sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O prazer do pensamento

 
(FOTO: R. SAMUEL - SYDNEY OPERA HOUSE)
O prazer do pensamento
 
ROGEL SAMUEL
 
Alain no seu delicioso "Propos sur le bonheur" diz que com mau humor ninguém consegue nada. O mau humor, diz ele, é mais causa do que efeito. Ele até arrisca a dizer que uma das causas das doenças dos humanos é o esquecimento da gentileza, da polidez. O mau humor é, para ele, uma violência do corpo sobre si mesmo.
Aquele que busca a felicidade, que gosta mesmo dela, deve aprender a sorrir. Reagir contra o mau humor não é fácil. Dizia Chagdud Tulku Rinpochê que o ser humano de mau humor vira porco-espinho: ninguém se aproxima dele. Fica só.
 
Acredito que a solidão é do solitário, não das gentes - é o solitário quem quer. O solitário diz implicitamente: “não se aproximem”.
Alguns têm o riso fácil e quase nunca se irritam. "Nós temos a liberdade de amar, de escolher. Não és tu quem decide, com as tuas angústias e as tuas contradições, mas a vida soberana que está em ti, aquela a quem os lamas chamam a Grande Deusa", diz Dugpa Rinpochê.
 
Que é a felicidade? "A felicidade é primeiramente uma disposição de espírito, uma maneira diferente de olhar para o mundo. Chega até nós porque nós a desejamos apaixonadamente, segundo a lei de atração e de harmonia que rege o universo", diz o Dugpa Rinpochê.
Afinal entre estar irritado ou triste e estar feliz a diferença é de uma interpretação. Basta pensar: “poderia estar pior”.
 
Há um ditado tibetano que diz: “Se algo não tem cura, pra quê se preocupar? Se tem cura, pra quê se preocupar?”
Os gregos diziam que a eudaimon, que é a palavra para “feliz”, ou eudaimonia, significa “que tem um poder divino (daimon) bem disposto". A felicidade era uma disposição divina, acima das disposições humanas. Algo divino, como para Aristóteles, tem a ver com a auto-suficiência.
"De um modo estrito, o termo "eudaimonia" é uma transliteração da palavra grega para
prosperidade, boa fortuna, riqueza ou felicidade", diz Scott Carson. Mas sem a concepção utilitarista de felicidade, apesar de ambas as noções poderem, em alguns pensadores, contar como aspectos da eudaimonia.
A palavra é composta pelo prefixo eu- (bem) e pelo substantivo "daimon" (espírito).
Pode-se dizer que a eudamonia é uma predisposição para a felicidade. E que os gregos de um modo geral entendiam que a eudamonia, ou felicidade, era o fim último da vida, algo que estamos sempre buscando, da vida a finalidade. Seja prazer, riqueza etc.
Somos condenados à felicidade.
A sociedade moderna fez nascer a solidão.
Em “Um Ensaio Autobiográfico”, Jorge Luis Borges diz: "Suponho que já escrevi meus melhores livros. Isso me dá uma espécie de tranqüila satisfação e serenidade. No entanto, não acho que tenha escrito tudo. De algum modo, sinto a juventude mais próxima de mim hoje do que quando era um homem jovem. Não considero mais a felicidade inatingível, como eu acreditava tempos atrás. Agora sei que pode acontecer a qualquer momento, mas nunca se deve procurá-la. Quanto ao fracasso e à fama, parecem-me totalmente irrelevantes e não me preocupam. Agora o que eu procuro é a paz, o prazer do pensamento e da amizade. E, ainda que pareça demasiado ambicioso, a sensação de amar e ser amado"
Ele tinha 71 anos quando escreveu isso.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

BLUE JASMINE - Léa Maria Aarão Reis

LE BRÉSIL


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Em Nova York, tela de Beatriz Milhazes supera US$ 1 milhão

Em Nova York, tela de Beatriz Milhazes supera US$ 1 milhão

  • ‘O casamento', de 1995, foi a segunda obra mais cara vendida em leilão da Christie's
  • Na quinta-feira, uma peça de Lygia Clark terá lances iniciais em US$ 1,2 milhão
    'O casamento', de Beatriz Milhazes Foto: Reprodução
'O casamento', de Beatriz Milhazes Reprodução
RIO - A semana de leilões em Nova York tem foco na arte da América Latina — e dá destaque para obras de artistas brasileiros. Anunciada pela Christie's como um dos highlights na terça-feira, a tela "O casamento" (1995), de Beatriz Milhazes, foi vendida por US$ 1,025 milhão.
A pintura superou o preço estimado pela casa (entre US$ 600 mil e US$ 800 mil) e foi a segunda mais cara da noite, depois de "Women reaching for the moon" (1946), do pintor mexicano Rufino Tamayo, arrematada por US$ 1,445 milhão.
A cifra alcançada pela obra de Milhazes é alta, mas distante do recorde da própria artista. Há um ano, na Sotheby's, sua tela "Meu limão" (2000) saiu por US$ 2,1 milhões, valor mais alto já alcançado por uma obra de uma artista brasileiro vivo.
Além de "O casamento", outros trabalhos de brasileiros foram negociadas na noite de terça-feira, na Christie's. O "Relevo nº285" (1970), de Sérgio Camargo, saiu por US$ 749 mil, e a "Sequência visual S-51" (1960), de Abraham Palatnik, alcançou US$ 785 mil. O leilão seguiria durante a tarde desta quarta, com lotes de valores menores, que incluem uma tela sem título de Di Cavalcanti, com preço estimado entre US$ 30 mil e US$ 40 mil, e um Vik Muniz com lances a partir de US$ 40 mil.
Lygia Clark nas alturas
Nesta quinta-feira, é a vez de outra casa internacional de leilões, a Phillips, negociar arte da América Latina. E é de uma artista brasileira a obra à venda com preço estimado mais alto — trata-se de "Bicho invertebrado", de 1960, avaliada entre US$ 1,2 milhão e US$ 1,8 milhão.
Um dos célebres "bichos" de Lygia — a escultura em alumínio com dobradiças que, manuseável, pode ter formas distintas — , a peça foi exibida na Bienal de Veneza em 1962 e já está emprestada, mesmo antes da venda, para a retrospectiva da artista que o MoMA prepara para inaugurar em maio de 2014.
No leilão da Philips, há ainda trabalhos de Nelson Leirner, Cildo Meireles, Ivan Serpa e Rubens Gerchman, entre outros.

Pizzolato: “Vou lutar até o último segundo de vida por minha inocência”.

Lei nazista sobre 'arte degenerada' segue em vigor e dificulta devolução de obras


Lei nazista sobre 'arte degenerada' segue em vigor e dificulta devolução de obras


 

AURÉLIO ARAÚJO
DE SÃO PAULO

Uma lei alemã aprovada pelos nazistas em 1938, que permitia ao regime de Adolf Hitler (1889-1945) confiscar obras de arte "degeneradas", continua em vigor no país até hoje --o que dificulta a devolução dos quadros aos herdeiros dos donos originais. As informações são do jornal americano "The New York Times".

A discussão envolvendo nazistas e obras de arte voltou recentemente à tona depois que cerca de 1.400 obras foram encontradas na casa de um colecionador em Munique. Algumas delas eram consideradas perdidas para sempre. Entre as pinturas, estão diversos exemplares da "arte degenerada" --nome dado pelos nazistas a obras que eles consideravam "antigermânicas" ou "judaicas".

As obras foram achadas no apartamento de Cornelius Gurlitt, 80, filho de um negociador de artes ligado ao regime de Hitler. Algumas delas já foram divulgadas e podem ser vistas abaixo.

Reuters
12 das 25 obras divulgadas no início do mês pelo governo alemão; elas fazem parte do 'tesouro de Munique'
12 das 25 obras divulgadas no início do mês pelo governo alemão; elas fazem parte do 'tesouro de Munique'

De acordo com especialistas ouvidos pelo "Times", a lei segue em vigor porque, embora a Alemanha tenha se esforçado muito ao longo dos anos para reparar os prejuízos causados pelos nazistas, revogá-la significaria anular diversas transações do mercado de arte. Isso porque muitas "artes degeneradas" já foram vendidas e compradas ao longo das décadas após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Segundo Wolfgang Büche, curador de um museu na pequena cidade alemã de Halle, herdeiros de judeus que tiveram obras confiscadas podem até conseguir base legal e provar terem algum direito sobre essas artes atualmente.

Para museus públicos como o dele, porém, é bastante improvável que essas artes sejam recuperáveis sob a legislação atual.

Obras confiscadas pelo nazismo e compradas e vendidas ao longo dos últimos 75 anos podem ser vistas, por exemplo, nas paredes da Universidade de Harvard, em Massachusetts, ou nas do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York.

Conforme Büche disse ao "Times", para museus públicos que foram saqueados durante o regime de Hitler, a única opção atual é tentar comprar as obras de volta. "Mas, como somos financiados pelo Estado, não podemos competir com grandes investidores."

O Amante das Amazonas: Personagens-Narradores

 
 
 
 
O Amante das Amazonas: Personagens-Narradores
 
NEUZA MACHADO
 
 
O(s) Personagem(ns)-Narrador(es) Pós-Moderno(s)/Pós-Modernista(s) de Segunda Geração de Rogel Samuel
“Hoje, nosso mundo está menos seguro de si mesmo, mais modesto talvez, uma vez que renunciou à pessoa todo-poderosa, mas também mais ambicioso, uma vez que olha para além. O culto exclusivo do “humano” cedeu lugar a uma tomada de consciência mais ampla, menos antropocentrista. O romance parece vacilar, tendo perdido seu melhor sustentáculo de outrora, o heroi. Se não consegue pôr-se de pé novamente é porque sua vida estava ligada à vida de uma sociedade agora extinta. Se conseguir, pelo contrário, um novo caminho se abrirá para ele, com a promessa de novas descobertas”.
 
Por que o mundo já começa a enxergar o talento ficcional desse escritor pós-moderno, em especial, a partir desta instigante narrativa?
Sem o receio dos prováveis contra-ataques (contra-ataques daqueles que não leram a obra e, por isso, dela não gostaram, ou leram mal), posso afirmar: o romance O Amante das Amazonas, enquanto forma literária
diferenciada, não é somente a recriação ficcional de estratos múltiplos de realidades amazonenses (sociais, míticas e ficcionais). É muito mais.
É uma narrativa que reflete a problemática do mundo, em seus aspectos dilatados. Os Narradores, a Floresta Amazônica, o Palácio Manixi, os Numas, os Caxinauás, Pierre Bataillon, Paxiúba, Zilda, Laurie Costa, o
Comendador Gabriel Gonçalves da Cunha e a filha Glorinha Lambisgoia, Ifigênia Vellarde, Zequinha Bataillon, Maria Caxinauá,
João Beleza, Júlia, Frei Lothar, Benito Botelho, Estella de Sousa, Mirandinha, Leonildo Calaça, Sabá Vintém, Du Bará, Conchita Del Carmen, e todos os outros importantes personagens (porque são todos importantes e insubstituíveis), poderão ser reconhecidos por leitores de outras partes do mundo. (Certamente, o romance será traduzido em
outras línguas, por meio de bons tradutores, os quais saberão respeitar a qualidade do texto ficcional de Rogel Samuel). As traduções, que
certamente acontecerão, vão propiciar o reconhecimento desta criação literária-ficcional ímpar, porque os conflitos, ali revelados, são as
altercações do homem pós-moderno, atribulado (herança da Era Moderna), suas tentativas de reconstrução sócio-cultural em um mundo
globalizado em vias de perder importantes fronteiras culturais. Assim, percebo este romance de Rogel Samuel como criação ficcional ímpar, expondo interlinearmente o contemporâneo meio social, globalizado e
caótico, entrópico, e, em se tratando do futuro, enxergo-o como refletor replicante de conflitos atemporais e universais.
Pelo meu ângulo visual interativo, o narrador pós-moderno/pós-modernista (e neste momento refiro-me ao escritor-ficcionista enquanto
personalidade ativa adstrita ao seu momento histórico) sintetiza a união da forma de narrar tradicional com a forma de narrar modernista,
paradigmática, insólita, dos anos trinta do século XX (início da segunda fase do modernismo no Brasil) ao final dos anos sessenta. (Tradicional aqui significa a forma de narrar sintagmática, linear, heroica, dos
narradores antigos e medievais, até ao final do século XVI, e alguns posteriores, com aparecimentos esporádicos – sem criatividade – nas escolas literárias que foram surgindo. É importante o esclarecimento de que não estou a referir-me ao narrador da Era Moderna, das narrativas complexas, nascido a partir das páginas notáveis de Miguel de Cervantes, no início do século XVII, o qual vigorou até ao final do século XIX, com as variações próprias de cada momento histórico e suas respectivas estéticas literárias).
Reportando-me à tese de Anaxágoras de Clazomene, de que “o homem pensa porque tem mãos” , revisitada por José Américo da
Motta Pessanha, no Prefácio ao Direito de tSonhar, de autoria do filósofo francês Gaston Bachelard, repenso esta assertiva de Anaxágoras, permitindo-me transferi-la ao aludido narrador tradicional, anterior à Era Moderna. Por este prisma, procuro reavaliar aquele narrador horizontal, que se esforçou por pensar a realidade (recopilando-a literariamente) resguardado por mãos trabalhadoras, ligadas ao prazeroso exercício de “bem narrar” (bem escrever), mas, ainda, preso a uma “perspectiva anulada”, uma perspectiva
exteriorizada, superficial, fenomênica. Assim, o pensar em profundidade ficou interditado, porque as “mãos trabalhadoras” dos narradores antigos e medievais, e dos novelistas eram mais poderosas e só alcançavam pensar as aparências (não me refiro aos romancistas das seguintes estéticas literárias da Era Moderna). Será importante recuperar o fato de que as novelas em prosa (sintagmáticas, sempre conceituais), diferentes dos romances paradigmáticos da Era Moderna, em seu caminhar histórico até ao momento, não lograram transformar-se em ficção-arte, continuaram lineares, e, aos poucos, perderam aquela graça própria dos narradores iniciais, das novelas ou romances de cavalaria em versos, atualmente, já reconhecidos como narradores épico-medievais.

CRÔNICA DE MACHADO DE ASSIS



3 DE JULHO DE 1864.

 

Um jornal desta Corte deu, há dias, aos seus leitores uma notícia tão grave quão sucinta. É nada menos que a predição de uma catástrofe universal.

 

Diz a folha que o professor Newmager, de Melbourne, prediz que em 1865 um cometa passará tão próximo à terra, que esta corre sérios riscos de perecer.

 

Renovam-se, pois, os sustos causados pela profecia do cometa 13 de junho, sustos que, por felicidade nossa, não foram confirmados pela realidade.

 

A terra, que tem escapado a tantos cometas — aos celestes, como o de Carlos V - aos terrestres, como o rei dos Hunos — aos marinhos, como os piratas normandos — a terra acha-se de novo ameaçada de ser absorvida por um dos ferozes judeus errantes do espaço.

 

O vulgo, que não entra na apreciação científica das probabilidades de tais catástrofes, estremece ouvindo esta noticia, reza uma Ave-Maria e trata de preparar a alma para o trânsito solene.

 

Também eu, apesar de já descrer até dos cometas, não pude ler a frio a notícia deste próximo cataclisma, e fiquei dominado por um sentimento de tristeza e desânimo.

 

Pois que! — disse eu comigo — dar-se-á caso que o Criador não esteja contente com os homens? Logo, é certo que somos grandemente velhacos, imensamente egoístas, profundamente hipócritas, tristemente ridículos. Logo, é certo que esta comédia que representamos cá em baixo tem desagradado à divindade, e a divindade, usando do princípio de Boileau, lança mão de uma pateada solene e estrondosa?

 

Estávamos tão contentes, tão tranqüilos, tão felizes, — iludíamo-nos uns aos outros com tanta graça e tanto talento, — abríamos cada vez mais o fosso que separa as idéias e os fatos, os nomes e as coisas, — fazíamos da Providência a capa das nossas velhacarias, — adorávamos o talento sem moralidade e deixávamos morrer de fome a moralidade sem talento, — dávamos à vaidade o nome de um justo orgulho, — usávamos o nome de cristãos e levávamos ao juiz de paz o primeiro que nos injuriasse, — dissolvíamos a justiça e o direito para aplicá-los em doses diversas às nossas conveniências, — fazíamos tudo isto, mansa e pacificamente, com a mira nos aplausos finais, e eis que se anuncia uma interrupção do espetáculo com a presença de um Átila cabeludo!

 

A ser exata a profecia do professor Newmager, percamos as ilusões e estendamos as mãos à palmatória. Fomos mais longe do que nos era lícito, e agravamos as coisas com a mania de dar nomes eufônicos e bonitos às nossas maldades e aos nossos vícios.

 

Compreende-se que esta notícia, apanhado-nos de supetão, nos deixe profundamente abalados.

 

Ainda se a profecia fosse para daqui a 20 ou 30 anos, então sim, ira o caso diverso. Se nos fosse impossível arrepiar carreira, procederíamos de modo a conjurar o mal, isto é: — os hipócritas, sem despir dos ombros a capa mentirosa, ensinariam contudo aos filhos que é uma coisa imoral e ridícula fascinar as consciências com virtudes ilusórias e qualidades negativas; os velhacos, continuando a lançar poeira nos olhos dos outros menos velhacos, diriam, todavia, aos filhos que nada dá maior glória ao homem do que a consciência da sua integridade moral; os egoístas, sem abandonar o culto da própria individualidade, aconselhariam contudo aos filhos a observância desta virtude cristã, que é o resumo e a base de todas as virtudes: amemos a nosso próximo; os vaidosos, os intrigantes, os ingratos, e assim por diante.

 

Que resultava desta tática? É que no prazo fixado aparecia o cometa, lançava os olhos cá para baixo, e vendo no mundo um ensaio de paraíso, tornava a enrolar a cauda e ia passear.

 

Mas, daqui a um ano, daqui a poucos meses, como escapar ao choque, como evitar o cataclisma, anunciado pelo professor Newmager?

 

É verdade que o professor Newmager deixa um lugar à esperança e acrescenta que, se não houver cataclismo, haverá uma coisa inteiramente nova e única desde a criação do mundo. Durante três vezes 24 horas não teremos noites, estando a atmosfera banhada por uma luz difusa mais brilhante que os raios do sol.

 

É o que se chama arriscar tudo para tudo ganhar ou tudo perder — ou morte violenta e universal, ou um dia de 72 horas, mais claro que os dias ordinários.

 

Diante de tais predições já me lembrei de que em todo este negócio talvez não haja outro cometa senão o próprio professor Newmager, cometa que aparece no céu da curiosidade pública, querendo tudo abalar e sacudir com a longa cauda da sua ciência astronômica. Varri esta idéia do espírito, por ver que esta é a segunda predição recente do mesmo gênero, e que a ciência popular tem um provérbio para estes casos: três vezes cadeia, sinal de forca.

 

Se escaparmos ao cataclismo ficaremos livres por algum tempo, e então naturalmente esquecidos dos cometas vingadores, prosseguiremos na comédia universal, sem coros nem intervalos, assistindo ao mesmo tempo às comédias parciais e políticas, à comédia dinamarquesa, à comédia polaca, à comédia peruana, à comédia francesa, etc., etc. Basta lançar os olhos a qualquer ponto da carta geográfica para achar com que divertir o tempo.

 

A propósito de carta geográfica, julgo que se deveria mandar uma de presente aos redatores do Siècle, folha que se publica em Paris.

 

Eis o que diz aquela folha em data de 15 de maio:  “A terrível tragédia de Santiago quase se renovou ultimamente em Montevidéu, no Brasil. Durante a semana santa, etc.”.

 

Não podendo supor nestas palavras uma insinuação de anexação do território oriental ao brasileiro, inclino-me a crer antes que o ilustrado noticiarista do Siècle conhece tanto a geografia da América como os leitores conhecem a geografia da lua.

 

Neste caso, uma carta geográfica será um presente de grande valor e digno de ser apreciado pela redação do Siècle.

 

Se em coisas destas que, por mui come-sinhás, todos devem saber, se escreve na Europa tanta barbaridade, o que não sai de falso e de imaginoso quando entram lá na apreciação da vida íntima dos povos desta banda?

 

Isto veio como “a propósito”, e eu não posso terminar a parte relativa às surpresas da semana, sem noticiar outra, muito de passagem.

 

Retirou-se a fragata “Forte”, de gloriosa memória, e veio substituí-la na estação da América do Sul a nau a vapor “Bombay” — uma adiçãozinha de força. Nisto é que está a surpresa, e em outra circunstância mais veio no  “Bombay” o almirante Elliot, casado com uma irmã de Lord John Russell, e acha-se com sua esposa a bordo da nau.

 

Oh!

 

É o caso de fazer uma pequena correção ao grande cômico: “Que vient-elle faire dans cette galère?”

 

Deve supor-se que o almirante Elliot é um íntimo do Lord John Russell, um eco fiel das suas intenções e dos seus desejos na qualidade de cunhado do ilustre estadista. Ora, esta última circunstância provará “anguis in herba”, ou reproduz simplesmente o passo da epopéia em que a deusa de Cípria faz abrandar, com o gesto gracioso e soberano, as iras dos deuses reunidos?

 

Esperemos os resultados das negociações pendentes; e vamos fundando a nossa verdadeira independência e soberania.

 

Foi no dia de ontem que a Bahia festejou a sua independência, naturalmente como de costume, com ardor e entusiasmo.

 

Também ontem tivemos por cá a nossa festa, festa mais particular, mas de grande alcance, — a festa da inauguração de uma sociedade literária.

 

É de grande alcance, porque todos estes movimentos, todas essas manifestações da mocidade inteligente e estudiosa, são garantias de futuro e trazem à geração presente a esperança de que a grandeza deste país não será uma utopia vã.

 

A sociedade a que me refiro é o Instituto dos Bacharéis em Letras; efetuou-se a festa em uma das salas do colégio de D. Pedro II. À hora em que escrevo, nada sei ainda do que se passou; mas estou certo de que foi uma festa bonita; entre os nomes dos associados há muitos de cujo valor tenho as melhores notícias, e que darão ao Instituto um impulso poderoso e uma iniciativa fecunda.

 

Tenho agora mesmo diante dos olhos um exemplar da  “Revista Mensal dos Ensaios Literários”. Ensaios Literários é a denominação de uma sociedade brasileira de jovens inteligentes e laboriosos, filhos de si, reunidos há mais de dois anos, com uma perseverança e uma energia dignas de elogio.

 

Que faz esta sociedade? Discute, estuda, escreve, funda aulas de história, de geografia, de línguas, enfim, publica mensalmente os trabalhos dos seus membros. É uma congregação de vocações legítimas, para o fim de se ajudarem, de se esclarecerem, de se desenvolverem, de realizarem a sua educação intelectual.

 

Toda a animação é pouca para as jovens inteligências que estréiam deste modo. Se erram às vezes, indique-se-lhes o caminho, mas não se deixe de aplaudir-lhes tamanha perseverança e modéstia tão sincera.

 

Creio que já tive ocasião de fazer um cômputo das diversões e festas que se prometem ao Rio de Janeiro. Como a nossa capital nem sempre conta destas felicidades, vamos esfregando as mãos e agradecendo a fartura que se nos dá.

 

 “No hay miel sin hiel”, dizem os espanhóis. A chegada de Emília das Neves coincidiu com a retirada de Gabriela da Cunha, para S. Paulo. Foi na noite de quinta-feira que esta eminente artista, a instâncias, segundo se anunciou, da sua ilustre irmã de arte, representou nesta corte pela última vez.

 

O teatro escolhido foi o de S. Januário e a peça foi a comédia de V. Sardou,  “Os Íntimos”.

 

O público sabe com que distinção, com que verdade, com que arte, Gabriela da Cunha desempenha o papel de Cecília naquela comédia. Desde os primeiros sintomas de um amor, que não nasce de súbito que resvala devagar na doce intimidade da conversa e do passeio, até ao lance terrível em que, na luta da paixão e do dever, o dever triunfa e a mulher salva-se roçando pelas arestas do abismo — toda esta escala de sentimentos — amor, arrependimento, ódio do amante, desprezo por si — tudo isto é reproduzido de modo a arrancar da platéia aplausos entusiásticos.

 

A noite de quinta-feira foi para Gabriela da Cunha uma das suas mais felizes e gloriosas noites, e o público, aplaudindo-a calorosamente, fez plena justiça a um talento, tão celebrado quão verdadeiro.

 

Emília das Neves confundiu os seus aplausos com os do público, e tal foi a tocante despedida de Gabriela da Cunha.

 

À exceção de dois ou três artistas, o pessoal da última representação dos “Íntimos” foi o mesmo das primeiras representações no antigo Ateneu Dramático. Todos, porém, fizeram convergir os seus esforços para que aquela representação não desmerecesse das anteriores; pede a justiça que se mencione o bom êxito desses esforços e o reconhecimento caloroso do público.

 

E a justiça pede ainda que se faça menção de outro artista, tão aplaudido sempre no papel que lhe coube, e para quem concorria igualmente a circunstancia de representar em despedida. Foi o Sr. Lopes Cardoso, no papel de Tolosan. Tenho manifestado mais de uma vez a minha opinião sobre este artista, ainda novo, mas dotado de talento e incontestável aptidão. O papel de Tolosan é dos seus melhores e mais brilhantes papéis. Dizer isto é fazer-lhe o melhor elogio, porque desempenhar Tolosan é empregar mil qualidades de artista, das mais difíceis e das mais raras.

 

Não vejo anunciada nenhuma outra novidade de teatro, a não ser “Os Ourives”, de Porto-Alegre, ainda em ensaios no teatro de S. Januário; e não é com essa comédia portuguesa em 3 atos, que se representa hoje, no Ginásio.

 

Falarei domingo a este respeito com os meus leitores.

 

Já tinha lançado no papel as minhas iniciais, mas sou obrigado a incluir ainda algumas linhas no folhetim.

 

“— Dize aos teus leitores, escreve-me agora um amigo, que, se querem ver um demoninho louro, — uma figura leve, esbelta, graciosa, uma cabeça meio feminina, meio angélica, uns olhos vivos, — um nariz como o de Safo, — uma boca amorosamente fresca, que parece ter sido formada por duas canções de Ovídio, — enfim a graça parisiense, “toute purê”, vão.........”                         

 

Adivinhem os meus leitores aonde quer o meu amigo que eu os mande ver este idílio?  “.... ao Alcazar: é Mlle. Aimée”.

 

Vejam os leitores até que ponto tem razão o comunicante. Lembro-lhes, ao concluir, que não percam da lembrança a terrível profecia do professor Newmager, de Melbourne.

 

 

 
 
 

terça-feira, 19 de novembro de 2013

À VENDA AQUI


INCÊNDIO NO TEATRO MUNICIPAL DE SANTIAGO


FOUCAULT, HOJE

FOUCAULT, HOJE

ROGEL SAMUEL


O livrinho delicioso de Blandine Kriegel, "Michel Foucault aujourd´hui", publicado em Paris, em agosto deste ano, delineia um panorama do pensamento francês dos últimos anos, principalmente da filosofia dos anos 60, já que, para ela, Foucault representava a "encarnação de toda a filosofia dos anos 60".

* * *

Somente dois colaboradores ele teve: ela mesma e François Ewald. Ela foi a única pesquisadora, no laboratório de Foucault, no Colège de France. Mas nega ela ter sido sua "discípula". E também nega que haja ou tenha havido uma herança de Foucault. O "príncipe dos filósofos franceses" teve colaboradores, alunos e amigos, mas se recusava a ter "discípulos". Escreve Blandine: "Ele não considerava sua obra um patrimônio mas um objeto único ligado a condições particulares de temperatura e pressão... Foucault era e sabia ser insubstituível". Não teve continuadores.

* * *

Vinte anos depois de sua morte, o livro apresenta três aspectos: o filósofo, o artista e o político.

* * *

Do filósofo Foucault se define por uma citação da autora: "Há muito tempo que se sabe que o papel da filosofia não é descobrir o que está escondido, mas de tornar legível o que precisamente é visível, isto é, o de fazer aparecer o que está próximo, o que é imediato, o que é tão iminentemente ligado a nós mesmos que não o percebemos" (1978). Aqui não podemos senão dizer que seu método fenomenológico estava impregnado da filosofia de Nietzsche e de uma espécie de arqueologia, da filosofia das práticas discursivas.

* * *

Foucault não se considerava um artista. Escreveu: "Um artista? Quando eu era adolescente nunca pensei em tornar-me um escritor. Quando um livro é uma obra de arte, é alguma coisa importante... Eu não sou um artista, e não sou um cientista... Pratico uma espécie de ficção histórica. De uma certa maneira, sei muito bem que o que digo não é verdadeiro... Minha esperança é que meus livros ganhem sua verdade depois de escritos" (1979). Escrever para ele era a "a restituição do discurso". Um dos maiores escritores de seu tempo, a sua estética era a da abstração, ele mergulhava numa série de abstrações, de subjetividades fenomenológicas - seu objeto eram as "práticas discursivas" que afiguram o mundo "sob o aspecto da transformação que operam" - o discurso é o mundo, o discurso-mundo que deve ser compreendido através de certos momentos, seqüências, rupturas, descontinuidades, que contêm a marca da sedimentação do tempo. Por isso, ele era um grande erudito, seu método exigia ler TUDO a respeito do que pesquisava: para escrever "O nascimento da clínica", por exemplo, ele leu todas as obras de medicina importantes publicadas no período de 1780-1810. Era o primeiro que chegava na Biblioteca Nacional e o último que dali saía. E dotado de uma surpreendente memória, conforme se lê em Didier Eribon, "Michel Foucault".

* * *

A política de Foucault se voltava contra o poder da sociedade, o poder de dominar, disciplinar os indivíduos pelo sistema de palavras e normas, o poder do Estado que se esconde num micro-poder ramificado no tecido social, que encontra suas tramas do tecido das relações inter-pessoais. Em 1953 foi quase expulso do PCF por causa de sua homossexualidade - foi Althusser quem o disse -. Escreveu a favor dos presos, dos loucos, dos homossexuais através de descrições, teorizações incessantes - "eu trabalho feito um louco", disse - combatendo a medicina, a psiquiatria, a arquitetura que organizavam aqueles sistemas de poder, combatendo também Freud e Marx - considerados como expressões das grandes instituições da sociedade industrial produtoras de saber. Foucault era assim uma espécie de romântico muito próximo de Victor Hugo - manifestava-se sempre a favor da dignidade do homem, do homem individual, onde quer que estivesse em suas longas viagens. Ele chegou a ficar uma semana no Irã, conforme revelou seu biógrafo Didier Eribon. E no Brasil, quase teve de lutar fisicamente contra a polícia da ditadura militar.

* * *

De certa forma era ele, segundo Blandine Kriegel, um asceta que não queria impor nada a ninguém, e veio daquela escola em que se encontram Artaud e Rimbaud.

* * *

Dele o que hoje fica é sua presença no prestígio de uma linguagem, de uma forte linguagem, diz a autora.



segunda-feira, 18 de novembro de 2013

FOTO


A NOITE SOBRE A NOITE

A NOITE SOBRE A NOITE

ROGEL SAMUEL


        É o poema 'Pedra e água', de Murillo Mendes:
        Toda vez que se lê este poema se tem dele outro sentido, diferente lógica.
        O texto se abre para todos os lados, todos os cantos, e tudo, cada um leitor, pode ler-se ali, ver-se ali, retratar-se ali e ir
por ali para um ponto seu mesmo mas desconhecido.



Esta mulher sem fim e a noite sobre a noite
E esta fome de ti, meu Deus  talvez de mim.
Quem sabe eu já morri, meu esqueleto eterno
Em pé nos séculos e nas ondas me reveste.

O mar, a escuridão, esta fome de amor,
Esta noite sem fim e o X de Deus
Que em nós todos vive, morre e renasce
Espuma do mar eternamente e a pedra



         O que é esta 'mulher sem fim'?
         Será a mulher sempre e infinitamente amada? Ou a mãe, natureza eternamente produtiva e úbere, de vida renovável,
abundante, cascatarante e oceânica, que em ondas nos inunda do infinito universo de seus múltiplos seres coloridos de flores
frutos sabores novos e eternamente renascidos, renovados sempre porque sempre morrendo, multiplicando-se no tempo e na temporalidade do espaço largo e amplo quanto o sem-fim do começo das estrelas,  na escuridão luminosa do Universo?

         Ou é a mulher básica, buscada, retratada na memória, a mulher futura, possível, a que vive dentro de nós mesmos como
o Outro, no Obscuro e Insaciável, aquela que não existe no mundo, porque no externo não está mais do que no aquém do
objeto, do lado de cá, no amante e não no amado?

         Que mulher é essa, que é sem fim e, portanto, sem começo, que tudo o que termina começou um dia, e se não tem
término não nasceu, a não-nascida, a que não é ainda porque não está lá, nem ainda virá, se virá, a ser, a aparecer, a crescer?

         Oh amada infinita, quem és? Onde estás? Em que céu ou em que terra tu te encontras? Por quem és, responde,
acontece, mostra-nos o mapa e o rosto da tua rota e a via o link de acesso da tua realidade, oh infinita amada?

         Esta mulher sem fim não será aquela de uma única noite, mas a que sobreviverá a todas as noites, nas noites insaciadas
sobre outras noites, as noites sobre as noites, aquelas que se sobrepõem, sem o espaço intermediário de um dia, aquela
escuridão noturna que nunca amanhece, que nem termina, nem se esgota senão em si mesmo e se renova e se refaz e não se
retira nunca?

        Porque ela é a musa, o motivo poético, o amor em pessoa, a onda do mar, a fonte do ser, a oriunda matriz, o ventre da
fecundidade, o abrigo da maternidade nunca perdida, o leito da vida e da morte, o refrigério do cansaço e da proteção, a
criadora, a mãe e o socorro.

        'Essa mulher sem fim, e a noite sobre a noite'.
        Só, em si mesma, é uma incógnita esclarecedora de todas as nossas vicissitudes e vivências, de todas as nossas lástimas e
alegrias, das sexuais às espirituais porque também são gozosas.

         Oh, Amada imortal! Oh, Pátria de meu espírito e de minha inspiração!
         Por isso me calo.
         Por isso apenas fico no primeiro verso.
         Porque ali mesmo esgoto a minha condição de possibilidade de ler.
         Porque dali não passo, que dali não posso.
         Sim, essa mulher é a fome de Deus, a fome de amor, a fome, o amor. Morrer é mergulhar no fundo do seu ser e no mar de sua absorção, na escuridão de sua benfazeja fosforescência e nas profundezas de suas instabilidades, nas suas carícias e nas suas idas, nas superfícies e sedas, nas redes máscaras e laços dos seus cabelos e tranças, seus sonhos e necessidades.
 Somos todos descendentes dessa mulher sem fim, dessa maternidade original e nunca esquecida, dessa raiz funda que mora no coração de nossa matéria e de nossa sensibilidade, de nossa familiar solidão.

        Caminhamos a passos largos nesses rumos, navegamos nas vagas desse mar e nas rotas  desse trafegar oceânico pelos
descaminhos de nossas aspirações, esquecimentos e mitos.

        Essa mãe é a natural beleza da nossa moldura, pátria e lar.
        Espuma do mar eternamente e a pedra.

domingo, 17 de novembro de 2013

Doris Lessing morre aos 94 anos

Escritora Doris Lessing morre aos 94 anos

Ela foi uma das mais influentes escritoras do século 20.
Com mais de 50 romances, ela ganhou o Nobel de Literatura em 2007.

Da EFE
A escritora britânica Doris Lessing, em foto de maio de 1999 (Foto: Andreu Dalmau/AFP)A escritora britânica Doris Lessing, em foto de maio
de 1999 (Foto: Andreu Dalmau/AFP)
Doris Lessing, uma das escritoras mais influentes do século 20, morreu aos 94 anos neste domingo (17).
Autora de mais de 50 romances, durante sua carreira Lessing foi agraciada com vários prêmios, entre eles o Nobel de Literatura em 2007 e o Príncipe das Astúrias em 2001.
Lessing morreu "em paz" na madrugada deste domingo (17) em sua casa do norte de Londres, afirmou Jonathan Clowes, seu agente e amigo de toda a vida, apesar de não ter revelado a causa da morte.
"Era uma escritora maravilhosa com uma mente fascinante e original; foi um privilégio trabalhar para ela e sentirei saudades", afirmou Clowes.
Nascida em 22 de outubro de 1919 em Kermanshah, na Pérsia - hoje Irã -, Doris Lessing escreveu uma rica obra que fez dela um ícone de marxistas, anticolonialistas, militantes anti-apartheid e feministas.
Grande parte de sua obra narrativa e poética está baseada em sua própria experiência na África e na Inglaterra, com personagens femininos sensíveis e perceptivos que se adentram em questões existenciais e exploram as contradições.
Embora tenha sido classificada como escritora feminista, Lessing, que militou em grupos de esquerda, rejeitou esse rótulo ao considerar que sua obra era mais um exame psicológico do ser humano e seu entorno.
Seus pais haviam sido transferidos a trabalho para a Pérsia quando ela nasceu. O pai era um antigo oficial do exército britânico que serviu durante a I Guerra Mundial, Alfred, e sua mãe a enfermeira Emily.
Em 1925, a família se mudou para o sul de Rodésia (o Zimbábue atual), onde seu pai comprou uma fazenda que não prosperou e sua mãe se esforçou para viver como uma dama georgiana, o que teve um impacto pernicioso em sua filha, que a autora descreveu na primeira parte de sua autobiografia, "Sob minha pele" (1994).
Lessing, que foi internada em um colégio de freiras, abandonou a educação formal aos 14 anos e teve vários empregos, ao mesmo tempo em que começou a experimentar na literatura.
Após trabalhar como telefonista em Salisbury (atual Harare), em 1939, com 19 anos se casou com o funcionário Frank Charles Wisdom, com quem teve um filho, John, e uma filha, Jean, e de quem se divorciou em 1943.
Foto de 2008 mostra Doris Lessing com a insígnia do Nobel que ganhou em 2008 (Foto: SHAUN CURRY / AFP)Foto de 2008 mostra Doris Lessing com a insígnia do Nobel que ganhou em 2007 (Foto: SHAUN CURRY / AFP)
Dois anos depois se casou com Gottfried Lessing, uma exilado judeu-alemão a quem tinha conhecido em um grupo literário marxista, e com quem teve outro filho, Peter.
Após divorciar-se de Lessing, em 1949 a escritora se mudou para o Reino Unido com seu filho mais novo, deixando na África do Sul os outros dois ao concluir, segundo explicou anos depois, que não queria desperdiçar seu intelecto no trabalho de ser mãe.
Lessing militou no Partido Comunista britânico entre 1952 e 1956 e participou de campanhas contra as armas nucleares. Sua crítica ao regime sul-africano lhe custou o veto de sua entrada no país entre 1956 e 1995, e também na Rodésia, em 1956.
Durante as últimas décadas de sua vida, Lessing viveu na mesma rua do londrino bairro de West Hampstead, cuidando de seu filho inválido Peter e sem abandonar sua atividade literária.
Conhecida principalmente por "O carnê dourado" (1962), onde faz uma análise da personalidade e da criatividade feminina, a obra de Lessing é ampla e versa sobre muitos temas, desde a questão da identidade em culturas alheias até o limite da loucura.
Além da crítica social de seus primeiros textos, considerados comunistas, a escritora também se dedicou à ficção científica com sua série "Canopus in Argos", realizada entre 1979 e 1983 e inspirada no sufismo.
Outros livros são "A boa terrorista" (1985), "O quinto filho" (1988) e os que escreveu sob o pseudônimo de Jane Somers, como "Diário do bom vizinho" (1983), a fim de demonstrar as dificuldades para publicar que enfrentavam os escritores novatos.
Apesar de ter rejeitado ser porta-voz do feminismo da época, que considerava uma simplificação da relação entre homens e mulheres, sua obra mais famosa, "O carnê dourado", de marcado tom autobiográfico, se transformou em um clássico da literatura feminista por seu estilo experimental e sua análise da psique feminina.
Lessing, que em 1999 rejeitou o título de Dama do Império Britânico concedido pela rainha Elizabeth II, porque "já não há nenhum império", embora tenha aceitado outro título menor, trabalhou até o final de sua vida escrevendo artigos, romances, relatos e poesia.

O TEMPO VOA


Rogel Samuel: Qualquer que seja a chuva desses campos

Rogel Samuel: Qualquer que seja a chuva desses campos

 
Rogel Samuel:  Qualquer que seja a chuva desses campos
 
Há um soneto de Jorge de Lima que releio sempre, que não me canso de lembrar e que assim canta:
 
“Qualquer que seja a chuva desses campos
devemos esperar pelos estios;
e ao chegar os serões e os fiéis enganos
amar os sonhos que restarem frios.

Porém se não surgir o que sonhamos
e os ninhos imortais forem vazios,
há de haver pelo menos por ali
os pássaros que nós idealizamos.

Feliz de quem com cânticos se esconde
e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas”.

Jorge de Lima, Invenção
de Orfeu - Canto I – XXVI
 
 
Se tudo estiver bem, lembre-se de que tempos piores podem advir: “Qualquer que seja a chuva desses campos / devemos esperar pelos estios”. E quando a época ruim chegar, devemos contentar-nos com os sonhos. O poeta está sendo pessimista, espera os danos futuros. Pensa em não conseguir o amor sonhado, imortal: “Porém se não surgir o que sonhamos / e os ninhos imortais forem vazios, / há de haver pelo menos por ali / os pássaros que nós idealizamos”.

Feliz de quem com cânticos se esconde
e julga tê-los em seus próprios bicos,
e ao bico alheio em cânticos responde.

E vendo em torno as mais terríveis cenas,
possa mirar-se as asas depenadas
e contentar-se com as secretas penas.