
Quando a lua é negra
Rogel Samuel
Em "Lua Negra", Márcia Sanchez Luz nos dá um poema anti-lírico, ou melhor, um soneto que é o negativo do sentido clássico de lua. É a foice, o unicórnio, o buraco negro,
inatingível, perigoso, que atrai, a solidão inacessível, o vazio, o elemento denso,
mas extremo, o fascínio, mas aniquilamento, o venenoso remédio da cura, o nefasto da
ferida, mas cuja dor nos fascina e ensina - sem esta lua o amor não existe, não atrai, não nasce. A lua negra é o lado escuro da alma, ou Lilith, o lado distante e obscuro da lua, perigoso, a lua bruxa, um buraco no Universo.
Na realidade ela é a anti-lua, sua parte sombria, por isso mesmo dissabor, descompasso e amor.
Amo demais que até ferida brota
na cálida, escondida lua negra
dos meus delírios (dor que desintegra
calma desnuda em chuva de gaivota).
Os olhos choram mares, geram grotas,
fabricam densa nuvem que se integra
ao corpo equivocado pela entrega
sofrida num adeus desfeito em gotas.
Amo demais, eu sei, mas o que faço
se de outro jeito não conheço o amor?
A minha sina é nunca combater
o que me atrai e gera descompasso.
Se por um lado existe o dissabor,
tenho da vida a flor que vi nascer.
© Márcia Sanchez Luz
As luvas no chão
Rogel samuel
Recebi de minha amiga X. uma magnífica foto da posse do Presidente Obama. Diz ela,
ex-jornalista experimentada da rede Globo: "Se você estivesse lá, não seria capaz de ter
esta visão. A foto, na verdade, é resultado de 220 fotos diferentes que foram digitalmente
agrupadas. O que é interessantíssimo, é que você pode utilizar-se do "zoom" e
ver detalhes incríveis como rostos de pessoas e até mesmo detalhes das partituras musicais
da Banda. OBSERVE BEM, e irá encontrar caras conhecidas nas diferentes platéias...
Utilize o link abaixo para acessar a foto e depois, use a função de
zoom à esquerda para "zoom in" e "zoom out".
Na realidade é possível ver até um par de luvas no chão, talvez porque o músico só
conseguisse tocar sem elas. É curioso notar que o Presidente Bush está ali, enquanto
Obama discursa. A sua cadeira é bem melhor do que as outras, tem mesmo uma mesinha acoplada com uma garrafa de água e um copo. Mordomia que os outros ex-presidentes presentes não têm. Mas se explica, até aquele momento talvez ele ainda era Presidente. Ao contrário do Brasil, nos EUA o Presidente é a personificação da Nação e é tão respeitado quando a bandeira. Aqui o presidente é tratado como um normal. Lá não se ataca o Presidente como aqui.
Mas aquela mesinha foi a última mordomia de Bush. Agora, as luvas já estão no chão.VEJA A FOTO EM:
http://gigapan.org/viewGigapanFullscreen.php?auth=033ef14483ee899496648c2b4b06233c

Passa a vida
Nisia Nobrega
Era o rio?
Era a vida?
Era a ponte? era o lago?
Era o beijo? era o sonho?
Vibração de ternura em nossas mãos unidas
sobre o rio, sobre a ponte,
sobre a espera, sobre o lago.
Angústia de solidão,
nas nossas almas incomunicadas.
Azul tremor de frio no silêncio.
Por onde o impulso do desejo vago?
Passa o rio,
Passa a vida,
Onde a ponte?
Era o amado?
Nossa Querida Amiga Nísia Nóbrega faleceu no ano 2.000. O câncer a destruiu. Era uma mulher bonita, sabia receber, sabia conversar, escrevia muito. Nisia tinha uma qualidade rara: tinha grandeza. Nasceu em Mamanguape (foto), Paraíba, no dia 1 de maio de 1928, filha de uma família de ricos fazendeiros. Seu pai, porém, tomado de uma certa depressão, vendeu suas terras e trouxe a família para o Rio de Janeiro, onde tudo perdeu e onde veio a falecer. Assim a mãe teve de “costurar para fora”, como se dizia, e logo colocou o filho no Exército e Nísia tornou-se professora primária, e depois professora da Escola Normal. Quando do governo militar, seu primo Jarbas Passarinho, então Ministro da Educação, transferiu-a para a Rádio MEC onde Nísia teve um programa de entrevista durante muito tempo. Foi diplomata do Brasil no Chile e casou-se tardiamente com um empresário, um editor estrangeiro. Sabia receber, sabia valorizar o trabalho do outro, tinha uma qualidade rara: tinha grandeza. Escreveu vários livros de poesia, como Nos braços leves do vento (1951); Rosa distante (1953,); Completamente amor (1961); Ramo da saudade ( 1965, poesia); Isla-sin-raices (1971); Na flor da correnteza (1979), Mamanguape e muitos outros. Faleceu em 2.000. Camargo Guarnieri musicou seu poema Intermezzo em 1973. Escreveu estórias infantis, cronicas sobre a vida carioca.

Quem vai negar o holocausto tibetano?
Rogel Samuel
Negar o holocausto judeu dá cadeia e excomunhão. Certo. Não discuto. Mas quem vai condenar os que negam, omitem ou esquecem o holocausto do Tibet desde 1950? Tudo é uma questão política. Um milhão e duzentos mil tibetanos foram massacrados. Templos budistas foram até bombardeados. Sua Santidade Dalai Lama teve de exilar-se na India onde vive até hoje. O maior exército do mundo invadiu o Tibet. Houve massacre numa guerra de extermínio. A língua chinesa é hoje a oficial dentro do Tibet e não a tibetana. 85 mil tibetanos fugiram e vivem no exílio, a maioria passa fome nas favelas indianas. 6 mil mosteiros foram destruídos.
Que mais? Quem vai prender os que negam este holocausto?

LEIA HOJE:
Coluna de Rogel Samuel, com o 6º Capítulo de "O Igarapé do Inferno", romance sobre a Amazônia, pujante e pungente, somente em:
http://www.blocosonline.com.br/home/index.php
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Os canibais amazônicos
Rogel Samuel
Segundo a Folhaonline, os índios Kulina mataram e comeram um jovem na cidade de Envira, que, segundo me informaram, fica na margem direita do Tarauacá, alto Juruá, Amazonas: como os "numas" do meu livro "A amante das amazonas", os Kulina devoram um civilizado e penduraram sua cabeça na árvore.
O meus Numas não era exatamente canibais, mas exterminadores.
O que se sabe dos canibais amazônicos é que eles comiam o corpo dos seus inimigos dentro do crânio de suas cabeças. Não penduravam cabeças na árvore.
O crânio era importante, pois representava a passagem.
Isto foi magnificamente estudado em “Araweté: Os Deuses Canibais” de Eduardo Viveiros de Castro, Rio, Edições UFRJ/Zahar, 1986.
"Os yanomamis praticaram o endocanibalismo (comem gente da própria tribo). É uma cerimônia que reitera do compromisso de vingar o morto. "O ritual organiza um estado de hostilidade
permanente", diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional. "A cerimônia é quase uma eucaristia." Só os amigos sem laços de consangüinidade são convidados para o
funeral. O cadáver é pranteado e colocado sobre uma plataforma, fora da aldeia. A carne é separada dos ossos e cremada. Os ossos são limpos e moídos num pilão até virar cinza. No funeral, os vizinhos e aliados comem as cinzas com purê de banana.
"Ao contrário do culto cristão do ancestral", explica Viveiros de Castro, "a antropofagia yanomami realiza o apagamento total do antepassado".
Há um texto indígena antigo que cito de cabeça por não achar o livro que diz:
“Comerei teu corpo no crânio da tua cabeça
Sobre tuas cinzas dançarei
E exultarei!”
A lógica do quintal
Rogel Samuel
Tem o verão sua lógica própria. Vejo as pessoas dentro daquela água imunda da praia e não gosto. O sol já está insuportável. Dizem que está cancerígeno. Tudo contribui para um verão desconfortável se eu não me adaptar à lógica dos nossos novos tempos de poluição. Ficar trancado no ar condicionado não, o verão impõe o ar, o andar.
Lembro-me do calor dos quintais. Dos fundos dos quintais, com galhinheiros e mangueiras. Luiz Bacellar traz os quintais de volta em:
PORTA PARA O QUINTAL
Bem haja o sol e a brisa neste canto!
Cá fico maginando a tarde inteira
deixando relaxar nesta cadeira
de embalo o corpo bambo de quebranto.
Brincam nas folhas da saputilheira
brilhos metalescentes, cor de amianto
saltitam sanhaçus de curto canto,
aranhas tecem prata na trapeira.
As telhas debruçadas dos beirais
vão com as calhas de lata, lá entre elas,
coisas de chuva e vento conversando
quais velhinhas comadres; nos varais
a roupa brinca de navio de velas
minha infância perdida reinventando...
(Frauta de barro)

Veio d'água
Rogel Samuel
O poema de Álvaro Maia é muito ecológico, amazônico, sonoro, sincopado, belo. Sua
póetica é muito boa, ainda que antiga, pouco importa. Álvaro Maia (1893-1969) era um poeta "pós-moderno", ou seja, nos anos 20 e 30 escreveu sonetos parnasianos e até poemas românticos, de uma sonoridade antiquada, desusada. Por isso os pseudo-crtíticos de sua terra o desprezam, ainda que seja valorizada a sua ficção, que é inferior. Leiamos este "Veio dágua", onde se ouve o líquido puro entre recantos escondidos no coração da selva escura, a alma da terra. E ao toque é água fria, sonoras águas. Só quem conheceu esses veios dágua dentro da floresta amazônica pode avaliar a maravilhosa saudade daqueles tempos.
VEIO D'AGUA
Gosto de ouvir-te, veio de agua pura,
recortando os recantos escondidos
de soluços, de vozes, de arruidos,
entre hinos de alegria e de amargura ...
Choras no coração da selva escura
a saudade dos trilhos percorridos,
e ao teu pranto, lembrando os tempos idos,
a verde alma da terra se mistura ...
És calmo e frio em fases diferentes,
ora na rude angustia das vazantes,
ora no desespero das enchentes ...
E, corda de harpa rebentando em festas,
ergues ao ceu, em notas delirantes,
a epopeia convulsa das florestas ...

Promessas de carnaval
Rogel Samuel
O meu poema de carnaval é de certa forma muito popular. Agradou, anda na net, circula em sites e blogs neste carnaval que se aproxima. Gosto de carnaval, ou melhor, gostei mais quando tinha menos gente, menos calor, menos idade. Estou velho, já não subo nas mesas a cantar, a sambar, a rir e a gritar na alegria das serpentinhas e nos brilhos das alegorias. Nem mais bebo do cálice das belezas cariocas com aquelas exuberâncias da década de 60. Mas a culpa não é só minha. O mundo mudou, não só eu. O carnaval de inocente tornou-se agreste e comercial. Mas ainda belo, rico, quente.
Nesse carnaval entôo em surdina
breve texto esta canção
desenvolvendo a paisagem cristalina
tinta azul, papel na mão
espuma do ar mantida em vestes finas
toldo de amor que aparelha e envolve
e te molesta a alegria matutina
passando o pente o tema a minha senha
e ergues a tricotar a estrela fescenina
brincando de tua passarela
e sonhada é férrea a tua serpentina
borboleta de papel de seda
que me despeço de tua face de menina
teu aço besuntado de abelha.

A morte nada respeita
Rogel Samuel
Morreu uma pessoa muito querida para mim. Eu a via muito pouco, mas em minha mente ela era permanente lembrança. Eu a via muito bem, pois ela era uma das minhas mais antigas recordações de infância.
Morreu na véspera de completar 100 anos. Mas como era cheia de vida!
Lembro-me do dia em que um ladrão entrou em sua casa. Ela morava sozinha, em Manaus.
Como ela tinha um piano na sala, o ladrão exigiu que ela tocasse enquando ele ia atrás dos valores pela casa afora.
Nunca me esqueço de como ela nos contou o fato às gargalhadas, apesar de ter sido roubada.
Não perdia nunca o bom humor.
Ela era minha madrinha de crisma, e do casal eu recebi uma caneta, presente que guardo e uso até hoje.
Deve ter sido por isso que virei escritor.

Aniversário do Padre Antonio Vieira
Rogel Samuel
Neste dia 6 de fevereiro, há 401 anos, nascia o maior orador, o mais possante prosador, o "imperador da língua portuguesa", o Padre Antonio Vieira. Fui alertado do seu aniversário pelo blog de minha amiga Amelia Paes, "ao longe os barcos de flores":
http://barcosflores.blogspot.com/
Toda vez que leio o noticiário me lembro do que ele escreveu:
“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro”.
(“Sermão Histórico e Panegírico nos Anos da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia”, II).

A voz-poesia de Azenha em CD
Rogel Samuel
Ouço a voz entre as guitarras. A palavra, a poesia na capa de som, como uma espécie de escultura sonora.
A voz de Azenha é muito apropriado suporte de seu texto, ainda que sua poesia não seja oral, mas intelectual e simbólica. As guitarras portuguesas nunca estiveram tão prestes a dizer poesia como neste CD "o mar atinge-nos". Portugal é o mar. A poesia aqui se define como poesia-guitarra portuguesa. O mar é português, o mar azul. Portugal deixou seu sangue e seu passado no mar, no mar a conquistar, no mar a avançar, a buscar naquela ânsia de infinito que o levou às Índias e talvez o pôs a perder-se de si, como D. Sebastião.
Azenha faz a voz das mulheres viúvas desse Portugal que na praia depuseram seus mantos pretos sobre os ombros e construíram a pátria sozinhas. O mar atinge estas mulheres que ocupam os lugares dos muros e se cercam de águas.
O passado de Portugal é uma mulher enlutada, adornada de algumas pérolas e que "nasce a chorar".
olhou o pão na mesa e deixou cair
as mãos como sementes
para que tudo crescesse a partir
do chão
olhou o mar
e viu as lágrimas
das trevas
iluminadas pelo firmamento
....
as mães têm as mãos grandes
A poesia de Álvaro Maia
Rogel Samuel
Está cada vez mais raro o livro de poemas de Álvaro Maia “Buzina dos paranás”. O meu exemplar já está em pedaços. Poucos são os leitores hoje do “príncipe os poetas amazonenses”, título que ganhou no concurso promovido, em 1925, pela revista “Redenção”, dirigida por Clovis Barbosa, com 21 votos, tendo como concorrentes Jonas da Silva (7 votos), Raimundo Monteiro (6 votos), Francisco Pereira, Genésio Cavalcante e Heitor Veridiano (1 voto cada).
Álvaro Maia (1893-1969) é o mais amazônico dos poetas de sua terra. Seu tema é a floresta, o meio ambiente. Ele nasceu num seringal no rio Madeira, foi Interventor do Amazonas – de 1930 a 1933, Deputado Federal – de 1933 a 1935, Governador do Amazonas – de 1935 a 1937, Interventor - de 1937 a 1945, Senador - de 1946 a 1951, Governador do Amazonas - de 1951 a 1954, e Senador - de 1967 a 1969. Foi casado com D. Amazilis, teve duas filhas: Terezinha (já falecida) e Alviles, casada com Leopoldo Péres Sobrinho (irmão do falecido senador Jefferson Péres), segundo uma pessoa de sua amizade. Era um grande intelectual, muito culto, falava várias línguas, e foi catedrático de língua portuguesa com a tese: “O Português-Lusitano e o Português-Brasileiro léxica e sintaticamente considerados”. Ensinou até 1930. Quando era governador, tentou continuar dando aulas, mas desistiu por falta de tempo. Era um político sério e honesto. Eu o vi uma única vez na vida. Ele descia a pé a Rua Barroso. Morava em frente ao famoso Teatro Amazonas. “Genesino Braga relacionou mais de 45 trabalhos editados, incluindo romances, discursos, artigos, poemas”, escreveu Erasmo Alfaia, que assistiu à sua morte.
VEIO D'AGUA
Gosto de ouvir-te, veio de água pura,
recortando os recantos escondidos
de soluços, de vozes, de arruídos,
entre hinos de alegria e de amargura ...
Choras no coração da selva escura
a saudade dos trilhos percorridos,
e ao teu pranto, lembrando os tempos idos,
a verde alma da terra se mistura ...
És calmo e frio em fases diferentes,
ora na rude angustia das vazantes,
ora no desespero das enchentes ...
E, corda de harpa rebentando em festas,
ergues ao céu, em notas delirantes,
a epopéia convulsa das florestas ...
http://historiadosamantes.blogspot.com/2009/01/alvaro-maia.html
O poeta como um clown
Rogel Samuel
Russell S. King, da University of Nottingham, escreveu um texto muito elucidativo para a compreensão de “Aparição do clown”: “The poet as clown: Variations on a theme in nineteenth-century French poetry” (Orbis Litterarum - International review of Literary Studies, Volume 33 Issue 3, Pages 238 – 252 Published Online: 1 Jun 2007).
O auto-retrato do artista com um clown foi um tema generalizado pelos pintores do Século Vinte, e este modo de se ver partiu dos poetas franceses do Século Dezenove.
Houve uma espécie de metonímica fusão do Pierrô com o Arlequim, o bobo da corte, o showman vagante, o palhaço de circo e o violista cigano.
Segundo o pesquisador, foi Théodore de Banville o primeiro que identificou o clown com o poeta, nas suas "Odes funambulesques", de 1857, na aspiração de idealizar a realidade, como um acrobata na corda bamba.
Depois vieram Baudelaire, Mallarmé, Laforgue, e mesmo o português Fernando Pessoa.
Marlarmé se via como um ator decadente, uma vítima. O clown de Verlaine expressava a ambiguidade e plasticidade da estética literária. Mallarmé, o "Le Pitre châtié". Laforgue via no clown o diletante frívolo, uma espécie de Hamlet que era também um dandy que fazia o papel de simplório. Pessoa, como se sabe, disse que "o poeta é um fingidor", isto é, um clown.
Todos esses poetas faziam da simbologia do clown a imagem do escritor como um fingidor, um ator que cinicamente enganava seu leitor e a sociedade de seu tempo, numa manifestação contra o realismo da realidade de seu tempo.

E se a crise for pra valer?
Rogel Samuel
Quando irrompeu a revolução bolchevique, Assis Chateaubriand escreveu um artigo dizendo que aquela insurreição não ia durar uma semana. Durou meio século. Quando os militares depuseram João Goulart todos nós pensávamos que era só mais um golpe. Durou vinte anos.
E se a crise for piorando, piorando, se rebentar em guerras, em tragédias? Se os oportunistas se aproveitarem do caos e o desgoverno do capitalismo se agravar?
A crise, como as guerras, ninguém pode prever até onde vai. Diziam os antigos que uma pequena chama no capim seco pode incendiar a floresta inteira.
A vida do capital sempre foi incerta. O capitalismo globalizante é imanente ao todo. Se sair desta imanência morre. O ideal do capitalismo, que nasceu no chamado mercado aberto, é conseguir o máximo de objetividade no mínimo de riscos, medo que nunca perdeu devido à característica inicial de jogo de mercado aberto. E é por isso que o Renascimento foi uma época de tantos desastres militares. A Idade Média não foi, passada a época das invasões, a noite da história do ponto de vista da violência e da crueldade, mas sim o Renascimento: Florença assistiu a um banho de sangue. O Vaticano, logo depois de 1500, foi invadido por tropas mercenárias que transformaram a Capela Sistina numa cavalariça.
Foi lá, em pleno Renascimento, que assistimos ao nascer do Poder cruel, quando apareceram as guerras econômicas para garantir os mercados.
Hoje, o que sustenta esse sistema de capitalismo avançado é a necessidade de lucros cada vez maiores, o aumento do capital das empresas, as investidas econômicas, o progresso de sucesso dos “melhores” e dos ‘‘maiores’’, a performance do lucro líquido.
A evolução do capitalismo fez com que a luta entre a razão e o caos entre numa nova fase, na qual triunfa a irracionalidade.
Não mais se valorizam a economia e a poupança, a eficiência, a otimização, a racionalidade funcional. Agora, não crescer é morrer.
Assim, o destino e a desgraça do capitalismo é o de crescer indefinidamente. O capitalismo está condenado a crescer, a um crescimento irracional e ilimitado. O incremento da produção não se coloca mais como problema central da vida social, e uma grande crise de incerteza, desconfiança e credibilidade nasce da idéia de que não mais se justifica historicamente o próprio capitalismo.
Mas o meu medo é a guerra que pode então explodir.

O soneto sobre Olinda
Rogel Samuel
Eu já escrevi não sei quantas vezes sobre o soneto de Ernesto Penafort sobre Olinda, eis
porque eu vivi em Olinda na minha juventude alguns dos mais belos dias de minha vida. E
pretendo voltar a Olinda, não sei o que vou encontrar, como estará, se ainda existe a paz,
o sob o silêncio que descia o vale, quando era vale, o além-muro das casas e igrejas,
o vento que vinha do mar, a chuva fértil de poesia do desejo de ser, de juventude ser,
Eu não conheci Penafort, hoje morto. Ouvia sempre sua lenda de bom poeta. Como o
amor que lá vivi já passou há décadas, lembro que tudo é um grito de um fruto mudo,
tudo está no tempo passado, na linha invisível do tempo que, debaixo do sol de Olinda
em seu silêncio nasce e morre.
noutros tempos, Olinda, eras futuro.
sob sol e silêncio se descia
ao vale, e o vale fertil pressentia
a intenção dos abraços, além-muro.
vieram ventos. choveu do intento puro
o desejo de ser, no qual se cria:
pronta a rosa entendida falecia
sob sol e silêncio no chão duro.
várias chuvas passaram, hoje banho
noutras águas a vida, pois, de antanho,
só a luz do teu rosto é que me ocorre,
entre silencio e sol, mas como tudo,
se incorpora, no tempo, a um fruto mudo:
sob sol e silencio nasce e morre.
http://literaturarogelsamuel.blogspot.com/2008/11/ernesto-penafort.html

Obsessão dos bosques
Rogel Samuel
Baudelaire escreveu um poema - Obsessão - ecológico, maldito, sonoro - os bosques
têm rugidos como os grandes órgãos das catedrais, bosques em luto, em antigos choros, de duendes de fantasmas de fadas de demônios de flores das grandes árvores da montanha, os bosques se opõem aos oceanos - Baudelaire odeia os oceanos românticos, os tumultos da alma oceânica, riso amargo, sombras insultos, noite escura, sem estrelas, infinito negro, insondável, precipício, e o tradutor genial nos dá um verso extraordinário: "Porém as trevas são elas próprias as telas", telas do além dos rostos familiares, num bosque das lembranças estreladas em trevas.
Bosques, encheis de susto como as catedrais,
Como os órgãos rugis; e em corações malditos,
Quartos de terno luto e choros ancestrais,
Todos sentem ecoar vossos fúnebres gritos.
Eu te odeio, oceano! e com os teus tumultos,
Já que és igual a mim! Pois este riso amargo
Do homem a soluçar, todo sombras e insultos,
Eu o escuto no riso enorme do mar largo.
Como serias bela, ó noite sem estrelas,
Que os astros falam sempre claro em sua luz!
Busco o infinito negro e os precipícios nus!
Porém as trevas são elas próprias as telas,
Em que surgem, a vir de meu olho, aos milhares,
Seres vindos do além de rostos familiares.
BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

Do fundo escuro da noite
Rogel Samuel
A demissão do maestro John Neschling me fez lembrar como era importante a época em que os grande maestros eram considerados deuses, estavam acima do bem e do mal, eram respeitados pelos políticos: Mravinsky, Karajan, Furtwängler, Carlos Kleiber, Klemperer.
Muitos maestros tinham personalidade terrível, eram odiados, mas nada nem ninguém os tirava do pódio: Mravinsky era temido pelos músicos, Karajan era nazista, Carlos Kleiber
intolerável, Klemperer introvertido e nunca falava com os músicos nem obedecia ao "tempo" (o tempo era decidido na hora, de acordo com nas circunstâncias). Furtwängler e Bruno Walter faziam a orquestra repetir exaustivamente um único trecho até conseguir a sonoridade que eles impunham. E Klemperer só falava aos gritos, batendo na partitura.
Cada orquestra tem a sonoridade do seu diretor, do seu maestro. Isto aumenta com Leopold Stokowski, que transformava cada orquestra que regia em sua orquestra, com sua sonoridade pessoal característica.
As orquestras tinham donos, a ordem era imperial. Ali nem Hitler nem Stalin conseguiram se meter. Furtwängler se recusou a demitir músicos judeus. Mravinsky impôs-se ao sistema
soviético, considerando Shostakovich o maior compositor de sua época, que tinha sido vetado por histérico, louco, alienado, depressivo, "caos, em vez de música", escreveu o Pravda,
sob inspiração de Stalin. Karajan era maestro vitalício da Filarmônica de Berlin, e herdou e manteve a sonoridade de Furtwängler, vencendo e pondo Celibidache para o lado, que nunca mais quis voltar.
Quando sai o maestro, o dono, a Orquesta começa a morrer. Não se muda um maestro sem atingir mortalmente a orquestra. São insubstituíveis. Por isso a Osesp vai começar a morrer.
Alain Lompech, critico musical e editor do jornal francês "Le Monde", escreveu:
"Daqui a 20 anos, daqui a 50 anos, o nome de John Neschling será conhecido como o de um músico que realizou um trabalho excepcional no Brasil, o mais excepcional desde Villa-Lobos. Quando a Osesp fez uma turnê pela Europa no ano passado, ela
recolheu triunfos e elogios amplamente merecidos, seus músicos exibiram um nível técnico e musical indubitavelmente de primeiro nível. Nenhuma orquestra brasileira, até hoje, atingiu esse nível de qualidade. O canal cultural franco-alemão Arte transmitiu para toda a Europa e para o mundo o concerto realizado no Ano Novo pela Osesp, bem como o realizado pela Filarmônica de Viena (Áustria)! Será que o Brasil se dá conta verdadeiramente do que isso quer dizer? Eu tenho a
impressão de que não".
O que não conseguiram Stalin ou Hitler o fez o governo de São Paulo.

Os sinos de papel
Rogel Samuel
"sinos de papel" é o título do livro de haicais de Jorge Tufic e poucos poetas em nossa língua foram capazes de dar o tom, de criar a atmosfera misteriosa de um haicai japonês.
Começa que, na poesia japonesa, a espacialidade importa, o poema não difere do quadro, da gravura, da caligrafia.
Além disso, o poeta de hauku era também um mestre zen, ou seja, o qualificado iogue na arte do vazio mental concentrado que é o zen.
Como escrevi, em outro lugar:
Há uma expressão de Zen que diz: “um espelho de boas qualidades é tão puro como a água que deixou de correr”. Isto, diz Takuzo Igarashi, representa o estado de mente em que se encontra o espírito do Zen, quando toca as coisas se refletem na “sabedoria que é como o espelho”, tão simples e tão claras, que é quando aparecem na água pura de um céu sem nuvens. O céu não está na água, nem a água está coberta de céu. A água pode estar correndo lentamente, de acordo com outra expressão do Zen: “um movimento em tranqüilidade”. Pode-se dizer que o Haicai é espelho da mente do poeta.
Tufic compôs alguns dos mais legítimos haicais em português:
oculto no dom
de não ser ninguém
o grilo é som...
pétalas de mim
cultivo num jarro velho
que já foi jardim
em tantra medito
o saber é uma pedra
a mulher, o seu grito
ah, delicadeza
a mosca, senhora tosca
baila sobre a mesa
A árvore da gentileza
Rogel Samuel
A velha árvore em frente à minha janela foi completa, correta, perfeita, extremamente gentil – ao desabar depois da tempestade não prejudicou ninguém.
Para não atrapalhar o trânsito caiu no meio-fio, para não amassar um carro segurou-se na fiação e galhos, para não por em risco a vida das pessoas não se agarrou no cabo de alta-tensão, não caiu sobre minha janela – foi perfeita, morreu heroicamente e nobre.
Nem sei quantos anos ela estava ali, belíssima, portentosa.
Vai fazer muita falta, para mim, para os pássaros e macaquinhos que por ela desciam.
Para homenageá-la no seu túmulo recitei:
As Árvores
Na celagem vermelha, que se banha
Da rutilante imolação do dia,
As árvores, ao longe, na montanha,
Retorcem-se espectrais à ventania.
Árvores negras, que visão estranha
Vos aterra? que horror vos arrepia?
Que pesadelo os troncos vos assanha,
Descabelando a vossa rumaria?
Tendes alma também... Amais o seio
Da terra; mas sonhais, como sonhamos,
Bracejais, como nós, no mesmo anseio...
Infelizes, no píncaro do monte,
(Ah! não ter asas!...) estendeis os ramos
À esperança e ao mistério do horizonte.
(Olavo Bilac)