segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Em noite de surpresas, Emmy consagra “Modern Family” e “Breaking Bad”

Em noite de surpresas, Emmy consagra “Modern Family” e “Breaking Bad”

Por iG São Paulo |
       

Tediosa, cerimônia foi marcada por excesso de homenagens póstumas, primeiro troféu para internet e triunfo do filme “Behind The Candelabra”




Produtor executivo Steven Levitan recebe a estatueta de Melhor Série de Comédia por "Modern Family". Foto: Getty Images
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Aconteceu em Los Angeles na noite deste domingo (22) a 65ª edição do Emmy Awards, premiação considerada o Oscar da televisão norte-americana. Comandada pelo ator e comediante Neil Patrick Harris, a cerimônia consagrou “Breaking Bad” como Melhor Série de Drama e “Modern Family” como Melhor Série de Comédia. Apesar de várias surpresas nas categorias de atores,
 
 
 
A noite se mostrou extremamente tediosa e cansativa, mesmo apelando para sequências musicais, homenagens à TV e uma porção de momentos “in memoriam”.
Em meio a muitos discursos a favor da televisão e a importância de sua história, saiu em 2013 o primeiro Emmy para uma série feita para internet. Já esperado, David Fincher (“House of Cards”) ganhou Melhor Direção em Série de Drama, pelo piloto da atração produzida com exclusividade para o serviço de streaming Netflix.
A chance de “House of Cards” ganhar Melhor Série de Drama chegou a aterrorizar os executivos mais conservadores da TV, mas “Breaking Bad” foi finalmente reconhecida, depois de três anos debaixo da sombra de “Mad Men”, anulando a possibilidade da internet se sobressair -- pelo menos no Emmy.
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Este foi o quarto troféu de Melhor Série de Comédia para “Modern Family”. Apesar da escolha segura, afinal a série mantém o brilhantismo no roteiro e elenco desde a primeira temporada, existia uma ponta de esperança na despedida de “30 Rock”. Tina Fey, no entanto, levou para casa Melhor Roteiro de Comédia, pelo episódio final da série da NBC.
Entre os mais inesperados, o azarão Jeff Daniels (“The Newsroom”) ganhou Melhor Ator de Série de Drama contra todas as apostas, em uma categoria onde era mais do que certo o troféu para Bryan Cranston (“Breaking Bad”), o ator de TV mais comentado este ano.
Os coadjuvantes também caminharam contra as previsões. No campo de comédia, Merritt Wever (“Nurse Jackie”) desbancou a favorita Sofia Vergara (“Modern Family”), enquanto Tony Hale (“Veep”) deixou para trás os imbatíveis de “Modern Family”. No drama, o vilão Bobby Cannavale (“Boardwalk Empire”) roubou o Emmy de Mandy Patinkin (“Homeland”), cuja torcida só aumenta a cada premiação, mas sem sorte.
Depois de ser esnobada pelas distribuidoras de cinema por ser “muito gay”, a cinebiografia “Behind The Candelabra”, sobre a vida do pianista Liberace, faturou Melhor Minissérie ou Filme Feito para TV, e ainda Ator e Direção -- Michael Douglas e Steven Soderbergh. Em um Emmy em que os prêmios foram bem distribuídos, foi de um filme o maior destaque do ano.
Considerando que os melhores roteiristas estão hoje na TV, discurso muito comum em Hollywood ultimamente, é certo dizer que nenhum deles trabalhou no Emmy em 2013. As apresentações caretas e excesso de homenagens póstumas (a Cory Monteith, James Gandolfini etc) fizeram da premiação uma das mais chatas deste ano.
Como disse Steven Levitan, produtor executivo de “Modern Family”, durante o discurso, “esse pode ser o Emmy mais triste de todos os tempos.” Só o Liberace salvaria.
Veja abaixo a lista completa de vencedores do Primetime Emmy Awards 2013:
COMÉDIA
- Melhor Série de Comédia
“Modern Family”
- Melhor Ator em Série de Comédia
Jim Parsons, de “The Big Bang Theory”
- Melhor Atriz em Série de Comédia
Julia Louis-Dreyfus, de “Veep”
- Melhor Ator Coadjuvante em Série de Comédia
Tony Hale, de “Veep”
- Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Comédia
Merritt Wever, de “Nurse Jackie”
- Melhor Roteiro em Série de Comédia
Tina Fey, de “30 Rock”
- Melhor Direção em Série de Comédia
Gail Mancuso, de “Modern Family”
DRAMA
- Melhor Série de Drama
“Breaking Bad”
- Melhor Ator em Série de Drama
Jeff Daniels, de “The Newsroom”
- Melhor Atriz em Série de Drama
Claire Danes, de “Homeland”
- Melhor Ator Coadjuvante em Série de Drama
Bobby Cannavale, de “Boardwalk Empire”
- Melhor Atriz Coadjuvante em Série de Drama
Anna Gunn, de “Breaking Bad”
- Melhor Roteiro em Série de Drama
Henry Bromell, de “Homeland”
- Melhor Direção em Série de Drama
David Fincher, de “House of Cards”
REALITY SHOW
- Melhor Reality Show
“The Voice”
MINISSÉRIE OU FILME FEITO PARA TV
- Melhor Minissérie ou Filme Feito Para TV
“Behind The Candelabra”
- Melhor Ator em Minissérie ou Filme Feito Para TV
Michael Douglas, de “Behind The Candelabra”
- Melhor Atriz em Minissérie ou Filme Feito Para TV
Laura Linney, de “The Big C”
- Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme Feito Para TV
James Cromwell, de “American Horror Story”
- Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Filme Feito Para TV
Ellen Burstyn, de “Political Animals”
- Melhor Roteiro em Minissérie ou Filme Feito Para TV
Abby Morgan de “The Hour”
- Melhor Direção em Minissérie ou Filme Feito Para TV
Steven Soderbergh, de “Behind The Candelabra"              
     

    "Behind the Candelabra" é o grande vencedor do Emmy com 11 prêmios
     


    Do UOL, em São Paulo                   






    Veja imagens da premiação do Emmy 201360 fotos

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    22.set.2013 - Matt Damon e Michael Douglas apresentam Elton john Kevin Winter/AFP
    O grande vencedor do Emmy 2013 foi o telefilme "Behind the Candelabra", estrela do por Matt Damon e Michael Douglas que conta a história do pianista gay Liberace. A produção levou os prêmios de melhor ator (Douglas), melhor diretor, para Steven Soderbergh e também na categoria melhor minissérie ou telefilme.
    No total, foram 11 prêmios, incluindo elenco, direção de arte, edição, hairstyling, mixagem de som, figurino, fotografia, maquiagem com prótese e maquiagem sem prótese. O filme da HBO, que no Brasil ganhou o título de "Minha Vida com Liberace", recebeu um total de 15 indicações ao Emmy 2013.
    "Modern Family" pela quarta vez levou o prêmio de melhor série de comédia. "Breaking Bad", em sua última temporada, levou pela primeira vez o Emmy de melhor série dramática.
    O primeiro Emmy da noite foi para a atriz Merritt Wever como melhor atriz coadjuvante de uma série de comédia por "Nurse Jackie". Completamente chocada com o prêmio, a atriz não deu discurso de agradecimento. Limitou-se a dizer: "Preciso ir embora." E saiu.
    Parte da surpresa se deve ao fato de que a colombiana Sofía Vergara aparecia em melhor posição para ficar com o Emmy de melhor atriz coadjuvante em comédia, prêmio que lhe escapara nas três últimas edições.
    Dentre os destaques nas categorias de comédia, estão o ator Jim Parsons, que levou o terceiro Emmy de sua carreira pelo papel de Sheldon na série "The Big Bang Theory", e Julia Louis-Dreyfuss, premiada por seu papel na série "Veep".
    Jessica Lange, considerada a favorita da noite na categoria melhor atriz de minissérie ou telefilme por seu trabalho em "American Horro Story - Asylum" perdeu para Laura Linney em "The Big C".
    Após ser ameaçada de morte por papel em "Breaking Bad", atriz Anna Gunn leva Emmy de melhor atriz coadjuvante em série de drama. Seus companheiros de elenco, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Bryan Cranston foi derrotado na categoria masculina por Jeff Daniels, por seu trabalho em "The Newsroom". Já Aaron Paul e Jonathan Banks perderam na categoria melhor ator coadjuvante em série de drama para Bobby Canavalle em "Boardwalk Empire".
    A cerimônia, apresentada pelo ator Neil Patrick Harris, começou com a participação de vários ex-apresentadores. Tina Fey e Amy Poheler, que também apresentaram a premiação em uma edição anterior, fizeram piada com a performance de Miley Cyrus no VMA.
    Sentadas na plateia, as duas pediam que Neil tirasse a roupa e dançassem o twerk.


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    Veja os famosos que passaram pelo tapete vermelho do Emmy 201362 fotos

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    22.set.2013 - Anna Chlumsky, indicada a melhor atriz coadjuvante de comédia por "Veep", chega à 65ª cerimônia do Emmy Leia mais Jason Merritt/Getty Images/AFP
    Homenagens
    O cantor Elton John participou da cerimônia fazendo uma homenagem ao pianista Liberace, interpretado por Michael Douglas no filme "Behind the Candelabra". O cantor inglês interpretou a canção "Home Again".
    Já a polêmica homenagem ao ator Cory Monteith, de "Glee", morto neste ano vítima de uma overdose, foi apresentada por sua companheira de elenco Jane Lynch, que destacou o humor "meio pateta" do rapaz e fez um alerta sobre os perigos das drogas.
    Por fim, a atriz Eddie Falco, protagonista da comédia "Nurse Jackie" foi responsável por homenagear o colega de elenco em "Os Sopranos", o ator James Gandolfini, também morto neste ano. "Tive o privilégio de conhecer não apenas o ator, mas também o homem", disse.
    Veja a lista completa dos vencedores
    • Melhor atriz coadjuvante em série de comédia - Merritt Wever ("Nurse Jackie")
    • Melhor roteiro de comédia - Tina Fey e Tracey Wigfield ("30 Rock")
    • Melhor ator coadjuvante em série de comédia - Tony Hale ("Veep")
    • Melhor atriz em série de comédia - Julia Louis-Dreyfuss ("Veep")
    • Melhor diretor de série de comédia - Gail Mancuso ("Modern Family")
    • Melhor atriz em minissérie ou telefilme - Laura Linney ("The Big C.") 
    • Melhor roteiro de série dramática - Henry Bromell ("Homeland")
    • Melhor atriz coadjuvante em série dramática - Anna Gunn ("Breaking Bad")
    • Melhor reality show - The Voice
    • Melhor ator coadjuvante por série de drama - Bobby Cannavale ("Boardwalk Empire")
    • Melhor ator de série de drama - Jeff Daniels ("The Newsroom")
    • Melhor atriz de série de drama - Claire Danes ("Homeland")
    • Melhor diretor de série de drama - David Fincher ("House of Cards")
    • Melhor roteiro para programa de variedades - "The Colbert Reports"
    • Melhor diretor para Programa de Variedade - Dan Roy King ("Saturday Night Live")
    • Melhor Coreografia - Derek Hough ("Dancing with the Stars")
    • Melhor roteiro em minissérie ou telefilme - Abi Morgan ("The Hour")
    • Melhor ator coadjuvante em minissérie ou telefilme - James Cromwell ("American Horror Story")
    • Melhor direção em minissérie ou telefilme - Steven Soderbergh ("Behind the Candelabra")
    • Melhor atriz coadjuvante em minissérie ou telefilme - Ellen Burstyn ("Political Animals")
    • Melhor ator em minissérie ou telefilme - Michael Douglas ("Behind the Candelabra")
    • Melhor minissérie ou telefilme - "Behind the Candelabra"
    • Melhor série de comédia - "Modern Family"
    • Melhor série de drama - "Breaking Bad"

domingo, 22 de setembro de 2013

Rafal Blechacz - Beethoven op. 2 No. 2

O PEQUENO PRINCIPE, XIII


O PEQUENO PRINCIPE, XIII

O Pequeno Principe, Antoine de Saint-Exupery, XIII


O quarto planeta era o do homem de negócios. Estava tão ocupado que não levantou sequer a cabeça à chegada do príncipe.
- Bom dia, disse-lhe este. O seu cigarro está apagado.
- Três e dois são cinco. Cinco e sete, doze. Doze e três, quinze. Bom dia. Quinze e sete, vinte e dois. Vinte e dois e seis, vinte e oito. Não há tempo para acender de novo. Vinte e seis e cindo, trinta e um. Uf! São pois quinhentos e um milhões, seiscentos e vinte e dois mil, setecentos e trinta e um.
- Quinhentos milhões de quê?
- Hem? Ainda estás aqui? Quinhentos e um milhões de... eu não sei mais... Tenho tanto trabalho. Sou um sujeito sério, não me preocupo com ninharias! Dois e cinco, sete...
- Quinhentos milhões de quê? repetiu o principezinho, que nunca na sua vida renunciara a uma pergunta, uma vez que a tivesse feito.
O homem de negócios levantou a cabeça:
- Há cinqüenta e quatro anos que habito este planeta e só fui incomodado três vezes. A primeira vez foi há vinte e dois anos, por um besouro caído não sei de onde. Fazia um barulho terrível, e cometi quatro erros na soma. A segunda foi há onze anos, por uma crise de reumatismo. Falta de exercício. Não tenho tempo para passeio. Sou um sujeito sério. A terceira... é esta! Eu dizia, portanto, quinhentos e um milhões...
- Milhões de quê?
O homem de negócios compreendeu que não havia esperança de paz:
- Milhões dessas coisinhas que se vêem às vezes no céu.
- Moscas?
- Não, não. Essas coisinhas que brilham.
- Abelhas?
- Também não. Essas coisinhas douradas que fazem sonhar os ociosos. Eu cá sou um sujeito sério. Não tenho tempo para divagações.
- Ah! estrelas?
- Isso mesmo. Estrelas.
- E que fazes tu de quinhentos milhões de estrelas?
- Quinhentos e um milhões, seiscentos e vinte e duas mil, setecentos e trinta e uma. Eu sou um sujeito sério. Gosto de exatidão.
- O que fazes tu dessas estrelas?
- Que faço delas?
- Sim.
- Nada. Eu as possuo.
- Tu possuis as estrelas?
- Sim.
- Mas eu já vi um rei que...
- Os reis não possuem. Eles "reinam" sobre. É muito diferente.
- E de que te serve possuir as estrelas?
- Servem-me para ser rico.
- E para que te serve ser rico?
- Para comprar outras estrelas, se alguém achar.
Esse aí, disse o principezinho para si mesmo, raciocina um pouco como o bêbado.
No entanto, fez ainda algumas perguntas.
- Como pode a gente possuir as estrelas?
- De quem são elas? respondeu, ameaçador, o homem de negócios.
- Eu não sei. De ninguém.
- Logo são minhas, porque pensei primeiro.
- Basta isso?
- Sem dúvida. Quando achas um diamante que não é de ninguém, ele é teu. Quando achas uma ilha que não é de ninguém, ela é tua. Quando tens uma idéia primeiro, tua a fazes registrar: ela é tua. E quanto a mim, eu possuo as estrelas, pois ninguém antes de mim teve a idéia de as possuir.
- Isso é verdade, disse o principezinho. E que fazes tu com elas?
- Eu as administro. Eu as conto e reconto, disse o homem de negócios. É difícil. Mas eu sou um homem sério!
O principezinho ainda não estava satisfeito.
- Eu, se possuo um lenço, posso colocá-lo em torno do pescoço e levá-lo comigo. Se possuo uma flor, posso colher a flor e levá-la comigo. Mas tu não podes colher as estrelas.
- Não. Mas eu posso colocá-las no banco.
- Que quer dizer isto?
- Isso quer dizer que eu escrevo num papelzinho o número das minhas estrelas. Depois tranco o papel à chave numa gaveta.
- Só isto?
- E basta...
É divertido, pensou o principezinho. É bastante poético. Mas não é muito sério.
O principezinho tinha, sobre as coisas sérias, idéias muito diversas das idéias das pessoas grandes.
- Eu, disse ele ainda, possuo uma flor que rego todos os dias. Possuo três vulcões que revolvo toda semana. Porque revolvo também o que está extinto. A gente nunca sabe. É útil para os meus vulcões, é útil para a minha flor que eu os possua. Mas tu não és útil às estrelas...
O homem de negócios abriu a boca, mas não achou nada a responder, e o principezinho se foi...
As pessoas grandes são mesmo extraordinárias, repetia simplesmente no percurso da viagem.

sábado, 21 de setembro de 2013

CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS

 
A SEMANA - 20 DE SETEMBRO DE 1892
 
Toda esta semana foi feita pelo telégrafo. Sem essa invenção, que põe o nosso século tão longe daqueles em que as notícias tinham de correr os riscos das tormentas e vir devagar como o tempo anda para os curiosos, sem essa invenção esta semana viveria do que lhe desse a cidade. Certamente, uma boa cidade como a nossa não deixa os filhos sem pão; fato ou boato, eles teriam algo que debicar. Mas, enfim, o telégrafo incumbiu-se do banquete.

 

A maior das notícias para nós, a única nacional, não preciso dizer que é a morte de Carlos Gomes. O telégrafo no-la deu, tão pronto se fecharam os olhos do artista e deu mais a notícia do efeito produzido em todo aquele povo do Pará, desde o chefe do Estado até o mais singelo cidadão. A triste nova era esperada — e não sei se piedosamente desejada. Correu aos outros Estados, ao de São Paulo, à velha cidade de Campinas. A terra de Carlos Gomes deseja possuir os restos queridos de seu filho, e os pede; São Paulo transmite o desejo ao Pará, que promete devolvê-los. Não atenteis somente para a linguagem dos dois Estados, um dos quais reconhece implicitamente ao outro o direito de guardar Carlos Gomes, pois que ele aí morreu, e o outro acha justo restituí-lo àquele onde ele viu a luz. Atentai, mais que tudo, para esse sentimento de unidade nacional, que a política pode alterar ou afrouxar, mas que a arte afirma e confirma, sem restrição de espécie alguma, sem desacordos, sem contrastes de opinião. A dor aqui é brasileira. Quando se fez a eleição do presidente da República, o Pará deu o voto a um filho seu, certo embora de que lhe não caberia o governo da União; divergiu de São Paulo. A república da arte é anterior às nossas constituições e superior às nossas competências. O que o Pará fez pelo ilustre paulista mostra a todos nós que há um só paraense e um só paulista, que é este Brasil.

 

Agora que ele é morto, em plena glória, acode-me aquela noite da primeira representação da Joana de Flandres, e a ovação que lhe fizeram os rapazes do tempo, acompanhados de alguns homens maduros, certamente, mas os principais eram rapazes, que são sempre os clarins do entusiasmo. Ia à frente de todos Salvador de Mendonça, que era o profeta daquele caipira de gênio. Vínhamos da Ópera Nacional, uma instituição que durou pouco e foi muito criticada, mas que, se mereceu acaso o que se disse dela, tudo haverá resgatado por haver aberto as portas ao jovem maestro de Campinas. Tinha uma subvenção à Ópera Nacional; dava-nos partituras italianas e zarzuelas, vertidas em português, e compunha-se de senhoras que não duvidavam passar da sociedade ao palco, para auxiliar aquela obra. Cantava o fundador, D. José Amat, cantava o Ribas, cantavam outros. Nem foi só Carlos Gomes que ali ensaiou os primeiros vôos; outros o fizeram também, ainda que só ele pôde dar o surto grande e arrojado...

 

Aí estou eu a repetir coisas que sabeis — uns por as haverdes lido, outros por vos lembrardes delas; mas é que há certas memórias que são como pedaços da gente, em que não podemos tocar sem algum gozo e dor, mistura de que se fazem saudades. Aquela noite acabou por uma aurora, que foi dar em outro dia, claro como o da véspera, ou mais claro talvez; e porque esse dia se fechou em noite, novamente se abriu em madrugada e sol, tudo com uma uniformidade de pasmar. Afinal tudo passa, e só a terra é firme: é um velho estribilho do Eclesiastes, de que os rapazes mofam, com muita razão, pois ninguém é rapaz senão para ler e viver o Cântico dos Cânticos, em que tudo é eterno. Também nós ríamos muito dos que então recordavam o tempo em que foram cavalos da Candiani, e riam então dos que falavam de outras festas do tempo de Pedro I. É assim que se vão soldando os anéis de um século.

 

Ao contrário, a história parece querer dessoldar alguns dos seus anéis e deitá-los ao mar — ao Mar Negro, se é certo o que nos anuncia o mesmo telégrafo, portador de boas e más novas. Não trato da deposição do sultão, conquanto o espetáculo deva ser interessante; eu, se dependesse de uma subscrição universal, daria meu óbolo para vê-lo realizado com todas as cerimônias, tal qual o Doente imaginário. A diferença entre a peça francesa e a peça turca é que o homem doente parece doente deveras, — semilouco, dizem os telegramas.

 

As deposições da nossa terra não digo que sejam chochas, mas são lúgubres de simplicidade. O teatro de Sergipe está agora alugado para esta espécie de mágicas; não há quinze dias deu espetáculo, e já anuncia (ao dizer do País) nova representação. As mágicas desse teatro pequeno, mas elegante, compõem-se em geral de duas partes — uma que é propriamente a deposição, outra que é a reposição. Poucos personagens: o deposto, o substituto, coros de amigos. Ao fundo, a cidade em festa. Este ceticismo de Aracaju, rasgando as luvas com aplausos a ambos os tenores, não revela da parte daquela capital a firmeza necessária de opinião. Tudo, porém, acharia compensação na majestade do espetáculo; infelizmente este é pobre e simples; meia dúzia de homens saem de uma porta, entram por outra, e está acabado. É uma empresa de poucos meios.

 

Que abismo entre Aracaju e Istambul! Que diferença entre as duas portas sergipenses e a Sublime Porta! Lá são as potências que depõem, presididas pelo pontífice do islamismo, tudo abençoado por Alá e por Maomé, que é o profeta de Alá. Nas ruas sangue, muito sangue derramado, sangue de ódio e de fanatismo. Ouvem-se rugidos da Ilha de Creta e da Macedônia. Na platéia o mundo inteiro. Mas o principal não é isso. O principal espetáculo, o espetáculo único é o desmembramento da Turquia, também notificado pelo telégrafo. Esse é que, se se fizer, dará a este século um ocaso muito parecido com a aurora. Os alfaiates levaram muito tempo a medir e cortar a bela fazenda turca para compor o terno que a civilização ocidental tem de vestir: e, porque as medidas políticas diferem das comuns, vê-lo-emos talvez brigar por dois centímetros. As tesouras brandidas; e, primeiro que se acomodem, haverá muito olho furado. O desfecho é previsto; alguém ficará com um pano de menos, mas a Turquia estará acabada, e a história terá dessoldado alguns elos que já andavam frouxos, se é que isto não é continuar a mesma cadeia.

 

Pode suceder que nada haja, assim como não voará o castelo do Balmoral, com a rainha Vitória e o czar Nicolau dentro. Esta outra comunicação telegráfica desde logo me pareceu fantástica; cheira a imaginação de repórter ou de chancelaria. Nem é crível que tal tragédia se represente às barbas da sombra Shakespeare, sem que este seja consultado quando menos para lhe pôr a poesia e os relatórios policiais não têm.

 

Enfim, melhor que atentados, deposições e desmembramentos, é a notícia que nos trouxe o telégrafo, ainda o telégrafo, sempre o telégrafo. Porfírio Díaz abriu o congresso mexicano, apresentando-lhe a mensagem em que anuncia a redução dos impostos. Estas duas palavras raramente andam juntas; saudemos tão doce consórcio. Só um amor verdadeiro as poderia unir. Que tenham muitos filhos é o meu mais ardente desejo.

 

 

À VENDA NA SICILIANO

NA SICILIANO


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

SCHUBERT - 9ª SINFONIA - A "GRANDE"

Na porta da FNFi

Na porta da FNFi
 
Rogel Samuel
 
A primeira pessoa que encontrei na porta da Faculdade foi Anísio Teixeira.
Mas eu não sabia. O primo de meu pai, Gervásio, me levou até bem perto do prédio e lá fui eu, com 18 anos de idade.
- Aqui é a Faculdade Nacional de Filosofia? – perguntei para aquele senhor mal-vestido, de óculos velhos de aros “de tartaruga”. Pensei que era o porteiro. Era Anísio Teixeira, conforme depois soube, meu professor de Filosofia da Educação.
Ele me orientou, da porta, e eu fui inscrever-me no Vestibular, recém-chegado de Manaus.
Não passei, naquele primeiro vestibular.
No dia da prova de francês, estava com febre de 40 graus e D. Marcella Mortara me reprovou, ou melhor, inutilizou minha prova com um risco diagonal e escreveu como nota: “Ilegível”, e aplicou um zero.
Sempre tive uma péssima letra. Até hoje. Eu devia ter estudado caligrafia, como se faziam os antigos.
Por isso, estudei ali no Curso Vestibular da própria Faculdade, gratuito, por um ano. E foi bom.
O curso era do Diretório Acadêmico (um ano depois eu era professor ali), e os professores eram os alunos... mas uns gênios.
Fui aluno do Antônio Pio (onde andará), de latim. Lia latim e grego como eu hoje leio jornal. Anos depois foi aposentado precocemente vitimado por misteriosa doença. Fui aluno de Antonio Augusto, depois assistente do Celso Cunha. Ali só havia gênios.
Eu morava em quartos alugados e comia no Calabouço, restaurante da UME, União Minicipal dos Estudantes, que ficava nas imediações do Aeroporto Santos  Dumont. 
O Aterro estava sendo feito.
Tive a sorte de passar em primeiro lugar (foi o que me disse depois Aluísio Trinta) para o Vestibular de Letras Clássicas. Pura sorte.
Havia 20 vagas, só passamos creio que 12. Provas escritas e orais.
Celso Cunha, na prova, mandou que justificássemos o verso de Camões: “Mas porém a que cuidados”. Ele queria se explicasse o “mas porém”.
E por aí foi.
O meu quarto, no Maracanã, dava para um beco e uma casa abandonada.
Dali eu só tinha a visão daquele muro velho e, à esquerda, uma árvore antiga daquela rua Eurico Rabelo.
Como eu precisava de mesa, comprei um “bureau” usado, antigo, de madeira preta, que pertencera a um ministério. Era gigantesco.
O Maracanã ficava em frente, e nos grandes jogos cada gol soava como uma onda que se elevasse saída de um vulcão furioso.
Era possível entrar no Maracanã vazio, ir até o gramado, olhar do centro para a periferia, para aquelas galerias monstruosas e vazias, descritas por Clarice Lispector num belo conto.
Passei a explorar o Rio, de ponta a ponta.
Nos dias livres tomava um ônibus e visitava Caxias, Meriti, São Gonçalo etc.
Chegava no fim da linha, pegava o ônibus de volta.
Foi aí que desenvolvi o espírito de viajante. Mais tarde percorri o Nordeste, o Sul, e depois o mundo, Katmandhu, Sydney, Paris...
O espírito de aventura. Que perdi, depois de velho.
A porta da FNFi foi minha entrada para o mundo.
 
 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Jornais da TV têm queda recorde de Ibope


 O colunista da Uol Ricardo Feltrim publicou nessa terça feira (17), os números de audiência dos principais telejornais das TVs abertas. Os dados apontam que praticamente todos os principais telejornais amargam grandes perdas de ibope este ano, na comparação com o ano passado. Os jornais até então considerados os mais "badalados" da TV brasileira, como o "Jornal Nacional", da Globo, chegou a perder 12% de Ibope este ano, até 31 de agosto. Veja os números

O  "Jornal da Band" também não ficou livre da perda de 12%. O pior resultado ficou com o "RedeTV! News", que viu este ano quase metade de seu público desaparecer (41%; veja tabela abaixo). Os dois principais telejornais do SBT também registraram queda, embora menores que os concorrentes. O "SBT Brasil" perdeu 3% de audiência e o "Jornal do SBT" caiu 6% 

Esse pode ser um dos motivos para que Silvio Santos tenha retomado a ideia de ressuscitar pela enésima vez o "Aqui Agora", jornal popularesco que poderia concorrer diretamente com o "Cidade Alerta" (Record) e o "Brasil Urgente" (Band). A única emissora que conseguiu crescer, ainda que pouquinho, na área de telejornais, foi a Record

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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

domingo, 15 de setembro de 2013

O PEQUENO PRINCIPE, XII


O PEQUENO PRINCIPE, XII

O Pequeno Principe, Antoine de Saint-Exupery, XII



O planeta seguinte era habitado por um bêbado. Esta visita foi muito curta, mas mergulhou o principezinho numa profunda melancolia.
- Que fazes aí? perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.
- Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre.
- Por que é que bebes? perguntou-lhe o principezinho.
- Para esquecer, respondeu o beberrão.
- Esquecer o quê? indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.
- Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.
- Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.
- Vergonha de beber! concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu silêncio.
E o principezinho foi-se embora, perplexo.
As pessoas grandes são decididamente muito bizarras, dizia de si para si, durante a viagem.



sábado, 14 de setembro de 2013

Mais Leitura: livros por até R$ 4

Mais Leitura: livros por até R$ 4 reais O projeto Mais Leitura, que oferece livros a preços populares entre R$ 2 e R$ 4, tem agora uma versão itinerante, lançada no final de agosto, no Bairro da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro. A bordo de um caminhão capaz de transportar até 10 mil títulos, o projeto vai percorrer todos os municípios do Rio. O veículo se transforma em uma loja móvel, com expositores, computadores, balcão, além de ter acesso para pessoas com deficiência.

Atualmente, o Mais Leitura tem três lojas, que funcionam nos postos de atendimento do programa do governo, Poupa Tempo, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense; em São Gonçalo, na região metropolitana; e em Bangu, na zona oeste. Segundo a Imprensa Oficial, ao longo de dois anos já foram vendidos mais de 600 mil livros.

Criado em 2011 pela Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com o governo estadual, mais de 40 editoras participam do projeto.

De acordo com o diretor-presidente do orgão, Haroldo Zager, a nova etapa do projeto deverá chegar a cerca de 4 milhões de leitores em todo o estado. "Vamos começar esse giro cultural ainda nesta semana pelas comunidades da Rocinha, na zona sul, e na Favela de Manguinhos, na zona norte da cidade. A ideia que nós temos é visitar todos os municípios fluminense pelo menos duas vezes por ano", disse Zager.

A secretária estadual de Cultura, Adriana Rattes, destacou que o objetivo da ação é incentivar a leitura, por meio de preços acessíveis dos livros. "Sem dúvida, este projeto irá transformar o cenário cultural do estado. No Brasil, se lê pouco, mas não por falta de interesse. Os preços praticados aqui são muito altos. Neste projeto, nós temos um acervo muito diversificado de temas e editoras. Todas as pessoas vão poder comprar os títulos daqueles assuntos que mais gostam, além de adquirir cada vez mais o hábito da leitura", explicou.

O Mais Leitura funciona de segunda a sexta-feira, das 8 às 18 horas, e aos sábados, das 9 às 13 horas. Cada cliente pode comprar, por dia, dois livros diferentes. 

CONCORDIA


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

MAHLER - SINFONIA Nº 2

POEMA DE MACHADO DE ASSIS

REFLEXOS
(THU-FU)
 
Vou rio abaixo vogando
No meu batel e ao luar;
Nas claras águas fitando,
Fitando o olhar.
 
Das águas vejo no fundo,
Como por um branco véu
Intenso, calmo, profundo,
O azul do céu.
 
Nuvem que no céu flutua,
Flutua n'água também;
Se a lua cobre, à outra lua
Cobri-la vem.
 
Da amante que me extasia,
Assim, na ardente paixão,
As raras graças copia
Meu coração.