domingo, 31 de maio de 2009

Tiradentes: Rua Direita














Tiradentes: Rua Direita


Rogel Samuel


Naquela rua é bom caminhar, visitar a Ivana, entrar na casa da Índia, no atelier de Lyria Palombini. É delicioso caminhar bem cedo em direção à pequena padaria, para a média e pão com manteiga. Depois descer a rua direita até à praça, pisando naquelas pedras traiçoeiras. E sair do centro histórico da cidade, passar pelo hotel do Bebeto, e caminhar até o rio, e sua ponte. Ali ficar vendo as águas que passam, a paisagem, as margens, sem pensar. E alguns velhos pescadores estendem suas linhas, e pelo bem dos peixes torço que nada pesquem. Cavalos, bicicletas, cães. O mundo afastado, o mundo em paz, pousado ali. O jardim da estação de trem, redondo, suas aléias. Eu me sento. Ouço tudo, sinto o aroma silvestre e me engolfo no verde. Por que pensar? No silêncio pleno meu espírito está em paz. Sou um momento de felicidade, posso continuar sentado. Como de sempre, minha companhia fuma. Mas eu nem reclamo, ali. O fumo some, a vida se esfumaça, o tempo se dilui, as ondas dos ares se abrem, é possível existir num instante, naquele instante eterno.

sábado, 30 de maio de 2009

Poema de Jefferson Bessa sobre foto de R. Samuel










Foto digitalizada.




Ponto luz

Poema de Jefferson Bessa

ponto luz
no dia ofuscado,
na noite negra da alma.

um sol,
um cometa
meus olhos.

uma bola de fogo
um amarelo
a luz do dia
o ouro.

um ponto iluminado

aura que flutua
amarela, forte
e dança
a alma de luz.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

A Nona Sinfonia de Santoro





A Nona Sinfonia de Santoro

Rogel Samuel



Ah, como lastimo: nunca mais teremos no Brasil uma orquestra como a Orquestra Sinfônica de São Paulo sob a direção de John Neschling. Sem o maestro, o conjunto será outro. É sempre assim. New York, Boston, Berlin, Chicago, Viena, Cleveland, Philadelphia etc foram grandes orquestras só sob a batuta de Barbirolli, Fürtwangler, Klemperer, Toscanini, Bruno Walter, Haitink, Bernstein, Fritz Reiner, Kleiber, Kubelik, principalmente Mravinsky, para mim o maior de todos. Não é a orquestra, mas o maestro quem faz a arte.

Por isso, depois de ouvir este CD, com as sinfonias 4 e 9 de Claudio Santoro, com todo aquele brilho, como toda aquela envergadura, com toda aquela grandiosidade, principalmente a Nona Sinfonia de Santoro, lúcida, forte, mistura de tudo o que Santoro já fez...

Custei a reencontrar este CD. Creio que está vendendo bem. Da primeira vez que o vi, numa livraria, não o comprei. Disse comigo que já tinha aquelas sinfonias em outra gravação. Quando voltei lá, todas as cópias vendidas.

Santoro levou quase 20 anos entre a oitava e a Nona Sinfonia, durante seu longo exílio. Com a Nona ele resumiu tudo o que compôs, desde as composições atonais, passando pelo parâmetro do realismo-socialista soviético, até a temática brasileira, o lirismo, o trágico, o passional, o sublime, com maestria e polifonia. Desde os compassos lentos, as passagens graves, a coloração dramática, a "homenagem a Brahms", a Nona Sinfonia de Santoro é uma obra-prima e nesta interpretação está impressionante.

Toda a sinfonia se tece em umas poucas notas que se repetem, em súbitas variações, na orquestração e nos diferentes tempos. Aí a arte é que Santoro nos leva a um tal grau de elevação espiritual e amplidão que penso que a peça deveria chamar-se SINFONIA AMAZÔNICA.

O CD ganhou o prêmio Diapason D´Or, na edição brasileira da revista francesa Diapason.

JOHN NESCHLING & OSESP-ORQUESTRA SINFÔNICA DO ESTADO DE SÃO PAULO & CLÁUDIO SANTORO, 2006, Biscoito Fino. ISSN: 7898324752186


Dante: visão e seu sentido
















Dante: visão e seu sentido



Rogel Samuel

Chove fraco no Rio. Mas o calor aumenta. A umidade. Mas Amelia Pais, por email, lembra que hoje é dia de aniversário de Dante. E eu traduzo, livremente.

Dante da Mayano pergunta:

Vocês que são inteligentes, considerem esta visão
e por favor me mostrem seu verdadeiro sentido.
Estava assim: uma justa mulher, ganhando de cujo perfume
traz a meu coração muito prazer, me fez um presente
de uma guirlanda de copado verde; e bela assim me fez.
E então eu parecia me achar vestido
de umas vestes que ela tinha usado. Mas eu me fiz
tão corajoso que suavemente a abracei.
Ela não não resistiu. E sorriu. E quão sorriu
que a beijei repetidamente. Eu não direi
o que seguiu - ela me fez jurar.
E a morta minha mãe estava com ela.

Dante Alighieri responde:

Você sabe interpretar o tema,
inteligente como você é; assim não entrarei
em qualquer disputa com você. Mas só me diga
como melhor eu posso elegante responder.
Esta visão - falando como amigo - é que o presente
de você falou é seu desejo, que significa mérito ou beleza,
desejo que raramente se acaba. E o vestuário,
certo que seja o amor, dado por ela a quem você deseja,
como realmente seu espírito bem advinha.
Eu digo isto devido ao ato que seguiu.
A morta figura que veio junto à cena é a constância
com que estará agora ela no coração.


Traduzo do inglês. Fonte:
http://www.danteonline.it/english/opere.asp?idope=6&idlang=OR

quinta-feira, 28 de maio de 2009

A enchente de 53





A enchente de 53



Sim, um amigo me fala da enchente de 1953, em Manaus, e eu lhe digo que a conheci, tinha dez anos de idade, até já escrevi sobre isso. Ele me pede a crônica para ler e eu não encontro - escrevo diariamente uma mini-crônica, a maior parte das vezes no próprio blog, on-line, não guardo nada comigo...

Vejo esta foto, copiada de "Palavra do fingidor", do poeta Zemaria Pinto. A rua Marquês de Santa Cruz esquina com não sei qual. Duas pessoas caminham no primeiro plano. São duas mulheres, possivelmente mãe e filha, a menina tem até a saia no joelho, atual. Atrás tem um cachorro, até hoje Manaus tem muitos cachorros de rua. Coitados. Mas tem poucos mendigos. À direita se podem ver dois "burros sem rabo", para transporte de carga, tração humana, não existem mais, que eu saiba. Ao fundo se pode ver um grande navio, a moda antiga, grande chaminé. Dominando a foto está a passarela sobre
a rua inundada no centro da cidade. E a Drogaria Fink, famosa. Debaixo dágua.

Mas me lembro bem de cena como esta, possivelmente estava com minha mãe. Eu na
época morava perto, na rua 24 de maio.

Curioso: os homens andavam de branco. Quando apareceu um rapaz de camisa vermelha foi um escândalo. E só muito recentemente de camisa estampada.

Sim, em Manaus só se andava a pé. Com guarda-chuva aberto, contra o sol. Não sei por que não se usam mais as sombrinhas e guarda-chuvas debaixo do sol.

Quem será aquela senhora que sobe a rua com sua filha? Já terá morrido? A vida é curta, a vida é sonho.

terça-feira, 26 de maio de 2009

A linguagem da matéria


Baudelaire sobretudo, sobe, eleva-se para chegar ao centro de tudo, hegeliano, eleva-se para materializar-se, numa ascensão ao concreto, mergulho no coração do real da realidade, como no sistema de Hegel que faz a manifestação do saber concreto, que pretende ser a própria realidade que toma consciência de si mesma, quando a realidade torna-se sujeito de si mesma. A “experiência faz a consciência em seu apreender efetivo”. É a dialética que faz a logificação do concreto, a ascensão ao concreto, na ultrapassagem da fase anárquica para a conceituação lógica final. Lógica que não é do pensamento, mas lógica do movimento da realidade. Esta “ascenção” do abstrato ao concreto faz um movimento que atua no conceito da logificação da realidade, progredindo do entendimento à razão, e da razão que observa para a razão que opera e unifica. A poesia é a manifestação dessa logificação, dessa materialidade.

Elevação

Por sobre os pantanais, por sobre os descampados,
Por sobre o éter e o mar, por sobre o bosque e o monte,
E muito além do sol, muito além do horizonte,
Para além dos confins dos longes estrelados,
Meu espírito, vais, todos os céus te movem,
Como um bom nadador cais em delíquio na onda,
Sulcas alegremente a imensidão redonda,
Levado por volúpia indizível e jovem.
Bem longe deves voar destes miasmas tão baços;
Vai te purificar por um ar superior,
E bebe, como um puro e divino licor,
O claro fogo que enche os céus lúcidos e serenos!
Este cujo pensar, como a andorinha, muda
Para o céu da manhã num vôo ascensional,
- Que plana sobre a vida a entender afinal
A linguagem da flor e da matéria muda!

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Escrevo de madrugada

Escrevo de madrugada. Cansado? Insone. Mas feliz. Hoje fiz muita coisa. Almocei com a Nappy, na cidade. Visitei um sebo. Comprei vários livros. Gosto de sebos. Dou-me melhor neles do que em livrarias modernas, daquelas que têm café, lan-house, frescuras. Gosto dos compradores de sebo. Há um cidadão no Rio que tem cerca de 13 mil livros de guerra.
- É um militar? - pergunto.
- Não, responde o vendedor, é um colecionador... Tem livros em diversos idiomas, mesmo os que não lê.
Sim, fico pensando. Eu gostaria de ter dinheiro para comprar uma casa para ir arrumando meus livros dentro. Por assunto. Creio que morrerei sem conseguir isso. Já tive várias bibliotecas. Perdidas. Ao longo dos anos fui-me mudando para apartamentos cada vez menores. No atual, consegui camuflar um armário de ferro cheio de livros no corredor do prédio, trancado a cadeado, graças a uma reentrância. Quase não se vê. Mas não tenho tanto livro. Não tenho espaço. Os livros, entretanto, se amontoam e eu não acho nada. Qual meu livro mais precioso? São as "Primeiras estórias", de Guimarães Rosa, autografadas para Antonio Carlos Vilaça, que autografou para mim. Villaça, esse sim, tinha desprendimento. E estilo, era um perfeito estilista, um escritor de estilo limpo, claro, elegante, insinuante.

domingo, 24 de maio de 2009

Helena






Helena

Rogel Samuel

- Mas tem dado na televisão o tempo todo, me diz a vizinha e síndica do meu prédio.

Difícil explicar que não vejo TV assim como ela.

Minha amiga Annie, em Paris, nem tem televisão em casa. Minha falecida e querida Helena também, aqui no Rio, no Flamengo.

Nunca me recuperei da morte de Helena. Ela foi uma das pessoas a quem mais amei. Não, eu não soube corresponder à altura ao seu amor.

Helena era de família nobre, antiga, tradicionalíssima do Brasil.

- Tenho dois bispos na família, dizia ela, sem afetação.

Como estava empobrecida, já tinha vendido todas as jóias de família e então portava umas coisas de plástico, compradas em camelô de rua, que no seu colo pareciam autênticos Cartier.

Culta, educada no Estados Unidos, falava línguas e lia muito. Eu a conheci literalmente numa Biblioteca Pública. Bom lugar.

Tinha um porte fidalgo no andar, no falar, sem orgulho, com naturalidade. Mas não tinha TV.

Nunca me recuperei.

sábado, 23 de maio de 2009

A catedral









A catedral

Rogel Samuel


Meu pai cresceu ao lado dessa catedral. Quase cantou no seu coro. Eu amo a catedral de Strasburgo não é por isso. É pelo seu mistério. Espero vê-la ainda várias vezes, antes de morrer. É um lugar tão imponente que vale uma viagem só para vê-la. Mas a melhor hora de visita é pouco antes das 18 horas. Fique perto do relógio lá dentro e espere. Às 18 horas sai um boneco de metal, uma caveira, sai de dentro de uma portinhola e bate um sininho cujo som se expande e domina toda a nave. E o grande sino lá em cima responde. A caveira representa o tempo, a morte, a transitoriedade de tudo, nos diz que vamos morrer um dia. O sino maior não está em uso, está no chão, você pode ver e tocar nele. É tão grande que seu som estava abalando a estrutura de 142 metros de altura daquela construção... para ter uma idéia veja, compare com a altura das pessoas que estão no chão na foto, click para ampliar. Mas há outro sino, mais sinistro ainda, mais trágico, que só toca poucas vezes em cada Século, ainda bem, só em grandes calamidades mundiais, guerras, pragas... meu pai o ouviu, durante a Primeira Guerra Mundial... Depois dela, daquela sinistra caveira, sai outro boneco pelo outro lado... e bate o sininho de som fino, agudo, terrível... e o possante e grande sino responde... e depois vem outro boneco, e bate, e responde, e bate, e responde até que o grande órgão da igreja literalmente desaba como uma catástrofe sonora, numa tempestuosa massa de sons crescentes maiores mais possantes mais volumosos até que você tem que se segurar para não cair desmaiado ou morto ou desfalecido e em prantos...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Minha tática é ficar para sempre








Minha tática é ficar para sempre

Rogel Samuel

Escreveu Ricardo Bada em El Espectador da Colômbia que Mario Benedetti tinha muitos desafetos no mundo hispânico, que falavam mal dele porque nunca deixou de defender a Revolução Cubana, porque ele tinha um público sem precedente desde Os 20 poemas de amor e uma canção desesperada de Pablo Neruda, porque era lido pela juventude e pelos mais velhos, e porque ele tinha uma carreira literária de mais de 60 anos com êxito.

Bada diz que se encontrou com ele muitas vezes, como em Francfurt, em Berlin, em Madrid, onde almoçaram juntos em uns restaurantes pequenos que ele escolhia deixando para Bada a escolha dos vinhos.

A última vez foi em Montevidéu, em janeiro de 2002, quando lhe deu um exemplar do seu livro de haikus na sua residência. Bada já esperava a morte do amigo querido.

Benedetti consagrou-se com a novela A trégua, diz Ricardo Bada, em 1960, que deve ser sua obra-prima, com mais de 100 edições em espanhol e 19 idiomas, adaptada para o cinema, teatro, rádio e TV.

Bada termina contando que havia uma garota de programa em Madrid que se anunciava assim: “Minha tática é ficar para sempre em sua lembrança”.

Esta era, diz Bada, a tática de Mario Benedetti, a de ficar para sempre na nossa lembrança.

Shodoka: A canção da liberdade




Shodoka: A canção da liberdade

Rogel Samuel


Um dos textos mais belos do Zen é este "Shodoka: A canção da liberdade" de Daishi de Yoka (nasceu por volta do ano 665 e morreu em 713), de que traduzo os primeiros versos da tradução de Yasuda Joshu roshi e Anzan Hoshin roshi.

Diz Taisen Deshimaru que "Yoka nasceu em 665, na aldeia de Yoka, de onde vem o seu nome. Tornou-se monge com a idade de vinte anos e deixou sua casa com o objetivo de estudar o budismo em todas as suas formas, bem como os pensamentos de Lao-Tzu e Confúcio. Mas os estudos não o satisfaziam e a dúvida persistia. Um de seus amigos sugeriu que se apresentasse ao Mestre Eno (Houei-Neng, em chinês), o sexto patriarca, no monte Sokei, para compreender a verdadeira essência da filosofia do budismo. Yoka morreu em 713, na postura zazen. Dizem que seu corpo foi embalsamado nessa postura. Depois de sua morte, o imperador lhe deu o nome de Muso, "O Incomparável", Daíshi, "Grande Mestre". Ele escreveu o Shodoka que contém a essência de todos os sutras e do Zen".




Você alguma vez viu alguém no Caminho?

Além da ação e além do aprender,
a pessoa está livre,

não luta contra ilusão
ou não se apega à verdade.

A pessoa vê a natureza da ignorância
como a própria Consciência Essencial,

e a ilusão do próprio corpo da pessoa
é o Reino da Realidade.

Percebendo completamente
o Reino da Realidade como sem objeto,

a pessoa acha em si mesmo a fonte de todas as coisas
e sua própria natureza como a Consciência Desperta.

Os cinco agregados surgem e se deterioram como
nuvens sem propósito,
as três orientações torcidas vêm e vão
como bolhas de água.

A ipseidade se percebe, nem ego nem coisas existem;
num momento causa e efeito são livres.

Se qualquer coisa que eu digo é falsa
que minha língua seja arrancada durante eternidades incontáveis.

Em um único momento de despertar direto
para o Zen de Realidade como uma presença contínua,
as seis perfeições e meios hábeis incontáveis
estão completos.

Os seis reinos de existência são um sonho,
despertando-se não serão achados eles em nenhuma parte.

Nenhum erro, nenhuma felicidade, nenhuma perda, nenhum ganho;
você não achará estes na Natureza Atual.

Tendo deixado de esfregar pó do espelho,
seu brilho é completamente visto.

Quem é que pensa
no não-pensamento e não-existência?
O não-nascido é percebido
dentro do nascido.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ouvindo Claudio Santoro




Escrevo ouvindo Claudio Santoro. Pela Internet, na Radio Uol você pode ouvir um álbum de Santoro gratuitamenhte. Infelizmente é música da sua fase mais difícil. Mas música difícil tem uma virtude, nós precisamos ouvir várias vezes para "compreender". Não existe manual de instrução para ouvir-se música clássica, ainda que Aaron Copland escreveu em 1939 o seu clássico "What to Listen For in Music", traduzido no Brasil mas difícil de encontrar: "Como ouvir e entender a música", da Artenova. Música difícil é bom desafio para nossos ouvidos viciados. Música de vanguarda é sempre bom ouvir para quem gosta do novo. Eu lastimo que não haja no Brasil uma rádio ou TV com Santoro, Villa Lobos, Marlos Nobre, Guarnieri, Siqueira, Mignone, Brenno Blauth, Tacuchian, Sergio Vasconcelos Correia, Lindembergue Cardoso etc, vários são os nossos compositores de música clássica. Todos deveriam ser disponibilizados na Internet para a gente ouvir, conhecer. Isso cabe ao Ministério da Cultura, que nada faz pela música clássica. Ao contrário, no Brasil Cláudio Santoro, John Neschling e até Maria Callas experimentaram demissão. Maria Callas foi demitida no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, episódio que qualquer dia contarei...

terça-feira, 19 de maio de 2009

A água canta




Rogel Samuel

O outono lentamente se instala. Nas árvores, nas casas, no ar. Há a sutileza de um ar frio. Não é inverno, mas outono invernal. Dá para usar uma roupa um pouco mais quente. Ler um poema mais antigo de Bilac. Descreve o poema uma janela, o jardim, o mar. As folhas mortas, o navio o viajar o mar inabitado e morto. A água canta. É o amor quem canta. O fugidio amor que veio de noite, só por uma noite, amor marinheiro de Bilac que se sente envelhecido e desconfortado. O amor foge, ele é o sol. O mar está deserto, triste, as folhas amarelas caem, viuvez, velhice. Desconforto. Solidão.

Em uma Tarde de Outono

Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto.
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto...

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas,
Visitaste este mar inabitado e morto,
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas,
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto?

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos
A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos...
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol!

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste,
E contemplo o lugar por onde te sumiste,
Banhado no clarão nascente do arrebol...

Olavo Bilac

segunda-feira, 18 de maio de 2009

AZENHA LANÇA CD




Click na imagem para ampliar.

domingo, 17 de maio de 2009

Mario Benedetti




Mario Benedetti

Rogel Samuel

Em “Amor de tarde” Mario Benedetti se lastima como um burocrata no escritório, no trabalho, que escreve e trabalha com papel carbono, máquina de somar, telefone. O poema é simples, o poema segue mecanicamente as normas impostas pelo relógio de ponto, pelo regulamento, pela administração, um poema administrativo, um poema de planilha, carteira, identidade, do padronizado, em cujas colunas-versos se registram os cálculos do levantamento do tempo, um poema topográfico, de formulário impresso onde se lançam informações poéticas padronizadas, e que permite que estabeleçam entre elas relações definidas, por isso mesmo falsas, mentirosas, convencionais, como fórmulas lógicas e matemáticas que nunca se realizam, mas que servem para a venda, para o marketing pessoal, a ferramenta mais eficiente, o ambiente profissional, numérico, atencioso, gentil e dissimulado, no modelo de uma sociedade dos minutos e das cifras.


É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer "e aí?" e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Mário Benedetti faleceu ontem, aos 88 anos, deixando mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. Famoso por seus contos, "Esta manhã" (1949), "A última viagem" (1951), "Montevideanos" (1959), "A morte e suas surpresas" (1968), "Geografias" (1984), onde captou aguda e sutilmente os pequenos fatos da vida cotidiana do homem comum, e famoso por sua poesia, como os "Poemas de escritório" (1956) - e suas novelas, como "A trégua" (1960).

sábado, 16 de maio de 2009

Obsessão pelo poema




Obsessão pelo poema

Rogel Samuel


Não sei quantas vezes já me referi ao fato de que Baudelaire encheu seu poema de plurais, bosques, catedrais, órgãos, corações, gritos, tumultos, sombras, insultos, e mais. São temas baudelairianos, da visão exótica de seu mundo ”despoetizado”, Baudelaire foi primeiro poeta de um mundo sem “beleza”, desprovido de glamour romântico, por isso mesmo um poeta maldito, um poeta sem poesia, vivendo em quartos de terno luto, homem das grandes cidades modernas, e seus guetos, suas mazelas, suas telas negras, seus precipícios interiores, decadentes, um poema – como já escrevi, - ecológico, maldito, sonoro – onde os bosques têm rugidos como os grandes órgãos das catedrais, bosques em luto, em antigos choros, de duendes de fantasmas de fadas de demônios de flores das grandes árvores da montanha, os bosques se opõem aos oceanos - Baudelaire odeia os oceanos românticos, os tumultos da alma oceânica, riso amargo, sombras insultos, noite escura, sem estrelas, infinito negro, insondável, precipício, e o tradutor genial nos dá um verso extraordinário: "Porém as trevas são elas próprias as telas", telas do além dos rostos familiares, num bosque das lembranças estreladas em trevas.

LXXXII - Obsessão

Bosques, encheis de susto como as catedrais,
Como os órgãos rugis; e em corações malditos,
Quartos de terno luto e choros ancestrais,
Todos sentem ecoar vossos fúnebres gritos.
Eu te odeio, oceano! e com os teus tumultos,
Já que és igual a mim! Pois este riso amargo
Do homem a soluçar, todo sombras e insultos,
Eu o escuto no riso enorme do mar largo.
Como serias bela, ó noite sem estrelas,
Que os astros falam sempre claro em sua luz!
Busco o infinito negro e os precipícios nus!
Porém as trevas são elas próprias as telas,
Em que surgem, a vir de meu olho, aos milhares,
Seres vindos do além de rostos familiares.

BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Círculo do Livro, 1995. Tradução, posfácios e notas de Jamil Almansur Haddad.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Inverno antigo





Inverno antigo

Rogel Samuel

É um pequeno poema este de Salvatore Quasimodo. Com o apoio da tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti, ensaio uma tradução:

Desejo tuas mãos claras
na penumbra dessa chama:
sabiam a carvalho, rosas,
ou morte. Antigo inverno.

Pássaros buscavam milho
e eram súbito feitos neve;
como palavras.
Um pouco sol, um halo de anjo,
e logo a névoa, as árvores,
e nós, como o ar da manhã.

O poema é obscuro, difícil, como quase tudo que Quasimodo escreveu. Ele era um poeta hermético. As mãos estão em chama, mãos de desejo, mãos secretas, aqueciam no inverno, com ungüento perfumado de madeira e flor. Ou morte, um cheiro de morte. Fora, os pássaros aparecem, vem comer. O frio a neve as palavras. Amanhece? Um pouco de sol sobre as árvores, vence a névoa. E nós? Como o ar da manhã, de manhã o sol é um anjo. Poema difícil, porém belo. Cheio de sugestões, são lembranças? Imagens que passam, em flashes, em cenas desconhecidas, misturadas, compostas como a realidade.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Madrugada




Madrugada

Rogel Samuel


Escrevo na madrugada. O calor está quase insuportável. O silêncio da cidade é sufocado pelo som grave dos dois ventiladores funcionando. Nenhum automóvel passa nesta rua, de natural tão deserta. Como estarão os astros? De minha janela não tenho a visão do céu, como gostaria, moro no térreo, há plantas e árvores... Em Dênia, Espanha, eu tinha a visão ampla do mar, do céu e da pequena cidade lá embaixo. Era no município de Alicante, e aquela montanha se chama Pedreguer. Fiquei cerca de um mês. Foi uma bela experiência. Nossos momentos de vida mais ricos vivemos em recordá-los. Desenvolvi uma técnica de defesa que só me recordo das ocorrências mais belas e felizes. Isto é o meu lado indígena, herança de minha avó peruana filha de uma índia quechua. Dos andes. Tive pouco contato com minha avó quechua. Ela dizia que era nobre, da família Cellis, ou Celis, nobres espanhóis, família antiquíssima atestada desde a Roma antiga. Mas meu pai certa vez relatou que ela deveria ser filha natural de um espanhol com uma índia. Escrevo de madrugada, no calor carioca. Minhas lembranças me levaram a sonhar com Andes, Pedreguer e a figura de minha avó Antonia Samuel.

Óleo de Gustavo Dall'Ara (1865-1923) - Largo da Lapa, Rio (encontrado no blog
O fingidor)

A beleza que há em tudo




Rogel Samuel

Um mestre de meditação escreveu: "A felicidade reclama a aceitação dos outros, a simplicidade do coração e o deslumbramento do espírito". Dugpa Rinpochê era um monge budista que fugiu do Tibet durante a invasão chinesa, na companhia do Dalai Lama. Ele escrevia seus aforimos numa folhinha de papel, enrolava-o, meditava sobre aquele conteúdo, e depois, quando alguém o visitava, dava de presente ao visitante. Era sua oferta, seu mimo, seu regalo, uma dádiva, uma lembrança ao recém-chegado. Seus aforismos foram reunidos e traduzidos por minha amiga portuguesa Helena Melo, que me mandou.

Primeiramente ele morou em Dharamsala, depois em Nagarkot, no Nepal, a três mil metros de altitude, "à vista dos seus três cumes lendários: o Annapurna, o Melung Tse e a cordilheira do Everest, coroados de neve". Faleceu em Dharamsala em 1989.

É fácil encontrar seus "Preceitos de vida" na Internet. Durante trinta anos o velho monge recebeu pessoas que o procuravam pedindo orientação. Durante anos uso seus preceitos na minha vida. Durante muito tempo recebi inspiraçào de seus pequenos versos.

"A felicidade reclama a aceitação dos outros, a simplicidade do coração e o deslumbramento do espírito" significa, para mim, que minha felicidade está nos outros, depende deles, de eles estarem felizes. A simplicidade do coração põe em nós a volta da humildade, da alegria de uma criança. O deslumbramento do espírito é estar apaixonado pela vida exterior, pela paisagem do mundo, pela beleza que há em tudo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

As flores do mal de Maria Azenha



Rogel Samuel

Maria Azenha vai pelas oblíquas montanhas onde as mulheres desenham com os dedos os rostos muçulmanos velados escondidos falidos mulheres em terror elas não se querem mostrar e se escondem como freiras absurdas que dizem "nao ria"... Azenha deu voz a essas mulheres mudas veladas cansadas de sofrer cansadas de morrer...


AS FLORES DO MAL


Maria Azenha



pelas montanhas oblíquas
desenham as mulheres
o rosto com os dedos
rostos sempre tapados
para o terror dos vivos
não sei se elas se mostram
o que ao mundo querem dizer
freiras absurdas do vento e do medo
murmuram: “irmão, não deves rir”
não sei se elas se mostram
não sei se elas vão ser
não sei se elas agora choram
se cantam um burburinho forte
ou se são fadas com gemidos
sempre sempre sempre a dormir

não sei se elas são estátuas
não sei se são de vidro
se podem cantando chorar
pelos filhos e pelo marido

que grito hão-de dizer?
que grito hão-de soltar
se no exílio têm ficado
cansadas de morrer?

e o vento sopra
há poeira no deserto
sobre as montanhas oblíquas
afinal quem muito sofre
é quem nunca diz sofrer

de que serve tudo isto
de que serve isto tudo
com este véu sinistro?
quem foi que as viu nascer?

pássaros mortos.
um dia apodrecem.

e alá expõe a sua terrível máscara
repleta de sangue e horror