sexta-feira, 14 de março de 2008
OS SERTÕES DE E. DA CUNHA (início)
O planalto central do Brasil desce, nos litorais do Sul, em escarpas inteiriças, altas e abruptas. Assoberba os mares; edesata-se em chapadões nivelados pelos visos das cordilheiras marítimas, distendidas do Rio Grande a Minas. Mas aoderivar para as terras setentrionais diminui gradualmente de altitude, ao mesmo tempo que descamba para a costa orientalem andares, ou repetidos socalcos, que o despem da primitiva grandeza afastando-o consideravelmente para o interior.De sorte que quem o contorna, seguindo para o norte, observa notáveis mudanças de relevos: a princípio o traçocontínuo e dominante das montanhas, precintando-o, com destaque saliente, sobre a linha projetante das praias, depois, nosegmento de orla marítima entre o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, um aparelho litoral revolto, feito da envergaduradesarticulada das serras, riçado de cumeadas e corroído de angras, e escancelando-se em baías, e repartindo-se em ilhas, edesagregando-se em recifes desnudos, à maneira de escombros do conflito secular que ali se trava entre os mares e a terra;em seguida, transposto o 15º paralelo, a atenuação de todos os acidentes — serranias que se arredondam e suavizam aslinhas dos taludes, fracionadas em morros de encostas indistintas no horizonte que se amplia; até que em plena faixa costeirada Bahia, o olhar, livre dos anteparos de serras que até lá o repulsam e abreviam, se dilata em cheio para o ocidente,mergulhando no âmago da terra amplíssima lentamente emergindo num ondear longínquo de chapadas...Este facies geográfico resume a morfogenia do grande maciço continental.Demonstra-o análise mais íntima feita por um corte meridiano qualquer, acompanhando a bacia do S. Francisco.Vê-se, de fato, que três formações geognósticas díspares, de idades mal determinadas, aí se substituem, ou se entrelaçam,em estratificações discordantes, formando o predomínio exclusivo de umas, ou a combinação de todas, os traços variáveisda fisionomia da terra. Surgem primeiro as possantes massas gnaissegraníticas, que a partir do extremo sul se encurvam emdesmedido anfiteatro, alteando as paisagens admiráveis que tanto encantam e iludem as vistas inexpertas dos forasteiros. Aprincípio abeiradas do mar progridem em sucessivas cadeias, sem rebentos laterais, até às raias do litoral paulista, feitodilatado muro de arrimo sustentando as formações sedimentares do interior. A terra sobranceia o oceano, dominante, dofastígio das escarpas; e quem a alcança, como quem vinga a rampa de um majestoso palco, justifica os exageros descritivos— do gongorismo de Rocha Pita às extravagâncias geniais de Buckle — que fazem deste país região privilegiada, onde anatureza armou a sua mais portentosa oficina.
Novo encontro de Brizola e Jango
CARLOS CASTELLO BRANCO
Jornal do Brasil 19/01/1964
O Sr. Leonel Brizola, conduzido pelo General Assis Brasil, voltou à presença do Sr. João. Goulart, na madrugada de sexta para sábado, em Petrópolis. A conversa não alterou a posição da Frente de Mobilização Popular em face do Govêrno, por entenderem os dirigentes esquerdistas que o Presidente da República continua a não inspirar confiança. O Sr. João Goulart parece hoje aos esquerdistas um caso irremediável de duplicidade e indecisão, a tal ponto que só se animariam a colaborar com seu Govêrno na medida em que o Presidente transferisse para mãos esquerdistas o contrôle dos principais postos de comando da vida econômico-financeira.Na reunião de ontem à tarde, no apartamento do Sr. Brizola, no Leblon, a Frente de Mobilização Popular não examinou, em conseqüência, a hipótese de integrar um govêrno de frente única nos moldes preconizados pelo Professor San Tiago Dantas, cujo esquema constatou-se não ser um esquema autorizado ou da preferência do Chefe do Govêrno. Não podendo, contudo, negar apoio a teses e pontos fixados no programa mínimo, a frente brizolista amarrou sua posição a exigências que o Sr. San Tiago não está em condições de cobrir, a primeira das quais é a denúncia dos entendimentos relativos as concessionárias .O Sr. Leonel Brizola, por seu lado, manifestou sua descrença - a qual, de resto, comunicou ao próprio Sr. João Goulart no resultado dos entendimentos financeiros do Govêrno brasileiro com os Estados Unidos e outros países ocidentais. Para o Sr. Brizola, qualquer concessão, nesse terreno, não representará senão migalhas que serão ràpidamente deglutidas, sem o menor reflexo no processo inflacionário. A inflação só se combateria com êxito através de medidas que reduzissem a "espoliação" seja diretamente seja através de empréstimos compensatórios, de Estado a Estado, a juros baixos e prazos longos. E isso os Estados Unidos não estariam em condições de fazer, pela natureza dos seus compromissos internacionais e pelas pressões internas.Considerando, portanto, que o Sr. João Goulart continua incidindo em erros, manobrado por suas contradições íntimas, a Frente brizolista prosseguirá no esfôrço de estimular o que chama o lado bom do Presidente e preparada para opor-se às manifestações do lado mau.A Frente ainda não examinou o decreto de regulamentação da Remessa de Lucros e mantém-se em expectativa cética quanto ao decreto de desapropriações, em tôrno do qual o Sr. Goulart teria dado tantas voltas sem se deter num ponto.Do ponto-de-vista das intenções políticas do Presidente da República, a esquerda considera que o feto golpista, se não foi expelido, estará morto, por inviável. Admitindo que o Presidente teve efetivamente propósitos golpistas para um período já expirante, a esquerda brizolista conclui agora que o Sr. João Goulart "está perdido nos cadernos, sem planos sequer para duas semanas".Quanto ao setor militar esquerdista, começaria a dar sinais de inquietação, por não ver cobertas a contento as etapas programadas da colaboração com o Presidente da República. Um dirigente esquerdista dizia-nos, ontem, a respeito: "O Jango está em casa com uma onça pequena. E ela está crescendo."Do ponto-de-vista do processo eleitoral, a esquerda. coincide com o Sr. João Goulart em manifestar desinterêsse pelo assunto. Não vê o Sr. Brizola, por exemplo, como o regime chegará a 65, com o impacto inflacionário em expansão e o imobilismo e incompetência de um Govêrno que, em dois anos, emitiu seiscentos bilhões de cruzeiros. Como o Sr. Goulart, o Sr. Brizola diz-se impressionado com o "brutal esvaziamento do Sr. Juscelino Kubitschek".
CARLOS CASTELLO BRANCO
Jornal do Brasil 19/01/1964
O Sr. Leonel Brizola, conduzido pelo General Assis Brasil, voltou à presença do Sr. João. Goulart, na madrugada de sexta para sábado, em Petrópolis. A conversa não alterou a posição da Frente de Mobilização Popular em face do Govêrno, por entenderem os dirigentes esquerdistas que o Presidente da República continua a não inspirar confiança. O Sr. João Goulart parece hoje aos esquerdistas um caso irremediável de duplicidade e indecisão, a tal ponto que só se animariam a colaborar com seu Govêrno na medida em que o Presidente transferisse para mãos esquerdistas o contrôle dos principais postos de comando da vida econômico-financeira.Na reunião de ontem à tarde, no apartamento do Sr. Brizola, no Leblon, a Frente de Mobilização Popular não examinou, em conseqüência, a hipótese de integrar um govêrno de frente única nos moldes preconizados pelo Professor San Tiago Dantas, cujo esquema constatou-se não ser um esquema autorizado ou da preferência do Chefe do Govêrno. Não podendo, contudo, negar apoio a teses e pontos fixados no programa mínimo, a frente brizolista amarrou sua posição a exigências que o Sr. San Tiago não está em condições de cobrir, a primeira das quais é a denúncia dos entendimentos relativos as concessionárias .O Sr. Leonel Brizola, por seu lado, manifestou sua descrença - a qual, de resto, comunicou ao próprio Sr. João Goulart no resultado dos entendimentos financeiros do Govêrno brasileiro com os Estados Unidos e outros países ocidentais. Para o Sr. Brizola, qualquer concessão, nesse terreno, não representará senão migalhas que serão ràpidamente deglutidas, sem o menor reflexo no processo inflacionário. A inflação só se combateria com êxito através de medidas que reduzissem a "espoliação" seja diretamente seja através de empréstimos compensatórios, de Estado a Estado, a juros baixos e prazos longos. E isso os Estados Unidos não estariam em condições de fazer, pela natureza dos seus compromissos internacionais e pelas pressões internas.Considerando, portanto, que o Sr. João Goulart continua incidindo em erros, manobrado por suas contradições íntimas, a Frente brizolista prosseguirá no esfôrço de estimular o que chama o lado bom do Presidente e preparada para opor-se às manifestações do lado mau.A Frente ainda não examinou o decreto de regulamentação da Remessa de Lucros e mantém-se em expectativa cética quanto ao decreto de desapropriações, em tôrno do qual o Sr. Goulart teria dado tantas voltas sem se deter num ponto.Do ponto-de-vista das intenções políticas do Presidente da República, a esquerda considera que o feto golpista, se não foi expelido, estará morto, por inviável. Admitindo que o Presidente teve efetivamente propósitos golpistas para um período já expirante, a esquerda brizolista conclui agora que o Sr. João Goulart "está perdido nos cadernos, sem planos sequer para duas semanas".Quanto ao setor militar esquerdista, começaria a dar sinais de inquietação, por não ver cobertas a contento as etapas programadas da colaboração com o Presidente da República. Um dirigente esquerdista dizia-nos, ontem, a respeito: "O Jango está em casa com uma onça pequena. E ela está crescendo."Do ponto-de-vista do processo eleitoral, a esquerda. coincide com o Sr. João Goulart em manifestar desinterêsse pelo assunto. Não vê o Sr. Brizola, por exemplo, como o regime chegará a 65, com o impacto inflacionário em expansão e o imobilismo e incompetência de um Govêrno que, em dois anos, emitiu seiscentos bilhões de cruzeiros. Como o Sr. Goulart, o Sr. Brizola diz-se impressionado com o "brutal esvaziamento do Sr. Juscelino Kubitschek".
quinta-feira, 13 de março de 2008
NA MORTE DOS RIOS
"Desde que no Alto Sertão um rio seca, / a vegetação em volta, embora de unhas, / embora sabres, intratável e agressiva / faz alto à beira daquele leito tumba. / Faz alto à agressão nata: jamais ocupa / o rio de ossos areia, de areia múmia." - escreveu João Cabral de Melo Neto. É verdade que ele nunca acusou recebimento de um livro que lhe mandei pelo correio. Talvez não tenha gostado, nem tenha lido. Era minha dissertação de mestrado, versava sobre as águas. Na sua obra. Cabral para mim é sempre uma fixação. Eu não me canso de lê-lo. Nunca o vi, pessoalmente. Assisti à uma entrevista na televisão. Mas como os maiores poetas têm dificuldade de falar! Cabral era claudicante. Cheio de "não é verdade?". Lembro-me de Drummond. Um dia, quando éramos aluno da FNFi, e como estudássemos sua obra, conseguimos que Drummond aceitasse a vir, na nossa sala, para conversar. Ele exigiu que ninguém soubesse, e que pudesse entrar pela porta dos fundos! Incrível: um dos maiores poetas entrou pela porta dos fundos da nossa faculdade de letras. Mas Drummond parecia um funcionário público (que era), conversando. Trazia um guarda-chuva preto e vestia um terno cinzento. Sério, magro, seco, quase mal humorado. Disse, por exemplo, que perdia belas imagens e versos que lhe ocorriam no caminho de casa para o trabalho. Parece que ele andava de ônibus, de Copacabana para o Centro, no Rio. Quando eu lhe perguntei por que ele não tinha consigo um caderninho de notas, ele respondeu que "não ficava bem alguém ficar escrevendo". Lembro-me de que nossa professora, D. Cleonice Berardinelli, que ia passando no corredor, o viu e, espantada, logo entrou na sala. Drummond, o gênio da nossa poesia, discorria singelamente, prosaicamente sobre sua obra. Nenhum brilho, nada de demonstrações de grandeza. Disse: "não sei por que fazem tanto barulho pela minha poesia, eu não vejo nada de especial nela" (as palavras eram mais ou menos assim). Disse horrores sobre o verso "no meio do caminho tinha uma pedra". E no fim, quando se despediu, eu lhe pedi um autógrafo. Ele logo se irritou comigo ao ver, na folha de rosto do seu livro, após o seu nome, que eu tinha escrito, a mão: (1920 - ..... ). "Esse aqui já está esperando a minha morte!", disse. A última vez que o vi, foi em Copacabana. Eu bebia um cafezinho num botequim do Posto Seis que existe até hoje, quando ele passou. A cabeça pensativa, meio cabisbaixo. Eu fiquei extático, boquiaberto, imóvel, reverente, e mentalmente me curvava à Grande Poesia que passava.
João Cabral nunca o vi. Tenho lido sua obra, nesses áridos dias. Empaquei na "Conversa em Londres, 1952", da qual transcrevo alguns dos versos:
Durante que vivia em Londres, amigo inglês me perguntou: concretamente o que é o Brasil que até se deu um Imperador?
Disse-lhe que há uma Amazônia e outra sobrando no planalto; ............................................... Porém como a nenhum britânico convence conversa impressionista [ele disse]... "Posso dizer minha opinião? O Brasil é o Império britânico de si mesmo, ... é fácil ler nesse mapa, Colônias... e a Londres, certo mais monstruosa, que no Brasil não é cidade, é região, é esponja... a de Minas, Rio, São Paulo que vos arrebata até a chuva."
Talvez ele não tenha gostado das minha leitura da sua obra, que não é lá grande coisa. Talvez nem a tenha lido. Mas nenhum amazonense, lá onde há água tanta, soube dizer das águas quanto o árido João Cabral nordestino. Nordeste da seca, Nordeste dos "territórios mais mendigos". A Amazônia é (pasme) nordestina. A família da minha mãe, por exemplo, é nordestina. Até 1919, no Amazonas, 150 mil emigrantes nordestinos já tinham chegado, fugidos da seca. A Amazônia do Planalto, não. É paulista, mineira, carioca. "Você não se separa do que é Nordeste", diz o poema. Toda favela, toda periferia urbana é Nordeste. "Desde que no Alto Sertão um rio seca, o homem ocupa logo..." Não. Nunca. Cabral nunca agradeceria um elogio. "Porque o sertanejo fala pouco: as palavras de pedra ulceram a boca".
"Desde que no Alto Sertão um rio seca, / a vegetação em volta, embora de unhas, / embora sabres, intratável e agressiva / faz alto à beira daquele leito tumba. / Faz alto à agressão nata: jamais ocupa / o rio de ossos areia, de areia múmia." - escreveu João Cabral de Melo Neto. É verdade que ele nunca acusou recebimento de um livro que lhe mandei pelo correio. Talvez não tenha gostado, nem tenha lido. Era minha dissertação de mestrado, versava sobre as águas. Na sua obra. Cabral para mim é sempre uma fixação. Eu não me canso de lê-lo. Nunca o vi, pessoalmente. Assisti à uma entrevista na televisão. Mas como os maiores poetas têm dificuldade de falar! Cabral era claudicante. Cheio de "não é verdade?". Lembro-me de Drummond. Um dia, quando éramos aluno da FNFi, e como estudássemos sua obra, conseguimos que Drummond aceitasse a vir, na nossa sala, para conversar. Ele exigiu que ninguém soubesse, e que pudesse entrar pela porta dos fundos! Incrível: um dos maiores poetas entrou pela porta dos fundos da nossa faculdade de letras. Mas Drummond parecia um funcionário público (que era), conversando. Trazia um guarda-chuva preto e vestia um terno cinzento. Sério, magro, seco, quase mal humorado. Disse, por exemplo, que perdia belas imagens e versos que lhe ocorriam no caminho de casa para o trabalho. Parece que ele andava de ônibus, de Copacabana para o Centro, no Rio. Quando eu lhe perguntei por que ele não tinha consigo um caderninho de notas, ele respondeu que "não ficava bem alguém ficar escrevendo". Lembro-me de que nossa professora, D. Cleonice Berardinelli, que ia passando no corredor, o viu e, espantada, logo entrou na sala. Drummond, o gênio da nossa poesia, discorria singelamente, prosaicamente sobre sua obra. Nenhum brilho, nada de demonstrações de grandeza. Disse: "não sei por que fazem tanto barulho pela minha poesia, eu não vejo nada de especial nela" (as palavras eram mais ou menos assim). Disse horrores sobre o verso "no meio do caminho tinha uma pedra". E no fim, quando se despediu, eu lhe pedi um autógrafo. Ele logo se irritou comigo ao ver, na folha de rosto do seu livro, após o seu nome, que eu tinha escrito, a mão: (1920 - ..... ). "Esse aqui já está esperando a minha morte!", disse. A última vez que o vi, foi em Copacabana. Eu bebia um cafezinho num botequim do Posto Seis que existe até hoje, quando ele passou. A cabeça pensativa, meio cabisbaixo. Eu fiquei extático, boquiaberto, imóvel, reverente, e mentalmente me curvava à Grande Poesia que passava.
João Cabral nunca o vi. Tenho lido sua obra, nesses áridos dias. Empaquei na "Conversa em Londres, 1952", da qual transcrevo alguns dos versos:
Durante que vivia em Londres, amigo inglês me perguntou: concretamente o que é o Brasil que até se deu um Imperador?
Disse-lhe que há uma Amazônia e outra sobrando no planalto; ............................................... Porém como a nenhum britânico convence conversa impressionista [ele disse]... "Posso dizer minha opinião? O Brasil é o Império britânico de si mesmo, ... é fácil ler nesse mapa, Colônias... e a Londres, certo mais monstruosa, que no Brasil não é cidade, é região, é esponja... a de Minas, Rio, São Paulo que vos arrebata até a chuva."
Talvez ele não tenha gostado das minha leitura da sua obra, que não é lá grande coisa. Talvez nem a tenha lido. Mas nenhum amazonense, lá onde há água tanta, soube dizer das águas quanto o árido João Cabral nordestino. Nordeste da seca, Nordeste dos "territórios mais mendigos". A Amazônia é (pasme) nordestina. A família da minha mãe, por exemplo, é nordestina. Até 1919, no Amazonas, 150 mil emigrantes nordestinos já tinham chegado, fugidos da seca. A Amazônia do Planalto, não. É paulista, mineira, carioca. "Você não se separa do que é Nordeste", diz o poema. Toda favela, toda periferia urbana é Nordeste. "Desde que no Alto Sertão um rio seca, o homem ocupa logo..." Não. Nunca. Cabral nunca agradeceria um elogio. "Porque o sertanejo fala pouco: as palavras de pedra ulceram a boca".
Coluna do Castello
Goulart mobiliza Brasília para luta
Brasília - O Sr. João Goulart não renunciou à Presidência da República, não se considera ainda vencido pela rebelião dos comandos militares e continua a manter a mobilização moral e material de Brasília, através de uma cadeia de rádios locais, para a resistência e a luta.O Congresso Nacional, por sua vez, não se julgou em condições de adotar uma' decisão política, não deliberou e nem sequer se reuniu ontem à noite, preferindo que o desenrolar dos acontecimentos facilite eventualmente uma solução.A Capital da República vive horas de intensa apreensão, com o recrutamento de voluntários que se exercitam desde o começo da tarde em algumas ruas da Cidade e as reiteradas declarações do Comandante Militar, General Fico, de que a guarnição federal permanece fiel ao Sr. João Goulart.Na cadeia de rádios controlada pelo Governo Federal, as principais autoridades continuam a fazer exortações ao povo. Entre essas autoridades que se dirigiram à população figurou o Arcebispo de Brasília, Dom José Newton, o qual, sem se afirmar solidário politicamente com o Chefe do Govêrno, enumerou dados reveladores da miséria do povo e indicativos da necessidade de profundas reformas.Os Deputados e Senadores, que conversaram com o Presidente da República, na Granja do Torto, onde se recolheu desde que, depois de uma rápida visita ao Palácio do Planalto, chegou a Brasília, estão extremamente discretos com relação ao comportamento do Govêrno, mas todos traduzem a disposição geral de resistência.O fato de ter o Sr. Leonel Brizola conseguido dominar a Capital do Rio Grande do Sul e de estar mobilizando militarmente, deu alma nova aos partidários do Sr. João Goulart, que durante certo momento, na tarde de ontem, tiveram a sensação de um colapso geral do sistema de segurança do Governo.O Sr. João Goulart, segundo versões, aguarda a reunião na Capital dos seus Ministros para se deslocar até Porto Alegre, pois um poderoso Coroando da Varig o aguarda no aeroporto desde as 15 horas. Essa aeronave, que veio de Cumbica, ao que se presumia inicialmente para levar o Presidente e sua família para o exterior, continua estacionada no aeroporto de Brasília.Há indícios de que o Chefe do Govêrno confia ainda em que uma forte resistência surgirá não só a partir do Rio Grande como nas próprias cidades conquistadas pela rebelião militar. Essa resistência teria por base seja a arregimentação de trabalhadores para a greve geral e a sabotagem, seja a articulação de graduados das Forças Armadas contra os comandos triunfantes.Alude-se igualmente nas esferas oficiais ao fato de que a Força Aérea Brasileira, com seu poderio intato, estaria ao lado do Presidente da República e apta a entrar em ação, se for convocada.Entre os dirigentes oposicionistas, declarava-se ser esperada a resistência de dois regimentos da Capital gaúcha, um deles motomecanizado. A vitória do Sr. Brizola estaria, portanto, dentro das previsões e poderia retardar o desfecho por alguns dias.Na alta direção udenista não se fazia segredo de que o plano conspiratório, desencadeado na segunda-feira, foi longamente preparado, inicialmente numa faixa defensiva e, a partir do comício do dia 13, na Central do Brasil, em caráter agressivo. Houve consulta e infiltração em todo o dispositivo militar e o piano foi cuidadosamente elaborado para uma rebelião progressiva e avassaladora. No esquema figurava o propósito de permitir ao Sr. João Goulart tomar sua decisão final por conta própria. Não parecia estar nos planos, porém, o deslocamento do Presidente para Brasília e sua disposição de resistir, que é a situação que se configura neste momento.O Congresso vem oscilando, desde que cessaram as comunicações com o Rio de Janeiro, às 20 horas de terça feira, entre a confiança, o susto, a euforia e o pânico. Nas últimas horas de ontem a expectativa de que os Deputados e Senadores pudessem se encontrar face a problemas de segurança, como a deflagração de manifestações populares armadas, voltava a se impor ante a rápida contaminação da mobilização governamental comandada pelo Sr. Darci Ribeiro.Não se acredita que a posição militar de Brasília ofereça condições para uma resistência longa, mas poderia ser um cenário dramático para a sustentação dos acontecimentos que se desenrolariam no sul e poderiam atingir outras áreas.
Carlos Castello Branco
Jornal do Brasil 02/04/1964
Goulart mobiliza Brasília para luta
Brasília - O Sr. João Goulart não renunciou à Presidência da República, não se considera ainda vencido pela rebelião dos comandos militares e continua a manter a mobilização moral e material de Brasília, através de uma cadeia de rádios locais, para a resistência e a luta.O Congresso Nacional, por sua vez, não se julgou em condições de adotar uma' decisão política, não deliberou e nem sequer se reuniu ontem à noite, preferindo que o desenrolar dos acontecimentos facilite eventualmente uma solução.A Capital da República vive horas de intensa apreensão, com o recrutamento de voluntários que se exercitam desde o começo da tarde em algumas ruas da Cidade e as reiteradas declarações do Comandante Militar, General Fico, de que a guarnição federal permanece fiel ao Sr. João Goulart.Na cadeia de rádios controlada pelo Governo Federal, as principais autoridades continuam a fazer exortações ao povo. Entre essas autoridades que se dirigiram à população figurou o Arcebispo de Brasília, Dom José Newton, o qual, sem se afirmar solidário politicamente com o Chefe do Govêrno, enumerou dados reveladores da miséria do povo e indicativos da necessidade de profundas reformas.Os Deputados e Senadores, que conversaram com o Presidente da República, na Granja do Torto, onde se recolheu desde que, depois de uma rápida visita ao Palácio do Planalto, chegou a Brasília, estão extremamente discretos com relação ao comportamento do Govêrno, mas todos traduzem a disposição geral de resistência.O fato de ter o Sr. Leonel Brizola conseguido dominar a Capital do Rio Grande do Sul e de estar mobilizando militarmente, deu alma nova aos partidários do Sr. João Goulart, que durante certo momento, na tarde de ontem, tiveram a sensação de um colapso geral do sistema de segurança do Governo.O Sr. João Goulart, segundo versões, aguarda a reunião na Capital dos seus Ministros para se deslocar até Porto Alegre, pois um poderoso Coroando da Varig o aguarda no aeroporto desde as 15 horas. Essa aeronave, que veio de Cumbica, ao que se presumia inicialmente para levar o Presidente e sua família para o exterior, continua estacionada no aeroporto de Brasília.Há indícios de que o Chefe do Govêrno confia ainda em que uma forte resistência surgirá não só a partir do Rio Grande como nas próprias cidades conquistadas pela rebelião militar. Essa resistência teria por base seja a arregimentação de trabalhadores para a greve geral e a sabotagem, seja a articulação de graduados das Forças Armadas contra os comandos triunfantes.Alude-se igualmente nas esferas oficiais ao fato de que a Força Aérea Brasileira, com seu poderio intato, estaria ao lado do Presidente da República e apta a entrar em ação, se for convocada.Entre os dirigentes oposicionistas, declarava-se ser esperada a resistência de dois regimentos da Capital gaúcha, um deles motomecanizado. A vitória do Sr. Brizola estaria, portanto, dentro das previsões e poderia retardar o desfecho por alguns dias.Na alta direção udenista não se fazia segredo de que o plano conspiratório, desencadeado na segunda-feira, foi longamente preparado, inicialmente numa faixa defensiva e, a partir do comício do dia 13, na Central do Brasil, em caráter agressivo. Houve consulta e infiltração em todo o dispositivo militar e o piano foi cuidadosamente elaborado para uma rebelião progressiva e avassaladora. No esquema figurava o propósito de permitir ao Sr. João Goulart tomar sua decisão final por conta própria. Não parecia estar nos planos, porém, o deslocamento do Presidente para Brasília e sua disposição de resistir, que é a situação que se configura neste momento.O Congresso vem oscilando, desde que cessaram as comunicações com o Rio de Janeiro, às 20 horas de terça feira, entre a confiança, o susto, a euforia e o pânico. Nas últimas horas de ontem a expectativa de que os Deputados e Senadores pudessem se encontrar face a problemas de segurança, como a deflagração de manifestações populares armadas, voltava a se impor ante a rápida contaminação da mobilização governamental comandada pelo Sr. Darci Ribeiro.Não se acredita que a posição militar de Brasília ofereça condições para uma resistência longa, mas poderia ser um cenário dramático para a sustentação dos acontecimentos que se desenrolariam no sul e poderiam atingir outras áreas.
Carlos Castello Branco
Jornal do Brasil 02/04/1964
quarta-feira, 12 de março de 2008
CAPÍTULO SÉTIMO
O PÁSSARO VOA PARA A SERPENTE
A galope, Eduardo Ribeiro e Fileto Pires. Em direção ao Trapiche Teixeira.
- Por quê? – pergunta Fileto.
- Porque não deixaram. Os proprietários dessas casas não quiseram sair.
- E agora? – quis saber Fileto.
O Governador do Amazonas Eduardo Ribeiro e o futuro Governador, Secretário de Estado Fileto Pires Ferreira, pararam para deixar passar um grupo de homens que puxavam carroças cheias de peixes e de moscas.
- Agora, respondeu o Governador, agora a Avenida, que levará o meu nome, vai ter de fazer uma curva, um cotovelo, antes de chegar ao rio. Horrível. Perdeu toda a imponência, diminuiu de tamanho. Seria uma reta imensa. Um bulevar.
- Sim, concordou Fileto. Se pudesse seguir em linha reta seria uma extraordinária avenida, imponente e aberta, como está no traçado original de Thamaturgo de Azevedo.
- Não me fale deste crápula! - gritou, irado, Eduardo Ribeiro. Anda dizendo horrores a meu respeito no Senado.
- De que se trata.
- Diz que sou um ladrão, um nababo, milionário, que tenho inúmeras casas e terrenos, que usurpei o poder...
- Mas...
- Todas as casas e terrenos que tenho comprei com o meu suor. Mesmo a casa de minha mãe, no Maranhão. A casa de minha irmã foi dada por correligionários que não quiseram dizer o nome. Eu nem sei quem pagou.
Eduardo falava gritando, a irada voz de barítono.
- Estou publicando um livro no Rio de Janeiro pela tipografia do “Jornal do Comércio”.
E voltando-se para Fileto, gritou:
- Vai-se chamar: “Contra a calúnia”!
Fileto manteve-se calado.
- Ele tem o apoio de vários senadores, inclusive de Rui Barbora. Os insultos caluniosos estão na Ata da Sessão do 23 de julho de 1896, publicados nos Anais do Senado pelo senador Ladário. Deve ter por trás o Gregório [Thaumaturgo de Azevedo]. Thamaturgo tem escrito quase diariamente contra mim. Tem dito horrores, tem dito que estou milionário.
- Quem é Ladário?
- Ladário é o Barão do Ladário, o Costa Azevedo. Um monarquista, entendeu? Um monarquista! Meu livro vai explicar tudo, vai explicar tudo, vai denunciar essa gente!
Eduardo, como sempre, estava fardado. Fileto não. Fileto vestia elegante terno de linho branco, gravata borboleta de seda vermelha. Eduardo era corpulento, enfezado, decidido, casmurro. Mulato. A voz de barítono soava forte, acostumado ao mando. Não falava: gritava ordens. Fileto era magro, ágil, elétrico, homem de fino trato, olhar inteligente, meio romântico, ousado, impetuoso, um tanto ingênuo, elegante de espírito. Era bem nascido, família abastada, dona do Norte do Piauí, a terra do gado, grandes fazendas. Eduardo vinha de baixo, nasceu muito pobre, filho de mulatos, o pai morreu louco, grande dificuldade para estudar, para sobreviver, para vencer, lutava contra o preconceito de cor, e graças à sua inteligência e genialidade tinha chegado onde estava, ao posto de Capitão do Exército, professor da escola do Estado Maior do Exército, era engenheiro, e contra tudo e contra todos galgara posição invejável. Odiado pelas elites. Amado pelo povo. Fileto era jovem e bem casado. Eduardo, embora jovem não parecia, era um solitário, solteiro, reservado. Ninguém penetrava na sua vida pessoal. Diziam que tinha mulher e filho, mas nunca ficou provado, nunca apareceram os dois, nunca se soube desta mulher e muito menos deste seu filho.
Fileto em silêncio pensava: “Mas ele está mesmo rico...”
- Fileto, disse Eduardo Ribeiro. Todos nós seremos traídos! Todos seremos acusados de corrupção, e por nossos mais próximos amigos! Espere para ver...
- Como assim? – perguntou Fileto.
- Prepare-se. Os nossos adversários vão jogar pesado. Os amigos vão trair. Na política é assim.
- Não sou político. Sou militar.
- Engana-se! Posso pedir-lhe um favor?
- O quê?
- Vou indicar você para ser o meu sucessor. Vou indicar ao Partido.
- Não faça isso! Por favor não faça! – disse Fileto, prevendo aborrecimentos.
- Eu só tenho a você. Só confio em você, disse Eduardo.
Fileto ficou sério. Continuaram em silêncio. Fileto sabia o que o outro queria. Sabia que Eduardo ia querer controlá-lo, manipulá-lo se fosse eleito. Mas resolveu esquecer. Sabia que o Partido não o apoiava.
* * *
Lima Silva, Alarico José Furtado, Emílio Moreira, Joaquim Sarmento e João Coelho antes do jantar no restaurante do Hotel Cassina. Era uma noite fresca. Bebiam um pouco de champanhe antes do peixe. Não tinham pressa.
Furtado disse:
- Estive ontem a bordo do “Maranhense”. Tenho notícias, disse.
O “Maranhense”, apesar do nome, era um vapor inglês.
- Eu soube – disse o ex-governador Furtado, com a taça na mão. Parece que já está encomendado todo o ferro necessário para a construção do teatro.
- Deve chegar em setembro, acrescentou Furtado, envolto numa baforada de charuto. O Carlos Rossi, chefe a forma Rossi & Irmãos, está viajando com o pessoal dele em Glasgow, contratando.
- Devem chegar operários especializados, disse Emílio Moreira.
Emílio Moreira era baiano, irmão do Barão do Juruá e de Guilherme Moreira. Os irmãos Emílio e Guilherme Moreira fundaram em Manaus a firma Moreira & Irmão. Eram dois irmãos muito unidos e muito ricos. Enquanto um viajava pelo interior, principalmente pelo Juruá, o outro ficava na capital. Negociavam borracha, castanha, pirarucu seco e outros produtos, que exportavam. Fizeram fortuna. Entraram na política.
Emílio Moreira casou-se com a irmã de Joaquim Sarmento, futuro senador, de uma família importante, o que aumentou o prestígio dos dois. Emílio Moreira foi decisivo na eleição de Eduardo Ribeiro ao Governo. Mas as obras da construção do Teatro estavam paradas. A Assembléia Legislativa autorizou a modificação do contrato, depois de duro embate político com o Presidente da Província. O contrato foi rescindido, o material da construção do teatro ficou sob a guarda da Secretaria de Obras Públicas. Os contratantes foram indenizados. Tudo parou.
- Parece que o teatro nasceu sob um signo funesto, disse Lima Silva.
- Desde o início da sua existência, quer como simples idéia, quer como realidade, fatores opostos dificultaram-lhe o andamento ou interferiram depois na sua planta, acrescentou. Quando não eram os políticos da eterna oposição, eram os contratantes, forçando o tesouro público a despesas desnecessárias, - concluiu.
* * *
Em 24 de fevereiro de 1887, passando Emilio Moreira pela Praça São Sebastião vê que se está construindo um barracão de madeira para ali serem guardados os materiais da construção do teatro.
Eram ordens do governo imperial.
A praça São Sebastião tinha estado em obras. Caríssimas. Tentaram aterravam o Igarapé do Espírito Santo, que passava onde hoje é a rua 24 de maio. O terrenos ao redor do teatro tinham de ser nivelados. A terraplanagem da área tinha custado uma fortuna, quase 7 contos. Foram usados carros de condução e carroças de água. Essas obras se arrastaram no período de 1886 a 1892. Depois pararam. As obras da construção do teatro pararam completamente.
E o magnífico Teatro Amazonas se transformou num esqueleto cheio de mato, abandonado. As paredes já construídas estavam cobertas de limo. O lugar se transformou num lugar perigoso, escuro, cheio de lixo, fedia a urina e a fezes humanas.
A galope, Eduardo Ribeiro e Fileto Pires. Em direção ao Trapiche Teixeira.
- Por quê? – pergunta Fileto.
- Porque não deixaram. Os proprietários dessas casas não quiseram sair.
- E agora? – quis saber Fileto.
O Governador do Amazonas Eduardo Ribeiro e o futuro Governador, Secretário de Estado Fileto Pires Ferreira, pararam para deixar passar um grupo de homens que puxavam carroças cheias de peixes e de moscas.
- Agora, respondeu o Governador, agora a Avenida, que levará o meu nome, vai ter de fazer uma curva, um cotovelo, antes de chegar ao rio. Horrível. Perdeu toda a imponência, diminuiu de tamanho. Seria uma reta imensa. Um bulevar.
- Sim, concordou Fileto. Se pudesse seguir em linha reta seria uma extraordinária avenida, imponente e aberta, como está no traçado original de Thamaturgo de Azevedo.
- Não me fale deste crápula! - gritou, irado, Eduardo Ribeiro. Anda dizendo horrores a meu respeito no Senado.
- De que se trata.
- Diz que sou um ladrão, um nababo, milionário, que tenho inúmeras casas e terrenos, que usurpei o poder...
- Mas...
- Todas as casas e terrenos que tenho comprei com o meu suor. Mesmo a casa de minha mãe, no Maranhão. A casa de minha irmã foi dada por correligionários que não quiseram dizer o nome. Eu nem sei quem pagou.
Eduardo falava gritando, a irada voz de barítono.
- Estou publicando um livro no Rio de Janeiro pela tipografia do “Jornal do Comércio”.
E voltando-se para Fileto, gritou:
- Vai-se chamar: “Contra a calúnia”!
Fileto manteve-se calado.
- Ele tem o apoio de vários senadores, inclusive de Rui Barbora. Os insultos caluniosos estão na Ata da Sessão do 23 de julho de 1896, publicados nos Anais do Senado pelo senador Ladário. Deve ter por trás o Gregório [Thaumaturgo de Azevedo]. Thamaturgo tem escrito quase diariamente contra mim. Tem dito horrores, tem dito que estou milionário.
- Quem é Ladário?
- Ladário é o Barão do Ladário, o Costa Azevedo. Um monarquista, entendeu? Um monarquista! Meu livro vai explicar tudo, vai explicar tudo, vai denunciar essa gente!
Eduardo, como sempre, estava fardado. Fileto não. Fileto vestia elegante terno de linho branco, gravata borboleta de seda vermelha. Eduardo era corpulento, enfezado, decidido, casmurro. Mulato. A voz de barítono soava forte, acostumado ao mando. Não falava: gritava ordens. Fileto era magro, ágil, elétrico, homem de fino trato, olhar inteligente, meio romântico, ousado, impetuoso, um tanto ingênuo, elegante de espírito. Era bem nascido, família abastada, dona do Norte do Piauí, a terra do gado, grandes fazendas. Eduardo vinha de baixo, nasceu muito pobre, filho de mulatos, o pai morreu louco, grande dificuldade para estudar, para sobreviver, para vencer, lutava contra o preconceito de cor, e graças à sua inteligência e genialidade tinha chegado onde estava, ao posto de Capitão do Exército, professor da escola do Estado Maior do Exército, era engenheiro, e contra tudo e contra todos galgara posição invejável. Odiado pelas elites. Amado pelo povo. Fileto era jovem e bem casado. Eduardo, embora jovem não parecia, era um solitário, solteiro, reservado. Ninguém penetrava na sua vida pessoal. Diziam que tinha mulher e filho, mas nunca ficou provado, nunca apareceram os dois, nunca se soube desta mulher e muito menos deste seu filho.
Fileto em silêncio pensava: “Mas ele está mesmo rico...”
- Fileto, disse Eduardo Ribeiro. Todos nós seremos traídos! Todos seremos acusados de corrupção, e por nossos mais próximos amigos! Espere para ver...
- Como assim? – perguntou Fileto.
- Prepare-se. Os nossos adversários vão jogar pesado. Os amigos vão trair. Na política é assim.
- Não sou político. Sou militar.
- Engana-se! Posso pedir-lhe um favor?
- O quê?
- Vou indicar você para ser o meu sucessor. Vou indicar ao Partido.
- Não faça isso! Por favor não faça! – disse Fileto, prevendo aborrecimentos.
- Eu só tenho a você. Só confio em você, disse Eduardo.
Fileto ficou sério. Continuaram em silêncio. Fileto sabia o que o outro queria. Sabia que Eduardo ia querer controlá-lo, manipulá-lo se fosse eleito. Mas resolveu esquecer. Sabia que o Partido não o apoiava.
* * *
Lima Silva, Alarico José Furtado, Emílio Moreira, Joaquim Sarmento e João Coelho antes do jantar no restaurante do Hotel Cassina. Era uma noite fresca. Bebiam um pouco de champanhe antes do peixe. Não tinham pressa.
Furtado disse:
- Estive ontem a bordo do “Maranhense”. Tenho notícias, disse.
O “Maranhense”, apesar do nome, era um vapor inglês.
- Eu soube – disse o ex-governador Furtado, com a taça na mão. Parece que já está encomendado todo o ferro necessário para a construção do teatro.
- Deve chegar em setembro, acrescentou Furtado, envolto numa baforada de charuto. O Carlos Rossi, chefe a forma Rossi & Irmãos, está viajando com o pessoal dele em Glasgow, contratando.
- Devem chegar operários especializados, disse Emílio Moreira.
Emílio Moreira era baiano, irmão do Barão do Juruá e de Guilherme Moreira. Os irmãos Emílio e Guilherme Moreira fundaram em Manaus a firma Moreira & Irmão. Eram dois irmãos muito unidos e muito ricos. Enquanto um viajava pelo interior, principalmente pelo Juruá, o outro ficava na capital. Negociavam borracha, castanha, pirarucu seco e outros produtos, que exportavam. Fizeram fortuna. Entraram na política.
Emílio Moreira casou-se com a irmã de Joaquim Sarmento, futuro senador, de uma família importante, o que aumentou o prestígio dos dois. Emílio Moreira foi decisivo na eleição de Eduardo Ribeiro ao Governo. Mas as obras da construção do Teatro estavam paradas. A Assembléia Legislativa autorizou a modificação do contrato, depois de duro embate político com o Presidente da Província. O contrato foi rescindido, o material da construção do teatro ficou sob a guarda da Secretaria de Obras Públicas. Os contratantes foram indenizados. Tudo parou.
- Parece que o teatro nasceu sob um signo funesto, disse Lima Silva.
- Desde o início da sua existência, quer como simples idéia, quer como realidade, fatores opostos dificultaram-lhe o andamento ou interferiram depois na sua planta, acrescentou. Quando não eram os políticos da eterna oposição, eram os contratantes, forçando o tesouro público a despesas desnecessárias, - concluiu.
* * *
Em 24 de fevereiro de 1887, passando Emilio Moreira pela Praça São Sebastião vê que se está construindo um barracão de madeira para ali serem guardados os materiais da construção do teatro.
Eram ordens do governo imperial.
A praça São Sebastião tinha estado em obras. Caríssimas. Tentaram aterravam o Igarapé do Espírito Santo, que passava onde hoje é a rua 24 de maio. O terrenos ao redor do teatro tinham de ser nivelados. A terraplanagem da área tinha custado uma fortuna, quase 7 contos. Foram usados carros de condução e carroças de água. Essas obras se arrastaram no período de 1886 a 1892. Depois pararam. As obras da construção do teatro pararam completamente.
E o magnífico Teatro Amazonas se transformou num esqueleto cheio de mato, abandonado. As paredes já construídas estavam cobertas de limo. O lugar se transformou num lugar perigoso, escuro, cheio de lixo, fedia a urina e a fezes humanas.
CAPÍTULO SEXTO
O GOVERNADOR FILETO PIRES FERREIRA DEFENDE SUA HONRA
1902. No “Bosque Club”. Lima Silva, Marinalva e Waldemar Scholz.
- Assim o encontrou Fileto Pires Ferreira, concluiu Lima Silva, para Scholz.
Naquele dia, Lima Silva estava acompanhado de Marinalva. Sabia que Scholz não se importava. Era uma “amiga”. Marinalva, durante as brigas, gritava:
“Você tem vergonha de mim!” “Você nunca sai comigo!”
- E estas recentes acusações, que agora se fazem, contra Fileto? perguntou Scholz.
Eles estavam passeando na alameda das orquídeas do “Bosque Club”, um elegante clube inglês de Manaus.
- Todas falsas, respondeu o outro.
Ao chegar no bar, sentaram-se numa das mesas, encomendaram os “Blacks”. Lima Silva ficou temeroso. Sabia que Marinalva, depois do terceiro uísque, perdia a compostura, chegava a ”flertar” com todos os homens. Ela estava ainda mais interessante, apesar de mais velha. Muito elegante, bem vestida, no rigor da moda de Paris, ao contrário das demais caboclas Marinalva naquela idade continuava em forma. Até perto dos sessenta anos ela continuou uma mulher atraente, sexy.
- Não se ouviu o acusado, Fileto que não teve o direito de defesa. Processaram o ex-governador sem respeitar os prazos. Nem se publicou a acusação. Fileto não poderia defender-se, porque nem sabia de que o acusavam.
- Agora sabe.
- Sim. Mas não se enviou a acusação ao acusado e a Comissão Julgadora é toda constituída pela oposição.
- Quem o denunciou?
- Um novato em Manaus. Um novato. Recebeu em troca a linha de navegação rendosa, e seu irmão ganhou o privilégio de abrir uma fábrica de pólvora em Manaus e foi nomeado Diretor da Secretaria do Congresso.
- Não diga? perguntou, Scholz, surpreso.
- Sim. E mais. E mais. Atribuíram ao ex-secretário de segurança, Guido de Sousa, cunhado de Fileto, atos criminosos, violência, tortura, estupros, mas não apresentaram o nome de nenhuma vítima. Inventaram tudo, ou se basearam em boatos.
- Que horror!
- A outra denúncia foi de que Fileto teria sacado milhares de libras esterlinas na Pussinelli, Prusse & Co, mas a casa exportadora negou tudo, por documento escrito e assinado pelo Pussinelli. Apenas D. Maria Lucrecia, esposa de Fileto, tinha sacado para si dois contos, coisa de família, não do Estado.
- Estou estarrecido.
- Sim, houve outra denúncia. Disseram que Fileto fez contratos milionários, mas ele provou que todos os contratos eram legais e tiveram concorrência pública. Acusaram também de ter desapropriado terras como a parte mais alta da Av. Eduardo Ribeiro, que foi divida em duas e ali construído um jardim. Fileto também provou a legalidade disso. Dezenas de obras foram feitas por Fileto em 19 meses de governo. Assumiu em 23 de julho de 1896, recebeu o estado endividado, num déficit de 4 mil contos. Deixou um superávit de 9 mil contos. Recebeu o Estado com as obras paradas por falta de verba e teve de fazer um empréstimo para pagar o funcionalismo. A justiça estava amordaçada, os orçamentos tinham verbas ilimitadas. Se fosse desonesto não teria acabado com tudo isso. Irritou os homens do seu partido, principalmente Eduardo Ribeiro. Fileto pediu ao Governo Federal uma devassa no seu próprio governo. Não conseguiu. O Federal estava envolvido, temia a devassa. Fileto pediu intervenção federal. Não conseguiu. O governo federal se apressou em abafar o caso. Fileto escreveu um livro, onde fez um balanço de seu governo. É um livro muito bem escrito: “A verdade sobre o caso do Amazonas”. Terminou de escrever em 22 de julho de 1900.
- Fileto Pires Ferreira foi o homem público honesto mais caluniado de seu tempo!
- E a carta de renúncia era falsa. Foi escrita por Aristides Bayna e a assinatura foi falsificada pelo vice-governador Ramalho Junior. Fileto assumiu em 23 de julho de 1896 e licenciou-se em 4 de abril de 1898 para tratamento de saúde em Paris. Chegou em Paris em 14 de junho de 1898 e já no mesmo dia recebeu, no “Grand Hotel” onde se hospedara, telegrama de Ovídio Abrantes e Manoel Lages para que voltasse, pois iam cassar sua licença. No dia 4 de julho foi operado pelo Dr. Guyon, em Paris, no Hospital Necker, clínica das vias urinárias. Jean Casimir Félix Guyon (1831-1920) é considerado o fundador da moderna urologia. Publicou “Leçons cliniques sur les maladies des voies urinaiares” em 1881, um alentado tratado de 998 páginas.
- Mas não disseram que ele estava passeando?
- Calúnia, disse Lima Silva. Ele devia ter um cálculo renal, que era a especialidade do dr. Guyon. Se Fileto estivesse passeando não escreveria um livro de 180 páginas para se defender.
- Certamente.
- Fileto voltou em segredo, contra a prescrição do seu médico, no dia 16 de julho. Já em Lisboa se sabia que ele estava voltando de Paris. Em Paris morava João Serejo, em companhia da família de Fileto. Em Manaus os deputados não compareciam para não haver reunião para a cassação da sua licença médica. Houve um banquete no dia 1˚ de julho em homenagem a Fileto, em Paris. Mas ele já estava cassado sem saber pela falsa carta de renúncia, que é do dia 27 de junho de 1898. Fileto despachou com o Presidente do Brasil em Paris. Mas ele não gostava de política, não pensava em continuar na política...
- Quem seria o sucessor?
- Ele não pensava em sucessor e por isso se desinteressou em montar partido para favorecê-lo. Esse foi seu erro. Fileto era um romântico, acreditava nos homens. Nos amigos. Todos o traíram pelas costas. Até os Secretários de Estado. Era impossível prever que ele seria traído pelos mesmos personagens que o homenagearam em 16 de março, na partida, com uma placa de ouro com seus nomes. Velhos camaradas o traíram.
- Eu não sabia...
- Na Ilha da Maneira, recebeu outras más notícias. Em Belém, a 4 de agosto, foi recebido pelo Governador Paes de Carvalho, que não reconheceu o Governo ilegal de Ramalho Junior. Ali ele soube que seu cunhado, Guido de Sousa, tinha sido demitido e estava escondido. Os familiares de Fileto saíram às pressas de Manaus. No mesmo dia em que chegou partiu para reassumir seu posto de Governador do Amazonas. No meio da viagem o advertiram que não devia ir sem força militar para reaver seu posto, pois estavam dispostos a prendê-lo...
- Por que tudo isso? – perguntou Scholz.
- A razão talvez seja a concessão das obras do porto de Manaus. Além disso, Fileto fez um discurso comprometedor, em Paris, e elogiou Campos Sales, odiado pela elite amazonense.
E depois de um gole de uísque, Lima Silva tomou fôlego e disse:
- Um dos culpados pela deposição de Fileto foi o ex-Governador Eduardo Ribeiro, que era Presidente do Congresso desde 15 de julho de 1898 (a falsa carta é de 27 de junho). A falsa carta de renúncia foi apresentada e aceita pelo Congresso no dia primeiro de agosto de 98. A carta e a assinatura foram falsificadas na presença de Eduardo Ribeiro. Nunca se deve dizer que Fileto era um pupilo de Eduardo. Fileto Pires Ferreira era melhor do que Eduardo Ribeiro. Teria feito um governo muito mais importante.
- Posso tomar um sorvete? – perguntou, dengosa, a bela Marinalva.
1902. No “Bosque Club”. Lima Silva, Marinalva e Waldemar Scholz.
- Assim o encontrou Fileto Pires Ferreira, concluiu Lima Silva, para Scholz.
Naquele dia, Lima Silva estava acompanhado de Marinalva. Sabia que Scholz não se importava. Era uma “amiga”. Marinalva, durante as brigas, gritava:
“Você tem vergonha de mim!” “Você nunca sai comigo!”
- E estas recentes acusações, que agora se fazem, contra Fileto? perguntou Scholz.
Eles estavam passeando na alameda das orquídeas do “Bosque Club”, um elegante clube inglês de Manaus.
- Todas falsas, respondeu o outro.
Ao chegar no bar, sentaram-se numa das mesas, encomendaram os “Blacks”. Lima Silva ficou temeroso. Sabia que Marinalva, depois do terceiro uísque, perdia a compostura, chegava a ”flertar” com todos os homens. Ela estava ainda mais interessante, apesar de mais velha. Muito elegante, bem vestida, no rigor da moda de Paris, ao contrário das demais caboclas Marinalva naquela idade continuava em forma. Até perto dos sessenta anos ela continuou uma mulher atraente, sexy.
- Não se ouviu o acusado, Fileto que não teve o direito de defesa. Processaram o ex-governador sem respeitar os prazos. Nem se publicou a acusação. Fileto não poderia defender-se, porque nem sabia de que o acusavam.
- Agora sabe.
- Sim. Mas não se enviou a acusação ao acusado e a Comissão Julgadora é toda constituída pela oposição.
- Quem o denunciou?
- Um novato em Manaus. Um novato. Recebeu em troca a linha de navegação rendosa, e seu irmão ganhou o privilégio de abrir uma fábrica de pólvora em Manaus e foi nomeado Diretor da Secretaria do Congresso.
- Não diga? perguntou, Scholz, surpreso.
- Sim. E mais. E mais. Atribuíram ao ex-secretário de segurança, Guido de Sousa, cunhado de Fileto, atos criminosos, violência, tortura, estupros, mas não apresentaram o nome de nenhuma vítima. Inventaram tudo, ou se basearam em boatos.
- Que horror!
- A outra denúncia foi de que Fileto teria sacado milhares de libras esterlinas na Pussinelli, Prusse & Co, mas a casa exportadora negou tudo, por documento escrito e assinado pelo Pussinelli. Apenas D. Maria Lucrecia, esposa de Fileto, tinha sacado para si dois contos, coisa de família, não do Estado.
- Estou estarrecido.
- Sim, houve outra denúncia. Disseram que Fileto fez contratos milionários, mas ele provou que todos os contratos eram legais e tiveram concorrência pública. Acusaram também de ter desapropriado terras como a parte mais alta da Av. Eduardo Ribeiro, que foi divida em duas e ali construído um jardim. Fileto também provou a legalidade disso. Dezenas de obras foram feitas por Fileto em 19 meses de governo. Assumiu em 23 de julho de 1896, recebeu o estado endividado, num déficit de 4 mil contos. Deixou um superávit de 9 mil contos. Recebeu o Estado com as obras paradas por falta de verba e teve de fazer um empréstimo para pagar o funcionalismo. A justiça estava amordaçada, os orçamentos tinham verbas ilimitadas. Se fosse desonesto não teria acabado com tudo isso. Irritou os homens do seu partido, principalmente Eduardo Ribeiro. Fileto pediu ao Governo Federal uma devassa no seu próprio governo. Não conseguiu. O Federal estava envolvido, temia a devassa. Fileto pediu intervenção federal. Não conseguiu. O governo federal se apressou em abafar o caso. Fileto escreveu um livro, onde fez um balanço de seu governo. É um livro muito bem escrito: “A verdade sobre o caso do Amazonas”. Terminou de escrever em 22 de julho de 1900.
- Fileto Pires Ferreira foi o homem público honesto mais caluniado de seu tempo!
- E a carta de renúncia era falsa. Foi escrita por Aristides Bayna e a assinatura foi falsificada pelo vice-governador Ramalho Junior. Fileto assumiu em 23 de julho de 1896 e licenciou-se em 4 de abril de 1898 para tratamento de saúde em Paris. Chegou em Paris em 14 de junho de 1898 e já no mesmo dia recebeu, no “Grand Hotel” onde se hospedara, telegrama de Ovídio Abrantes e Manoel Lages para que voltasse, pois iam cassar sua licença. No dia 4 de julho foi operado pelo Dr. Guyon, em Paris, no Hospital Necker, clínica das vias urinárias. Jean Casimir Félix Guyon (1831-1920) é considerado o fundador da moderna urologia. Publicou “Leçons cliniques sur les maladies des voies urinaiares” em 1881, um alentado tratado de 998 páginas.
- Mas não disseram que ele estava passeando?
- Calúnia, disse Lima Silva. Ele devia ter um cálculo renal, que era a especialidade do dr. Guyon. Se Fileto estivesse passeando não escreveria um livro de 180 páginas para se defender.
- Certamente.
- Fileto voltou em segredo, contra a prescrição do seu médico, no dia 16 de julho. Já em Lisboa se sabia que ele estava voltando de Paris. Em Paris morava João Serejo, em companhia da família de Fileto. Em Manaus os deputados não compareciam para não haver reunião para a cassação da sua licença médica. Houve um banquete no dia 1˚ de julho em homenagem a Fileto, em Paris. Mas ele já estava cassado sem saber pela falsa carta de renúncia, que é do dia 27 de junho de 1898. Fileto despachou com o Presidente do Brasil em Paris. Mas ele não gostava de política, não pensava em continuar na política...
- Quem seria o sucessor?
- Ele não pensava em sucessor e por isso se desinteressou em montar partido para favorecê-lo. Esse foi seu erro. Fileto era um romântico, acreditava nos homens. Nos amigos. Todos o traíram pelas costas. Até os Secretários de Estado. Era impossível prever que ele seria traído pelos mesmos personagens que o homenagearam em 16 de março, na partida, com uma placa de ouro com seus nomes. Velhos camaradas o traíram.
- Eu não sabia...
- Na Ilha da Maneira, recebeu outras más notícias. Em Belém, a 4 de agosto, foi recebido pelo Governador Paes de Carvalho, que não reconheceu o Governo ilegal de Ramalho Junior. Ali ele soube que seu cunhado, Guido de Sousa, tinha sido demitido e estava escondido. Os familiares de Fileto saíram às pressas de Manaus. No mesmo dia em que chegou partiu para reassumir seu posto de Governador do Amazonas. No meio da viagem o advertiram que não devia ir sem força militar para reaver seu posto, pois estavam dispostos a prendê-lo...
- Por que tudo isso? – perguntou Scholz.
- A razão talvez seja a concessão das obras do porto de Manaus. Além disso, Fileto fez um discurso comprometedor, em Paris, e elogiou Campos Sales, odiado pela elite amazonense.
E depois de um gole de uísque, Lima Silva tomou fôlego e disse:
- Um dos culpados pela deposição de Fileto foi o ex-Governador Eduardo Ribeiro, que era Presidente do Congresso desde 15 de julho de 1898 (a falsa carta é de 27 de junho). A falsa carta de renúncia foi apresentada e aceita pelo Congresso no dia primeiro de agosto de 98. A carta e a assinatura foram falsificadas na presença de Eduardo Ribeiro. Nunca se deve dizer que Fileto era um pupilo de Eduardo. Fileto Pires Ferreira era melhor do que Eduardo Ribeiro. Teria feito um governo muito mais importante.
- Posso tomar um sorvete? – perguntou, dengosa, a bela Marinalva.
CAPÍTULO QUINTO
A OBRA MUDA DE LUGAR
O lugar escolhido para a construção do Teatro Amazonas era um espaço “perfeitamente ventilado” e ficava no centro da cidade de Manaus. Área monstruosa. Ocupava quase todo o centro, da rua da Conceição à Comendador Clementino, ou seja, abrangia as atuais ruas Joaquim Sarmento, Eduardo Ribeiro, Henrique Martins e Saldanha Marinho.
Vários terrenos foram desapropriados.
A rica província despendeu 11 contos. Projeto faraônico. Entre 1880 e 1900 só se construíram obras gigantescas em Manaus. Governantes com muito dinheiro para gastar. Grandes edifícios, Colégio Estadual, a Biblioteca Pública, o Palácio do Governo, o Quartel, o Tesouro e pontes, aterros, ruas, estradas. Manaus se agigantava. Queria imitar Paris.
Depois da primeira escolha do terreno começaram a comprar os materiais: aço, telhas, portas, janelas. Tinha-se de nivelar a Praça Paissandu, que ficava na área. No orçamento de 1883-84, dotava-se para as obras 80 contos. A construção foi contratada com o comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes. A planta era a portuguesa. O contrato extenso, minucioso, publicado no jornal “Amazonas” em 17 de outubro de 1883. Mas o contratante, Manuel de Oliveira, passou o contrato para Alexandre Dantas e esse para a firma italiana Rossi & Irmãos. Os Rossi começaram as obras, mas modificando e encarecendo o contrato em mais 300 contos.
Porém, entre 1881 e 1884 pouco se soube das obras de construção do Teatro Amazonas.
Em 85 foi votada uma lei que pedia mais 300 contos em apólices e mais 600 contos para a “conclusão” das obras do Teatro, obras de canalização de “água potável”, ou seja, as obras acabavam subindo para cerca de 1.250 contos.
Um dia, a Comissão Administrativa foi reunida às pressas, por ordem do Secretário de Estado, o sr. Fileto Pires Ferreira. Ao gabinete do Secretário compareceram Leovegildo Coelho, João Antony e Charles Brisbin, além de vários outros personagens que representavam Rossi & Irmãos e o Dr. Canavarro, Diretor de Obras Públicas.
Fileto Pires Ferreira era o grande gerente do Governo Eduardo Ribeiro. Virá ser o seu sucessor. Graças a ele o governo pôde fazer várias grandes obras ao mesmo tempo, combatendo a corrupção e fazendo de Manaus uma cidade moderna no meio das selvas. Eduardo Ribeiro era um governador incansável, mas tinha intermitentes surtos de loucura e demência e crises nervosas quando ficava irreconhecível, ansioso e agressivo, e naqueles momento Fileto Pires era imprescindível para organizar tudo e resolver a crise. Eduardo Ribeiro tinha completa confiança em Fileto Pires. Fileto confiava no Governador. Fileto chegou até a deixar um papel assinado em branco nas mãos de Eduardo Ribeiro, papel que teria conseqüências catastróficas no futuro de Fileto, pois este documento em branco assinado caiu nas mãos dos adversários políticos de Fileto quando este era governador e estava em Paris e ali foi forjada uma carta de renúncia ao Governo do Amazonas. Fileto foi assim deposto por um golpe branco.
Fileto Pires Ferreira era um homem elegante, magro, testa sonhadora, grandes bigodes tipo Nietzche e muito gentil com todos ao redor. Alguns o chamavam de dândi, uma espécie de playboy da época. Mas Fileto era um homem culto, de raciocínio matemático, positivo, e acabou a vida como general, no Rio de Janeiro. Pertenceu ao grupo de jovens oficiais que subiu ao poder após o 15 de Novembro. Era natural do Piauí. Nasceu em Barras, a 16 de março de 1866, filho do Capitão Raymundo de Carvalho Pires e D. Lydia de Santana Pires. Fez seus estudos em Teresina e iniciou sua formação militar em Porto Alegre, em 1884. Transferido no ano seguinte para o Rio de Janeiro, veio a tomar parte na preparação do movimento republicano de Benjamim Constant. Dirigiu um manifesto de solidariedade a Benjamim Constant. A 15 de novembro de 1889, estava entre os oficiais da 2a Brigada de Deodoro para depor o Gabinete Ouro Preto, o que resultou na proclamação da República.
Em começo de 1890, Fileto foi mandado para o Amazonas, para servir ao lado de Augusto Ximenes de Villeroy, que, então, era 1.°-Tenente e Governador do Amazonas nomeado pelo Governo- Provisório, em substituição à Junta que assumiu o poder com a proclamação da República. Ao chegar à Manaus, já como 1.°-Tenente, Fileto Pires foi nomeado Superintendente Municipal de Tefé. Regressou ao Rio de Janeiro, concluindo em 1891 sua formação militar, com o título de Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Temporariamente fora do serviço ativo do Exército, esteve em Minas Gerais, onde foi engenheiro ferroviário.
Logo após o golpe de Estado de Deodoro, Fileto Pires foi chamado ao serviço ativo, sendo mandado ao Pará. Em viagem soube da queda de Deodoro e ascensão de Floriano. Deste recebeu ordem de seguir para Manaus.
Fileto Pires estava em Manaus quando foi deposto o governador Thaumaturgo de Azevedo que tinha aderido ao movimento do Marechal Deodoro e agora se via incluído na lista negra dos governadores a serem depostos no contra-golpe de Floriano. Thaumaturgo de Azevedo era da mesma cidade de Fileto, Barras do Marataon, no Piauí. Thaumaturgo nasceu em 1853 e Fileto em 1866. Os dois se conheciam.
Gregório Thaumaturgo de Azevedo foi o primeiro governador do Piauí, de 1889 a 1890. E foi governador do Amazonas de 91 a 92. Aborrecido com a luta política, demitiu-se do governo do Piauí depois de um excelente governo. O seu secretário de governo era Clóvis Bevilaqua. Ofereceram-lhe o governo do Paraná. Recusou. Mas optou pelo Amazonas. Foi preso por Floriano, reformado, deportado para a fortaleza de São Joaquim do Rio Branco. Anistiado, voltou ao Exército, chefiou a Comissão de Limites com a Bolívia, que nos deu o Acre.
“Thaumaturgo de Azevedo é um grande estadista que merece ser reverenciado por todos os brasileiros”, escreveu Plácido de Castro. Foi prefeito do Alto Juruá, fundador da cidade de Cruzeiro do Sul, e Comandante da Brigada Policial do Rio de Janeiro. Ganhou a medalha de ouro Simão Bolívar.
Eduardo Gonçalves Ribeiro substituiu Thaumaturgo de Azevedo e assumiu o governo, a 11 de março de 1892.
Convidou Fileto Pires para Secretário do Estado.
Fileto Pires Ferreira abriu solenemente os trabalhos da Comissão Administrativa:
- Senhores, considero aberta a reunião.
Charles Brisbin interveio:
- Não vai esperar o Governador, senhor Presidente? – sabendo que Eduardo Ribeiro estava temporariamente demente.
- O Governador não vem, disse Fileto. Toda a responsabilidade é desta Comissão. Como sabem, os trabalhos da construção do “Teatro Amazonas” já começaram e muito se gastou em terraplanagem, aterros e compra de materiais. Várias casas foram demolidas e um exército de operários especializados já se encontra morando em Manaus. As fundações estão sendo escavadas, disse Fileto, mas se descobriu que aquele lugar é imprestável para erigir um edifício tão alto e pesado, porque por ali passa um rio subterrâneo e mais o Igarapé do Espírito Santo. A terra não é estável, não é firme.
Fileto falava rápido e sempre encarava o seu interlocutor, olhando-o nos olhos.
Charles Brisbin cofiava o bigode com a mão gorda. Estava sério, pensativo, preocupado. Imaginava ele: “vão pensar que este teatro não sai, que nos vamos apropriar das verbas públicas...”
- Quanto já se gastou? perguntou Charles Brisbin.
- Não sei, mas é fácil saber se fizermos uma auditoria de tudo, respondeu Fileto, firme.
Fileto era honesto e preocupado em preservar o bem público.
- O que sei é que já se enterrou uma grande fortuna ali, disse um certo Brabante, que até então se mantinha calado. “E isto é muito grave”, concluiu.
- Também acho, disse Charles Brisbin. É muito dinheiro para ser abandonado no fundo da terra.
- Não foi em vão, senhores, argumentou Fileto Pires firme e decidido. Aquela área está preparada para ser o centro da cidade. Vamos abrir ali ruas e lotear os terrenos, ressarcindo os cofres públicos.
E depois de um longo e incômodo silêncio:
- Vocês não pensam que, por causa desse problema, teremos de abandonar a idéia de construir o nosso teatro!
Mais silêncio na mesa.
- O Governador Ribeiro nem admite que se cogite esta idéia, disse Fileto.
Silêncio. Charles Brisbin pigarreou e perguntou:
- É verdade que ele está doente?
- Está indisposto, respondeu Fileto, sem se abalar, sabendo que Eduardo Ribeiro estava sedado por seus médicos e atravessava mais uma de suas crises de depressão.
- Talvez fosse melhor dissolvermos esta comissão, disse alguém.
Então Navarro de Almeida, diretor de Obras Públicas, se irritou e gritou:
- Os senhores não podem fugir de suas responsabilidades!
- Mas de quem é a responsabilidade, perguntou Antony, quem é o responsável pela escolha errada que somente agora se revelou?
- De ninguém, respondeu Navarro. Era impossível saber, antes das escavações. Para erigir um edifício daquele porte, um edifício gigantesco, de pedra e ferro, o terreno tem de ser sólido. Estávamos construindo o teatro sobre um pântano...
- De quem será a culpa e a responsabilidade dos gastos indevidos? – perguntou Antony. Com o que já se gastou já se teria construído dois ou três teatros do projeto original do deputado Fernandes...
Todos se calaram, olhando João Antony com ódio. A situação ficou tensa. Ameaçava explodir.
Fileto, então, interveio:
- Senhores, de nada adianta nós nos culparmos de erros que não cometemos. Já disse que o Estado não teve nem terá nenhum prejuízo. Todos os aterros realizados até agora serviram para estabilizar a área do centro da cidade, e agora a cidade poderá ser construída num outro patamar, e não sobre um pântano. Será planejada. Manaus será uma cidade moderna, planejada, e será a primeira a ter iluminação elétrica no Brasil. Acertamos no que erramos. Vamos ser práticos e não compliquemos as coisas mais do que já estão.
Fileto Pires Ferreira sempre exercia e impunha a sua liderança e autoridade.
Foi quando o tenente-coronel Antonio Lopes de Oliveira Braga tomou a palavra e disse:
- Temos de pensar agora naquela área que já tinha sido escolhida antes, área escolhida pelo deputado Meireles...
- Mas aquele projeto foi rejeitado, disse Antony.
- Sim, mas eu conheço o local, tenho um roçado ali, disse Braga. O lugar é bom, é muito bom. É elevado, imponente. O mais elevado da cidade. Fica no que os caboclos chamam de “terras altas”.
- Gosto daquela área, ali o Teatro será bem, disse Fileto Pires.
E depois de uma breve discussão as obras mudaram de lugar, para aquele terreno alto, um dos mais elevados da cidade, em frente à praça de São Sebastião, na época um terreno apenas limpo para erigir ali uma coluna comemorativa da abertura dos portos no rio Amazonas. O monumento foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1867.
No dia 14 de fevereiro de 1884 foi lançada a pedra fundamental do Teatro Amazonas no novo lugar. Estavam presentes o Governador Eduardo Ribeiro, o Secretário de Estado Fileto Pires Ferreira, e outros.
O lugar escolhido para a construção do Teatro Amazonas era um espaço “perfeitamente ventilado” e ficava no centro da cidade de Manaus. Área monstruosa. Ocupava quase todo o centro, da rua da Conceição à Comendador Clementino, ou seja, abrangia as atuais ruas Joaquim Sarmento, Eduardo Ribeiro, Henrique Martins e Saldanha Marinho.
Vários terrenos foram desapropriados.
A rica província despendeu 11 contos. Projeto faraônico. Entre 1880 e 1900 só se construíram obras gigantescas em Manaus. Governantes com muito dinheiro para gastar. Grandes edifícios, Colégio Estadual, a Biblioteca Pública, o Palácio do Governo, o Quartel, o Tesouro e pontes, aterros, ruas, estradas. Manaus se agigantava. Queria imitar Paris.
Depois da primeira escolha do terreno começaram a comprar os materiais: aço, telhas, portas, janelas. Tinha-se de nivelar a Praça Paissandu, que ficava na área. No orçamento de 1883-84, dotava-se para as obras 80 contos. A construção foi contratada com o comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes. A planta era a portuguesa. O contrato extenso, minucioso, publicado no jornal “Amazonas” em 17 de outubro de 1883. Mas o contratante, Manuel de Oliveira, passou o contrato para Alexandre Dantas e esse para a firma italiana Rossi & Irmãos. Os Rossi começaram as obras, mas modificando e encarecendo o contrato em mais 300 contos.
Porém, entre 1881 e 1884 pouco se soube das obras de construção do Teatro Amazonas.
Em 85 foi votada uma lei que pedia mais 300 contos em apólices e mais 600 contos para a “conclusão” das obras do Teatro, obras de canalização de “água potável”, ou seja, as obras acabavam subindo para cerca de 1.250 contos.
Um dia, a Comissão Administrativa foi reunida às pressas, por ordem do Secretário de Estado, o sr. Fileto Pires Ferreira. Ao gabinete do Secretário compareceram Leovegildo Coelho, João Antony e Charles Brisbin, além de vários outros personagens que representavam Rossi & Irmãos e o Dr. Canavarro, Diretor de Obras Públicas.
Fileto Pires Ferreira era o grande gerente do Governo Eduardo Ribeiro. Virá ser o seu sucessor. Graças a ele o governo pôde fazer várias grandes obras ao mesmo tempo, combatendo a corrupção e fazendo de Manaus uma cidade moderna no meio das selvas. Eduardo Ribeiro era um governador incansável, mas tinha intermitentes surtos de loucura e demência e crises nervosas quando ficava irreconhecível, ansioso e agressivo, e naqueles momento Fileto Pires era imprescindível para organizar tudo e resolver a crise. Eduardo Ribeiro tinha completa confiança em Fileto Pires. Fileto confiava no Governador. Fileto chegou até a deixar um papel assinado em branco nas mãos de Eduardo Ribeiro, papel que teria conseqüências catastróficas no futuro de Fileto, pois este documento em branco assinado caiu nas mãos dos adversários políticos de Fileto quando este era governador e estava em Paris e ali foi forjada uma carta de renúncia ao Governo do Amazonas. Fileto foi assim deposto por um golpe branco.
Fileto Pires Ferreira era um homem elegante, magro, testa sonhadora, grandes bigodes tipo Nietzche e muito gentil com todos ao redor. Alguns o chamavam de dândi, uma espécie de playboy da época. Mas Fileto era um homem culto, de raciocínio matemático, positivo, e acabou a vida como general, no Rio de Janeiro. Pertenceu ao grupo de jovens oficiais que subiu ao poder após o 15 de Novembro. Era natural do Piauí. Nasceu em Barras, a 16 de março de 1866, filho do Capitão Raymundo de Carvalho Pires e D. Lydia de Santana Pires. Fez seus estudos em Teresina e iniciou sua formação militar em Porto Alegre, em 1884. Transferido no ano seguinte para o Rio de Janeiro, veio a tomar parte na preparação do movimento republicano de Benjamim Constant. Dirigiu um manifesto de solidariedade a Benjamim Constant. A 15 de novembro de 1889, estava entre os oficiais da 2a Brigada de Deodoro para depor o Gabinete Ouro Preto, o que resultou na proclamação da República.
Em começo de 1890, Fileto foi mandado para o Amazonas, para servir ao lado de Augusto Ximenes de Villeroy, que, então, era 1.°-Tenente e Governador do Amazonas nomeado pelo Governo- Provisório, em substituição à Junta que assumiu o poder com a proclamação da República. Ao chegar à Manaus, já como 1.°-Tenente, Fileto Pires foi nomeado Superintendente Municipal de Tefé. Regressou ao Rio de Janeiro, concluindo em 1891 sua formação militar, com o título de Bacharel em Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Temporariamente fora do serviço ativo do Exército, esteve em Minas Gerais, onde foi engenheiro ferroviário.
Logo após o golpe de Estado de Deodoro, Fileto Pires foi chamado ao serviço ativo, sendo mandado ao Pará. Em viagem soube da queda de Deodoro e ascensão de Floriano. Deste recebeu ordem de seguir para Manaus.
Fileto Pires estava em Manaus quando foi deposto o governador Thaumaturgo de Azevedo que tinha aderido ao movimento do Marechal Deodoro e agora se via incluído na lista negra dos governadores a serem depostos no contra-golpe de Floriano. Thaumaturgo de Azevedo era da mesma cidade de Fileto, Barras do Marataon, no Piauí. Thaumaturgo nasceu em 1853 e Fileto em 1866. Os dois se conheciam.
Gregório Thaumaturgo de Azevedo foi o primeiro governador do Piauí, de 1889 a 1890. E foi governador do Amazonas de 91 a 92. Aborrecido com a luta política, demitiu-se do governo do Piauí depois de um excelente governo. O seu secretário de governo era Clóvis Bevilaqua. Ofereceram-lhe o governo do Paraná. Recusou. Mas optou pelo Amazonas. Foi preso por Floriano, reformado, deportado para a fortaleza de São Joaquim do Rio Branco. Anistiado, voltou ao Exército, chefiou a Comissão de Limites com a Bolívia, que nos deu o Acre.
“Thaumaturgo de Azevedo é um grande estadista que merece ser reverenciado por todos os brasileiros”, escreveu Plácido de Castro. Foi prefeito do Alto Juruá, fundador da cidade de Cruzeiro do Sul, e Comandante da Brigada Policial do Rio de Janeiro. Ganhou a medalha de ouro Simão Bolívar.
Eduardo Gonçalves Ribeiro substituiu Thaumaturgo de Azevedo e assumiu o governo, a 11 de março de 1892.
Convidou Fileto Pires para Secretário do Estado.
Fileto Pires Ferreira abriu solenemente os trabalhos da Comissão Administrativa:
- Senhores, considero aberta a reunião.
Charles Brisbin interveio:
- Não vai esperar o Governador, senhor Presidente? – sabendo que Eduardo Ribeiro estava temporariamente demente.
- O Governador não vem, disse Fileto. Toda a responsabilidade é desta Comissão. Como sabem, os trabalhos da construção do “Teatro Amazonas” já começaram e muito se gastou em terraplanagem, aterros e compra de materiais. Várias casas foram demolidas e um exército de operários especializados já se encontra morando em Manaus. As fundações estão sendo escavadas, disse Fileto, mas se descobriu que aquele lugar é imprestável para erigir um edifício tão alto e pesado, porque por ali passa um rio subterrâneo e mais o Igarapé do Espírito Santo. A terra não é estável, não é firme.
Fileto falava rápido e sempre encarava o seu interlocutor, olhando-o nos olhos.
Charles Brisbin cofiava o bigode com a mão gorda. Estava sério, pensativo, preocupado. Imaginava ele: “vão pensar que este teatro não sai, que nos vamos apropriar das verbas públicas...”
- Quanto já se gastou? perguntou Charles Brisbin.
- Não sei, mas é fácil saber se fizermos uma auditoria de tudo, respondeu Fileto, firme.
Fileto era honesto e preocupado em preservar o bem público.
- O que sei é que já se enterrou uma grande fortuna ali, disse um certo Brabante, que até então se mantinha calado. “E isto é muito grave”, concluiu.
- Também acho, disse Charles Brisbin. É muito dinheiro para ser abandonado no fundo da terra.
- Não foi em vão, senhores, argumentou Fileto Pires firme e decidido. Aquela área está preparada para ser o centro da cidade. Vamos abrir ali ruas e lotear os terrenos, ressarcindo os cofres públicos.
E depois de um longo e incômodo silêncio:
- Vocês não pensam que, por causa desse problema, teremos de abandonar a idéia de construir o nosso teatro!
Mais silêncio na mesa.
- O Governador Ribeiro nem admite que se cogite esta idéia, disse Fileto.
Silêncio. Charles Brisbin pigarreou e perguntou:
- É verdade que ele está doente?
- Está indisposto, respondeu Fileto, sem se abalar, sabendo que Eduardo Ribeiro estava sedado por seus médicos e atravessava mais uma de suas crises de depressão.
- Talvez fosse melhor dissolvermos esta comissão, disse alguém.
Então Navarro de Almeida, diretor de Obras Públicas, se irritou e gritou:
- Os senhores não podem fugir de suas responsabilidades!
- Mas de quem é a responsabilidade, perguntou Antony, quem é o responsável pela escolha errada que somente agora se revelou?
- De ninguém, respondeu Navarro. Era impossível saber, antes das escavações. Para erigir um edifício daquele porte, um edifício gigantesco, de pedra e ferro, o terreno tem de ser sólido. Estávamos construindo o teatro sobre um pântano...
- De quem será a culpa e a responsabilidade dos gastos indevidos? – perguntou Antony. Com o que já se gastou já se teria construído dois ou três teatros do projeto original do deputado Fernandes...
Todos se calaram, olhando João Antony com ódio. A situação ficou tensa. Ameaçava explodir.
Fileto, então, interveio:
- Senhores, de nada adianta nós nos culparmos de erros que não cometemos. Já disse que o Estado não teve nem terá nenhum prejuízo. Todos os aterros realizados até agora serviram para estabilizar a área do centro da cidade, e agora a cidade poderá ser construída num outro patamar, e não sobre um pântano. Será planejada. Manaus será uma cidade moderna, planejada, e será a primeira a ter iluminação elétrica no Brasil. Acertamos no que erramos. Vamos ser práticos e não compliquemos as coisas mais do que já estão.
Fileto Pires Ferreira sempre exercia e impunha a sua liderança e autoridade.
Foi quando o tenente-coronel Antonio Lopes de Oliveira Braga tomou a palavra e disse:
- Temos de pensar agora naquela área que já tinha sido escolhida antes, área escolhida pelo deputado Meireles...
- Mas aquele projeto foi rejeitado, disse Antony.
- Sim, mas eu conheço o local, tenho um roçado ali, disse Braga. O lugar é bom, é muito bom. É elevado, imponente. O mais elevado da cidade. Fica no que os caboclos chamam de “terras altas”.
- Gosto daquela área, ali o Teatro será bem, disse Fileto Pires.
E depois de uma breve discussão as obras mudaram de lugar, para aquele terreno alto, um dos mais elevados da cidade, em frente à praça de São Sebastião, na época um terreno apenas limpo para erigir ali uma coluna comemorativa da abertura dos portos no rio Amazonas. O monumento foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1867.
No dia 14 de fevereiro de 1884 foi lançada a pedra fundamental do Teatro Amazonas no novo lugar. Estavam presentes o Governador Eduardo Ribeiro, o Secretário de Estado Fileto Pires Ferreira, e outros.
CAPÍTULO QUARTO
A INAUGURAÇÃO
No dia 31 de dezembro de 1896 se inaugurou o Teatro Amazonas, com “La Gioconda”, de Amilcare Ponchielli, sob a regência do maestro brasileiro Joaquim de Carvalho Franco, que foi diretor da Academia Amazonense de Belas Artes. Ele nasceu em Campinas, em 1858/59 e morreu em Manaus em 1927, onde se estabeleceu. Está enterrado no cemitério de São João Batista.
“La Gioconda” era uma novidade em 1896, e sua estréia fora em 1876 com grande sucesso. Foi a única das composições de Ponchielli (1834-1886) a ter sucesso e a manter-se no repertório dos teatros até hoje. Estreou no Teatro alla Scala de Milão, em 08 de abril de 1876 e Ponchielli revisou a obra pelo menos três vezes até o final da vida.
“La Gioconda” está na transição entre o romantismo e o realismo, reunindo elementos das duas escolas, no estilo da “grand-opera” francesa, carregada de melodrama, a ambientação exótica e um balé no meio do espetáculo – no caso a conhecida “Dança das Horas”, imortalizada por Walt Disney. A ópera revela grandiosidade, cenários luxuosos, efeitos de cena, como o incêndio do segundo ato, grandes número de coro, orquestração densa. Exige um elenco de 12 cantores, seis dos quais podem ser considerados principais, com pelo menos uma grande ária para cada um deles.
“La Gioconda” é precursora da escola realista da ópera italiana, com o vilão Barnaba, mais teatral e declamado do que cantado, e a violenta cena final, quando a protagonista comete suicídio num ato de extremo desespero.
O libreto é de Arrigo Boito, um dos artistas que fizeram a renovação do gênero. Boito não acreditou no sucesso da ópera, e preferiu assinar com um anagrama, Tobia Gorrio.
O soprano que interpreta Gioconda tem as partes mais difíceis do espetáculo, cheio de recursos emotivos, alternando sentimentos de ternura, amor, ódio e desespero. O soprano canta exaustivamente nos três primeiros atos, antes de enfrentar no fim o mais extremo esforço cênico e vocal, quando está no palácio em ruínas e prefere suicidar-se a ser morta.
É uma ópera cara e difícil.
A Gioconda era Líbia Drog, soprano dramática. Ela era uma italiana belíssima, famosa na Itália, na Espanha e em São Petesburgo. Ficou famosa porque no Metropólitan Opera House, em novembro de 1894, na ópera Guillermo Tell, esqueceu o texto da ária de Matilde –Selva opaca- pondo em perigo toda a função. Mas em Manaus teve uma de suas melhores atuações.
A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar o primeiro, Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar. Raul aproveitou para fumar.
A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio).
Quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração. Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite.
E assim foram chegando os convidados, que a elite do Norte do Brasil.
Um dos últimos a chegar foi o Governado Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.
Eduardo Ribeiro como sempre vinha acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar as pessoas que encontrava no caminho, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote simples, ao lado daquele do governador. Os dois soldados ficaram de guarda na porta.
O Teatro ainda não estava ainda totalmente pronto, mas no “Salão Nobre”, em taças de cristal se servia o champanha La Grand Dame Veuve Clicquo e se conspirava. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, e contra Eduardo Ribeiro, que se escondia na penumbra. Em sussurros no pé do ouvido algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris...”
- Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir.
No início do espetáculo, o Governador Fileto Pires Ferreira falou. Inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
- Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados. E no meio da “Dança das horas” ouviu-se alguém gritar:
- É preciso eliminar o negro!
(Risos).
Eduardo Ribeiro nunca mais voltou àquele teatro.
No dia 31 de dezembro de 1896 se inaugurou o Teatro Amazonas, com “La Gioconda”, de Amilcare Ponchielli, sob a regência do maestro brasileiro Joaquim de Carvalho Franco, que foi diretor da Academia Amazonense de Belas Artes. Ele nasceu em Campinas, em 1858/59 e morreu em Manaus em 1927, onde se estabeleceu. Está enterrado no cemitério de São João Batista.
“La Gioconda” era uma novidade em 1896, e sua estréia fora em 1876 com grande sucesso. Foi a única das composições de Ponchielli (1834-1886) a ter sucesso e a manter-se no repertório dos teatros até hoje. Estreou no Teatro alla Scala de Milão, em 08 de abril de 1876 e Ponchielli revisou a obra pelo menos três vezes até o final da vida.
“La Gioconda” está na transição entre o romantismo e o realismo, reunindo elementos das duas escolas, no estilo da “grand-opera” francesa, carregada de melodrama, a ambientação exótica e um balé no meio do espetáculo – no caso a conhecida “Dança das Horas”, imortalizada por Walt Disney. A ópera revela grandiosidade, cenários luxuosos, efeitos de cena, como o incêndio do segundo ato, grandes número de coro, orquestração densa. Exige um elenco de 12 cantores, seis dos quais podem ser considerados principais, com pelo menos uma grande ária para cada um deles.
“La Gioconda” é precursora da escola realista da ópera italiana, com o vilão Barnaba, mais teatral e declamado do que cantado, e a violenta cena final, quando a protagonista comete suicídio num ato de extremo desespero.
O libreto é de Arrigo Boito, um dos artistas que fizeram a renovação do gênero. Boito não acreditou no sucesso da ópera, e preferiu assinar com um anagrama, Tobia Gorrio.
O soprano que interpreta Gioconda tem as partes mais difíceis do espetáculo, cheio de recursos emotivos, alternando sentimentos de ternura, amor, ódio e desespero. O soprano canta exaustivamente nos três primeiros atos, antes de enfrentar no fim o mais extremo esforço cênico e vocal, quando está no palácio em ruínas e prefere suicidar-se a ser morta.
É uma ópera cara e difícil.
A Gioconda era Líbia Drog, soprano dramática. Ela era uma italiana belíssima, famosa na Itália, na Espanha e em São Petesburgo. Ficou famosa porque no Metropólitan Opera House, em novembro de 1894, na ópera Guillermo Tell, esqueceu o texto da ária de Matilde –Selva opaca- pondo em perigo toda a função. Mas em Manaus teve uma de suas melhores atuações.
A multidão que assistia do lado de fora a entrada dos convidados à inauguração viu chegar o primeiro, Raul de Azevedo e sua esposa, Sara. O casal ficou a passear nos jardins do teatro antes de entrar. Raul aproveitou para fumar.
A seguir apareceram Afonso de Carvalho, a esposa e alguns amigos. Era um grupo animado. Entraram logo.
Logo veio Joaquim Cardoso Ramalho Junior, com o filho (a esposa adoentada não veio).
Quando apareceu Erico de Aguiar Picanço todas as pessoas que assistiam a entrada exclamaram um “oh!” de surpresa e admiração. Esmeralda Picanço portava as suas famosas esmeraldas: era um colar e brincos de esmeraldas e diamantes famosos na alta sociedade manauara, realçados pelo belo pescoço e o vestido de seda preta de sua dona. O vestido não tinha nenhum bordado nem enfeite.
E assim foram chegando os convidados, que a elite do Norte do Brasil.
Um dos últimos a chegar foi o Governado Fileto Pires Ferreira, com a esposa. E o último o ex governador Eduardo Gonçalves Ribeiro.
Eduardo Ribeiro como sempre vinha acompanhado por dois soldados. Entrou rapidamente, atravessou o hall sem cumprimentar as pessoas que encontrava no caminho, subiu as escadarias com velocidade e sumiu no camarote simples, ao lado daquele do governador. Os dois soldados ficaram de guarda na porta.
O Teatro ainda não estava ainda totalmente pronto, mas no “Salão Nobre”, em taças de cristal se servia o champanha La Grand Dame Veuve Clicquo e se conspirava. Conspirava-se contra o Governador Fileto Pires Ferreira, que já estava no camarote do Governo, e contra Eduardo Ribeiro, que se escondia na penumbra. Em sussurros no pé do ouvido algumas figuras diziam: “- Fileto vai viajar para Paris...”
- Agora que Fileto e o negro estão rompidos é hora de agir.
No início do espetáculo, o Governador Fileto Pires Ferreira falou. Inaugurou o Teatro. Seu discurso foi recebido friamente pela elite que já conspirava contra ele. E embora tivesse de relações rompidas com o ex-governador, anunciou:
- Temos a satisfação de ver entre nós o grande realizador da obra, o construtor deste imponente Teatro, o Governador Eduardo Ribeiro.
Neste momento irrompeu uma grande vaia, vinda de todos os lados. E no meio da “Dança das horas” ouviu-se alguém gritar:
- É preciso eliminar o negro!
(Risos).
Eduardo Ribeiro nunca mais voltou àquele teatro.
CAPÍTULO TERCEIRO
JOSÉ PARANAGUÁ - 1882
O Presidente da Província José Paranaguá andava de um lado para outro, nervoso, com aqueles papéis e um leque nas mãos. Era um homem inquieto, nervoso, irritadiço, meio gago. Naquele momento tinha o projeto da construção do teatro de alvenaria nas mãos.
Na sua frente, o deputado Fernandes Júnior o olhava com admiração e reverência. Paranaguá era de uma das famílias mais poderosas do país. O deputado aguardava, apoiado na mesa. Parecia clamo, sorridente, gentil, servil, e esperava que Paranaguá não tivesse um ataque de nervos, na sua frente.
No forte calor da tarde, o governador suado agitava os papéis, o leque, levantando os braços no ar.
- Você tem razão, meu caro, disse Paranaguá, ainda andando. “Você tem razão”. Ele tinha o hábito de repetir a mesma frase duas vezes e gostava de falar andando. “Peripateticamente”, dizia ele.
- Mas... – disse ele.
E não concluiu.
Apertou a mão do deputado e o conduziu, empurrando-o, até a porta.
- Eu o manterei informado, concluiu ele, conduzindo o outro pelo braço, dando-lhe amistosas tapinhas nas costas, enquanto punha Fernandes Junior gentilmente para fora.
José Paranaguá era um homem ilustre, e poderoso em todo o império.
- Mas o quê, Excelência? – perguntou o deputado, já com o corpo todo fora do gabinete.
- O seu projeto é muito modesto... muito modesto!
E voltando a abrir a porta do gabinete gritou:
- Eu o manterei informado. Eu o manterei informado!
Logo que o deputado saiu, entraram João Antony e Leovegildo Coelho. O governador os fez sentar e passou-lhes às mãos o projeto de construção do Teatro Amazonas.
O Teatro Amazonas estava ali, posto em papel, nascendo para ser uma casa de diversões de gente rica. Havia uma sociedade recentemente enriquecida que necessitava canalizar suas energias em festas, reuniões, diversão.
Logo após, em junho de 1882, quando o gigantesco teatro ainda era um sonho, José Paranaguá sancionou a lei n◦ 567 de 10 de maio de 1882 que despendia 10 contos de réis (uma fortuna!) com o contrato de uma companhia dramática.
Mas ainda não havia teatro.
José Lustosa da Cunha Paranaguá era filho do Marquês de Paranaguá, Presidente do Conselho de Ministros do Brasil. Foi Presidente da Província do Amazonas por dois anos.
Chegou em Manaus no dia 17 de março de 1882. No dia 28 de maio do mesmo ano foi explorar a região de Itacoatiara, acompanhado por Thaumaturgo de Azevedo e João Antony.
Thaumaturgo de Azevedo estudou na Escola Militar de realengo, no Rio, e na Faculdade do Recife. Militar engenheiro e advogado, chegou a general e a governador. Teve vida política agitadíssima, cheia de altos e baixos.
João Antony era um engenheiro amazonense de ilustre família. Foi político, desenvolveu uma carreira brilhante e honesta. Era pai do poeta Américo Antony.
Em 1882 a comitiva de José Paranaguá saltou em Amatari à procura do cemitério dos índios Miracauuêra. Em 12 de julho subiu o Rio Negro. Explorou o rio Cuieires à procura dos índios Arauquis, dizimados em 1669 pelo Capitão Favela.
Em 12 de setembro explorou o Baixo Amazonas, acompanhado por comitiva da qual fazia parte José Veríssimo.
Em novembro explorou o Purus.
O governador era um explorador. Detestava burocracia.
Foi na administração dele, José Paranaguá, que se começou a construir o suntuoso Teatro Amazonas.
A lei n◦ 593, de 29 de maio de 1882, sancionada por ele, chamava concorrentes para a execução da planta e dotava 30 contos de réis para o início das obras, não mais orçadas em 60, nem em 120, mas em 250 contos de réis.
Aquilo ficou esquecido durante o resto do ano.
No ano seguinte, numa tarde de março de 1883, estava reunida a comissão administrativa para a construção do teatro numa sala do segundo andar do prédio da prefeitura. A comissão, nomeada por Paranaguá, era constituída por Leovegildo Coelho, João Antony e Charles Brisbin.
Sentado na cabeceira da mesa estava o presidente, Leovegildo, com a xícara de café na mão.
- Há dois orçamentos para examinar, começou ele.
Leovegildo Coelho era um tipo grande, baiano forte, aparência militar. Era engenheiro. Nasceu pobre, foi criado por uma família adotiva e nunca conseguiu saber o nome de seus pais. Estudou em Salvador, depois foi para o Rio de Janeiro, para a Escola Militar. Foi Alferes, serviu no Amazonas e incorporado à “expedição científica”, sob a chefia de Gonçalves Dias, que morou na rua Barroso onde hoje existe o prédio da Biblioteca Pública. Gonçalves Dias depois passou a inspetor escolar e Leovegildo Coelho indicado para verificar o canal do Rio Negro do ponto de vista de sua navegação e fazer sua cartografia.
Leovegildo Coelho era mulato e foi um dos auxiliares do governador negro Eduardo Ribeiro na construção de Manaus. Foi delegado de polícia, deputado, senador e um dos signatários da Constituição Brasileira de 1891. Participou do governo de Floriano Peixoto, de quem era confidente e conselheiro. Deixou um alentado diário íntimo, ainda inédito e nunca publicado, em três volumes, com informações secretas da vida da República.
- Há dois orçamentos, disse Coelho. Um de Celeste Saccardi, de 249 contos; outro do Gabinete Português de Engenharia de Lisboa, de 500 contos.
João Antony ouvia em silêncio, o lápis rodopiando na mão. A seu lado estava o gordo Charles Brisbin, sofisticado, perfumado, com um polpudo lenço na lapela, cofiando o bigode grisalho.
Eles tinham de decidir da planta e orçamento da construção do teatro.
- Acho o projeto Saccardi o melhor e mais barato, disse Coelho, estendendo o pescoço com um puxão.
João Antony pôs-se a examinar o projeto Saccardi.
Depois de algum tempo, disse:
- Faltam fachadas laterais, - falou, dirigindo-se para Coelho.
Brisbin pôs o pincenê de ouro e se aproximou, e os dois passaram a examinar aquelas folhas.
- Sim, falta também a fachada posterior, disse Brisbin.
- Sim, respondeu Antony.
Leovegildo Coelho aproximou-se de onde estavam os dois, e começou a balançar a cabeça, concordando.
- Também não vejo no orçamento o emboço, o reboco e a pintura do edifício.
Examinaram os três.
- Falta o soalho e forro da platéia...
- E o ladrilho da entrada e do saguão...
- O preço da mão de obra da cúpula...
Sucessivamente os defeitos Saccardi foram aparecendo:
- O preço do ferro não é esse, está muito baixo, disse Brisbin, que era dono de uma construtora em Lisboa.
- O da alvenaria também, acrescentou Coelho.
Depois de um tempo, disse Antony:
- Mas como apoiar este projeto português, que custa o dobro?
- Quanto custa?
- Quinhentos contos.
No dia seguinte foram os três ao gabinete do Presidente da Província José Paranaguá.
Depois de ouvir a argumentação, disse o Governador:
- Como não, como não! – exclamou efusivo José Paranaguá, batendo leque na palma da mão e assobiando uma polca. Vamos aproveitar as condições prósperas da província, não vamos adiar a obra, é uma necessidade desta capital.
E depois de rodopiar pelo gabinete:
- Precisamos de um teatro. Precisamos de um teatro! – e assobiou a polca com mais força.
E logo andando de um lado para outro, como sempre fazia, disse em tom de discurso solene:
- Vamos aceitar esta planta portuguesa, vamos aceitar, vou tocar as obras vou tocar. Pagarei um conto de réis pela planta.
E depois de mais uma caminhada de um lado para o outro, agitando os braços, abanando o leque e assobiando a polca:
- Vamos agora escolher, imediatamente, o lugar onde construiremos o nosso teatro! Vamos escolher! Agora! Vamos escolher!
E começaram a discutir entre si e depois escolheram. Mas escolheram mal, como se verá.
Foi assim que obras começaram, mas não em 60, nem em 120, nem em 250, mas em 500 contos de réis.
E depois subiram a milhões.
O Presidente da Província José Paranaguá andava de um lado para outro, nervoso, com aqueles papéis e um leque nas mãos. Era um homem inquieto, nervoso, irritadiço, meio gago. Naquele momento tinha o projeto da construção do teatro de alvenaria nas mãos.
Na sua frente, o deputado Fernandes Júnior o olhava com admiração e reverência. Paranaguá era de uma das famílias mais poderosas do país. O deputado aguardava, apoiado na mesa. Parecia clamo, sorridente, gentil, servil, e esperava que Paranaguá não tivesse um ataque de nervos, na sua frente.
No forte calor da tarde, o governador suado agitava os papéis, o leque, levantando os braços no ar.
- Você tem razão, meu caro, disse Paranaguá, ainda andando. “Você tem razão”. Ele tinha o hábito de repetir a mesma frase duas vezes e gostava de falar andando. “Peripateticamente”, dizia ele.
- Mas... – disse ele.
E não concluiu.
Apertou a mão do deputado e o conduziu, empurrando-o, até a porta.
- Eu o manterei informado, concluiu ele, conduzindo o outro pelo braço, dando-lhe amistosas tapinhas nas costas, enquanto punha Fernandes Junior gentilmente para fora.
José Paranaguá era um homem ilustre, e poderoso em todo o império.
- Mas o quê, Excelência? – perguntou o deputado, já com o corpo todo fora do gabinete.
- O seu projeto é muito modesto... muito modesto!
E voltando a abrir a porta do gabinete gritou:
- Eu o manterei informado. Eu o manterei informado!
Logo que o deputado saiu, entraram João Antony e Leovegildo Coelho. O governador os fez sentar e passou-lhes às mãos o projeto de construção do Teatro Amazonas.
O Teatro Amazonas estava ali, posto em papel, nascendo para ser uma casa de diversões de gente rica. Havia uma sociedade recentemente enriquecida que necessitava canalizar suas energias em festas, reuniões, diversão.
Logo após, em junho de 1882, quando o gigantesco teatro ainda era um sonho, José Paranaguá sancionou a lei n◦ 567 de 10 de maio de 1882 que despendia 10 contos de réis (uma fortuna!) com o contrato de uma companhia dramática.
Mas ainda não havia teatro.
José Lustosa da Cunha Paranaguá era filho do Marquês de Paranaguá, Presidente do Conselho de Ministros do Brasil. Foi Presidente da Província do Amazonas por dois anos.
Chegou em Manaus no dia 17 de março de 1882. No dia 28 de maio do mesmo ano foi explorar a região de Itacoatiara, acompanhado por Thaumaturgo de Azevedo e João Antony.
Thaumaturgo de Azevedo estudou na Escola Militar de realengo, no Rio, e na Faculdade do Recife. Militar engenheiro e advogado, chegou a general e a governador. Teve vida política agitadíssima, cheia de altos e baixos.
João Antony era um engenheiro amazonense de ilustre família. Foi político, desenvolveu uma carreira brilhante e honesta. Era pai do poeta Américo Antony.
Em 1882 a comitiva de José Paranaguá saltou em Amatari à procura do cemitério dos índios Miracauuêra. Em 12 de julho subiu o Rio Negro. Explorou o rio Cuieires à procura dos índios Arauquis, dizimados em 1669 pelo Capitão Favela.
Em 12 de setembro explorou o Baixo Amazonas, acompanhado por comitiva da qual fazia parte José Veríssimo.
Em novembro explorou o Purus.
O governador era um explorador. Detestava burocracia.
Foi na administração dele, José Paranaguá, que se começou a construir o suntuoso Teatro Amazonas.
A lei n◦ 593, de 29 de maio de 1882, sancionada por ele, chamava concorrentes para a execução da planta e dotava 30 contos de réis para o início das obras, não mais orçadas em 60, nem em 120, mas em 250 contos de réis.
Aquilo ficou esquecido durante o resto do ano.
No ano seguinte, numa tarde de março de 1883, estava reunida a comissão administrativa para a construção do teatro numa sala do segundo andar do prédio da prefeitura. A comissão, nomeada por Paranaguá, era constituída por Leovegildo Coelho, João Antony e Charles Brisbin.
Sentado na cabeceira da mesa estava o presidente, Leovegildo, com a xícara de café na mão.
- Há dois orçamentos para examinar, começou ele.
Leovegildo Coelho era um tipo grande, baiano forte, aparência militar. Era engenheiro. Nasceu pobre, foi criado por uma família adotiva e nunca conseguiu saber o nome de seus pais. Estudou em Salvador, depois foi para o Rio de Janeiro, para a Escola Militar. Foi Alferes, serviu no Amazonas e incorporado à “expedição científica”, sob a chefia de Gonçalves Dias, que morou na rua Barroso onde hoje existe o prédio da Biblioteca Pública. Gonçalves Dias depois passou a inspetor escolar e Leovegildo Coelho indicado para verificar o canal do Rio Negro do ponto de vista de sua navegação e fazer sua cartografia.
Leovegildo Coelho era mulato e foi um dos auxiliares do governador negro Eduardo Ribeiro na construção de Manaus. Foi delegado de polícia, deputado, senador e um dos signatários da Constituição Brasileira de 1891. Participou do governo de Floriano Peixoto, de quem era confidente e conselheiro. Deixou um alentado diário íntimo, ainda inédito e nunca publicado, em três volumes, com informações secretas da vida da República.
- Há dois orçamentos, disse Coelho. Um de Celeste Saccardi, de 249 contos; outro do Gabinete Português de Engenharia de Lisboa, de 500 contos.
João Antony ouvia em silêncio, o lápis rodopiando na mão. A seu lado estava o gordo Charles Brisbin, sofisticado, perfumado, com um polpudo lenço na lapela, cofiando o bigode grisalho.
Eles tinham de decidir da planta e orçamento da construção do teatro.
- Acho o projeto Saccardi o melhor e mais barato, disse Coelho, estendendo o pescoço com um puxão.
João Antony pôs-se a examinar o projeto Saccardi.
Depois de algum tempo, disse:
- Faltam fachadas laterais, - falou, dirigindo-se para Coelho.
Brisbin pôs o pincenê de ouro e se aproximou, e os dois passaram a examinar aquelas folhas.
- Sim, falta também a fachada posterior, disse Brisbin.
- Sim, respondeu Antony.
Leovegildo Coelho aproximou-se de onde estavam os dois, e começou a balançar a cabeça, concordando.
- Também não vejo no orçamento o emboço, o reboco e a pintura do edifício.
Examinaram os três.
- Falta o soalho e forro da platéia...
- E o ladrilho da entrada e do saguão...
- O preço da mão de obra da cúpula...
Sucessivamente os defeitos Saccardi foram aparecendo:
- O preço do ferro não é esse, está muito baixo, disse Brisbin, que era dono de uma construtora em Lisboa.
- O da alvenaria também, acrescentou Coelho.
Depois de um tempo, disse Antony:
- Mas como apoiar este projeto português, que custa o dobro?
- Quanto custa?
- Quinhentos contos.
No dia seguinte foram os três ao gabinete do Presidente da Província José Paranaguá.
Depois de ouvir a argumentação, disse o Governador:
- Como não, como não! – exclamou efusivo José Paranaguá, batendo leque na palma da mão e assobiando uma polca. Vamos aproveitar as condições prósperas da província, não vamos adiar a obra, é uma necessidade desta capital.
E depois de rodopiar pelo gabinete:
- Precisamos de um teatro. Precisamos de um teatro! – e assobiou a polca com mais força.
E logo andando de um lado para outro, como sempre fazia, disse em tom de discurso solene:
- Vamos aceitar esta planta portuguesa, vamos aceitar, vou tocar as obras vou tocar. Pagarei um conto de réis pela planta.
E depois de mais uma caminhada de um lado para o outro, agitando os braços, abanando o leque e assobiando a polca:
- Vamos agora escolher, imediatamente, o lugar onde construiremos o nosso teatro! Vamos escolher! Agora! Vamos escolher!
E começaram a discutir entre si e depois escolheram. Mas escolheram mal, como se verá.
Foi assim que obras começaram, mas não em 60, nem em 120, nem em 250, mas em 500 contos de réis.
E depois subiram a milhões.
CAPÍTULO SEGUNDO
NATAL DE 1900
Noite escura.
Jovem para seus 55 anos, Francisco Ferreira de Lima Silva naquela escura noite vinha subindo a escadaria do imponente palacete onde morava Waldemar Scholz e que muitos anos depois foi transformado no “Palácio Rio Negro”, sede do Estado do Amazonas, no governo de Alcântara Bacellar.
Lima Silva envergava terno de linho bege, chapéu de palhinha, gravata borboleta de seda azul-claro, sapatos de verniz, pretos. Elegante.
Vinha pensando, distraído, imaginando no que o velho Waldemar Scholz lhe tinha reservado, pois o riquíssimo Scholz era generoso, e na noite de Natal dava presentes caros. Trazia para o dono da casa um livro de contos, o “Diferentes”, de 1895, de Quintino Cunha, que ainda morava em Manaus e depois publicaria, em Paris, o seu famoso livro de versos “Pelo Solimões”, em 1907, pela Livraria J. Aillaud. Quintino Cunha tornou-se amigo de Aillaud e de outros intelectuais franceses, como Faguet, da Academia Francesa
Para ambos não passarem o Natal só, Scholz convidara o amigo para a ceia. Era um grupo seleto: Lima Silva, que estava novamente separado da mulher; o maestro Adelelmo do Nascimento, mulato, cultíssimo, violinista, estava em Paris; Antonio Bittencourt, pai do professor Agnello Bittencourt, que não pudera vir; e poucos outros.
Lima Silva era jornalista e fez carreira política em Manaus. Escreveu “Efemérides do Amazonas”, em 1884, gigantesca obra que permanece inédita e talvez se tenha perdido. Escreveu também um livro sobre os movimentos revolucionários. Foi deputado estadual, federal e participou do movimento de deposição de Gregório Thaumaturgo de Azevedo, Governador do Amazonas, quando Lima Silva saiu ferido. Homem de oposição, de luta, da esquerda da época. Thaumaturgo foi deposto, Guilherme Moreira assumiu, pois era o primeiro vice, e em poucos dias entregou o governo para Eduardo Ribeiro, o segundo vice.
A paixão dominava Lima Silva. Apesar de casado, pai de duas filhas, o amor por Marinalva o enlouquecia, cabocla pequena, leviana e sensual. Silva não sabia o que fazer. Marinalva o traía. “Até com os trapixeiros!”, pensava Silva, com ódio.
Ao chegar à porta do palacete Scholz parou e esperou que lhe abrissem.
Um empregado, caboclo forte, meio índio, veio abrir:
- Pode entrar, disse o homem.
Na noite anterior, Silva estivera com Marinalva. Junto dela perdoava tudo. Era capaz de beijar seus pés, que aliás eram bonitos. Marinalva tinha os cabelos negros lisos, a pele morena bronzeada, seios pequenos. Olhos de índia, de onça, cor que variava pelo amarelo-ouro-esverdeado, cor indefinível, falsa, perigosa. Marinalva, ela dizia que se chamava assim. Mas como tudo nela era possível, ele não sabia se era verdade. Ela dizia que tinha vindo do Amatari. Não tinha documento. Quando Silva mandava fazer os documentos dela, Marinalva os perdia. Silva a cobria de presentes, roupas e jóias, dizia que queria casar-se com ela, abandonar a esposa, e de fato seria capaz de tudo para ficar com ela. Ela se ria, jurava que sim, e no dia seguinte sumia na orgia da noite, voltava bêbada e louca na manhã seguinte para aquela casa que Silva tinha alugado para ela, na Cachoeirinha. Silva se desesperava, se odiava, jurava que ia abandoná-la, deixava de vê-la, mas quando Marinalva estava sem dinheiro aparecia no Foro, ou na Câmara, ou mesmo na porta da casa dele. Fazia escândalo. Silva segurava o seu braço e a tirava dali, e tudo acabava na cama, ela gemendo por cima dele, ele extasiado de prazer e amor. Não, não tinha cura. Por duas vezes separou-se da esposa, D. Cacilda, mulher de boa família, rica, que tinha voltado para a casa dos pais por causa da Marinalva.
Lima Silva foi entrando no hall de entrada. Deixou o chapéu. Viu ali a famosa escadaria de madeira encaixada, famosa em todo o mundo porque não tem coluna e se sustenta até hoje milagrosamente. Foi para a sala contígua, onde Scholz costumava receber os visitantes e onde, anos depois, se faziam as reuniões de governo.
A decoração era impressionante. Os quadros, os móveis, tudo revelava luxo e bom gosto.
Da janela se via a vivenda de pássaros amazônicos, de que Scholz tanto gostava. Eram pássaros raros, que ele colecionava, junto com as orquídeas. Um dia, como ele se aproximou demais, uma garça do viveiro perfurou-lhe o olho esquerdo e o cegou.
Quando Scholz apareceu, viu que Lima Silva parecia estar à vontade, contemplando a noite. Era uma escura noite de Natal de 1900, pouco tempo depois da morte do Governador Eduardo Ribeiro, em circunstância misteriosa. Eduardo Ribeiro foi o grande construtor do Teatro Amazonas. Foi o construtor de Manaus. Um dos maiores estadistas do Brasil.
Scholz apareceu de roupa leve e branca e pince-nez de ouro. Sentou-se solene em sua frente e disparou, à queima roupa:
- Lima Silva, quem matou Eduardo Ribeiro?
Quando saiu, já de madrugada, do palacete Scholz, Lima Silva foi para casa de Marinalva.
Ela não estava.
Ordenou ao táxi que o levasse à praça de São Sebastião.
Em frente ao Teatro Amazonas parou e saltou. A igreja já estava fechada e a praça vazia.
Quando o táxi partiu, Lima Silva sentou-se na escadaria do Teatro e começou a chorar.
De longe, de bem longe, dos limites da fímbria do horizonte, apareceu um vento úmido e morno vindo da Floresta que passou como um fantasma, uivando nas alamedas do Teatro.
Caía uma chuva fina.
Chorando, Lima Silva foi caminhando, abandonado e só, em direção àquela passagem do aterro onde depois se pavimentou a avenida Eduardo Ribeiro.
Chorava a morte de Eduardo Ribeiro. Chorava a morte de tudo.
Poucos anos depois a economia do Amazonas entrou em decadência e ruína. Manaus quase foi transformada numa cidade fantasma. O manto negro de uma recessão a cobriu durante cinqüenta anos, povoando suas ruas uma legião de mendigos.
O Teatro Amazonas fechou as portas por meio século e durante algum tempo se transformou em depósito de borracha crua.
Todos os espelhos de cristal, os quadros, as estátuas, as cortinas de veludo, os lustres, os tapetes de linho, os jarros de porcelana, os móveis de luxo, as mesas e cadeiras móveis foram roubados.
A Floresta Amazônica ameaçava, na noite escura.
Noite escura.
Jovem para seus 55 anos, Francisco Ferreira de Lima Silva naquela escura noite vinha subindo a escadaria do imponente palacete onde morava Waldemar Scholz e que muitos anos depois foi transformado no “Palácio Rio Negro”, sede do Estado do Amazonas, no governo de Alcântara Bacellar.
Lima Silva envergava terno de linho bege, chapéu de palhinha, gravata borboleta de seda azul-claro, sapatos de verniz, pretos. Elegante.
Vinha pensando, distraído, imaginando no que o velho Waldemar Scholz lhe tinha reservado, pois o riquíssimo Scholz era generoso, e na noite de Natal dava presentes caros. Trazia para o dono da casa um livro de contos, o “Diferentes”, de 1895, de Quintino Cunha, que ainda morava em Manaus e depois publicaria, em Paris, o seu famoso livro de versos “Pelo Solimões”, em 1907, pela Livraria J. Aillaud. Quintino Cunha tornou-se amigo de Aillaud e de outros intelectuais franceses, como Faguet, da Academia Francesa
Para ambos não passarem o Natal só, Scholz convidara o amigo para a ceia. Era um grupo seleto: Lima Silva, que estava novamente separado da mulher; o maestro Adelelmo do Nascimento, mulato, cultíssimo, violinista, estava em Paris; Antonio Bittencourt, pai do professor Agnello Bittencourt, que não pudera vir; e poucos outros.
Lima Silva era jornalista e fez carreira política em Manaus. Escreveu “Efemérides do Amazonas”, em 1884, gigantesca obra que permanece inédita e talvez se tenha perdido. Escreveu também um livro sobre os movimentos revolucionários. Foi deputado estadual, federal e participou do movimento de deposição de Gregório Thaumaturgo de Azevedo, Governador do Amazonas, quando Lima Silva saiu ferido. Homem de oposição, de luta, da esquerda da época. Thaumaturgo foi deposto, Guilherme Moreira assumiu, pois era o primeiro vice, e em poucos dias entregou o governo para Eduardo Ribeiro, o segundo vice.
A paixão dominava Lima Silva. Apesar de casado, pai de duas filhas, o amor por Marinalva o enlouquecia, cabocla pequena, leviana e sensual. Silva não sabia o que fazer. Marinalva o traía. “Até com os trapixeiros!”, pensava Silva, com ódio.
Ao chegar à porta do palacete Scholz parou e esperou que lhe abrissem.
Um empregado, caboclo forte, meio índio, veio abrir:
- Pode entrar, disse o homem.
Na noite anterior, Silva estivera com Marinalva. Junto dela perdoava tudo. Era capaz de beijar seus pés, que aliás eram bonitos. Marinalva tinha os cabelos negros lisos, a pele morena bronzeada, seios pequenos. Olhos de índia, de onça, cor que variava pelo amarelo-ouro-esverdeado, cor indefinível, falsa, perigosa. Marinalva, ela dizia que se chamava assim. Mas como tudo nela era possível, ele não sabia se era verdade. Ela dizia que tinha vindo do Amatari. Não tinha documento. Quando Silva mandava fazer os documentos dela, Marinalva os perdia. Silva a cobria de presentes, roupas e jóias, dizia que queria casar-se com ela, abandonar a esposa, e de fato seria capaz de tudo para ficar com ela. Ela se ria, jurava que sim, e no dia seguinte sumia na orgia da noite, voltava bêbada e louca na manhã seguinte para aquela casa que Silva tinha alugado para ela, na Cachoeirinha. Silva se desesperava, se odiava, jurava que ia abandoná-la, deixava de vê-la, mas quando Marinalva estava sem dinheiro aparecia no Foro, ou na Câmara, ou mesmo na porta da casa dele. Fazia escândalo. Silva segurava o seu braço e a tirava dali, e tudo acabava na cama, ela gemendo por cima dele, ele extasiado de prazer e amor. Não, não tinha cura. Por duas vezes separou-se da esposa, D. Cacilda, mulher de boa família, rica, que tinha voltado para a casa dos pais por causa da Marinalva.
Lima Silva foi entrando no hall de entrada. Deixou o chapéu. Viu ali a famosa escadaria de madeira encaixada, famosa em todo o mundo porque não tem coluna e se sustenta até hoje milagrosamente. Foi para a sala contígua, onde Scholz costumava receber os visitantes e onde, anos depois, se faziam as reuniões de governo.
A decoração era impressionante. Os quadros, os móveis, tudo revelava luxo e bom gosto.
Da janela se via a vivenda de pássaros amazônicos, de que Scholz tanto gostava. Eram pássaros raros, que ele colecionava, junto com as orquídeas. Um dia, como ele se aproximou demais, uma garça do viveiro perfurou-lhe o olho esquerdo e o cegou.
Quando Scholz apareceu, viu que Lima Silva parecia estar à vontade, contemplando a noite. Era uma escura noite de Natal de 1900, pouco tempo depois da morte do Governador Eduardo Ribeiro, em circunstância misteriosa. Eduardo Ribeiro foi o grande construtor do Teatro Amazonas. Foi o construtor de Manaus. Um dos maiores estadistas do Brasil.
Scholz apareceu de roupa leve e branca e pince-nez de ouro. Sentou-se solene em sua frente e disparou, à queima roupa:
- Lima Silva, quem matou Eduardo Ribeiro?
Quando saiu, já de madrugada, do palacete Scholz, Lima Silva foi para casa de Marinalva.
Ela não estava.
Ordenou ao táxi que o levasse à praça de São Sebastião.
Em frente ao Teatro Amazonas parou e saltou. A igreja já estava fechada e a praça vazia.
Quando o táxi partiu, Lima Silva sentou-se na escadaria do Teatro e começou a chorar.
De longe, de bem longe, dos limites da fímbria do horizonte, apareceu um vento úmido e morno vindo da Floresta que passou como um fantasma, uivando nas alamedas do Teatro.
Caía uma chuva fina.
Chorando, Lima Silva foi caminhando, abandonado e só, em direção àquela passagem do aterro onde depois se pavimentou a avenida Eduardo Ribeiro.
Chorava a morte de Eduardo Ribeiro. Chorava a morte de tudo.
Poucos anos depois a economia do Amazonas entrou em decadência e ruína. Manaus quase foi transformada numa cidade fantasma. O manto negro de uma recessão a cobriu durante cinqüenta anos, povoando suas ruas uma legião de mendigos.
O Teatro Amazonas fechou as portas por meio século e durante algum tempo se transformou em depósito de borracha crua.
Todos os espelhos de cristal, os quadros, as estátuas, as cortinas de veludo, os lustres, os tapetes de linho, os jarros de porcelana, os móveis de luxo, as mesas e cadeiras móveis foram roubados.
A Floresta Amazônica ameaçava, na noite escura.
CAPÍTULO PRIMEIRO
1. O TEATRO VAZIO.
Elegante como sempre, na faiscação de seu anel de brilhante, o deputado Fernandes Júnior chegou cedo ao prédio da Assembléia Legislativa Provincial, que ainda estava fechado, pelo que ele teve de entrar pela porta lateral, reservada aos faxineiros, secretários, auxiliares administrativos.
Era uma bela manhã de maio de 1881.
Ele trazia consigo o rascunho do texto que mudaria a história do Amazonas. O deputado prometera à sua mulher, D. Auxiliadora de Nazaré, que naquele mesmo dia levantaria o pleito de se construir um teatro de alvenaria na cidade de Manaus.
Aquela cidade só dispunha de três espaços para espetáculos: o “El Dorado”, o “Éden-teatro” (um barracão de madeira) e uma sala no Edifício da Beneficência Portuguesa, onde se representou “São Benedito”, uma peça popular.
O deputado logo que chegou ao gabinete começou a revisar a redação do texto de seu projeto.
Na noite anterior, no Éden, a exigente D. Auxiliadora assistira “Ghigi”, de Gomes de Amorim. Anos atrás, a “Justiça”, de Camilo Castelo Branco, em 1869.
A vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha. Fernandes Junior e sua mulher, elegantes, viviam em festas, piqueniques e espetáculos teatrais. Os salões de sua casa se abriam todas as semanas, nas noites das sextas-feiras, para receber amigos. E nos domingos, numa grande mesa sob o caramanchão do jardim, era oferecida uma tartarugada, ou uma peixada, almoço festivo regado a vinho português, sucos de diversas frutas, complementado com várias compotas de doces amazônicos e banhos nas águas limpas do igarapé que passava atrás da casa.
Aquilo ia até ao anoitecer: Lima Lima Silva, Alarico José Furtado (presidente da província do Amazonas), Emílio Moreira, João Coelho e outros freqüentavam aquela mesa, acompanhados pelas esposas, filhos, babás e empregados, congestionando a rua da Conceição, onde morava o alegre deputado. Entre os convidados, o rico comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, chefe da casa Menezes, Gomes & Cia, o primeiro contratante da obra de construção do teatro, que depois passou para AlexandrDantas que passou para Rossi & Irmãos da Itália, todos impossibilitados de realizar a obra pelos 493 contos contratados.
Fernandes Júnior era um dândi, simpático, educado, conhecia Paris, tinha certo refinamento, elegância e alguma cultura, alguma leitura, principalmente de autores portugueses.
Seu projeto era bem modesto, apenas 60 contos de réis, para a construção de um teatro. Aprovaram em 120 contos. Mas as obras pararam. Quase dez anos. E chegaram a milhões de contos de réis. Foi uma obra faraônica, uma das maiores e mais dispendiosa obra da República, até hoje.
O deputado Antonio José Fernandes Junior faleceu no Maranhão no dia 24 de abril de 1894, treze anos depois de ver o seu desejo de construção do Teatro realizado, ainda que com grandes, gigantescas modificações. Chegou a ver o Teatro Amazonas “erguido e em pleno apogeu”, como escreveu sobre ele o grande historiador Mário Ypiranga Monteiro.
Anos depois, estando Paravotti no Brasil em 1995, fez questão de ir a Manaus apenas para conhecer o Teatro, que foi aberto só para ele. E cantou para o Teatro Vazio. Em 1996, foi a vez de José Carreras.
O Teatro estava entretanto lotado.
Elegante como sempre, na faiscação de seu anel de brilhante, o deputado Fernandes Júnior chegou cedo ao prédio da Assembléia Legislativa Provincial, que ainda estava fechado, pelo que ele teve de entrar pela porta lateral, reservada aos faxineiros, secretários, auxiliares administrativos.
Era uma bela manhã de maio de 1881.
Ele trazia consigo o rascunho do texto que mudaria a história do Amazonas. O deputado prometera à sua mulher, D. Auxiliadora de Nazaré, que naquele mesmo dia levantaria o pleito de se construir um teatro de alvenaria na cidade de Manaus.
Aquela cidade só dispunha de três espaços para espetáculos: o “El Dorado”, o “Éden-teatro” (um barracão de madeira) e uma sala no Edifício da Beneficência Portuguesa, onde se representou “São Benedito”, uma peça popular.
O deputado logo que chegou ao gabinete começou a revisar a redação do texto de seu projeto.
Na noite anterior, no Éden, a exigente D. Auxiliadora assistira “Ghigi”, de Gomes de Amorim. Anos atrás, a “Justiça”, de Camilo Castelo Branco, em 1869.
A vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha. Fernandes Junior e sua mulher, elegantes, viviam em festas, piqueniques e espetáculos teatrais. Os salões de sua casa se abriam todas as semanas, nas noites das sextas-feiras, para receber amigos. E nos domingos, numa grande mesa sob o caramanchão do jardim, era oferecida uma tartarugada, ou uma peixada, almoço festivo regado a vinho português, sucos de diversas frutas, complementado com várias compotas de doces amazônicos e banhos nas águas limpas do igarapé que passava atrás da casa.
Aquilo ia até ao anoitecer: Lima Lima Silva, Alarico José Furtado (presidente da província do Amazonas), Emílio Moreira, João Coelho e outros freqüentavam aquela mesa, acompanhados pelas esposas, filhos, babás e empregados, congestionando a rua da Conceição, onde morava o alegre deputado. Entre os convidados, o rico comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, chefe da casa Menezes, Gomes & Cia, o primeiro contratante da obra de construção do teatro, que depois passou para AlexandrDantas que passou para Rossi & Irmãos da Itália, todos impossibilitados de realizar a obra pelos 493 contos contratados.
Fernandes Júnior era um dândi, simpático, educado, conhecia Paris, tinha certo refinamento, elegância e alguma cultura, alguma leitura, principalmente de autores portugueses.
Seu projeto era bem modesto, apenas 60 contos de réis, para a construção de um teatro. Aprovaram em 120 contos. Mas as obras pararam. Quase dez anos. E chegaram a milhões de contos de réis. Foi uma obra faraônica, uma das maiores e mais dispendiosa obra da República, até hoje.
O deputado Antonio José Fernandes Junior faleceu no Maranhão no dia 24 de abril de 1894, treze anos depois de ver o seu desejo de construção do Teatro realizado, ainda que com grandes, gigantescas modificações. Chegou a ver o Teatro Amazonas “erguido e em pleno apogeu”, como escreveu sobre ele o grande historiador Mário Ypiranga Monteiro.
Anos depois, estando Paravotti no Brasil em 1995, fez questão de ir a Manaus apenas para conhecer o Teatro, que foi aberto só para ele. E cantou para o Teatro Vazio. Em 1996, foi a vez de José Carreras.
O Teatro estava entretanto lotado.
A FOME É UM NÃO
A Governadora Benedita da Silva, ex-moradora do Morro do Chapéu Mangueira, declarou: - Já passei muita fome. - Tanta, conta, que até perdi filho por causa disso, porque não tinha com o que me alimentar durante a gravidez.
A fome ri. A fome é a morte ainda viva.
Ambulante.
(diz Cassiano Ricardo).
A Governadora continua:- Muitas das vezes em que eu saía atrás de um trabalho, sem comida no estômago, no meio do dia eu já estava abatida e não conseguia fazer mais nada. O Presidente FH disse que não fome no Brasil. Teoricamente correto, não há a grande fome africana, asiática. Os rostos cadavéricos da fome africana e asiática.
A máscara da fome. No coro das máscaras.
A face ossuda, angulauda. Não é preciso perguntar se 'você me conhece'.
Bené diz:- Quando chovia, eu chorava, porque não tinha condições de pegar a xepa na feira para comer.- ...que quem tem fome não pode beber um copo d’água, porque quando a água chega ao estômago vazio, dá uma grande dor...
A face do sub-vivo é dialética.Gera pontas de faca sob a pele.
(diz Cassiano Ricardo).
- ... eu muitas vezes peguei farinha e misturei com açúcar pra comer antes de beber água. Também comia fubá puro. Outras vezes, catava taioba no mato. Além de fraca, a fome faz a gente se sentir estranha. Eu, às vezes, ficava falando sozinha. Quando alguém me perguntava: ‘Bené, tá falando sozinha?’, eu respondia: ‘Não, tô pensando alto’.
A máscara da fome é um feroz não.
- ... a fome dá muita raiva (diz Bené), ainda mais quando os filhos também estão famintos. Você fica pensando: ‘Quero comer, não estou conseguindo, que raiva’. Isso, quando você consegue pensar, porque, quando você fica muito tempo sem comer, não pensa.
A fome ri. A fome esculpe, cinzela as suas criaturas (ou caricaturas?)- Com o tempo, comecei a vender pastéis, salgadinhos, melhorando de vida. Mas a fome te marca. Hoje, tenho 60 anos e tudo isso aconteceu há 40 anos. E olha que não foi lá no Nordeste não, foi aqui no Chapéu Mangueira, na Zona Sul do Rio.Ela diz: - 'A fome é indigna'. A fome é um Não.
Um não que não aceita explicação.
A Governadora Benedita da Silva, ex-moradora do Morro do Chapéu Mangueira, declarou: - Já passei muita fome. - Tanta, conta, que até perdi filho por causa disso, porque não tinha com o que me alimentar durante a gravidez.
A fome ri. A fome é a morte ainda viva.
Ambulante.
(diz Cassiano Ricardo).
A Governadora continua:- Muitas das vezes em que eu saía atrás de um trabalho, sem comida no estômago, no meio do dia eu já estava abatida e não conseguia fazer mais nada. O Presidente FH disse que não fome no Brasil. Teoricamente correto, não há a grande fome africana, asiática. Os rostos cadavéricos da fome africana e asiática.
A máscara da fome. No coro das máscaras.
A face ossuda, angulauda. Não é preciso perguntar se 'você me conhece'.
Bené diz:- Quando chovia, eu chorava, porque não tinha condições de pegar a xepa na feira para comer.- ...que quem tem fome não pode beber um copo d’água, porque quando a água chega ao estômago vazio, dá uma grande dor...
A face do sub-vivo é dialética.Gera pontas de faca sob a pele.
(diz Cassiano Ricardo).
- ... eu muitas vezes peguei farinha e misturei com açúcar pra comer antes de beber água. Também comia fubá puro. Outras vezes, catava taioba no mato. Além de fraca, a fome faz a gente se sentir estranha. Eu, às vezes, ficava falando sozinha. Quando alguém me perguntava: ‘Bené, tá falando sozinha?’, eu respondia: ‘Não, tô pensando alto’.
A máscara da fome é um feroz não.
- ... a fome dá muita raiva (diz Bené), ainda mais quando os filhos também estão famintos. Você fica pensando: ‘Quero comer, não estou conseguindo, que raiva’. Isso, quando você consegue pensar, porque, quando você fica muito tempo sem comer, não pensa.
A fome ri. A fome esculpe, cinzela as suas criaturas (ou caricaturas?)- Com o tempo, comecei a vender pastéis, salgadinhos, melhorando de vida. Mas a fome te marca. Hoje, tenho 60 anos e tudo isso aconteceu há 40 anos. E olha que não foi lá no Nordeste não, foi aqui no Chapéu Mangueira, na Zona Sul do Rio.Ela diz: - 'A fome é indigna'. A fome é um Não.
Um não que não aceita explicação.
segunda-feira, 10 de março de 2008
SÉTIMO CAPÍTULO

"O PÁSSARO VOA PARA A SERPENTE"
este é o sétimo capítulo do romance inédito de Rogel Samuel:
TEATRO AMAZONAS
EM
http://www.blocosonline.com.br/home/index.php
este é o sétimo capítulo do romance inédito de Rogel Samuel:
TEATRO AMAZONAS
EM
http://www.blocosonline.com.br/home/index.php
domingo, 9 de março de 2008
TEATRO AMAZONAS
Rogel Samuel
1. O TEATRO VAZIO.
Elegante como sempre, na faiscação de seu anel de brilhante, o deputado Fernandes Júnior chegou cedo ao prédio da Assembléia Legislativa Provincial, que ainda estava fechado, pelo que ele teve de entrar pela porta lateral, reservada aos faxineiros, secretários, auxiliares administrativos.
Era uma bela manhã de maio de 1881.
Ele trazia consigo o rascunho do texto que mudaria a história do Amazonas. O deputado prometera à sua mulher, D. Auxiliadora de Nazaré, que naquele mesmo dia levantaria o pleito de se construir um teatro de alvenaria na cidade de Manaus.
Aquela cidade só dispunha de três espaços para espetáculos: o “El Dorado”, o “Éden-teatro” (um barracão de madeira) e uma sala no Edifício da Beneficência Portuguesa, onde se representou “São Benedito”, uma peça popular.
O deputado logo que chegou ao gabinete começou a revisar a redação do texto de seu projeto.
Na noite anterior, no Éden, a exigente D. Auxiliadora assistira “Ghigi”, de Gomes de Amorim. Anos atrás, a “Justiça”, de Camilo Castelo Branco, em 1869.
A vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha. Fernandes Junior e sua mulher, elegantes, viviam em festas, piqueniques e espetáculos teatrais. Os salões de sua casa se abriam todas as semanas, nas noites das sextas-feiras, para receber amigos. E nos domingos, numa grande mesa sob o caramanchão do jardim, era oferecida uma tartarugada, ou uma peixada, almoço festivo regado a vinho português, sucos de diversas frutas, complementado com várias compotas de doces amazônicos e banhos nas águas limpas do igarapé que passava atrás da casa.
Aquilo ia até ao anoitecer: Lima Lima Silva, Alarico José Furtado (presidente da província do Amazonas), Emílio Moreira, João Coelho e outros freqüentavam aquela mesa, acompanhados pelas esposas, filhos, babás e empregados, congestionando a rua da Conceição, onde morava o alegre deputado. Entre os convidados, o rico comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, chefe da casa Menezes, Gomes & Cia, o primeiro contratante da obra de construção do teatro, que depois passou para AlexandrDantas que passou para Rossi & Irmãos da Itália, todos impossibilitados de realizar a obra pelos 493 contos contratados.
Fernandes Júnior era um dândi, simpático, educado, conhecia Paris, tinha certo refinamento, elegância e alguma cultura, alguma leitura, principalmente de autores portugueses.
Seu projeto era bem modesto, apenas 60 contos de réis, para a construção de um teatro. Aprovaram em 120 contos. Mas as obras pararam. Quase dez anos. E chegaram a milhões de contos de réis. Foi uma obra faraônica, uma das maiores e mais dispendiosa obra da República, até hoje.
O deputado Antonio José Fernandes Junior faleceu no Maranhão no dia 24 de abril de 1894, treze anos depois de ver o seu desejo de construção do Teatro realizado, ainda que com grandes, gigantescas modificações. Chegou a ver o Teatro Amazonas “erguido e em pleno apogeu”, como escreveu sobre ele o grande historiador Mário Ypiranga Monteiro.
Anos depois, estando Paravotti no Brasil em 1995, fez questão de ir a Manaus apenas para conhecer o Teatro, que foi aberto só para ele. E cantou para o Teatro Vazio. Em 1996, foi a vez de José Carreras.
O Teatro estava entretanto lotado.
Rogel Samuel
1. O TEATRO VAZIO.
Elegante como sempre, na faiscação de seu anel de brilhante, o deputado Fernandes Júnior chegou cedo ao prédio da Assembléia Legislativa Provincial, que ainda estava fechado, pelo que ele teve de entrar pela porta lateral, reservada aos faxineiros, secretários, auxiliares administrativos.
Era uma bela manhã de maio de 1881.
Ele trazia consigo o rascunho do texto que mudaria a história do Amazonas. O deputado prometera à sua mulher, D. Auxiliadora de Nazaré, que naquele mesmo dia levantaria o pleito de se construir um teatro de alvenaria na cidade de Manaus.
Aquela cidade só dispunha de três espaços para espetáculos: o “El Dorado”, o “Éden-teatro” (um barracão de madeira) e uma sala no Edifício da Beneficência Portuguesa, onde se representou “São Benedito”, uma peça popular.
O deputado logo que chegou ao gabinete começou a revisar a redação do texto de seu projeto.
Na noite anterior, no Éden, a exigente D. Auxiliadora assistira “Ghigi”, de Gomes de Amorim. Anos atrás, a “Justiça”, de Camilo Castelo Branco, em 1869.
A vida em Manaus era exuberante, elegante e rica, e bem alegre, já naquela época. Era o início do apogeu de uma sociedade que enriquecia rapidamente, com a extração da borracha. Fernandes Junior e sua mulher, elegantes, viviam em festas, piqueniques e espetáculos teatrais. Os salões de sua casa se abriam todas as semanas, nas noites das sextas-feiras, para receber amigos. E nos domingos, numa grande mesa sob o caramanchão do jardim, era oferecida uma tartarugada, ou uma peixada, almoço festivo regado a vinho português, sucos de diversas frutas, complementado com várias compotas de doces amazônicos e banhos nas águas limpas do igarapé que passava atrás da casa.
Aquilo ia até ao anoitecer: Lima Lima Silva, Alarico José Furtado (presidente da província do Amazonas), Emílio Moreira, João Coelho e outros freqüentavam aquela mesa, acompanhados pelas esposas, filhos, babás e empregados, congestionando a rua da Conceição, onde morava o alegre deputado. Entre os convidados, o rico comerciante Manuel de Oliveira Palmeira de Menezes, chefe da casa Menezes, Gomes & Cia, o primeiro contratante da obra de construção do teatro, que depois passou para AlexandrDantas que passou para Rossi & Irmãos da Itália, todos impossibilitados de realizar a obra pelos 493 contos contratados.
Fernandes Júnior era um dândi, simpático, educado, conhecia Paris, tinha certo refinamento, elegância e alguma cultura, alguma leitura, principalmente de autores portugueses.
Seu projeto era bem modesto, apenas 60 contos de réis, para a construção de um teatro. Aprovaram em 120 contos. Mas as obras pararam. Quase dez anos. E chegaram a milhões de contos de réis. Foi uma obra faraônica, uma das maiores e mais dispendiosa obra da República, até hoje.
O deputado Antonio José Fernandes Junior faleceu no Maranhão no dia 24 de abril de 1894, treze anos depois de ver o seu desejo de construção do Teatro realizado, ainda que com grandes, gigantescas modificações. Chegou a ver o Teatro Amazonas “erguido e em pleno apogeu”, como escreveu sobre ele o grande historiador Mário Ypiranga Monteiro.
Anos depois, estando Paravotti no Brasil em 1995, fez questão de ir a Manaus apenas para conhecer o Teatro, que foi aberto só para ele. E cantou para o Teatro Vazio. Em 1996, foi a vez de José Carreras.
O Teatro estava entretanto lotado.
sábado, 8 de março de 2008
GLAUCO MATTOSO BATE RECORDE MUNDIAL- O poeta brasileiro Glauco Mattoso (paulistano de 1951),que, em fevereiro de 2008, completou dois mil e trezentos sonetos de uma série iniciada em 1999, supera a histórica marca do italiano Giuseppe Belli (1791-1863), que, em 1849, teria composto, segundo consta, seu soneto de número 2.279 numa obra produzida mormente entre 1830 e 1839. Mattoso tem com Belli outra afinidade, além da copiosa produção: a sátira fescenina, que abusa da pornografia e da escatologia. Também no aspecto lingüístico há paralelos: Belli versejava no dialeto romanesco, falado na periferia da capital italiana, enquanto Mattoso incorpora ao português brasileiro as gírias suburbanas e os neologismos contraculturais da segunda metade do século XX, de mistura com o vernáculo castiço e com o rigor formal, típicos do soneto clássico, composto em decassílabos predominantemente heróicos. A diferença entre ambos os "malditos" está na postura: Belli cedeu às pressões moralistas e aderiu à autoridade católica, renegando o anticlericalismo que caracterizara sua temática; Mattoso se mantém anarquicamente independente de quaisquer ideologias ou fisiologias, fiel unicamente à sua biografia de cego sadomasoquista e fetichista. Para celebrar a notável façanha de quem perfaz o terceiro milhar de sonetos, foi elaborado o verbete abaixo, que vem sendo divulgado em diversos veículos da rede virtual e da mídia impressa, inclusive a "Wikipedia", contendo uma amostra trilíngüe da obra belliana e mattosiana. Belli, mundialmente reconhecido, foi traduzido também para o inglês; Mattoso, que tem sido objeto de estudos acadêmicos na América Latina e nos Estados Unidos, alcança agora as universidades européias. Para mais informações, sugere-se acessar o site do nosso poeta brasileiro:
http://glaucomattoso.sites.uol.com.br (sítio oficial)
http://formattoso.sites.uol.com.br (sítio oficial em inglês)
http://sonetodos.sites.uol.com.br (acervo completo dos sonetos)
LEIA O POETA NO NOSSO SITE:
http://www.geocities.com/rogelsamuel/GlaucoMattoso.html
http://glaucomattoso.sites.uol.com.br (sítio oficial)
http://formattoso.sites.uol.com.br (sítio oficial em inglês)
http://sonetodos.sites.uol.com.br (acervo completo dos sonetos)
LEIA O POETA NO NOSSO SITE:
http://www.geocities.com/rogelsamuel/GlaucoMattoso.html
CANTIGA SIMPLES
Primeiramente ele canta os rios...
Rio, que cantas as mágoas,
Que queres com o teu cantar?
Quero levar minhas águas
Até às águas do mar.
A cantiga canta as águas, mágoas, o ar de cantar, de mar, levar. Olegário está em plenitude lírica, neste poema, na perfeição de sua poética de "cantiga simples", num neo-romantismo embalador e apoteótico, delirante, de seus mágicos ritmos. Depois abre seus braços feitos de natureza, nada no espaço imóvel de suas raízes...
Árvore, que ergues os braços,
Que queres a bracejar?
Quero galgar os espaços
Para o sol me acariciar.
Agora há uns ee e uns erres, de árvores, de ergues, de braços, de queres, de bracejar, de quero galgar, de espaços, de acariciar - são os erres que amarram os braços das árvores no chão, contrapondo com os "espaços", o "sol" - para a carícia da imensidão do universo. O poeta sobe, galga, tenta o sublime, o todo. Ele se chama Olegário Marianno.
Nuvem, de côres estranhas,
Que queres a galopar?
Quero descer às montanhas,
Vestir montanhas de luar.
Agora ele galopa animais de nuvens, desce montanhas, veste-as do branco das imaginações, ó lua feita de dúvidas de amor! os olhos da amada:
Lua feita de incerteza,
Que queres com o teu palor?
Quero boiar na tristeza
Dos olhos do teu amor.
O amor sobre as montanhas do horizonte, amor distante:
Pastor, que sobes o monte,
Que queres galgando-o assim?
Quero ver do alto o horizonte,
Que foge sempre de mim.
As estrelas distantes, pequenas estrelas da viagem continua:
Estrela, pequena e clara,
Que queres? Dize, eu te dou.
- Quero ser a jóia rara
Da mulher que nunca amou.
Onda crêspa, onda serena,
Que queres no teu vaivém?
Beijar a pele morena
Da praia que me quer bem.
Andorinha peregrina,
Que queres de asas ao léu?
- Quero morar na colina
Mais alta, perto do céu.
Coração, que em comovida
Marcha, bates, sofredor,
Que queres? Prazer ou dor?
- “Eu nada quero da vida,
Além da vida do Amor”.
A cantiga lírica canta as águas, as mágoas, o ar de cantar, do mar, de levar, a onda, a praia, a andorinha a colina a vida a vida. É uma simples cantiga. Só se basta o cantar. A lírica sobreviveu no nosso século como força de resistência, manifestação, humana, com a qual nossa época reage contra a violência, a dominação, a instrumentalização, a funcionalidade. No nosso mundo eletrônico, ela aparece reduto, gueto da emoção humana, contra o horizonte armado, metalizado, onde a lírica acontece como subjetividade rebelde, enternece os corações. Como nos versos de Cecília Meireles:
Eu tinha um cavalo de asas,
que morreu sem ter pascigo.
E em labirintos se movem
os fantasmas que persigo.
Falando de si, o poeta fala de nós mesmos, nos seus ritmos e mitos. Não conta nossa história, mas recorda nossas emoções, nossa dificuldade emocional, solitária, vazia, presente. O lírico sempre é um solitário, como somos todos no mundo individualista. Ele faz a subjetividade rebelde amante, contra a insipidez do cotidiano sem grito. Sua disposição resta no não perturbar o silêncio, de onde sai sua melodiosa voz. O lírico não revoluciona nada. A lógica e a coerência não são líricas. A lírica reage à racionalidade controladora, à certeza imparcial, impessoal. Reage à Verdade. À brutalidade econômico-militar, a lírica opõe a emanação de melodioso aceno de ternura e afetividade. Emoção solitária, isolada, clima de intimidade, confissão de frases soltas, de palavras e sugestões imprecisas, mais música do que idéias. A poesia se comunica na pura musicalidade, mais sentida do que compreendida. Na música está seu elemento significativo essencial.
Nos primórdios do Brasil, cantava o padre José de Anchieta:
Cordeirinha linda
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Musicalidade e subjetividade caracterizam a essência do gênero lírico.
quinta-feira, 6 de março de 2008

06/03/2008
Crônica: "Muito obrigado, Napoleão", dizem os brasileiros
Jean-Pierre Langellier
Todos os brasileiros poderão confirmar: o seu país existe graças a... Napoleão. O Brasil moderno é a conseqüência feliz de um excesso de orgulho imperial. Ele nasceu como nação porque Bonaparte havia obrigado a família real portuguesa a fugir para o outro lado do oceano, rumo à sua imensa colônia. Cem dias mais tarde, a dinastia dos Bragança desembarcava no Rio. Este fato aconteceu dois séculos atrás, em 8 de março de 1808.
Em 1806, o Imperador francês, no auge do seu poder, decreta o bloqueio continental contra a Inglaterra. Intimada a interromper todo comércio com ela, a Europa cumpre a ordem. Apenas Portugal reluta, não se conforma em trair a Grã-Bretanha, sua antiga protetora. Ele ganha tempo, lança mão de um jogo duplo, finge que irá ceder, mas, por trás da cortina de fumaça, assina um acordo secreto com Londres. Napoleão perde a paciência diante deste pequeno país insolente e lhe lança um ultimato. Ele terá de obedecer, caso contrário perderá o seu trono e a sua frota.
Em Lisboa reina um príncipe regente, Dom João, futuro D. João 6º, o Clemente. A sua mãe era a rainha Maria 1ª, também chamada de "A Louca" por ter afundado na demência depois da morte do seu filho primogênito. Ela havia se recusado, por motivos religiosos, a vacinar este último contra a varíola. Dom João tem 40 anos. É um homem obeso, tímido, indeciso. Ainda assim, diante da imposição autoritária dos franceses, ele irá tomar a decisão certa: exilar-se além dos mares. O tempo está acabando, pois Napoleão deu ordem ao general Junot para invadir Portugal. Eis que o oficial avança rumo a Lisboa, à frente de um exército de cerca de 25.000 homens.
O êxodo rumo à América constitui um projeto antigo, que é relembrado toda vez que o reino enfrenta um grande perigo. Desta vez, ele precisa ser posto em prática às pressas. Os víveres são amontoados, os arquivos são coletados, as jóias da Coroa - obras de arte, lingotes de ouro, diamantes do Brasil - são recolhidas. O conteúdo de 700 charretes acaba sendo reunido nos porões de 36 navios prontos para zarpar. No meio da confusão da partida, os 60.000 volumes da Biblioteca real e toda a prataria das igrejas permanecerão esquecidos no cais do porto. Tomada por um lampejo de lucidez, a "rainha louca" grita para o cocheiro que a está conduzindo para o porto: "Não corram tanto! As pessoas vão pensar que estamos fugindo!"
Na manhã de 29 de novembro, a chuva parou de cair, o sol está brilhando, o vento começa a ficar mais forte. É dada a ordem para partir. A frota desloca-se lentamente pelo rio Tejo e vai se afastando sob a proteção de uma esquadra inglesa. Já não era sem tempo. A vanguarda do general Junot alcança as docas uma hora depois do último navio da frota real ter desatracado. Aliás, a empreitada do general vai dar com os burros n'água. Milhares de insurretos tomarão as armas contra os seus regimentos, que retornarão para a França em agosto de 1808. A respeito de Dom João, Napoleão escreverá: "Ele é o único homem que conseguiu me pregar uma peça".
A elite portuguesa inteira está fugindo entre céu e mar. Quantos estão nesta situação? Entre 5.000 e 15.000, segundo os historiadores. Nobres, oficiais, juízes, comerciante, bispos, médicos, pajens e camareiras acompanham a família real, da qual todos os membros estão presentes. O seu périplo é um pesadelo. Esses cortesões assustados e descontentes não serão poupados de nenhuma desgraça: as tempestades, as náuseas coletivas, o escorbuto, a falta de água. Uma invasão de piolhos obriga as mulheres a rasparem a cabeça.
Depois de uma travessia que durou 52 dias, Dom João desembarca em Salvador na Bahia. Pela primeira vez, um soberano da Europa pisa o solo da América. A festa dura uma semana, durante a qual milhares de súditos comparecem para beijar a mão do príncipe. Esta escala é uma jogada política. Dom João aproveita para reafirmar a sua autoridade sobre a população das províncias do Norte, em volta de uma cidade, Salvador, que foi a primeira capital do Brasil e se mostra nostálgica por ter perdido esta condição. Nela, o regente toma uma decisão crucial, a de abrir os portos para o comércio mundial. O fim do monopólio colonial é o preço a ser pago pelo seu apoio à Inglaterra, que dele será a principal beneficiária.
Cem dias depois de ter deixado Lisboa, a frota atraca na baía do Rio. No dia seguinte, a família real desembarca em meio a um ambiente de alegria. Ouvem-se estrondos de canhões, os sinos tocam seus carrilhões, muitos se borrifam com água benta, respirando os vapores de incenso. Predomina um contraste impressionante entre esta cidade "africana", povoada numa proporção de dois terços por negros e mestiços, entregue aos aventureiros e aos mercadores de escravos, e esses cortesões pálidos que trajam roupas pesadas, um pouco ridículos.
Três séculos depois da sua descoberta por Pedro Álvares Cabral, em 22 de abril de 1500, o Brasil continua sendo uma terra inexplorada. É um país de fronteiras imprecisas, desprovido de um verdadeiro poder central, que ainda não possui nem um comércio interno, nem uma moeda. Os seus 3 milhões de habitantes ainda não se consideram verdadeiramente como "brasileiros". A chegada do príncipe irá transformar a colônia numa metrópole. Por meio das suas iniciativas, o Rio cresce em tamanho, se embeleza e se refina. A cidade se abre para as mercadorias e as idéias.
Dom João implanta um Estado estável e organizado. Ele confere ao Brasil a sua unidade territorial, política, econômica e lingüística. No momento em que a América espanhola está sendo tomada por levantes, guerras e dilaceramentos, o Brasil emancipa-se suavemente da tutela portuguesa. Em 16 de dezembro de 1815, o regente proclama "o reino unido de Portugal, do Brasil e de Algarves", tornando a cidade do Rio de Janeiro com o mesmo status de Lisboa. Ele torna-se o rei João 6º. Um ano depois do seu retorno ao país natal, o seu filho Dom Pedro proclama a Independência (em 7 de setembro de 1822) e se torna o primeiro imperador do Brasil.
Hoje em dia, o Brasil está celebrando com orgulho o bicentenário da chegada de Dom João. Ele organiza exposições, emite selos e cunha moedas comemorativas. Por ocasião do mais recente carnaval, várias escolas de samba fizeram deste evento histórico o tema do seu desfile. Um dos refrões, que era entoado em coro pela multidão, concluía-se com um alegre: "Até logo, Napoleão!" Até logo e obrigado.
Tradução: Jean-Yves de Neufville
ESSES PRAZERES
Deixe contar. Ou cantar. Um dia eu vinha por aquela rua quando o encontrei. No chão. Era um raro exemplar do livro de Cabral. Arrependo-me de ter dado aquele volume. ("Terceira feira", 1961). Os antigos alfarrábios de poesia são como vinho velho.
Só o álcool dessa garrafa
pode o vinagre e o ferrão
para a alma toda murcha
na pose fetal do não
(Diz Cabral). Lembro-me de Ademir da Guia, com seu jogo. Lento. O lento jogo do tempo. O chumbo, o peso, a câmara lenta. (Diz Cabral). Outro dia, na Net: Ademir da Guia, jogando - Sim, porque:
Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso)
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.
(Diz Cabral). Cada palavra tem um peso e densidade do chumbo, do dentro:
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.
João Cabral só diz aquelas "mesmas palavras", a saber, a poesia e suas guias. Ademir joga como se um escafandro vestisse. A lerdeza do homem submarino, a água da ambiência daquela gente “de uma Caatinga entre secas, entre datas de seca e seca entre datas”. O simbolismo da água descreve o mundo, em que o poeta se revê, graus de materialidade, de revelação.
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.
Ademir da Guia, para ele, ser feito de água dos alagados, feito nas águas dos alagados, gente "de uma Caatinga", que executa seu jogo "com água". Langorosa:
A gente de uma Caatinga entre secas,
entre datas de seca e seca entre datas,
se acolhe sob uma música tão líquida
que bem poderia executar-se com água.
Talvez as gotas úmidas dessa música
que a gente dali faz chover de violas,
umedeçam, e senão com a água da água,
com a convivência da água, langorosa.
("Fazer o seco, fazer o úmido").
O jogo de Ademir da Guia, "bem poderia executar-se com água". Mas a bola chumbo. Orbe. Maciço. A idéia da água vai na alma encharcada da gente. Qualquer que seja o jogo, Cabral só fala do que fala:
E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
("A lição de poesia")
Ou seja: "Vivo com certas palavras / abelhas domésticas.":
Falo somente com o que falo:
com as mesmas vinte palavras
..................................................
Falo somente do que falo:
do seco e de suas paisagens.
("Graciliano Ramos")
Impossível separar: o futebol, a poesia, o chumbo, que "ulcera a boca". Na verticalidade, na substância da água:
Só uma água vertical,
água parada em si mesma,
água vertical de poço,
água toda em profundeza,
água em si mesma, parada
e que ao parar mais se adensa,
água densa de água, como
de alma tua alma está densa.
Cabral, em realidade, só fala da morte:
Talvez porque qualquer água
fique mais densa se morta
................................................
Não há dúvida, a água morta
se torna muito mais densa.
Como se vê, o indivíduo é a soma das impressões singulares do mundo. É perto da água e de suas antigas imagens que o sujeito compreende que o sonho é um universo em emanação, um sopro que sai das coisas (Bachelard).
terça-feira, 4 de março de 2008
PELO TELEFONE
A leitura do poema "Imitação da água" imortalizou o crítico José Guilherme Merquior, e está publicada hoje num livro intitulado "A razão do poema" (que tenho, mas não encontro: meus livros, em fila dupla, tripla, às vezes deitados, inacessíveis, desorganizados...). Eu conheci Merquior: tinha cara de menino quando proferiu palestra sobre estética na nossa Faculdade. Jogaram uma bomba. Anos depois, estive com ele, num Congresso, no Fundão. Morreu prematuramente, Merquior. Culto, mas, como escreveu sobre tudo e todos, ficou meio desacreditado no meio acadêmico. Não se pode ao mesmo tempo escrever livros sobre Marx, Hegel, Freud, a escola de Frankfurt e a literatura brasileira. Seja como for, Merquior era um gênio, mal aproveitado, mas era. Poderia ter deixado obra imorredoura, isso poderia. Tinha talento para isso. "Imitação da água" é um poema-irmão de "Paisagem pelo telefone":
PAISAGEM PELO TELEFONE
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.
Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.
Longe de mim imitar Merquior. Sou apenas um cronista domingueiro. E nasci no Amazonas, mas meu sangue é nordestino. Sangue de minha mãe, Pernambuco, Sobral. Minha avó conheceu cangaceiros. Mas, qual é o sentido de "paisagem"? Que voyeurismo se faz pelo telefone? E que lugar mais apropriado para amar, do que uma praia nordestina no "prumo" do meio-dia? O amor é noturno? Não aqui: no poema tudo é branco, branca luz, praia velas salinas - mas não é o branco hospitalar, mas do sol sobre a cal, sobre a água cristalina, da sala de luz invadida pelo sol de duzentas janelas, do mar, das velas estendidas, "seis estrofes mais acima" - a amada brilha como deusa, como Beatriz na "Comédia" de Dante ela brilha, ela se veste de luz. E é lá (no Nordeste) que o Amor move o sol e as outras estrelas. Sexo pelo telefone.
Aqui o que vem é a voz. Da voz vem a paisagem, a sala, a praia, os muros caiados. É voz mineral, na essência do calor. A luz não do sol, mas das vogais abertas, dos cristais da voz, da voz cristalina, da fala nordestina, salina, fala ao sol estendida, voz nua, fescenina. Cabral, aparentemente sempre ácido, árido, cheio de pontas, agulhas e cabras, também sabe, também abre o leque de um erotismo visual, paisagístico, masculino. A água é feminina, e brilha sob a luz. O telefone não. É masculino. Pois há um personagem da Glória Peres, tio da Jade, que disse que o homem se apaixona através dos olhos, e a mulher através dos ouvidos. Sabedoria árabe. Eu diria aqui: Pelo telefone, que ouvindo vê a amada toda nua, ou só de sua nudez e brilho vestida. O erotismo visual nascendo da audição. É tudo João Cabral.
A leitura do poema "Imitação da água" imortalizou o crítico José Guilherme Merquior, e está publicada hoje num livro intitulado "A razão do poema" (que tenho, mas não encontro: meus livros, em fila dupla, tripla, às vezes deitados, inacessíveis, desorganizados...). Eu conheci Merquior: tinha cara de menino quando proferiu palestra sobre estética na nossa Faculdade. Jogaram uma bomba. Anos depois, estive com ele, num Congresso, no Fundão. Morreu prematuramente, Merquior. Culto, mas, como escreveu sobre tudo e todos, ficou meio desacreditado no meio acadêmico. Não se pode ao mesmo tempo escrever livros sobre Marx, Hegel, Freud, a escola de Frankfurt e a literatura brasileira. Seja como for, Merquior era um gênio, mal aproveitado, mas era. Poderia ter deixado obra imorredoura, isso poderia. Tinha talento para isso. "Imitação da água" é um poema-irmão de "Paisagem pelo telefone":
PAISAGEM PELO TELEFONE
Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,
sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
a alguma manhã de praia
no prumo do meio-dia,
meio-dia mineral
de uma praia nordestina,
Nordeste de Pernambuco,
onde as manhãs são mais limpas,
Pernambuco do Recife,
de Piedade, de Olinda,
sempre povoado de velas,
brancas, ao sol estendidas,
de jangadas, que são velas
mais brancas porque salinas,
que, como muros caiados
possuem luz intestina,
pois não é o sol quem as veste
e tampouco as ilumina,
mais bem, somente as desveste
de toda sombra ou neblina,
deixando que livres brilhem
os cristais que dentro tinham.
Pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,
fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,
e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria
que estavas de todo nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,
sim, como o sol sobre a cal
seis estrofes mais acima,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.
Longe de mim imitar Merquior. Sou apenas um cronista domingueiro. E nasci no Amazonas, mas meu sangue é nordestino. Sangue de minha mãe, Pernambuco, Sobral. Minha avó conheceu cangaceiros. Mas, qual é o sentido de "paisagem"? Que voyeurismo se faz pelo telefone? E que lugar mais apropriado para amar, do que uma praia nordestina no "prumo" do meio-dia? O amor é noturno? Não aqui: no poema tudo é branco, branca luz, praia velas salinas - mas não é o branco hospitalar, mas do sol sobre a cal, sobre a água cristalina, da sala de luz invadida pelo sol de duzentas janelas, do mar, das velas estendidas, "seis estrofes mais acima" - a amada brilha como deusa, como Beatriz na "Comédia" de Dante ela brilha, ela se veste de luz. E é lá (no Nordeste) que o Amor move o sol e as outras estrelas. Sexo pelo telefone.
Aqui o que vem é a voz. Da voz vem a paisagem, a sala, a praia, os muros caiados. É voz mineral, na essência do calor. A luz não do sol, mas das vogais abertas, dos cristais da voz, da voz cristalina, da fala nordestina, salina, fala ao sol estendida, voz nua, fescenina. Cabral, aparentemente sempre ácido, árido, cheio de pontas, agulhas e cabras, também sabe, também abre o leque de um erotismo visual, paisagístico, masculino. A água é feminina, e brilha sob a luz. O telefone não. É masculino. Pois há um personagem da Glória Peres, tio da Jade, que disse que o homem se apaixona através dos olhos, e a mulher através dos ouvidos. Sabedoria árabe. Eu diria aqui: Pelo telefone, que ouvindo vê a amada toda nua, ou só de sua nudez e brilho vestida. O erotismo visual nascendo da audição. É tudo João Cabral.
segunda-feira, 3 de março de 2008
domingo, 2 de março de 2008
A COPA DE JOÃO CABRAL
Em três poemas podemos dizer que João Cabral está presente nesta Copa. O Primeiro é:
ADEMIR DA GUIA
Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.
O Segundo poema fala do:
O TORCEDOR DO AMÉRICA F.C.
O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora.
O terceiro poema lembra os Ronaldos europeus:
O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO DA EUROPA
A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.
A bola não é impessoal, tem vida e alma. Não é inimiga, mas amante. A bola de futebol tem malícia e manha, tem reações perigosas, e não se usa sem risco. Não. Como a mulher, ou um touro. Não reclame: Cabral era nordestino. Não: o Jogador é um toureiro, que amansa a bola. O time perdedor não se corta com o afiado.
O primeiro poema é o Jogador; o segundo o Clube, o time; o terceiro a bola.
Em três poemas podemos dizer que João Cabral está presente nesta Copa. O Primeiro é:
ADEMIR DA GUIA
Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.
O Segundo poema fala do:
O TORCEDOR DO AMÉRICA F.C.
O desábito de vencer
não cria o calo da vitória;
não dá à vitória o fio cego
nem lhe cansa as molas nervosas.
Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
pele sensível, núbil, nova,
ácida à língua qual cajá,
salto do sol no Cais da Aurora.
O terceiro poema lembra os Ronaldos europeus:
O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO DA EUROPA
A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho,
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.
A bola não é impessoal, tem vida e alma. Não é inimiga, mas amante. A bola de futebol tem malícia e manha, tem reações perigosas, e não se usa sem risco. Não. Como a mulher, ou um touro. Não reclame: Cabral era nordestino. Não: o Jogador é um toureiro, que amansa a bola. O time perdedor não se corta com o afiado.
O primeiro poema é o Jogador; o segundo o Clube, o time; o terceiro a bola.
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