quinta-feira, 23 de outubro de 2014

POESIA ARGENTINA

 

POESIA ARGENTINA

ANTOLOGIA ORGANIZADA
POR 

Betty López*




 
 
 
 
 

 Pedro Benjamín Palacios 

(conocido como "Almafuerte")
 
  Piú Avanti!







No te des por vencido, ni aún vencido,
no te sientas esclavo, ni aún esclavo;
trémulo de pavor, piénsate bravo,
y acomete feroz, ya mal herido. Ten el tesón del clavo enmohecido
que ya viejo y ruin, vuelve a ser clavo,
no la cobarde estupidez del pavo
que amaina su plumaje al primer ruido. Procede como Dios que nunca llora;
o como Lucifer, que nunca reza;
o como el robledal, cuya grandeza
necesita del agua y no la implora... ¡Que muerda y vocifere vengadora,
ya rodando en el polvo, tu cabeza!
 

Los poemas que siguen son de Borges: 

Jorge Luis BORGES

 EL INSTANTE 

 
 
¿Dónde estarán los siglos, dónde el sueño
de espadas que los tártaros soñaron,
dónde los fuertes muros que allanaron,
dónde el Árbol de Adán y el otro Leño? El presente está solo. La memoria
erige el tiempo. Sucesión y engaño
es la rutina del reloj. El año
no es menos vano que la vana historia.  Entre el alba y la noche hay un abismo
de agonías, de luces, de cuidados;
el rostro que se mira en los gastados  espejos de la noche no es el mismo.
El hoy fugaz es tenue y es eterno;
otro Cielo no esperes, ni otro Infierno.                                           1964
 

El remordimiento 

 
 

He cometido el peor de los pecados
que un hombre puede cometer. No he sido
feliz. Que los glaciares del olvido
me arrastren y me pierdan, despiadados. Mis padres me engendraron para el juego
arriesgado y hermoso de la vida,
para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida no fue su joven voluntad. Mi mente
se aplicó a las simétricas porfías
del arte, que entreteje naderías. Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado. 
 
 
   
 *EX-ALUNA DE BORGES

sábado, 9 de agosto de 2014

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Ó VIRGENS QUE PASSAI AO SOL POENTE


Ó VIRGENS QUE  PASSAI AO SOL POENTE

 

 

Rogel Samuel

 

Sim, veja, leia: É assim que diz o famoso soneto de Antonio Nobre:

 

Ó virgens que passai, ao Sol-poente,

Pelas estradas ermas, a cantar!

Eu quero ouvir uma canção ardente,

Que me transporte ao meu perdido Lar.

 

Cantai-me, nessa voz onipotente,

O Sol que tomba, aureolando o Mar,

A fartura da seara reluzente,

O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

 

Cantai! cantai as límpidas cantigas!

Das ruína do meu lar desaterrai

Todas aquelas ilusões antigas

 

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...

Ó suaves e frescas raparigas,

Adormecei-me nessa voz... Cantai!

 

 

Antônio Nobre é poeta simbolista, portanto no seu famoso soneto, o «sol-poente» nos deve remeter a «algo», deve escamotear o sentido, para alguma outra natureza, esconde o que diz.

Não seria a velhice, pois o poeta morreu jovem, com 33 anos, em 1900.

Talvez as virgens, úberes, fartas de potencialidades, a ser fecundadas na «fartura da seara reluzente», gozosas, obreiras dessa tarde, desejantes, grávidas de prazeres, vitalidades...

Mas, por que «o sol poente»?

Por que não o despertar, o meio-dia, o pleno sol da tarde?

E, sendo «poente», por que «ardente»?

E sendo «ardente», por que tomba, por que cadente, no meio dessa seara reluzente?

E se «virgens», por que «o vinho, a Graça, a formosura, o luar!»

Sim, que de mistérios vive a poesia.

Engana o/a leitora, engana-se o/a leitora, que pensa estar, apenas, o sujeito do poema lastimando o seu «perdido lar», as suas «ilusões antigas», as ruínas do seu lar.

Sim, é certo.

Certo, certo de que tudo isso é assim, também.

E o que o poeta Nobre não se deve confundir com a pessoa Nobre.

O «personagem» do poema pode ser um velho.

Mas velho possante («O Sol que tomba, aureolando o Mar»), rico de vida, de vitalidade («A fartura da seara reluzente»).

A força, a beleza do poema reside no contraste: «suaves e frescas raparigas» X «ruína do meu lar».

E sua canção é o hino que desperta «todas aquelas ilusões antigas».

A oposição e o sentido está nas belas rimas poente-ardente, cantar-lar, onipotente-reluzente, mar-luar, cantigas-raparigas, desaterrai-cantai.

São rimas significativas, verdadeiras pontes de significação, irradiam sentidos.

Sim.

Sim, tudo isso «eu vi morrer», de súbito, sim, o lar despedaçado.

E o poeta precisa morrer, dormir, esquecer, fugir daquelas lembranças do passado familiar, feliz, longe daquelas «estradas ermas», lar que era «sol», «mar»,

 

A fartura da seara reluzente,

O vinho, a Graça, a formosura, o luar!

 

O poema se encontra consigo mesmo. No fim.

Toda a fantasia da dança feminina, ao cair da tarde, seus cantos, suas suavidades reluzentes no conjunto desses evocativos versos.

Afinal são fantásticos dias de infância recuperados ao sol poente. Na voz daquelas raparigas virgens, que passam, como passaram as vozes familiares das mulheres da infância, das irmãs, mães tias avós que passaram todas pela estrada.

O lar é isso. Conjunto de pessoas.

Não lar-casa. Mas grupo familiar.

Ó Primas e Irmãs, ó virgens, cantai!

Esta é a canção.

O poema envolve sonoridade corredia: é poema para ler lido alto, em voz alta.

Poesia alta, graça, frescura, leveza.

Aureolando o Mar, límpidas cantigas.

Fartura do canto daquelas ilusões antigas de um passado, das lembranças da infância do seu perdido lar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

UM SUSTO

AGRIPA


Agripa Vasconcelos

AGRIPA VASCONCELOS


Rogel Samuel


Foi um escritor de sucesso. Seus livros venderam milhares e ainda vendem. Agripa Vasconcelos escreveu «Silêncio», poemas, que o levou à Academia Mineira de Letras, aos 22 anos de idade, sucedendo a Alphonsus de Guimaraens: O livro se vendeu no Rio em 30 dias e está esgotado até hoje. "Nós e os Caminhos do Destino", foi outro êxito. O romance "Fome em Canaã" concorreu ao Concurso da Revista "O Cruzeiro", e foi  premiado. "Suor de Sangue" ganhou o prêmio "Olavo Bilac", da Academia Brasileira de Letras, primeiro prêmio dos livros brasileiros de poesia, em 1949. Depois veio "A Morte do Escoteiro Caio".

Escreveu livros científicos - "De que morreu o Aleijadinho", em que diagnosticou a morte de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho: especialistas, em livros posteriores confirmam seu parecer, como o mestre Miguel Couto, que escreveu ao aluno que entregava a mão à palmatória, convencido que ficara de seu antigo erro.

*    *    *

Agripa escritor mineiro de corpo e alma, um verdadeiro fanatismo.
«Para ele, os poetas, os ensaístas, os romancistas mais notáveis da América são os de Minas Gerais», disse um crítico.
A Editora Itatiaia publicou ''São Chico", uma saga sobre o Rio São Francisco e "Gado Preto em ouro verde", o ciclo da cultura do café e da escravidão.

*    *    *

Era médico, foi para o Nordeste como cirurgião-chefe da Companhia Hidro Elétrica de Paulo Afonso, Bahia, onde construiu o "Hospital Nau Souza".
Aposentado do Banco do Brasil, do Instituto Federal e de companhias particulares no Recife, onde clinicou. Faleceu em Belo Horizonte, no dia 21 de janeiro de 1969.

*    *    *

Escreveu romances de sucesso: «Sinhá braba, «A vida em flor de dona Beja» (que inspirou a famosa novela), «Gongo-sogo», «Chica que manda», um excelente romance sobre Chica da Silva.

Em carta de Recife ao seu Editor, Pedro Paulo Moreira, disse:

"Minha vida  nada tem de importante para seu estudo. A profissão de médico rural que fui no começo me aproximou do povo, da ralé desclassificada. E dos humildes sem justiça. Quando examino algum deles procuro conhecer vida e hábitos, o linguajar, as lendas, o folclore de sua região. Poucos conhecem o interior com mais profundidade. Homem de nenhuma vaidade, nenhum orgulho, sou um trabalhador por prazer e meus trabalhos refletem meus conhecimentos do nosso povo, daí e daqui. Uma opinião que me agradou foi a do querido Ascenso Ferreira: Seu livro sobre Beja foi o melhor romance que li". (Agripa)

Como poeta está quase desconhecido.

Era um poeta parnasiano tardio, como tantos outros.

Seu belo poema «Chuva do mar», para mim, é um clássico do gênero:

Quando Raquel casou, naquela tarde mansa
Vi desfeito de vez meu sonho de criança. . .
Um desespero atroz meu ser avassalou!
Mas alguém que conhece os mistérios do mundo
Num sussurro me disse um conselho profundo:
- Isso é chuva do mar. Vai passar.
E passou.

Quando, ainda mocinho, eu senti, doido de ira,
Que, parecendo certo, era tudo mentira
O amor que me jurara a pérfida Margot,
Quis Morrer - mas alguém que conhece essa vida
Me falou, sem calor, mas em frase sentida: ,
- Isso é chuva do mar: Vai passar.
E passou.

Quando Ofélia seguiu seu destino sombrio,
Senti, como ainda sinto, o coração vazio!...
Faz tanto tempo já que nem sei mais quem sou!
Mas quem viu, em meu pranto uma simples garoa
Quis em vão me dizer uma palavra boa:
- Isso é chuva de mar. Vai passar.
Não passou.

Nasceu a 12 de abril de 1900, em Matosinhos, município de Santa Luzia. Aluno de Carlos Góis e Aurélio Pires, que o consideraram o melhor aluno que tiveram.
Afrânio Peixoto, que era catedrático, quis conhecê-lo e essa amizade se prolongou até a morte do grande mestre nacional.

Na epidemia da gripe de 1918, no Rio de Janeiro, levado por Leal de Souza, prestou serviços a Coelho Neto, que o considerou sempre "amigo dos que mais viveu em meu coração".

Foi interno do mestre Miguel Couto, que escreveu, ao celebrar seu 25º aniversário como professor, no Hotel Glória, do Rio, que seus melhores internos tinham sido até então Leitão da Cunha, Otávio Aires, Gastão Crulz e Agripa Vasconcelos. A lágrima nos olhos de Miguel Couto revela que sempre o considerou como filho.

No fim do curso médico foi orador de sua turma; e Miguel Couto, paraninfo. Este começou sua oração com o elogio de seu aluno, fato até hoje inédito na oração dos paraninfos.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

NA PORTA DA FNFi

Na porta da FNFi
 
Rogel Samuel
 
A primeira pessoa que encontrei na porta da Faculdade foi Anísio Teixeira.
Mas eu não sabia. O primo de meu pai, Gervásio, me levou até bem perto do prédio e lá fui eu, com 18 anos de idade.
- Aqui é a Faculdade Nacional de Filosofia? – perguntei para aquele senhor mal-vestido, de óculos velhos de aros “de tartaruga”. Pensei que era o porteiro. Era Anísio Teixeira, conforme depois vi na sala de aula, meu professor de Filosofia da Educação.
Foi o único professor que vi baterem palmas depois da aula.
Ele me orientou, da porta, e eu fui inscrever-me no Vestibular, recém-chegado de Manaus.
Não passei, naquele primeiro vestibular. No dia da prova de francês, estava com febre de 40 graus e D. Marcella Mortara me reprovou, ou melhor, inutilizou minha prova com um risco diagonal e escreveu como nota: “Ilegível”, e aplicou um zero.
Sempre tive uma péssima letra. Até hoje. Eu devia ter estudado caligrafia, como se faziam os antigos.
Por isso, estudei ali no Curso Vestibular da própria Faculdade, gratuito, por um ano. E foi bom.
O curso era do Diretório Acadêmico (um ano depois eu era professor ali), e os professores eram os alunos... mas uns gênios.
Fui aluno do Antônio Pio (onde andará), de latim. Lia latim e grego como eu hoje leio jornal. Anos depois foi aposentado precocemente vitimado por misteriosa doença. Fui aluno de Antonio Augusto, depois assistente do Celso Cunha. Ali só havia gênios.
Eu morava em quartos alugados e comia no Calabouço, restaurante da UME, União Minicipal dos Estudantes, que ficava nas imediações do Aeroporto Santos  Dumont. 
O Aterro estava sendo feito.
Tive a sorte de passar em primeiro lugar (foi o que me disse depois Aluísio Trinta) para o Vestibular de Letras Clássicas. Pura sorte.
Havia 20 vagas, só passamos creio que 12. Provas escritas e orais.
Celso Cunha, na prova, mandou que justificássemos o verso de Camões: “Mas porém a que cuidados”. Ele queria se explicasse o “mas porém”.
E por aí foi.
O meu quarto, no Maracanã, dava para um beco e uma casa abandonada.
Dali eu só tinha a visão daquele muro velho e, à esquerda, uma árvore antiga daquela rua Eurico Rabelo.
Como eu precisava de mesa, comprei um “bureau” usado, antigo, de madeira preta, que pertencera a um ministério. Era gigantesco.
O Maracanã ficava em frente, e nos grandes jogos cada gol soava como uma onda que se elevasse saída de um vulcão furioso.
Era possível entrar no Maracanã vazio, ir até o gramado, olhar do centro para a periferia, para aquelas galerias monstruosas e vazias, descritas por Clarice Lispector num belo conto.
Passei a explorar o Rio, de ponta a ponta.
Nos dias livres tomava um ônibus e visitava Caxias, Meriti, São Gonçalo etc.
Chegava no fim da linha, pegava o ônibus de volta.
Foi aí que desenvolvi o espírito de viajante. Mais tarde percorri o Nordeste, o Sul, e depois o mundo, Katmandhu, Sydney, Paris...
O espírito de aventura. Que perdi, depois de velho.
A porta da FNFi foi minha entrada para o mundo.
 
 

domingo, 3 de agosto de 2014

Almino Afonso e Hemetério Caminha

Almino Afonso e Hemetério Caminha

Almino Afonso e Hemetério Caminha

Rogel Samuel

Vi Almino Afonso uma única vez na vida.

Eu devia ter 16, 17 anos de idade e era, na época, repórter de “A crítica”.

Aquele jornal ficava na Saldanha Marinho, e tinha cerca de dois andares. No andar de baixo, térreo, ficavam as impressoras, linotipos. No primeiro andar, ficava a redação e a sala da diretoria. Tudo era uma só área: aos fundos era a redação, onde eu trabalhava. Meu chefe se chamava, se não me engano, Gutemberg Omena, um rapaz bem vestido, elegante, mas muito exigente. Na frente, com janelas para a rua, ficava a mesa do diretor, o Calderaro, onde ele se reunia com os visitantes ilustres.

Foi ali que vi Almino Afonso.

Anos depois, conversei com Almino Afonso por telefone, quando pedia seu voto: eu era candidato a uma cadeira na Academia Amazonense de Letras. Ele se disse já comprometido, mas conversamos por cerca 15 minutos.
Acabei ganhando o título de "Sócio correspondente", o que me pôs ao lado de nomes como Humberto de Campos, Coelho Neto, etc. Nada mal...



Ali na Crítica também conheci o excelente poeta Hemetério Caminha. Recitando Castro Alvez:

Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

Ele tinha o timbre de ator shakespeariano, a densidade, a eloqüência, a voz voltada para o alto, o sublime, o dramático voar.

sábado, 2 de agosto de 2014

TEATRO AMAZONAS


Em 1882 a comitiva de José Paranaguá saltou em Amatari à procura do cemitério dos índios Miracauuêra. Em 12 de julho subiu o Rio Negro. Explorou o rio Cuieires à procura dos índios Arauquis, dizimados em 1669 pelo Capitão Favela. Em 12 de setembro explorou o Baixo Amazonas, acompanhado por comitiva da qual fazia parte José Veríssimo.  Em novembro explorou o Purus. O governador era um explorador. Detestava burocracia.  Foi na administração dele que se começou a construir o suntuoso Teatro. A lei chamava concorrentes para a execução da planta e dotava 30 contos de réis para o início das obras, não mais orçadas em 60, nem em 120... Mas em 250 contos de réis.  Aquilo ficou esquecido durante o resto do ano. 
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            


 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O AMANTE DAS AMAZONAS

Não, agudissimamente obsedado, Pierre Bataillon herdara restos espirituais da monarquia de grandes reis, admirado por nações, ou obra-prima da literatura - como se esperasse o óbvio: que logo os Numas viriam prostrar-se e reverenciar o seu supremo caráter e estilo - as insólitas reações daquele homem, ser qualitativo, fora da indistinta massa humana, pertencente ao número dos que representam algo excepcional, que ilustram o nome com a imagem interna do uso de si, ligando-se à metafísica de uma criação de um super-homem singular e inscrito na atmosfera do fantástico cotidiano.
 


 


 


CERCA de 500 metros acima do tapiri havia um trecho do rio onde o Igarapé do Inferno fechava - ainda que corrida, funda, escura e fria - a Curva do Tucumã, acima da qual nunca ninguém passava adiante, universo regido pela povoação Numa - “Você não passa”, disse tio Genaro, naquela tarde. “Você nunca atravesse o rio”. E na margem se lançavam os limites que se sobrepunham sobre as marcas da significação da vida, alerta e alarme, nos traços insondáveis e infratores (“Não passarás!”), e por isso aquele lugar atraía tanto quanto o Proibido, o Outro, na lâmina de aço da imagem duplicada e interior, aquilo que libertava a atenta direção do salto da novidade. Pois do lado de cá ficava como um sapo em sua poça, condenado ao que seria a família constituída, dois machos protagonistas do enigma do meu silêncio e angustiosa comunicação gestual, parentes quase mudos bichos, que salvavam a vida do deserto por resmungos monossilábicos, viventes sem mulheres e amizades, existindo na prisão geográfica onde só recordar era possível sob a pressão da materialidade selvagem e da solidariedade de guerra: que de madrugada partiam para a estrada como para a morte, impulsionados por uma ordem biológica, ficando eu nos afazeres do de sempre: defumar as pélas, e no de sempre o mesmo conhecimento de que tinha errado a rota do Paraíso - sim, eu esticava caniço de pesca que durava as horas inúteis, os dias inúteis, o tempo inútil, nem pensar pensava - semanas, meses e ia a ser anos a fio até a morte, a vida somente aquilo, o mundo somente a espera - desde que chegara tudo se estagnava no mudo e no nulo do anônimo de uma monotonia circular e estéril, de uma mecânica vida mascarada de impessoal catástrofe - porque eu sabia que ia adoecer - e que doente ali ia morrer sem perdão. Eu me adivinhava insignificante individualidade da classe condenada a morrer de malária no antro da floresta comida de bichos.


 


 


MAS a vida é um caminho que de repente se bifurca. E passa que, um dia, naquele dia - e eram certamente três horas da tarde, de tarde calma, quente e sobretudo verde entre árvores - estando eu sentado no tronco de espera que na Curva do Tucumã havia - bem defronte à curva plena do rio: o lugar era de pesca porque o igarapé, naquela altura, projetava-se numa rápida e solta volta quase em sacado, enseada de poço, piscoso e escuro, encobriria um homem alto logo sobre a margem, debaixo do cântico geral daqueles pássaros de bico largo e penas coloridas - quando, acintosamente, surpreendentes, de modo escandaloso e palerma, apareceram aquelas duas indiazinhas nuas.


Era certo que os Numas sempre voltavam das suas lendárias e por ninguém conhecidas montanhas peruanas. E certo também que voltavam gigantescos e ferozes, movendo-se sempre nas igualmente imaginárias áreas do Rio Pique Yaco, do Rio Toro, e do além mais. Mas nunca apareciam, qual seja: não ficavam visíveis, às claras, de frente, nítidos, senão de viés, difusamente entrevistos, só pressentidos na obliqüidade do olhar. Mas aquelas meninas - a poesia apronta um mundo, a prosa outro - estavam ali excessivamente reais, muito mais reais e humanas do que os sediciosos machos seus irmãos. Nem aquilo era mais revide a todas exações suportadas pela floresta durante a ocupação seringalista. Onde há poder, ele se exerce? Para mim, elas estavam uma na outra, se abraçando dentro d’água por baixo o que era tão fácil as mãozinhas tal como eu enxergava na minha perspectiva sexualizada. Reais, humanamente reais, lá, do outro lado - as primeiras fêmeas Numas que apareceram em todo o mundo, belas como o sol sobre a risca da Terra.

quarta-feira, 30 de julho de 2014



Para evitar o fracasso, as decisões devem antes de mais nada ser meditadas, com as suas conseqüências. Imagina-as como uma rede de energias, com forças que se cruzam, se amplificam ou se combatem. Tu és o centro delas. A única nascente. É preciso iluminar o obstáculo muito longe, antes de o enfrentar, compreender o seu mecanismo de funcionamento, para não ser surpreendido e vencer as suas armadilhas.

DUGPA RINPOCHÊ

segunda-feira, 28 de julho de 2014

FOTO


SAMUEL PRADO

Há quase quarenta anos _

 
 
Na primeira gaveta da mesa de cabeceira
alguns papéis escritos e uma fotografia antiga
Algum pó desfeito nas paredes da casa
e uma aliança que seguro  entre os dedos

As árvores
naufragas de si mesmas
há quase quarenta anos

 
 
Samuel Prado

SEBASTIÃO SALGADO


domingo, 27 de julho de 2014

CASA TOMADA

Casa tomada[Cuento. Texto completo.] Julio Cortázar
Nos gustaba la casa porque aparte de espaciosa y antigua (hoy que las casas antiguas sucumben a la más ventajosa liquidación de sus materiales) guardaba los recuerdos de nuestros bisabuelos, el abuelo paterno, nuestros padres y toda la infancia.
Nos habituamos Irene y yo a persistir solos en ella, lo que era una locura pues en esa casa podían vivir ocho personas sin estorbarse. Hacíamos la limpieza por la mañana, levantándonos a las siete, y a eso de las once yo le dejaba a Irene las últimas habitaciones por repasar y me iba a la cocina. Almorzábamos al mediodía, siempre puntuales; ya no quedaba nada por hacer fuera de unos platos sucios. Nos resultaba grato almorzar pensando en la casa profunda y silenciosa y cómo nos bastábamos para mantenerla limpia. A veces llegábamos a creer que era ella la que no nos dejó casarnos. Irene rechazó dos pretendientes sin mayor motivo, a mí se me murió María Esther antes que llegáramos a comprometernos. Entramos en los cuarenta años con la inexpresada idea de que el nuestro, simple y silencioso matrimonio de hermanos, era necesaria clausura de la genealogía asentada por nuestros bisabuelos en nuestra casa. Nos moriríamos allí algún día, vagos y esquivos primos se quedarían con la casa y la echarían al suelo para enriquecerse con el terreno y los ladrillos; o mejor, nosotros mismos la voltearíamos justicieramente antes de que fuese demasiado tarde.
Irene era una chica nacida para no molestar a nadie. Aparte de su actividad matinal se pasaba el resto del día tejiendo en el sofá de su dormitorio. No sé por qué tejía tanto, yo creo que las mujeres tejen cuando han encontrado en esa labor el gran pretexto para no hacer nada. Irene no era así, tejía cosas siempre necesarias, tricotas para el invierno, medias para mí, mañanitas y chalecos para ella. A veces tejía un chaleco y después lo destejía en un momento porque algo no le agradaba; era gracioso ver en la canastilla el montón de lana encrespada resistiéndose a perder su forma de algunas horas. Los sábados iba yo al centro a comprarle lana; Irene tenía fe en mi gusto, se complacía con los colores y nunca tuve que devolver madejas. Yo aprovechaba esas salidas para dar una vuelta por las librerías y preguntar vanamente si había novedades en literatura francesa. Desde 1939 no llegaba nada valioso a la Argentina.
Pero es de la casa que me interesa hablar, de la casa y de Irene, porque yo no tengo importancia. Me pregunto qué hubiera hecho Irene sin el tejido. Uno puede releer un libro, pero cuando un pullover está terminado no se puede repetirlo sin escándalo. Un día encontré el cajón de abajo de la cómoda de alcanfor lleno de pañoletas blancas, verdes, lila. Estaban con naftalina, apiladas como en una mercería; no tuve valor para preguntarle a Irene qué pensaba hacer con ellas. No necesitábamos ganarnos la vida, todos los meses llegaba plata de los campos y el dinero aumentaba. Pero a Irene solamente la entretenía el tejido, mostraba una destreza maravillosa y a mí se me iban las horas viéndole las manos como erizos plateados, agujas yendo y viniendo y una o dos canastillas en el suelo donde se agitaban constantemente los ovillos. Era hermoso.
Cómo no acordarme de la distribución de la casa. El comedor, una sala con gobelinos, la biblioteca y tres dormitorios grandes quedaban en la parte más retirada, la que mira hacia Rodríguez Peña. Solamente un pasillo con su maciza puerta de roble aislaba esa parte del ala delantera donde había un baño, la cocina, nuestros dormitorios y el living central, al cual comunicaban los dormitorios y el pasillo. Se entraba a la casa por un zaguán con mayólica, y la puerta cancel daba al living. De manera que uno entraba por el zaguán, abría la cancel y pasaba al living; tenía a los lados las puertas de nuestros dormitorios, y al frente el pasillo que conducía a la parte más retirada; avanzando por el pasillo se franqueaba la puerta de roble y mas allá empezaba el otro lado de la casa, o bien se podía girar a la izquierda justamente antes de la puerta y seguir por un pasillo más estrecho que llevaba a la cocina y el baño. Cuando la puerta estaba abierta advertía uno que la casa era muy grande; si no, daba la impresión de un departamento de los que se edifican ahora, apenas para moverse; Irene y yo vivíamos siempre en esta parte de la casa, casi nunca íbamos más allá de la puerta de roble, salvo para hacer la limpieza, pues es increíble cómo se junta tierra en los muebles. Buenos Aires será una ciudad limpia, pero eso lo debe a sus habitantes y no a otra cosa. Hay demasiada tierra en el aire, apenas sopla una ráfaga se palpa el polvo en los mármoles de las consolas y entre los rombos de las carpetas de macramé; da trabajo sacarlo bien con plumero, vuela y se suspende en el aire, un momento después se deposita de nuevo en los muebles y los pianos.
Lo recordaré siempre con claridad porque fue simple y sin circunstancias inútiles. Irene estaba tejiendo en su dormitorio, eran las ocho de la noche y de repente se me ocurrió poner al fuego la pavita del mate. Fui por el pasillo hasta enfrentar la entornada puerta de roble, y daba la vuelta al codo que llevaba a la cocina cuando escuché algo en el comedor o en la biblioteca. El sonido venía impreciso y sordo, como un volcarse de silla sobre la alfombra o un ahogado susurro de conversación. También lo oí, al mismo tiempo o un segundo después, en el fondo del pasillo que traía desde aquellas piezas hasta la puerta. Me tiré contra la pared antes de que fuera demasiado tarde, la cerré de golpe apoyando el cuerpo; felizmente la llave estaba puesta de nuestro lado y además corrí el gran cerrojo para más seguridad.
Fui a la cocina, calenté la pavita, y cuando estuve de vuelta con la bandeja del mate le dije a Irene:
-Tuve que cerrar la puerta del pasillo. Han tomado parte del fondo.
Dejó caer el tejido y me miró con sus graves ojos cansados.
-¿Estás seguro?
Asentí.
-Entonces -dijo recogiendo las agujas- tendremos que vivir en este lado.
Yo cebaba el mate con mucho cuidado, pero ella tardó un rato en reanudar su labor. Me acuerdo que me tejía un chaleco gris; a mí me gustaba ese chaleco.
Los primeros días nos pareció penoso porque ambos habíamos dejado en la parte tomada muchas cosas que queríamos. Mis libros de literatura francesa, por ejemplo, estaban todos en la biblioteca. Irene pensó en una botella de Hesperidina de muchos años. Con frecuencia (pero esto solamente sucedió los primeros días) cerrábamos algún cajón de las cómodas y nos mirábamos con tristeza.
-No está aquí.
Y era una cosa más de todo lo que habíamos perdido al otro lado de la casa.
Pero también tuvimos ventajas. La limpieza se simplificó tanto que aun levantándose tardísimo, a las nueve y media por ejemplo, no daban las once y ya estábamos de brazos cruzados. Irene se acostumbró a ir conmigo a la cocina y ayudarme a preparar el almuerzo. Lo pensamos bien, y se decidió esto: mientras yo preparaba el almuerzo, Irene cocinaría platos para comer fríos de noche. Nos alegramos porque siempre resultaba molesto tener que abandonar los dormitorios al atardecer y ponerse a cocinar. Ahora nos bastaba con la mesa en el dormitorio de Irene y las fuentes de comida fiambre.
Irene estaba contenta porque le quedaba más tiempo para tejer. Yo andaba un poco perdido a causa de los libros, pero por no afligir a mi hermana me puse a revisar la colección de estampillas de papá, y eso me sirvió para matar el tiempo. Nos divertíamos mucho, cada uno en sus cosas, casi siempre reunidos en el dormitorio de Irene que era más cómodo. A veces Irene decía:
-Fijate este punto que se me ha ocurrido. ¿No da un dibujo de trébol?
Un rato después era yo el que le ponía ante los ojos un cuadradito de papel para que viese el mérito de algún sello de Eupen y Malmédy. Estábamos bien, y poco a poco empezábamos a no pensar. Se puede vivir sin pensar.
(Cuando Irene soñaba en alta voz yo me desvelaba en seguida. Nunca pude habituarme a esa voz de estatua o papagayo, voz que viene de los sueños y no de la garganta. Irene decía que mis sueños consistían en grandes sacudones que a veces hacían caer el cobertor. Nuestros dormitorios tenían el living de por medio, pero de noche se escuchaba cualquier cosa en la casa. Nos oíamos respirar, toser, presentíamos el ademán que conduce a la llave del velador, los mutuos y frecuentes insomnios.
Aparte de eso todo estaba callado en la casa. De día eran los rumores domésticos, el roce metálico de las agujas de tejer, un crujido al pasar las hojas del álbum filatélico. La puerta de roble, creo haberlo dicho, era maciza. En la cocina y el baño, que quedaban tocando la parte tomada, nos poníamos a hablar en voz más alta o Irene cantaba canciones de cuna. En una cocina hay demasiados ruidos de loza y vidrios para que otros sonidos irrumpan en ella. Muy pocas veces permitíamos allí el silencio, pero cuando tornábamos a los dormitorios y al living, entonces la casa se ponía callada y a media luz, hasta pisábamos despacio para no molestarnos. Yo creo que era por eso que de noche, cuando Irene empezaba a soñar en alta voz, me desvelaba en seguida.)
Es casi repetir lo mismo salvo las consecuencias. De noche siento sed, y antes de acostarnos le dije a Irene que iba hasta la cocina a servirme un vaso de agua. Desde la puerta del dormitorio (ella tejía) oí ruido en la cocina; tal vez en la cocina o tal vez en el baño porque el codo del pasillo apagaba el sonido. A Irene le llamó la atención mi brusca manera de detenerme, y vino a mi lado sin decir palabra. Nos quedamos escuchando los ruidos, notando claramente que eran de este lado de la puerta de roble, en la cocina y el baño, o en el pasillo mismo donde empezaba el codo casi al lado nuestro.
No nos miramos siquiera. Apreté el brazo de Irene y la hice correr conmigo hasta la puerta cancel, sin volvernos hacia atrás. Los ruidos se oían más fuerte pero siempre sordos, a espaldas nuestras. Cerré de un golpe la cancel y nos quedamos en el zaguán. Ahora no se oía nada.
-Han tomado esta parte -dijo Irene. El tejido le colgaba de las manos y las hebras iban hasta la cancel y se perdían debajo. Cuando vio que los ovillos habían quedado del otro lado, soltó el tejido sin mirarlo.
-¿Tuviste tiempo de traer alguna cosa? -le pregunté inútilmente.
-No, nada.
Estábamos con lo puesto. Me acordé de los quince mil pesos en el armario de mi dormitorio. Ya era tarde ahora.
Como me quedaba el reloj pulsera, vi que eran las once de la noche. Rodeé con mi brazo la cintura de Irene (yo creo que ella estaba llorando) y salimos así a la calle. Antes de alejarnos tuve lástima, cerré bien la puerta de entrada y tiré la llave a la alcantarilla. No fuese que a algún pobre diablo se le ocurriera robar y se metiera en la casa, a esa hora y con la casa tomada.