dos lendários heróis mitificados, mas, como assecla do poderoso dono do Manixi, vigorará, daqui para frente, como personagem da dimensão sócio-substancial. A proposta ficcional do escritor amazonense não lhe concedeu o direito de gloriosamente retornar à (retomar a) dimensão mítica, uma vez que Paxiúba não é herói de narrativa épica. Mesmo assim, até aqui, os adjetivos abonadores caracterizam o herói lendário, e os adjetivos que não combinam com a aura do mito saem da perspectiva diferenciada do escritor da segunda fase do pós-modernismo brasileiro de Segunda Geração. Neste interregno mítico-ficcional, Paxiúba caracteriza o “soldado”, o assecla, o jagunço, o matador profissional, o lugar-tenente dos antigos e poderosos donos-de-terra do Brasil, regidos há bem pouco tempo por normas políticas imperiais.

 “E naqueles mesmos dias ocorreram grandes fatos em outros lugares e horas, históricos e decisivos para a sucessão desta ficção e que relatarei no momento oportuno, mais que para tanto ainda tenho de revelar surpresas de muitos outros ocorridos”[ii]. O desenrolar narrativo de “grandes fatos (...) históricos e decisivos” e as “surpresas de muitos outros ocorridos” ficcionais, daqui para frente, serão relatadas pelo segundo e principal narrador, estrategicamente fortalecido pelo incomum imaginário-em-aberto do escritor.





[i] Ibidem.


[ii] Idem: 46 - 47.

LEMBRANÇA DE MÁRIO FAUSTINO

 
 
LEMBRANÇA DE MÁRIO FAUSTINO
 
IVO BARROSO

 Os jovens leitores de hoje, que vêem emagrecer de dia para dia o espaço dos jornais destinado aos assuntos literários, estão longe de imaginar o que era o “Suplemento Dominical” do “Jornal do Brasil” nos últimos anos da década de 50: um caderno especial de 12 páginas, formato grande (60 cm x 40 cm), com paginação sofisticada, onde poemas inteiros eram transcritos com ilustrações e espaços em branco largamente utilizados em benefício da composição estética. Seu diretor, Reynaldo Jardim, inovador da feitura gráfica, paginador de vanguarda, estava aos poucos transformando um compósito de artigos sobre “artes” num conjunto homogêneo de assuntos literários.

Pouco a pouco foram sendo devidamente “aposentadas” decrépitas seções de balé e crítica teatral, conselhos domésticos e notícias literárias, cujos velhos colaboradores iam se queixar furiosos à condessa Pereira Carneiro da intromissão “desses jovens” nas searas em que vinham respigando (e ruminando) havia décadas. Mas o genro da condessa, Nascimento Brito, desejoso da remodelação do jornal, deu respaldo à turma do “Suplemento”, que conseguiu ultrapassar a crise.

Foi nesse espaço que apareceu, a 23/09/56, a página inteira denominada “Poesia-Experiência”, sob a assinatura de Mário Faustino, jovem poeta piauiense radicado em Belém, que logo em seguida se transformaria num dos maiores críticos literários do país. Se o “Suplemento Dominical” já era para os jovens poetas de minha geração leitura semanal obrigatória (para torná-lo ainda mais sui generis, o dominical saía aos sábados), com o aparecimento de Mário Faustino, a folha transformou-se em motivo de cult. Isso porque ele representava para nós tudo aquilo por que vínhamos ansiando: o mestre capaz de nos fornecer, da maneira mais dinâmica e atraente possível, as teorias de que necessitávamos e que não poderíamos adquirir fosse por falta de recursos financeiros, fosse por desconhecimento de suas fontes originais. Faustino ensinava Poesia, matéria que não estava nos tratados legíveis, e dela nos dava exemplos (exhibits em sua linguagem) que abrangiam desde os tempos clássicos greco-romanos ou mesmo de literaturas mais remotas como a chinesa, até as grandes vozes do presente (Rilke, Pound, Eliot) sobre as quais ouvíamos falar nas sem haver ainda ouvido (ou visto) o que diziam. Seus “Diálogos de Oficina” eram conversas imaginárias entre mestre e discípulo, ou entre dois interlocutores cultos, sobre a conceituação do ser e do fazer poéticos, expressos numa linguagem acessível, mas sempre elevada.

A seção “O Melhor em Português” antologiava e comentava os clássicos portugueses, e o “É Preciso Conhecer”, os grandes poetas estrangeiros em tradução. Havia ainda os “Subsídios de Crítica”, com trechos selecionados de mestres do gênero, principalmente os de língua inglesa, e a seção “0 Poeta Novo”, a que mais interesse despertava entre nós, pois Faustino convocava democraticamente os inéditos a colaborar, submetendo-os no entanto a uma seleção impiedosa.

Vítima de timidez aguda, estive várias vezes para lhe mandar minha colaboração, mas só me arrisquei quando Faustino passou a publicar e analisar alguns poemas traduzidos. Enviei-lhe o soneto 3 da primeira parte dos “Sonetos a Orfeu”, de Rainer Maria Rilke (Ein Gott vermags), e fiquei abismado e confuso quando, na semana seguinte, abrindo o suplemento, dei com o original e a tradução em “0 Poeta Novo”, tendo embaixo a seguinte nota: “0 poeta novo da semana apresenta-se com uma tradução. Alguns leitores poderão estranhá-lo. Nós, porém, somos dos que pensam poder haver tanta criação poética – ou mais – em uma tradução quanto num poema original. Algumas das obras mais importantes das maiores literaturas do mundo têm sido traduções…” Diante de tal acolhimento, ganhei coragem e fui visitar a redação do “Jornal do Brasil”, àquela época na avenida Rio Branco. Lá encontrei Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos e Assis Brasil, mas Faustino não estava presente, só ia ao jornal uma vez por semana levar a página de “Poesia-Experiência”.

Poucos leitores o conheciam; na entrevista que deu a Ruth Silver para o mesmo “Suplemento”, em vez de se deixar fotografar, preferiu copiar a mão uns versos de Camões e de Pessoa.

Devia ser um velho sistemático, mas eu queria de qualquer forma agradecer-lhe a “promoção”. Reynaldo aconselhou-me a procurá-lo na Fundação Getúlio Vargas, onde trabalhava num departamento da ONU, e aconteceu que um dia resolvi aparecer por lá. Recebeu-me um colega dele, fiquei à espera junto à mesa em que havia um paletó e um bilhete escrito em francês: “Voltarei dentro de alguns minutos. Mário.” Logo chegou, muito jovem (eu esperava um senhor quarentão, Mário tinha apenas 26 anos, um ano mais novo do que eu), nada alto, rosto redondo, perfeitamente escanhoado, cabelo à West Point, fisionomia rosada de esportista, olhar vivo e brilhante, gestos um tanto nervosos -enfim, o inverso do que se convencionou ser o “tipo intelectual”. A conversa começou meio amarrada da minha parte, não conseguindo repetir o ensaiado discurso de agradecimento. Mário cortou curto. Não lhe devia agradecer. Não havia nenhuma concessão em sua escolha.

Perguntou-me se conhecia um verso de Pound: “A piedade matou minhas Ninfas” e falou-me algo sobre a honestidade na crítica de arte. Percebendo minha atitude de acólito, tratou de anular a impressão de que gostava de ser mestre. Estava procurando aguçar em todos nós o senso crítico através do conhecimento. Mas o gosto artístico, ou saber distinguir em arte, deveria ser a conquista de cada um com os recursos de que dispusesse. Pediu para ver outros trabalhos meus. Mostrei-lhe a tradução que tentava fazer da “Ode a uma Urna Grega”, de Keats, e Mário tomou o papel onde escrevera o bilhete em francês, e nele anotou um remanejamento do verso “Beauty is truth and truth is beauty”, dizendo que a frase se tornara proverbial em inglês e era portanto necessário conseguir uma forma de traduzi-la com o mesmo pique em português. Saí levando comigo o papel, que ainda guardo.

No ano seguinte, encontrei Mário novamente, desta vez na redação do jornal. Sabendo da importância que dava às traduções, queria mostrar-lhe algumas dos sonetos de Shakespeare, que ele imediatamente publicou (27/10/57), também com uma nota: “Ivo Barroso é, a nosso ver, um dos maiores tradutores para a língua portuguesa em ação atualmente: os leitores desta página hão de estar lembrados de seu comparecimento à seção ‘O Poeta Novo’ , traduzindo um dos ‘Sonetos a Orfeu’ de Rilkje. Volta agora Barroso com três sonetos de Shakespeare, todos surpreendentemente traduzidos, a ponto de superarem, em nossa opinião, as traduções (em alexandrinos), já por nós elogiadas, de Jerônimo de Aguiar (Editora Melhoramentos). Ivo Barroso estará dentro de algumas semanas em ‘Poesia em Dia’, com página de traduções do inglês, do italiano, do alemão, etc.” Mas sem esperar pelas semanas vindouras, pediu a Reynaldo que me acolhesse entre os colaboradores do “Suplemento” e me vi, de um momento para outro, fazendo parte da equipe.

Nesse mesmo ano de 1957, o “Suplemento” passaria por um momento histórico com sua adesão ao concretismo, teorizado pelos irmãos Campos e Décio Pignatari, de S. Paulo, e encampado, no Rio, por Jardim e Gullar, que lhes abriram as portas para a publicação de manifestos e poemas. O “Suplemento” passou a estampar versos “espaciais” que causavam exasperação entre os conservadores e pedidos veementes à condessa “para que pusesse um paradeiro ao descalabro”. Nós, poetas novos, prontamente aderimos. Eu próprio tive alguns poemas concretos publicados, entre eles o SAPO PULA/ PAUL PULULA, e o ÉPOCA/ÉPICO, reproduzidos com grande destaque. Mário não aderiu de primeira hora nem de corpo inteiro ao movimento, embora respeitasse a cultura e probidade de seus mentores. Mas escreveu um artigo de página inteira, “A Poesia Concreta e o Momento Poético Brasileiro”, que situava o movimento vis-à-vis da atuação dos grandes poetas da época, e que, pela sua coragem e agudeza de análise, permanece, até hoje, significativamente como um dos mais avançados patamares de crítica literária objetiva. Como Manuel Bandeira, não deixou também de fazer, em seus poemas subsequentes, algumas incursões pelos “recursos espaciais” concretistas, mas, entre nós, confessava não acreditar na “morte do verso”.

Muitas outras vezes estive e falei com Mário, e dele recebi conselhos e orientações, sempre dados de maneira informal e sugestiva. Lembro-me de quando achou estranho que eu tivesse traduzido para o Suplemento uma série de artigos do crítico literário norte-americano R. P Blackmur, contrários a Ezra Pound, um de seus ídolos intocáveis. Como houvesse o permanente endeusamento de Pound nas páginas do Suplemento, Reynaldo achou que era oportuno mostrar também “a outra face”, e eu concordei em traduzir os artigos. “Blackmur é sério, mas eu prefiro Pound, que é espiroqueta”, ainda ouço Faustino dizendo. “Os críticos teorizam, mas só os gênios criam.”

Em dezembro de 1959, Mário ausentou-se do Brasil para exercer um cargo na ONU em Nova York, só regressando em 62, como editorialista do “Jornal do Brasil” e da “Tribuna da Imprensa”, que estava sendo adquirida pelo primeiro. A “Tribuna” passava por grandes transformações e entre seus redatores estava Paulo Francis, com quem eu já trabalhara na revista “Senhor”, e que me convidou para traduzir um folhetim, “Os Ladrões de Corpos”, para aquele jornal. Lá encontrei um dia Mário Faustino, que passara a dirigir o órgão e se mostrava naquele dia extremamente agitado. O jornal publicara ou ia publicar uma entrevista com Luís Carlos Prestes, e havia reações de toda espécie. Mário disse-me que a vida política brasileira estava muito conturbada e ficava muito difícil exercer o papel de orientador da opinião pública. Preferira aceitar a oferta do jornal para fazer uma série de artigos e reportagens sobre Cuba, México e Estados Unidos. Perguntou, como sempre atencioso, pelos meus trabalhos e mostrei-lhe alguns “Sonetos de Abraxas”, em que eu vinha trabalhando. “Merece um prefácio”, disse-me com afeição que não pude esquecer. No dia 27 de novembro daquele ano, Mário embarcou para Nova York para não mais voltar.

Os jovens poetas de minha geração tudo devem a Mário Faustino. foi ele quem nos ensinou a encarar a poesia como algo sério, algo comprometedor; a considerar como uma das necessidades do poeta o conhecimento de línguas e literaturas estrangeiras; a desenvolver uma avaliação crítica sem a qual iríamos sempre passar de diluidores. Não consegui nunca, em vida, agradecer-lhe por isso. Mas em 1991, quando publiquei a antologia de traduções “0 Torso e o Gato”, nela inscrevi seu nome, in memoriam, como um singelo tributo.

(Publicado na revista PALAVRA de abril de 2000 com uma caricatura de Chico Marinho e a reprodução da página inteira ‘Poesia-Experiência’ do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, de 23/9/1956

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A HORA DO POETA MÁRIO FAUSTINO

 Quando chegou ao Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, em 1956, Mário Faustino já era autor de um livro de poemas, “O Homem e sua Hora”, publicado pela editora Livros de Portugal, no ano anterior. Mas ao se fazer crítico literário, orientador de jovens poetas e divulgador dos grandes nomes da literatura mundial, viu relegada a segundo plano sua própria produção poética em face de seu empenho em propagar a poesia alheia. Esse “objetivo maior” do crítico-poeta ocorreu num momento-chave, em que os “estreantes” andavam à procura de novos rumos, no suposto “marasmo” (expressão de Faustino) em que recaíra a literatura brasileira, após um período pletórico de atividade criadora (Claro Enigma, de Drummond, em 1951; Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, em 1952; Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, em 1953, e A Luta Corporal, de Ferreira Gullar, em 1954). Durante três anos (1956-1959), ele assumiu, com a página Poesia-Experiência, o lugar do condottiere literário, que indicava os pressupostos rumos e objetivos da grande poesia, e talvez por isso dele se esperassem mais os ensinamentos teóricos do que o resultado concreto de sua própria experiência poética. Os poucos poemas que veio a publicar depois do livro, a maior parte no próprio Suplemento, fora de sua página habitual, eram tão diversos da poesia então vigente, que mais pareciam os de “outro” dos ícones de seu repertório antológico, revelados semanalmente pela sua cultura multilingue e o inesperado de suas opiniões. Isto não quer dizer, no entanto, que a poesia pessoal de Mário Faustino não tivesse então seu valor no confronto com a de seus contemporâneos, ou que viesse a cair no ostracismo com o decorrer do tempo. Bastante considerado pela crítica como um “poeta de maturidade técnica”, dele se esperavam grandes realizações.

Em 1966, quatro anos depois de sua morte precoce, já uma segunda edição do livro era lançada, dessa vez pela Civilização Brasileira, permitindo com que se pudesse enfim dissociar o crítico-poeta do poeta-crítico. Prefaciada por seu amigo de infância e maior exegeta literário, Benedito Nunes, a poesia de Faustino era finalmente mostrada e analisada como um corpus autônomo, desvinculada da aura do magister teórico. Benedito indicava até que ponto Mário havia transfundido em versos os ensinamentos de seus “mestres” Ezra Pound e T. S. Eliot, orientado pela divisa do culto do antigo perene conjugado com o moderno inovador. E chamava a atenção para o fato de o poeta, que teorizava sobre as excelências do poema longo, ter mostrado, na prática, o que se podia fazer a respeito, nos versos que lhe davam título à obra. Embora não lhe faltasse em muitos e altíssimos momentos, uma dicção própria e experiente, era evidente que Faustino praticava, não raro, uma obsessiva subserviência poundiana: a exaustiva evocação de personagens mitológicos ou literários, a marchetaria das frases em línguas vivas ou mortas, a cômoda intertextualidade de que os jovens poetas não conseguiram se afastar até hoje — tudo servia de instrumentos para as manifestações conflituosas de um espírito sensível que sabia exprimir-se através de um requintado conhecimento da arte poética. .

Em 1976, a ênfase sobre o crítico-poeta volta à tona pela Editora Perspectiva com “Mário Faustino, Poesia-Experiência”, em que seu fiel prefaciador Benedito Nunes reproduz os tópicos principais daquela página jornalística (já famosa): “Diálogo de Oficina, Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea e Poesia Brasileira”. Em 1985, nova chance para a poesia de Faustino, agora acompanhada de seus últimos poemas e de suas traduções, a mais realizada das quais, no entanto, ficara em “Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea”: “Alba”, de Ezra Pound — um emblema ao que chamavam de “fanopeia” – o momento em que Faustino atinge plenamente o status de recriador. Tornava-se indiscutível que ambos os componentes da personalidade literária de Mário Faustino (poeta e crítico) mereciam uma leitura extensiva por parte das novas gerações de poetas e leitores de poesia.

Coube à profª Maria Eugênia Boaventura promover a revivescência da “obra completa” de Faustino: em 2002, ela publicou pela Companhia das Letras o primeiro de cinco volumes (“O Homem e sua Hora e outros poemas”), seguido, em 2003 por “De Anchieta aos Concretos”, abarcando tudo o que ele escreveu sobre poesia brasileira e seus poetas, e em 2004 pelos “Artesanatos de Poesia” (Fontes e Correntes da Poesia Ocidental), estando ainda por sair o volume correspondente às antologias (“O poeta novo”, “Pedras de Toque”, “Bibliografia”) e o dedicado às traduções (completo). O primeiro volume, com a obra pessoal de Faustino, sai agora em edição de bolso pela mesma Companhia das Letras, antecedido por abrangente estudo da organizadora, em que situa a influência de Mário Faustino no panorama da poesia brasileira de então e seu papel renovador. Mostra como se deveu a ele o empenho no conhecimento da poesia de outras línguas, a valorização do poema traduzido, o estudo das técnicas empregadas e desenvolvidas pelos grandes “poetas-faróis” de nosso tempo. E, mais que tudo, o exemplo de como sua formação clássica, sua cultura abrangente, seu domínio perfeito do verso (seus admiráveis decassílabos brancos) concorreram para a realização de sua obra. Um dos poetas mais significativos da chamada geração pós-45, a leitura de “O Homem e sua hora” trará aos novos leitores momentos de uma arte culta e elevada, como nos admiráveis “Sonetos de Amor e Morte”, na “Balada” (a um poeta suicida) e no soneto que começa por “Necessito de um ser”, em que entremeia decassílabos com hexassílabos, bem como nos habilidosos cortes de seus vários sonetos fragmentados.#

(Publicado no suplemento Proda & Verso, do Jornal do Brasil, em xxx)

NEUZA MACHADO: O FOGO DA LABAREDA DA SERPENTE

No entanto, este narrador da pós-modernidade, narrador do escritor do final do século XX e princípio do século XXI, querendo ou não, pois se vê envolvido pelas diferenciadas normas ficcionais de seu momento social, terá de se valer da técnica do olhar simulador para apresentar o Manixi, o espaço sócio-ficcional de sua narrativa. Assim, o Palácio do Manixi e as terras que o rodeiam terão de aparecer em toda a sua grandiosidade e imponência, à moda dos simulacros televisivos e cinematográficos que imperaram (imperam) em sua atualidade. Por enquanto, a saída digna, irrepreensível, para que, posteriormente, o verdadeiro narrador possa desmistificar a sua própria realidade vital e a sua outra diferenciada realidade sócio-ficcional, é buscar nos domínios do mito uma diretriz qualificada que apresente, aos leitores do momento e aos leitores do futuro, a suntuosidade exigida pelo hodierno momento histórico das grandezas simuladas. O arcabouço mítico será sempre uma dimensão que em todo tempo satisfará tais requisitos. Paxiúba é o guardião da chave. O narrador terá de elevá-lo à categoria de herói mítico-ficcional. No entanto, como semi-humano, o seu aparecer glorioso, ao longo da segunda etapa da narrativa, não representará um simulacro. A verdade da ficção-arte do Pós-Moderno/Pós-Modernismo de Segunda Geração ultrapassa os limites da simulação do fingir depreciativo (simulacro), para, em seguida, alcançar a glória do fingir da literatura-arte (recriar). E convenhamos: são poucos os escritores eleitos para tal missão, neste tempo presente de incomuns calamidades.
“Mas o olho burro tudo vê, e registra (...)”. O teórico da literatura de orientação fenomenológica, neste início de século e de milênio, não poderá desprestigiar as expressões ficcionais que o “incomodam”. Por que “olho burro”? Será que este “olho burro” representa o olhar do primeiro narrador, um ser híbrido, resultante do cruzamento entre o telúrico e o espetaculoso, aquele representante dos narradores que vêem em demasia? Mas, a realidade ficcional do século XX e início do século XXI está ali a exigir-lhe (ao narrador da primeira fase ficcional) um cenário grandioso para apresentação do personagem mítico que se aproxima. Então, quem tem consciência desse “olho burro” é o segundo narrador, possivelmente, narrador de um terceiro narrador, o qual intui, por sua vez, uma possível quarta chave (imaterial), propiciadora de uma insólita condução para o quarto cogito, onde se percebe o Tempo Espiritual. (Esse terceiro narrador se encontra muito bem camuflado nas tramas ficcionais do romance, nesses primeiros capítulos da narrativa). Ou será que “olho burro” representa outra expressão já conhecida, ou seja, “dar com os burros n’água”, o que, em outras palavras, significaria a perda momentânea do poder narrativo singular, exclusivo da ficção paradigmática. O olho do escritor-artista paradigmático não “registra”, recria a realidade que o cerca. No entanto, continuo aqui a resistir às assertivas ficcionais rogelianas. Se me atenho à idéia de uma afirmação diferenciada, consciente da capacidade criativa do escritor, infiro que o “olhar” esclarecido, intelectual, do segundo narrador, acompanha por sua vez a perspectiva visual do primeiro narrador. O “olho burro tudo vê, e registra ele-mesmo” a aproximação de Paxiúba, “remando silencioso e feroz pela face da manhã, no luxo de frente do porto do Laurie Costa”, criativamente secundado pelo olhar talentoso do escritor ficcional da pós-modernidade. Os narradores sintagmáticos não possuem tal visão diferenciada. Assim, o “olho burro”, explícito na narrativa rogeliana, sublinearmente e paradoxalmente, se transforma em “olho inteligente”, se for avaliado pelo ponto de vista do crítico fenomenológico. Por meio de um narrar paradoxal, o incomum ficcionista de O Amante das Amazonas revelou (revela e revelará), aos “incomodados” leitores de seu romance, a indiscutível qualidade de sua ficção.
O “olhar inteligente” do narrador, nesta segunda fase da criação ficcional, se sustentará pela ligação da forma de expressão da linguagem mítica com as inovações da linguagem ficcional da pós-modernidade. Assim, o nomear enigmático colabora com o narrado pós-moderno, oferecendo-lhe, nesta segunda etapa do romance, um princípio ficcional à moda do narrar mítico-lendário, mas, paradoxalmente, imbuído de expressões dialetais familiarizadas. “Pois sim. Que diz-que Paxiúba era filho de um negro barbadiano da Madeira-Mamoré com uma índia Caxinauá que não conheci, e se tornou lendário e eterno”.[i]


[i] Ibidem.