quinta-feira, 31 de julho de 2008

Uns versos de Dogen


Rogel Samuel


Escreveu o mestre Dogen (1200-1253):

"Mind itself is buddha" -- difficult to practice, but easy to explain;
"No mind, no buddha" -- difficult to explain, but easy to practice.


Que "traduzo" desta forma, comentando: A própria mente é a iluminação, isto é difícil
de praticar, mas fácil de explicar. Quando não há mente, não há iluminação, isto é
difícil de explicar, mas fácil de praticar.

A iluminação não está na mente, mas a mente ela-mesma é a iluminação. Não vemos isto
porque estamos perturbados, porque buscamos algo fora da mente, num objeto fora. Se
a iluminação tem alguma base ela está ai, é isso que chamamos mente, que não tem
lugar, face, forma, e é pura e vazia e luminosa.

Se não vemos isso é porque estamos perturbados.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Os trinta raios da poesia



Rogel Samuel

O poema XI do “Tao te ching” assim o canta:


Trinta raios rodeiam um eixo
mas é onde o raio não raia
que roda a roda.
Vaza-se a vasa e se faz o vaso.
Mas é o vazio
que perfaz a vasilha.
Casam-se as paredes e se encaixam portas
mas é onde não há nada
que se está em casa.
Falam-se palavras
e se apalavram falas,
mas é no silêncio
que mora a linguagem.
É o Ser que faz a utilidade.
Mas é o Nada que dá sentido.

A tradução é do filósofo brasileiro Emmanuel Carneiro Leão, meu ex-professor de filosofia da linguagem. Os raios seguram e convergem na roda, mas não a são. No vazio do vaso é onde encontramos a água, posta em vasilha. A roda roda no vazio dos seus raios, o vaso envasa no vazio de seu bojo, entre as paredes há o espaço de nossa casa, as palavras se costuram na linha do discurso, em continuidade: mas a linguagem não tem som, tem sentido, e o que é expresso se encontra no seu conteúdo – no vazio do vaso da fala, na poesia da linguagem, o seu silêncio.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Lao-Tzé




Rogel Samuel

Escreveu Lao-Tsé no seu famoso poema intitulado “TAO TE KING”:

As palavras jamais conseguem transmitir
a beleza de uma árvore;
para compreendê-la, você precisa vê-la
com seus próprios olhos.
A linguagem não é capaz de captar
a melodia de uma canção;
para compreendê-la, você precisa ouvi-la
com seus próprios ouvidos.
Assim acontece com o TAO;
a única maneira de compreendê-lo
é vivenciá-lo diretamente.
A verdade sutil do universo é
indizível e impensável.
No entanto, os mais elevados
ensinamentos são desprovidos de
palavras.
Minhas próprias palavras não são o remédio,
mas a receita; não o destino,
mas um mapa para ajudá-lo a chegar até
Ele.
Quando você chegar lá, tranqüilize a mente
e feche a boca.
Ao contrário, empenhe-se em vivê-lo:
silenciosa e integralmente, com todo
o seu ser harmônico.

Essa é uma “tradução” do poema. Fica distante do original. Lao Tze viveu no sexto Século antes de Cristo, se é que existiu. Seus ensinamentos eram orais, mas um guarda da fronteira o convenceu a escrever. O Tao significa (?) deixar a vida seguir o seu harmonioso curso. Sem tentar mudar, sem agir – o que representa um agir mais radical. Ouvir o rio da vida, no seu silêncio, fluir por dentro da floresta, sem interferir com a vontade, mas com uma espécie de sabedoria da não ação. E expressar com o silêncio, que é o máximo da expressão da voz.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

O NARRADOR



ROGEL SAMUEL


Todo narrador de romance faz uma confidência ao contar uma estória. Escrever é
uma prática honesta, mas mentirosa, o narrador mente ao fazer-se e como disse Lacan faz-nos enganar por uma estória,uma ficção. “Fazer-nos, um ser de sua ficção, verdadeiramente enganar” (Lacan. Escritos, p. 28). “Ce serait bien là le cornble où pût atteindre 1’i1lusionniste que nous faire par un être de sa fiction véritablement tromper” (Lacan. Écrits 1, p. 31, ou, na tradução portuguesa assim feita: “Seria isso o máximo que poderia atingir o ilusionista: fazer-nos, um ser de sua ficção, verdadeiramente enganar”, p. 28, que é grifado nos dois textos. E nós nos enganamos conscientemente. Engano, de modo verdadeiro (verdadeiramente enganar), finge que nos ensina um segredo (do narrador), ou "um segredo" (do personagem).
O narrador nos narra, transforma-nos em ficção. Em lenda.

domingo, 27 de julho de 2008

MAS O AURORA


Rogel Samuel


É um velho bar. Tem mais de cem anos. O livro de Barthes, que já li, se torna maravilhoso, ali. Outro dia fui à Adega Flor de Coimbra, na Rua Teotônio Regadas, na Lapa. No mesmo lugar morou Portinari. Ao lado, a Sala Guiomar Novaes, e atrás a Sala Cecília Meireles. A adega era freqüentada por Villa Lobos, Manuel Bandeira. Na Sala Guiomar Novaes estão as "mãos", em bronze, da pianista. Constato que eram bem pequenas. Como pôde a grande pianista ter mãos pequenas? Hoje quem toca na sala é uma pianista famosa, não sei dizer por quê. Às vezes é boa. Outras vezes é "dura". Na minha frente estava um agradável senhor, com quem converso antes do concerto, sobre a iluminação, a acústica etc. Vejo que no programa havia uma certa "Terceira balada", de J. A. Almeida Prado, primeira audição mundial. Foi o melhor do programa. A balada era uma improvisação livre sobre um tema de uma música banal, ou mesmo vulgar: "Parabéns para você". Mas a "Terceira balada" era extraordinária. Depois vi que o autor era aquele agradável senhor com quem conversei sobre banalidades. Na volta não pude ir pela calçada e entrar no Metrô, como gostaria. A noite tinha caído. Afinal, o Rio de Janeiro é um lugar perigoso.

sábado, 26 de julho de 2008

No chão


Rogel Samuel

No Metrô, encontro a amiga X. e seus filhos. Conversamos rapidamente. A conversa seria interminável, se tivéssemos tempo. Adoro conversar. Continuo minha caminhada para Botafogo. Caminho pela Voluntários da Pátria. Há muito barulho. Entro numa velha loja de disco. Compro, usado, o CD da Sinfonia 9 de Schubert, a "grande", na magnífica interpretação de Solti, que já conheço. Georg Solti fez melhor do que
Bernstein. Solti foi um grande maestro, como Hermann Scherchen, como
Mravinsky. Mais adiante, na calçada, no chão, um sebo. Encontro um livro de
Barthes, que me custa CR$ 2,00. Continuo pela Marquês de Caravelas.
Entro no Aurora. Está vazio. A noite vai cair. Peço alguma coisa e me
ponho a ler Barthes. Ninguém me importuna. O livro é bom. É bom estar só, consigo mesmo. A noite cai. Ouço na imaginação a Sinfonia 9 de Schubert.


Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,
— Perdida voz que de entre as mais se exila,
— Festões de som dissimulando a hora.

(Camilo Pessanha).

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Pela cidade



Rogel Samuel

Caminho pela calçada. Atravesso a rua. Desço no Metrô. Todo Metrô se
parece. O do Rio não é triste. Nem lúgubre, como o de Paris. Parece o de
Frankfurt. No percurso encontro meu amigo H. Não o via há anos. Físico e
filósofo, ex-companheiro da FNFi. Estudamos juntos, depois trabalhamos
num Colégio Estadual. "Tenho traduzido a Metafísica de
Aristóteles do grego", ele diz. É verdade. Professor aposentado. Mal
vestido. Mal-tratado. Vive da aposentadoria. Sempre foi assim. Nunca
conseguiu uma conexão prática com a vida. Por isso penso como eram bons
os antigos mecenas. Há gênios que não podem viver sem mecenas. Meu
amigo foi um deles. Conversamos sobre Kant. Ele lê
Kant em alemão, Gorki em russo, etc. Nunca soube ganhar dinheiro. Anda
feito mendigo. Conheci muita gente assim, na minha geração. Um dia,
encontrei Anísio Teixeira e me dirigi a ele, pensando que fosse o
porteiro da Faculdade. Foi a primeira pessoa que encontrei, no Rio.
Anísio foi meu professor de Filosofia da Educação. O único professor
que, após as aulas, recebia palmas na classe. Nunca vi isso nem antes
nem depois. A última aula, já cassado, foi sobre o conceito de liberdade
na educação. Naquela faculdade assisti a Álvaro Vieira Pinto. Havia
efervescência cultural para a vida, na minha geração. Mas o mundo em que
vivíamos desapareceu em 64.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Verlaine



Rogel Samuel



Tenho tudo que posso de Guiomar Novaes. Os melhores discos são com
Kemplerer. Ela fez sucesso naquela época de ouro da música mundial.
Estavam todos vivos, os grandes: Rubinstein, Schnabel etc.
Minha amiga U.A. diz que minhas crônicas são "crônicas de saudade de
Manaus". Ela me mandou um poema sobre os seus 70 anos. Tomei um susto: não
podia acreditar. Sim, havia muitos discos de Guiomar Novaes na minha
infância. Assim como Bidu Sayão, cantando o terceiro poema de "La bonne
chanson", de Verlaine, que um dia traduzi livremente assim:

A lua branca
luzir no bosque
de cada ramo
parte uma voz
sob a folhagem...

Ó bem amada.

Lago reflete
profundo espelho
a silhueta
do colmo negro
o vento chora...

delírio, é a hora.

vasta e macia
tranqüilidade
sente descer
do firmamento
o astro irisa...

estranha é a hora.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

A poesia de Sonia Sales



Rogel Samuel

“Enquanto eu estiver viva, faça-me
a única vontade, deixa-me ouvir minhas músicas
preferidas, no meu canto solitário, minhas margaridas repousantes, tão amigas, e as violetas em festa.
O meu cavalete encoberto de poeira e saudades, deixem ao meu lado, terei tempo e ainda sobra de fazer
mais um quadro, réplica de mim mesma, alegre
e sempre viva, de esperanças e anseios, escondendo
o que ficar feio, num sentimento de entrega
de uma alma ainda alerta.
Mesmo que o meu corpo esteja gasto e não mais
responda às suas mãos, faça-me a vontade,
a última, beija-me então.”

Leio com prazer a antologia de Sonia Sales: “50 poemas escolhidos pelo autor” (Rio de Janeiro, E. Galo Branco, 2007). Já no primeiro poema, ‘Última vontade”, transcrito acima, se revela o sentido da poesia de Sonia: poesia sobre a vida e a morte, poesia da sensibilidade feminina. Ali se descreve as últimas vontades, as vontades do poeta, suas músicas, suas margaridas e violetas, o cavalete de pintura, tão cheio de esperanças e desejos, desejos de uma alma inquieta, alerta, viva, ainda que o corpo gasto não mais responda à altura, não mais responda àquelas mãos amorosas. (”Acabou-se o carnaval, / foram-se os sonhos. Rasgamos / as fantasias”). Mesmo assim, ainda assim:

Na morte de minha face
fujo de mim
procurando em outros caminhos
encontrar sem lágrimas
a paz que tanto desejo
a alegria de cantar sem pressa
cabelos soltos de sol
pés calçados de mar

Como diz a poesia de Sonia Sales, “sem a esperança do eterno / não há o sentido da vida”. Poesia do sentido da vida.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Amazônia


Rogel Samuel


Meu pai viajava pelos grandes rios da Amazônia e me levava com ele. Às
vezes, entrava num lago, ancorava, ali passava a noite, ao abrigo de
alguma tempestade. No Amazonas se chamava aquilo de lago, que se entrava
por um "furo", ligado ao grande Rio. Havia pássaros monstruosamente
belos como deuses coloridos, bailando entre as grandes árvores sagradas.
Antes da noite cair completamente, meu pai subia no teto da lancha e
tocava violino. O silêncio era tanto que o violino soava nas estrelas.
Certa vez, ele viajou muito tempo com um rapaz meio índio, que
fazia de marinheiro. Durante aquele tempo ele estudava, diariamente, e
durante várias horas por dia, certa música de Bach, uma Partita.
Muitos anos depois, um dia ele chegou num vilarejo onde havia uma festa com alguns músicos
tocando. Um dos músicos se aproximou dele e perguntou: "Sr. Samuel, o
senhor não se lembra de mim?" Era o jovem marinheiro. "O Sr. ainda toca
aquela musiquinha?" e o homem tocou, maravilhosamente, Bach ao violão...

domingo, 20 de julho de 2008

O piano




Rogel Samuel


Sim, Guiomar Novaes foi uma das melhores pianistas do Século XX e da
minha infância. Quando a Philips estava elaborando a coleção "Grandes
Pianistas", tentou inclui-la, mas esbarrou no problema da baixa
qualidade das gravações da Vox dos anos 20. Nelson Freire possui o
Steinway que pertenceu à grande dama. Segundo Freire, que está na
coleção - o único brasileiro na coleção - além de Guiomar, outros
brasileiros/as poderiam estar incluídos. Como Magdalena Tagliaferro e
Jacques Klein. Eu era vizinho de um, Arthur Moreira Lima.
Quando eu era menino acordava com a vizinha tocando Chopin. Não tocava
mal. Meu pai foi meu primeiro e último professor de piano. Não mais, não toco.
Desde cedo não toco, ouço. Gosto de ouvir e sonhar. Sonhar é voar na
imaginação das paisagens sonoras. Não posso imaginar como seria um mundo
silencioso, sem música. Não seria o meu mundo. Não seria silencioso, pois o silêncio
também é música.

sábado, 19 de julho de 2008

FOTOGRAFIA



Rogel Samuel

Foi num sebo aonde nunca tinha ido. No Catete. Em frente aqueles
prédios da Primeira República. Em frente ao Palácio. Aquele palácio
tinha sido a casa do Barão de Nova Friburgo, que tinha fazendas de café.
Em Nova Friburgo visitei, também, sua casa. Num parque belíssimo. No
sebo encontrei uma pilha da revista "Fotoarte". Era uma revista
dirigida por Francisco Aszmann, um dos maiores fotógrafos do mundo de
sua época. Um dos mais premiados no mundo inteiro. Ele foi meu professor
de fotografia, e o muito do que eu (pouco) sei de como ver um quadro se
deve a ele. Eu comecei a buscar o que procurava: a fotografia "Bois",
que eu já conhecia, e que sabia que estava num daqueles números. Eu
conhecia detalhes da foto, e de como Aszmann a tirara. Ele contou numa
das aulas que tinha ficado horas à espera da manada que entrava numa
estreita ponte. Tirou a foto e pulou da ponte pela ribanceira de dez
metros, na Hungria. A foto ficou anos esquecida, porque o boi da direita
estava ligeiramente desfocado: um crime para os padrões estéticos
daquela época. Mas em 1940 o conceito mudou e Aszmann pode ganhar
todos o títulos com uma única foto. Um dia eu ganhei um prêmio de
fotografia. Era uma competição coletiva, na ABAF, no Rio. Eu lecionava
no subúrbio carioca e tomava o trem, pela manhã. Ia com a câmera. Eu só
andava com ela. A tiracolo. Em plena Central do Brasil comecei a
fotografar uns garotos de rua, com tele-objetiva. Um deles tinha um
tampão branco, no olho, de esparadrapo. Quando revelei a foto, a criança
aparecia angustiada, atrás de uma monstruosa coluna (que na realidade
era um vão do prédio da Central), e por trás estava, desfocado, o grande
edifício do Quartel Geral das Forças Armadas. Ameaçador. Não deu outra:
tirei o primeiro prêmio - estávamos em pleno regime militar, e aquele
menino sujo esmagado num canto virou o maior símbolo. Minha foto fez
sucesso. Mas eu a perdi, ou melhor, a vendi. Aprendi com
Aszmann, o menino estava no "ponto ouro" do quadro
(o canto inferior esquerdo). O Brasil, que hoje tem Sebastião Salgado,
já teve Francisco Aszmann, o professor. Abandonei quase completamente a
fotografia, hoje. Talvez porque se tornou uma arte cara. Mas
principalmente porque já não tenho tempo nem laboratório em casa.
Fazíamos em casa as fotos em preto-e-branco. Um dia, talvez, vou partir
para a foto digital. Aí está a foto do mestre Aszmann "Bois".

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Interpretar a Divina Comédia?



Rogel Samuel

Escreveu Otto Maria Carpeaux: “O próprio Dante distinguiu quatro níveis de interpretação e compreensão do poema: o sentido literal e histórico; o sentido alegórico e tipológico; o sentido topológico ou moral;e, enfim, o sentido analógico ou místico. Mas será este último jamais acessível a nós mortais?” (“Meu Dante”). Mas creio que o grande poema não necessita de interpretação, nem classificação. Basta-se a si próprio. Ou melhor, seu melhor sentido é “veja-me”, “eis-me”. Ou seja: “leia-me”. O poema máximo diz:”Veja como sou bem construído, perfeito”, pois Dante é muito bom de ler, afinal ele conta algo, uma estória, tem um “enredo”, é um livro de viagem, uma viagem fantástica, extraordinária, em versos de certo modo claros, bons de ler, onde se vai a algum lugar, a um certo fim, a uma finalidade, onde se espera chegar em paz, talvez à morte, ou ao eterno, pois vida é uma vereda perigosa, onde os rochedos desabam, desmoronam (...e poucos, só poucos podem dizer no fim: “e ao brilho caminhamos das estrelas”), e esta estranha estrada não diz aonde leva, aonde vai, nem que:

Se prosseguir agora vos apraz,
passai por esta grota, onde se abriu
uma vereda, e chegareis em paz.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Um tradutor de Dante




Rogel Samuel

A tradução em versos de Cristiano Martins da “Comédia” de Dante é extraordinária pela beleza e pela erudição, mas hoje pouco conhecida. Não sei por quê, já que está viva, muito viva no catálogo da Itatiaia. Martins é um grande erudito, político e poeta mineiro. Nasceu em 1912, foi professor universitário, secretário do Presidente Kubitschek, Procurador do Tribunal de Contas. Alceu Amoroso Lima disse que sua poesia era noturna. Como ensaísta foi elogiado por Mário de Andrade, Oscar Mendes, Sérgio Milliet, Otto Lara Resende e Aires da Mata Machado Filho. Mas sua obra-prima é a tradução da Divina Comédia de Dante, uma das mais importantes em todo o mundo. Mesmo na Itália não se encontra com facilidade uma edição do poema como esta, comentada como detalhes, estrofe por estrofe, com minúcia e erudição. Ele simplesmente explica o poema nas notas de pé de página, e acompanha o leitor elucidando todas as passagens difíceis. Como escreveu Dante (e ele traduziu):

Nova não é decerto esta ousadia:
Foi uma vez usada noutra porta,
Que depois nunca mais se fecharia.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

T. S. Eliot



Rogel Samuel


O poema é longo. Não dá para acompanhá-lo aqui. Mas começa assim (depois de uns versos de Dante):
“Sigamos então, tu e eu,
Enquanto o poente no céu se estende
Como um paciente anestesiado sobre a mesa;
Sigamos por certas ruas quase ermas,
Através dos sussurrantes refúgios
De noites indormidas em hotéis baratos,
Ao lado de botequins onde a serragem
Às conchas das ostras se entrelaça:
Ruas que se alongam como um tedioso argumento
Cujo insidioso intento
É atrair-te a uma angustiante questão.
Oh, não perguntes: “Qual?”
Sigamos a cumprir nossa visita.”
As imagens chocam, “como um paciente sobre a mesa”. Aparecem “tu e eu”, tão inexplicáveis (serão poeta e leitor? serão Dante e Virgílio?). As ruas estão vazias, as casas são refúgios “sussurrantes”, como se houvesse guerra. É “A canção de amor de J. Alfred Prufrock” de T. S. ELIOT, precedida de uma epígrafe de Dante, na competente tradução de Ivan Junqueira. Estamos em visita, não se diz de quê (do inferno?). O próprio J. Alfred Prufrock seria um personagem solitário, vivendo em hotéis baratos. E não tem amor nenhum a quem cantar. O poema é famoso por causa disto, inaugura a poesia do caos, da solidão anestésica, da decadência urbana, da dúvida. Poema dito por um personagem que vem de uma estrofe de Dante:
“S’io credesse che mia ris posta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza piu scosse.
Ma perciocche giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.”
Dante Alighieri. La Divina Commedia, Inferno, XXVII, 61-66., cuja tradução de Cristiano Martins (a melhor que existe) assim o diz:
“Se eu pudesse supor que dirigida
minha palavra fosse a alguém do mundo
quedaria esta língua emudecida;
mas pois que em tempo algum cá deste fundo
ninguém pôde voltar, como aprendi,
falo-te, sem qualquer temor profundo”.
Era o famoso Guido de Montefeltro quem se encontrava ali, no Inferno. Era o Sr. J. Alfred Prufrock. Era realidade do inferno.

terça-feira, 15 de julho de 2008

O piano

Presença do piano

Antonio Olinto

Mestra internacional do piano, com toda uma vida dedicada à música, em recitais que deram fama a seu nome, nos mais importantes centros musicais dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra, da Alemanha, da Áustria e da Suíça, com toda essa experiência resolveu Maria Augusta de Oliveira Morgenroth colocar agora num livro uma seleção das aulas de piano que tem dado e as "máster classes" ligadas a essas aulas, isto é, ao mergulho no íntimo do compositor e de sua obra, na penetração mesma das intenções da música e da importância do intérprete, no caso a pianista, "sentir" exatamente o que está tocando.

Falando sobre "Pour Elise" de Beethoven, a autora pergunta a uma aluna de onze anos se ela sabia que o título da música era "Para Elisa" e que Elisa foi namorada de Beethoven. A professora quer saber: "Você percebeu o "Colóquio amoroso" dessa música?; e explica: "Eu toco e você vai descobrir. Está ouvindo estas primeiras notas? São uma pergunta. As três seguintes são as respostas, formando o tema tão conhecido desta música, tão singela quanto apaixonante. "Compreendeu?"

Assim, com jovens alunos e alunas, descreve aulas e lições, estudando Johan Sebastian Bach (1685-1750), Beethoven (1770-1827), Schubert (1797-1828), Mendelsohn (1809-1847), Liszt (1811-1886), Chopin (1810-1849), Schumann (1810-1856), Brahms (1833-1897), Debussy (1862-1918), Ravel (1875-1937), Manuel de Falla (1876-1946), Villa-Lobos (1887-1958), Bella Bartok (1881-1945), Prokofiev (1891-1953), Rachianinoff (1873-1943).

Em cada aula, Maria Augusta analisa o músico citado, estuda-lhe a obra e realça aspectos da execução ao piano de cada partitura.

Consciente de que a experiência adquirida na Europa e nos Estados Unidos devia ser transferida, Maria Augusta resolveu, no Brasil, convidar a pianista para uma série de Master Classes no seu próprio estúdio, a fim de lhe transmitir o que aprendera com os grandes mestres: Helena de Figueiredo, Alexandre Sienkiewicz, Lorenzo Fernandez, Francisco Mignoni Villa-Lobos, Luiz Heitor Correia de Azevedo e, no exterior, Lili Kraus, Arthur Rubinstein, Marguerite Longw e Bruno Seidlhofer.

Do testemunho de críticos europeus sobre seus recitais constam opiniões como a do "Le Monde" de Paris: "Maria Augusta revela perfeita musicalidade, sonoridade e, sobretudo, uma perfeita compreensão das obras dos grandes mestres."

O crítico do "Algemeen Handelsblad" de Amsterdã se entusiasmou: "Arrebatador o debut de Maria Augusta. Todo mundo se surpreendeu com a perfeição técnica desta tão atrativa pianista. Seu concerto foi planejado e se realizou com todos os detalhes e o mais surpreendente é que tudo vinha d´alma. Isto ninguém pode ensinar ou aprender. É algo que tem de estar dentro da artista, por natureza.

Maria Augusta tocou o programa completo sem reduzir sua vitalidade, sem diminuir ao mínimo sua intensidade expressiva. Comparo-a a Tereza Careno. Desde 1917 o mundo está esperando sua sucessora. Maria Augusta efetivamente é da altura de Careno."

Na próxima sexta-feira, dia 18, das 18h às 21h, fará Maria Augusta palestra no Rio de Janeiro sobre a arte do piano, ilustrada pelo estudante Phelipe Martins e pelos pianistas Yako Shiiaco e Boris Marques, no Espaço Cultural Francisco Mignone (Rua Barata Ribeiro, 774, sala 1013).

"MASTER CLASSES" é um lançamento da Editora Europa. Coordenação Editorial de Walter Duarte. Diagramação e capa de Márcio Fructuoso. Digitação de Célia Guimarães.

A praia de Matthew Arnold



Rogel Samuel

Matthew Arnold é um poeta inglês (1822-1888) que, junto de Tennyson e Robert Browning é um dos chamados autores vitorianos. Também foi pioneiro na crítica literária e da sociedade, considerado o primeiro moderno. Influenciou gente como Eliot e Allen Tate, e inaugurou a crítica sociológica. Como poeta, alguns o consideram o maior de sua geração. A sua visão de mundo é pessimista e sua poesia triste, cinzenta, como sua famosa “Praia de Dover”, de que transcrevemos parte:

O Mar da Fé
Também existiu, no passado, cheio, e em volta da praia do mundo
Estendia-se como as dobras de uma faixa desdobrada.
Agora, porém, somente lhe escuto
O bramido melancólico, longo, fugidio,
Que se aparta para as lufadas
Do vento noturno, escorrendo por vastas e horrendas costas
E pelos areais desnudos do mundo.”

“Ah!, amor, sejamos fiéis
Um ao outro.
Pois o mundo, que parece
Estender-se à nossa frente como uma terra de sonhos,
Tão diversas, tão formosas, tão novas,
Na verdade não tem nem alegria, nem amor, nem luz,
Nem certeza, nem paz, nem lenitivo para a dor;
E estamos aqui como numa planície penumbrosa,
Varrida de confusos alarmas de combate e de fuga,
Na qual exércitos ignorantes à noite travam batalha.”

O mundo que ali aparece é o nosso, em guerra, em destruição e guerra, varrido de balas e alarmes de combate, o mundo escuro, onde exércitos combatem às cegas, - o que parece uma terra de sonhos na verdade não tem luz. Há um vento escuro, na orla da praia, o ambiente é sinistro e deserto, estranho para um poema de amor. Este contraste é o que faz desse fragmento de poema um marco, o amor enquanto desastre, ou melhor, o amar no desastre entre as trincheiras da guerra!
Dá para lembrar “Waste Land” de Eliot, ou o seu famoso poema “A CANÇÃO DE AMOR DE J. ALFRED PRUFROCK”.

domingo, 13 de julho de 2008

A emancipação democrática


A emancipação democrática

Rogel Samuel

“A falta de esperança é, ela mesma, tanto em termos temporais quanto em conteúdo, o mais intolerável, o absolutamente insuportável para as necessidades humanas”, escreveu Ernst Bloch, em “O princípio esperança”, vol. 1, p. 15. Por isso, mesmo a fraude nos é estimulada e estimulante. Pois, o que o populismo, o demagógico, senão o aceno, ainda que vago, ainda que incerto, ainda que retórico do princípio da esperança de dias melhores, de um mundo melhor, de uma vida melhor e mais feliz? Isso não é auto-ajuda, mas marxismo puro: a crença no porvir, a crença de que as sociedades caminham para a emancipação. Trata-se de uma emancipação democrática, mas nem por isso menos revolucionária. Esse é o desejo de uma qualidade sincera dos povos, que aquilo-ainda-não-consciente se faça matéria verdadeira e consciente, como dizia Lênin: “o sonhar para frente”. “Diz-se que Varrão, na sua gramática latina, esqueceu o futuro”: significa aquela imobilidade, aquela propriedade que tenta “esquecer” o que virá, esquecer o para frente, que tenta excluir o novo, que não percebe a mobilidade e a mudança para o diferente e vê o mundo como a repetição do mesmo, do mesmo-outra-vez, como o reflexo do temor do outro, do desconhecido. É isso próprio das classes dominantes: tentam eternizar-se no mesmo poder.

sábado, 12 de julho de 2008

O Apolo de Holderlin



Rogel Samuel

Escreveu Holderlin este “Por de sol”, que leio na sempre bela tradução de Manuel Bandeira:

Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De tôdas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.
Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Êle no entanto já ia longe, levando a luz
As gentes mais devotas.
Que o honram ainda.

O poeta se refere a Apolo, ao sol, ao deus da luz e do sol (“Êle no entanto já ia longe, levando a luz”), da verdade, da profecia, do pastoreio, da beleza, da medicina, da cura, da música (“Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite”), da poesia e das artes. Apolo é o deus dos adolescentes (“amorável adolescente”), ajudando na transição para a idade adulta. Assim, ele é sempre representado como um jovem que simboliza a pureza e a perfeição. O poeta está bêbado das delícias de Apolo, da beleza, da música, da poesia. Ao redor, os bosques e as colinas escurecem. O sol já vai longe, levado pelo deus da luz. Com ele iam também “As gentes mais devotas / Que o honram ainda”.
É Holderlin. Daí se vê porque Heidegger dizia que em Holderlin encontrou a essência da poesia, a linguagem poética como a linguagem autêntica do ser, e para ele a essência da poesia contém o ser. “A poesia é o fundamento que suporta a História”, disse Heidegger. “Na poesia os homens se reúnem sobre a base de sua existência”, escreveu o filósofo.

HOLDERLIN, 2

METADE DA VIDA


Heras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
O calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; ao vento
Tatalam bandeiras.

(Trad. Manuel Bandeira)


A rosa


Suave irmã!
Onde irei buscar, quando for Inverno,
As flores, para tecer coroas aos deuses?
Então será, como se eu já não soubera do Divino,
Pois de mim terá partido o espírito da vida;
Quando eu buscar prendas de amor aos deuses,
As flores no campo escalvado,
E te não achar.


(tradução: Paulo Quintela)