sábado, 30 de agosto de 2008

RILKE


RILKE


Rogel Samuel



Geir Campos, bom poeta, é autor também de uma obra-prima: "Poemas de Rainer Maria Rilke", hoje só encontrável em sebos (Rio, José Olympio, 1953). De lá copio esta:



INICIAÇÃO


Quem quer que sejas: deixa tua alcova
da qual já sabes tudo que desejas;
teu lar na tarde, longe, se renova,
quem quer que sejas.
Com teus olhos exaustos, que ainda a custo
entre os gastos umbrais logram passar,
ergues inteira a sombra dum arbusto
posto ante o céu - esguio, singular.
E tens já pronto o mundo: estranho assim
como palavra que amadurecesse
no silencio, e que teu olhar esquece
quando lhe captas o sentido, enfim ...


Este é o primeiro poema do "Livro das imagens", diz-nos o tradutor. É um convite ao leitor, "quem quer que sejas", a abandonar o lar, a rotina, a alcova (?), e segui-lo numa viagem fantástica e estranha, no mundo da poesia, no seu silêncio, no seu sentido. Pois passando o umbral, erguendo a sombra de um arbusto, um inteiro novo mundo se abre, não o mundo da fantasia, mas a visão pura de um reino puro e luminoso, posto ante o céu como uma planície em que se capta o significado.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A porta das mil mortes


amanhã

RAINER MARIA RILKE





RAINER MARIA RILKE

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PRIMEIRA ELEGIA

Quem se eu gritasse, entre as legiões de Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau do Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgastar-nos a face — a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos — talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.
Sim, as primaveras precisam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janemla aberta,
uma viola d'amore se abandonava. Tudo isso era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, aà espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vêm
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imoral sua celebrada ternura.
Tu quase as invejas — estas abandonadas
que te parecem tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser — nasciemnto supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objetivo amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoes, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa...
O que pede essa voz? a ansiada libertação
da aparência de injustiça que as vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
às rosas e a outras coisas o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medrosas,
não mais ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo o quanto se encandeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. — Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentas Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações — que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.




A MORTE DO POETA



Jazia. Seu altivo semblante
estava pálido e indiferente no leito inflexível,
desde que o mundo, afastado de seus sentidos,
retornara à Era fria.


Os que o viram em vida não compreendiam
como ele se integrava nas coisas;
é que tudo: essas profundezas e florestas
e a própria água eram o seu eu.


Ah! seu vulto era tudo isso
que ainda agora dele se acerca como para o envolver;
e sua máscara, que lívida se extingue,
é mole e aberta como a polpa de um fruto
que o ar corrompeu.

(Trad. de João Accioli)




TORSO ARCAICO DE APOLO



Não, não sabemos como era a cabeça, que falta,
De pupilas amadurecidas, porém
O torso arde ainda como um candelabro e tem,
Só que meio apagada, a luz do olhar, que salta

E brilha. Se não fosse assim a curva rara
Do peito não deslumbraria, nem achar
Caminho poderia um sorriso e baixar
Da anca suave ao centro, onde o sexo se alteara.

Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.

Seus limites não transporia desmedida
Como uma estrela; pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.

(Trad. de Manuel Bandeira)




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I:3
Um deus o pode. Mas, dize-me, poderia um
homem acompanhá-lo na lira encantada?
Sua mente é discórdia e nas encruzilhadas
do coração Apolo não tem templo algum.

O canto, como o ensinas, não é o querer
nem busca do que querer que seja de atingível.
Cantar é existir. para o deus, tudo é factível.
Mas nós, quando é que somos? Quando ao nosso ser

dará ele de volta a terra e as estrelas?
Não é o que amas, jovem, mesmo que forçasse
a voz em tua boca. Aprende a esquecê-las,

tais canções. Elas passam, frutos do momento.
O canta em verdade de outro sopro faz-se.
Um sopro de nada. Um alento em Deus. Um vento.

(Trad. José Carlos Paes )


Borghese
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante —
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

(Trad. Augusto de Campos )




O torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

(Tradução: Paulo Quintela)





- Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.


(Tradução: Paulo Plínio Abreu)



- Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.


Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.


(Tradução: Paulo Plínio Abreu)



Morgue

Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;

como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:

em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,

para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.

(Tradução: Augusto de Campos)



A Pantera
No Jardin des Plantes, Paris
De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

(Tradução: Augusto de Campos)



A Gazela
Gazella Dorcas
Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha

e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,

para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte

a prumo, prestes, pára: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.

(Tradução: Augusto de Campos)



São Sebastião

Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.

(Tradução: Augusto de Campos)



O Anjo

Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.

O céu com muitas formas Ihe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem

à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.

(Tradução: Augusto de Campos)



Fonte Romana
Borghese
Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

(Tradução: Augusto de Campos)



Dançarina Espanhola

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

(Tradução: Augusto de Campos)



O Cego

Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

(Tradução: Augusto de Campos)



Exercícios ao Piano
O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes
a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.

Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.

(Tradução: Augusto de Campos)



O Solitário

Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

(Tradução: Augusto de Campos)



O Fruto

Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.

(Tradução: Augusto de Campos)



O mundo estava no rosto da amada -

O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(Tradução: Augusto de Campos)


INICIAÇÃO

Trad. Geir Campos

Quem quer que sejas: deixa tua alcova
da qual já sabes tudo que desejas;
teu lar na tarde, longe, se renova,
quem quer que sejas.
Com teus olhos exaustos, que ainda a custo
entre os gastos umbrais logram passar,
ergues inteira a sombra dum arbusto
posto ante o ceu - esguio, singular.
E tens já pronto o mundo: estranho assim
como palavra que amadurecesse
no silencio, e que teu olhar esquece
quando lhe captas o sentido, enfim ...

OUTONO

As folhas caem como se do alto
caissem, murchas, dos jardins do ceu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidao vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mao.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguem colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.

HORA SOLENE

Quem nesta hora chora algures no mundo
sem motivo chora no mundo,
chora por mim.

Quem nesta hora ri algures na noite,
sem motivo ri-se na noile,
ri de mim.

Quem nesta hora anda algures no mundo,
sem motivo anda no mundo,
vem a mim.

Quem nesta hora morre algures no mundo,
sem motivo morre no mundo,
olha para mim.

A política são nossos sonhos

Rogel Samuel

"O desejo de ver as coisas melhorarem não adormece", escreveu Bloch.

São nossos sonhos diurnos, de realização política, prodigiosos, maravilhosos, incríveis ou antecipatórios. Queremos o admirável, o grandioso, o melhor para a sociedade, e isso pauta nossa ação política. O que é intuído como uma força de auto-expansão para a frente.

Ação política: melhorar a sociedade.
O máximo signo disso é votar.
Votar significa tentar fazer, envolver-se no sonho de uma verdade, de uma realidade justa.
Não se vota em um nome, mas numa idéia. A idéia é o partido. O partido político. Quando voto, exerço meu sonho de uma vida melhor. Para que voto? Para a solução dos problemas da sociedade.

O direito de votar é o direito de sonhar. Votar é fazer. Fazer a realidade.
E o mais importante voto não é aquele no futuro governante, mas no vereador, no deputado, no senador. Um governante sozinho nada pode fazer, ele precisa de muitos parlamentares que o apóiem, que lhe dêem base, sustentação. Por isso, o voto deve ser no partido. É o partido quem decide.
A política não é só a arte de governar, como também a arte de sonhar.
A política são nossos sonhos.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Os pássaros aquáticos

Os pássaros aquáticos


Rogel Samuel


O mestre Dogen escreveu:


Vindo, indo, os pássaros aquáticos
não deixam um rastro
não seguem um traço.



Sem destino, sem passado, os pássaros aquáticos. Impossível seguir-lhes a rota, saber seu destino. Vão e vêm no espaço. Quem os controla? Por que não somos como esses pássaros, sem origem e sem destino, só presença infinita e eterna? Por que não nos libertamos do passado e da urgência do amanhã? O passado não mais existe, coisa morta. O amanhã é uma rua, no fim da qual é a morte. Por que carregamos o fardo de um passado, em direção à morte?

No meu bairro há um estranho mendigo, magro, sujo, barbudo. Não aceita dinheiro. Quando passa deixa um odor fétido de quem nunca mudou de roupa. Quantos anos terá? Não é velho. Deve ter um nome, todos têm um nome. Deve ter família em algum lugar. O diferente nele é que ele carrega um imenso e pesado saco nas costas.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

A liberdade

A liberdade

Rogel Samuel



Escreveu Dogen:

Não siga as idéias dos outros
mas aprenda a ouvir a voz interior de si mesmo.
Seu corpo e mente ficarão claros
e você compreenderá a unidade de todas as coisas.

É o poema da liberdade. Do silêncio. Da voz do silêncio. Não seguir ninguém, saber ouvir o instinto, o impulso, o saber sem nome, o nada. Mas a voz interna só fala quando tudo cala, tudo se esvazia. É difícil deixar de seguir. Mas é possível. Como? Mas como?
A arte de ouvir o silêncio é a "espera". Esperar que as montanhas interiores falem, que o oceano de nosso íntimo se manifeste, diga-nos o que fazer, para onde ir, que decisão tomar. Saber esperar a manifestação do rumo, a movimentação da própria estrada, a abertura da porta por onde entrar, a auto-construção espontânea da ponte por onde passar de uma ação para outra.
O zen, ao contrário do que se pensa, não é inação. Mas é o saber usar a força invisível, a sabedoria inaudível, louca e pessoal.

A ENERGIA NEGRA

CRÔNICA DE SEMPRE
Rogel Samuel (atualização diária)
26/8/2008

A ENERGIA NEGRA



De Paris chega a notícia de que o observatório astronômico europeu XMM-Newton encontrou "o maior grupo de galáxias jamais visto no universo, uma descoberta que pode
confirmar a existência da "energia negra".

É um "monstro" com "uma massa correspondente a mil galáxias" e aparecia como uma mancha muito brilhante. Tem mil vezes a massa de nossa galáxia, a Via Láctea.
"A presença deste grupo confirma bem a existência de um elemento misterioso do Universo, a energia negra", talvez responsável pela aceleração da expansão do Universo, disse Georg Lamer, do Instituto de astrofísica de Potsdam (Alemanha).
Mas se o Universo continua em expansão significa que continua trabalhando, que ainda não terminou o seu brinquedo cósmico!
Estou delirando. Com a grandeza do Universo.
"Grupos de galáxias tão grandes como este são objetos raros no Universo", indicou Lamer. "A existência dessas galáxias só pode ser explicada pela energia negra", continuou.
Segundo os astrofísicos, a maior parte do grupo está longe, situado a 7,7 bilhões de anos-luz. É uma distância inacreditável.
As galáxias gigantes seriam formadas por um gás a uma temperatura de 100 milhões de graus. O que é difícil de entender.

Só falta descobrir de onde o Universo ri de nós.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Somos Sonhos



Somos Sonhos

Rogel Samuel


Leio na Internet a frase de Shakespeare:"Nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos".

E fico a imaginar quão extraordinária era a mente de Shakespeare que pôde fazer essa constatação metafísica de grande alcance.

Pois o alcance dessa meditação vai até a filosofia Madyamika e da "Tudo é mente" da Índia antiga, quando pensadores e iogues como Shantideva e Dromi Lotsawa compuseram
suas obras fundadas na descoberta de que "somos sonhos", somos apenas sonhos, e a realidade que nos cerca tem a mesma natureza e verdade dos sonhos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A campeã de 32 anos

Rogel Samuel


É muito bom ver esses jovens ganharem suas medalhas de ouro olímpico, um fato inapagável na vida de um atleta e de uma atleta. Uma medalha nunca é tirada, nunca é esquecida. Alguns pensam que é o país que ganha. Não é. É a atleta e o atleta, é ela ou ele o jovem campeão.

César Cielo se tornou o maior nadador brasileiro de todos os tempos. Com o ouro, alcança um feito que supera as conquistas de Gustavo Borges - até então, o mais bem-sucedido nadador brasileiro e Fernando Scherer, o Xuxa, também ganhador de duas medalhas olímpicas de bronze em Atlanta e em Sydney.

Maurren Maggi conquistou o primeiro ouro individual feminino. Nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, ela chegou como uma das favoritas ao ouro. Sua marca até então, 7,26 m, de junho de 1999, a colocava no seleto
grupo das atletas que passaram dos 7 metros. A marca é tão boa que, desde então, somente três atletas saltaram mais longe em todo o planeta, todas russas: Tatyana Kotova (7,42 m em 2002), Tatyana Lebedeva (7,33 m em 2004) e Irina Simagina (7,27 m em 2004).

Ela tem 32 anos.


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

A VELA DE PRATA

Rogel Samuel


Leio que Scheidt e Prada conquistam a prata na Star. O Brasil tem milhares de quilômetros de costa, uma tradição de velejadores jangadeiros. Muitos cantaram com Caymmi que era doce
morrer no mar. Mas não é. Meu pai foi marinheiro, naufragou. Não morreu disso, mas tinha mais desenvoltura sobre as águas do que sobre a terra firme. Em terra firme era desajeitado, reclamava do barulho, da poluição. Gostava mesmo era de viajar pela Amazonia. Viajou mais de 40 anos. Eu muitas vezes fui com ele, quando criança. Tenho boas recordações. Todas poéticas. O mundo verde, primitivo e perdido, da infância amazônica.

domingo, 17 de agosto de 2008

A chuva tardia


Rogel Samuel



Leio mais um poema de Dogen, poeta japonês, nascido em Kyoto (1200-1253) e fundador da escola Soto Zen. Mas ele é, antes de tudo, um grande poeta, que é o que nos interessa aqui. Ele era um aristocrata que perdeu o pai e a mãe, abandonou tudo, tornou-se monge e viajou em busca de um mestre que lhe respondesse às suas inquietações. Foi até a China, uma viagem perigosa na época.


Alegre neste retiro da montanha
contudo ainda no sentimento de melancolia
estudando o Sutra do Lótus diariamente
Pratico meditação concentrada;
O que fazem o amor e o ódio
Quando estou aqui sozinho?
Escuta o som da chuva tardia nesta noite do outono.


O poema fala dos contrastes da mente e do corpo humano, alegre e triste, amando e odiando. Mesmo isolado no retiro da montanha, aquelas contradições estavam ali presentes. E contradição significa inquietação, desequilíbrio, que ele traz até ali. O Sutra do Lótus é o "Sutra dos Infinitos Significados", não estava acalmando seu corpo e mente, porque "O acesso a esta sabedoria é difícil de compreender e difícil de transpor".

A "solução" poética desta dúvida foi escutar o som da chuva tardia.

Talvez aí nasceu o olho.

sábado, 16 de agosto de 2008

A praça Caymmi


Rogel Samuel


Existe uma área no início da praia da Itapoã chamada Praça Caymmi. Naquele tempo, era uma área deserta, perto da lagoa e do mar. Jorge Amado não morava longe dali. Lugar mágico, deserto, com umas barracas onde se podia beber água de coco. O vento que vinha do mar trazia versos de Caymmi. Eu estive lá, em 1973, por alguns dias. Estava hospedado no Pituba, num hotelzinho barato frente para o mar. Tenho fotos. Românticas. Havia gente acampando por ali, em frente ao mar selvagem, como nas “Palavras ao mar”, de Vicente de Carvalho:

“Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.”

A PEGADA DAS AVES

A PEGADA DAS AVES

ROGELSAMUEL


Escreceu DOGEN (1200-1253):


As aves aquáticas
vagam aqui e acolá
sem deixar pegadas
mas suas veredas nunca as esquecem.


O que ele não devia ver era o caminho das aves no ar, seu rastro, suas pegadas, o destino de seu vagar. Mas eram as veredas do ar que não se esqueciam das árvores, os caminhos tidos, percorridos. Não há pegadas nas águas. Nem no ar. O vagar das aves. No ar. A mente livre não deixa rastro, não tem culpa nem ganho. Nem lugar de morada.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O GUINDASTE DO MUNDO



Rogel Samuel

Um poema de Dogen (1200 - 1253) diz assim:

A que devo comparar o mundo?
O luar
refletido nas gotas de orvalho,
agitadas da conta de um guindaste.

Isto se lê em “Zen Poetry of Dogen”, traduzido para o inglês por Steven Heine. Para Dogen o mundo é uma gota de luar, ou melhor, são gotas de orvalho, estão nas gotas de orvalho penduradas nas grandezas de um guindaste, arrastadas por esse enorme guindaste poderoso e forte que é o destino do mundo, o peso do mundo, a agitar do mundo, a pressa do mundo, seu trânsito, suas guerras, suas contas, seus dinheiros, seus valores, suas fortunas, as empresas, os exércitos, as nações, o grande esforço de suas lutas e trabalhos, tudo, tudo não vale mais, para Dogen, do que o luar refletido dentro das gotas de orvalho agitadas pelo mover do braço desse enorme guindaste que move o mundo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O que não é feito de nada


Rogel Samuel


Naropa (1016-1100) é um famoso poeta indiano que escreveu algumas das mais belas e
filosóficas canções, reunidas em "The Songs of Naropa: Commentaries on songs of
Realization", translated by Khenchen Thrangu Rinpoche e Erik Pema Kunsang. Traduzo sua
"Súmula de Mahamuda", que diz:


Homenagem para o estado de grandes felicidades!
Sobre o que é chamado Mahamudra
Todas as coisas são sua própria mente.
Ver objetos como externos é um conceito errado;
Como um sonho, eles são vazios de concretude.
Esta mente, assim como é, é um mero movimento de atenção
Que não tem nenhuma ego-natureza, somente sendo uma rajada de vento.
Vazio de identidade, como o espaço.
Todas as coisas, como o espaço, são iguais.
Porque o 'Mahamudra'
Não é uma entidade que pode ser mostrada.
Nele está a ipseidade da mente
Que é o próprio estado de Mahamudra.
E não é algo a ser corrigido nem transformado,
Mas quando qualquer um vê e percebe sua natureza
Tudo que aparece e existe é Mahamudra,
O grande Dharmakaya que tudo permeia.
Naturalmente e sem inventar nada, permite simplesmente ser,
Este inimaginável Dharmakaya,
Deixando isto ser sem buscar nada é seu treinamento meditativo.
Pois meditar enquanto busca é ilusão mental.
Da mesma maneira que com o espaço e uma exibição mágica,
Nem cultivando nem não cultivando
Como pode você estar separado e não separado!
Isto é a compreensão de um iogue.
Todas as ações boas e ações prejudiciais
Dissolvem-se simplesmente por conhecer esta natureza.
As emoções são sua grande sabedoria.
Como uma selva em fogo, elas são ajudantes do iogue.
Como podem ficar ou podem ir?
Que meditação é fugir para um eremitério?
Sem entender isto, todos os possíveis meios
Nunca trarão mais que liberação temporária.
Quando entender esta natureza, o que vai prender você?
Enquanto sendo atento de sua continuidade,
Não há nem um composto nem um estado não composto
Nem um ser cultivado ou corrigido por um remédio.
Não é feito de nada
A experiência ego-liberada é dharmadhatu.
Pensar na ego-liberação é grande sabedoria,
Igualdade não-dual é dharmakaya.
Como o fluxo contínuo de um grande rio,
Tudo o que que você faz é significante,
Este é o estado desperto eterno,
As grandes felicidades não deixam nenhum lugar para o samasara.
Todas as coisas estão vazias de suas próprias identidades.
Este conceito fixo em vacuidade se dissolve em si mesmo.
Livre de conceito, não segurando nada em mente,
Está em si mesmo no caminho dos Buddhas.
Para o mais afortunado,
Eu escrevi essas palavras concisas de um conselho sincero.
Por isto, possa todo ser sensível
Ser estabelecido em Mahamudra.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

A pedra

Rogel Samuel

somente meus dedos na muralha
sentindo as marcas das chuvas velhas
falsos sabres das águas, luzes
roucas louras lantejoulas
pedaços de lixa, fragmentos
de centímetros de aço
desejos fáceis, aves
o mistério nas respostas
filtros finos, sinos
sussurros nesses escritórios
do vão que era opaco
onde só vejo sombras caladas
onde a verdade não abre sua porta
onde só pedras empilhadas
e a verdade não fala, está morta

A vida da engrenagens do sol


A vida da engrenagens do sol

Rogel Samuel


As engrenagens representam o princípio da vida do mundo, quando uma coisa puxa outra, um fato arrasta o outro, num contínio fluxo de interdependência, como aquilo que se engrena no despertar do dia. Um clássico poema, "Tecendo a manhã", de João Cabral de Melo Neto, sabe dizer o de que falo: a vida da engrenagem que nos envolve e enreda na sua trama causal. Um grito aqui faz nascer o mundo todo que se levanta, nordestina, luminosa, cabralina.

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

RUA DOS ROUXINÓIS

RUA DOS ROUXINÓIS

ROGEL SAMUEL


Pindamonhangaba é uma pacata cidade do interior de São Paulo. Eu conheci, há muitos anos. Lá existe uma Rua dos Rouxinóis, nome poético, digno do romantismo, que é um dos mais fecundos períodos da literatura brasileira. Pois nesta rua daquela cidade um menino de 15 anos enforcou com uma mangueira outro de 11 anos por causa de uma pipa dentro da Escola. A notícia diz que o maior é usuário de droga, no que não acredito, tão novo o garoto. Toda droga é cara. Depois do crime, o pequeno assassino foi para casa ver TV. Diz a polícia que não demonstrou arrependimento: mas como? Será que ele mesmo sabia o que estava
fazendo? A "explicação" (ó céus??!!) que o repórter não viu nem poderia entender está no "ver TV". O pequeno assassino deve ter imitado um desses filmes americanos que se vê diariamente na TV e que deveriam ser proibidos a menores de 18 anos. Ver sexo explícito é proibido, mas um facínora matador é livre.

domingo, 10 de agosto de 2008

CHUVA


Chuva


Rogel Samuel


Chuva fina, mas continua. Faz um pouco de frio. O mundo lá fora nos dá para sentir a sensação de abrigo. Na TV a pianista portuguesa Maria João Pires toca Drei Romanzen Op. 28 de Schumann. Li que ela reside no Brasil, mas pouco toca por aqui que eu saiba. Parece que está em Salvador. Ela é excelente. No apartamento térreo onde vivo há mais de 10 anos morava uma pianista, cujo nome não quero dizer. Talvez por isso não consigo sair daqui, que não cabe os meus livros. Aqueles sons ainda estão nas paredes. O piano não existe mais. Há os sons. Nas paredes. A chuva está fraca. Talvez poderei sair.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Andando para dentro do mar



ROGEL SAMUEL



Cheio de indagações irrespondíveis na cabeça ponho-me a ler o poema de Alfonsina Storni, na tradução de Oswaldo Orico:
Tu me queres alva,
me queres de espuma,
me queres de nácar,
que seja açucena
mais casta que todas.
De perfume suave;
corola fechada.
Nem raio de lua
filtrado me toque.
Nem a margarida
seja minha irmã.
Tu me queres nívea,
Tu me queres branca,
tu me queres casta.
Tu, que as taças todas
já tiveste à mão.
Os lábios corados
de frutos e mel.
Tu, que no banquete
coberto de pâmpanos,
as carnes gastaste
festejando a Baco.
Tu, que nos jardins
escuros do engano,
lascivo e vermelho
correste no abismo.
Ó tu, que o esqueleto,
não sei por que graça
ou por que milagre
conservas intacto,
só me queres branca,
(que Deus te perdoe!)
só me queres casta,
(que Deus te perdoe!)
só me queres alva.
Foge para o bosque,
vai para a montanha,
purifica a boca,
vive na humildade.
Segura com as mãos
a terra orvalhada.
Alimenta o corpo
de raiz amarga.
Bebe a água das rochas,
dorme sobre a geada,
renova os tecidos
com salitre e água.
Conversa com os pássaros,
lava-te na aurora.
E já quando as carnes
ao corpo te voltem,
e quando hajas posto
nas carnes a alma
que, pelas alcovas
ficou enredada.
Então, homem puro,
pretende-me nívea,
pretende-me branca,
pretende-me casta.
Hoje quase não se ouve falar de Oswaldo Orico (1900 — 1981), escritor paraense, diplomata, poeta, contista, romancista, biógrafo, da Academia Brasileira de Letras, autor de mais de 20 livros, pai de Vanja Orico. Era bom escritor,
muito lido em sua época. Sua tradução deu numa obra prima da lírica portuguesa, como uma leve canção.
Alfonsina Storni nasceu na Europa mas foi com os pais para a Argentina em 1896, onde foi costureira, operária, atriz e professora. Dizem que sabendo que estava com um câncer no seio em 1938 suicidou-se. Antes de se suicidar, escreveu o soneto “Voy a Dormir” e falam que se matou andando
para dentro do mar, como na canção "Alfonsina y el mar", de Mercedes Sosa. Seu corpo foi encontrado no mar no dia 25 de outubro de 1938. Alfonsina tinha 46 anos.