sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Os judeus na Amazônia

Os judeus na Amazônia
Rogel Samuel

Li “Eretz Amazônia – os judeus na Amazônia”, de Samuel Benchimol, para encontrar-me.
Minhas raízes judaicas.
Quando eu era jovem, na faculdade, aqui no Rio de Janeiro, meu apelido era “Judeu errante”.
Nem sei por quê.
O livro me foi enviado por uma grande amiga. Li-o com avidez, leitura fácil, agradável, Samuel Benchimol (1924-2002) era um bom escritor, além de pesquisador cultíssimo e professor catedrático.
Eu já o tinha muito lido, principalmente aquele seu extraordinário “Amazônia”, que amplamente usei na construção do meu romance “O amante das amazonas”.
E o conheci de vista, quando ele ainda morava na Rua 10 de julho, e jogava xadrez no “Luso” com meu irmão.
Li “Eretz Amazônia” para encontrar-me, ainda que não seja judeu, mas neto de judeu. Só é judeu filho de mãe judia, ou aquele que se converteu.
Minha amiga e escritora Bella Josef (1926-1910) um dia me convidou para aderir ao grupo, mas eu agradeci, estou muito velho para mudar.
E encontrei ali o meu avô Maurice Samuel em vários lugares do livro, principalmente no ”Boom do ciclo da Borracha”, da página 117, ao lado dos Levy, dos Kahn etc., homens empreendedores e muito ricos, todos franceses e alsacianos, como meu avô (Marius & Levy edificaram o edifício dos Correios, na esquina da Av. Eduardo Ribeiro o mais alto da cidade).
O escritório de meu avô ficava na rua Marcílio Dias, onde hoje está o Hotel Amazonas.
Ficava lá. E no meu coração.
Ele era dono do navio Adamastor, cuja figura se encontra no meu livro.
Faleceu na pobreza, no ano em que nasci: 1943.




quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

KATHMANDU, HOJE

Pessoas usam luvas brancas durante uma campanha de limpeza ambiental em Kathmandu, no Nepal

Morre a última sobrevivente da cela 4



Morre a última sobrevivente da cela 4

Texto de Luiz Antonio Ryff


Morreu, aos 102 anos, Beatriz Bandeira, a última sobrevivente da famosa cela 4 – onde foram presas, na Casa de Detenção, no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, as poucas mulheres que participaram da revolta comunista de 1935 no Brasil.

Foi na cela 4 que ficaram confinadas Olga Benário (esposa do líder da intentona, Luiz Carlos Prestes), a futura psicanalista Nise da Silveira, a advogada Maria Werneck de Castro e as jornalistas Eneida de Moraes e Eugênia Álvaro Moreyra.

Por conta dessa passagem, Beatriz virou personagem de livros como “Memórias do Cárcere”, o relato biográfico de Graciliano Ramos, que também esteve preso por causa da revolta.

Pouco antes, como militante comunista e da Aliança Nacional Libertadora (ANL), Beatriz conheceu seu marido, Raul, que viria a ser jornalista e secretário de Imprensa do governo João Goulart (1961-1964). Com ele se casou três vezes.

Os dois foram exilados duas vezes. Em 1936, depois da libertação, foram expulsos para o Uruguai. Em 1964, após o golpe militar, receberam abrigo na Iugoslávia e, posteriormente, na França.

Ao regressar ao Brasil, Beatriz continuou a militância política nos anos 70 e 80. Foi uma das fundadoras do Movimento Feminino pela Anistia e Liberdades Democráticas, que lutou pelo fim da ditadura no País.

Beatriz nasceu em uma família positivista. Seu pai, o coronel do exército Alípio Bandeira, foi abolicionista. Como militar, trabalhou no Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e ajudou o Marechal Cândido Rondon na instalação de linhas telegráficas no interior do País e no contato com tribos isoladas – Alípio liderou o encontro com os Waimiri Atroari em 1911, por exemplo.

Além de militante política, Beatriz foi poeta (publicou “Roteiro” e “Profissão de Fé”) e professora (foi demitida pelo regime militar da cadeira de Técnica Vocal do Conservatório Nacional de Teatro). Também escreveu crônicas e colaborou para o jornal A Manhã e as revistas Leitura e Momento Feminino. Há dez anos ela contou um pouco de sua história em uma entrevista à TV Câmara.

Beatriz morreu na noite de segunda (dia 2) após um AVC. Foi enterrada no final da tarde de hoje (dia 3) no Cemitério São João Batista, em Botafogo.

Uma nota pessoal

Beatriz Bandeira Ryff era minha avó. Nos últimos anos de sua vida centenária a senilidade tinha lhe tirado totalmente a visão. Ela quase não falava e mal se comunicava com o mundo.

Há uns dez dias, fui visitá-la levado pelo meu filho de 8 anos que queria dar um beijo na “bisa”. Encontramos ela mais presente do que em todas as visitas nos anos anteriores. Chegou a cantarolar algumas músicas que costumava embalar o sono dos netos quando pequenos, como os hinos revolucionários “Internacional”, “A Marselhesa” (embora ela também cantasse obras não políticas, entre elas a “Berceuse”, de Brahms).

Ao me despedir, perguntei-lhe se lembrava o trecho do poema “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, que ela costumava recitar. Ela assentiu levemente com a cabeça e começou, puxando do fundo da memória. Foram suas últimas palavras para mim.

“Não chores, meu filho;

Não chores, que a vida

É luta renhida:

Viver é lutar.

A vida é combate

Que os fracos abate,

Que os fortes, os bravos,

Só pode exaltar.”
 

(“Canção do Tamoio”, Gonçalves Dias)

Entre os meus amigos

Entre os meus amigos


Entre os meus amigos o amor é uma grande tristeza.
Tornou-se um fardo diário, um festim,
uma guloseima para loucos, uma fome para o coração.
Visitamo-nos uns aos outros perguntando, dizendo uns aos outros.
Não ardemos intensamente, questionamos o fogo.
Não caímos para a frente com os nossos rostos vivos
e ardentes a olhar para dentro do fogo.
Fixamente olhamos para dentro dos nossos próprios rostos.
Tornámo-nos as nossas próprias realidades.
Procuramos esgotar a nossa absoluta incapacidade de amor.

Entre os meus amigos o amor é uma questão dolorosa.
Procuramos entre os rostos
que passam
a face da esfinge que apresentará o enigma.
Entre os meus amigos o amor é uma resposta a uma questão
que não chegou a ser colocada.
Por isso coloquemo-la.

Entre os meus amigos o amor é um pagamento.
É uma dívida antiga cujo valor foi gasto de uma forma idiota.
E continuamos a pedir emprestado uns aos outros.
Entre os meus amigos o amor é um salário
que qualquer um pode receber para ter uma vida honesta.
Robert Duncan (1919-1988)
(Versão de Luís Parrado,(Do trapézio, sem rede - arspoetica -lp.blogpot.com

O ano acabou, como foi o ano?

O ano acabou, como foi o ano?
Rogel Samuel

2011 foi muito bom, termina bem. É certo que no seu final perdi uma amiga querida, mas a vida põe e tira, dá e toma, ao seu dispor, sem consultar. Particularmente foi um ano dedicado à leitura de Humberto de Campos, suas crônicas, críticas e seu Diário Secreto, que reli. Me fez muito bem, ensinou-me a escrever um pouco melhor. Tentei ler aprofundadamente Coelho Neto. Li crônicas, um romance, e parei. Passei à leitura das crônicas de Brito Broca, um excelente crítico, bom escritor. Escrevi pouco e li muito. Agora ando relendo Os sertões, leitura perigosa, pois costurada naquele estilo brabo. Mas obra máxima da nossa literatura. 2011 foi bom, termina bem.   


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

AS ONDAS DO TEMPO DESTE NOVO ANO

 (Ilustração de Goeldi)

Rogel Samuel


                Que a última estrofe de «O cemitério marinho» de Paul Valéry assim canta:

«Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o 
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! »

                Uso a extraordinária tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia.
                O poema enorme,  difícil.
                Desde que o li, pela primeira vez, há mais de quarenta anos, tento penetrar no mar de seu sentido. Às vezes, parece entender-se. Outras vezes, inatravessável é o seu mar. Mas sempre o sinto, o que importa. O que importa é sentir um poema. Não «interpretá-lo». Os intelectuais matam o poema, intelectualizam-no. Por isso Barthes foi tão bom crítico. Barthes fazia o texto falar, deixava-o falar-se.
               
«Esse teto tranqüilo, onde andam pombas,
Palpita entre pinheiros, entre túmulos.
O meio-dia justo nele incende
O mar, o mar recomeçando sempre.
Oh, recompensa, após um pensamento,
um longo olhar sobre a calma dos deuses! »

                Seja como for, Valéry nos abre à imaginação o grande oceano da morte. Mas «recomeçando sempre». Sempre, «sobre a calma dos deuses».
                Sei que não é algo para ser lido no Ano Novo, mas que tema mais religioso do que a morte neste túmulo do oceano de «tanto diamante de indistinta espuma» onde «quanta paz parece conceber-se!».

«Quando repousa sobre o abismo um sol, 
Límpidas obras de uma eterna causa
Fulge o Tempo e o Sonho é sabedoria. »


                O poema tem ímpetos de infinito, abre-se para a eternidade, «massa de calma e nítida reserva»:

«Água franzida, Olho que em ti escondes 
Tanto de sono sob um véu de chama,
-Ó meu silêncio!... Um edifício na alma,
Cume dourado de mil, telhas, Teto!»
 
        Valery disse que seu poema é sua «poesia verdadeira», mesmo as passagens mais abstratas. Disse que via ali uma espécie de «lirismo» , algo «abstrato mas de uma abstração motriz mais que filosófica».


Templo do Templo, que um suspiro exprime,
Subo a este ponto puro e me acostumo,
Todo envolto por meu olhar marinho.
E como aos deuses dádiva suprema,
O resplendor solar sereno esparze
Na altitude um desprezo soberano.

Diz da vida, do amor, da ordem e desordem da vida e do amor, do mar e do sol, das colinas das ondas, da chave do mistério do «mar de nossa conversa», como dizia Cabral:
 

Como em prazer o fruto se desfaz,
Como em delícia muda sua ausência
Na boca onde perece sua forma,
Aqui aspiro meu futuro fumo,
Quando o céu canta à alma consumida
A mudança das margens em rumor.

        E faz uma reflexão sobre o tempo:

 
Belo céu, vero céu, vê como eu mudo!
Depois de tanto orgulho e tanta estranha
Ociosidade - cheia de poder -
Eu me abandono a esse brilhante espaço,
Por sobre as tumbas minha sombra passa
E a seu frágil mover-se me habitua.
 

        É uma reflexão sobre os movimentos das ondas da vida:

A alma expondo-se às tochas do solstício,
Eu te afronto, magnífica justiça
Da luz, da luz armada sem piedade!
E te devolvo pura à tua origem:
Contempla-te!... Mas devolver a luz
Supõe de sombra outra metade morna.
 
        O poema foi publicado no número de junho de «La Nouvelle Revue française», mas ele deve ter trabalhado no poema desde muito tempo.


Oh, para mim, somente a mim, em mim,
Junto ao peito, nas fontes do poema,
Entre o vazio e o puro acontecer,
De minha interna grandeza o eco espero,
Sombria, amarga e sonora cisterna
- Côncavo som, futuro, sempre, na alma.
 

Aqui vindo, o futuro é indolência.
Nítido inseto escarva a sequidão;
Tudo queimado está desfeito e no ar
Se perde em não sei que severa essência,
Faz-se a amargura doce e claro o espírito.
 


Ergue-se o vento! Há que tentar viver!
O sopro imenso abre e fecha meu livro,
A vaga em pó saltar ousa das rochas!
Voai páginas claras, deslumbradas!
Rompei vagas, rompei contentes o 
Teto tranqüilo, onde bicavam velas! 
 
É esta tradução de Darcy Damasceno e Roberto Alvim Correia que me ocorre das ondas do tempo neste Novo Ano.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O escritor realizado


O escritor realizado

Rogel Samuel



Uma amiga me faz uma pergunta basilar:

- O que faltou para você ser um escritor realizado?

A questão está posta de modo errado, por isso ela é irrespondível.

Pois, o que será um escritor realizado?

Será ser um best-seller?

Benjamim Costallat, autor de “Mademoiselle Cinema”, foi um dos autores mais lidos na década de 20 e hoje ninguém nem conhece.

Mesmo Coelho Neto, Humberto de Campos, glórias de seu tempo, quem hoje os lê? Só são lembrados como nomes de rua.

Alguns Prêmios Nobel de Literatura jazem hoje no sepulcro das bibliotecas onde ninguém mais os lê nem sabe deles, como Maurice Maeterlinck, Gerhart Hauptmann, ou Karl Adolph Gjellerup.

Escritor plenamente realizado é aquele que escreveu todos os textos que quis ou pôde escrever, e isso eu o fiz com os meus romances, minhas novelas, meus contos, crônicas e poemas.

Se minha amiga X. não os leu nem sabe deles é porque não quer ou não quis. Todos estão publicados e disponíveis e acessíveis em livro e principalmente na Internet.







domingo, 1 de janeiro de 2012

FELIZ ANO NOVO, BRASIL!

Dois milagres de Réveillon

Dois milagres de Réveillon antigo

Rogel Samuel

No meio da noite perdi meus óculos. Estava chovendo, tirei-os do rosto, pus no bolso, e pronto, perdi. Depois procurei por várias vezes e nada. Hoje, um barraqueiro a quem indaguei me devolveu. Arranhado, meio torto, mas funciona.
O outro milagre, na minha procura pelo perdido achei um passarinho pequenino. Tinha caído certamente do ninho. Estava quietinho. Escondidinho. Tomamo-los nas mãos e trouxemos para casa. Tentamos alimentá-lo. Lá pela uma hora do Ano Novo, minha vizinha, que é criadora de pássaros (que não a descubra o Ibama!), chegou em casa e eu passei o filhote para ela, que o saberá curar, tratar, e fazê-lo voar para a vida!


sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO E, COMO DIZIA DONA MARIA AUGUSTA PERREIRA BATISTA, "TUDO DE BELO E DE BOM"!

FELIZ ANO NOVO E, COMO DIZIA DONA MARIA AUGUSTA PERREIRA BATISTA, "TUDO DE BELO E DE BOM"!

Rogel Samuel

Minha saudosa amiga, Dona Maria Augusta Pereira Batista, era uma senhora idosa na casa de quem eu morei na minha juventude no Rio de Janeiro.
Eu a conheci no mosteiro budista de Santa Teresa.
Habitei um quarto no apartamento dela na Praça da Cruz Vermelha, em frente ao bar Ali Babá, que era um bar de bandidos que, naquele tempo, eram amistosos e de cuja convivência privar era um privilégio.
D. Maria Augusta, que morava só, cuidou de mim como uma mãe, e certamente foi umas das melhores pessoas que conheci.
Era pobre, mas de família ilustre, meio-parente do Dr. Joaquim Murtinho e tinha – abandonada! – uma casa na Pedra de Guaratiba.
Abandonou aquela casa no dia em que faleceu o marido.
Um dia, fomos, eu e ela, ver a casa.
Ainda estava lá, tal como ela a deixou, a mesa posta para o almoço daquele dia, dez anos antes, em que o seu ex-marido faleceu.
Tudo estava intacto, como num museu, como naquele dia!
Feliz saudade, Amiga!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

É dentro de você que o ano novo cochila e espera desde sempre

RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Os anos estão passando rápidos demais

Os anos estão passando rápidos demais

Rogel Samuel

A sensação é que o tempo passa muito veloz, e com a vida se esvai e encurta. Nossos planos não realizados vão pedindo urgência, o mundo gira logo.
Certa vez disse-me uma amiga:
- Passei a vida inteira pensando no futuro, e agora vejo que o futuro já passou.
Que é viver? Permanecer, ou passar?
Escreveu João de Deus:

“ A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares
Uma após outra lançou,
A vida – pena caída -
Da asa de ave ferida –
De vale em vale impelida,
A vida o vento a levou!”


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Antonio Carlos Villaça

Quando eu chegar ao Céu...


Antonio Carlos Villaça


Quando eu chegar ao Céu, de manhã, de tarde ou de noite, não sei ainda, pedirei para ir à biblioteca de Deus, onde curiosamente bisbilhotarei — com respeito — algumas obras. Quero reler a Invenção de Orfeu, de nosso Jorge de Lima, sofredor, telúrico e místico, homem bom, cirenaico, assim lhe chamou Rachel de Queiróz, quando ele morreu, novembro, 15, do ano de 1953.

E pedirei, sim, para conversar com Manu, Manuel Bandeira, que se chamava Neném. Matarei saudades do dentuço Manuel, que foi o melhor ser humano que conheci, neste mundo. E gostaria de conhecer Chiquita do Rio Negro, que recusou casar se com Ataulfo Nápoles de Paiva, conviva do baile da ilha Fiscal. Escrevi sobre Chiquita. Li a sua biografia, escrita por Garrigou-Lagrange.

Meu Deus, convocaria Jaime Ovalle, o tio Nhonhô, que morreu com a idade de Jorge de Lima. Ali, na biblioteca do Céu, conheceria o estupendo Ovalle, o do Azulão, o bêbedo místico, o amigo de Manuel, íntimo de Londres e de Nova York.

Por fim, suplicaria para falar com João Guimarães Rosa, poliglota, com quem tão poucas vezes falei. E evocaria a posse do seu sucessor, na Casa de Machado. Esqueci-me completamente dessa posse, ai de mim.

E fui. Lá estava eu, 1968. Um ano depois da morte de Rosa. Mário Palmério falou sobre ele, como seu herdeiro. E gostei tanto do discurso, equilibrado, lúcido, original. Se me lembro. Foi procurar cartas íntimas de Rosa para grande amigo, médico e fazendeiro em Minas, Moreira Barbosa. Cartas de outrora. Deliciosas, fraternais, confiantes, de pura entrega. Reveladoras do ser complexíssimo, fechado, carente, que gostava de disfarçar, despistar, ir e vir, comensal do mistério. Saudarei a uns e outros na largueza dadivosa do Céu, turbilhão de amor, como dizia o insaciável Léon Bloy.


Texto extraído do livro “Os saltimbancos da Porciúncula”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1996, pág. 73.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Jalna Gordiano



Jalna Gordiano

O fim está próximo*
Quantas vezes pensei
em me afundar na terra
E nunca mais voltar por tanta vergonha,
Mas tenho a alma de um pugilista em fim de carreira.
Ele me obriga a cerrar os punhos, fazer cara feia
E gritar o primitivo;
Voltar à luta.
Minha vida decresce em tons ascendentes
Descrentes...
Sou feito à lua e mudo rapidamente em fases;
Sou o deus sol
Aprendi a lentamente mostrar minha divisão em estações.
Quando meu rosto está no chão,
Eles vêm e pisam minha cara;
Escondo o riso.
Quem me julga,
Tem os discursos mais incisivos...
São mais drogados,
Traíras,
Sujos da pior bosta
Que só a infelicidade, vazio
E falta de comoção produzem.
Quem me julga,
Usa as máscaras mais ridículas
E inverossímeis nas almas,
Tristes palhaços de sim mesmos.
Sou eterna e tenho medo do fim.
Sinto muitas dores e medos evidentes,
Bares e igrejas sempre existirão.
O que me permite tanta liberdade
É minha inconstância.
Preciso somente ser
Um pouco mais de paciência:

[do livro ASMA dentre outros prazeres, a dor
de Jalna Gordiano, copiado de
http://blogdoalienista.blogspot.com/]

NAUFRÁGIO

Naufrágio

Rogel Samuel

Toda vez que sei de um naufrágio, no Amazonas, lembro-me de meu pai que simplesmente nos proibia de viajar naqueles “navios de linha”.
Ele, que viajou sozinho em sua lancha durante 40 anos por rios e lagos, sabia que a navegação nos rios da Amazônia não oferece nenhuma segurança, o que descrevo no meu livro como (Pierre Bataillon) “temia viajar naquelas águas cheias de paus, troncos, bancos de areia, torrões, pedrais, salões e muiunas, rebojos, ituranas, panolas, panelões, praias, sacados, jupiás, ipuêras, baixios, cambões, caldeirões, esqueletos, praias de duas cabeças, voltas - todos obstáculos e perigos da navegação ordinária, de grande ou de pequeno calado, para navios, motores, canoas, montaria e igarités, tudo, toda uma massa de uma teoria infernal de perigos a evitar, a contornar, a vigiar, a desafiar, a temer”.
Meu pai dizia que no Purus há mais barcos afundados debaixo do rio do que navegando por cima.
Certa vez fiz um barco voltar para o porto depois de partir: era um pequeno barco que ia atravessar o Amazonas pelo “Encontro das águas” que foi ficando cada vez mais cheio de gente naquelas águas tumultuadas e mortais.
E não me arrependo.
Aprendi com ele, o meu pai.
Aprendi a temer aqueles rios.



NAUFRÁGIO


Manaus - Duas mulheres e duas crianças estão desaparecidas nas águas do Rio Negro, desde o início da tarde desta terça-feira (27), após o naufrágio de uma canoa com rabeta, que navegava próximo à Praia do Tupé, a 25 quilômetros de Manaus. Segundo informações do Corpo de Bombeiros, havia cinco pessoas dentro da embarcação, sendo que a capacidade era de apenas três.

A canoa naufragou por volta de 14h, durante uma forte chuva. Os desaparecidos estão identificados como Maria Nete, 35 anos, Maria Lopes da Silva, 35, Bruno da Silva Alves, de 4 anos, e Maysa, também de 4 anos. Equipes de mergulho do Corpo de Bombeiros fizeram buscas aos corpos, mas nada foi encontrado. Apenas a canoa foi localizada a cerca de um quilômetro da margem. A operação encerrou às 18h, mas irá recomeçar amanhã, a partir das 7h, com novos procedimentos de mergulho de vasculha superficial pela margem do rio.

Um rapaz de 18 anos, identificado como Romário, que é irmão de Bruno, contou que o grupo seguia para a comunidade de Paricatuba, quando foi surpreendido pela forte chuva. Ele contou que conseguiu nadar até a margem, mas quando tentou resgatar o irmão, a criança já havia desaparecido.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

CARNAVAL ANUNCIADO

O Pico da Neblina


O PICO DA NEBLINA, AO LONGE
SONHA COM SUA MAJESTADE
E A DISTÂNCIA DA AMAZÔNIA
COBRA DE NÓS REVERÊNCIA

Rogel Samuel
(Foto de A. Araujo)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

VICENTE DE CARVALHO

Olhos Verdes

VICENTE DE CARVALHO - 1866 / 1924

Olhos encantados, olhos cor do mar,
Olhos pensativos que fazeis sonhar!

Que formosas cousas, quantas maravilhas
Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo;
Cortes pitorescos de afastadas ilhas
Abanando no ar seus coqueirais em flor,
Solidões tranqüilas feitas para o beijo,
Ninhos verdejantes feitos para o amor...

Olhos pensativos que falais de amor!

Vem caindo a noite, vai subindo a lua...
O horizonte, como para recebê-las,
De uma fimbria de ouro todo se debrua;
Afla a brisa, cheia de ternura ousada,
Esfrolando as ondas, provocando nelas
Bruscos arrepios de mulher beijada...

Olhos tentadores da mulher amada!

Uma vela branca, todo alvor, se afasta
Balançando na onda, palpitando ao vento;
Ei-la que mergulha pela noite vasta,
Pela vasta noite feita de luar;
Ei-la que mergulha pelo firmamento
Desdobrado ao longe nos confins do mar...

Olhos cismadores que fazeis cismar!

Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar... Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fimbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa...

Olhos abençoados cheios de promessas!

Olhos pensativos que fazeis sonhar,
Olhos cor do mar!

 

Brasil é sexta maior economia do mundo em 2011